A avó de Vitória adoeceu gravemente. O
facto perturbou-a. A tia Júlia contou-lhe que um bicho lhe carcomera o útero.
Ela, na sua ingenuidade de rapariguinha de oito anos, imaginou um bicharoco
cheio de pêlo, com uns dentes aguçados devorando o interior da pobre velhinha.
Para ela era insuportável supor tamanha barbárie. A enfermidade atirou a avó à
cama e Vitória deliciou-se com o pedido da velha senhora , em querer que a neta
lhe lavasse os pés diariamente. O ritual
provocou-lhe imenso deleite. Ela baixava-se mansamente, tal como Cristo fez com
os discípulos, acariciava a pele macia e branca da avó.
Uma manhã solicitara
uma ida ao jardim, calculava que pudesse ser a derradeira. Haviam-na sentado
num cadeirão de vime enquanto a Bíblia repousava sobre o seu regaço. A neta aproximou-se e aninhou-se a seus pés.
- A avó está a ler
a Bíblia?
- Não estou a ler, Vitória.
- Hum?
- Agora é tempo de
oração.
A
neta tentou erguer-se, respeitando a meditação da avó. Todavia, a velha senhora
impediu-a com gestos calmos.
- Fica quietinha
aqui. Não estás bem comigo?
- Estou sim
senhora.
Enquanto
os dedos trémulos da idosa percorreram a cabeça da neta interrogou:
- Como vais com a
tua amiguinha, Helena?
- Nem lhe sei
responder…
- Porque dizes
isso? - quis saber a avó.
- Vemo-nos às escondidas.
- Já tinha percebido, de qualquer forma quando
estiveres com ela procura esquecer os desaguisados entre as famílias.
- A minha mãe não
gosta nada daquela gente.
- Isso é a tua mãe,
não és tu. Não gostas dela?
- Gosto, mas… –
manifestou-se vacilante.
- De que te
queixas?
- Ela é muito
vaidosa e convencida…
- Vitória cospe
para cima e vê se não te cai na cara! - propôs a avó.
A
rapariga obedeceu imediatamente e cuspiu depois comentou:
- Avó, a saliva
caiu-me na cara. Porque me aconselhou a fazer isto?
- É mais fácil
criticar os outros do que olhar para nós! Um dia entenderás bem melhor que hoje.
Anda, volta para aqui.
A
pequena obedeceu.
- E se por acaso
essa rapariga te incomoda com os seus defeitos, não te encontres com ela. Assim deixas de te lamuriar.
Entretanto uma
mulher aproximou-se delas:
- O que é que essa
pequena faz aqui? – interrogou enervada.