domingo, 6 de outubro de 2024

Viagem II

 Observo a paragem do autocarro, ainda faltam trinta minutos, naquele preciso instante desvio o olhar para a esquerda e o meu ângulo de visão tem uma  amplitude horizontal alargada,  atinge o fim do cais. Há pouca gente àquela hora, o sol  de verão cai tórrido, sinto-me a incendiar e  desafiando o calor abrasivo, entro desejosa que o mar galgasse as muralhas protetoras e chegasse a molhar os meus pés. Caminho sem pressa, sufocada, devido ao fogo que me atinge e aniquila qualquer movimento mais rápido.  Os meus olhos vão se detendo aqui, ali, acolá... são os barcos na enseada, que balançam tristemente ancorados, presos  pelas cordas. Do lado oposto, as embarcações de recreio,  carregadas de turistas para avistar golfinhos  em alto mar e  aproveitar  para um mergulho mais profundo e arrojado.  O navio de cruzeiro desperta a minha curiosidade; ocupa praticamente todo o comprimento do porto; é  enorme, possante, de proporções  semelhantes a uma  baleia, o gigante dos mares. Da ponta do cais, observo-o mesmo à minha frente, até  parece que consigo alcancá-lo, basta para isso, esticar o braço, debruçada sobre a varanda fico ali, esquecida dos raios de sol fortíssimos que parecem estar a querer derreter-me toda. Fixo as águas, a parte do navio onde a luz do sol quebra.    Há ali  uma escuridão sinistra e de  dentro de mim, do fundo da memória, num relampejar de claridades profundas e assustadoras, surgem imagens de mares  sonhados em noites agitadas de pesadelos.  Uma tristeza infinita assola a minha mente, um  medo a apoderar-se  das entranhas, uma angustia inexplicável.  Sinto um aperto no estômago  e para fugir àquele estado de espírito,   consulto o relógio e desperto para outra realidade. A passos lentos deixo o cais, caminhando afogada pelo calor, demasiado atípico mesmo para o pico do verão. O autocarro já lá está no ponto, de porta aberta, apresso-me a entrar, para fugir à intensa fritura. 

Após descarregar a viagem do meu cartão eletrónico, vou ocupar um assento na parte de traseira da viatura, por isso subo alguns degraus e instalo-me. Sinto o ar condicionado fortemente  ativo  e isso causa-me irritação . Não me agrada nada chegar num estado de aquecimento terrível  e agora receber o oposto, um chuveiro de vento frio. Podia ser refrescante se fosse mais calmo e em pequenas doses. Com efeito, alguns passageiros que começam a entrar mostram uma viva satisfação. Deliciam-se, regalam-se , como se estivessem a banhar- se numa qualquer praia  maravilhosa. 

A meu lado, acomoda-se um homem idade avançada,  de relance, vejo a calva num arco perfeito  e o bigode cuidadosamente aparado sobre o lábio fino, os seus olhos vivos, claros e sorridentes passam pelos meus como se  me conhecesse,   do lado oposto,  paralelamente, logo a seguir à corredora do transporte, no outro assento, outro homem tem uma amplidão pançuda, no rosto uma barba negra cerrada e no lado da janela, uma  mulher, que mal se consegue descortinar. 

O autocarro arranca serenamente e inicia a viagem , o homem da calva perfeita  dirige-se ao homem de amplidão pançuda:

- Bom dia, sro Santos!  Não tenho memória de um calor tão excerbado! - e sopra aflito

- Viva Dro João Paulo, por aqui?!

- O meu   carro avariou quando ia  a caminho de casa, por isso aqui estou. É  muito triste que estejamos  a assistir à morte lenta do planeta,  impávidos e serenos, como se não nos dissesse respeito.

-  E olhe que de ano para ano, vai ser sempre  a subir! 

- Como foi possível termos  chegado a este estado!?- desabafa o da calva perfeita 

-  Isto faz parte da natureza e das suas transformações- acrescenta o de  amplidão pançuda , o som alto da  voz  alta, convencido da sua verdade 

- A natureza,  as suas transformações?! E as que o homem tem provocado ao longo dos séculos ? -  remata o da calva perfeita . 

-Dro João Paulo,  somos  todos uns desleixados para  com o meio ambiente  - responde num tom sibilante, tão alto como a sua proeminente barriga. 

- Nós pertencemos à terra, fazemos parte dela. Se ela morre, nós também. 

- Dro João Paulo, o senhor vai se preocupar com isso, agora?nesta altura da vida? 

Entretanto, entram mais passageiros, fora do ponto de paragem. Gera-se uma certa confusão, um grupo de ingleses,  jovens, descontraídos,  folgados, altos e bonitos, um deles pede ao motorista um  bilhete para o " Garden Botanik". Vão à procura de frescura, da sombra das árvores, dos cantos e recantos verdes, das plantas e jardins floridos, da esplanada acolheradora,  cujos chapéus trazem sombra.  

-  E como evitar  a preocupação? Ainda não estou senil para fingir que  não sinto medo pelos  filhos e netos, pela  vida na terra. O que significa e as  suas  consequências! Está tudo interligado e nós fazemos parte do conjunto - torna o homem da calva perfeita - Não podemos continuar a dar péssimos exemplos e esperar que seja a geração mais nova, a salvadora do planeta. Isto é patético! Não é possível,  até porque a sua ação está interdita e sistematicamente boicotada. 

O de amplidão  pançuda cala-se do alto da sua  indiferente estupidez , o da calva perfeita volta a cabeça para a frente e ergue o rosto numa atitude  de superioridade  defensiva. 

Agora sobressai o ruído do motor,  quase abafado pelas  conversas murmuradas, altas,  distantes, próximas, risadas, uma vozearia crescente. 

O homem da calva perfeita insatisfeito, volta o rosto para mim,  os nossos olhos cruzam-se e nesse piscar de  cílios,  observo instantaneamente os seus lindos olhinhos claros: 

- Eu não tenho razão?! Parece que falamos para o vento e vão-se as palavras...

- É  óbvio que sim! 

- Pois, pois! São poucos os que se interessam, como se o que se passa cá em cima não lhes dissesse respeito. 

Quando nos enfrentamos novamente vejo  com mais acuidade a beleza que o envolve.   E essa  beleza vem pelo sorriso, do bigode totalmente grisalho mas muito bem recortado sobre o labio inferior e pelo  olhar. É um doce olhar, enternecido, encontro  ali finura, inocência, bonomia. Quando aqueles dois lábios descerram e deixam brilhar o esmalte,  apercebo-me do quanto me sinto surpreendida . 

Fixa-me pensativo e assusta-me  o que me irá dizer:

- Já se apercebeu da  quantidade de ruído desta gente? É  sempre assim?

- Não, não é sempre assim. Alguns são amigos,  ou vizinhos, ou  parentes, ou conhecidos,  outros desconhecidos como nós. 

- E precisam desta gritaria , se fizer silêncio, será facil ouvir algumas dessas conversas, algumas íntimas. 

- Compreendo a sua observação e concordo. 

- Nós não sentimos necessidade  de gritar um com o outro e  conseguimo ouvir-nos  bem, apesar do zumbido das abelhas. 

Nova paragem, um indivíduo de meia idade apea-se com  dificuldade. O calor  cá dentro está   controlado pelo  ar condicionado, quando a porta se abre, um bafo quente invade e sentimos que as labaredas perseguem o autocarro pelo  lado de fora. 

De relance, noto que o homem da calva perfeita observa atentamente o indivíduo que sai e depois volta-se para mim:

-  Isto de adoecer é uma chatice! Especialmente as incapacitantes... 

- As pessoas deveriam fazer caminhadas e movimentar-se muito mais.  

- Exatamente, não obsessivamente, subjacente a ideais de beleza... 

- Então não é  pela saúde que se corre!? 

- Infelizmente não é! Corre-se atrás da beleza e da eterna  juventude! 

Entretanto, algumas pessoas vão saindo, o som sibilante dos jovens barulhentos diminui e dispersa-se, ocupando agora lugares  distantes uns dos outros e assim sendo, o transporte torna-se mais leve e o ruído das vozes baixa de tom. 

- Confesso-lhe,  o que mais me aterroriza  é ficar incapacitado e depender dos cuidados e da vontade  alheia, familiares ou não. 

- É o meu medo! 

- Acredito, e,  que possam tomar decisões por mim, sem eu conseguir expressar a minha reprovação ou  aprovação, julgam pelo livre arbítrio das suas vontades, das suas  necessidades, das suas prioridades, porque o  paciente já não consegue comunicar... como vai ser ? E se preferir uma morte assistida?

- Lamento , essa frase não me soa bem, imagine apenas isto, que esse sofrimento seja necessário,que seja  a purga para alcançar a outra vida. 

 antecipar a morte para cortar o sofrimento pode ser mais um erro tremendo da humanidade. Não é possível viver sem dor. 

- Mas é legal e já se pratica , muito anterior à lei ser aprovada. 

- Sabe, o ser bumano foge do sofrimento e há muita dor que  depende em grande medida de quem  cuida,  da família, recolher o parente idoso e indefeso e tratá-lo com compaixão,  amizade e amor. Não se aposta nos cuidados à velhice. 

- Falou em quem cuida mas e se tiver sido um paciente daqueles muito mauzinhos ?

- A vingança é a pior aliada e muito  má conselheira. Nunca dá bons frutos retribuir na mesma moeda pode trazer um rol de  problemas, sem fim à vista.  Trata-se de um ser humano  indefeso, debilitado e sofrido.Onde fica o perdão?  Parece-me que  Deus pensa desta forma e Jesus Cristo   praticou o bem a quem o amava e a quem o perseguia. Esta forma de agir e pensar é complexa mas dá frutos; a paz! 

- Então é uma crente ferverosa de  Deus? 

- Sim, sou. Acredito. A morte é  fechar uma porta e depois abrir outra. A morte não é definitiva. Ninguém morre para sempre. Há  a eternidade. É  lá que habitam as almas dos nossos antepassados. 

-  Enfrentar o desconhecido ...

- Só vamos saber quando chegarmos lá! Julgo que é perda de tempo pensarmos no fim, não é verdade? Ter missão cumprida em vida, é raro, no entanto,  fundamental. 

- Está certa! Refere-se aos atos, às oportunidades?!

- Sim, quanto mais longa é  a vida, mais chances  de aperfeiçoar.

- Diga-me , está perto de sair?

- Estou quase! 

- Gostava de lhe dar o meu contato. E dá-me também o seu, para o caso de não me ligar! Quero conhecê-la melhor, se me permite! 

- Está  bem, se quiser...

- Já  agora, é tão jovem e bonita! 

- Sou uma  jovem de sessenta anos ! 

- Como?Está a brincar comigo! Parece muito mais nova que isso! 

-  Que bom para mim  que aparento ser mais jovem mas  vou mesmo ter de  sair. Vai me dar licença,  sim? A minha paragem é  aqui. 

- Ah, pois! Com certeza. Já me levanto. 

Passo  pelo homem da calva perfeita e reparo  que os seus olhos desviam dos meus e  tornam-se  escuros repentinamente. 

Deseja-me um dia feliz e eu retribuo, num ápice observo que vai sentar-se rapidamente   ao lado de uma menina nova, num  banco mais à frente. Quando salto, sinto novamente o mesmo calor abrasivo, é como sair de uma arca frigorífica  para uma sauna. E vou  caminhando devagar, vergada sob o calor do sol e a ruminar como a maioria dos  homens de idade avançada,  de todas as classes sociais, são estúpidos e são  ridículos, extremamente ridículos e patéticos e toda esta tontice vem de longe, de muito longe... é um  clássico a cair de podre,  nunca se modernizou,  traduz a  cultura de uma sociedade que é incapaz de se modificar,  incapaz de  se refazer, uma sociedade que apoia, aplaude  e reforça o papel do  machão; o vilão,   o sujo, o imundo, a inversão de valores e atitudes, de um  conservadorismo hipócrita  e  quem educa para esta e outras palermices são as próprias mulheres, não exclusivamente mas em grande medida,  as mães e outras mulheres da família.