terça-feira, 22 de agosto de 2023
O Sagrado passou pela terra
Confissões de mães
Mulher, casada , sem filhos, de bem com a vida, nós os dois com posições sociais médias, sem muitas razões para nos lastimarmos. Eu e o meu marido temos o hábito de trocarmos impressões sobre a nossa vida em comum e o que se passa à nossa volta. Às vezes temos opiniões diferentes mas não entramos em rota de colisão por isso. Presentemente, há muita guerra aberta nos casais, por não saberem escutar-se. Não há respeito, nem tolerância, nem amizade e muito menos amor. Não querem saber o que cada um tem para dizer e a luta pela supremacia anula qualquer possibilidade de entendimento, desta forma não vão a lado nenhum, duas cabeças a pensar, facilita, torna tudo mais leve, mais suportável, é muito melhor, quase sempre, como teoria funciona, na prática já não. Papaguear não custa nada. Ceder, é que é uma chatice, porquê? "A minha ideia é melhor que a tua". Aqui entra a competição . Estamos a falar de casais, equipa de duas pessoas, apenas duas! Então o companheirismo para onde foi, o sentimento que os unia, se algum dia existiu...? Alguém vai receber um troféu por demontrar a sua supremacia? Compreende-se isto? porquê? Mau! Temos nas respetivas famílias, casos dramáticos, gente com muita formação, no entanto, pouca ou nenhuma dignidade, falta de crescimento emocional, crianças num corpo adulto, tanto no sexo feminino como no masculino, assistimos e ouvimos falar de situações muito complexas. Todas as famílias arranjam um filho ou filha para ser bode expiatório e outro para ser a estrela, depois fazem comparações entre o patinho feio e o patinho lindo. Infelizmente, transmitem a "mensagem" aos outros membros, todos precisam saber quem é um e quem é o outro. De qualquer forma, as duas vidas, vão ficar estragadas, uma por defeito, outra por excesso; o primeiro por inseguranças e medos , a segundo, por se julgar o maior, o melhor, torna-se um narciso.
O mal corre mundo todo. Criou raíz porque está tudo doido. Basta ter opinião contrária ?! Depois, há uma expressão muito em voga que me faz nervos; a liberdade de expressão. Qual liberdade de expressão? É liberdade de expressão enxovalhar, difamar, ridicularizar, rir do outro!? Tenho a impressão que estou perante uma máquina demolidora. Dizem-me alguns descontraidamente; foi sempre assim e vai continuar a ser. Não compreendo a banalidade com que tratam certas situações complexas e delicadas.
Vamos a nós, o nosso relacionamento nunca foi um carrossel, nem com subidas íngremes, nem cambalhotas estrondosas e abismais. Somos dois seres calmos, sentimo-nos bem assim. Julgo que o meu marido nunca me traiu, pelo menos que seja do meu conhecimento, desde que eu não saiba nem perceba...se escorregou que silencie. Se eu soubesse, só perdoaria mediante um perdão muito bem feito, sem direito a mais deslizes. Se eu não faço, não estimo que me façam. Se eu não cometo adultério... As mulheres do meu tempo foram educadas para sofrer em silêncio, serem castas, senhoras da sua casa, o homem podia colecionar amantes, a nossa obrigação era fechar os olhos e a boca e pensar; " são homens, já se sabe". Esta tendência para normalizar , generalizou-se ..e se for figura publica é semelhante. Muda-se de par como quem muda de casaco, filhos à mistura, do primeiro relacionamento, do segundo e por aí fora ... Depois, são pais infelizes e filhos infelizes. O mundo dos nossos dias, é um daqueles quadros de artistas famosos, atormentados, desconhecidos de si mesmos, a sentir um mal imenso, sem remédio. Na maioria das vezes, imensa fama, na mesma proporção da mágoa e da angústia. O desfecho é quase sempre trágico. Voltando a nós, começamos a namorar numas férias de verão, em época de estudantes, havia colegas por todo o lado. Subitamente os olhos cruzaram-se e ali nasceu um brilho intenso e novo. Dois anos depois fomos conhecer as respetivas famílias e três anos mais tarde, decidimos dar o nó. Numa consulta, percebi que não podia conceber filhos. Então, consumida por uma enorme desilusão, comuniquei-lhe urgentemente, se acaso ele quisesse desistir, a resposta foi sempre a mesma ao longo dos anos; " Amo-te muito para que isso me afete". Não me arrependo de nada. Ele não se arrepende de nada. Podíamos ter recorrido à adoção mas sabemos de casos, o processo é burocrático, moroso e difícil. Lamento pelas crianças que anseiam por uma família.
Sou uma mulher feliz e realizada. Temos a nossa casa, a nossa intimidade, as nossas crispações, nunca adormecemos sem nos desculpar, já não somos crianças para amuos infantis e desgastantes, graças a Deus. A vida é curta demais para perdermos tempo com desavenças. Cultivamos o respeito mútuo, sou a melhor amiga dele, ele é o meu melhor amigo. Torna tudo muito reconfortante e suave. Ele tem o meu ombro para o que precisar, e eu sei que tenho o dele para me apoiar. Continuamos a namorar, não é teatro para o exterior, é sentido por ambos, caminhamos de mãos dadas, desenlaçamos as mãos quando cada um vai onde tem de ir. Desde que eu saiba onde foi, com quem esteve, os detalhes? contamos se valer a pena. Vamos desfrutar da vida, rir muito, dividir as tarefas, ir a encontros com amigos, fazer visitas aos parentes de um e de outro, a museus, a exposições e outras festividades ou efemérides, viajar para o exterior. Até porque não sabemos quanto tempo mais vamos andar por cá, mas espero envelhecer ao lado dele até ao fim das nossas vidas.