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domingo, agosto 30, 2026

Poesia ao domingo

 Corredores


Acendias lâmpadas nos corredores,

insistias nos regressos, falavas

do Inverno como se as estações do ano

fossem lugares onde se pudesse


construir uma casa, plantar uma vinha.


Carlos de Oliveira

domingo, agosto 23, 2026

Poesia ao domingo

 Há Palavras Que Nos Beijam


Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca

Palavras de amor, de esperança

De imenso amor, de esperança louca.


Palavras nuas que beijas

Quando a noite perde o rosto;

Palavras que se recusam

Aos muros do teu desgosto.


De repente coloridas,

Entre palavras sem cor,

Esperadas inesperadas

Como a poesia ou o amor.


(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado

No mármore distraído

No papel abandonado).


Palavras que nos transportam

Aonde a noite é mais forte.

Ao silêncio dos amantes 

Abraçados contra a morte.


Alexandre O´Neill, in No Reino da Dinamarca

domingo, agosto 16, 2026

Poesia ao domingo

 Aldeia


Nove casas

duas ruas,

ao meio das ruas

um largo,

ao meio do largo

um poço de água fria.


Tudo isto tão parado

e o céu tão baixo

que quando alguém grita para longe

um nome familiar

se assustam pombos bravos

e acordam ecos no descampado.


Manuel da Fonseca, in Poemas Completos

domingo, agosto 09, 2026

Poesia ao domingo

 A Forma Justa


Sei que seria possível construir o mundo justo

As cidades poderiam ser claras e lavadas

Pelo canto dos espaços e das fontes

o céu o mar e a terra estão prontos

A saciar a nossa fome do terrestre

A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia

Cada dia a cada um a liberdade e o reino

- Na concha na flor no homem no fruto

Se nada adoecer a própria forma é justa

E no todo se integra como palavra em verso

Sei que seria possível construir a forma justa

De uma cidade humana que fosse

Fiel à perfeição do universo


Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco

E este é o meu ofício  de poeta para a reconstrução do mundo


Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas

domingo, agosto 02, 2026

Poesia ao domingo

 O último andar


No último andar é mais bonito:

do último andar se vê o mar.

É lá que quero morar.


O último andar é muito longe:

custa-se muito a chegar.

Mas é lá que eu quero morar.


Todo o céu fica a noite inteira

sobre o último andar

É lá que eu quero morar.


Quando faz lua no terraço

fica todo o luar

É lá que eu quero morar.


Os passarinhos lá se escondem

para ninguém os maltratar:

no último andar.


De lá se avista o mundo inteiro:

tudo parece perto, no ar.

É lá que quero morar:


no último andar.


Cecília Meireles


Do meu último andar não vejo o mar, mas vejo a serra!

domingo, julho 26, 2026

Poesia ao domingo

 Dois Cimbalinos Escaldados


Não sei, meu amigo, o que

irradiava mais calor, se

a chávena escaldada, se

o cimbalino fervente, se

as conversas sobre livros de poesia

que nesse tempo ainda

acreditávamos ser a maior razão.


Curto, normal, cheio

o cimbalino, esse negro odor

com moldura branca

numa mesa de café, na cidade

onde habitávamos desde sempre.


Inês Lourenço, in O Segundo Olhar



Nota: Inês Lourenço é a protagonista da Feira do Livro do Porto, a decorrer entre 21 de agosto e 6 de setembro.

domingo, julho 19, 2026

Poesia ao domingo


 Os Gatos


Há um deus único e secreto

em cada gato inconcreto

governando um mundo efémero

onde estamos de passagem


Um deus que nos hospeda

nos seus vastos aposentos

de nervos, ausências, pressentimentos,

e de longe nos observa


Somos intrusos, bárbaros amigáveis,

e compassivo o deus

permite que o sirvamos

e a ilusão de que o tocamos



Manuel António Pina

domingo, julho 12, 2026

Poesia ao domingo

 Irmão


Eu podia ser um deles

Aquele

O que não se vê...

Porque não sou um daqueles?

Porquê?

Mas só de pensar que podia

Ser mais um na multidão

Sangro de melancolia

De não sendo nenhum deles

Ser de todos um irmão.


João Monge

Nasceu em Lisboa a 1 de Agosto de 1957 e escreveu, por exemplo, Timor esse hino à liberdade e independência dos timorenses.

domingo, julho 05, 2026

Poesia ao domingo

 As Amoras


O meu país sabe a amoras bravas no verão.

Ninguém ignora que não é grande,

nem inteligente, nem elegante o meu país,

mas tem esta voz doce

de quem acorda cedo para cantar nas silvas.

Raramente falei do meu país,

talvez nem goste dele,

mas quando um amigo me traz amoras bravas

os seus muros parecem-me brancos,

reparo que também no meu país o céu é azul.


Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas

domingo, junho 28, 2026

domingo, junho 21, 2026

Poesia ao domingo

 O Vagabundo do Mar


Sou barco de vela e remo

sou vagabundo do mar.

Não tenho escala marcada

nem hora para chegar:

é tudo conforme o vento,

tudo conforme a maré...

Muitas vezes acontece

largar o rumo tomado

da praia para onde ia...

Foi o vento que virou?

foi o mar que enraiveceu

e não há porto de abrigo?

ou foi a minha vontade

de vagabundo do mar?

Sei lá.

Fosse o que fosse

não tenho rota marcada

ando ao sabor da maré.

É por isso meus amigos,

que a tempestade da Vida

me apanhou no alto mar.

E agora

queira ou não queira,

cara alegre e braço forte:

estou no meu posto a lutar1

Se for ao fundo acabou-se.

Estas coisas acontecem

aos vagabundos do mar.


Manuel da Fonseca, in Obra Poética



domingo, junho 14, 2026

Poesia ao domingo

 As Mãos


Com as mãos se faz a paz se faz a guerra,

Com as mãos tudo se faz e se desfaz.

Com as mãos se faz o poema - e são de terra.

Com as mãos se faz a guerra - e são a paz.


Com as mãos se rasga o mar. Com as mãos se lavra.

Não são de pedras estas casas mas

de mãos. E estão no fruto e na palavra

as mãos que são o canto e são as armas.


E cravam-se no Tempo como farpas

as mãos que vês nas coisas transformadas.

Folhas que vão no vento: verdes harpas.


De mãos é cada flor cada cidade.

Ninguém pode vencer estas espadas:

nas tuas mãos começa a liberdade.


Manuel Alegre, in O Canto e as Armas

domingo, junho 07, 2026

Poesia ao domingo

 

Quem me espera não me espera

Quem me ama já esqueceu

Quem me toca dilacera

Esta estranha primavera

Que o mês de Maio me deu


Eu já não sei o que tenho

Se febre, se mal ruim

Se este sentimento estranho

De não ser de onde venho

Comigo longe de mim


E assim fico sentado

Com as algas a boiar

De queixo na mão pousado

Ó meu barquinho parado

Sem porto para ancorar


António Lobo Antunes

 " VODKA e VALIUM 10"


P.S. A Teresa, que está de férias no Porto, lembrou-me a feição poética de ALA, daí este poema.

domingo, maio 31, 2026

Poesia ao domingo

 Dez Reis de Esperança



Se não fosse esta certeza

que nem sei de onde me vem,

não comia, não bebia,

nem falava com ninguém.

Acocorava-me a um canto,

no mais escuro que houvesse,

punha os joelhos à boca

e viesse o que viesse.

Não fossem os olhos grandes

do ingénuo adolescente,

a chuva das penas brancas

a cair impertinente,

aquele incógnito rosto,

pintado em tons de aguarela,

que sonha no frio encosto

da vidraça da janela,

 não fosse a imensa piedade

dos homens que não cresceram,

que ouviram, viram, ouviram,

viram e não perceberam,

essas máscaras selectas,

antologia do espanto, 

flores sem caule, flutuando

no pranto do desencanto,

se não fosse a fome e a sede

dessa humanidade exangue,

roía as unhas e os dedos

até os fazer em sangue.


António Gedeão, in Poesias Completas (1956-1967)

domingo, maio 24, 2026

Poesia ao domingo

 Imagem


Este é o poema duma macieira.

Quem quiser lê-lo,

Quem quiser vê-lo,

Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.


Floriu assim pela primeira vez.

Deu-lhe um sol de noivado,

E toda a virgindade se desfez

Neste lirismo fecundado.


São dois braços abertos de brancura;

Mas em redor

Não há coisa mais pura,

Nem promessa maior.



Miguel Torga, in Antologia Poética

domingo, maio 17, 2026

Poesia ao domingo

 Os Remos


Que rumor de remos

De que negra barca


Ouve-se tão perto

sem se ver a água


Vem Caronte ao leme

Ou tudo uma farsa


que ninguém encena

que ninguém aplaude


Em torno parece

adensar-se o nada


O que mais inquieta

já não tem palavras


Mas ainda resta

saber de que margem


ouvimos os remos

não vemos a água


David Mourão-Ferreira, in "Quatro Tempos"

domingo, maio 10, 2026

Poesia ao Domingo

 Amor como em casa


Regresso devagar ao teu 

sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que

não é nada comigo. Distraído percorro 

o caminho familiar da saudade,

pequeninas coisas me prendem,

uma tarde num café, um livro. Devagar

te amo e às vezes depressa,

meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,

regresso devagar a tua casa,

compro um livro, entro no 

amor como em casa.


Manuel António Pina ( 1943 - 2012 )


domingo, maio 03, 2026

Poesia ao domingo

 Para Sempre


Por que Deus permite

que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite, 

é tempo sem hora, 

luz que não apaga

quando sopra o vento

e a chuva desaba, veludo escondido

na pele enrugada,

água pura, ar puro,

puro pensamento.

morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe na sua graça, 

é eternidade.

Por que Deus se lembra

 - mistério profundo -

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo, 

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará para sempre

junto do seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.


Carlos Drummond de Andrade, in " Lição das Coisas"

domingo, abril 26, 2026

Poesia ao domingo

Faz hoje 110 anos que Mário Sá-Carneiro morreu em Paris aos 25 anos.
Foi um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d´Orpheu.



 

domingo, setembro 28, 2025

Poesia ao domingo

 Nasceu-te um filho


Nasceu-te um filho. Não conhecerás,

jamais, a extrema solidão da vida.

Se a não chegaste a conhecer - já não conhecerás


a dor terrível de a saber escondida

até no puro amor. E esquecerás,

se alguma vez adivinhaste a paz

traiçoeira de estar só, a pressentida,


leve e distante imagem que ilumina

uma paisagem mais distante ainda.

Já nenhum astro te será fatal.


E quando a Sorte julgue que domina,

ou mesmo a Morte, se a alegria finda

- ri-te de ambas, que um filho é imortal.


Jorge de Sena, in " Visão Perpétua"


PS - Porque hoje seria o seu aniversário!