" Aquele que pergunta o caminho pode parecer tolo por cinco minutos, mas quem não pergunta permanece perdido para sempre."
Provérbio Finlandês
" Aquele que pergunta o caminho pode parecer tolo por cinco minutos, mas quem não pergunta permanece perdido para sempre."
Provérbio Finlandês
Corredores
Acendias lâmpadas nos corredores,
insistias nos regressos, falavas
do Inverno como se as estações do ano
fossem lugares onde se pudesse
construir uma casa, plantar uma vinha.
Carlos de Oliveira
Foi no dia 29 de Agosto de 2006 que este blogue nasceu!, tendo como "padrinho" o meu filho.
Contra ventos e marés, com pausas mais ou menos longas, faz hoje 20 anos que entrei na blogosfera onde conquistei alguns amigos e algumas amigas.
Ao longo deste tempo, alguns partiram para uma outra dimensão e recordo-os com saudade, outros simplesmente desistiram por razões que só a eles diz respeito.
Eu cá vou teimando em manter o contacto com aqueles e aquelas que vão resistindo.
Espero poder continuar a visitar-vos e a receber a vossa visita!
"Josefa de Óbidos pintou com o pai, Baltazar Gomes Figueira, os meses alegres do Portugal depois de 1640.
O quadro acima exposto, "Mês de Abril", faz parte de uma série realizada pela dupla de pintores.
Com oficina em Óbidos, pai e filha criaram uma nova cultura visual profana na arte portuguesa."
Informação a partir do jornal Público de hoje.
Josefa de Óbidos imortalizou-se a partir da temática religiosa, muito presente na sua pintura, mas também com naturezas mortas em parceria com o pai e a solo.
Foi de tal forma importante como artista, na sua época, que conseguiu, contrariamente à prática vigente, viver economicamente independente.
Confesso que só a conhecia a partir de quadros de temática religiosa presente em várias igrejas que visitei, nomeadamente a Igreja de Santa Maria, em Óbidos e a Igreja do Mosteiro de Cós, em Alcobaça, entre outras.
Dia Internacional da Igualdade Feminina
"Uma mulher não precisa de endurecer o coração para se tornar forte, precisa apenas parar de abandonar a si mesma para ser aceite."
Simone de Beauvoir
"Portugal, anos do fascismo. As vidas de três mulheres vão-se desvendando, inscritas num tempo com pouca cor, sob o olhar vigilante da Polícia política e de uma moral repressiva, num país sob a sombra da guerra colonial e já farto da ditadura."
Estas mulheres de origens sociais e de contextos geográficos diferentes acabam por se encontrar num apartamento em Lisboa.
Cada uma delas carrega um ferrete, uma sofreu a violência doméstica e refez a vida fora do casamento, outra, proletária, aderiu ao PC, viveu na clandestinidade, foi presa e depois de longa tortura disse o que podia ser dito, a terceira, mais jovem, vive a vergonha de ser filha de pais incógnitos embora saiba quem é o pai a quem chama padrinho.
Este romance lê-se de um fôlego, pois a técnica narrativa é aliciante, num vai e vem entre cada uma das protagonistas.
A linguagem é quase coloquial, muito atual, em desconformidade com o que é narrado.
O narrador é muito interessante porque vai opinando pelo meio, de forma mordaz, irónica.
Há Palavras Que Nos Beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca
Palavras de amor, de esperança
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas,
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado).
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte.
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O´Neill, in No Reino da Dinamarca
Federico Garcia Lorca, poeta andaluz de Granada, foi assassinado pelo franquismo a 19 de Agosto de 1936, fez anteontem 90 anos.
Dez Programas para o Fim do Mundo, na RTP2
Embora fosse uma repetição de 14 de Dezembro de 2025, para mim foi uma estreia. Assisti ao programa na segunda-feira, já perto das 11 horas da noite.
Nuno Artur Silva conversa com Viriato Soromenho-Marques, filósofo e professor universitário e com Irene Pimentel, historiadora, sobre o papel da memória na História dos povos e o que a sua ausência pode acarretar.
Parece que a História não se repete, mas rima, segundo Mark Twain e até gagueja, segundo alguém que não fixei.
Resumindo, o que me deixou mais desperta foram os três grandes acontecimentos que poderão perturbar ou já estão a perturbar o nosso presente e adiantados por Viriato Soromenho-Marques:
1. A desregulação do Ambiente que está a provocar catástrofes climáticas;
2. Os graves focos de conflito que podem dar origem a uma 3ª Guerra Mundial, com a agravante de o nuclear estar na mão de loucos;
3. O alargamento da IA a muitos setores da sociedade, gerando inúmero desemprego e alterando valores fundamentais para a sobrevivência das Democracias.
Foi uma longa conversa que me trouxe algum desassossego, embora nada disto seja novidade.
Dá a sensação que estamos mesmo à beira do abismo.
Só a excecionalidade do ser humano nos salvará, se houver mudanças significativas nas rotas de eminente colisão.
A espuma dos dias ainda faz lembrar a espuma do mar, mas há que guardar as belas imagens das férias e assentar arraiais!
Agora que eles partiram, voltei a ser senhora da minha secretária que se encontra no quarto deles e que eles ocupavam a tempo inteiro.
Ainda há pouco abriam buracos no jardim em busca de uma cidade romana, faziam coleção de caracóis, regavam-se mutuamente com a mangueira, levantavam-se cedo, enchiam a casa de legos e de correrias, para agora acordarem tarde, comerem muito bem e quase não tirarem o nariz dos computadores.
São adolescentes que vivem em realidades paralelas que, tanto eu como o pai, assaltamos muitas vezes, para acabarmos os quatro a rir.
Aos poucos o mês vai escorrendo, deixando para trás férias na praia, longas tardes à beira da piscina, refeições a quatro, risos com as piadas dos rapazes.
Ainda deu para uns dias na santa terrinha e uma ida à Praia Fluvial de Constância, no Zêzere. Eles adoram esta praia.
Chegaram com pedrinhas do rio e a grande novidade:
- Avó, imagina que este ano até apareceu um vendedor de bolas de Berlim!
Agosto sem bolas de Berlim, não seria Agosto!
Entretanto já partiram para uns dias com a mãe, o pai voltou ao trabalho e eu voltei a ficar só com a companhia dos gatos.
Aldeia
Nove casas
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.
Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.
Manuel da Fonseca, in Poemas Completos
Conheci a maestria de Machado de Assis na Faculdade, mas como romancista.
Foi com este livro que o meu filho que me trouxe que descobri o excelente contista que ele é.
Se clicarem na 1ª imagem terão praticamente uma sinopse do mesmo.
É muito curto e lê-se muito bem!
" Nestes tempos não sei, por assim dizer, aquilo que quero; talvez não queira aquilo que sei e queira aquilo que não sei."
MARSÍLIO FICINO, carta a Giovanni Cavalcanti, c. 1475
É espantoso encontrar uma citação destas datada do séc. XV!
A Forma Justa
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
o céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é o meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas
A ponte que uniu Lisboa à margem sul fez/faz 60 anos e, em 1966, era a ponte suspensa mais alta da Europa.
Daí ter me lembrado dos Jafumega!
Baseado em factos verídicos ocorridos na Bélgica, durante a ocupação nazi, com um abade católico, o narrador conta a profunda amizade desenvolvida entre um padre e um miúdo judeu.
Esse miúdo foi entregue pelos pais a uma família nobre em Bruxelas, mas essa família acabou, por razões de denúncia, por se socorrer do tal padre de uma aldeia a cerca trinta kms da cidade e que acolhia rapazes judeus, numa espécie de colégio, e cujos pais tinham sido levados pelos nazis ou os próprios pais os tinham deixado para os salvarem.
Entre o miúdo judeu e o padre católico surgem diálogos que vão do místico, ao divertido, mas também ao dramático, sobretudo no questionamento sobre a ação de Deus e nas diferenças entre o judaísmo e o catolicismo.
O padre procura que o miúdo não esqueça a sua religião, mas ao mesmo tempo tem de levá-lo a ele e a todos a construírem uma nova identidade a partir de documentos falsos que atestavam a sua origem católica e a irem mesmo à missa na aldeia.
Durante três anos sofrerem muitos sustos, mas a guerra acabou e os pais do miúdo apareceram.
É uma pequena narrativa cuja conclusão já nos coloca na atualidade, com referências ao conflito entre Israel e o povo palestiniano.
Já adultos, o tal miúdo e um grande amigo que vive em Israel, têm este diálogo:
- Não sejas ingénuo, José. A melhor forma de chegar à paz, é muitas vezes a guerra.
- Eu não estou de acordo. Quanto mais ódio acumulares entre estes dois campos, menos a paz será possível.
Nota: o meu último Leituras teve apenas duas leitoras!
Estou de férias com os meus "índios"!
Como não posso movimentar-me na areia, fico pela piscina.
A pergunta é:
- Como se chama a praia onde estamos?
O último andar
No último andar é mais bonito:
do último andar se vê o mar.
É lá que quero morar.
O último andar é muito longe:
custa-se muito a chegar.
Mas é lá que eu quero morar.
Todo o céu fica a noite inteira
sobre o último andar
É lá que eu quero morar.
Quando faz lua no terraço
fica todo o luar
É lá que eu quero morar.
Os passarinhos lá se escondem
para ninguém os maltratar:
no último andar.
De lá se avista o mundo inteiro:
tudo parece perto, no ar.
É lá que quero morar:
no último andar.
Cecília Meireles
Do meu último andar não vejo o mar, mas vejo a serra!
Na 5ª feira houve mais uma sessão no Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Ourém.
O livro em análise é o que se encontra na imagem.
O tema central gira à volta da crise conjugal vivida por um casal de meia idade e na reforma, quando foi a Moscovo visitar a filha de uma 1ª relação do homem.
Depois de algumas e alguns leitores terem considerado a obra pouco profunda, surgiram comentários que contrariaram essa opinião.
A condição feminina, o envelhecimento, a juventude, as divergências sociopolíticas entre pai e filha e a falta de comunicação são os eixos desta quase novela e, como tal, deram origem as discussões bem profundas.