A festa do Arcanjo Miguel
Debaixo da água, pensou em como sua vida havia mudado desde a morte de sua esposa Carmen, há três anos. Nunca havia imaginado, que aos setenta anos, estaria morando sozinho, com seus filhos todos casados e morando cada um num canto do país.
Logo ele, que sempre zelou tanto pela família e pelos momentos felizes com os filhos. Mas é assim mesmo, eles crescem e querem voar por conta própria. Querem enfrentar o mundo e a vida que tem pela frente, a parte dos pais é apenas prepará-los; e deixá-los ir.
Depois do banho, com uma toalha enrolada na cintura, Lúcio foi até a cozinha e pegou um copo de leite com café, umas torradas besuntadas com manteiga, e foi até seu escritório. Enquanto o computador iniciava, ele se deliciou com seu lanchinho.
Quando seus e-mails carregaram, ele foi abrindo um a um: e-mail de propaganda de lojas virtuais, de sacanagem que seu neto João sempre mandava, golpes tentando se passar por algum banco ou receita federal e, um e-mail de seu amigo de longa data; Marcel.
O e-mail do Marcel dizia:
“Bem-vindo a festa do Arcanjo Miguel.”
Se você abriu esse e-mail não poderá mais fechá-lo, até receber quatro presentes.
A partir de agora você faz parte da corrente do bem e coisas sobrenaturais vão acontecer com você:
1- Uma ligação telefônica inesperada.
2- Alguém vai lhe dar uma boa notícia.
3- Você fará uma viagem.
4- Encontrará a pessoa amada.
Depois de ler, encaminhe esse e-mail para toda sua lista de contatos.
— Lá vem... — resmungou Lúcio sorrindo. — O Marcel só manda bobagem.
Ele não acreditava nessas correntes, mas como estava bem-humorado, resolveu enviar só para participar da brincadeira. Depois, leu mais alguns e-mails, navegou um pouquinho pela internet até que o telefone tocou.
— Alô!
— Paaaaaaiiiiiii, me sequestraram! Socorro!
— Quem, sequestraram quem? Jonas? É você?
— Sou eu pai, é o Jonas! Eles me sequestraram, eles querem um resgate! Pai me ajude!
— C... co... como is... isso f... filho...
— Nós estamos com seu filho, Jonas! — declarou uma voz áspera. — Se você não mandar o dinheiro que vamos pedir, nós vamos matar seu filho!
— Ma... mas como? Quem é v... você?
O coração do velho Lúcio não aguentou o baque. A dor no peito foi enorme. Cambaleando, ele foi até a calçada, onde caiu no chão. A vizinha chamou uma ambulância, que o levou até o hospital, onde foi internado direto na UTI.
Horas depois, seu filho Manoel, chegou ao hospital desesperado. Correu até o quarto do pai e acariciando sua cabeça grisalha, sussurrou com voz embargada:
— Puxa papai... Como é que isso foi acontecer? A correria da vida fez a gente ficar tão distante. Eu amo o senhor! Já avisei todo mundo. O Jonas já deve estar chegando, vê se aquenta aí.
Mesmo inconsciente Lúcio escutou a boa notícia de que seu filho Jonas estava bem e que até estava vindo.
“Deve ter sido um trote daqueles de presidiários, — pensou, mesmo sem forças para acordar do coma.”
Com o coração tranquilizado, Lúcio percebeu a seu lado uma figura muito bonita, com cabelos longos e encaracolados, sorriso no rosto e com roupa iluminada. Essa figura pegou-o pela mão e falou:
— Olá senhor Lúcio, tudo bem?
— Tudo bem quem é você?
— Eu sou um anjo!
— Um anjo?
— É... Eu vim buscar o senhor, para fazermos uma pequena viagem...
— Pra onde?
— Por enquanto não posso falar, mas vai ser muito bom, e sabe quem está te esperando lá?
— Eu sei, a Carmem.
— Como sabe disso?
— Eu li num e-mail. — respondeu Lúcio sorrindo.
— O senhor leu em um e-mail? — perguntou o anjo com cara de desentendido.