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quinta-feira, 11 de setembro de 2025

A festa do Arcanjo Miguel


Os amigos mais antigos do blogue, sabem que de vez em quando eu posto novamente alguns contos ou crônicas que eu considero bons. Inclusive, alguns tem mais de uma repostagem. 
Mas dessa vez, estou postando novamente esse miniconto, que é um dos que mais tenho carinho por ter escrito, para comemorar a notícia de que ele foi um dos escolhidos para entrar na segunda edição da Revista Alma, de Moçambique.
Eu participei de um concurso cultural realizado pela equipe editorial da revista e esse conto foi um dos classificados. Me senti honrado, por saber que um trabalho meu vai ser publicado no Continente africano. 
Então, para vocês relembrarem ou conhecerem: 

 

A festa do Arcanjo Miguel


Ao voltar da caminhada, Lúcio fez um carinho na cabeça de Bóris, seu fiel amigo, que o esperava balançando o rabo de alegria. Entrou em casa e foi direto tomar um banho.
Debaixo da água, pensou em como sua vida havia mudado desde a morte de sua esposa Carmen, há três anos. Nunca havia imaginado, que aos setenta anos, estaria morando sozinho, com seus filhos todos casados e morando cada um num canto do país.
Logo ele, que sempre zelou tanto pela família e pelos momentos felizes com os filhos. Mas é assim mesmo, eles crescem e querem voar por conta própria. Querem enfrentar o mundo e a vida que tem pela frente, a parte dos pais é apenas prepará-los; e deixá-los ir.
Depois do banho, com uma toalha enrolada na cintura, Lúcio foi até a cozinha e pegou um copo de leite com café, umas torradas besuntadas com manteiga, e foi até seu escritório. Enquanto o computador iniciava, ele se deliciou com seu lanchinho.
Lucio era um idoso moderno: tinha Facebook, Instagram e se comunicava por WhatsApp com seus netos, sobrinhos e de vez em quando com algum dos quatro filhos. Ele se orgulhava disso, pois era um velho conectado ao “novo mundo”.
Quando seus e-mails carregaram, ele foi abrindo um a um: e-mail de propaganda de lojas virtuais, de sacanagem que seu neto João sempre mandava, golpes tentando se passar por algum banco ou receita federal e, um e-mail de seu amigo de longa data; Marcel.
O e-mail do Marcel dizia:
“Bem-vindo a festa do Arcanjo Miguel.”
Se você abriu esse e-mail não poderá mais fechá-lo, até receber quatro presentes.
A partir de agora você faz parte da corrente do bem e coisas sobrenaturais vão acontecer com você:
1- Uma ligação telefônica inesperada.
2- Alguém vai lhe dar uma boa notícia.
3- Você fará uma viagem.
4- Encontrará a pessoa amada.
Depois de ler, encaminhe esse e-mail para toda sua lista de contatos.
— Lá vem... — resmungou Lúcio sorrindo. — O Marcel só manda bobagem.
Ele não acreditava nessas correntes, mas como estava bem-humorado, resolveu enviar só para participar da brincadeira. Depois, leu mais alguns e-mails, navegou um pouquinho pela internet até que o telefone tocou.
— Alô!
— Paaaaaaiiiiiii, me sequestraram! Socorro!
— Quem, sequestraram quem? Jonas? É você?
— Sou eu pai, é o Jonas! Eles me sequestraram, eles querem um resgate! Pai me ajude!
— C... co... como is... isso f... filho...
— Nós estamos com seu filho, Jonas! — declarou uma voz áspera. — Se você não mandar o dinheiro que vamos pedir, nós vamos matar seu filho!
— Ma... mas como? Quem é v... você?  
O coração do velho Lúcio não aguentou o baque. A dor no peito foi enorme. Cambaleando, ele foi até a calçada, onde caiu no chão. A vizinha chamou uma ambulância, que o levou até o hospital, onde foi internado direto na UTI.
Horas depois, seu filho Manoel, chegou ao hospital desesperado. Correu até o quarto do pai e acariciando sua cabeça grisalha, sussurrou com voz embargada:
— Puxa papai... Como é que isso foi acontecer? A correria da vida fez a gente ficar tão distante. Eu amo o senhor! Já avisei todo mundo. O Jonas já deve estar chegando, vê se aquenta aí.
Mesmo inconsciente Lúcio escutou a boa notícia de que seu filho Jonas estava bem e que até estava vindo.
“Deve ter sido um trote daqueles de presidiários, — pensou, mesmo sem forças para acordar do coma.”
Com o coração tranquilizado, Lúcio percebeu a seu lado uma figura muito bonita, com cabelos longos e encaracolados, sorriso no rosto e com roupa iluminada. Essa figura pegou-o pela mão e falou:
— Olá senhor Lúcio, tudo bem?
— Tudo bem quem é você?
— Eu sou um anjo!
— Um anjo?
— É... Eu vim buscar o senhor, para fazermos uma pequena viagem...
— Pra onde?
— Por enquanto não posso falar, mas vai ser muito bom, e sabe quem está te esperando lá?
— Eu sei, a Carmem.
— Como sabe disso?
— Eu li num e-mail. — respondeu Lúcio sorrindo.
— O senhor leu em um e-mail? — perguntou o anjo com cara de desentendido.
— Li... E olha que eu que pensava que esses e-mails do Marcel eram tudo besteira...



quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Antes de partir

 



Antes de partir, é o segundo livro que eu li, do Charles Donlea — o primeiro foi, “A garota do lago”.
Eu gostei muito do primeiro livro, um policial raiz! Com investigação, suspense e reviravoltas. Tudo o que eu mais gosto em um livro desse gênero.
Então, eu esperava a mesma coisa desse segundo livro, mas... Não foi o que ele entregou, ou pelo menos não estava entregando, até as últimas 20 páginas.
A história é basicamente sobre um acidente de avião no meio do oceano, sem “aparentemente”, nenhum sobrevivente.
Nesse avião estava Ben, o marido de Abby.
Durante boa parte do livro ela viveu o luto pela perda do marido. Se enclausurando em casa, sem receber ou fazer visitas, sem participar de festas, apenas, trabalhando e tentando sobreviver.
Ela já havia sofrido pela morte de seu filho ainda bebê, e quando estava se recuperando, o destino lhe pregou mais essa peça.
Até que ela conhece Joel. Um cara bacana, mas que também tem seus pesadelos para lidar — e muitos!
Mas, com as situações apresentadas e o enredo mais ou menos definido, nós descobrimos que Ben estava vivo!
Vivo no meio de uma pequena ilha no pacífico e tentando voltar para os braços de sua amada.
No meio dessa comédia romântica, ou drama romântico — não sei como classificar direito a história — ainda aparecia de vez em quando uma mulher misteriosa, com uma carta escrita por Bem antes do acidente, falando para Abby, sobre o filho dessa mulher.
Uma traição?
Joel, aos poucos vai entrando na vida de Abby, e eles quase organicamente, vão se ajudando a enfrentar seus pesadelos e acabam se apaixonando.
O livro vai terminando e a gente pergunta?
Cadê a investigação, cadê o mistério, o suspense? Não vai ter nenhum tiro?
Não! Nenhum tiro — nenhum aparente mistério.
Será?
Acho que fui enganado!
Ou melhor... Eu fui enganado!
Nas últimas vinte páginas, o que era uma leitura quase chata, se transforma nas melhores últimas vinte páginas que eu já vi.
Uma reviravolta muito louca. Um fechamento que foi um golpe de mestre do Donlea.
Salvou o livro.
De nota 6 o livro pula para nota 8.
Olha que nota 8, é uma ótima nota para um livro.
No fim... Bom no fim, você tem que ler.
Ler e se divertir.
Minha esposa ama filmes sobre Natal. Principalmente comédias românticas.
Esse livro é isso. Uma ótima comédia romântica de Natal, mas com o melhor final que você vai ver.
Eu prometo!



quarta-feira, 25 de junho de 2025

Licença poética

 

Muitos poetas escrevem sem pontuação.
Sem ordem gramatical ou ortográfica.
Dizem ser licença poética.
Começam sem letra maiúscula, terminam sem ponto final.
Tipo: — O leitor que interprete da forma que as palavras tocarem seu coração...
Alguns, colocam uma palavra em cada linha.
Sem reticências antes nem depois, sem vírgula, ponto e virgula, sem noção.
Apenas porque visualmente fica bom.
Sim?
Não...
A língua portuguesa tem regras! Tem o jeito certo de escrever. 
Me desculpem a chatice... 
Mas a língua portuguesa, se bem escrita, consegue exprimir corretamente todo o sentimento que o escritor está sentindo, de forma clara. 
Claríssima.
Mas — muitos poetas escrevem sem pontuação.
Sem ordem gramatical ou ortográfica.
Dizem ser licença poética.
Aff!


sexta-feira, 13 de junho de 2025

Vidas sem letra

 


Vidas sem letra:
Escrever pouco, para quem pouco lê.
Cliques e visualizações; vazias...
Comentários falsos.
Dias sem espaço, parágrafo — travessão.



domingo, 27 de abril de 2025

Lobão, 50 anos a mil!




Atenção! O texto contém spoilers, porém, são leves e o próprio Lobão já deu esses mesmos spoilers em várias entrevistas, aqui, alí e acolá!


Imagine a cena: Lobão e Cazuza, no velório do Júlio Barroso — que devia estar morrendo de rir lá no além —, aproveitando que todos estavam sonolentos pelos cantos, resolvem homenagear o amigo cheirando uma carreira de cocaína em cima do caixão. Essa história quase inverossímil aparece logo nas primeiras páginas do divertidíssimo livro: Lobão, 50 Anos a Mil.

João Luiz Woerdenbag Filho — Lobão — escreveu sua, até então, biografia, e na minha opinião, foi honesto em sua escrita! Não teve pena de si mesmo. Não procurou desculpas em outras pessoas, assumiu seus erros, não camuflou suas atitudes, confessou e não tentou se defender usando de falso moralismo — não!

Ele também não se condenou a nada além do que a vida já não o havia condenado, e aqui está a sacada do livro. Apenas contou suas aventuras, sem julgamento, e isso é delicioso!

Desde criança ele já se mostrava um menino que poderia ter um futuro brilhante. Suas brincadeiras, o afeto pelos pais e tios, o afeto por seus animais e a criatividade com que ele colocava tudo isso dentro do balaio da vida é bem interessante.

O começo do livro narra os primórdios da escola, os amigos que cultivou durante toda a vida, a música desde sempre fazendo parte de sua formação e os problemas internos e familiares. Sua infância foi abastada e recheada de ternura, religião (das mais variadas), filosofia, cultura, poesia e pitadas de realidade!

Se você conhece um pouco da vida do cantor, pode assim como eu pensar: "Caramba! Eu não quero saber da infância. Já queria começar nas doideiras!"

Mas não, a parte da infância é igualmente prazerosa de ler e te faz entender o adulto em que o João Luiz se tornaria.

Na adolescência ele já era um baterista habilidoso e uma pessoa agregadora, que formou várias bandas, com muitos amigos e com muitos desconhecidos.

Com 17 anos, quando a escola já lhe parecia um brinquedo muito chato, ele, mesmo sem querer muito, foi aceito como baterista da banda Vínama, que tinha em sua formação o Lulu Santos e o Ritchie, pessoas que se tornariam astros do primeiro time do rock nacional.

O Vínama trouxe para seu staff o ex-tecladista Patrick Moraz, da banda Yes, o que acabou a implodindo. Patrick se julgou maior que o Vínama e acabou saindo e trazendo com ele alguns integrantes, incluindo Lobão.

A mulher do Patrick foi a primeira mulher que realmente mexeu com Lobão e foi a primeira pessoa com quem ele tentou formar um lar.

Mas os dias eram malucos, e logo o Lobão conheceria Júlio Barroso e começaria a tocar em sua banda Gang 90 e as Absurdetes, e excursionar pelo país.

Lobão se apaixonou perdidamente por Alice Pink Punk, uma linda menina que fazia backing vocal na banda do Júlio Barroso, e que era namorada do dono da banda. Mais uma vez ele não aguentou e roubou a namorada do amiguinho.

Engraçado é que ele fala isso de forma tão natural e singela, que você até perde a vontade de falar: “Mas é um filho da puta esse João Luiz!”

Com a saída da Gang 90, Lobão, na dureza, começou a tocar e vadiar pelo Rio de Janeiro, participando de gravações de vários artistas e de várias músicas que virariam hits nos anos 80, até que encontrou Evandro Mesquita e o pessoal da companhia de teatro “Asdrubal Trouxe o Trombone”, e formou com eles e mais alguns amigos a banda Blitz.

Lobão gravou todas as músicas da Blitz, ajudou a compor algumas, e secretamente gravou um disco ajudado por muitos amigos. Ele percebia que a Blitz estava indo por um caminho musical quase infantil, coisa que não o agradava.

Então, depois de uma sessão de fotos e entrevista na revista IstoÉ, onde se posicionou maquiavelicamente em destaque em todas as fotos e falou mais que o homem da cobra, ele disse aos integrantes da Blitz que iria sair em carreira solo.

Munido da revista, onde era o destaque da capa, e com a fita master de seu disco debaixo do braço, Lobão encontrou facilmente uma gravadora. Acontece que a gravadora era especializada em samba, e não trabalhou o disco dele. Foi um fiasco.

Daí em diante, a vida do Lobão foi uma montanha-russa, hits e ótimas vendas em alguns discos, e fracassos retumbantes em outros.

Ele agregou um milhão de amigos durante sua vida e um milhão de desafetos também. O problema é que alguns desafetos eram pessoas importantes nas gravadoras, na justiça, na polícia, na política, e isso, com o tempo, cobrou seu preço.

Lobão e seus fãs foram perseguidos. Revistas que mais pareciam exames ginecológicos, eram feitos nas meninas que iam até seus shows. A polícia, "pau mandadamente", pegava muito no seu pé, mas ele, como sempre, combativo, não desistiu de fazer show e nem de denunciar esses abusos.

Lobão narra de forma hilária o episódio de sua prisão “arranjada”, por uma quantidade quase inexistente de cocaína e maconha em seu bolso. A cena do juiz corrupto foi muito engraçada, e a história toda da sua vivência entre os presos também foi muito divertida.

O livro continua contando a trajetória do cantor e compositor, disco após disco.

Conta sua entrada na bateria da Mangueira, conta de seus acidentes de moto, das suas quase overdoses, da morte de sua mãe e de seu pai. Conta seu rompimento com as gravadoras tradicionais e a sua luta para a numeração dos CDs.

Conta também a trairagem que o Caetano e o Gil fizeram nesse episódio da numeração dos CDs e como isso impulsionou Lobão a fazer seu próprio selo de música, onde ele gravava seus discos e distribuía gratuitamente para quem comprasse uma revista de sua autoria chamada Outra Coisa.

No final do livro, a gente chega à conclusão de que o Lobão sempre fez a coisa certa. Muitas vezes do jeito errado, mas o certo para as situações que apareceram em sua frente.

Ele parece ser daqueles amigos para todas as horas. Nunca abandonou uma causa em que acreditava, mesmo que isso o ferrasse lá na frente.

Lobão enfrentaria um leão por sua família, e estava pronto a abandonar qualquer coisa que estivesse envolvido, se alguém que amava precisasse dele.

Um baita livro.

Diversão garantida.

Risadas e filosofias meditativas garantidas também.

Parabéns, Lobão. Lindo livro e linda vida, louca vida!