Há uma forma muito portuguesa e muito jornalística de não compreender um fenómeno político:
- primeiro reduz-se o fenómeno a uma caricatura;
- depois combate-se a caricatura como se fosse a realidade;
- finalmente, quando a realidade desmente a caricatura, acusa-se a realidade de estar errada.
É neste ponto que parece situar-se parte do comentariado quando olha para André Ventura, para o CHEGA e, em particular, para a proposta de redução da idade da reforma. Miguel Pinheiro, director executivo do Observador, no artigo em que fala da “nova cartilha” de André Ventura, percebe uma coisa importante: há uma inflexão discursiva. Mas, ao mesmo tempo, parece não perceber a natureza profunda dessa inflexão. Vê a manobra; não vê o mundo que a tornou possível.
E esse mundo é simples de descrever, ainda que difícil de aceitar pelo jornalistado e pelo comentariado, tanto o alinhado à esquerda como o enfileirado pela "direita caviar", que ainda imagina que o país cabe todo entre uma folha de Excel, uma citação de Hayek e um jantar no Four Seasons.
A proposta de baixar a idade da reforma deixou o PSD, o CDS e a IL perplexos. o jornalista Miguel Pinheiro, Director Executivo do Observador, reconhece o choque e o espanto: a redução da idade da reforma não era uma exigência da esquerda mais radical?
Não era suposto o CHEGA ser de direita?
A resposta, escreve ele, seria “sim” e “sim”, escreve Pinheiro.
Pois! O problema começa precisamente aí:
É a velha Direita fiscalista contra a nova Direita social!
Durante demasiados anos, uma certa direita portuguesa aceitou ser definida pela esquerda. À esquerda caberia a justiça social, os trabalhadores, a protecção dos frágeis, os salários, as pensões e a dignidade do trabalho. À direita caberia a contenção orçamental, a redução da despesa, a baixa de impostos, o mercado, a competitividade e a disciplina financeira.
Este arranjo era cómodo. A esquerda ficava com a alma. A direita ficava com a calculadora.
Mas a história política europeia nunca foi assim tão simples. Como recordei em texto anterior, a proposta de antecipação da idade da reforma não é necessariamente “de esquerda” nem uma cedência à esquerda.
Há uma tradição social, reformista, nacional e conservadora que nunca aceitou reduzir a política à contabilidade. Uma Direita digna desse nome não é obrigada a ajoelhar perante o dogma segundo o qual qualquer preocupação com o trabalhador pertence ao socialismo.
Contudo questão séria não é saber se a proposta de Ventura é “de esquerda”. A questão séria é saber se ela é viável, justa, financiável, diferenciada e adequada à realidade portuguesa.
Mas isso já exigiria debate. E o debate é sempre mais cansativo do que a etiqueta.
as Máquinas, o Trabalho e a pergunta que o comentariado evita
A grande pergunta que uma boa parte do comentariado não enfrenta é esta:
se as novas tecnologias reduzem cada vez mais o esforço humano (físico e intelectual) por que razão se exige ao homem comum que trabalhe cada vez mais anos?
Ora bem, esta pergunta não é demagógica. É civilizacional.
Durante décadas prometeram-nos que a tecnologia libertaria tempo para a família e lazer. Que a mecanização, a automação, a digitalização, a inteligência artificial e a robotização aumentariam a produtividade e aliviariam a carga do trabalho humano. Mas a conclusão política que nos apresentam é paradoxal: as máquinas fazem mais, os algoritmos aceleram tudo, a produtividade potencial aumenta e o trabalhador deve reformar-se mais tarde!
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A resposta tecnocrática invoca a demografia, a esperança média de vida, a sustentabilidade da Segurança Social e o rácio entre activos e pensionistas. Sim! Tudo isso é real. Em Portugal, em 2026, a idade de acesso à pensão de velhice está fixada em 66 anos e 9 meses, o que confirma a tendência de prolongamento da vida activa. Trata-se da resposta tecnocrática que não chega.
Se as tecnologias produzem ganhos, a questão política é saber quem fica com esses ganhos. Se ficam apenas nas empresas, nos accionistas, nas plataformas, nos monopólios digitais, nos governos cobradores e nas elites gestoras, então a tecnologia não liberta o homem: substitui-o, disciplina-o e cobra-lhe a factura.
E se a tecnologia não distribui justiça, a política deveria fazê-lo.
O erro de chamar “socialista” ao que é socialmente nacional
A caracterização do programa do CHEGA como “socialista” é uma conveniência retórica do jornalistado que serve à Esquerda rasca e a Direita caviar, porque lhes permite acusar Ventura de oportunismo. Serve, à Direita Liberal, porque lhe permite acusá-lo de traição. Serve também, ao comentariado, porque lhe permite arrumar a realidade numa gaveta conhecida.
O CHEGA não se tornou socialista por falar de Pensões, Reforma ou protecção dos Trabalhadores. O socialismo não é uma preocupação vaga com a questão social. O socialismo é uma tradição doutrinária, económica e política, com categorias próprias: luta de classes, socialização, estatismo igualitário, internacionalismo, hostilidade à propriedade burguesa, suspeição perante a ordem nacional tradicional. A direita do Chega opera noutro campo.
A sua lógica não é a substituição da nação pela classe, mas a recuperação da nação como comunidade de protecção. Pode ser discutível. Pode ser contraditória. Pode ser economicamente insuficiente. Pode até ser, em certos pontos, programaticamente confusa. Mas não é socialismo.
É outra coisa: soberania social, nacionalismo económico, protecção dos trabalhadores nacionais, crítica da globalização desregulada, recuperação do eleitorado popular que a esquerda abandonou.
Chamar a isso “esquerda” é revelar mais sobre os preconceitos do observador do que sobre o objecto observado.
Reform UK e a Red Wall:
uma lição que o artigo do Observador cita mas não absorve
Certos jornalistas tentam perceber que há alguma possível comparação do CHEGA com o Reform UK. Mas parecem não retirar dela a consequência essencial.
Isto é, o Reform UK não cresceu apenas porque repetiu slogans de direita. Cresceu porque percebeu que as antigas fronteiras sociológicas do voto estavam a ruir. Nas eleições locais britânicas deste Maio de 2026, o partido de Nigel Farage obteve ganhos muito expressivos em zonas tradicionalmente trabalhistas, enquanto o socialista Labour Party sofreu pesadas perdas em regiões que tradicionalmente votavam "trabalhista" . O essencial é claro: o Reform entrou em território social e eleitoral que durante décadas parecia propriedade Trabalhista.
A chamada "Red Wall" - os Midlands e o norte da Inglaterra da Grã Bretanha - que corresponde à nossa "Cintura Vermelha" que o PREC rodeavam Lisboa, a Norte desde a Amadora até Vila Franca de Xira e na Margem Sul do Tejo (Almada e Seixal) - não caiu apenas porque os eleitores enlouqueceram, mas porque foram enganados pelas redes sociais e pela imprensa que os hipnotizou com uma "flauta populista". A "Red Wall" caiu porque o Labour Party deixou de falar a "mesma lingua" de parte dos seus antigos eleitores. Trocou o trabalhador pela tribo identitária, o bairro industrial pelo seminário universitário, a segurança material pela liturgia multicultural, a fronteira pela abstracção globalista, a comunidade real pela comunidade imaginária dos activistas.
Quando Nigel Farage diz, em termos aproximados, que a divisão entre esquerda e direita foi “deitada pela janela fora”, não está a fazer filosofia política. Está a constatar um facto eleitoral: muitos eleitores populares já não reconhecem a esquerda como sua casa natural.
E isto é também o que comentariado português não quer ver em André Ventura.
Lembro que O povo não é propriedade registada da esquerda
Durante anos, a esquerda portuguesa tratou o eleitorado popular como se este lhe pertencesse por escritura ideológica. Trabalhadores, reformados, funcionários, pequenos comerciantes, moradores das periferias, pobres envergonhados e remediados aflitos eram supostos votar à esquerda por tradição, gratidão ou medo.
Mas o povo não é propriedade registada.
Por tal, quando a esquerda troca a questão social pela engenharia identitária, quando fala mais de minorias simbólicas do que de maiorias cansadas, quando se preocupa mais com linguagem inclusiva do que com salários, quando trata a imigração como dogma moral e não como fenómeno económico, social, urbano e laboral, abre espaço para que outros ocupem esse terreno.
Foi isso que aconteceu em vários países europeus. Foi isso que aconteceu em parte da América do Norte. Foi isso que o Reform UK explorou. É isso que o CHEGA tenta agora explorar em Portugal.
Pode correr bem ou mal. Pode ser consistente ou contraditório. Pode ser uma estratégia duradoura ou uma táctica conjuntural. Mas não é incompreensível.
O que é incompreensível é que tantos profissionais da análise política continuem a fingir que isto é apenas uma “cartilha”.
O dilema real:
baixar impostos, proteger trabalhadores e não rebentar o Estado
Há, evidentemente, uma pergunta legítima que no artigo em questão Pinheiro coloca ou sugere:
como pode André Ventura defender uma redução da idade da reforma, não aumentar ciclopicamente a despesa do Estado e, ao mesmo tempo, propor redução de impostos?
Esta é a pergunta de resposta difícil. E aqui o CHEGA tem obrigação de responder melhor.
Não basta dizer que as máquinas trabalham por nós. Não basta invocar justiça social. Não basta proclamar que se cortará na corrupção, nos abusos, nas gorduras do Estado ou nos subsídios indevidos. Tudo isso pode existir, mas não substitui as finanças.
Um outro problema é que o jornalistado raramente quer esta discussão séria. Prefere o rótulo: “é socialista”.
E a direita caviar prefere o susto: “é irresponsável” dizem.
Já a esquerda prefere o sarcasmo: “afinal também são dos nossos”. E a máquina de propaganda da geringonça prefere a confusão, porque a confusão impede que se veja o essencial. Ou seja: Ventura abriu uma frente que o PSD, o CDS e a IL tinham deixado abandonada: a Frente Social da Direita.
Uma direita que não entende isto ficará velha antes de chegar à reforma
A reacção perplexa do PSD, do CDS e da IL revela um problema maior do que André Ventura. Revela que parte da direita portuguesa continua presa a uma concepção estreita de si própria. Uma direita fiscalista, urbana, sociologicamente confortável, mais preocupada com respeitabilidade mediática do que com representação popular.
Uma Direita que aceita falar de impostos, empresas, défice, Estado, despesa e regulação. mas que sente embaraço quando tem de falar de quem trabalhou quatro ou mais décadas, que fala de produtividade, mas raramente pergunta quem beneficia dela.
Ventura percebeu ou intuiu que há aquí um espaço político. Um espaço onde a esquerda deixou de morar e onde a direita liberal nunca quis entrar.
É esse espaço que assusta o comentariado que não percebe que.
a "cartilha" mudou porque o país mudou
Perceba-se uma coisa: há uma nova cartilha! Mas talvez não seja apenas a cartilha do CHEGA e de André Ventura. É a cartilha de um tempo político em que as antigas etiquetas já não explicam os novos alinhamentos.
A esquerda já não representa automaticamente o trabalhador. A direita já não é apenas mercado. O eleitorado popular já não vota por obediência histórica. As classes trabalhadoras já não aceitam ser figurantes de uma esquerda que as trocou por causas mais elegantes. E a direita nacional e/ou popular percebeu que a questão social não é propriedade de ninguém.
André Ventura pode falhar a explicação financeira da proposta. Pode exagerar, simplificar ou precipitar-se. Mas os seus críticos falham quando confundem justiça social com socialismo, protecção dos trabalhadores com radicalismo de esquerda e voto popular com anomalia democrática.
O Reform UK mostrou, lá fora, que a velha "Red Wall" podia ser tomada de assalto por quem falasse aos eleitores que o socialismo dos Trabalhista julgava garantidos.
O CHEGA percebeu a lição.
O Director Executivo de um jornal dito de "direita" viu o paralelismo, mas talvez ainda não tenha percebido a profundidade da ruptura.
A pergunta já não é se o CHEGA se deslocou para a esquerda.
A pergunta é se a Esquerda abandonou tanto o povo que até a Direita aprendeu o caminho para lá chegar.
E, a julgar pelo pânico do jornalistado, do comentariado e da direita caviar, parece que chegou.
Notas
1 Miguel Pinheiro, “A nova cartilha de André Ventura já resultou lá fora”, Observador.
2 A presente reflexão retoma e desenvolve a tese anteriormente trabalhada em “A reforma, as máquinas e o monopólio fraudulento da questão social”, sobretudo na ideia de que a automatização, a digitalização e a inteligência artificial obrigam a repensar a distribuição social dos ganhos de produtividade, e não apenas a idade contabilística da reforma.
3 Sobre a idade normal de acesso à pensão de velhice em Portugal, veja-se a informação oficial disponível no portal da Segurança Social e no portal gov.pt, que fixa para 2026 a idade normal de acesso à pensão em 66 anos e 9 meses.
4 A comparação com o Reform UK e com a chamada “Muralha Vermelha” britânica - ou "cintura vermelha" do PREC- é politicamente relevante porque mostra a deslocação de sectores do eleitorado popular, antes fortemente ligados ao Labour, para formações nacional-populares que passaram a disputar temas como imigração, segurança, trabalho, salários, identidade e protecção social.
5 A expressão de Nigel Farage sobre o fim da velha divisão entre esquerda e direita deve ser lida menos como doutrina política e mais como diagnóstico eleitoral: os alinhamentos sociológicos que durante décadas estruturaram o voto popular europeu estão em transformação acelerada.
6 A crítica aqui feita não implica a aceitação acrítica da proposta de André Ventura. Pelo contrário: uma proposta séria de redução da idade da reforma exige demonstração financeira, critérios diferenciados, consideração das carreiras longas, da penosidade laboral, da produtividade e da sustentabilidade da Segurança Social.