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quarta-feira, dezembro 09, 2015

Os sete anos que mudaram quase tudo



Os sete anos que mudaram quase tudo
Cavaco está quase a passar à história mas a sua história não se resume aos dois mandatos como Presidente.
Entre 1985 e 1991 ele coincidiu com uma curva muito apertada dos tempos modernos; o fim da URSS e do sistema soviético.
Durante esse período o PCP encontrava-s entre dois fogos. 
Por um lado as denúncias e reformas pouco ortodoxas de Gorbatchev e, por outro, a dinâmica vitoriosa de Cavaco e do que ele representava. Internamente as dissidências eram causa e consequência.
Os acontecimentos na URSS dificultavam uma lógica revolucionária e, ao mesmo tempo, a prática eleitoral em Portugal revelava cada vez mais as suas próprias limitações.
Nos oito anos que medeiam entre 1983 e 1991 o PCP passou de 18,07 % e 44 deputados para 8,8 % e 17 deputados.
E as coisas nunca mais voltaram a ser como eram antes.

terça-feira, novembro 23, 2010

Joaquim Gomes

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O Joaquim Gomes foi a enterrar no Domingo passado.
Esta notícia triste fez-me recordar os meus vinte e tal anos quando o conheci.
Eu tinha vindo da Guiné e retomara a minha actividade partidária no princípio dos anos setenta, antes da Revolução.
A primeira vez que nos encontrámos, em Campo de Ourique, depois dos complicados protocolos a que obrigava a clandestinidade, pareceu-me um calmo contabilista por causa do seu trajar convencional e austero.
Essa nossa reunião, de curta duração, decorreu enquanto caminhávamos pelas ruas daquele bairro tão característico de Lisboa.
Depois disso passámos a reunir em minha casa, nas Linhas de Torres, onde por vezes pernoitava. Longos serões de informação política e distribuição de tarefas.
Ele estava então na maturidade dos seus cinquenta e tratava-nos com afabilidade, demonstrando compreensão pelo nosso estatuto de quadros bem remunerados numa empresa multinacional.
Pela natureza das coisas eu não fazia ideia nenhuma de quem ele era nem da sua importância na estrutura do Partido.
Só depois do 25 de Abril, através dos jornais, soube o seu nome.

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quinta-feira, setembro 24, 2009

Avante ou avançar ?

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Acabo de me cruzar com uma uma arruada (ou avenidada pois foi na Av. da Igreja) da JS, comandada para meu espanto pelo bisonho Vitalino "apanha as" Canas.
O homem, em pessoa, parece um daqueles tipos que ficaram até muito tarde nos escuteiros mas que, neste caso, usa fato com colete mesmo sob 29º de temperatura.
Um simpático jovem ofereceu-me a simpática raquette que figura neste post um adereço que, suponho eu, a JS recomenda ao povo para enxotar os problemas que o afligem.
Ao receber a oferta eu gritei: "Avante Portugal !", para testar o jovem. Ele, prevenido e bem formado, percebeu a provocação e respondeu: "Avante não, avançar !".
Talvez avante e avançar não sejam assim tão diferentes. Quando me meti no carro ouvi, no noticiário, que uma aliança pós-eleitoral entre o PS e o PCP começa a estar em cima da mesa.
Creio perceber que o Eng. Sócrates quer ver se arranja forma de evitar o Dr. Louçã, que ele considera, sabe-se lá porquê, um chato.
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sexta-feira, outubro 31, 2008

E hoje ? há condições para uma Revolução ?

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(clicar para ampliar)

Domingos Lopes, no Público de hoje, mostra-se chocado com o retrocesso na abordagem da derrocada da URSS patente nas Teses do próximo Congresso do PCP.

Eu já tinha falado desta questão aqui . Continuo a achar que a crítica deste retrocesso não deve implicar a "absolvição" das Teses de 1990. Também elas, embora menos anacrónicas, falhavam o essencial: explicar o "porquê" e não o "como".

Por exemplo dizer que "o marxismo-leninismo foi frequentemente dogmatizado para justificar práticas ultrapassadas e aberrantes" é apenas descrever "como" a URSS descambou e não esclarecer "porque" é que isso foi possível e realmente aconteceu.

Em minha opinião é tudo muito mais simples: A grande Revolução de 1917 veio antes de tempo, foi prematura. Nas condições concretas em que aconteceu, no plano tecnológico e de maturação do capitalismo, o sucesso da URSS comunista era práticamente impossível.

A grande pergunta que resulta é: e hoje ? as condições já estão criadas ? É isso que muita gente anda, ou devia andar, a tentar compreender.

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segunda-feira, outubro 06, 2008

Carta de demissão do Henrique de Sousa

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Publiquei na secção "Textos" do site DOTeCOMe a carta de demissão enviada por Henrique de Sousa ao PCP, com data de 29 de Setembro. Trata-se de uma prática que tem vindo a ser seguida no DOTeCOMe há vários anos em casos idênticos.
Obtivemos o texto directamente do Henrique que o cedeu na medida em que já tinha sido objecto de referências em vários meios de comunicação.
Afirmou a esse propósito: "...contrariamente à especulação jornalística que terá sido feita (ignorando o que é explicitado na própria carta), o meu acto de desvinculação não tem como "gota de água" ou causa próxima as Teses do próximo Congresso. É uma decisão amadurecida e exclusivamente individual, por razões que têm a ver com uma reflexão sobre o que mudou em mim e no PCP num ciclo político longo e não por razões de circunstância ou para intervir agora no debate interno do PCP ou com o PCP".

Do longo texto da carta seleccionei, por significativa, esta passagem:

"Entrei livre, livre saio. Em nome da liberdade e da libertação dos homens, em primeiro lugar dos trabalhadores, aderi e dei o melhor que soube e pude enquanto militante, depois funcionário e dirigente do PCP. Mas está esgotado o impulso e a convicção que justificaram a minha adesão e participação partidárias.
Não reconheço na orientação e direcção do PCP actual o dinamismo, a abertura e a capacidade de renovação que sustentem a construção de um projecto transformador à medida das exigências e mudanças do nosso tempo, certamente suportado na busca incessantemente perseguida da síntese revolucionária entre liberdade e igualdade e assumindo para isso uma exigente e mais profunda reflexão crítica sobre as experiências, as realizações e os erros dramáticos dos comunistas no século findo. Apenas tal desafio justificaria manter uma filiação partidária. Não o vislumbro no partido."

A carta completa pode ser lida aqui.


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quinta-feira, setembro 25, 2008

A traição do tempo







A “traição de altos responsáveis do partido e do Estado” é um dos motivos apontados para a “derrota” do socialismo na União Soviética de acordo com as Teses ao XVIII Congresso do PCP que hoje são divulgadas com o jornal partidário “Avante!”.
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O socialismo, alternativa necessária e possível pode ler-se, na página 15: “Perante os complexos problemas que se manifestaram na construção do socialismo na URSS, assim como noutros países do Leste da Europa, o PCP expressou compreensão e solidariedade para com os esforços e orientações que proclamavam visar a sua superação, alertando simultaneamente para o desenvolvimento de forças anti-socialistas e para a escalada de ingerências imperialistas, confiando em que existiam forças capazes de defender o poder e as conquistas dos trabalhadores e promover a necessária renovação socialista da sociedade.
Mas certas medidas tomadas agravaram os problemas ao ponto de provocar uma crise geral. O abandono de posições de classe e de uma estreita ligação com os trabalhadores, a claudicação diante das pressões e chantagens do imperialismo, a penetração em profundidade da ideologia social-democrata, a rejeição do heróico património histórico dos comunistas, a traição de altos responsáveis do partido e do Estado, desorientaram e desarmaram os comunistas e as massas para a defesa do socialismo, possibilitando o rápido desenvolvimento e triunfo da contra-revolução com a reconstituição do capitalismo”.
PÚBLICO, 25.09.2008

Quando em 1990 me insurgi, no XIII Congresso do PCP, contra a pobreza das explicações encontradas pelas Teses para explicar a "derrota do socialismo no Leste da Europa" nunca me passou pela cabeça que, passados 18 anos, a mesma fórmula continuasse a ser repetida.
Assim, sem compreender profundamente o que aconteceu e porque aconteceu, nunca mais se fará o luto por uma experiência que devemos superar.

segunda-feira, agosto 04, 2008

A Herança

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"BE não descarta apoio a Roseta em Lisboa", titulava o Expresso desta semana. "Essa estratégia é defendida no programa com que Luis Fazenda venceu a concelhia de Lisboa...". A estratégia referida é a do Bloco de Esquerda nas próximas eleições para a Câmara de Lisboa.


Não, não me vou referir ao percurso estranhíssimo de Roseta na política portuguesa nem vou relacionar esta "estratégia" do BE com as desavenças recentes envolvendo o vereador Sá Fernandes.


Esta notícia vem confirmar o meu pressentimento aquando da famosa sessão/festa/comício no Teatro da Trindade. O Bloco está a tentar constituir-se como herdeiro dos votos caídos do PS nas próximas legislativas, apoiando Alegre nas próximas presidenciais e Roseta nas próximas autárquicas de Lisboa. Para completar o quadro o BE também conseguiu que a JS adoptasse algumas das suas "propostas fracturantes" como o casamento entre homossexuais.


Ora a herança não se deve dispersar pelo que é preciso evitar que o PCP se habilite também. O seu isolamento e condenação pública têm sido obtidos através do empolamento da campanha contra as FARC e da condenação dos incidentes no Tibete.


Parece tudo muito bem esquematizado. Manuela Ferreira Leite, com a sua "emergência social", não parece estar à altura deste desafio.


Agora só falta percebermos como vai ser gasta a herança...


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sexta-feira, junho 06, 2008

Falemos claro



Falemos claro a propósito dos participantes no comício-festa do Trindade. Às portas do segundo semestre de 2008, atribuir identidade política, e a consequente legitimidade representativa, a ex-pintasilguistas é pelo menos caricato.


Quanto à Renovação Comunista, a outra ficção arregimentada para enfeitar o palco e que eu conheço bem, é uma organização que neste momento, infelizmente, está reduzida a um grupo de amigos que não representa ninguém. Quando surgiu, ainda nos tempos do saudoso João Amaral, despertou enormes esperanças e movimentações mas tudo isso se foi esvaindo por causa do sectarismo e vedetismo de meia dúzia de "dirigentes". Não será num táxi, mas num autocarro cabem certamente todos os dirigentes e as bases, que se conformaram em ser um apêndice do apêndice do BE.

Por isso são mais do que justas as análises que apresentam o comício do dia 3 como uma construção do BE, encenada como era hábito do PCP, com aliados que não têm existência própria e que obtêm, em troca, um destaque público completamente injustificado.
Em vez de procurar com trabalho e com afinco novos caminhos para a esquerda (unida, porque não ?) vive-se de parasitar influências e cargos com base numa fachada que nada tem por trás.
O facto de ainda ter na RC amigos, como o Jorge Nascimento Fernandes, não me obriga a pactuar com manobras políticas irresponsáveis.
O facto de ter rompido nos anos 90 com a militância no PCP não me leva a considerar correcta toda e qualquer actuação só porque é contra esse grande partido histórico.

quinta-feira, junho 05, 2008

Ainda a propósito de uma troca azeda de palavras


Não se passaram mais do que 24 horas sobre a minha resposta ao Vítor Dia garantindo-lhe que não alimentaria mais troca de palavras azedas entre os dois, quando vi o seu post sobre alguma desinformação que reinava na comunicação social a propósito da participação do PCP na tal festa-sessão do Trindade.

Isto porque eu próprio denunciei uma desinformação deliberada, porque foi repetida diversas vezes, promovida pela SIC Notícias e que não é referida pelo nosso bloguista. Provavelmente, não era esse o objectivo do seu artigo, mas era bom que de vez enquanto também se preocupasse com ela. Outra, num estilo que está a ser característico do Avante, encontra-se no artigo Ai que Alegria , de Anabela Fino, que denuncia com um sectarismo, invencionice e desinformação arrepiante a tal festa-sessão. Reconheço que não é esse o estilo do Victor Dias, mas não lhe ficaria mal, que de quando em vez também criticasse os seus amigos do Avante que escrevem prosa como aquela que referi.

Mas não é só por isto que volto ao comentário do Vítor Dias. Reconheço que citei a despropósito uma pessoa já falecida que não pode confirmar aquilo que me disse, nem defender-se dos ataques do Vítor Dias. Por esse motivo e em sua memória, lamento os inconvenientes daquela referência, que servia de justificação, para quem leu o meu texto , de ter passado a chamar Vítor Dias a todo os intervenientes no fórum, que vinham com prosas antigas de alguns renovadores.

Quanto, aos casos das declarações de Manuel Alegre ao Expresso, em 1996, e da votação do BE na Assembleia Municipal, são formas de ataque político de que eu discordo. Algumas chegam mesmo a ser de carácter, outras de desinformação política, como é o caso da referência constante à votação sobre a Bragaparques pelo BE, que mais não visa do que acusar o BE de estar a reboque dos interesses capitalistas. E quando na página da ORL do PCP se relatam “factos contra a política de direita na gestão PS/BE da Câmara de Lisboa” está-se mais uma vez em pleno desvario sectário e esquerdizante do PCP, de que nunca o Victor Dias se demarcou, que eu saiba.

Quanto às referências à veia estalinista de cada um de nós é preferível ficarmos por aqui, porque senão corremos o mesmo risco que atacou a discussão entre José Sócrates e Francisco Louçã. Ou seja, José Sócrates já sabendo que Manuel Alegre ia participar numa sessão-festa com Louçã , atiçou este, chamando-lhe mentiroso e covarde. Já se sabe que Louçã caiu na esparrela e respondeu-lhe no mesmo tom. Daí para a frente foi fácil passar a dizer que Manuel Alegre participava numa sessão ao lado de um inimigo do PS. Por isso, para não cairmos no mesmo mal, retiro o que lhe chamei, até porque as opiniões expressas no seu blog, no seu conjunto, não podem levar a esse epíteto.

Mas não gostaria de terminar sem um pouco de discussão política. Acaba o seu comentário com esta afirmação: “Inebriem-se JNF, o BE etc. quanto quiserem com Manuel Alegre. E depois, na próxima campanha eleitoral para as legislativas, quando ele voltar a fazer o papel que sempre tem feito nas campanhas eleitorais para o Parlamento - que é o ser a luva de esquerda para a mão de direita do PS - não se queixem nem se admirem.”
Só lhe gostaria de perguntar, num tempo em que as posições do PCP eram mais sérias e menos sectárias, o que foi que nós andámos a fazer com Ramalho Enes e o seu PRD? Nessa altura e bem considerou-se que havia um espaço entre o PS e o PCP que devia ser preenchido por um partido com as características do PRD. Não nos importámos de poder perder não sei quantos por cento de votos a favor dele e depois foi o que se viu, transferência directa para o PSD, de Cavaco Silva. São os riscos da unidade e da necessidade da reorganização das forças partidárias à esquerda do PS de Sócrates. Por isso não sejamos tão taxativos com aquilo que dizemos a propósito de Manuel Alegre. Já o vi ser muito bem recebido na Festa do Avante.

PS.: já o post ia a meio, quando vi o seu último comentário, daí ter introduzido algumas respostas que não pensava dar-lhe.
A imagem que acompanha o texto refere-se ao nome do Blog do Vítor Dias o Tempo das Cerejas.
Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/

Noite alternativa


Dada a minha já provecta idade começo a chegar à maioria dos eventos com grande antecedência. É o mal dos velhos. Por isso, desta vez, achei que não devia chegar à festa sessão Aqui e Agora, que se realizou no Trindade, com muita antecedência. Tinha-me bastado a experiência de um jantar de comemoração do 25 de Abril, que se realizou na FIL, em que tendo chegado com um quarto de hora de antecedência, encontrei uma sala vazia e senti um desconforto acentuado. O jantar encheu-se, mas só quarenta e cinco minutos depois da hora marcada, típico dos portugueses.
Foi neste estado de espírito que fiz pontaria para chegar à sessão-festa aí com uns dez minutos de antecedência. Quando cheguei vi bicha para entrar no Trindade, o que já me espantou. Quando estava a meio, alguém, por gestos, informa que já não havia lugares. Não desisti, alcancei mesmo a porta principal. Encontrei conhecidos que perguntaram se eu era subscritor do abaixo-assinado. Disse que não, também ninguém me tinha convidado. Então, não podia entrar.
Havia as alternativas possíveis, a tal sala num segundo andar onde se podia seguir o espectáculo por uma televisão gigante, ou então, recorrer à velha prática dos nossos vinte anos, que era esperar que todos desistissem e depois alguém nos permitia a entrada. Não tive paciência para isso. Vim para casa pelo mesmo caminho que fui, de metropolitano.
Nunca pensei que o Trindade só tivesse 490 lugares. Helena Roseta, à porta, justificava, dizendo que não tinham conseguido outra sala. Já ouvi outras versões. A Joana Lopes, e com razão, achou no seu blog que havia pouca ambição (“medroso” foi a expressão que ela utilizou). Eu na altura, um bocado ingenuamente, pensei que o espaço era suficiente. É porque não frequento muito o Trindade.
Chegado a casa sintonizei a SIC Notícias que deveria ser a única estação televisiva que aquela hora mostraria alguma coisa da sessão. Não me enganei, a determinada altura uma locutora, muito agressiva, lá ia interrogando as personalidades da esquerda. Mas o prato forte da noite foi a entrevista, de quase uma hora, ao Miguel Urbano Rodrigues (MUR).
Quanto à SIC Notícias vale a pena referir que a sessão foi sempre apresentada, e isto foi sistemático, e ainda hoje se repetiu, como sendo “promovida pelo BE com a participação do Manuel Alegre”. Ou seja, devia haver ordem expressa do seu actual Director, António José Teixeira, para que fosse essa a denominação que se daria àquela sessão. Desinformação? Que ideia.
Quanto à entrevista ao MUR fiquei um bocado espantado. Qual a razão porque uma televisão do sistema, bem alinhada com a ideologia dominante, convida alguém que se sabe que é simpatizante das FARC e as defendeu na entrevista, quando a simples hipótese delas estarem representadas pelo seu jornal ou por alguém afim na Festa do Avante levanta tanta indignação. Penso até que o Governo chegou a ameaçar intervir se aparecesse um stand com qualquer representação daquela organização. São mistérios, mas como ninguém viu aquela entrevista, ainda não se levantou nenhuma vozearia. Pela minha parte não tenho nada contra, mas que é estranho é.
Já se sabe que o MUR foi insistentemente convidado a pronunciar-se sobre o que se estava a passar no teatro da Trindade e sobre a subida nas sondagens do BE e do PCP. MUR fugiu a esta última pergunta, dizendo que não comenta a pequena vida política nacional, mas sobre a sessão lá foi afirmando que não era com festas que se combatia as desigualdades, mas com as massas e fez referência, não explícita, às manifestações bem participadas da CGTP. Na mesma linha do Jerónimo que teria dito que esta era a esquerda falante enquanto que a do PCP era a esquerda actuante.
Já se sabe que não há contradição entre estes termos, porque não há uns que defendam que a luta seja por palavras e outros por manifestações. De um modo geral os que estiveram no teatro também estão nas acções da CGTP. E quanto a Manuel Alegre, sempre é melhor que esteja com quem fala contra as políticas do Governo, do que com este.
Quanto ao conteúdo da entrevista poupo-me a mais comentários. Já em tempos escrevi muitos posts criticando posições do MUR. Penso que estamos numa maré de unidade e que não vale a pena mais comentários.
Terminaria dizendo que para a próxima gostaria de poder entrar e não ficar à porta a rogar pragas.

terça-feira, junho 03, 2008

As provocações e as alfinetadas do costume


Sobre a “festa sessão” promovida por um conjunto de individualidades, todas oriundas da esquerda, em que se destaca Manuel Alegre e gente do MIC, do Bloco de Esquerda e da Renovação Comunista, além de pintassilguistas, se hoje esta designação tem algum significado, e que terá lugar hoje, no teatro da Trindade, já apareceram provocações e alfinetadas. Darei um exemplo de cada uma.

Assim, na edição electrónica do Semanário vem publicada uma intrigalhada sem pés nem cabeça. Para o autor anónimo deste artigo “Manuel Alegre pode estar a trabalhar para dar de bandeja a Sócrates uma solução política para não cair nos braços da direita em 2009”. Ou seja, a sessão não seria mais de que uma conspiração entre José Sócrates e Manuel Alegre, para o PS, se necessitasse e não tivesse maioria absoluta, poder dispor de um apoio à esquerda. E qual era o objectivo desta tramóia: “o PCP, impedindo-o de subir eleitoralmente”.
Já se sabe que esta descrição omite num série de factos que o articulista não publica ou então, isso é mais grave, aldraba deliberadamente. No primeiro caso está esta afirmação: “Também não é certamente por acaso que no PS parece haver ordem para não atacar o poeta e até lhe ir dando palmadinhas nas costas.” Ora isto não é verdade, dada a reacção que já houve de Vitalino Canas, porta-voz do PS, e de António Vitorino, nas Notas Soltas, da RTP I. Mais exemplos são desnecessários.

Para ilustrar o segundo caso, temos a citação que o articulista faz do célebre artigo de Mário Soares, que diz que quer avisar, “como amigo que é do PS, (d)o perigo real de o PC subir muito eleitoralmente se Sócrates não cuidar da vida dos mais desfavorecidos”. Esquecendo deliberadamente que Soares se referia igualmente ao BE. Mas, como isto não se enquadrava nas intenções do artigo foi omitido.

Este artigo escrito anonimamente num semanário de direita parece, no entanto, favorecer o PCP, o que é estranho. Já não nos admiraríamos tanto se soubermos que aqui há provavelmente mão da Soeiro e que este tipo de artigos, com o ar de quererem desmascarar a cabala, mais não pretendem ser do que insinuações rascas para leitores desprevenidos.

Quanto ao exemplo das alfinetadas, o caso fia mais fino, até porque eu tenho uma história passada, que aproveito aqui para contar, com o senhor das alfinetadas.

Vítor Dias no seu blog, por sinal bastante interessante, e muito menos monolítico que a maioria de outros que seguem a mesma orientação, resolveu recorrer aos seus métodos costumeiros, indo buscar ao passado de Manuel Alegre algumas declarações que entram em contradição como que ele teria dito na entrevista que fez para a SIC Notícias a propósito da tal festa sessão. O assunto até era marginal ao que se estava a discutir, referia-se ao tratado de Maastricht , mas o nosso bloguista não se esqueceu da sua veia estalinista – sabe-se que Estaline tinha um dossier completo de todos os seus colaboradores, para em momento oportuno os poder chantagear se eles fugissem da linha – e lá foi buscar à ficha de Alegre umas declarações que este teria feito ao Expresso, em 1996, que contraditavam o que tinha dito na referida entrevista.

Este método é costumeiro. Ainda a propósito das últimas eleições para a Câmara Municipal de Lisboa, Vítor Dias lá vem com a ficha do Bloco de Esquerda dizendo que este, ainda no mandato de Santana Lopes, tinha votado a favor da permuta de terrenos da Bragaparques e a CDU contra. Bem pôde o Bloco mostrar um vídeo da sessão da Assembleia Municipal, que enquadrava perfeitamente a situação em que aquela votação teve lugar. Mas o Sr. Vítor Dias, na sequência da campanha da CDU, não largava o osso e aproveitava todas as ocasiões para relembrar o facto, nunca tomando em consideração os esclarecimentos prestados.

Ora estas fichazinhas do Sr. Vítor Dias parece que são antigas. Quando da crise entre renovadores e ortodoxo no PCP, estabeleceu-se aqui uma acérrima discussão entre uns e outros. E lá aparecia sempre, uma fichazinha com as posições antigas que Edgar Correia, João Amaral e outros renovadores tinham tomado e em que se provava que eles se contradiziam, ou seja, tinham afirmado uma coisa no passado e diziam outra no presente. Houve ainda outro caso, e essa discussão foi mais assanhada, sobre as posições relativas ao referendo sobre, na altura, a Constituição Europeia, sempre para mostrar as contradições sobre o que se agora dizia e o que se tinha defendido no passado. Eu, sabedor por intermédio do Edgar Correia, já falecido, de que o Victor Dias era pessoa para ter as fichazinhas de toda a gente e ir descobrir o que qualquer um tinha dito anteriormente, comecei a responder a todos os intervenientes e eram vários, chamando-lhes Vítor Dias, que nessa altura, verdade se diga, tinha a responsabilidade da agitação e propaganda, não sei se era este o termo, de todo o PCP. Penso que depois se afastou ou foi afastado dessas lides, o que resultou na feitura de um blog muito mais interessante e, por vezes, verdadeiramente informativo.

Quando já no tempo do seu blog, por impulso de colaboração, resultante dos meus conhecimentos, porque trabalhei muitos anos num cineclube, tentei corrigir-lhe o nome em português de alguns filmes de realizadores que ele publicitava, obtinha sempre como resposta uma troca do meu nome. A princípio pensei que fosse engano, depois percebi que era deliberado. Victor Dias, e com razão, estava-se a vingar de uma maldade que eu lhe tinha feito.

Nunca saberei se todas aquelas intervenções no tal fórum eram ou não dele. Que a prática pelo menos nos dois casos que citei é verdadeira, é um facto. Mas também reconheço que Vítor Dias tem uma boa memória, porque ressuscitou com muito pormenor e, penso, com grande verdade o caso da chegada de Álvaro Cunhal ao aeroporto de Lisboa e o chamado cerco da Constituinte (procurem no seu blog se estiverem interessados nos temas).

terça-feira, maio 20, 2008

50º Aniversário da Candidatura de Humberto Delgado a Presidente da República


Sei que estes posts também se fazem de memórias e que nem sempre sou obrigado a escrever prosa “séria”, mal de que muitas vezes padeço.

Tinha 14 anos quando Humberto Delgado se candidatou às “eleições” presidenciais de 1958. Faria 15 anos pouco depois da sua “derrota”.

O que fazia e o que sabia sobre a Oposição.

Vivia em Lisboa, sempre vivi, e estudava no Liceu Gil Vicente. Estava no 4º ano do liceu, com um atraso de um ano escolar em relação à idade. Era filho de uma família oposicionista, que me mantinha mais ou menos bem informado sobre as notícias que fervilhavam na Baixa lisboeta. Os meus pais trabalhavam no Terreiro do Paço. Estava pois a par dos mexericos, dos reboliços, dos abaixo-assinados, das cartas-abertas e de alguns comunicados da Oposição Democrática. Nunca por minha casa, que eu visse, passou o papel de bíblia dos comunicados do Partido Comunista.

Não me lembro se fui informado antecipadamente da chegada do Humberto Delgado à Estação de Santa Apolónia, regressado da sua visita triunfal ao Porto. Soube depois da repressão sobre aqueles que o tinham ido esperar. Um amigo meu contou-me mais tarde que tinha ido com a sua mãe, como quem vai esperar um familiar, à Estação ver o General.

O clima estava criado, todos os dias iríamos ouvir falar daquelas eleições e de Humberto Delgado. Nem eu, nem os meus pais, participámos em qualquer manifestação ou comício, mas todos os dias o tan-tan das notícias me chegava da Baixa.

Os meus amigos à época, que eram colegas de escola, não se interessavam por política. Eram jovens entre os 14 e 15 anos, mais virados para catrapiscar as raparigas que saíam da Escola Voz de Operário, que, na altura, era uma Escola Comercial para o sexo feminino, ou então para jogar bilhar no Largo da Graça. Eu, um pouco mais espigadote intelectualmente, já era mais dado a leituras.

Sei, no entanto, que o furacão Delgado impressionou a todos, foi motivo de conversa e de apoio. Mesmo aqueles que estavam a leste de qualquer preocupação política não deixaram de se entusiasmar com a personagem.

Não me recordo de muitas mais coisas, sei, no entanto, que alguns dos meus amigos foram ou tentaram ir ao célebre comício do Liceu Camões, aquele em que Santos Costa, pôs a tropa na rua. Tive depois a descrição de repressão e do que se passou nas imediações da praça José Fontana.

Lembro-me também que havia um grupo no meu liceu, em que participava o Mário Vieira de Carvalho, que tempos depois se tornou um bom amigo, muito desenvolto, que fazia às claras propaganda do General. Fui avisá-los, com a minha proverbial prudência, que não se expusessem demasiado.

Recordo-me igualmente de uma tia que tinha visto passar Humberto Delgado em Almada e que vinha excitadíssima com a loucura que tinha sido a sua recepção naquela localidade.

Pouco me recordo da campanha do Arlindo Vicente, outro dos candidatos da Oposição, que desistiu a favor do Delgado. Sabia que este tinha sido apoiado pelo Partido Comunista, enquanto que Delgado inicialmente não tinha sido.

Os meus pais, que me recorde, não foram votar, porque não achavam as eleições livres e tinham provavelmente medo de represálias nos seus locais de trabalho. É preciso dizer que os votos estavam separados e facilmente, dada a cor do papel, se distinguia o voto na Situação do da Oposição.

Tudo isto terminou de um modo muito triste para mim e para a Nação. Recordo que fui passar umas férias, das muitas que tínhamos, a casa de um tio, um fascista um pouco encapotado, que no dia em que a Oposição decidiu protestar contra a fraude eleitoral – devia ser Julho –, propondo que todos pusessem luto, não fossem a espectáculos e tomassem outras medidas que ilustrassem a sua indignação, me propôs irmos ao cinema para verificarmos in loco se as pessoas tinham aderido ao boicote. A minha ingenuidade e o desejo de ir ao cinema levaram-me a participar, um pouco a contra gosto, na farsa.

No ano escolar seguinte, acho que mudei de amigos, passei a reunir-me com eles ao cimo da R. Angelina Vidal, facto que já comentei num post anterior. Encontrava-me, para o Fernando Penim Redondo que os conhece, como Victor e o Osvaldo. Um dia, primeiro a medo e depois claramente, começaram-me a falar do “nosso homem”. Este não era outro senão o general Humberto Delgado. A partir daí criou-se entre nós uma amizade, a que depois se juntaram muitos outros, também adeptos do “nosso homem”, que durou para o resto da vida. Todos esses jovens aos poucos foram entrando para o Partido Comunista, alguns, como eu, já lá não estão, mas mantiveram sempre com a esquerda uma forte relação.
PS.: Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/

Reflexões em aberto sobre o Maio de 68


Num programa de Júlio Isidro, por sinal de uma piroseira indescritível, dedicado ao Maio de 68 e que passou na RTP I, na passada quarta-feira, Fernando Rosas, um dos convidados, considerou, por outras palavras, que, em oposição à visão de Sarkosy, que considerava que era necessário “liquidar a herança do Maio de 68”, o legado daqueles acontecimentos abriu as portas à modernidade dos nossos dias.


I – O revisionismo da direita

Aquela proposta de liquidação do Maio de 68, insere-se num certo revisionismo histórico, que sendo coisa demasiado complicada para um político fogo-de-vista, como é o Sr. Sarkosy, percorre no entanto muito do pensamento conservador contemporâneo e pode, por isso, ser perceptível mesmo para políticos menos dotados para as “questões filosóficas”.

Hoje a direita conservadora, com o apoio de alguma esquerda bem-pensante, tenta eliminar da história todos os momentos de grande transformação social, que, por essa razão, são portadores de uma dose, por vezes não controlada, de violência. Assim valoriza unicamente a Revolução Americana, de que resultou a independência da América do Norte e, segundo ela, a formação das sociedades democráticas do Ocidente, opondo-a à Revolução Francesa, principalmente à fase de domínio jacobino, o chamado período do Terror. Abomina a Revolução Russa, considerando que Estaline é o continuador, para pior, dos métodos de Lenine, que por sua vez já se fora inspirar em Marx.

Depois, mais recentemente, o nazismo não seria mais do que uma resposta ao comunismo e a II Guerra Mundial só terminou com a queda do Muro de Berlim, porque primeiro se derrotou o “totalitarismo” nazi, que no princípio estava associado ao comunismo, e depois o “totalitarismo” comunista com a “libertação” dos povos do leste Europeu (Bush dixit: ver notícia no Público e a prosa reaccionaríssima de um comentador americano, traduzida para brasileiro). Para alguns conservadores, só por acaso, é que houve uma aliança entre as democracias e os comunistas, que na altura, e bem, se chamava antifascismo, e se realizou uma conferência de Yalta, em que o principal representante das democracias, Roosevelt, era, para aqueles, um chefe débil e à beira da morte. Sobre todos estes assuntos ver a prosa interessantíssima de António Figueira aqui e aqui .

Também, o conservadorismo nacional tenta rever a nossa história contemporânea. É a reabilitação do Rei D. Carlos e o estigma dos regicidas, com a tentativa de impedir a transladação de Aquilino Ribeiro para o Panteão. É a República transformada em antecâmara da ditadura, pois seria tão prepotente como que aquela (veja-se as declarações de Rui Ramos ao Primeiro de Janeiro ou ao programa Diga Lá Excelência ). É o PREC transformado em ditadura comunista (ver este artigo do Diário de Notícias sobre a morte do cónego Melo).

Chegou agora a vez do Maio de 68 e é vê-los em bicha, desde o Vasco Pulido Valente até ao João Carlos Espada, a combaterem a herança do Maio de 68.


II – O adquirido civilizacional progressista

Retomando as declarações iniciais de Fernando Rosas, lembremos outras que ele fez ao P2, do Público, de 2 de Maio. A propósito das afirmações de Sarkosy considera que “mais tarde ou mais cedo, a lógica neoliberal do discurso político tinha que ir a Maio”. E acrescenta “os adquiridos civilizacionais progressistas de Maio só estarão seguros quando se escorarem numa verdadeira alternativa de poder à agenda e aos valores do neoliberalismo. Maio não é um fecho é uma abertura. Abre um campo de possibilidades muito actuais. Toda a nova esquerda europeia só pode ser pensada em função desse momento original e genético que são as revoluções de Maio”.

O discurso é empolgante, fala-se mesmo em revoluções, e não só no Maio de 68 francês. Mas é indispensável fazer uma reflexão mais fina. Pela minha parte tentarei fazê-la.

A parte mais consensual das heranças dos diversos Maios consiste talvez na conquista da igualdade de género, com a libertação da mulher das suas limitações sexuais, devido ao aparecimento da pílula, e com a sua independência económica, resultante do acesso maciço ao mercado de trabalho. Qualquer delas estarão mais ligadas a toda a década de 60 do que unicamente ao Maio de 68.

Quanto à transformação das mentalidades, o surgimento de um novo relativismo de valores e de uma maior liberdade individual – cada um por si –, é efectivamente um adquirido que eu continuaria a considerar mais da época do que do Maio de 68, mas que radica numa transformação social do assalariado de que irei falar a seguir.


III – A transformação da classe operária e da sua representação política

Penso que as greves operárias de 68 em França foram as maiores, na Europa Ocidental, da segunda metade do século XX, mas que constituíram também o fim de uma certa classe operária, como a entendíamos no pós-fordismo, integrada em grandes fábricas e fazendo parte de uma infindável linha de montagem, tal como era representada nos Tempos Modernos, de Chaplin. Em Portugal, com todos os atrasos que nos são característicos, tivemos também um exemplo dessa classe operária. Estava localizada na margem esquerda do Tejo e era constituída pela Siderurgia, pela CUF do Barreiro ou pelos estaleiros da Lisnave e Setenave.

Esta classe operária foi destruída. Terceirizou-se ou reformou-se. O que resta dela são hoje os operários de bata branca da Auto-Europa, ou então foi substituída por trabalhadores de Leste, por africanos ou brasileiros.

No resto da Europa a situação não foi muito diferente. Os grandes partidos operários desapareceram. Do PCF e do PCI já quase nada resta. Thatcher acabou por destruir a ala esquerda do Labour inglês. A social-democracia alemã está hoje muito mais desfigurada do que a que existia nos tempos de Willy Brandt .

Tudo isto teve efeitos devastadores, por um lado, na composição da esquerda europeia, por outro, na organização das forças capazes de resistir à ofensiva neoliberal.

Por isso, custa-me a perceber que um filósofo respeitável como Daniel Bensaïd, em entrevista à Visão História, Abril de 2008, possa afirmar que “os trabalhadores estão menos organizados e, por isso, menos capazes para resistir à brutalidade da ofensiva neoliberal. Mas, por outro lado, estão menos controlados por aparelhos e mais livres para lutas espontâneas.” Ou seja, de acordo com dados por fornecidos pelo entrevistado, a CGT tinha na altura “3 milhões de filiados, hoje tem menos de 700 mil, já contando com os reformados. O Partido Comunista tinha entre 20 a 25% dos votos e tinha o controlo, quase o monopólio, sobre a maioria dos trabalhadores. Por isso, entre estudantes e trabalhadores, em 68 havia um muro de desconfiança. Não era uma desconfiança espontânea, mas construída, principalmente pela CGT e pelo PCF. Hoje esse muro foi destruído. Isso é positivo”. Estranho que alguém, sabendo o que é a ofensiva neoliberal, e a dificuldade de resistência dos trabalhadores a essa ofensiva, possa ainda acreditar, em nome da espontaneidade das lutas, que a destruição dos sindicatos operários e dos seus partidos foi benéfica para combater essa ofensiva (ver igualmente uma entrevista sobre o Maio de 68 de Daniel Bensaïd ao Rebelion).


IV – Crítica à herança política do Maio de 68

Voltemos ainda às declarações de Fernando Rosas à Visão História, repetindo as suas afirmações finais: “toda a nova esquerda europeia só pode ser pensada em função desse momento original e genético que são as revoluções de Maio”.

Estou bastante em desacordo com esta afirmação. Primeiro como já o afirmei no ponto anterior, lamento não considerar como estruturante de uma nova esquerda a destruição das mais importantes centrais operárias, nem dos seus partidos, mesmo que isso corresponda a uma maior espontaneidade das lutas.

Segundo, que podemos nós hoje pensar da herança maoista, há muito renegada no seu centro de origem, e que constitui sem dúvida um dos piores momentos de sectarismo e de esquerdismo do movimento marxista, não correspondendo de modo algum a visão humanista e rigorosa dos seus fundadores.

Terceiro, que podemos nós hoje dizer, que interesse verdadeiramente à transformação social da Europa e à luta contra a ofensiva neoliberal, que tenha haver com o guevarismo – com a teoria do foco ou a criação de um, dois ou três Vietnames –, ou com o respeitável pensamento de Trosky, só provavelmente com a sua crítica à burocracia do antigo “socialismo real”.

Que pode hoje a esquerda, a que se reclama do Partido da Esquerda Europeia, retirar do Maio de 68 senão nostalgia e recordação dos bons velhos tempos. Politicamente, lamento dizer, mas Maio está morto desse ponto de vista. Hoje o nosso trabalho é outro. Temos que ir provavelmente apanhar os cacos daquilo que deixámos pelo caminho: Gramsci em primeiro lugar, o austro-marxismo, algum do marxismo ocidental, tão renegado pela ortodoxia soviética, Rosa Luxemburgo e a sua crítica ao centralismo bolchevique, provavelmente a Bukarine e a defesa do mercado no socialismo.

Por isso, afirmei em post recente “que bem exprimido o Maio de 68, na sua forma comemorativa e retórica, pouco nos deixou que verdadeiramente seja transformador das sociedades hodiernas”.

Considero que esta afirmação é discutível, e que se pode confundir com os ataques da direita. Contudo, penso que ao comemorar o Maio de 68 não o podemos reduzir a adorno da mediatização triunfante, que tudo transforma em espectáculo, ou de uma certa esquerda que dele se serve para ajustar umas contas com os antigos partidos comunistas. Tal como em todas as comemorações, temos que valorizar o que ainda hoje está válido e qual a sua contribuição para o processo transformador, tendo sempre em conta que o nosso discurso se integra na luta ideológica que quotidianamente travamos com a ideologia dominante.
PS.: Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/

segunda-feira, maio 12, 2008

Sectarismo no Avante!


Num artigo de um tal Henrique Custódio, na rubrica A Talho de Foice, do jornal Avante!, é feita referência a uma comemoração que ia ter lugar no ISCTE, no dia 10 de Maio, promovida pelo Bloco de Esquerda sobre o Maio de 68.

Logo, no próprio título do artigo se inicia a provocação, O Maio deles, dando a sensação que os do PCP comemoram um outro Maio, o dos trabalhadores, esquecendo que dias antes trabalhadores do PCP e do BE e de outras tendências tinham desfilado até à Alameda Afonso Henriques sob a bandeira da CGTP.

Acho também estranho que se considere como o Maio deles, o Maio de 68, quando o PCP, que eu me recorde, organizou, numa outra data redonda, um colóquio sobre o Maio de 68. Mas, passemos adiante.

Depois toda a prosa do artigo tem um tom chocarreiro, normalmente utilizado para retratar as iniciativas do primeiro-ministro ou da direita. Assim, um almoço transforma-se em “patuscada”, o “comício da praxe é abrilhantado pelo inevitável Francisco Louçã, esse líder fatal das “esquerdas” e são promovidos “artistas mimosos” de uma dada banda.

Depois, é insinuado que “por um conto réis ida-e-volta” se podia vir “passear” a Lisboa, para ouvir o Louçã, tal como os “excursionistas que vinham aos Maios promovidos pelos salazaristas nunca souberam quem era o tal “Baltazar” (faz referência à canção do Sérgio Godinho) que lhes pagava as viagens”. Ou seja, concretizando, as pessoas que vinham ouvir o Louçã, vinham só porque lhes pagavam a viagem, tal como no tempo de Salazar se fazia, quando se queria uma sala cheia.

O tom continua, agora fazendo referência a onde é que o Bloco foi arranjar dinheiro para fazer tal comemoração, já que os preços de participação eram baixos.

E termina, afirmando que o BE já arranjou lugar para si, “como se vê por esta adaptabilidade aos truques “do mundo novo” que medra por aí”.

Sei que o Daniel de Oliveira já tinha feito um post sobre este mesmo assunto, no entanto, não quis deixar de lhe fazer referência, tal é a rasquice e o sectarismo que medram na mente de certos escribas do Avante!, com a autorização do seu Director, o José Casanova.

Em todo o artigo não há uma ideia sobre o Maio de 68, alguma divergência sobre a oportunidade da comemoração, só há galhofa e graves insinuações sobre um tipo de realização que é, do ponto de vista organizacional, igualzinha às do PCP.
PS.: Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Um Camelot du Roi à portuguesa


Fui assistir na quarta-feira ao doutoramento no ISCTE do jovem José Neves – a quem dou os parabéns – sobre o tema Comunismo e Nacionalismo em Portugal – Política, Cultura e História no Século XX. No final da sua dissertação afirmou que, com a sua tese, quis também escrever a história na perspectiva dos vencidos e citou, como contraponto à sua intenção, uma frase que tinha lido nesse dia e que atribuiu ao "historiador do Público": Luís Pacheco, recentemente falecido, tinha vivido entre duas ditaduras a de Salazar e a do PCP. Fiquei espantado, tinha lido naquele jornal os textos necrológicos que normalmente são reunidos quando alguma personalidade relevante morre e não tinha encontrado nada que se pudesse assemelhar a tão estranha, mas corrente afirmação.

Descobri que José Neves já tinha lido o Público desse dia e que frase era do historiador Rui Ramos, que semanalmente, às quartas, tem uma crónica naquele diário.

A frase, que depois encontrei, referia-se ao drama dos "jovens intelectuais" da "colheita literária de 1945" – Cesariny, O’Neil e outros, incluindo Luís Pacheco –, que "passaram os trinta anos seguintes a ser moídos entre a ditadura política do Estado Novo e a ditadura cultural do PCP". Ou seja, por outras palavras, confirmava-se o que eu tinha ouvido da boca do José Neves.

Já se sabe que para reforçar esta provocação o “historiador do Público” tinha que recorrer à bênção de algumas prestimosas figuras intelectuais: Eduardo Lourenço, que segundo o autor explica bem esta situação, ou então ao diário de Virgílio Ferreira ou à correspondência de Jorge de Sena. Os dois últimos estão mortos e não podem vir desmentir o que se lhes atribui. Provavelmente Virgílio Ferreira até concordaria, quanto a Jorge de Sena, tenho dúvidas. Em relação a Eduardo Lourenço considero-o probo de mais para aparecer misturado com este pequeno provocador de direita.

Mas analisemos a prosa deste camelot du roi de trazer por casa. Os trinta anos a seguir a 45, altura em que surgiu o surrealismo, que desalinhou com o "nacionalismo salazarista e o neo-realismo comunista", vão parar a 1975, o que só por manifesta ignorância se pode considerar como a época "colonizada por “antifascistas” e académicos, todos muito respeitáveis". Todos sabemos, os que vivemos aquela época, que em 75, vá lá nas vésperas do 25 de Abril, há muito que o neo-realismo como corrente literária tinha esgotado a sua capacidade de intervenção, e que se de facto os grandes escritores portugueses eram antifascista, o que deve desagradar muito a este corifeu da direita, a verdade é que novos caminhos literários e com outras problemáticas tinham surgido. Não falando do Virgílio Ferreira, temos, no entanto, o Cardoso Pires, o Augusto Abelaira, o Stau Monteiro, o Nuno de Bragança, o próprio Urbano Tavares Rodrigues, que estava longe de ser neo-realista. Ou gente que veio do surrealismo, como o Ernesto Sampaio, o Virgílio Martinho ou o Mário-Henrique Leiria, e depois, como o Luís Pacheco, se aproximaram do PCP.

É difícil a um historiador, que tinha meia dúzia de anos em 74 perceber este meio literário, cheio de pequenas intrigas, que tinha ódios de estimação, recordava memórias e picardias de há vinte ou trinta anos atrás. Mas uma coisa era certa não usufruíam das sinecuras, dos bons lugares, dos convites para a rádio e a televisão, não reforçavam de certeza o seu fim de mês com a prosa escrita para os jornais do regime. Por isso, para os bens instalados de hoje este meio pode parecer claustrofóbico, mas a única ditadura que havia era de Salazar, com a PIDE a vigiar os cafés e a fazer relatórios sobre o que aqueles “irados” diziam.

Mas depois desta prosa do Rui Ramos, o mais espantoso é lermos o Avante! desta semana, dedicando um longo texto ao Luís Pacheco, escritor e comunista, com um discurso do José Casanova, no seu enterro, lembrando que uma das condições que ele exigiu para se tornar membro do Partido, é que tivesse um enterro como o Ary, com bandeira do PCP e discurso.

Pode o Sr. Rui Ramos tentar recuperar para a sua ideologia o Luís Pacheco, o provocador dos grupos “nacionalistas e neo-realistas”, mas na sociedade dominada pela beatice e pelo respeitinho o Luís Pacheco tinha sempre que ser subversivo, coisa de que está longe ser o “historiador do Público”.

PS.: Camelots du Roi, grupo de provocadores católicos e monarquistas, adeptos da Action française, de Charles Maurras, que pontificavam entre as duas guerras e que participaram activamente nos motins provocados pela extrema-direita em França, no dia 6 de Julho de 1934.


Este texto foi publicado inicialmente em Trix-Nitrix, um novo blog que eu criei.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

"Lenine e a Revolução” de Jean Salem – Uma análise crítica – Parte II

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Começaria esta segunda parte da crítica ao livro de Jean Salem, Lenine e a Revolução, por repor a verdade em relação às transcrições que na primeira atribuí a Francisco Melo, que apresentou o livro na sessão do seu lançamento, e que segundo o mesmo são de Rodney Arismendi, que foi Secretário Geral do Partido Comunista do Uruguai entre 1955-1987, e que morreu em Dezembro de 1989. Esta confusão deve-se a que o Avante!, na notícia relativa ao lançamento do livro, atribui aquelas afirmações a Francisco de Melo, enquanto que este as remete para o político referido, de acordo com o texto integral da sua apresentação publicado posteriormente pelo mesmo jornal .
Mas mais reveladoras do que citações referidas , são as afirmações do próprio Francisco Melo que, a propósito da intervenção de Álvaro Cunhal no XIII Congresso Extraordinário do PCP, realizado em Maio de 1990, sobre os cinco principais traços negativos presentes na construção do socialismo real, considera “que não evitámos ser levado nas nossas análises a pôr uma tónica excessiva nas deformações e na derrota do socialismo real e nas suas causas internas...; não evitámos a permanência de grandes lacunas na contextualização histórica, interna e externa, da construção do socialismo e na reposição da verdade histórica dessa construção; não evitámos as fraquezas da nossa intervenção ideológica na luta contra as falsificações e caricaturas em catadupa bolsadas pelos nossos inimigos de classe. Trata-se de debilidades e omissões que não devem ser minimizadas e muito menos deixadas em silêncio...”.
Pretende, pois, o autor desta citação, apesar do ar sério e respeitador com que trata Cunhal, pôr em causa as limitadíssimas criticas que em tempos aquele fez ao socialismo real, recuperando no seu conjunto todo o passado da URSS e porque não, por enquanto ainda de forma envergonhada, a acção de Estaline.

I – Seis teses sobre Lenine e a Revolução
Mas passemos ao livro. Na primeira parte desta crítica realcei de forma positiva as críticas que Jean Salem, o autor de Lenine e a Revolução, fazia a algumas das ideias feitas que a ideologia dominante expendia sobe a União Soviética e que vinham expressas no seu Prefácio ao livro. Deixei para análise posterior a parte referente ao tema que está na origem do próprio título da obra referida.
O autor resume em seis teses aquilo que Lenine pensa sobre a Revolução. O texto é simples e esquemático. Não resulta de qualquer investigação mais apurada sobre a época histórica em que o autor estudado viveu, nem da análise dos grandes confrontos político-ideológicos que aquele revolucionário travou com alguns dos seus contemporâneos. Estamos perante um livro de divulgação, que baseou o seu objecto de estudo nas Obras Completas de Lenine. Com citações que, mesmo na edição portuguesa, são acompanhadas, para que não restem dúvidas aos “ignorantes”, da sua versão original, em russo.

1 – Primeira tese
Logo a primeira tese dá um pouco o tom de todas elas. Assim, assume explicitamente: “A revolução é uma guerra; e a política é, de uma maneira geral, comparável à arte militar”. Por isso, afirma que Lenine para falar do partido operário recorre frequentemente a metáforas militares. Porque, citando o revolucionário russo, “os partidos socialistas não são clubes de discussão, mas organizações do proletariado em luta.” Quantas vezes no PCP esta frase não foi dirigida contra aqueles que, discordando, queriam continuar a discutir as orientações traçadas.
O autor realça, ainda em relação à primeira tese, que Lenine considerava que depois da revolução falhada de 1905, ainda durante o regime czarista, se tinha iniciado uma época de revoluções na Europa, e que se devia transformar a guerra imperialista que então se tinha iniciado (1914) em guerra civil, dos “oprimidos contra os opressores”. Mesmo a paz de Brest-Litovsk, que permitiu o jovem poder soviético retirar-se da Primeira Guerra Mundial, com grandes custo territoriais, e depois a NEP (Nova Política Económica), iniciada em 1921, são apresentadas em termos de trégua e recuo militar indispensáveis para reunir forças para novas batalhas.

2 - Segunda tese
A segunda tese consiste no seguinte: “uma revolução política é também e sobretudo uma revolução social, uma mudança na situação das classes em que a sociedade se divide.” Nesta tese define-se aquilo que Lenine considera a revolução: “é a destruição violenta da superestrutura política antiquada”, de uma superestrutura que não corresponde já às novas relações de produção. E conclui Jean Salem, parafraseando Lenine: “qualquer revolução política, qualquer revolução verdadeira – que não se limita à substituição de camarilhas –, é uma revolução social, uma “deslocação” de classes em que a sociedade se divide”. Mas os factores subjectivos têm também o seu papel no desencadeamento das revoluções. Aos olhos dos marxistas, segundo Lenine, a sua propaganda conta-se “entre os factores que determinarão se haverá revolução ou não”.

3 – Terceira tese
A terceira tese: “Uma revolução é feita de uma série de batalhas; cabe ao partido de vanguarda fornecer em cada etapa uma palavra de ordem adequada à situação objectiva; cabe-lhe a ele reconhecer o momento oportuno para a insurreição”. Esta tese refere-se à oportunidade de se lançar a revolução. Assim, Jean Salem começa por citar Lenine, num texto já muito conhecido, “só quando “os de baixo” não querem o que é velho e “os de cima” não podem continuar como dantes, só então a revolução pode vencer” e conclui com a citação “é preciso escolher o momento oportuno para as lançar”, mas “a hora da revolução não pode ser objecto de previsão”.

4 – Quarta tese
A quarta tese, a mais polémica e aquela que favorece o modo como a ideologia dominante gosta de ver Lenine, é a seguinte: “os grandes problemas da vida dos povos nunca são resolvidos senão pela força.” Nesta tese temos a explanação da teoria de Lenine sobre o Estado, em que aquele afirma que “o Estado é um órgão de dominação de classe, um órgão de opressão de uma classe por outra, é a criação da “ordem” que legaliza e consolida esta opressão moderando o conflito de classes” e, mais adiante, “é a organização especial da força; é a organização da violência para a repressão de uma classe qualquer” e, conclui, “a república burguesa mais democrática não é “mais do que uma máquina de repressão da... massa dos trabalhadores por um punhado de capitalistas”. Depois, ainda segundo Jean Salem, continuando a citar Lenine, “só é marxista aquele que alarga o reconhecimento da luta de classes até ao reconhecimento da ditadura do proletariado”. E deixando-se embalar neste tom chega afirmar, reportando-se ainda a Lenine, “porque o proletariado necessita do poder do Estado, de uma organização centralizada da força, de uma organização da violência, tanto para reprimir a resistência dos exploradores como para dirigir a imensa massa da população...”.
A seguir, ainda dentro da mesma tese, desenvolve a ideia, que Lenine retomou de Marx, que “a classe operária deve quebrar, demolir a “máquina do Estado que encontra montada”, e não limitar-se á sua conquista”. Por isso, Jean Salem pode afirmar que para Lenine “a substituição do Estado burguês pelo proletário é impossível sem revolução violenta”. No entanto, de acordo ainda com o autor, o revolucionário russo “recordará “a justeza da luta” tradicionalmente conduzida pelo seu partido “contra o terror como táctica”, isto a propósito de muitas vezes se considerar que as propostas de Lenine se assemelham ao “blanquismo”.

5 – Quinta tese
A quinta tese – “os revolucionários não devem renunciar à luta pelas reformas” – só está incluída no livro que temos vindo a referir, porque esta tese no texto, que foi apresentado no II Encontro Internacional de Serpa, já referido na primeira parte deste artigo, foi, estranhamente, suprimida. Ela resume-se na expressão de Lenine, quando ainda o seu partido não se designava comunista: “os sociais-democratas não são hostis à luta pelas reformas, mas ao contrário dos sociais-patriotas (designação utilizada por Lenine para os partidos sociais-democratas que na I Guerra Mundial tinham apoiado os seus governos – JNF), dos oportunistas e dos reformistas, subordinam-na à luta pela revolução”. No entanto, Jean Salem convoca igualmente para esta tese esta citação de Marx, referida por Lenine: “existem, numa revolução, momentos em que abandonar uma posição ao inimigo sem combate desmoraliza mais as massas do que uma derrota sofrida em combate” ou ainda, de acordo com o revolucionário russo: “não só a derrota instrui, mas também “as revoluções vencem... mesmo quando sofrem uma derrota”.

6 – Sexta tese
Na sexta tese fala-se de que “na era das massas, a política começa onde se encontram milhões de homens, ou mesmo dezenas de milhões. É necessário, além disso, promover a deslocação tendencial dos focos da revolução para os países dominados.”
Fazendo jus ao título da tese, Jean Salem cita novamente Lenine, quando este diz que “uma revolução só se torna revolução quando dezenas de milhões de pessoas se erguem num impulso unânime”. O que distingue a revolução da luta habitual é que “aqueles que participam no movimento são dez vezes, cem vezes mais numerosos”. E acrescenta, pode por vezes bastar um partido “muito pequeno” para “conduzir as massas”. Em determinados momentos não há necessidade de grandes organizações, “mas para ter a vitória é necessário ter a simpatia das massas”.
Por último, aquele que é quanto a mim um dos problemas centrais da Revolução de Outubro, e Jean Salem volta novamente a citar Lenine: “a revolução russa pode vencer pelas suas próprias forças, mas em nenhum caso ela é capaz de manter e consolidar com as suas próprias mãos as suas conquistas. Não poderá consegui-lo se não houver revolução socialista no Ocidente”. E termina esta tese com uma certa tonalidade amarga, que, como sabemos, corresponde ao que de facto sucedeu, com a afirmação de Lenine de que “veremos a revolução internacional mundial, mas por enquanto isto é muito belo, um conto muito bonito”.

II – Uma reflexão crítica
Sei que a maiorias dos leitores detesta aqueles críticos que lhe revelam a história do livro ou o final do filme. Sei que em relação a um livro de ensaio a descrição do seu conteúdo é menos grave, mas não deixo de reconhecer que vos macei com o realce daquilo que em cada tese eu penso ser o mais importante. Considerei, no entanto, para se perceber o que a seguir vou dizer, que este relato maçador era imprescindível.
Este livro insere-se numa ofensiva do velho marxismo-leninismo, contra as correntes renovadoras da ideologia comunista e tendo ainda como alvo o que poderá restar do eurocomunismo ou da perestroika. Se no prefácio se faz uma crítica justa ao modo como o pensamento dominante analisa a União Soviética ou o que foi o “socialismo real”, vai subliminarmente insinuando que o “revisionismo” contemporâneo é cúmplice desta ofensiva. A referência que fizemos às palavras ditas no seu lançamento visa enquadrar o tipo de preocupações de quem neste momento edita este livro.
Por outro lado, a crítica entusiástica que Miguel Urbano Rodrigues lhe dedica, e que já foi referida na I Parte, atesta bem como o livro de Jean Salem é importante para um certo revolucionarismo marxista-leninista.
Mas deixemo-nos da análise das intenções e passemos aos factos. Rememorar tudo o que Lenine disse na sua época histórica, sobrevalorizando o papel quase militar que Lenine atribuía ao Partido, à violência como parteira da história ou à transformação da guerra imperialista em guerra civil, é esquecermo-nos que já passaram quase cem anos sobre estas formulações, que elas tinham uma clara concordância com um tempo histórico que é manifestamente diferente do de hoje. Mas, o que é mais interessante de tudo isto é que paulatinamente estas posições foram sendo abandonadas pelo movimento comunista, não hoje, mas no tempo que estes autores consideram provavelmente como heróico. É certo, continuando sempre a afirmar a sua fidelidade aos princípios do marxismo-leninismo.
Quem estudou minimamente a evolução da Internacional Comunista compreende que se a estratégia revolucionária era no essencial, por vezes com grande sectarismo, aquela que Lenine formulara, e que Jean Salem tenta corporizar em seis teses, com a teorização das Frentes Populares por Dimitrov, no seu VII Congresso, em 1935, esta linguagem e estas opções começam-se a tornar irreconhecíveis. A aliança entre comunistas e sociais-democratas, a luta pela democracia, contra o fascismo, não se podem unicamente enquadrar na luta pelas reformas, como está explícito na quinta tese, mas traz contribuições muito importantes para o desenvolvimento do movimento comunista. Entre nós, Francisco Martins Rodrigues, um dissidente nos anos 60 do PCP, no seu livro Anti Dimitrov – 1935-1985: meio século de derrotas da revolução reporta àquela época o início de todo o “revisionismo” contemporâneo.
Mas é ainda durante a II Guerra Mundial, quando da grande coligação entre as burguesias patrióticas e anti-nazis e as diversas formações do movimento operário (socialistas e comunistas), de certo modo responsável por aquilo que inicialmente seria o conceito de democracia popular, que se verifica mais uma inflexão acentuada da teoria sobre a Revolução defendida por Lenine.
É interessante relembrar a pressão exercida por Estaline sobre Tito para que este estabeleça um Governo de aliança com outras forças políticas, e não queira implantar de imediato a República Socialista. Ou então, as pressões sobre Mao para que este se aliasse no final da II Grande Guerra com o Komitang.
Mas mais recentemente (1956) podemos relembrar a defesa que Khruchtchev faz, no XX Congresso do PCUS, da via pacífica para o socialismo, que esteve na origem da grande divergência com os chineses.
Mas recorrendo a exemplos da política nacional, temos a supressão do termo ”ditadura do proletariado” do programa do PCP, opção mais prática, para “inglês ver”, do que teórica, mas que no fundo corresponde à necessidade do Partido Comunista se adaptar aos tempos actuais. E por muito que custe a alguns, o próprio conceito de Revolução Democrática e Nacional, as tarefas necessárias para derrubar o fascismo, apesar de defender o levantamento nacional armado, fugia às formulações leninistas de ditadura do proletariado e de revolução socialista. Facto que sempre foi criticado pelos “esquerdistas” de todos os matizes, que baseavam as suas divergências com o PCP na crítica àquela opção.
Não é por acaso que teve recentemente tanto êxito entre alguns militantes do Partido Comunista uma declaração do PC da Grécia, a propósito do 90º aniversário da Grande Revolução Socialista de Outubro, em que se dizia: “No Ocidente capitalista, os partidos comunistas não puderam elaborar uma estratégia de transformação da guerra imperialista ou da luta de libertação numa luta pela conquista do poder operário. Eles remeteram o objectivo do socialismo para mais tarde e definiram tarefas que se limitavam a luta na frente contra o fascismo. O ponto de vista que prevalecia na altura, sustentava que era possível a existência de uma forma intermédia de poder, entre o poder burguês e o poder da classe operária revolucionária, com a possibilidade de vir a evoluir para um poder operário.” Ou então, esta outra: “A política seguida por um bom número de partidos comunistas que consistia em colaborar com a social-democracia, fez parte da estratégia da «governação anti monopolista», uma espécie de estado intermédio entre o capitalismo e o socialismo, que se expressava igualmente através de governos que tentaram administrar o sistema capitalista.”
É evidente que esta crítica do PC da Grécia, que parece dirigida às posições dos partidos comunistas do ocidente, deve ser dirigida ao Partido Guia, o PCUS, responsável, em última instância, pela defesa daquelas orientações.
Neste sentido, este livro reflecte um mal-estar que existe no que resta do movimento comunista ortodoxo que, órfão das orientações e da coesão do “socialismo real”, se refugia numa imaginada pureza do marxismo-leninismo, dando a este uma orientação sectária e por vezes esquerdizante e abandonando, mesmo que sub-repticiamente, as anteriores posições unitárias.
Por outro lado, e para terminar, a visão que é dada de Lenine, principalmente na quarta tese, corresponde, como que reflectida num espelho, à visão que actualmente a ideologia dominante pretende dar daquele revolucionário, ou seja um Lenine de faca nos dentes, antecipando toda a série de horrores que caracterizou o tempo de Estaline. Ao depurar tanto o seu conceito de Revolução, chegam quase ao ponto de o transformar em chefe de grupo terrorista, coisa que de facto ele nunca foi.

quarta-feira, novembro 28, 2007

O que importa é morder o cão

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O Vítor Dias queixou-se recentemente, a propósito da Conferência Nacional do PCP sobre Questões Económicas e Sociais, da pouca atenção dada pela comunicação social.
Na altura esbocei, sem ofensa, umas explicações:
- o homem do PCP não morde no cão da novidade.
- também já não come criancinhas, que é tema da moda.
- agora o catastrofismo alimenta-se do aquecimento do planeta e dos acidentes rodoviários e não já do "espectro do comunismo", a pairar.
Entretanto a cobertura mediática do caso Luísa Mesquita suscitou-me uma outra grande ideia para garantir a atenção dos meios: expulsar alguém todas as semanas. Parece excessivo mas, pelo que sei, candidatos habilitados não faltarão.
Esta proposta só é válida enquanto não for possível recrutar Santana Lopes e nomeá-lo líder do grupo parlamentar.

sábado, novembro 10, 2007

Os desvarios ideológicos de um militante do PCP


Publicou o Fernando Penim Redondo um texto controverso sobre Os 90 anos da Revolução de Outubro e entre os comentários ao artigo apareceu um de António Vilarigues (AV), que eu penso que é assumidamente militante do PCP, que indicava um conjunto de endereços electrónicos. Descobri que todos eles remetiam para o seu blog pessoal, onde tinha vindo a publicar um conjunto de post sobre a Revolução de Outubro, que eram quase todos retirados do Militante e do Jornal da ORL do PCP, mas havia um que me despertou particular atenção, a posição do PC Grego sobre a Revolução Socialista de Outubro e que era recomendado por AV.
Fiquei estarrecido, depois da leitura daquele texto, que tinha sido inicialmente publicado em ODiario.info, traduzido pelo próprio Vilarigues, quase que se poderia enviar uma mensagem ao Francisco Martins Rodrigues, um dissidente do PCP no início do conflito sino-soviético (anos 60), e um crítico pela esquerda da orientação do PCP, para que voltasse, porque estava perdoado.
Naquele texto dizem-se coisas tão espantosas, do ponto de vista da ideologia ainda oficial do PCP, como esta: “No Ocidente capitalista, os partidos comunistas não puderam elaborar uma estratégia de transformação da guerra imperialista ou da luta de libertação numa luta pela conquista do poder operário. Eles remeteram o objectivo do socialismo para mais tarde e definiram tarefas que se limitavam a luta na frente contra o fascismo. O ponto de vista que prevalecia na altura, sustentava que era possível a existência de uma forma intermédia de poder, entre o poder burguês e o poder da classe operária revolucionária, com a possibilidade de vir a evoluir para um poder operário.” Ou então, esta outra: “A política seguida por um bom número de partidos comunistas que consistia em colaborar com a social-democracia, fez parte da estratégia da «governação anti monopolista», uma espécie de estado intermédio entre o capitalismo e o socialismo, que se expressava igualmente através de governos que tentaram administrar o sistema capitalista.”
Ou seja, quer queira o AV ou não, isto é a negação das posições desde sempre assumidas pelo PCP na luta anti-fascista, que mereceram sempre uma vigorosa crítica dos, à época, chamados esquerdistas.
Eu acredito que se possa mudar de orientação política, fazer a crítica do passado, não se pode é, quando nada se disse sobre o assunto, assumir que estas posições sempre foram as defendidas pelo PCP. Duma penada deita-se pela borda fora o Rumo à Vitória do Álvaro Cunhal, que explicitamente se referia a As Tarefas do Partido na Revolução Democrática e Nacional ou então, o próprio Programa PCP para Uma Democracia Avançada no limiar do Século XXI, que defende aquilo que é criticado pelo PC Grego.
Mas o mais espantoso de tudo isto é que o site onde esta tradução aparece pela primeira vez é dirigido pelo Miguel Urbano Rodrigues e conta com a colaboração de dirigentes do Sector Intelectual da ORL do PCP, como o Filipe Diniz. Portanto gente que ao divulgar um texto destes deve saber o que está publicar.
Poder-se-ia pensar que afinal há liberdade no PCP para exprimir externamente aquilo que se quer. Penso que isto não é o reflexo da pluralidade de opiniões que existiriam naquele Partido, mas sim, que o PCP já não é capaz de distinguir o que eram as suas posições unitárias e anti-fascistas do passado, da sua posição actual de partido sectário e pouco amigo da unidade. Eu diria que o desvario ideológico tomou conta do Partido.

PS: concordo que este tipo de discussões, que se assemelham àquelas que católicos e protestantes travam a propósito da interpretação de alguns textos da Bíblia, não diga nada a quem sobre esta matéria é completamente leigo ou demasiado jovem para perceber os conflitos ideológicos que se travaram nos anos 60. Alguns eram mesmo guerras de alecrim e manjerona, sem qualquer significado para os dias de hoje. No entanto, há necessidade de certa precisão ideológica para que no debate das ideias não valha tudo e não se venda gato por lebre.