Mostrar mensagens com a etiqueta politica2005. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta politica2005. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, outubro 13, 2005

As eleições em FelgOeiras e GondoMarco


As eleições em FelgOeiras e GondoMarco

A histeria comunicacional instalou-se durante a campanha para as Autárquicas como se os únicos candidatos do país fossem o Fataltino e Valentorres.

As Entidades Oficiais, os Comentadores Certificados e os Dirigentes Partidários fizeram um corrupio de apelos para que o povo votante resolvesse nas urnas aquilo que as leis e os tribunais não tinham querido, ou sabido, resolver em tempo útil.
O povo foi até subtilmente ameaçado de conivência com os crimes que os “arguidos” possam ter cometido.

Este verdadeiro torção à separação entre a política e a justiça, que o povo recusou liminarmente, seria justificado pela “dignificação do sistema político”. Ora o povo sabe que o Fataltino e o Valentorres foram “nados e criados” nos partidos, a quem deram bons dividendos eleitorais e foram afastados, só agora, por receio de que os salpicos viessem a atingir esses mesmos partidos.

Os partidos e todos os que mistificaram esta questão, ocultando as suas responsabilidades atrás da “moralização”, ajudaram a dar mais uma forte machadada no nosso regime democrático. Os eleitores mostraram que reprovam esse sacudir da água do capote.

As votações, no geral, mostram que a população decidiu deixar à justiça a punição de eventuais crimes e votar nos candidatos que, bem ou mal, julga servirem melhor os seus interesses. Não votou nos candidatos por eles serem arguidos mas, sem dúvida, votou neles APESAR de serem arguidos.

Isso mostra que, para além de não dar crédito a todos os que apresentaram a eleição de Fataltino e Valentorres como um perigo para a democracia, os votantes entenderam que não tinham que ser eles a corrigir a inépcia e morosidade do sistema judicial. Também disseram que cabe aos eleitores, e não aos partidos, penalizar politicamente aqueles que o mereçam.

O funcionamento errático e obscuro do sistema judicial e político leva à relativização das situações; foi só aquele que fugiu aos impostos ? será condenável fugir a uma prisão preventiva que ninguém sabe quanto tempo vai durar ? dar, pela porta do cavalo, uns cobres para o clube da terra é mais grave do que gastar muitos milhões em estádios sem préstimo ? por que é que o autarca de Ponta do Sol, na Madeira, só foi acusado um dia depois das eleições ? é mais grave preferir os amigos nos fornecimentos à Câmara ou nomear os amigos para cargos e reformas chorudas mesmo que para tal seja preciso indemnizar os demitidos ? quantos autarcas estão a ser investigados pela polícia em todo o país ?
Esta moral relativista pode ser criticável mas mais ainda o serão aqueles que pela sua acção, ou omissão, permitiram que o incumprimento se generalizasse.

Os poderes instituídos detestam ser postos em causa e não é de excluir que os vencedores de FelgOeiras e de GondoMarco venham a pagar, nos tribunais, um preço muito elevado pela sua ousadia.

O sistema político tentou usar quatro casos de contornos rocambolescos, protagonizados por figuras frágeis, para limitar as veleidades dos cada vez mais numerosos que tentam fazer funcionar a democracia à margem dos partidos, apesar dos partidos e mesmo contra os partidos. Alcanena, Redondo, Alvito e Sabrosa são exemplos de vitórias de quem “correu por fora”.

FelgOeiras e GondoMarco não são casos isolados e, muito menos, aberrantes.
Tudo leva a crer que os eleitores desses locais são tão bons, ou tão maus, como quaisquer outros. Tudo leva a crer que os mesmos comportamentos ocorreriam, em circunstâncias equivalentes, em qualquer outro concelho de Portugal.
Que se saiba o Engenheiro Sócrates não enjeitou os votos maioritários (entre os 40 e os 50 por cento) que teve em FelgOeiras e GondoMarco em Fevereiro de 2005. Muitos dos votantes em Fataltino e em Valentorres votaram também em José Sócrates.

É caricato que aqueles que se dizem preocupados com a democracia se atrevam a qualificar os resultados eleitorais em função das motivações que presumem para os eleitores.
O crime dos FelgOeirenses e dos GondoMarquenses seria o de pôr os interesses locais acima do interesse nacional. Quem nos garante que foi o interesse nacional que motivou os votos que dados a Sócrates em Fevereiro ?
É preciso ser muito limitado para não perceber que por este caminho é que se põe a democracia em cheque.

As motivações dos eleitores, quaisquer que sejam, são uma questão íntima, inviolável e um direito soberano. As autarquias são apenas mais uma organização “corporativa” de interesses organizados com base na vizinhança em vez de serem definidos pela profissão ou qualquer outro identificador/diferenciador. As “corporações” são, no essencial, instrumentos para dar expressão e potenciar os interesses individuais.

É lugar-comum considerar que os eleitores, ao votar, estão a fazê-lo com o intuito de promover o Interesse Público. Nada permite confirmar tal crença.

Se tomarmos em consideração a forma como têm reagido às medidas de austeridade de Sócrates os farmacêuticos e os enfermeiros, os juízes e os polícias, os funcionários e os professores teremos que concluir que a maioria absoluta de que ele dispõe não resultou de um mandato patriótico para “salvar as finanças públicas” mas sim de cálculos pessoais interesseiros baseados na ambiguidade quanto aos sacrifícios exigíveis aos portugueses e na promessa, feita durante a campanha, de não aumentar os impostos. É sempre mais fácil esperar que a solução resulte do sacrifício dos outros.

Em conclusão, não faz sentido irem a correr alterar a lei eleitoral para fingir que estão a “proteger a democracia”. Para salvar o Regime basta fazer funcionar a Justiça de forma expedita e corrigir os comportamento dos partidos e dos políticos, deixando de prometer o que não podem cumprir e deixando de gastar o dinheiro que não têm.

P.S. (ao cuidado de Mário Soares) – A eleição em Lisboa de um tipo feio, pouco mediático e sem pedigree partidário, e no Porto de um teimoso, quase-bronco que não se coíbe de mandar o Pinto da Costa “à fava” leva a pensar que o tempo dos ilusionistas está a chegar ao fim.

segunda-feira, agosto 29, 2005

Em tempo de presidenciais...


Sempre me fascinou a obsessão pelo tempo que tinha o malogrado Presidente Américo Tomás!

Ora vejam:

“Decorreu célere, como os que o precederam, o ano que acabou de sumir-se na voragem insaciável do tempo. Outro o substituiu, para uma vida igualmente efémera. Nesta mutação constante, afigura-se haver agora um fenómeno de visível incongruência, pois, quando tudo se processa a ritmo que se acelera constantemente, pareceria lógico que de tal circunstância resultasse um aparente alongamento do tempo e não precisamente o inverso. Mas a verdade é que, quanto mais aumentam as velocidades e o ritmo da vida, mais rapidamente, também, o tempo parece correr, donde se sempre o presente, mal o é, se torna logo em passado, nunca, como nos nossos dias, tão evidente verdade parece mais evidente.”

(Mensagem de Ano Novo, 1/1/1966)

sábado, agosto 06, 2005

Hiroshima, 6 de Agosto de 1945, 8:15 A.M.




Museu de Hiroshima

quinta-feira, julho 21, 2005

Um socialismo da birra ?



"Há "um capitalismo predador e selvático" que "só pode ser substituído por uma sociedade socialista""
Francisco Louçã, Publico 21/07/2005


Faz uma semana fiquei horrorizado com a entrevista do Público ao Jerónimo de Sousa, que considerei paradigmática da pobreza da reflexão e teorização da esquerda em Portugal.

Hoje, após ter lido a entrevista com o Francisco Louçã, em especial a sua parte "teórica", vejo-me obrigado a reeditar o meu desencanto pois ela confirma todos os meus receios.

A salganhada de conceitos, a fuga às definições claras e responsabilizantes, a falta de rigor na caracterização da situação actual e de perspectivação do futuro são a marca de uma política que navega à vista e para a câmara.

Não há uma única referência às relações de produção que parecem ter perdido o protagonismo para as relações sexuais (o homem diz que é marxista ?).

Quando perguntado "E o que é que é ser socialista no século XXI ?" apenas sabe referir aquilo que não quer, não há qualquer laivo de um mundo novo.

Trata-se então de um socialismo da rejeição ? da exclusão de partes ? um socialismo da birra ?

Mais inacreditável só a campanha do Louçã contra as "grandes fortunas" que ele avalia em 750.000 euros.

quarta-feira, julho 20, 2005

Estou a ver este filme...


...aqui, agora, 10 anos depois....


Raffarin - Munch



Cada primeiro-ministro prometia conciliar o liberalismo económico e o progresso social; todos falharam nessa tarefa e a opinião pública, depois de ter acreditado neles, retirou-lhes a sua confiança.
Finalmente, Jacques Chirac, encurralado pela próxima criação da moeda única europeia, encorajou Alain Juppé a fazer uma política de redução dos défices públicos que se traduziu numa forte baixa dos rendimentos e, portanto, num novo agravamento do desemprego.
A grande crise que rebentou no fim de 1995 não se deveu nem a um movimento social portador de uma visão de futuro nem foi puro efeito da resistência das vantagens adquiridas; sancionou o desmoronamento de uma sociedade política que, decididamente, não conseguia realizar as transformações económicas necessárias de maneira a reduzir desemprego, mantendo intacto o sistema de segurança social.
A crença suicida na incompatibilidade da abertura económica e da integração social empurrava a França para a beira do precipício.

Alain Touraine em "Como sair do liberalismo ?"

quarta-feira, junho 15, 2005

Que povo desceu à rua?






Hoje Lisboa acorda povoada de memórias, muitas delas tão anónimas que escondem heroísmos inimagináveis. Muitos deles, dos que vão caminhar até ao Alto de S.João, perdidos na multidão, vão ficar no silêncio da História e, no entanto, serviram para a construção dessa História.

Milhares e milhares de pessoas prestam hoje a última homenagem a Cunhal. Vêm do Alentejo e de toda a parte. Será um dia de ir ao poço da memória e matar a sede no deserto quando sonharam com o paraíso: a vez em que estiveram presos, a separação dos filhos, a impressão clandestina do Avante!, os longos exílios.

De trabalhadores manuais, de camponeses a intelectuais, todos tiveram um sonho e Cunhal era o sonhador que empunhava a bandeira. Haverá, por certo, muitas lágrimas de dor e despedida, mas também interrogações que se vão multiplicando: valerá a pena continuar ou este é o partido com que Cunhal sonhou e durante tantos e duros anos ajudou a construir? O Governo declarou um dia de luto nacional.

Cunhal nunca aceitou uma condecoração do Estado português, no seu despojamento, mas também porque recusava aceitar condecorações de Liberdade ao lado daqueles que nada fizerem para que ela existisse e se desenvolvesse.

A sua coerência, revolucionária, mas também ética, é um legado que deixa ao país confrangedoramente sem ética nem coerência.

O país, passada esta espuma emocional e este espasmo comunicacional, regressará à sua «apagada e vil tristeza». O povo que hoje desce à rua, em silêncio, não é por certo o mesmo que homenageou Amália ou orou pela irmã Lúcia.

É um povo que sonhou um país mais livre, menos dependente do Fado e Fátima, mais esperançado num mundo melhor e numa mais equitativa distribuição da riqueza e da terra.

Rogério Rodrigues, A Capital, 15/06/05




segunda-feira, junho 13, 2005

Álvaro Cunhal




Álvaro Cunhal 1913 - 2005


Um homem notável que terminou a sua árdua luta.

(clique na foto para aceder a um blog dedicado a Álvaro Cunhal)

quarta-feira, junho 01, 2005

Um logro do tamanho da Europa





A “escandalosa” votação do Tratado Constitucional, ocorrida em França recentemente, deu origem a uma desenfreada actividade dos comentadores e dos políticos.

Não é caso para menos pois os condimentos estão todos presentes; a “incongruência” e o ineditismo do resultado, a excepção e o exemplo que pode ser imitado, o dramatismo e a imprevisibilidade das consequências.

Curiosamente todos parecem considerar imprescindível ao Tratado que se consiga o “apoio popular” através do voto mas ninguém se questiona sobre a exequibilidade de os europeus votarem conscientemente nos referendos. Ora o voto que está a ser pedido reveste-se de uma complexidade enorme, vejamos porquê.

Nas votações nacionais é preciso, para votar em consciência, ter uma ideia formada sobre o interesse comum, ou interesse nacional, e depois avaliar as propostas em confronto ponderando os interesses pessoais, de grupo ou de classe.

Trata-se de um processo muito complexo para o qual, aliás, a maior parte dos votantes não tem nem preparação nem paciência. Como todos sabemos essa dificuldade é resolvida através da fidelidade partidária ou da identificação com os políticos carismáticos já que são formas de dispensar análises profundas.

Quando se trata de votar nas questões europeias a complexidade é ainda muito maior. Não basta conhecer o “interesse nacional” é ainda necessário ter alguma ideia sobre o “interesse da Europa” e depois proceder a uma avaliação de como se harmonizam, ou em que medida conflituam, tais interesses. Para este efeito é ainda necessário ter uma ideia do “interesse nacional” dos países que, em conjunto e em concorrência com o nosso, pertencem à União Europeia.

A esse nível actuam grupos de pressão locais e nacionais dos diferentes países sendo preciso considerar também os lobbies internacionais e mesmo globais. Um factor adicional de complexidade deriva das diferenças culturais e, as mais das vezes, dos preconceitos e rivalidades que a história produziu.
No caso presente, a votação do Tratado Constitucional, ainda acresce a dificuldade inerente à tecnicidade da “linguagem” pois se trata de um texto legal.

Sendo, como se explicou, as escolhas muito mais complexas quando nos movemos no âmbito europeu seria de esperar que se aplicassem, para as facilitar, os mesmos remédios que são usados ao nível nacional e que descrevemos mais acima. O que acontece é que não existem a nível europeu, ao contrário do que sucede a nível nacional, nem partidos nem políticos em que os votantes possam delegar a construção das suas opiniões na base da confiança. Por isso não deve estranhar-se que, como aconteceu em França, nas votações do Tratado os cidadãos se limitem a seguir as recomendações dos políticos nacionais em que confiam no momento de votar.

Por tudo o que foi dito anteriormente parece legítimo deduzir que um número significativo de “nãos” ao Tratado acabará por vir dos europeus que, conscientes da sua própria incapacidade para escolher, não querem ser compelidos a dar uma anuência passível de ser mal usada em fases posteriores.

Quem desenhou o processo de aprovação do Tratado nos moldes em que vigora foi uma de duas coisas: ou ingénuo ou mal-intencionado. Ingénuo se realmente acreditava no funcionamento democrático do esquema e mal-intencionado se, conhecendo a impossibilidade da participação consciente dos europeus, pensou poder através da manipulação do processo encenar uma adesão popular inexistente.

O tiro saiu pela culatra mas serviu para demonstrar que a UE já será muito ambiciosa mesmo que se limite a ser um fórum permanente de negociação e de harmonização dos interesses nacionais.

Teria sido muito mais sério e operativo admitir que os povos delegariam nos seus governantes, como fazem para os assuntos estritamente nacionais, a negociação do melhor Tratado possível.

Veja o debate no DOTeCOMe Forum

segunda-feira, abril 25, 2005

Victory Day






Clique na foto para aceder a um site dedicado ao 60º aniversário da vitória da URSS sobre o nazismo.

terça-feira, abril 12, 2005

As “fraquezas” da direita



Têm-se multiplicado, nos últimos tempos, as declarações inflamadas sobre as derrotas dos partidos da direita, sobre o hiato nas direcções desses partidos e até sobre a necessidade, ou mesmo a possibilidade, de refundar a direita em Portugal.

A meteórica governação santanista e as tragicomédias dos congressos do PSD e do CDS servem de pasto aos comentadores mediáticos e os dirigentes de esquerda, navegando nas mesmas águas, espalham entre os incautos uma confortável, mas perigosa, sensação de alívio e de bonança.

Impõe-se perguntar:
- será que os interesses da direita estão sob ameaça séria ?
- as principais teses da direita, a fundamentação das injustiças em que se baseia o seu poder, estão realmente em regressão ?

Infelizmente a resposta a tais perguntas é negativa.
Nenhum partido de esquerda perspectiva atacar os interesses materiais das classes dominantes. Todos eles concentram as suas propostas no plano das prestações sociais sem beliscar a organização social da produção e sem questionar a propriedade ou as relações de produção próprias do capitalismo.
Os “empreendedores capitalistas” são unanimemente considerados os únicos capazes de promover o desenvolvimento económico, autênticos “salvadores da pátria”.

A distinção tradicional, em que a direita defendia o status quo e a esquerda pretendia destruí-lo, passou à história.

Assim sendo cabe indagar a razão de tanto alarido nas hostes da direita.

É verdade que um partido como o PSD tem dificuldade em afirmar uma clara identidade ideológica e em diferenciar inequivocamente as suas propostas mas tal deve-se, no essencial, ao facto de o PS ter despudoradamente invadido o seu espaço político. Por isso as fronteiras são cada vez mais imprecisas e a refrega desliza para questões secundárias e arrevesadas.

A direita diz que é preciso controlar as despesas da “máquina do Estado” mas só para evitar que os impostos dos trabalhadores, que têm sido os principais pagadores do sistema, deixem de ser suficientes e que alguém tenha a “peregrina ideia” de fazer pagar também os poderosos. Daí resultam alguns acessos de gritaria liberal e as consequentes pressões e chantagens que, como é costume, levarão o PS a moderar os ímpetos da campanha eleitoral logo que estejam ultrapassadas as eleições autárquicas

Por outro lado as classes dominantes temem os perigos que o girar do mundo continuamente desenvolve; quer se trate da ameaça dos baixos preços chineses, dos galopantes preços do “crude” ou do impetuoso desenvolvimento da tecnologia essas classes não acreditam que o governo socialista, por incompetência, esteja em condições de salvaguardar os seus interesses.
O “choque tecnológico” é uma graçola que ninguém leva a sério.

Em suma, as grandes ameaças que pendem sobre os interesses da direita têm origem externa, independente da vontade e do controle dos partidos de esquerda e estes, se ameaça constituem, é mais no plano da incompetência para entenderem o que está em jogo do que pela existência de algum plano próprio para criarem uma realidade social alternativa.

Por isso as grandes discussões que se avizinham, em que os partidos de direita se preparam para lançar todas as forças do campo “académico” e da “consultoria internacional”, são apenas as do papel e dimensão do Estado na sociedade e também do peso relativo dos sectores produtivos (têxteis ou turismo ?) e das “opções estratégicas” nos transportes e na energia.

Triturados pelos imperativos da dependência económica os partidos de esquerda lá irão a reboque das “decisões inevitáveis” e não poderão ter outra estratégia que não seja a de proteger os “empreendedores nacionais” sob pena de ver desaparecer os empregos e minguar as receitas fiscais.

Sem equacionar este falso dilema e sem romper este “círculo vicioso” no plano ideológico será impossível transformar o mundo em que vivemos.
É necessário demonstrar a viabilidade de novas relações de produção, esse é o tipo de inovação de que mais precisamos.
Em vez de funcionários precisamos de cidadãos empenhados em construir um novo universo produtivo, um novo modo de produção.

Trata-se de um caminho difícil mas sem alternativa.

Por isso em vez da refundação da direita precisamos, isso sim, é de refundar a esquerda.

segunda-feira, março 14, 2005

Memórias do 11 de Março

Passaram 30 anos sobre o “11 de Março”, o golpe derrotado de Spínola que continuamos a comemorar com discursos “românticos”. Já seria tempo de tentar perceber o PREC em bases mais críticas.

Infelizmente somos incapazes de atribuir responsabilidades e de nos auto-criticarmos; inventamos sempre entidades demasiado genéricas como causa das nossas desgraças (a reacção, o imperialismo e outras) pelo que raramente aprendemos com os nossos erros e com as nossas derrotas.

O “11 de Março” foi pretexto para os jornais e as televisões publicarem textos, entrevistas e filmes que, vistos hoje, causam alguma estranheza e deveriam motivar um saudável debate na esquerda portuguesa. Não parece ser o caso, parece que ninguém quer “acordar” as perguntas incómodas que os factos históricos justificam.

Para ir contra a corrente aqui vão algumas memórias pessoais:





MOÇÃO APROVADA EM ASSEMBLEIA GERAL DE 12 DE MARÇO 1975

As forças dos monopólios e dos latifundiários lançaram mais um ataque contra o processo revolucionário iniciado no 25 de Abril.

Aproveitando-se da impunidade com que actuaram no 28 de Setembro e da presença entre nós de agitadores internacionais ao serviço dos potentados económicos, tentaram mais uma vez fazer regressar o fascismo com todo o seu cortejo de crimes de exploração e opressão.

Mais uma vez os trabalhadores se ergueram aos milhares, com os seus sindicatos e.com os partidos verdadeiramente democráticos e defenderam, na rua, a liberdade de levar a Revolução até às ultimas consequências.

Os trabalhadores da IBM, pondo-se ao lado,da massa dos trabalhadores portugueses, exigem:

1 - Castigo exemplar para os contra-revolucionários.

2 - Expulsão dos agitadores estrangeiros que tentam levar o nosso
país para a guerra civil.

3 - Aplicação imediata de medidas económicas e sociais que retirando aos monopólios e latifundiários o poder de que ainda efectivamente dispõem, tornem realmente irreversível o processo revolucionário.

4 - Proibição de todos os partidos que efectivamente estão do lado da reacção.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

A “política” como ópio do povo





Parafraseando Marx procuramos compreender como certas formas de fazer política têm o mesmo efeito alienatório que era atribuído à religião.

Paradoxalmente, ao longo do século XX, assistiu-se a todo o tipo de abastardamentos da política que fizeram dela, apesar do aviso de Marx, um conjunto de comportamentos de tipo religioso; os pseudo-messias, a crença na redenção longínqua e em uma nova vida “pós-qualquer coisa”, a permanente busca e castigo dos “hereges”, e outros.

A política era uma forma de escapar aos tormentos de cada dia e projectar-se num futuro ideal.
Aqueles que não eram “tocados por essa luz” precisavam de ser catequizados. Um dos maiores equívocos consistia em não se pôr sequer a hipótese de alguém não querer ou de alguém não considerar viável o mundo radioso que se almejava.

Essas perversas semelhanças entre a política e a religião já foram objecto de muitos e variados estudos e anátemas.

Na sequência da queda do muro de Berlim a política começou a parecer-se cada vez menos com a religião e a parecer-se cada vez mais com o futebol; a transcendência deu lugar ao primarismo, os “horizontes que cantam” desapareceram dos discursos, em vez de Messias passámos a ter os habilidosos “bons de bola” e em vez de hereges temos apenas as “claques” da outra cor.

Temos também o “offside” do Santana quando foi nomeado PM, as mudanças de treinador com “chicotada psicológica” protagonizada recentemente por Paulo Portas, as “transferências milionárias” do tipo Freitas do Amaral e os laivos de “apito doirado” atribuídos à dissolução do Parlamento à qual se seguiu uma “goleada” da equipa do Sócrates.

Os comentadores políticos já são pelo menos tão famosos como os comentadores desportivos e alguns até transitam elegantemente de uma condição para a outra (vide Santana e Seara, por exemplo).
Pacheco Pereira e Marcelo Rebelo de Sousa são as “irmãs Lúcia” destes novos tempos.

Enquanto que na sua “fase religiosa” a política se movia por grandes objectivos gerais, nesta “fase futebolística” a política é o reino dos cadernos reivindicativos de efeitos imediatos.
Mesmo os partidos com tradições revolucionárias, como o PCP, já só propõem os aumentos das pensões, e do salário mínimo em vez do “mundo novo” e do “homem novo”.
A esquerda moderna, ou seja da moda, adiciona umas pitadas de ervas “fracturantes” para ganhar as vanguardas do Bairro Alto.

A melhor distinção direita-esquerda que conheço é: todos dizem desejar o bem público mas para a direita ele é alcançável sem acabar com o capitalismo e a esquerda pensa que para isso é imprescindível a transformação radical do sistema.

Mas já ninguém fala do sistema excepto aqueles que, sintomaticamente, dizem que “outro mundo é possível”.
Notem bem: “é possível” e não “é desejável”, “é urgente” ou “deverá ser assim”.

Ninguém parece querer alterar profundamente as regras do sistema (do campeonato), as vitórias e as derrotas emanam dos fait-divers (dos dribles) amplificados pela comunicação social (pelas claques).
O leque de escolhas políticas disponíveis é demasiado estreito.

Estamos condenados ao clubismo mais delirante e ao “síndrome do penalti” que é uma forma de cegueira que nunca permite admitir os castigos contra a nossa equipa.

As campanhas eleitorais que estamos a viver são como um jogo de futebol em que, após 90 minutos de invectivas à mãe do árbitro e dos adversários, a vitória se decidisse não pelas bolas entradas na rede mas por votação dos adeptos presentes no estádio.

Infelizmente a política não é um jogo “a feijões”.

Veja o debate no DOTeCOMe Forum

.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

ALELUIA ! Temos de novo liberdade de expressão





Fiquei comovido quando ouvi hoje dizer, no Telejornal, que o Professor Marcelo vai voltar; na RTP 1 terá um programa carinhosamente intitulado "as escolhas de Marcelo".

Para dizer o que lhe vai na alma, em horário nobre, ainda receberá concerteza uns cobres.

Nós, que não temos pulpito nem avença, devemos afastar toda a inveja e alegrar-nos; como nos explicaram os clarividentes dirigentes dos partidos de esquerda o que está em causa, mesmo que não pareça, é a liberdade de expressão.

Libertemo-nos pois...

_______________________________________________


Eu não critico o Marcelo mas confesso que tenho inveja.

Quem eu não suporto são aqueles que, por não saberem fazer melhor, têm o arrojo de usar politicamente o caso Marcelo invocando o perigo de o Santana acabar com a liberdade de expressão. Trata-se de uma irresponsabilidade do tipo "vem aí o lobo".

O ridículo de tal tese é patente; como poderia acabar com a liberdade de expressão um governo que foi acossado pela maior campanha mediática de sempre e que, como ficou demonstrado, não tinha a menor influência na comunicação social.

Como dizia Alain Minc na entrevista de ontem ao Público:

É Berlusconi quem pode, não é Berlusconi quem quer

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Como responder à erosão da política e dos políticos ?

A política tem vivido, em Portugal, uma sequência de ciclos desgostantes e desgastantes.
Não vale de nada insinuar, com ar superior, que as massas ao desinteressar-se da política estão apenas a revelar a sua debilidade cultural e cívica que os trinta anos passados sobre a Revolução já não disfarçam.





Não, os responsáveis por esse “alheamento cívico” são principalmente os “agentes políticos”, o establishment cultural e jornalístico e, de modo geral, os que gravitam à volta das cadeiras (e orçamento) do poder.

As festividades dos 80 anos do Dr. Mário Soares juntaram num banquete a quase totalidade desse establishment e mostrataram como, apesar das guerras violentas em que se envolvem regularmente, os seus membros sabem reconhecer o essencial das suas solidariedades. O povo assistiu atónito ao desfile de figuras que julgava serem incompatíveis (aqueles 2000 notáveis que ocupam 90% do tempo opinativo das televisões e que estão sempre a ser nomeados para qualquer coisa).

O Dr. Mário Soares é o exemplo mais acabado de uma forma de fazer política que já se começa a tornar intolerável: o partidarismo como um clubismo, o “ser amigo do seu amigo”, a “leadalde” acima da verdade e do interesse público, uma lógica impiedosa de poder de grupo em que os princípios já não parecem ser o cimento aglutinador.

O Dr. Mário Soares não é o único a praticar estas artes mas é notável que os seus 80 anos não lhe tenham ensinado a moderar-se e a ver a relatividade e precaridade das “glórias bélicas” a que não consegue resistir.

E é por causa dessa lógica que os partidos principais se vêm alternando no poder, ciclicamente. Sempre que um alcança o voto maioritário do povo assume as rédeas da governação para ser de imediato sujeito aos tratos de polé da oposição.

Numa primeira fase, quando ainda subsistem algumas ideias mais arrojadas do programa eleitoral, a oposição trata de arregimentar todos os interesses e corporações que se sentem ameaçados por qualquer das propostas do governo.
Iniciam uma táctica que inclui barragens de artilharia na imprensa a cargo do batalhão dos comentadores de serviço, algumas chantagens económicas, a divulgação de meia dúzia de escândalos fiscais ou processuais da autoria dos ministros, tudo com o objectivo de paralisar o adversário.

Quando o efeito paralisante foi conseguido e o governo fica com o ar de já não se poder mexer em qualquer direcção inicia-se a segunda fase que consiste em glosar a inoperância dos ministros, as contradições detectadas nas suas declarações, e em geral trata-se da preparação do funeral político.

Uma vez feitas as eleições, sempre apresentadas como grandes viragens decisivas para o futuro do país, os partidos que foram imolados no governo do ciclo anterior passam ao papel de oposição e, dada a violência e irracionalidade com que foram tratados, sentem-se no direito de ser ainda mais demagógicos do que os seus adversários.

Como os adversários são sistematicamente diabolizados e as suas tentativas de realizar algo sempre apresentadas como absolutamente injustificadas e prejudiciais segue-se que cada novo governo começa, em regra, por destruir ou ignorar as obras do anterior. A intenção de destruir as decisões dos governos em funções inicia-se aliás ainda durante a fase de oposição e é prometida para o ciclo seguinte da “alternância” assegurando-se assim que os cidadãos não possam considerar “estável” qualquer legislação mesmo que regularmente aprovada e publicada.

Não é claro quando, nem como, a esquerda se deixou resvalar para esta desgraçada situação mas a “superioridade moral dos comunistas” ou a seriedade “laica e republicana” tendem a converter-se em fórmulas de que só os mais velhos se recordam ainda.

Hoje, mesmo à esquerda, impera o fulanismo, os “fait-divers”, os golpes de teatro mediáticos, os trocadilhos, a dramatização ou exagero das situações numa verdadeira versão tablóide da política.
A reacção de Ana Gomes à decisão de Sampaio de empossar Santana, a maior parte das declarações de Louçã sobre o caso Marcelo, o estilo de Bernardino Soares ao comentar as questões orçamentais, são apenas alguns exemplos em que a demagogia, a falta de sentido de Estado, e mesmo as graçolas de baixo estofo tornam a esquerda irreconhecível para aqueles que, como eu, sempre acreditaram que ela se distinguia pela nobreza e elevação quer dos propósitos quer dos comportamentos.

A história mostra que os comportamentos descritos levam à destruição da democracia. Tem que tocar algures um sino a rebate para que se verifique uma mudança radical de atitude por parte daqueles que querem preservar a liberdade.

É preciso acreditar que a dignidade dos comportamentos também acabará por fazer a diferença e “render” politicamente. Quando um jornalista rasteiro vem com uma pergunta rasteira, verdadeiramente tentadora para entalar o adversário mas irrelevante do ponto de vista do interesse público, é preciso recusar o engodo, reduzir a intriga às suas diminutas proporções, falar de outra coisa.

Só quando se mostrar coragem para rejeitar a chicana política, para perder as eleições se for esse o preço das verdades incómodas, para tirar o chapéu ao adversário quando as suas acções são positivas é que poderá começar um novo ciclo na política portuguesa.

Para isso faltará talvez encontrar uma alternativa para os partidos como base em que assenta a democracia. Os partidos, pela sua própria natureza, geram clubismo, cegueira sectária e distribuição de favores.

Não seria muito mais natural as pessoas associarem-se a causas e projectos, de acordo com as suas inclinações, do que filiarem-se em instituições com as quais nunca se identificam completamente. Quem, por exemplo, seja simultaneamente contra a liberalização do aborto e contra o pacote laboral não encontra nenhum partido com que se identificar.

Virá o dia, estamos certos, em que as pessoa serão militantes de causas e projectos e não de partidos. Em que os boletins de voto pedirão a cruzinha não em bandeiras partidárias mas sim em causas e projectos.