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domingo, dezembro 09, 2007

Coreografia



"Os políticos vivem, deslocam-se, governam, reúnem-se e decidem como se fossem perseguidos, como se estivessem permanentemente cercados. Políticos, estrelas de cinema, bilionários e chefes da Máfia vivem assim. Rodeados de guarda-costas e protegidos por exércitos, são acompanhados por enormes comitivas a que não faltam médicos, enfermeiros, ambulâncias, cozinheiros, provadores, jornalistas e escort services. Alguns não dispensam astrólogos, feiticeiros, psicólogos e personal trainers. Os que, a exemplo de Sócrates, exigem correr ou fazer exercício mandaram reservar partes da cidade para poderem queimar toxinas e ser filmados em privado. Os políticos e seus poderosos equiparados vivem num mundo à parte, têm a sua própria geografia e governam-se pelas suas leis. De vez em quando, para serem filmados, esbulham o espaço público. A democracia trocou o Fórum e a Assembleia pela Nomenclatura e pela reserva de privilegiados. Os políticos olham para os povos como se estes fossem incómodos para as suas encenações. Mas os povos olham cada vez mais para os políticos como usurpadores e parasitas.

Em Portugal, os próximos dias, semanas e meses, vão ser de intensa propaganda. As glórias do Governo e de Sócrates serão equiparadas aos mais altos feitos da história. Tudo para o bem e a grandeza do país. A impecável organização dos festejos será elogiada por toda a gente. O discurso do primeiro-ministro será mostrado como jóia rara e dele se dirá que ascendeu ao estatuto de líder mundial. Repetir-nos-ão, centenas de vezes, que Portugal está na linha da frente. Da paz, do diálogo, da cooperação, dos direitos humanos, da democracia, da ajuda ao desenvolvimento e da humanidade em geral. Pobre país que jubila com os cenários de pechisbeque, mas persiste na linha de trás da justiça, da produtividade, da educação e da desigualdade social!

Dizem que os conflitos, quando atingem níveis insuportáveis, trazem a paz. Mas também dizem que as grandes festas de concórdia e espalhafato anunciam o conflito, a violência e a miséria. São coisas que se dizem..."



António Barreto, Público 9 de Dezembro 2007


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terça-feira, dezembro 04, 2007

Chavez 98


Clique na imagem para ver uma entrevista dada por Chavez em 1998.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Luminárias a petróleo

Tiveram lugar no mesmo dia as votações na Rússia e na Venezuela, as comparações são quase inevitáveis.
O ponto de partida, para mim, é a semelhança que une as duas experiências políticas apesar do folclore envolvente. São dois casos de apelo ao nacionalismo viabilizados pelos combustíveis fósseis. Há outros, como o Irão, mas nos casos em apreço procura-se uma legitimação "democrática".

Na Rússia constata-se uma esmagadora votação em Putin, através dos partidos que o apoiam, da ordem dos 70 %. A oposição fica reduzida aos comunistas que descem para 11%, quase ao nível do PCP. Putin é a Rússia.
Apostando na nostalgia de "grande potência", sem definições no plano ideológico, tudo se joga no processo de encarnar a alma da pátria ferida. Os comunistas também querem o mesmo mas têm um fardo pesado: apesar das óbvias riquezas naturais do país mantiveram o seu povo, durante décadas, num frugalismo exagerado e indesejado. Putin procura não cometer o mesmo erro e isso parece explicar o seu sucesso.

No caso da Venezuela o inimigo é o mesmo, o "capitalismo internacional", e Chavez pretende corporizar a resistência à colonização económica pelo grande vizinho do norte.
Ao contrário de Putin tentou converter o apoio popular à sua política de controle sobre as riquezas naturais em algo mais marcado ideológicamente.
A Venezuela como estado confessional, com "Socialismo do Século XXI", com ameaça de presidencialismo perpetuado, não convenceu maioritáriamente os venezuelanos.
Não se convenceram da razoabilidade de estabelecer um "socialismo enquanto houver petróleo" por decreto.

Ambos os eleitorados têm que ser considerados "competentes".Os russos são dos poucos que podem, por experiência vivida, comparar o capitalismo (mesmo que especial) com o comunismo (mesmo que na sua forma perversa).Os venezuelanos, que já votaram Chavez por larga maioria, ao não fazê-lo agora dão um sinal inequívoco daquilo que repudiam.

Penso que fica claro com estas votações que petróleo + nacionalismo rende muitos votos independentemente de haver, concomitantemente, propostas de esquerda ou de direita, conservadoras ou revolucionárias.

O sucesso económico tornou-se aliás um legitimador imune às vicissitudes políticas e ideológicas.
A China, a Índia e o Irão servem para o demonstrar. Ao contrário dos estados-fantoche do médio oriente, o países citados `têm a sua própria agenda e o seu próprio peso.

Depois de um tempo em que o cinismo dominante era "sejam democráticos se querem ser ricos como nós" estamos agora no tempo do "vejam como eu sou rico e influente apesar de tudo".
Virou-se o feitiço contra o feiticeiro.

domingo, novembro 25, 2007

Socialismo Pimba

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO


Miguel Sousa Tavares diz, no Expresso desta semana, "Eu prefiro o Chavez":

"É verdade que um demagogo é sempre perigoso, mas um demagogo no poder num país como a Venezuela, mesmo com o petróleo, não pode fazer grande mal ao mundo. Um mentiroso, no poder num país como os Estados Unidos, pode fazer e faz".

MST está equivocado, a questão não é essa.
É precisamente para quem não gosta de Bush e do que ele representa que Chavez constitui um problema. Quase faz o Bush parecer um ser civilizado, uma pessoa de bem.

O Chavez e o seu socialismo pimba, movido a petróleo, é o pior compagnon de route que a esquerda podia desejar; é a demonstração mais cruel do impasse em que a esquerda se encontra.
É o equivalente do Alberto João para o PSD. Uma coisa que preferíamos que não existisse.

Basta ver uma conferência de imprensa de Chavez, em que só falta dar biberon ao neto, para perceber tudo. Faz esmola ao povo com as riquezas naturais do país como se se tratasse de uma magnanimidade pessoal que lhe desse o direito a presidir para sempre.



quinta-feira, novembro 15, 2007

Para quando o spaghetti à portuguesa ?

O Senado italiano adiou para hoje à noite ou amanhã de manhã a votação final do Orçamento do Estado, de que depende a sobrevivência do Governo de Romano Prodi. A coligação de centro-esquerda tem uma maioria tangencial e está dependente da incerta coesão dos seus senadores. Se a Lei Financeira passar, será uma derrota para Silvio Berlusconi. Se for chumbada, a demissão de Prodi é inevitável. Deverá suceder-lhe um governo "técnico" e um período dominado pelo debate da reforma da lei eleitoral. A fragilidade da maioria governamental foi ilustrada na terça-feira, quando os três liberais-democratas, do antigo primeiro-ministro Lamberto Dini, fizeram aprovar uma emenda da oposição sobre o financiamento da investigação universitária. Dini ameaça agora chumbar outra disposição, a limitação do salários dos gestores das empresas públicas, por a considerar antiliberal. Mantém em segredo o voto final sobre o orçamento.Também entre os aliados comunista há ameaças veladas. Todos têm presente a queda do anterior executivo de Prodi, numa votação sobre a política externa, em Fevereiro passado, graças à "deserção" de três senadores da maioria.

"Uma lei não escrita da política italiana diz que os governos nunca caem no dia do juízo. (...) A emboscada, para ser eficaz, deve ser inesperada e fulminante: se foi anunciada, perde subitamente grande parte da sua força". Por isso, os bookmakers apostam na vitória de Prodi sobre Berlusconi

A campanha de Berlusconi para fazer cair Prodi nesta votação pode transformar-se num bumerangue contra ele. O seu partido, Força Itália, convocou manifestações em várias cidades para obter cinco milhões de assinaturas a exigir eleições antecipadas. Mas os seus aliados, Gianfranco Fini, da Aliança Nacional, e Pierferdinando Casini, da União dos Democratas Cristãos e do Centro, não estão interessados em eleições antes da aprovação de uma nova lei eleitoral, que reduza a dispersão do leque partidário e o poder de chantagem dos micropartidos sobre o primeiro--ministro, de direita ou de esquerda. Mas permanecem em desacordo sobre o sistema a adoptar.A revisão da lei eleitoral interessa também ao novo Partido Democrático (centro-esquerda), que tem estado refém do impasse, pois o seu líder, Walter Veltroni, só se poderá afirmar depois do desfecho da questão orçamental.

O debate decorre num certo tom de farsa, pois o que está em causa não é propriamente o orçamento, ou as reformas, mas subtis jogadas para ganhar vantagens políticas.
"Uma maioria deficiente, uma oposição estéril. O Parlamento é o reflexo de uma política inerte".A opinião pública está obcecada por outros temas. Um é a questão dos imigrantes ilegais romenos, acusados de fazerem subir a criminalidade. Outro é a violência e a crescente politização das claques desportivas: foi ontem o funeral do jovem Gabriele Sandri, morto pela polícia durante um confronto entre adeptos da Lazio e da Juventus.

Esta trapalhada respigada da imprensa dá-me vontade de parafrasear o dixote que os ingleses aplicam aos franceses: "ao menos não somos italianos".
Abre-se no entanto outro campo de dúvidas, estudos e previsões: quanto tempo demoraremos em Portugal a atingir um caos semelhante ?

domingo, novembro 11, 2007

Para além do espectáculo

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É certo que os jornalistas hipervalorizaram o reencontro frente-a-frente entre Sócrates e Santana. É verdade que muitas vezes a comunicação social se fica pela espuma dos dias, aborda a rama dos assuntos e não vai fundo na substância dos mesmos. Mas é também uma realidade indesmentível que, neste caso concreto, no primeiro dia de debate parlamentar do Orçamento do Estado para 2008, quer o primeiro-ministro, quer o líder parlamentar da oposição fugiram às suas responsabilidades políticas de debate e de aprofundamento das respectivas propostas orçamentais e resvalaram para um mediatismo básico e oco.
A responsabilidade primeira nesta fuga ao debate político de substância é do primeiro-ministro, que logo ao abrir a sessão parlamentar, para além de apresentar algumas medidas concretas de governação, como lhe competia, optou por puxar à colação a governação do seu antecessor. O recurso usado por José Sócrates é básico e tem como finalidade desviar a discussão daquilo que poderia dificultar-lhe o dia no Parlamento, ou seja, a discussão das suas medidas e das suas opções orçamentais.
O que é certo é que Santana Lopes, bem como a comunicação social em geral, dançaram a música que José Sócrates quis.Mas o facto de José Sócrates ter conseguido condicionar o debate, e ter por isso ganho no plano mediático, não quer dizer que o tenha ganho do ponto de vista político. No plano da discussão política, o primeiro-ministro perdeu a sessão de abertura do debate parlamentar sobre o Orçamento do Estado para 2008. E perdeu porque na substância não respondeu às questões que lhe foram colocadas.
Exemplifiquemos. José Sócrates preferiu atacar Santana Lopes e achar que o colocava mal, amesquinhando-o por ter sido por si derrotado nas legislativas de 20 de Fevereiro de 2005. E ficou-se em jogos florais e acusações inconsequentes sobre o passado, sem responder às duas questões que Santana Lopes lhe colocara. Uma sobre o facto de existirem, segundo dados do Estado espanhol, 80 mil portugueses a descontar para a Segurança Social espanhola. A outra sobre o facto de, no passado, José Sócrates ter dito que não se podiam mexer nos direitos adquiridos, mas tê-lo feito ao aprovar a reforma da Segurança Social.Mas o problema das respostas de José Sócrates neste debate não se ficou apenas pelo embate com Santana Lopes. O primeiro-ministro respondeu demasiadas vezes ao lado. Quando Paulo Portas o interrogou sobre fiscalidade, José Sócrates falou do Estatuto do Aluno. Perante as perguntas de Jerónimo de Sousa e de Francisco Louçã, José Sócrates insistiu na tese de que estes dois líderes partidários não estavam satisfeitos e achavam pouco as medidas de carácter social do Governo. É pena que tenha sido perdida uma oportunidade de debater a sério não só as propostas do Governo, como também as propostas alternativas da oposição. E que a discussão sobre o Orçamento tenha começado apenas no segundo dia de debate.
São José Almeida, Público 10.11.2007
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Subscrevo isto

quarta-feira, novembro 07, 2007

Os 90 anos da Revolução de Outubro


Já se disse tudo sobre as "realizações" e as "violências" da Revolução de Outubro.
Eu volto sempre à minha pergunta: porque é que não nasceu na URSS um novo sistema económico auto-sustentável e com capacidade para se auto-reproduzir ?

É verdade que nas primeiras décadas havia um gigantesco deficit tecnológico mas, a partir dos anos 70, o deficit passou a estar essencialmente na vitalidade do partido e da sociedade.
Em contrapartida a URSS era um país imenso, dos poucos no mundo que poderia sobreviver mesmo em isolamento, dotado pela natureza de fantástica variedade e quantidade de recursos naturais, em especial os energéticos.

A "Russia Unida" de Putin regista 67 % das intenções de voto nas próximas eleições demonstrando que sabe aproveitar a seu favor as exportações de gás natural e de petróleo, construindo um apoio popular esmagador. O Partido Comunista prevê-se que venha a ter 17 % dos votos. 90 anos depois da Revolução de Outubro o partido de quem nós esperámos um mundo novo tem um resultado idêntico ao PCP. Fala-se pouco da Russia que sobrou após a queda da experiência soviética.

Até uma figura caricata como Chavez sabe usar a riqueza do petróleo para granjear, nem que seja a prazo, um grande apoio popular. É pois forçoso colocar este falhanço do PCUS no plano da inépcia ou do apodrecimento. Ao menos podiam ter sabido "comprar", com o petróleo e o gás, o tempo necessário para se renovar, saltar para a sociedade da informação e tentar aí uma economia de novo tipo.

A experiência chinesa desperta-nos, a esta luz, um enorme interesse.
Os os líderes chineses parecem, a certa altura, ter-se convencido do famoso TINA, conceito Thatcheriano sobre o liberalismo económico que significa "There Is No Alternative".
Então, obedecendo a uma sofisticação milenar, arranjaram forma de pôr os capitalistas a transformar a China numa grande potência mundial e a encher os cofres do estado com reservas gigantescas.
Enquanto isso o Partido Comunista continua a ser uma força formidável que em qualquer momento pode lançar centenas de milhões de chineses numa nova revolução de contornos inimagináveis.

É aqui que reside o suspense; algum dia o fará ? ou vai apenas usá-lo como espada de Damocles sobre a cabeça das empresas privadas ? Qual é o ponto de chegada de tudo isto ?

quarta-feira, outubro 31, 2007

SPD alemão adopta socialismo democrático para vencer o efeito da tosta mista


Congresso em Hamburgo fortaleceu veia esquerdista de sociais-democratas, que partilham poder com Merkel.

O Partido Social-Democrata alemão (SPD) aproveitou o último congresso, realizado anteontem em Hamburgo, para renovar a sua imagem: elegeu como meta a luta por um "socialismo democrático", adoptando um discurso com ingredientes tanto de esquerda como ecológicos, refere a Deutsche Welle. Tendo em vista as eleições de 2009 - e o escoamento de eleitores desiludidos para A Esquerda -, os congressistas ratificaram um programa político para substituir o antigo documento do SPD, aprovado há 18 anos, pouco antes da queda do Muro de Berlim.
Houve ainda outro sinal de mudança nas directrizes do mais antigo partido alemã: os sociais-democratas fizeram, de acordo com o Deutsche Welle, uma série de "ataques disparatados" à União Democrata Cristã (CDU), cujos membros partilham o poder em Berlim com os sociais-democratas em regime de coligação. O líder social-democrata Kurt Beck chegou mesmo a acusar o partido de Angela Merkel de esconder uma essência de "radicalismo de mercado" por detrás de "uma máscara social-democrata".
Angela Merkel recebeu com alguma irritação a nova meta do SPD. "Não precisamos de um retorno ao socialismo, como querem os sociais-democratas, já tivemos socialismo que chegue na Alemanha Oriental", afirmou a chanceler, citada pela Deutsche Welle.
A expressão "socialismo democrático" é usada "várias vezes" ao longo do novo programa partidário, um texto de 28 páginas que vem atirar o antigo para as prateleiras da antiga RDA, uma vez que o referido documento foi ultimado e aprovado pouco antes da reunificação germânica. A nova expressão no léxico social-democrata é vista como uma viragem à esquerda, mudança que analistas políticos vêem como uma estratégia para reconquistar os eleitores que migraram para A Esquerda, o novo partido no cenário político alemão.
Em entrevista à Deutsche Welle, o politólogo social-democrata Thomas Meyer não vê a fuga de militantes para novos partidos como uma ameaça democrática. "Fica só um pouco mais difícil criar um governo, mas o Estado em si não fica mais fraco", observa o cientista político da Universidade de Dortmund.
Além do desafio de formar governos viáveis através de coligações, os grandes partidos têm agora o ónus de redesenhar a sua própria identidade política à medida que vêem as suas bases esvaziarem-se. Encabeçado por Kurt Beck - um líder que não consegue sair da sombra da chanceler alemã -, o SPD parece estar a ser vítima do efeito da tosta mista: encontra-se prensado entre a CDU de Merkel (que adoptou posturas de esquerda e, ao mesmo tempo, chamou para si posturas neoliberais próprias do SPD) e A Esquerda (fundado pelo dissidente Oskar Lafontaine, ex-presidente do SPD, que repescou antigas ideias sociais-democratas).
"Espremido entre os dois, o SPD não conseguia mais afirmar as próprias posições", diagnosticou o politólogo Thomas Meyer.
Os sociais-democratas tentam agora ser eles próprios sem parecer que estão a copiar os vizinhos e, ao mesmo tempo, procuram transparecer um cariz ecológico (propostas para a redução de emissão de gases) e social (em caso de privatização da companhia ferroviária Deutsche Bahn, por exemplo, defendem que 25,1 por cento das acções sejam "do povo").
Partido liderado por Kurt Beck está entalado entre a CDU e A Esquerda, a formação fundada por Oskar Lafontaine

Público 30.10.2007, Andréia Azevedo Soares

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Contra todas as espectativas a Alemanha parece querer competir com a Itália no que toca à comicidade política. Depois da "esquerda caviar" só nos faltava agora a "esquerda tosta mista"...

sábado, outubro 27, 2007

O falso problema que está na moda

Já não posso ouvir perguntar ao Sócrates se vai ou não fazer um referendo sobre o "Tratado de Lisboa" e depois ouvir a lenga-lenga do Sócrates que diz sempre que só depois da aprovação, em Dezembro, tomará posição.
Acho inacreditável que isto se tenha tornado o centro da discussão política nacional. Não há cão nem gato que não se pronuncie sobre a matéria.

É caso para perguntar:
- acham que um referendo sobre um texto enorme e inextrincável vai arrastar multidões para as urnas de voto ?
- acham que esta consulta é que redimiria todos os erros anteriores e traria o tão ansiado apoio popular à integração europeia ?
- acham que os nossos problemas, em Portugal, resultam de ninguém nos ter "referendado" aquando das várias alterações à Constituição da República Portuguesa ?
Deixem-se de hipocrisias e de querer usar o povo para justificar a chicana política.
Resolvam os problemas dos europeus e não incomodem o povo que tem mais que fazer.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Dar a mão à palmatória ou o braço a torcer


Reconheço que me precipitei na apreciação que fiz do Luís Filipe Menezes. É evidente, tal como sublinhei nos meus posts, que o PSD já tinha ensaiado no tempo do respeitável Cavaco Silva um ataque pela esquerda ao PS e que lhe tinha, na altura, rendido dividendos eleitorais. Pensava eu, por algumas afirmações do dito senhor, que essa táctica iria agora ser novamente ensaiada. Por outro lado, algumas avis raras do comentário nacional tinham partido em cruzada contra o populismo e o pertenço esquerdismo do novo presidente do PSD o que me indignou e me fez sair em sua defesa.
Quando, depois do Congresso, o senhor começou a falar viu-se o caminho que iria traçar e esse é já bem perigoso, porque junta a fome (da direita) com a vontade de comer (do PS-Sócrates). Ou seja, apesar de continuar a falar da insensibilidade social do PS, o que propõe é uma nova Constituição, o projecto reaccionário que a direita sempre acalentou. Penso que não vai contar com a aquiescência do PS, seria muito escandaloso, mas uma revisãozinha que facilite os despedimentos contará com certeza com a sua colaboração e por aí fora até que a Constituição seja completamente desvirtuada.
As privatizações propostas e o reforça da componente neoliberal será também do agrado do PS-Sócrates. Portanto, temo bem que estejamos numa nova arrancada direitista, em que o PS, para não deixar nas mãos do PSD todas as propostas de direita, irá ceder, como é seu costume, naquilo que verdadeiramente interessa ao patronato.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Menezes e os Gatos


Menezes fez, no XXX Congresso do PSD, se não um grande discurso pelo menos um discurso grande. Para além de outras miudezas já se percebeu ao que vem: convencer o bom povo português de que sabe, e quer, e pode e manda baixar a despesa pública para poder poupar o bom povo português às consabidas dores de parto do progresso. Exactamente o que o engenheiro Sócrates não sabe, e não quer, e não pode e não manda fazer.
Por mero acaso o Sr. Menezes omite que ao baixar a despesa acabará inevitavelmente por atingir aqueles que finge querer poupar. Um mero detalhe...

O que ele, Menezes, também não sabia era que horas depois os Gatos Fedorentos iriam, involuntáriamente, dar-lhe uma ajuda massacrando o seu adversário de forma mil vezes mais eficaz. Há horas de sorte. Se não viu veja aqui:




quarta-feira, outubro 10, 2007

MMS - Nota de leitura

O “Manifesto Mérito e Sociedade” (MMS) é o documento em cuja base Eduardo Correia pretende formar um partido politico e concorrer às eleições de 2009. (Pode ser consultado em http://www.mudarportugal.org/).

Apresenta um formato híbrido, entre o programa eleitoral e a declaração de princípios, o que o torna algo desequilibrado: uns pontos com grandes detalhes de implementação (caso do e-government) e outros muito genéricos e superficiais (caso da educação).

Não questiona as bases económicas nem politicas do sistema e da organização da sociedade.
Eduardo Correia situa-se num sistema capitalista com um governo do tipo democracia representativa; orienta-se pelo princípio liberal do Estado como agente regulador e não promotor ou interventor; e principalmente considera que a administração do País devia seguir as regras de gestão eficaz e as boas práticas que regem o mundo empresarial.
O que, se pensarmos bem, tem uma certa lógica, uma vez que adequa a gestão do Estado ao modo de produção sobre o qual está organizada a sociedade.
Deste ponto de vista, os regimes políticos da área da Social-Democracia sofrem de uma contradição de base que ajuda aliás a explicar as suas progressivas dificuldades.

Fica pois assente que Eduardo Correia não pretende fazer mudanças radicais, apenas acha que isto pode funcionar melhor.

Uma linha comum ao longo dos capítulos que tratam as várias áreas da governação e da sociedade é a procura de uma alteração de valores: emparelhar direitos com responsabilidades, estabelecer uma cultura do mérito.

Logo no 1º Capítulo, e à laia de apresentação dos princípios orientadores, se diz:

“È necessária uma profunda mudança nos seguintes aspectos:
- Comportamentos individuais
- Comportamentos colectivos
- Organização da sociedade
- Papel do Estado
- Sistema social, económico e politico”

Há que referir que a grande parte do conteúdo do documento é sobre comportamentos; alguma coisa é sobre o papel e a organização do Estado e da Administração; e nada sobre o Sistema.

Quem pretende uma mudança de atitude tão grande, direi mesmo uma mudança de paradigma cultural, tem obviamente que dar grande importância à Educação. E ele diz que dá! Mas parece ficar-se apenas por dois ou três chavões e alguns slogans na moda, desligados da realidade.

Por exemplo, a preocupação com o “abandono escolar” e a “necessidade de prolongar o ensino obrigatório até ao 12º ano”.
Dizer isto em abstracto, ignorando que há em Portugal uma grande separação entre a escola e a vida económica e social e que a escola é mantida a funcionar em circuito fechado por uma gestão centralizada e desligada das realidades, não é de bom augúrio...

Entre as propostas concretas, Eduardo Correia apresenta algumas ideias que me apetece salientar como interessantes e criativas:

a) a “Loja do Cidadão” para a Justiça, a que o autor chama Tribunal do Cidadão, para que qualquer pessoa pudesse, no mesmo espaço, obter aconselhamento jurídico e pedir apoio judiciário (se aplicável) para qualquer tipo de questão, dirigindo-se especìficamente aos “balcões” aplicáveis ao seu caso (trabalho, família, etc) Os funcionários desses “balcões” seriam advogados da Ordem ou juristas nomeados oficiosamente.
b) os “processos on-line” na área da Saúde, com um portal onde existiriam entre outros, os seguintes conteúdos informativos:
- contactos úteis
- mapas e descrição do percurso a fazer para encontrar unidades de
saúde, organizações de apoio à saúde e associações de doentes
- enciclopédia médica com informações sobre doenças, exames,
medicamentos
- tempos e listas de espera para cirurgias e tratamentos mais comuns
- exposição dos direitos dos doentes: garantia de cuidados, taxas
moderadoras, liberdade de escolha, reclamações, etc
- marcação e desmarcação de consultas


Em conclusão, no MMS fala-se sobre todos aqueles aspectos que a generalidade dos cidadãos que reflectem sobre a nossa sociedade pensa que estão mal: justiça, educação, saúde; peso do funcionalismo publico e da burocracia; promiscuidade entre administração e Partidos, etc. E avançam-se ”soluções”.

Não se pense que eu acho isto mal. Ser “politico de bancada” é provavelmente um bom treino de cidadania. Eu pessoalmente farto-me de praticar!

Mas isto é capaz de ser pouco para justificar a criação de outro partido. Principalmente porque os seus princípios não diferem em quase nada do que outros têm proclamado e as medidas apontadas são em grande parte as que os últimos Governos anunciaram. O “busílis” não está no enunciado mas sim no levar à prática. E quanto a isso Eduardo Correia não nos diz nada.

domingo, outubro 07, 2007

"O Estado a que isto chegou", de novo ?

Público, 6 de Outubro 2007



(clicar a imagem para ampliar)


É famosa a frase de Salgueiro Maia, na noite da revolução, sobre o "Estado a que isto chegou". 33 anos depois já se dizem coisas destas nos jornais ? Sem consequências ?...

quinta-feira, outubro 04, 2007

Repondo a verdade: resposta a algumas críticas

Os blogers residentes e aqui e aqui fizeram referências, algumas muito críticas, ao post que eu escrevi sobre o Luís Filipe Menezes (LFM). Na altura senti a vontade de responder de imediato, e fi-lo mesmo em relação a um dos blogs, mas hoje, menos alvoraçado e depois de ler o comentário de Rui Ramos (Público de 3/10/07) e de ouvir alguns debates (SIC Notícias na terça-feira e Quadratura do Círculo na quarta), verifico que foi prudente não ter respondido de imediato. Mesmo assim gostaria de alinhavar alguns considerandos, em jeito de justificação, sobre a defesa que fiz do novo Presidente do PSD.

I - Ao Correr da pena
Como disse logo no início do meu post aquele texto era um estado de espírito. Não era uma reflexão profunda, como por vezes gosto de fazer, se é que as faço, nem pretendia que fosse uma opinião da esquerda ou de parte dela. Mas hoje, na blogosfera, textos “ao correr da pena” podem ser sempre motivo de chacota e de crítica. Parece-me que é o Pacheco Pereira que fala do tom ácido que corrói a blogosfera. Mas sobre isto já devia estar prevenido, participei durante algum tempo no fórum, aqui mesmo ao lado, e sei que facilmente se chega ao insulto pessoal.

II - O PSD ultrapassa pela esquerda o PS
Quis comparar, apesar de não lhe ter dado o relevo suficiente, as posições de LFM, que se propõe ultrapassar o PS pela esquerda, com a campanha desencadeada pelo respeitável Cavaco Silva contra o Bloco Central nos idos de 1985. Ou seja, pretendi alertar para o facto do PSD já anteriormente ter desencadeado uma campanha contra o PS, tentando encostá-lo à direita e aparecendo demagogicamente ao lado dos pobres e sacrificados deste país. Joana Lopes no seu blog seleccionou essa parte do meu texto, realçando igualmente a opinião de António Figueira, expressa no blog 5 dias que, de certo modo, vai ao encontro do que afirmo.

III - A personagem
Fui também contra a corrente que considera o LFM como um populista risível, que não deveria merecer o respeito de gente séria e daí as posições que vão desde o Mário Soares até ao Pacheco Pereira, passando pelas do Marcelo. É evidente que, segundo dizem os analistas, muitos dos barões que o desprezaram, hoje, que já lhes cheira a poder, dizem que ele não será tão mau como isso. No entanto, ainda mereceu alguns sorrisos dos comentadores encartados da SIC Notícias, como sejam o Director do Expresso, Maria João Avilez ou Ricardo Costa. A bem-pensância nacional não leva a sério que ele se proponha ir para as porta das fábricas que fecham ou prometa aumentar as pensões mais baixas dos reformados.
Rui Ramos no comentário que acima referi é bem claro sobre o que pensa de LFM. Acha que ele se atribui “a si próprio a missão de salvar este Estado Social, exterminando em Portugal a heresia do ‘capitalismo selvagem’ ” e que aquela sua célebre frase sobre os “sulistas, elitistas e liberais” é dirigida contra os “que aspiram a mais do que à mediocridade, ou preferem outro modelo social, assente na iniciativa e responsabilidade dos cidadãos”. Rui Ramos tem o condão de tornar claras as coisas complicadas, e assim pelo oposto começamos a perceber porque é que anda tanta gente irritada com LFM. Não é porque vá pôr em prática aquilo que diz, mas basta só não seguir a cartilha dominante nesta área e atrasar a chegada mirífica daquele país em que é cada um por si, para que estes comentadores de direita considerem que LFM não serve.
Já Pacheco Pereira, na Quadratura do Círculo, não sendo tão claro como Rui Ramos, deixa entender que LFM anda rodeado de gente sem ética, pronta a fazer qualquer coisa para chegar ao poder. E que, ao contrário de Marques Mendes, vai abrir a porta aos Isaltinos de Morais deste país. Esta discussão é mais séria. Mas devemos ter algum cuidado porque a diferença não é muito grande entre o Isaltino, que tem primos na Suíça, e o respeitável Ferreira do Amaral, que de ministro que negociou com a Lusoponte passou a Presidente do Conselho de Administração da mesma.
Por outro lado, a comparação com Santana, que se costuma fazer, não resulta. LFM pode ser demagogo e não cumprir nada do que vai fazer, mas as afirmações dele na noite em que ganhou as eleições nunca poderiam ser feitas por Santana Lopes, que sempre se apresentou como reorganizador da direita. Convêm não confundir as personagens e os seus discursos, apesar de eles poderem na aparência e talvez na prática serem semelhantes.

IV - A recomposição da esquerda
Quanto à esquerda e a derrota de Sócrates. Este parece-me ser o ponto mais controverso do meu post. É evidente que não defendo aquilo que no calão marxista, e numa tradução apressada do francês, se chama atentismo. Esperar para ver ou então, como diz a Rosa, ficar à espera que ele caia da cadeira ou que alguém lha puxe. Simplesmente penso que o discurso de LFM, que a maioria diz que não leva a parte nenhuma, dado o seu populismo e incongruência, pode muito bem servir para derrotar o Sócrates e, do meu ponto de vista, pelo menos por agora, não me parece que seja pior do que aquilo que o primeiro-ministro preconiza para o país. Por outro lado, permitirá, se for possível, uma recomposição da esquerda. Mas penso que não é este o post ideal para fazer grandes considerações sobre o papel da esquerda e da necessidade da sua recomposição, se quer vir a ser Governo algum dia.
A Rosa fala ainda da “apagada e vil tristeza a que se reduziu a esquerda tradicional”. Lamentavelmente não conheço outra e é com esta que temos que trabalhar. Porque tudo o mais são ilusões que não somos capazes de pôr em prática.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Em defesa de Luís Filipe Menezes


Depois de grandes escritos, no tamanho, é certo, e de maçadoras apreciações sobre os OGM, eis que me dá para escrever ao ao correr da pena sobre as eleições no PSD.
Ao contrário da maioria dos comentaristas que se sentem muito incomodados com a vitória de Luís Filipe Menezes, isso não se passa comigo e até acho que dali pode surgir a derrota do PS de Sócrates.
Hoje, do meu ponto de vista, Sócrates e a sua política são altamente perniciosos ao país, pois estão a destruir conscientemente, com o apoio da direita patronal e civilizada, o pequeno Estado Social que, desde o 25 de Abril, se tinha vindo, com avanços e recuos, a construir.
Nesse sentido penso que um líder político que seja capaz de derrotar Sócratas, com um programa que não é mais à direita do que o dele, parece-me positivo. Pelo menos, permitirá, enquanto o pau vai e vem, que a esquerda se recomponha nos próximos tempos, se isso ainda for possível.
Com Marques Mendes o que tínhamos era a continuação da política de Sócrates por outros meios, que ninguém sabia se eram melhores.
Com Menezes, o famoso populista, o que temos é um ataque ao Governo de Sócrates pela esquerda. Quem viu as declarações de Menezes na noite da sua vitória, dizendo que o PS não só tinha metido o socialismo na gaveta, mas também a social-democracia e que o seu Governo era conservador, perceberá que, mesmo no domínio da mais pura demagogia, o pulsar do PSD vai ser diferente. Por isso, os comentadores muito alinhados com esta política conservadora e neo-liberal do nosso primeiro-ministro, não gostam de alguém que não diz que faz melhor do que ele, mas que chama os bois pelos nomes.
Por outro lado, esta prática do PSD de atacar o PS pela esquerda já não é nova. Apesar da seriedade que hoje imprime á sua postura política, Cavaco, quando ganhou o Congresso da Figueira e depois desencadeou a luta contra o Bloco Central e principalmente contra o PS, fê-lo igualmente pela esquerda. O seu discurso da altura, com as devidas distâncias, assemelhava-se muito ao do PCP. Falava só de desenvolvimento, da necessidade de avançar com investimento público e era declaradamente contra as forretices de Mário Soares, que aplicava na altura conscienciosamente as directivas do FMI.
Portanto, apesar de hoje muita gente já estar esquecida disto, esta política do PSD de ultrapassar o PS pela esquerda já se verificou noutras alturas. Vamos a ver como resulta. A procissão ainda vai no adro.

terça-feira, setembro 18, 2007

Midwest em vez de Middle East



Os "do costume" não perderam mais uma oportunidade para trazer de volta o famigerado exame de "Inglês Técnico" do nosso primeiro-ministro só porque ele, na conferência de imprensa conjunta com Bush, falou de "Midwest" em vez de "Middle East".

Puro engano. Estamos em condições de garantir que se tratou, isso sim, de uma manobra diplomática genial que lançou uma onda (visível na imagem) de admiração.

Ainda atordoado pela Exposição "Ecompassing the Globe", o que quer que isso signifique, Sócrates quis mostrar que não devemos deixar-nos obcecar pelas questões de resolução praticamente impossível quando podemos dedicar-nos a outras bem mais pacíficas.

As posições da UE e dos EUA são totalmente coincidentes no que toca ao "Midwest" (Illinois, Indiana, Iowa, Kansas, Michigan, Minnesota, Missouri, Ohio, Nebraska, North Dakota, South Dakota e Wisconsin). Já o mesmo não poderá dizer-se do "Middle East".

Para além do mais no "Midwest" há muito menos radicais islâmicos.

quarta-feira, agosto 08, 2007

A minha leitura "Foi Assim":










Acabei de ler o ultimo livro da Zita Seabra.
Não vou entrar na discussão sobre os factos referidos (cujo relato aliás não me trás nada de verdadeiramente novo) nem sobre os intuitos mais ou menos velados da narrativa (deixo isso para quem ache que tem algumas contas a ajustar com a narradora).

Zita Seabra quis fazer de “Foi assim” a descrição do seu percurso pessoal; e foi sob esse ponto de vista que eu o li.

Chegada ao final, a imagem que me ficou é a de alguém que em relação ao seu comprometimento com o Comunismo e o PCP, entrou e saiu pela mesma via muito emocional e pouco reflexiva.
Como a própria afirma, não tinha lido as obras de Engels e Lenine, nem conhecia bem o pensamento de Marx; o seu coração foi recrutado pelos “Subterrâneos da Liberdade” de Jorge Amado. Não é defeito, e é um caso muito comum na sua geração!
Já a sua saída, motivada essencialmente pela desilusão das expectativas e não pela análise das contradições entre teorias e resultados, é muito pobre, atendendo a que se trata de alguém que teve um lugar de grande responsabilidade.

Pela maneira como fala, acho que seja qual for o ponto onde neste momento se situa, Zita Seabra está nele com a mesma certeza absoluta que teve no seu posicionamento anterior.

E por isso, a sensação que me deixou foi a de que não aprendeu nada.
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segunda-feira, julho 16, 2007

Prontos para um demagogo ou o ocaso dos partidos


A votação em Lisboa demonstra também, numa escala nunca antes verificada, a decadência do sistema partidário em Portugal. Vejamos:

1. Os partidos tradicionais da direita são simplesmente arrasados.

2. António Costa "ganha" as eleições com os votos de 10% dos lisboetas inscritos. Tem menos 17.000 votos que o vilipendiado e derrotado Carrilho.

3. O PCP perde 13.500 votos e passa de 11,42 para 9,53 %. Nos anos oitenta chegou a ter 27,5 %.

4. O BE perde 8.900 votos e passa de 7,91 para 6,81 % mesmo depois do "brilharete" de ter conseguido provocar eleições

5. Carmona, o arguido independente, tem sozinho mais votos do que os seus algozes, PCP e BE, juntos.

6. Roseta, com meia dúzia de tretas, arranja em dois meses mais votos do que um partido com uma história gloriosa como o PCP.

7. 62 % dos cidadãos de Lisboa recusam-se a participar na votação.

A isto nos conduziu a guerra sem quartel e sem princípios que os partidos têm conduzido nos últimos anos. Uma guerra em que tem valido tudo para alcançar o poder e em que, mais do que as causas, são os interesses que pontificam.

Ou seja, parecem estar criadas as condições para o surgimento de um demagogo qualquer, um Berlusconi ou um Chavez, que nos conduza finalmente para a "República das Bananas" que julgávamos não ser.
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sábado, julho 14, 2007

O voto por Lisboa


O FPR na sua saga anti-partidos avisa que “nenhum candidato apresentou propostas capazes de entusiasmar o povo” e cita dois exemplos, que, segundo ele, mereceriam resposta adequada dos candidatos e que sobre os quais ninguém se prenunciou.
O primeiro exemplo, francamente, parece-me muito mal escolhido. Se houve coisa que foi tema obrigatório da campanha foi a frente ribeirinha. Todos se pronunciaram que ela fosse entregue à cidade e que não continuasse a ser gerida pelo Porto de Lisboa.
Parece que o Fernando desconhece como, já quase no final da campanha, foi revelado que o mandatário de António Costa, José Miguel Júdice, tinha sido encarregue pelo Governo, há já pelo menos quatro meses, de gerir aquela zona, sem que ninguém até ao momento soubesse de alguma coisa, excepto o próprio António Costa e Carmona Rodrigues, que sabia mas não dizia nada.
Por outro lado, foram muito falados os projectos que o Porto de Lisboa tinha para essa frente, um hotel do Grupo Altis, que está a ser construído na doca do Bom Sucesso e que é da autoria do número dois da lista de António Costa, o Arq. Manuel Salgado; o edifício que está a ser feito na zona do Cais do Sodré, que irá albergar instituições da União Europeia, e o novo terminal de cruzeiros previsto para Santa Apolónia. Quase todos os candidatos deram passeios pelo Tejo mostrando a importância daquela frente e propondo a passagem da sua gestão para a Câmara. Só que houve alguns que tinham esqueletos no armário e não os quiseram revelar, como era o caso de António Costa e de Carmona.
Quanto à proposta concreta do António Ressano Garcia Lamas, ela implica muito dinheiro e a intervenção activa do Governo. Muito mais fácil e quase imediata é atribuir a gestão da frente ribeirinha à Câmara e impedir a construção nessa zona. Parece-me que neste caso o Fernando não tem razão.
Quanto ao número de funcionários que alguém, em tese de doutoramento, mostrou que eram excessivos e que logo pressurosamente o Público se encarregou de divulgar, penso que é um assunto bastante mais complexo, que não pode ser resolvido à Garcia Pereira, que propôs imediatamente a eliminação de não sei quantos funcionários.
Sei que o Fernando tem uma senha contra os trabalhadores da função pública, mas com certeza que nenhum candidato proporia o seu despedimento, até porque isso não é possível nos termos da actual legislação e o tema merece mais reflexão do que a simples proposta de eliminação de postos de trabalho.
Para terminar, e sem necessitar de me justificar, eu voto Sá Fernandes.

sexta-feira, julho 13, 2007

Senhas de Presença ?


Das notícias vindas a público sobre os pagamentos de uma universidade privada a um deputado, dirigente máximo do maior partido da oposição, há uma coisa indubitável, confirmada pelo próprio: Marques Mendes recebeu 12 (doze) mil contos em "senhas de presença".

Vamos esquecer todo o ruído feito à volta deste facto, certamente para o ocultar, e concentremo-nos no essencial.

Qualquer pessoa minimamente atenta à vida empresarial sabe que esta estranhíssima figura das "senhas de presença" tem vindo a ser usada para subtrair os empregadores e os empregados, por comum acordo, às obrigações fiscais ou às contribuições para os sistemas de segurança social.

O facto de a prática ser frequente e envolver até, disse um especialista na televisão, Empresas Públicas e outras entidades com responsabilidades sociais não me parece que possa ser uma atenuante.

Marques Mendes tem que deixar de tentar "tapar o Sol com uma peneira" e explicar porque é que uma verba tão elevada lhe foi paga nesta modalidade.
Se não poupou dinheiro à universidade nem a ele, com óbvio prejuízo colectivo, por que razão foi utilizado o estratagema das "senhas de presença" ?

Se o não fizer, em tempo útil, estará em causa não só uma questão moral mas também a sua capacidade, no plano político, para exigir sacrifícios aos portugueses.

Se o não fizer, em tempo útil, o melhor é ir para casa pois não tem credibilidade para se candidatar ao lugar de primeiro-ministro.
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