“Nature Boy” é a canção mais conhecida do enigmático Eden Ahbez, um compositor nascido no início do século XX, cujo comportamento naturalista e afeito à vida bucólica serviu de inspiração tanto à geração beatnik dos anos 40/50 quanto aos hippies que chacoalharam o american way of life nos anos 60. O sujeito era tão maluco que morava nas colinas de Los Angeles, bem embaixo da segunda letra L do gigantesco letreiro HOLLYWOOD fixado naquele local e se alimentava de frutos silvestres, raízes e nozes. Os cabelos e barba compridos ajudavam a compor a sua fascinante persona.
Gravada por Nat King Cole em 1947, a música tomou de assalto as paradas do mundo inteiro e converteu-se em um verdadeiro standard. Sua letra falava de um estranho rapaz, que acreditava que a melhor coisa da vida era amar e retribuir o amor. Inúmeros foram os artistas que a gravaram posteriormente, incluindo diversos músicos de jazz. Era, segundo consta, a canção de que Vinícius de Moraes mais gostava. Fiel à idéia original de Ahbez, Caetano fez uma lindíssima versão em português, que recebeu o nome de “O Encantado” e foi gravada de forma definitiva por Ney Matogrosso. Diz a letra:
“Era um rapaz
Estranho e encantador rapaz
Ouvi que andara a viajar, viajar
Toda a terra e o mar
Menino só e tímido
Mas sábio demais...”
Essa música sempre me fascinou, não apenas por causa da melodia inebriante, mas também por conta de sua letra, digamos, existencial. Quando comecei a me interessar mais seriamente pelo jazz, descobri um músico cujo estilo de vida se parece demasiado com o do personagem da canção de Ahbez: o charmoso Art Pepper. Talvez por ver em si mesmo algo do rapaz de que fala a canção, Pepper tenha gravado a sua própria versão de “Nature Boy”, no disco “Straight Life”, de 1979.
A diferença entre o “Nature Boy” original e Pepper é que o primeiro não parecia ter demônios em seu interior. Já o segundo parecia comportar dentro de si uma verdadeira legião, que o encaminhou para uma vida de autodestruição, tragédia, agonia e dor. O belo rapaz que estampa, com seu olhar circunspecto, as capas dos muitos álbuns gravados nos anos 50 foi uma das personalidades mais conturbadas e talentosas do jazz e, da mesma forma que o amigo Chet Baker – com quem gravaria o excelente “The Route”, de 1956 – Pepper teve sua vida tragada pelo redemoinho das drogas. Felizmente, e ao contrário de Baker, soube acordar do pesadelo e reconstruir sua vida e sua carreira.
Nascido no dia primeiro de setembro de 1925, em Gardena, Califórnia, Art se mudou com a família para Los Angeles, no início dos anos 30. Aos nove anos, devido à influência de um tio trompetista, desejou aprender o instrumento. Por conta de um acidente que lhe ceifou alguns dentes, o decepcionado Pepper começou a tomar as primeiras lições no clarinete. Aos 12 anos recebeu do pai um saxofone alto de presente e a dedicação ao novo instrumento foi total. Com apenas 15 anos já freqüentava os clubes de Los Angeles, assistindo ao vivo grandes músicos como Dexter Gordon, Charles Mingus e Zoot Sims.
Aos 17 anos, sua primeira experiência profissional: foi contratado para tocar na big band de Gus Arnheim. Deixou o emprego apenas dois meses depois, desencantado com a abordagem extremamente comercial daquela orquestra. Seguiram-se breves passagens pelas orquestras de Lee Young, Benny Carter e Stan Kenton.
Passou dois anos no serviço militar (de 1944 a 1946) e, quando retornou à vida civil, reuniu-se novamente à orquestra de Kenton, com quem permaneceria até 1952. Nesse mesmo ano, ficou em segundo lugar na votação de melhor saxofonista alto da revista Down Beat – perdeu para ninguém menos que Charlie Parker, a quem, diga-se de passagem, jamais foi acusado de tentar imitar.
A partir daí construiu uma carreira solo das mais interessantes, alternando momentos sublimes, sob o aspecto profissional, com verdadeiras descidas ao inferno, do ponto de vista pessoal. Ao mesmo tempo em que compartilhava palcos e estúdios com figuras do porte de Conte Candoli, Curtis Counce, Jack Sheldon, Gerry Mulligan, Pete Jolly, Shorty Rogers, Shelly Manne, Mel Lewis, Paul Chambers, Jimmy Cobb, Red Garland e outros, afundava, inexoravelmente, no pântano das drogas.
Embora fosse casado, Pepper fazia um enorme sucesso com as mulheres. O estilo “rebel without a cause” popularizado por James Dean e o estilo cool davam um charme especial à sua finíssima estampa e ele viveu todos os excessos possíveis e imagináveis – sexo, drogas e muito, muito jazz. Mas a vida dissoluta cobraria do músico um elevado preço. Esteve preso entre 1953 e 1956, em virtude do envolvimento com heroína, cumprindo pena na Prisão Federal de Lexington, no Kentucky.
De acordo com o Mestre José Domingos Raffaelli, a orquestra da prisão era um luxo só. Sob os auspícios do diretor do presídio, fã de jazz, Tadd Dameron, que também cumpria pena na mesma instituição, organizou a mencionada orquestra com outros detentos, e ali atuaram os trompetistas Dupree Bolton, Red Rodney, Idriss Sulieman, Bud Brisbois, Oliver Beener e Tony Fruscella, os trombonistas Frank Rehak e Benny Powell, os saxofonistas Art Pepper, Frank Morgan, Walter Benton e Cecil Payne, o pianista Arnold Ross, o baixista Henry Grimes e o baterista Dick Scott.
Após a libertação, gravou alguns dos seus melhores álbuns, como “Modern Jazz Classics”, “Gettin’ Together” e “Art Peppper Meets The Rhythm Section”, todos pela Contemporary. O último é um clássico, sob todos os aspectos. A começar porque a sessão rítmica mencionada no título era a mais badalada da época: Red Garland no piano, Paul Chambers no contrabaixo e Philly Joe Jones na bateria.
As gravações se iniciaram sob um clima tenso. Art não sabia que iria tocar com o mítico trio (que estava em Los Angeles acompanhando o então chefe Miles Davis) até a manhã da gravação – 19 de janeiro de 1957. Alguns dias antes, o produtor Lester Koenig havia conseguido uma brecha na apertada agenda dos músicos e imaginava que o disco seria um marco na carreira de Pepper. Acertou em cheio, mas esqueceu de combinar com o pasmado saxofonista.
Além disso, Art estava vivendo uma das piores fases na sua vida pessoal, por causa da heroína, e não tocava há algumas semanas. Nada disso foi um problema de fato. Ao empunhar o reluzente saxofone, que, reza a lenda, estava precisando de alguns reparos, o vacilante Art Pepper que havia chegado há pouco no estúdio da Contemporary se transformou no músico seguro, lúcido, criativo e tecnicamente perfeito que sempre foi.
Cole Porter tem a honra de ver a sua bela “You’d So Nice To Come Home To” receber uma versão sobranceira. Philly Joe arrasa e o saxofonista, mostrando que não se intimidaria com a responsabilidade, comete solos brilhantes. O venerável Red Garland, fazendo jus à proverbial elegância, compôs o ótimo “Red Pepper Blues”, em homenagem ao líder. A destacar, além do piano classudo de Mr. Garland, o fabuloso solo de Chambers, fazendo um excelente uso do arco.
Dois standards – “Imagination” e “Star Eyes” – funcionam como a vitrine ideal do fabuloso senso melódico e do acentuado lirismo de Pepper e, em ambas, a coesão e o entrosamento dos acompanhantes se evidenciam – especialmente na segunda, que recebe um andamento mais rápido que o usual. “Waltz Me Blues” é uma belíssima parceria entre Pepper e Chambers. Trata-se de uma valsa, decerto, mas temperada com doses anabolizadas de swing, com o saxofonista soando de forma bastante parecida com o também originalíssimo Paul Desmond.
O bebop “Straight Life” é, talvez, a mais conhecida composição de Pepper. Com seu andamento ultra-rápido e suas desconcertantes harmonias, ela permite ao endiabrado quarteto uma exibição de gala de suas respectivas habilidades. “Jazz Me Blues” é uma antiga composição de Tom Delaney, encharcada da atmosfera de New Orleans (havia sido gravada, entre outros, por Bix Beiderbecke). Pepper, que usa o sax alto como se fosse uma clarineta, e Garland reconstroem a clássica melodia, dando-lhe uma roupagem contemporânea, mas sem perder o charme do dixieland, ao tempo em que Philly e Chambers dialogam com extrema maestria o tempo inteiro.
“Tin Tin Deo”, clássico do latin jazz de autoria de Chano Pozo, ganha uma versão vibrante, colorida, em grande parte por causa do excepcional trabalho percussivo de Philly. Mas é necessário salientar que as intervenções do líder e do assombroso Chambers são nada menos que antológicas. Fecha o álbum uma arrebatadora interpretação de “Birks Works”, de Dizzy Gillespie, na qual Pepper consegue elaborar alguns solos inacreditáveis.
Um encontro primoroso de quatro dos maiores nomes do jazz em todos os tempos e que mostra que as fronteiras entre a Costa Oeste e a Costa Leste eram, de fato, bastante tênues. Com efeito, quando os grandes músicos dessas escolas atuavam juntos, os limites geográficos simplesmente deixavam de existir. Nenhuma boa discoteca de jazz está completa sem esse disco magistral.
Em 1961, outra prisão e pelo mesmo motivo. Desta vez, a pena foi cumprida no célebre presídio de San Quentin. Entre entradas e saídas da prisão, Pepper esteve encarcerado por mais da metade dessa verdadeira década perdida. Voltou à ativa em 1966, logo após o término da pena, atuando como free-lancer. Por influência de John Coltrane, a quem admirava intensamente, Pepper chegou a trocar o sax alto pelo tenor, mas em 1968, atendendo a um convite de Buddy Rich, voltou ao sax alto.
Em 1969, com a saúde em pandarecos após passar por duas cirurgias, devido a uma lesão no baço, Pepper resolveu pôr fim à sua longa associação com os entorpecentes. Internou-se voluntariamente no conhecido instituto de reabilitação Synanon em 1969 e só saiu dali em 1972. Estava curado do vício em heroína (ainda que fosse, até o fim da vida, um usuário habitual de cocaína) e mais do que disposto a recuperar o tempo perdido.
Voltou a gravar excelentes discos, especialmente para selos como Fantasy, Galaxy e Contemporary. Atuou com músicos do primeiríssimo time, como Hampton Hawes, Billy Higgins, Charlie Haden, George Mraz, Elvin Jones, Buddy Collette, Zoot Sims, Barney Kessel, Ray Brown e George Cables, que além de pianista mais freqüente a acompanhá-lo, tornou-se um grande amigo pessoal. Fez inúmeras turnês e apresentações pelo mundo e ganhou diversos prêmios.
A receptividade do mundo do jazz foi intensa, especialmente no Japão, e presença da terceira mulher, Laurie, foi fundamental para o retorno triunfante. Art e Laurie escreveram a quatro mãos a biografia do saxofonista, onde ele relata, sem qualquer tipo de autocomiseração, todas as suas desventuras no submundo das drogas e das prisões, incluindo relatos bastante chocantes de sua degradação física e psíquica.
Ele morreu no dia 15 de junho de 1982, em conseqüência de um derrame. Gozava então de um prestígio e de uma respeitabilidade à altura da lenda viva que era – não por acaso esse foi o título do primeiro disco gravado após a recuperação do vício, em 1975. Ultrapassadas todas as tormentas, o “Nature Boy” acabou por concretizar, ainda em vida, o ideal pregado na belíssima letra de Ahbez e nos deu, sob a forma de música, o amor de que fala a canção:
“Eis que uma vez,
Num dia mágico, o encontrei
E ao conversarmos lhe falei sobre os reis
Sobre as leis e a dor
E ele ensinou
Nada é maior
Que dar amor e receber de volta amor.”