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sexta-feira, 1 de maio de 2026

"A Mais Secreta Memória dos Homens" de Mohamed Mbougar Sarr

 


Acabei de ler o livro "A mais secreta memória dos homens" do escritor do Senegal Mohamed Mbougar Sarr, obra vencedora em 2021 do prémio literário mais prestigiante de língua francesa, Goncourt.

"O labirinto do inumano" é o título de uma obra publicada na década de 1930 em Paris que teria então  impressionado os meios literários franceses. Primeiro, pela qualidade da sua originalidade, segundo, pela admiração de se estar perante um provável autor africano e este ser capaz de uma tal obra-prima que rivalizava com a genialidade apenas considerada possível a escritores brancos. Depois veio a sua aniquilação pelos ataques de que foi alvo ao ser considerada como uma manta de frases plagiadas de grandes autores e, ainda baseada numa história não original proveniente da mitologia africana. Diégane, um estudante senegalês em Paris já no século XXI deambula pelo meio académico de origem africana e tenta descobrir o livro e informações sobre o seu autor: T C Elimane, mas parece que tudo foi apagado em torno deste fenómeno, é então que cruza num bar com uma escritora compatriota e reconhecida na Europa que mostra o livro e começa então uma rede de narrativas sobre o autor, as especulações sobre a sua vida e a sorte de todos os que se cruzaram com ele ou com "o labirinto do inumano".

O romance, que é na base uma busca detectivesca em torno de um livro e do seu autor, torna-se num conjunto de narrativas entrecruzadas sobre a vida e as ideias do jovem e de vários outros autores e do próprio Elimane e sua família, que no conjunto disserta sobre o que é a literatura, o que é ser um escritor, os seus ideais e a realidade do mundo literário. Sensatamente fala do preconceito europeu sobre a superioridade da sua arte e criatividade, do sonho em muitos colonizados em se mostrarem iguais ou mais capazes que os seus colonizadores, da vida solitária do escritor e das suas desilusões e ambições, dos regimes africanos falhados, do ideal da literatura transversal a vários continentes na civilização ocidental e das paixões humanas que interferem com tudo isto. 

Algumas personagens são escritores reais, como Sábato e Gombrowicz, outras puramente imaginárias, num texto rico, racionalmente sentimental de grande beleza e ternura que mostra as tensões e razões dos vários intervenientes e os problemas do colonialismo e da literatura e as feridas e cicatrizes que tudo isto deixa à sua volta. Um excelente romance pela qualidade do texto e conteúdo que vale a pena ler que pelo mérito justifica o prémio alcançado. Gostei muito

terça-feira, 18 de agosto de 2020

"O Herói das mulheres" de Adolfo Bioy Casares

 

Estava com saudades de estórias curtas, pelo que optei por ler o livro de contos do argentino Bioy Casares: "O herói das Mulheres", correspondendo este título ao do último desta coletânea de 8 narrativas reunidas em cerca de 150 páginas.

Existem alguns contos muito curtos, os maiores têm cerca de uma trintena de páginas, como os que abrem e fecham a coleção. Temos sobretudo narrativas fantásticas ou surrealistas na mesma linha da do amigo do autor: Jorge Luis Borges, com quem partilha a honra de ser um dos maiores escritores da Argentina. Algumas tornam-se divertidas pelo seu final surpreendente, outras são absurdas, mas o conjunto evidencia a diversidade por onde a psique humana se perde, labirintos entre a realidade e a imaginação.

Desde de um túnel curto que une pontos longínquos por onde um estudante se desviou em fuga aos estudos e encontrou o amor que se lhe tornou inacessível; a uma descoberta útil para o aproveitamento da dor física; ao jovem que não segue os conselhos da mãe e sai protegido pela magia; ao homem que foge da mulher obsessiva mas que a encontra no fim da sua fuga; à mulher que viaja em primeira-classe justificando as desvantagens; um intrincado jardim fantástico que embaraça a fuga de um jornalista perseguido politicamente; ao rapto por fantasma que talvez seria um tigre. Tudo isto numa panóplia diversificada e interessante. 

Para quem gosta do género é um livro muito bom entre o estilo de Kafka e de Borges, e também excelentemente escrito e narrado.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

"O Nervo Ótico" de María Gainza


Acabei de ler um livro muito elogiado pela crítica e numerosos leitores "O Nervo Ótico" da argentina María Gainza. A obra embora seja ficção não corresponde a um romance, são uma série de contos ou crónicas narradas por uma personagem feminina, guia turística, amante de pintura e residente em Buenos Aires.
Cada capítulo corresponde a uma crónica diferente no qual a narradora nos faz recordar um quadro, por norma do Museo Nacional de Belas Artes de Buenos Aires, e cruza a sua situação pessoal com os efeitos dessa pintura sobre ela ou conta um pormenor ou aspeto central da vida do pintor.
Assim, ao longo das diferentes estórias vamos percebendo pormenores da vida da narradora: a sua gravidez, memórias de família, a doença do marido, a juventude e namoros deste, a doença dela, o pânico de voar, relações de amizade que servem de mote para valar de episódios da vida, o estilo de pintura de artistas argentinos como o maneta Cándido Lopez, o espírita Augusto Schiavoni, ou outros e ainda nomes da pintura europeia como o mestre em pintar cavalos de Dreux, o academismo incómodo de Courbet, o deficiente Toulouse-Lautrec, uma partida de mau-gosto de Picasso e uma certa inveja de El Greco face a Michelangelo Buonarroti, etc.
Saliento a excelente escrita da María Gainza, dá prazer a sua estética, muito contemporânea, bela e fácil de ler, nem sempre comum nalguns novos estilos de escrita. 
Por norma sou um grande apaixonado por literatura que junta narrativa e informações artísticas como pintura e me faz descobrir obras ou autores. Hoje em dia com a internet posso complementar esses dados com pesquisas onde aprofundo essas indicações. Curiosamente, este livro conseguiu isso tudo numa técnica narrativa original, mas o livro não me deslumbrou como esperava, talvez porque as expectativas já eram muito altas após tantos elogios. Contudo, suspeito que entre as razões da minha falta de deslumbramento se tenha prendido com o grande número dos artistas da obra não serem os que mais me tocam e quando refere os que mais gosto a personalidade que deixa transparecer não é a mais favorável, assim aconteceu com Picasso e, sobretudo, com El Greco, por quem tenho uma grande admiração e conheço extensivamente a sua obra exposta, inclusive em Toledo.
Há um outro aspeto que me incomodou: a narradora é sempre a mesma mas há pormenores desta que não me soam coerentes e senti isso dentro de um mesmo capítulo. Apesar de tudo é uma obra interessante que dá a conhecer artistas, nem sempre os que mais brilham na constelação da história da pintura, e tem uma escrita que encanta.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

"A Aventura de um Fotógrafo em La Plata" de Adolfo Bioy Casares

Excerto
"Não há burlador que não seja simpático: é um requisito indispensável para a burla."

Adolfo Bioy Casares é um autor argentino que eu desconhecia de todo e que me foi recomendado por um amigo meu de Minas Gerais. Poucos dias depois cruzei-me numa feira com dois livros dele, embora nenhum coincidisse com a primeira indicação recebida, mas comprei ambos, um de contos, em espera, e este pequeno romance "A Aventura de Fotógrafo em La Plata".
Trata-se de um romance quase novela cujo ritmo vertiginoso associado a uma escrita muito cativante nos prendem à leitura desta estória essencialmente lúdica.
Nicolás Almanza é um ajudante de fotógrafo num bom estúdio de uma pequena cidade, neste um rico encomenda um fotografias para um livro sobre a cidade de La Plata, por coincidência vê um trabalho do jovem e admira a sua qualidade, sendo que cliente e patrão acordam em entregar a cobertura ao aprendiz, que terá todas as despesas cobertas e salário em função da entrega de fotos. Mal Nicolás chega a La Plata conhece uma família, um pai e duas filhas, que logo o acediam, por sua vez todas pessoas com quem vem a cooperar, o seu amigo detetive na cidade com companhias suspeitas de subversão política vão alertá-lo para o perigo da relação sentimental que vai desenvolvendo com as duas jovens e o progenitor que parecem usá-lo com objetivos duvidosos e onde todos o parecem disputar.
Paralelamente vamos descobrindo as descrições de La Plata através dos imóveis fotografados e das embrulhadas que o repórter se vai envolvendo numa sequência alucinante de paixões, ciúmes, conselhos, encontros furtivos e deambulações por restaurantes, ruas e pensões sem vir o dinheiro prometido apesar de persistir em cumprir a encomenda e tudo conduz a um final surpreendente.
Um doce romance divertido e empolgante devido à técnica de narrar e de escrever do autor. Gostei muito como um doce aperitivo à qualidade literária de Casares.

quinta-feira, 15 de março de 2018

"O Jogo do Mundo" (Rayuela) de Julio Cortázar


Citações
"Para que é que serve um escritor senão para destruir a literatura?"
":o juízo que o Rei pronuncia não é o seu, mas o teu. Julgas-te a ti mesmo sem o saberes."

Eu sabia que "O jogo do mundo" do argentino Julio Cortázar, à semelhança do desenho do jogo desafiante mostrado na capa do livro que nos punha a saltar de "casa" em "casa" e surge na estória, era um romance que recomendava saltar entre capítulos, isto numa sequência de leitura diferente das narrativas habituais noutra obras, só que este livro é bem mais complexo do que os meros saltinhos do jogo da macaca (rayuela em castelhano da Argentina ou amarelinha no Brasil).
A trama está relacionada com um grupo de artistas e pensadores estrangeiros "refugiado" em Paris do final dos anos 1950, quando esta cidade ainda era considerada o centro do pensamento e das artes mundiais. Neste grupo, o intelectual Horácio Oliveira, argentino, desenvolve uma paixão por Maga, uma uruguaia de pouca culta cuja ignorância desperta reações várias no grupo que se reúne numa tertúlia de reflexão "Clube da Serpente", que discute pintura, filosofia ocidental existencialista e tibetana, jazz e, claro, literatura. Uma ocorrência grave levará não só à fuga de Maga, como à exclusão de Horácio e ao seu desnorte em busca dela, o que o leva de regresso à Argentina para junto de gente de um circo ao lado de um manicómio, aí a mulher do seu melhor amigo torna-se obsessivamente numa réplica de Maga com toda a tensão psicológica deste jogo.
Cortázar escreve não só o romance, que ocupa quase os dois primeiros terços do livro (cerca de 400 páginas), por vezes divertido, mas também tenso, como também expõe em mais do terço final uma reflexão sobre a literatura, a arte e o existencialismo, tanto através de discussões das personagens da própria trama, como também com recursos a pequenos textos de um escritor, Morelli que se cruza com os da primeira parte e cujo seu espólio é acedido por eles.
Cortázar leva-nos através de uma tabela guia, associada aos capítulos, a saltitar da narrativa romanesca para outros da última parte, isto numa sequência que parece ilógica, mas que está profundamente estruturada e onde se descobrem os escritos de Morelli que fala da desconstrução da literatura, da necessidade de o leitor não ser um mero elemento passivo da obra, bem como, se acede a pretensos excertos de outros textos de origem diversa a que se adiciona ainda reuniões do clube da serpente a refletir sobre tudo e mais alguma coisa dispensáveis à trama.
Cortázar não deixa de ensaiar escritas criativas, com estilos variados em função dos diferentes autores dos capítulos por onde se saltita e no fim fecha-se o ciclo de um romance muito mais vasto que uma simples estória.
Gostei muito, custou-me a ambientar inicialmente no que parecia caótico, mas depois vibrei e tornou-se numa experiência inesquecível, recomendo apenas a leitores não passivos que gostam de ser desafiados pelo escritor... mas dá para ler sem o saltitar no que será uma experiência muito menos intensa deste livro.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

"O Livro de Areia" de Jorge Luis Borges



"O Livro de Areia" do argentino Jorge Luis Borges é composto de 13 contos no estilo fantástico típico do escritor. Os enredos cruzam tempos diferentes dos personagens, narram factos históricos ora reais ora baseados em livros antigos inexistentes, misturam personagens míticas com mundos reais das mais diversas partes do planeta mas privilegiando Argentina, o Uruguais e o norte da Europa, e onde por vezes o livro se torna o centro e é homenageado em bibliotecas representativas do saber mundial.
Este livro é a segunda coletânea de contos de J L Borges que leio, depois de O Aleph, o estilo fantástico, oculto e mágico sobre saberes reais e fictícios e tramas como livros é igual, embora agora já não me tenha surpreendido esta forma muito própria de escrita.
No fim o autor tem um posfácio onde enquadra as diferentes narrativas com base em objetivos pretendidos e esboços tentados entre outros aspetos. Gostei, um livro pequeno que se lê rapidamente, mas que pode surpreender positivamente uns ou desagradar a quem não gostar deste estilo único de narrar histórias de Jorge Luis Borges.