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sábado, 26 de outubro de 2024

"Uma casa para Mr. Biwas" de V. S. Naipaul

 

Regressei pela segunda vez à leitura do laureado com o prémio Nobel da Literatura V. S. Naipaul, um escritor de origem indiana e natural de Trinidad e Tobago de expressão inglesa. O romance "Uma Casa para Mr. Biwas" relata a vida de Mohun Biwas desde o seu nascimento até à morte.

Mohun, nascido numa família miserável, com seis dedos, mas cedo perdeu o apêndice excedente, cujo arauto do pândita que o integrou na comunidade expressou que nunca deveria estar perto de água, pois por esta ele traria desgraças à família, cedo ficou órfão por transgressão à recomendação, o que levou à morte do pai. Acolhido depois por uma tia que o protege e após os primeiros trabalhos de infância descobre o seu dom para letras e escrita, nesta arte conhece a Shana do clã Tulsis com quem, inconscientemente, é levado a casar e a viver esmagado pela força da comunidade numerosa de dois irmãos e muitas irmãs da esposa, dos respetivos maridos e dos muitos sobrinhos, todos sob a alçada da matriarca e seu cunhado. Inconformado nesta opressão, retalia, protesta, incita à rebelião, sendo exilado para sucessivas propriedades do clã, onde presta trabalho quase escravo, enquanto Shana  se mantém subserviente à sua família e lhe vai dando filhos e ele como um longo acumular de desgraças e antipatias. Nesta senda, aspira à sua libertação através de conseguir uma casa livre dos Tulsis, até chegar à capital de Trinidad onde consegue um trabalho num jornal especulativo que o torna conhecido mas não liberto do clã e sempre com o sonho de conseguir a sua casa.

É sem dúvida um grande romance, contudo o peso do clã e a descrição crua das tradições da cultura hindu que ao longo de quase todo o livro esmagam Mr. Biwas (baseado no pai do escritor) criaram-me uma aversão à narrativa e um preconceito contra a comunidade indiana que tornaram esta leitura dolorosa. Uma quase versão do Job bíblico nos tempos da II Grande Guerra naquela ilha das Caraíbas.

Tenho de reconhecer que em termos de obra, esta, além de extensa, tem um grande valor literário e força, mas mesmo temperada com sarcasmo e ironia para suavizar o asco da caracterização do clã Tulsis (cujo autor parece se ter baseado também na sua própria família materna), foi difícil prosseguir a leitura e, ao contrário de A Curva do Rio que gostei muito, este bom romance deixou-me marcas amargas, mas valeu a pena ler.

sábado, 1 de junho de 2024

"À Espera da Subida das Águas" de Maryse Condé

 

Citação

"Mas não é preciso ser perfeito para ser amado. Caso contrário, o amor seria uma recompensa e não um milagre."

Li pela primeira vez uma obra da Maryse Condé, francesa, natural da ilha de Guadalupe, é considerada a maior escritora da Caraíbas, com obras que falam das feridas do colonialismo, da escravatura, das guerrilhas e miséria nas Antilhas, "À espera da subida das águas", estende este tema à África francófona e ao Médio-Oriente nas últimas décadas. 

Babakar é um obstetra formado em Montreal, vive em Guadalupe em solidão enquanto vai atendendo grávidas, recorda uma amizade universitária, África onde nasceu e assistiu às devastações de uma guerra civil liderada pelo seu amigo e um amor perdido. Entretanto sua mãe falecida dá-lhe conselhos e avisos em sonhos. Numa noite tempestuosa é chamado a um parto de uma imigrante haitiana clandestina que morre, adota a criança, mas um companheiro da defunta informa-o que têm de ir para o Haiti com a bebé encontrar a família para a morta ter descanso. Decide seguir o conselho e partem para uma terra de pobreza, de anarquia e conflito e estabelece-se neste caos, cria magníficas amizades, com um "libanês" e outras personagens ligadas à política tirana do pais que vivem naquele estado falhado e procura o melhor para a sua filha.

O romance tem uma estrutura que inclui várias biografias das principais personagens da obra e assim assistimos a diferentes histórias paralelas que completam o evoluir da trama e expõem os problemas de uma guerra civil e ditaduras em África, da guerra no Líbano, do legado da escravatura e do caos em que se transformou o Haiti nas últimas décadas, além das feridas do colonialismo.

Num estilo que paira entre o realismo mágico e as crenças da religião vodu com mistura de vivos e mortos, assiste-se ao milagre da resistência da amizade e do amor às dificuldades de se viver em terras devastadas pelas tensões humanas e as catástrofes naturais.

Apesar do desfile de agruras, não é um texto triste, uma certa leveza e humor atravessa as dificuldades e tempera a obra que se torna agradável de se ler enquanto mostra os problemas das terras por onde Babakar e outras personagens vivem. Gostei e recomendo.