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sábado, 7 de junho de 2025

"O Problema Final" de Arturo Pérez-Reverte

 

Citação

"Tratando-se de seres humanos, nunca se deve atribuir à loucura o que se pode atribuir à perversidade"

Voltei ao versátil escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte com a leitura do seu mais recente romance, agora de género policial: "O Problema Final" mas onde, intencionalmente, revisita o estilo de tantos livros clássicos do mesmo género da primeira metade do século XX.

Em junho de 1960, numa pequeníssima ilha grega, ao largo de Corfu e com apenas um hotel, ficam retidos nove hóspedes por questões meteorológicas, quando se dá a morte de uma destes, inicialmente parece um suicídio num quarto fechado, só que entre os presentes encontra-se Hopalong Basil, um dos principais atores de filmes de Sherlock Holmes na primeira metade do século que encarnou muito do caracter da sua personagem, bem como, um escritor com algum sucesso de livros policiais, provavelmente medianos e conhecedor da obra de Conan Doyle, que são indicados pelos presentes para tentar desvendar o caso, que assim assumem o papel da dupla Sherlock e Watson. Após o aparecimento de indícios cada vez mais evidentes do crime, dá-se uma segunda morte, novamente em quarto fechado e quando o círculo aperta, a terceira surge com evidências bem diferentes. Será que o ator de Sherlock por excelência conseguirá igualar a sua personagem? Uma obra com surpresas até às últimas páginas. 

Numa excelente qualidade de escrita, a obra do género policial, onde a sagacidade e minúcia de observação do investigador está acima do género negro mais recente, em que a violência da descrições, o suspense do ato seguinte se sobrepõem à frieza da análise que vai sendo exposta na narrativa e discutida entre protagonista e seu auxiliar, com abordagens à psicologia e numerosas referências e citações da obra de Conan Doyle, menções de casos de Agatha Christie, Gaston Leroux, Poe entre outros escritores policiais. Assim, resulta uma obra que permite muitos sublinhados de citações que, frequentemente, são referenciadas a outras obras

Por o protagonista ter sito um ator famoso de cinema, a obra fala de numerosas estrelas da sétima arte da primeira metade do século XX, bem como de alguns realizadores, fazendo assim memória e homenagem àquelas luzes da ribalta de há longas décadas que encheram as colunas sociais e hoje quase esquecidos fora dos historiadores desta arte. Igualmente é colocado em confronto numerosos aspetos da representação e a realidade ou a forma de narrar pela escrita, desnudando estratégias de encaminhar o leitor ou o espetador ao longo do romance mistério, tendo em vista engrandecer a capacidade do detetive ou prender o público.

Cativante sobre todos os ângulos, eis uma obra-prima literária no género policial clássico, sem deixar de ser de entretenimento, sendo também uma grande homenagem aos grandes autores deste mesmo estilo de obras e do cinema. Gostei muito é, sem dúvida, um livro muito bom.

sábado, 22 de janeiro de 2022

"A Laranja Mecânica" de Anthony Burgess

 

Citação

"Será porventura um homem que escolhe o mal de certa forma melhor que um homem ao qual foi imposto o bem?"

Acabei de ler "A Laranja Mecânica" do inglês Anthony Burgess escrito na década de 1960 e adaptado ao cinema por Kubrik, não considero uma obra de ficção científica, mas é sem dúvida uma obra distópica, uma reflexão sobre a violência juvenil e dos limites do Estado para impor-se aos cidadãos para controlar essa mesma violência.

Alex narra a sua vida de adolescente e líder de um gangue cuja vida noturna era atacar cidadãos pacíficos, roubar e violar mulheres, para durante o dia ter uma vida mais calam ou de ressaca da noitada. Só que num desses atos é preso por homicídio. Pela sua idade o detido é convidado para cobaia de um método psiquiátrico sem o informar plenamente das suas consequências. Estas retiram-lhe o livre arbítrio pois torna-se incapaz de fazer o mal a outros por uma indução de indisposição no exercício de tal prática. Sendo ainda alvo de aproveitamento político depois destes danos.

A obra, um clássico da literatura distópica, tem a particularidade de estar escrita com recurso a uma gíria (denominada Nadsate) que Burgess criou, a qual procura evidenciar o linguajar hermético da adolescência e também  como em literatura este tipo de vocabulário não é utilizado, contudo a leitura torna-se no início difícil, havendo um dicionário no fim para dar apoio ao leitor. Todavia a dinâmica que o autor imprime ao texto, se houver habituação aos vocábulos, a leitura torna-se não só fluída como nos faz entrar na mente de um adolescente.

O filme que vi pela primeira vez há várias décadas é um dos filmes que mais me marcou até hoje e o livro ainda é mais impressionante, mas pode não ser uma obra fácil de ler devido a série de atos de violência física ou psicológica ao longo da narrativa, além do Nadsate... mas gostei muito do livro

sábado, 5 de setembro de 2020

"Os Sete Pilares da Sabedoria" de T. E. Lawrence

 

Acabei de ler um livro com cerca de 800 páginas que é em simultâneo um romance e um relato histórico real, memórias narradas e vividas pelo autor. Uma obra de grande sensibilidade e beleza de escrita literária e também um texto de reflexão sobre o que era o papel e a mentalidade das potências europeias sobre os outros Povos no início do século XX que se torna numa mensagem de respeito e tolerância pelas outras nações, suas culturas e religiões. "Os Sete Pilares da Sabedoria" é o relato da batalha da frente árabe durante a primeira guerra mundial, vista do lado dos árabes mas através dos olhos de um inglês ao serviço da Inglaterra, T E Lawrence, mais conhecido por Lawrence das Arábias na sequência da adaptação desta obra ao cinema. O autor teve como papel estudar e unir todos os povos da península arábica a Damasco numa identidade nacional para assim lutarem pela sua independência do império Otomano governado pelos turcos de Istambul, tendo no seu trabalho integrado a mentalidade dos povos a sublevar e assumido a personagem e comportamento árabe sem renegar a sua identidade de origem como modo a conseguir o respeito e confiança das mais variadas etnias árabes.

Lawrence encontra-se na embaixada no Egito durante a 1.ª Guerra Mundia sendo encarregue de procurar no seio dos árabes um líder para fazer aderir os povos do médio-oriente a uma causa contra os turcos aliados dos alemães. Parte para a península e entre as famílias dominantes da zona e entre vários contactos seleciona Faiçal da dinastia dos Hashemitas para liderar a sublevação com a promessa de posteriormente estes Povos puderem ter independência e estados com a liberdade dos europeus. Passa a integrar os militares da Faiçal e em paralelo dá início a uma guerra de guerrilha e cativa as tribo para o combate, viajando com os árabes adota os seus costumes, trajes e passa grande parte do tempo isolado dos ingleses. Mais tarde as suas vitória tornam as suas forças num braço armado autónomo mas a servir os ingleses na conquista da zona até Damasco, embora tenha a consciência que as potências europeias se vencerem não darão o estatuto de independência que considera justo. 

Brilhantemente escrito, é um relato de guerrilha, mas só na última centena de páginas assistimos a relatos de combates clássicos, o livros com várias viagens em território desértico descreve pormenorizadamenre a paisagem, o clima e a geologia da região, enquanto vamos descobrindo como são as tribos, a sua diversidade e mentalidade e os problemas de consciência de Lawrence, tão próximo sentimentalmente de Faiçal e dos seus chefes guerreiros com quem desenvolve uma amizade e respeito profundo. Uma edição que foi publicada por crowdfunding de potenciais leitores pela E-Primatur, na qual participei, um livro com várias imagens que me orgulho de ter contribuído para a sua publicação, apesar de extenso e do grande número de personagens e topónimos difíceis de decorar, apesar de vários mapas de apoio. A obra mais rica e importante que li nos últimos tempos. Uma obra-prima.

sábado, 1 de setembro de 2018

"A Pousada da Jamaica" de Daphne Du Maurier


Excerto
"A rapariga continuou sentada no chão ao lado da cadeira acabada de desocupar. Através da janela da cozinha, viu que o Sol já desaparecera atrás da colina mais distante e em breve a malevolência do crepúsculo de Novembro envolveria a Pousada da Jamaica, mais uma vez."

"A Pousada da Jamaica" da inglesa Daphne Du Maurier, é o típico romance que junta o suspense, a tensão psicológica, o amor romântico, os bons reféns dos maus e surpresas até ao fim para se adaptar com sucesso ao cinema tal como fez o mestre do género Hitchcock com esta obra.
A estória passa-se no início do século XIX quando Mary Yellan, após a morte da sua mãe viúva para fazer a última vontade desta vende a quinta e parte para a casa da tia materna na Cornualha, onde espera encontrar a proteção de uma mulher que se lembra de ser alegre, só que agora esta está casada com o dono de uma estalagem rural, vive oprimida pelo terror da vida do seu marido com um bando de bandidos alcoólicos que se suspeita dedicarem totalmente ao mal. Mary tentará descobrir o que se passa naquela casa que já não tem hóspedes e vai descobrindo uma teia que se torna cada vez mais macabra e da qual fica refém. Infelizmente a ajuda que encontra nas proximidades parece vir de gente cujos indícios são ainda piores, situação agravada por se apaixonar por quem não se recomenda.
Maurier escreve de forma escorreita e despretensiosa, mas cuidada, agradável e literariamente boa. Constrói assim uma obra de entretenimento sem descer à vulgaridade, enriquecida com a descrição pormenorizada da paisagem da charneca da Cornualha e ainda com análises psicológicas densas das personagens que cria.
Gostei do livro que prende o leitor, é fácil, bem estruturado e bem cuidado.


domingo, 10 de junho de 2018

"Será que os androides sonham com ovelhas elétricas?" de Philip K. Dick


Excertos
« ...os androides equipados com a nova unidade cerebral Nexus-6 tinham, numa perspetiva grosseira, pragmática e eficiente, evoluído para além de um maior - mas inferior - segmento da humanidade. Para o melhor ou para o pior. O servo tinha-se, em alguns casos, tornado mais inteligente que o seu senhor

« Terás de fazer coisas erradas onde quer que vás... É a condição básica da vida, teres de violar a tua própria identidade. Em determinada altura, todas as criaturas que vivem devem fazê-lo. É a sombra final, a derrota da criação; esta é a maldição em funcionamento...»

Poucos parecem saber que o primeiro filme "Blade Runner" se baseia no livro "Será que os androides sonham com ovelhas elétricas?" escrito pelo americano, famoso pelas suas obras de reflexão e humor negro em ficção científica, Philip K. Dick, várias das quais adaptadas ao cinema.
Após uma guerra o planeta está contaminado, a maioria das espécies extintas e a humanidade vive só em certas cidades sob alertas de radioatividade e com certas máquinas de controlo psicológico que cria uma nova religião social, mas o desejo mais comum das pessoas é ter animais domésticos reais face à oferta de cópias elétricas. Há colónias no sistema solar onde foram fabricados androides servis, que com a evolução são cada vez mais indistintos dos humanos, até que alguns nos ultrapassam, querem viver em liberdade, desejam estabelecer-se na Terra, aonde estão interditos e para onde fogem. Surge assim a profissão liberal de caçadores de androides remunerada por prémios de captura. Os Nexus-6, topo de gama na inteligência, dão luta, surge a possibilidade sentimental entre pessoas e máquinas e assim se desenrola nesta sociedade distópica o trabalho policial de Rick em São Francisco com reflexões morais e éticas entre tecnologia e o seu controlo.
A obra original é mais abrangente que a adaptação cinematográfica, esta limita-se ao essencial da caça, embora várias das questões do livro tenham sido transpostas para o filme. O romance, além de bem escrito, é mais profundo nas reflexões e não se limita a mostrar a questão dos sentimentos nos androides, pois mostra o vazio nas pessoas no mundo contemporâneo. Tendo sido publicado em 1968 o futuro imaginado evoluiu diferentemente nalgumas situações do que o imaginado na obra, pelo que há um desfasamento na visão do futuro tecnológico, mesmo sendo claro que se estaria na última década do século XX,  pode-se sempre transpô-la para um futuro posterior ao nosso presente.
Gostei muito do livro que é de fácil leitura, mas já me encantara com Blade Runner, obras diferentes e ambas geniais no seu género de ficção-científica, distópica  e levantando questões de ética e moral.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

"Três Tristes Tigres" de Guillermo Cabrera Infante


Há livros que são uma biblioteca e o romance "Três Tristes Tigres" de Guillermo Cabrera Infante é de facto uma louca adição de estórias, textos de géneros distintos, miscelânea de línguas, charadas de palavras, experiências de escrita e dissecação de vocábulos e pronúncias, mecanismos de destravamento ou travamento linguístico e tal como explicado inicialmente, o bom seria ler em voz alta para melhor entender toda a riqueza fonética ali contida. Tudo isto tem como pano de fundo a vida noctívaga de Havana no tempo de Batista pouco antes da revolução cubana sem qualquer preocupação ou censura moral.
A obra é narrada essencialmente a partir de três personagens maiores: um fotógrafo, um ator radiofónico e um escritor, com a ensombração de um poeta prestidigitador das palavras e de uma cantora cuja a voz e o corpo formariam um monumento gigante, devidamente secundado por toda a panóplia de personalidades que animam a noite boémia: músicos, coristas, prostitutas, homossexuais pessoal de bares, cabarés e restaurantes numa promiscuidade cujas combinações são impossíveis de quantificar, a que se associa de forma intercalada uma voz singular perante o seu psiquiátrica.
Os Três Tristes Tigres são uma enciclopédia da cultura ocidental: tanto musical erudita e popular latinoamericana; literária com citações e deformações e reescritas dos mais diversos escritores e provérbios universais e do saber dos filósofos, havendo uma parte onde se destacam autores cubanos e ainda ao nível do cinema norteamericano sobretudo das décadas 1930/40 e 50, todavia a obra não tem uma linha continuada da estória.
Após uma apresentação dos debutantes que serão reexpostos depois no livro que poderemos redescobrir a quem correspondem, acompanharemos a vertiginosa vida de um fotógrafo encantado com uma cantora, assistiremos períodos de engates entre o ator radiofónico na companhia dos seus amigos escritores e músicos, como veremos em imitações de escritores cubanos várias versões em torno da morte de Trotsky, para passar por um período louco de palíndromes, jogos numéricos, dissecações e transformações de um poeta cuja "deficiência" do cérebro descoberta em necropsia justifica a causa da genialidade de deformação das palavras e da linguagem, para se avançar para um dia louco de reflexões existenciais que se prolonga por numerosas páginas até um epílogo que mais não é que outro trabalho de escrita.
Um livro único do mesmo ano de "Cem anos de solidão", que por vezes com tanto exercícios de escrita pode cansar, noutros divertir o leitor, mas sobretudo é um trabalho que prova que já tudo parece ter sido inventado antes de Saramago, Llosa e outros revolucionários da escrita e da loucura narrativa terem transformado a literatura contemporânea.
Apesar de tudo, para quem não se deixa entusiasmar por estes ensaios de escrita, Três Tristes Tigres pode ser uma obra fastidiosa, ininteligível e desesperante, mas é uma obra-prima para quem gosta mesmo de literatura como arte de saber trabalhar as línguas, as letras, a sintaxe e os sons que a escrita tentam transpor para o papel e sendo um castelhano, suponho que grande parte da dinâmica linguística pode ser bem aproveitada pelo tradutor que seguramente se viu perante um trabalho hercúleo para colocar tal monumento em Português.

sábado, 20 de maio de 2017

"A Falha" de Luís Carmelo


O romance "A Falha", do escritor Português Luís Carmelo, tem a particularidade de ser um livro onde o autor coloca na obra o seu saber profissional como professor de escrita criativa. Este livro, no interior de cada um dos seus capítulos, expõe estilos onde se descreve a ação na perspetiva de um observador exterior a esta, reflexões íntimas das personagens envolvidas na estória, com formas distintas em função da psicologia destas, abordagens críticas de um narrador conhecedor do pensamento das pessoas que integram a trama e ainda a textos que mostram formas de outras entidades apresentarem o que se passa na trama. Criando assim uma panóplia diversificada de géneros de escrita que enriquece a obra.
No que se refere à trama, esta começa com a apresentação e encaminhamento de sete personagens que se dirigem para Elvas para um jantar de colegas de liceu de há 25 anos atrás que se reúnem habitualmente a cada cinco anos e onde cada uma tem não só evoluções pessoais e marcas diversificadas em função do relacionamento com os seus companheiros de adolescência, amores, desconfianças, descobertas origens sociais distintas e evoluções de vida diferentes, bem como fruto do 25 de Abril, o que confere a cada uma um carácter muito próprio. Segue-se o encontro e refeição onde as tensões entre estas estão presentes e disfarçadas pelas regras de relacionamento social impostas na vida adulta complementada com uma atividade lúdica de uma prova de vinho e visita a uma pedreira onde um acidente os deixa encerrados no interior de uma caverna cuja necessidade de convívio numa situação extrema se torna numa abordagem psicológica intensa e acompanhada da incerteza de salvamento. Após o resgate bem descrito desenvolve-se uma análise temporal dos efeitos da crise em cada um deles e o modo como estes ultrapassam melhor ou pior aquele tenso momento.
A escrita mesmo diversificada é fácil, embora, por vezes, a mudança de momento, estilo e perspetiva da narrativa perturbe o leitor, mas mesmo sem considerar estilos de um génio literário, o livro vale não só por essa riqueza de formas, como o romance, além de momentos de elevada tensão, tem uma multiplicidade de características que alimentam o suspense que nos prende à leitura. A obra tem cenas muito cinematográficas que até levaram à sua adaptação a um filme dirigido por João Mário Grilo. Apesar de não ser uma obra premiada, considero-a de nível não inferior a muitas outras nacionais cujas críticas e as editoras publicitam com louvores intensos. Gostei.

domingo, 14 de maio de 2017

"Rebecca" de Daphne du Maurier


Li Rebecca", da escritora inglesa Daphne du Maurier, sobretudo para conhecer o livro que esteve na base do filme homónimo e uma da obras mais empolgantes do realizador Alfred Hitchcook que eu vira no cinema há umas décadas atrás e sabia muito ter gostado, mas já com poucas memórias da história. Algumas passagens do romance recordaram-me cenas do filme e inclusive certas memórias revelavam-me o evoluir de alguns momentos da narrativa, todavia, felizmente, nunca o desenlace final, o que permitiu manter o suspense até à última página.
A protagonista narra o modo de como jovem de companhia de uma velha rica e presunçosa conheceu num hotel de verão em Monte Carlo um inglês mais idoso, senhor de uma importante mansão e viúvo de Rebecca, uma mulher admirada pela sua beleza e vida social que morrera recentemente num acidente. O encontro entre os dois conduziu a um casamento repentino e ao choque da sua entrada numa nova vida na imponente residência de Manderley cheia de memórias da anterior mulher e onde a mordoma que criara e se afeiçoara à anterior dona alimenta um ódio à nova senhora sentindo-a como intrusa e usurpadora sem o nível da anterior. No seio destas dificuldades e insegurança da segunda Mrs. de Winter, narradas no início a um ritmo lento e nostálgico, um incidente traz ao de cima com grande violência e perigo dúvidas sobre as causas da morte de Rebecca que colocam em ameaça uma relação ainda cheia de incertezas de ser fruto de um amor correspondido e onde o fantasma da falecida parece vir vingar-se ao longo de uma investigação policial cheia de suspense até ao final.
O romance apresenta uma escrita muito feminina, cheia de sentimentos e pormenores dos espaços percorridos e situações narradas por um coração de mulher e essa forma sente-se não só na sensação de insegurança e lentidão de adaptação social na primeira metade da obra, como na força do companheirismo e do amor com que a ansiedade do suspense é combatida na segunda metade da obra face a todos os perigos que colocam em risco um amor que se descobre ser forte, apesar de uma sombra do passado que afinal era uma ameaça mas por razões bem díspares dos receios da segunda Mrs. de Winter.
Uma obra que junta romantismo, literatura policial e suspense brilhantemente escrita e estruturada, com um grande tempero feminino. Gostei e recomendo.

sábado, 31 de dezembro de 2016

"Mystic River" de Dennis Lehane



Acabei de ler "Mystic River" a minha estreia em Dennis Lehane, um escritor atual dos Estados Unidos, que trabalhou com crianças com problemas psicológicos e depois se dedicou à escrita com obras de ficção do género thriller e policial, onde se encaixa este romance.
Três crianças de 11 anos brincam na rua quando uma delas é raptada por um carro, vítima de abusos e consegue fugir. Mais de 20 anos depois, já homens quando cada um segue a sua vida e a amizade do passado esfriou, ocorre o assassínio da filha de um deles, o que os leva a uma aproximação, sendo agora um investigador policial, outro suspeito e o restante vítima da situação, decorre então o trabalho de pesquisa num bairro pobre, com problemas de violência, degradação social e sem perspetivas de futuros para os mais desfavorecidos, enquanto a área vai sendo cercada por yuppies em ascensão económica.
Neste policial somos questionados sobre os traumas da infância, a desagregação social e familiar, as dificuldades de reabilitação de quem convive com o crime e vive no meio deste, bem como reflexões de quem investiga para garantir a segurança e retirar os criminosos da sociedade, num trama onde amizade, desconfiança e obrigações profissionais se cruzam.
Contudo este romance, já adaptado ao cinema, é muito mais que uma simples estória de entretenimento, pois, além de ter uma escrita literária de qualidade, tipicamente norte-americana, junta uma análise psicológica e social profunda de um meio urbano e grupo problemático, criando personagens complexas que elevam esta obra ao nível de outros géneros literários considerados alvos de maior respeito no mundo da literatura e da cultura que um simples thriller para explorar emoções e medos. Gostei e recomendo.

terça-feira, 28 de junho de 2016

"O Que Diz Molero" de Dinis Machado


"O Que Diz Molero", o originalíssimo e famoso romance de Dinis Machado, foi uma das obras de maior sucesso de vendas no último quartel do século XX em Portugal e rapidamente traduzido para vários países da Europa, de facto não conheço nenhum livro que lhe seja semelhante.
Dois homens, Austin e DeLuxe, dissertam ao longo de todo o romance com base no relatório de Molero relativo à investigação que lhe fora encomendada sobre a vida de uma personagem: "o rapaz", que nasceu num bairro popular de uma família problemática, cresceu na rua como gaiato cheio de aventuras com os seus pares e depois correu continentes dissertando sobre Miró, amando inúmeras mulheres, produzindo poemas e em busca da palavra, da arte literária e talvez de um motivo para a sua existência ou de conseguir produzir uma obra maior que o tornasse merecedor de uma estrela na constelação celestial dos grandes artistas  e pensadores da história da humanidade.
Apenas há a dissertação dos dois intervenientes numa sala e conduzida por Austin, sempre fundamentada no relatório de Molero, onde constam aspetos concretos e reflexões e interpretações sobre o rapaz. Isto feito através de uma escrita com poucos parágrafos, estes por vezes distam várias páginas e mesmo assim num texto cheio de criatividade e de descrições, por vezes hilariantes sobre os acontecimentos vividos pelo rapaz, o único não merecedor de um nome ou alcunha. Existem passagens de uma hilaridade tal que se tornam difíceis de ler, tal o gozo que provocam nos relatos as tropelias e maldades dos intervenientes, sobretudo os miúdos de rua no bairro, mas descritos com um seriedade estóica com base no relatório o que lhe dá um tom quase científico. Outros partes com reflexões sobre a arte, sobretudo a arte da palavra e do cinema, têm um ambiente mais etéreo de criação literária, com frases que alimentam um exposição surrealista, simbolista, mas intercalada com extensos pormenores triviais o que dá uma configuração estranha ao texto.
A verdade é que este romance é um murro de escrita criativa cheio de paródias expostas de uma forma séria, nostalgia sobre algo que talvez não exista e um humor requintado e culto que por vezes toca o sentimentalismo animal e outras num romantismo quase religioso, mágico e ascético. Todavia só é uma obra fácil para quem está habituado a ler e se diverte com a arte de brincar com a escrita.

sábado, 5 de março de 2016

"Murther & Walking Spririts" de Robertson Davies


Um atraso no envio de uma compra de livros levou-me a regressar à minha estante de obras em inglês de autores Canadianos e a optar por um dos escritores mais importantes do Canada da segunda metade do século XX, Robertson Davies, que está entre os que mais admiro e gosto ao nível global, pena estar tão pouco traduzido em Portugal, tendo em conta a sua importância literária reconhecida internacionalmente.
"Murther & Walking Spririts" foge ao estilo mais frequente das obras de Robertson Davies que na generalidade correspondem a romances em ambientes reais que descrevem problemas e tensões concretas de determinados grupos com uma escrita límpida, elegante e fácil, frequentemente cheia de humor e ironia subtil.
O presente romance começa com o assassínio do protagonista por um colega de trabalho, com caráter medíocre, do departamento de cultura de um meio de comunicação social de Toronto, quando este foi surpreendido em flagrante no quarto com a esposa do primeiro. A partir daqui Gilmartin assassinado acompanha com um certo prazer irónico e bom humor a forma como agem os culpados da sua morte e às cenas do seu próprio funeral, sendo depois levado a assistir a um festival de cinema da sua iniciativa, agora sob a orientação do assassino, só que em vez de ver os filmes clássicos históricos exibidos na tela, esta mostra-lhe filmes homónimos onde os protagonistas são seus antepassados desde a independência dos Estados Unidos que se refugiaram no Canada, tanto ingleses fieis ao governo das suas raízes, como descendentes dos holandeses que criaram a colónia que hoje é Nova Iorque, como ainda galeses que mais tarde por dificuldades na sua terra se veem forçados a emigrar para a mesma região do Novo Mundo fiel a Inglaterra.
Assim, este romance desenrola-se numa sequência de histórias independentes de vidas com luta pela sobrevivência numa sociedade difícil que no fim se cruzam em Gilmartin, que apreende não só "lições de vida" a usar na continuação da sua nova "vida", como ainda desemboca no fardo que castigará o seu assassino de uma forma igualmente original.
Robertson Davies, um homem de alta craveira inteletual e cultural, dá-nos nesta obra não só importantes informações sobre as raízes de formação do Canada e de alguns dos povos que estão na origem desta nação multicultural e multirreligiosa, com recurso ao mundo metafísico, sem perder o seu humor habitual e o seu estilo de fácil leitura, um universo literário que infelizmente está vedado a quem apenas lê obras traduzidas em português. Mesmo sem este estar entre os romances meus preferidos deste escritor, gostei e recomendo a quem leia literatura em inglês.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Em memória de quem era o cineasta ativo mais idoso do mundo: MANOEL OLIVEIRA


Manoel Oliveira com 106 anos, não só era um marco pela sua extensa obra de realizador de filmes, iniciada em 1931 com uma curta-metragem documental "Douro, faina fluvial", para passar a longas-metragens de ficção com o referência histórica que foi "Aniki-Bobó" em  1942, prosseguindo a sua atividade praticamente ininterrupta até 2014 com a mais recente obra "O velho do Restelo". Nem sempre amado pelo grande público português, devido ao ritmo lento do desenrolar da ação nas suas películas, onde muitos nem se apercebiam que tinham a oportunidade para apreciar a poesia da fotografia, este realizador era um caso de sucesso em França pela pela forma artística com que fazia passar a história na sala de cinema.
Em Portugal Manoel Oliveira era contudo uma referência cultural conhecida de todos, mesmo os que não viam os seus filmes ou se limitavam a ver o seu papel de ator na Canção de Lisboa de 1933 ou na obra de Wim Wenders "Lisbon Story" de 1994, mas poucos se lembram que antes da sua carreira na 7.ª arte foi atleta e campeão nacional de salta à vara e um piloto de desporto automóvel na década de 1920/30.
Vi várias obras deste realizador, menos do que desejava por as mesmas em Portugal passarem menos fora de Lisboa por razões comerciais, mas admirava a sua fotografia e sem dúvida foi quem melhor colocou em filme os romances da sua conterrânea do Porto: Agustina Bessa-Luís.
Manoel Oliveira morreu hoje de paragem cardíaca, mas ainda trabalhava para mais filmes... Portugal ficou mais pobre e fica a aqui a minha homenagem a este génio da cultura nacional de referência internacional.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

"O Coração das Trevas" de Joseph Conrad


Há livros que nunca será demais ler e reler numerosas vezes que sempre terão algo de novo para nos questionar ou dizer, "O Coração das Trevas" de Joseph Conrad é um desses livros. Um pequeno romance, cujo conteúdo é enorme e por mais que se leia, levantará sempre novas perguntas sobre até onde pode ir o fundo negro do homem na exploração e no desprezo pelo outro.
Um livro inquietante onde um Europeu, Marlow, relato o que viu ao navegar pela floresta primitiva através do rio Congo para ir buscar alguém que estava no posto mais distante da companhia que abastecia a Bélgica de marfim e se tornara incómodo.
O relato mostra o que homem civilizado e moderno é capaz de fazer a um povo, que representa a origem da humanidade na floresta primitiva, para satisfazer os seus interesses e sem dar qualquer importância à vida e ao bem-estar do seu semelhante e como este escravizado ainda é capaz de se humilhar ao serviço deste super-homem de valores e princípios que o explorou.
Uma obra aproveitada para as partes mais inquietantes do filme de Coppola "Appocalipse Now", com uma descrição forte, cinematográfica, com uma escrita moderna apesar de ser de 1902 e cheia de interrogações subtis, colocadas pelas dúvidas e consciência de Marlow.
Mais grave ainda é descobrir como alguém com o sonho de civilizar o povo da floresta se transforma num deus do mal depois de todo o horror que viu no rio Congo. Uma obra de arte, incómoda, que agita a consciência, feita para pessoas que se interrogam mas também para aquelas que se deixam enganar por este Europeu de valores que abolira a escravatura que deve ser lida várias vezes na vida.

domingo, 25 de março de 2012

Morte do escritor Antonio Tabucchi

Antonio Tabucchi, o escritor italiano de Pisa que se apaixonou pela obra de Pessoa e daí se tornou de coração  um Português e o melhor divulgador da literatura lusitana na Itália, morreu hoje em Lisboa.

Antonio Tabucchi - Imagem Wikipédia

O Faial não foi uma ilha estranha para este escritor, um dos seus livros mais conhecidos é a "Mulher de Porto Pim" (no original: Donna di Porto Pim e Altre Storie), sem dúvida um conjunto de contos que mostram como se encantou com a cultura baleeira destas ilhas e como levou à Itália o lugar mágico faialense que é a Baía de Porto Pim.

Baía de Porto Pim, ilha do Faial

Igualmente a luta pela democracia em Portugal foi alvo da sua escrita com a Firma Pereira (no original Sostiene Pereira) que foi passado a filme com o mesmo nome por Marcello Mastroianni, no Brasil com o nome de "Páginas da Revolução".
Para saber mais da sua biografia consultar aqui.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Os meus predilectos do Faial Filmes Fest 2011

Sangue do Meu Sangue de João Canijo foi a longa-metragem vencedora do Faial Filmes Fest, talvez mesmo a obra mais forte passada neste festival, um retrato de problemas sociais de bairros periféricos de Lisboa e, sobretudo, um hino à força de muitas mulheres que aí vivem.



Estrada de Palha de Rodrigo Areias foi menção honrosa, mas sem dúvida uma linda obra de arte do cinema português. Um western lusitano praticamente sem tiros, complementada em contínuo por um fundo musical interessante numa estória que decorre sem pressas e com uma mensagem política libertária. Destaco a fotografia, a mais bela que me lembro de até hoje ver num filme feito em Portugal



Viagem a Cabo Verde de José Miguel Ribeiro foi a minha curta predilecta, ganhou o prémio de melhor animação... um obra de arte perfeita no seu género simples e humano.



Votos para que para haja novo Faial Filmes Fest e que a grande qualidade de 2011 se repita.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Faial Filmes Fest 2011 - Continua

Num ano onde o festival passou também a acolher longas metragens... também a qualidade tem sido um ingrediente importante.
Aproveite... ainda há mais 3 dias de cinema com fitas curtas e longas no Teatro Faialense, veja o programa.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Faial Filmes Fest 2011 - Longa portuguesa reconhecida

Cartaz tirado daqui

No primeiro dia duas longas-metragens interessantes, hoje na IV sessão de competição (16h00) do Faial Filmes Fest outro filme lusitano já duplamente vencedor em San Sebastian: prémio TVE e da crítica.

Uma oportunidade para ver uma longa-metragem reconhecida do cinema que presentemente de faz em Portugal.

sábado, 29 de outubro de 2011

FAIAL FILMES FEST 2011

Neste fim-de-semana arranca a 7.ª edição do Faial Filmes Fest. O tradicional festival de curtas-metragens deixou este ano o limite da dimensão das pequenas fitas a concurso e agora afirma-se como o Festival de Cinema dos Açores, abrindo-se às longas metragens e com a presença de vários realizadores das obras em concurso.
Um festival internacional essencialmente na língua de Camões, com destaque para a forte presença do Brasil através de uma embaixada de Atibaia SP e do festival que ali se realiza, embora também receba filmes das Canárias, cobrindo assim toda a Macaronésia.
Um festival que leva ao Teatro Faialense uma mostra de cinema, um concurso de fitas curtas e longas e um desfile de imagens reais ou em desenho animado, mas que também vai à escola de forma a promover a 7.ª Arte.
Um programa denso de 8 dias que se pode consultar aqui. Uma oportunidade a ser aproveitada por todos os que por cá residem. Boa Sorte!

domingo, 7 de novembro de 2010

FAIAL FILMES FEST 2010 - Encerramento e Prémios

Terminou a 6.ª Edição do Faial Filmes Fest, com a homenagem ao Cineasta Realizador com 101 anos de idade Manoel de Oliveira, o qual dirigiu uma mensagem ao Festival e foi apresentada o seu documentário/curta-metragem sobre os "Painéis de São Vicente de Fora"..
Um período de pequena duração mas de grande significado neste festival.

A cerimónia de encerramento foram conhecidos todos os prémios associados a esta edição do FFF2010, que apresentou cinquenta e oito filmes seleccionados para a final, ficando aqui apenas alguns dos galardões mais importantes:
Melhor curta-metragem - "Canção de Amor e Saúde" de João Nicolau
Prémio do Público - "Pickpocket" de João Figueiras
Melhor curta do Faial - "Passando à de Zé Marôvas" de Aurora Ribeiro
Prémio do Público das curtas do Faial - "Passando à de Zé Marôvas" de Aurora Ribeiro
Melhor Ficção - "Pickpocket" de João Figueiras
Melhor Documentário - "Crime abismo azul remorso físico" de Edgar Pêra.
Para conhecer os restantes prémios consulte aqui.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

FAIAL FILMES FEST 2010 - Curtas-metragens do Brasil

Luís Pereira do Cineclube da Horta e Ricardo António da Prefeitura de Atibaia

Várias das películas do Faial Filmes Fest 2009 foram exibidas no festival da cidade de Estância Atibaia, São Paulo, Brasil: FAIA (Festival de Atibaia Internacional do Audiovisual), no início do corrente ano. Nasceu então um protocolo entre o Cineclube da Horta e a Associação de Difusão Cultural de Atibaia.
Agora, o intercâmbio dá os seus primeiros frutos do lado do Faial, com a vinda de um representante da prefeitura de Estância Atibaia à cidade da Horta e a exibição de uma sessão com uma mostra de curtas-metragens brasileiras, às 16 horas deste Sábado.
Uma novidade que mostra a cada vez maior internacionalização do Faial Filmes Fest. Aproveite!