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02/03/10

Nos Também Temos uma Peça da Joana Vasconcelos, por Tó Minimalista

O Centro Cultural de Belém apresenta actualmente uma exposição sobre a obra da artista portuguesa Joana Vasconcelos que merece o nosso destaque. Confesso que a obra dela já me tinha chamado a atenção. Muito particularmente aquele sapato alto enorme feito de panelas que é um verdadeiro desafio às leis da gravidade e um primor de engenharia. Gostei daquela obra porque tenho um fetiche confesso por sapatos altos - a peça mais importante do arsenal de sedução feminino - e também achei aquelas panelas luzidias um objecto plasticamente muito bonito. Nunca tinha reparado como as panelas podem ter um brilho tão glamouroso, assim novinhas, ainda não conspurcadas pelas fogueiras inquisitoriais das cozinhas. as panelas são uma coisa numa cozinha e outra diferente numa sala do CCB.

Recentemente a Joana Vasconcelos chamou-me a atenção, ainda por outra razão, esta um pouco a montante das nobres e puras razões artísticas: pelo preço exorbitante que uma peça sua - uma marilyn - atingiu na Sothebys, qualquer coisa como cerca de 500 mil euros! Pois bem, os manguelas dos Lisboetas estão, uma vez mais, cheios de sorte: o Joe Berardo resolveu fazer uma retrospectiva da obra da artista no CCB.

Mas eu queria lembrar toda a gente e, especialmente, os meus conterrâneos conimbricenses que nós aqui somos pequenininhos mas também temos uma peça da artista plantada mesmo no centro do nosso recreio. Refiro-me ao campo de pitch and putt da Quinta das lágrimas, onde passamos uma boa parte do nosso tempo (para dizer a verdade já passámos mais). Pois é verdade, quem conhece o campo e até quem não conhece, pode ver uma baliza plantada lá mesmo no meio. Aquela baliza é que é a tal peça da Joana Vasconcelos! Ainda me lembro quando ela lá foi plantada, aqui há uns anos, por altura do Euro no nosso país. A artista construiu uma rede com umas flores coloridas meio psicadélicas do género das que enfeitam os carros da Queima das Fitas e chamou à escultura «Ópio do Povo». Com o tempo as flores de papel bio-degradaram-se, de maneira que, agora, já só lá resta baliza.

Não sei se a ideia era essa, ficar ali no meio do campo de golfe uma baliza de futebol, mas creio que a intervenção perdeu força. Agora quando olho para aquilo já não vejo uma referência ao futebol-alienação. Vejo apenas uma baliza que dizem ter custado 8 mil contos ao Júdice. Mas, possivelmente, o homem ainda ganhou dinheiro com isso. O berardo não pagaria o dobro para ter a nossa baliza no seu museu? Vá lá malta, organizem-se e visitem a baliza da Joana de Vasconcelos que está na Quinta das Lágrimas. Enquanto podem, que daqui a uns tempos se a quiserem ver têm que se meter no carro e fazer 200 klm até Lisboa.

Pic - Dorothy de J. Vasconcelos

06/08/07

5 Dias, 5 Campos, por Camarada Tiago

Concluí ontem à noite a minha maratona golfística. A ideia inicial era realizar uma peregrinação pedestre a Santiago de Compostela. No entanto, todas as ideias evoluem e no processo de adaptação à realidade têm que se ajustar às circunstâncias. Assim, a pouco e pouco, e à medida que a ideia foi ganhando corpo, fui introduzindo algumas alterações. Primeiro, decidi ir de carro. Depois, decidi levar o guia 2007 do «Boa Cama, Boa Mesa». É certo que comprei uma tenda e um saco-cama mas, já que levava o roteiro actualizado dos hotéis e restaurantes, achei contraditório usar a tenda e o saco-cama pelo que regressaram como partiram: intactos. Não se pode ter tudo, até as boas ideias têm que se adaptar à realidade.

Já que ia de carro, achei por bem levar os tacos e o restante material de golfe e, já que levava os tacos, o melhor era visitar o campo de Amarante. Nos últimos dias de Julho parti então para Amarante. Foi um prólogo, como na volta à França. O campo de Amarante é um campo curto. É um par 68, típico campo de montanha, com desníveis e declives muito íngremes. É muito exigente fisicamente, dificuldade que se agrava no Verão com o calor. Naquele dia estavam mais de 35 graus C. Eu fiz o campo a pé, pelo que a grande dificuldade foi física, pois que o handicap de campo é mais baixo que o handicap do jogador. Acho que não me portei mal. Recordo o buraco do tee 3, um par 3 com 156 metros no cimo da serra. Umas vistas espectaculares no tee de saída, com o green ao fundo aos nossos pés, 20 ou 30 metros abaixo, pelo que podemos observar o voo da bola de cima, vendo-a aterrar no green. Não é muito difícil, exige um shot preciso, com cuidado para não ir à esquerda, onde estão os limites do campo. Fiz 32 pontos, o que me satisfez. Regressei a casa com paragem em Gaia para tapear no bar de tapas do Corte Inglés.

No dia 2 iniciou-se então a maratona. Comecei pelo campo da Estela, que já conhecia, pois é um destino que começa a ser habitual. O campo é magnífico. Estava um dia excelente de praia, com algum vento, como é habitual naquelas paragens, mas não com as rajadas intensas que tínhamos experimentado quando lá estiveramos no dia 4 de Julho. Joguei com um sócio do clube local. A companhia foi muito agradável e a conversa animada. No final, bebemos uma cerveja na magnífica esplanada virada para o mar, gozando um fim de tarde esplendoroso.

Nesse dia, parti para Ponte de Lima, onde fui jantar ao restaurante A Tulha. A vila de Ponte de Lima está cada vez mais bonita e cuidada, tão limpa, tão limpa que nem parece portuguesa. Os jardins estão fantásticos, as margens do rio arranjadíssimas e as casas todas restauradas. Comi uns salmonetes grelhados, recomendação da casa, com legumes variados. Estava bom, sem deslumbrar. O vinho verde da adega local é que não me agradou muito. Deveria ter recusado a recomendação. Não se trata assim um peregrino. Não gostei da pinga.

No outro dia, manhã cedo, ainda não eram 9:00, lá estava eu no campo de golfe local, o Axis Golfe. Os primeiros 9 buracos são temíveis. Sempre a subir e a descer, com declives muito acentuados, com grande distância entre os greens e os tees de saída. O Sanita Dourada, um conhecedor do campo e da região, já me havia avisado. Mas é bonito, o campo, muito bonito. Quando cheguei à recepção, aconselharam-me um buggy, mas eu recusei, afinal era um peregrino de Santiago e andava em penitência. As penitências não se cumprem de buggy. Nunca vi um peregrino de buggy! Fui a pé, e portei-me como um homenzinho, aproveitando o fresquinho da manhã para fazer os 9 buracos mais difíceis. O ex-libris do campo é o fantástico buraco 3: um par 5 com mais de 600 metros! Nunca mais lá chegava. É preciso um drive comprido e madeiras de fairway, ou híbrido, sem errar, pois que a primeira metade é estreita e com pinhal de ambos os lados. Qualquer erro é fatal. Foi o que me aconteceu: furei o buraco.

Os segundos 9 buracos são mais suaves, jogados no vale em terreno pouco acidentado. A dificuldade agora era o calor. Joguei bem, joguei muito bem, e acabei o campo, um par 71, com 39 pontos, por volta das 15:00.

Quando pensava dirigir-me para Vigo, última paragem antes da etapa final até Santiago de Compostela, onde planeava experimentar o campo local, lanço um desafio que me obriga a regressar a Coimbra. Aqui cheguei ao fim da tarde. Jantei, dormi, mudei de cuecas e zarpei para o campo do Montado com o Mau. Santiago ficou para trás, pois tínhamos que aproveitar a promoção de Verão deste campo, nas proximidades de Palmela. As primeiras impressões foram negativas, pois os acessos são muito difíceis e, ao chegarmos ao campo, está tudo muito desleixado, com ar de abandono e obras inconcluídas. Mas o campo é fantástico e estava muito bem tratado. O Mau jogou de caralho, fez shots incríveis. Nunca o tinha visto jogar tão bem, ainda por cima num campo desconhecido e com um calor a rondar os 40 graus C. Fez 39 pontos com um handicap 11!

Nesse dia fomos jantar a Setúbal, ao famoso Grelhador das Docas. Entrámos com um queijinho de Azeitão, muito bom, logo seguido de umas ameijoas à Bulhão Pato, enquanto esperávamos por um pregado de 1,5 Kg! A carta de vinhos até era boa, só que não tinha os vinhos que a gente pedia. Acabámos a beber um branco da Fundação Eugénio de Almeida que, apesar de não surpreender, era bastante agradável e estava muito fresco. Paguei eu, pois tal foi a aposta: quem perdesse em Montado pagava o vinho. Claro que paguei eu, como pagaria no dia seguinte, em Tróia, quando insisti com a mesma aposta!

No dia seguinte, fizémos a travessia de ferry para Tróia e, às 9:00 já estávamos no campo. É um magnífico link, muito bem tratado, com um enquadramento paisagístico excelente que eu já conhecia do ano anterior. As condições eram as ideais: sol, sem vento, mas com uma brisa marítima que impedia os calores excessivos da véspera. O Mau jogou de caralho, mais uma vez, e fez 40 pontos! E, no fim, ainda estava insatisfeito porque houve dois shots que lhe sairam mal! Eu fui regular, sem rasgos, com muita asneira, mas sem comprometer. Fiz 31 pontos.

Regressámos a casa com paragem em Alcochete. A ideia era provar o sushi do restaurante japonês do Freeport, mas estava fechado. Acabámos a tapear.

Quando regressei a Coimbra tinha no papo 5 campos, 4 dos quais em 4 dias consecutivos, desde Ponte de Lima até Tróia. É certo que não fui a Santiago, não cumpri a promessa, mas o santo perdoa-me, de certeza, dada a dimensão da proeza.


05/07/07

São Bolas, Senhor!


Ontem, foi feriado municipal em Coimbra, dia da Rainha Santa, padroeira dos golfistas juntamente com o Carvalho da Silva quando decreta greve geral.
Por isso, ontem, fomos em peregrinação ao campo da Estela.

Foto original

29/12/06

Memória do dia 27 de Dezembro de 2006, por Atanagildo Silerca

Dia 27 de Dezembro de 2006, saímos às 8:30 de Coimbra a caminho do Campo Real, nos arredores de Torres Vedras.
Excelente dia de sol com temperatura agradável e pouco vento. Campo em excelente estado. Grande jogatana. Acabámos por volta das 16:30. Como era muito cedo, sacrificámos o restaurante Trás da Orelha (web page off line), do qual guardamos uma excelentíssima memória (aquela açorda de cação, e o camembert fundido, …). Decidimos rumar ao Tromba Rija, em Marrazes, nos arredores de Leiria. Aí chegados, tivemos uma desilusão: estava fechado. A partir de Janeiro só abre aos fins-de-semana. Azar. Optámos então pelo Casarão, no cruzamento da Azóia, um pouco a sul de Leiria. Em boa hora. Excelente lombo de porco com silercas (cogumelos selvagens colhidos no Alentejo), óptimo ensopado de robalo e costeletas de borrego com grão. As entradas banais e caras, é preciso cautela e contenção. Carta de vinhos cara. Atendimento excelente. Crise? Qual crise? Leiam a história da vaca pelo Vasco Pulido Valente, hoje, no Público.

17/12/06


Toni Goffe: Não Precisa de se Louco para Jogar Golfe... mas isso Ajuda; Lisboa; Leianaia; 2002

04/12/06


António Maia: Handicap 13; Lisboa; Estar Editora Ldª;1998

05/04/06

Edital, por Assinatura Ilegível

Declaro abertas as inscrições para a 2ª edição do Grande Torneio de Golfe da RS.T. A prova realizar-se-á durante o mês de Abril, no campo de Montebelo. Podem inscrever-se todos os membros da RS.T, admitindo-se também os não membros desde que propostos por dois membros de pleno direito. Devem apresentar um handicap válido à comissão técnica, isto é, o Mau. Este encarregar-se-á de elaborar a respectiva lista de handicaps, bem como será responsável por todos os pormenores técnicos. Será ainda a instância decisora em matéria de aplicação e interpretação de regras. Não há recurso das suas decisões.

O primeiro prémio é um «Pêra Manca» tinto de 2001, com a condição de o vencedor o colocar na mesa durante o jantar que se seguirá ao torneio.

Junta de Freguesia da RS.T, tantos do tantos etc.

O Presidente da Junta

(Assinatura Ilegível)

PS. O Bandosgas deve jogar com o handicap 28, tal como o Mendigo, pedinchador de handicaps.

PS2. Admitem-se babby-sitters ao torneio.

02/04/06

A Perfect Day, por Felizardo

Serei telegráfico: 3 amigos em Montebelo às 10:00. 40 pontos em 96 pancadas. Tondela às 16:30 numa esplanada típica. Velhos sentados no muro da igreja a ver os carros passar. Mais velhos numa mesa escondida a jogar à batota. 4 amigos a uma mesa. Aos 3 iniciais juntou-se um Batuta 2001. 94 pontos da «Wine Spectator». Punheta de bacalhau, ossos, chispe e entrecosto. Batuta 2001. Intensíssimo, prolongadíssimo, cor bonita e cerrada. Aveludado, com taninos muito bem arredondados. Madeira discreta e bem integrada. Desdobram-se na boca os sabores que vão das ervas silvestres (urze e esteva, com algum eucalipto) até aos aromas quentes do cacau. Prolongado. Os grandes vinhos tornam grandes os bons momentos.

14/08/05

Viagens na “Nossa” Terra, por Almeida Garrido

Tenho a sorte de ter uma fobia: andar de avião. Tal sorte leva-me a considerar a Espanha como destino preferencial de férias. Espanha é o melhor país do Mundo. Tem tudo! Excelentes vinhos, óptimas praias, arte, cultura, museus, touradas, tapas, monumentos que vão desde o Império Romano à arquitectura pós-moderna como mais nenhum outro país tem à excepção da França e da Itália. Espanha tem eventos desportivos e culturais de nível mundial, livros e livrarias, pintores, peixe, carne e mariscos. Espanha tem mulheres lindíssimas que se pintam, perfumam, passeiam e riem no meio da rua. Tem plazas e esplanadas, montanha, lagos idílicos, florestas verdejantes e até tem Portugal!

Na 1ª etapa, fui de Coimbra a Leon com paragem em Salamanca para almoçar. Aqui, deu-se o único episódio desagradável quando tive que fazer ver ao animal do empregado de mesa que o mundo já não se divide em espanhóis e portugueses, pois que nem eu sou o Príncipe Perfeito nem ele era parecido com Isabel, a Católica. O cabrão pôs-se a resmungar num castelhano cerrado e quando lhe pedi para hablar de espacio, o gajo disse que em España se habla castellano e que se eu quisesse que aprendesse. Passei-me e expliquei-lhe em portuñol:
- Hombre, lo mal non es que yo no te entienda. Lo mal es se te mal entiendo. Pues que si quieres que te entienda, habla de espacio y si no quieres que te entienda, mejor es hablar chino porque se te malentiendo… coño, va a haber circo aquí e ahora, caralho!
O velho amansou e lá mandou um pardon señor que eu entendi perfeitamente.

Chegados a Leon, destaque para a catedral gótica, a casa Botines de Gaudí e um magnífico rabo de boi com setas. O vinho da casa é que era merdoso.

No outro dia, pelo meio da manhã, rumámos a Gijón, próspera cidade com uma baía lindíssima. O tempo estava bom e tivemos praia. O paseo maritimo estende-se por quilómetros e quilómetros, propiciando um passeio agradabilíssimo. Invejo os espanhóis pela qualidade dos espaços públicos: passeios, jardins, plazas, monumentos, parques, recintos desportivos, etc. Costumo dizer até que o grau de civilização de um povo se mede pela qualidade dos espaços públicos, na medida em que demonstram o quanto o colectivo se sobrepõe ao particular. Ora, se o objectivo a realizar pela acção política é a promoção do bem-estar público, o individual deve sempre subjugar-se ao colectivo. O planeamento urbanístico e a cidade são o processo e o resultado que permite aquilatar o quanto se alcança esse objectivo. Dito isto, poupo-me a mais considerações e seguimos para os Picos da Europa.

Covadonga é uma cagada! Tem lá uma merdunça de um museu feito com as oferendas pirosas dos peregrinos e um templo neo-românico dos finais do século XIX, mais uma estátua patética do Pelágio. Safa-se a paisagem e a gruta-santuário. Mas este local tem tanto de piroso como de simbólico. É um anti-Alhambra. Se olharmos para Sul, para o Alhambra vemos como era sofisticada a civilização do Andaluz. Comparar o Alhambra com a toca de Covadonga dá-nos a medida do abismo que separava o norte gótico e cristão do sul islâmico e mediterrânico. É a mesma distância que vai de Vale da Porca a Nova Iorque! O abismo dá a dimensão do mistério: como foi possível que os bárbaros montanheiros do norte, incapazes de imaginar sequer o que fosse um limiar mínimo de civilização já que desconheciam em absoluto a cidade como expressão urbanística para além daquilo que não destruíram da herança romana, como foi possível , dizia, que tenham vencido e expulsado os islâmicos da península? A resposta tem tanto de simples como de inacessível para os fanáticos xenófobos. É que os bárbaros do norte tinham a semente que seria o segredo do triunfo: a propensão para o universalismo, isto é, a capacidade de integrarem o que de bom e válido lhes é legado pelos outros. Os islâmicos do Al-Andaluz cavaram um beco luxuoso que os condenou à decadência e à perdição, pois se fecharam culturalmente. Adormeceram indolentes, embevecidos com o seu sucesso e conforto, crendo terem atingido um equilíbrio que lhes parecia paradisíaco mas que era simplesmente imobilizador.

Próxima paragem no Parador de Cangas de Onís onde, depois de um breve descanso fui para o bar no antigo claustro do mosteiro beneditino. Gin tónico com e um livrito: A «História Artística da Europa», dirigida por Georges Duby: «Bernardo - diz um dos autores - não se limita a criticar; propõe como alternativa uma “estética da autenticidade” de onde se recolhe – como no Bauhaus de Gropius – o máximo de energias intelectivas e o máximo dos respectivos resultados formais.» Na verdade, S. Bernardo de Claraval critica violentamente o figurativismo decorativo e os monstros que povoavam toda a arquitectura românica numa aterrorizadora pedagogia do medo, propondo uma nova estética, depois chamada cisterciense e magnificamente testemunhável em Alcobaça, onde o despojamento significasse espiritualidade e recolhimento. É a esta atitude que o autor, de forma certeira e surpreendente, compara a Gropius e à Bauhaus. Neste sentido e no limite, o suprematismo tem algo de cisterciense e S. Bernardo algo de minimalista, pois que a geometria é irmã da teologia e o quadrado preto de Malevich é um alfa-ómega.
Ao jantar, um volovent de setas, seguido de “delícias de cerdo ibérico”, acompanhado por um tinto Prado Rey, Ribera del Duero, roble 2003, com taninos bem fortes, uma estrutura sólida e profunda, cor fechada com laivos avermelhados, intenso, prolongado e com aromas que se desdobravam da tosta à especiaria.

No dia seguinte, Miracielos, próximo de Llanes. Um pequeno hotel a 80 metros da praia fantástica. Uma baía abraçada por duas restingas de pedra onde cresciam pinheiros mansos. A linha de costa preservada e verdejante com vacas a pastar. Os fetos escorregam até à areia. A água é gelada, mas eu não me importo. Três dias descansados. Gastronomicamente, destaco um magnífico robalo grelhado comido em frente ao porto de Llanes com um albariño cujo nome já não lembro. Aproveito para lançar a questão uma vez levantada pela enóloga favorita da RS.T (cujo nome não posso dizer porque o Grão-mestre não deixa) sobre a recente moda de cortar o peixe longitudinalmente em duas metades. Pode ser mais rápido e mais bonito, mas atenta contra a dignidade do bicho, tornando-o seco.

Em Llanes, porém, a experiência mais marcante foi a visita ao campo municipal de golfe. Sim, em Espanha há campos municipais de golfe. Não é um desporto elitista, embora seja caro para os turistas. O campo é magnífico. O slogan promocional diz tratar-se “provavelmente” de um dos mais bonitos campos da Europa. Eu conheço poucos campos, mas garanto que podem tirar o “provavelmente”. Foi construído sobre um planalto com o maciço Cantábrico de um lado e o oceano do outro. As vistas são deslumbrantes. Destaco o hoyo 7, cujo tee de saída se pode ver na foto. O green está 165 metros à frente. Não há fairway, tem que ser uma tacada directa. As vistas são celestiais, no sentido literal, com Llanes ao fundo. O vento é permanente, pois estamos a uma altitude de cerca de 200 metros e ao lado do mar, o que dificulta o voo da bola. A primeira bola saiu-me mal e foi para Llanes. A segunda exigia concentração. Escolho o ferro 5, ensaio bem o movimento e não me atemorizo com os observadores. Faço como o meu mestre, o Mau: baixo-me levemente e arranco um pedaço de relva como quem cata um piolho, ergo o braço e solto os pintelhos verdes ao vento. Com um ar de entendido observo o lado para onde esvoaçam e envergo um olhar de especialista. Franzo o sobrolho como quem morde a táctica e faço-me à bola. Stance correcto, backswing lento e desenhado, olhos na bola, pulso firme, swing a descer e PLAC! Quando levanto o queixo vejo o voo da bola. Subiu bem, desceu e caiu a dois metros da bandeira! Os velhos seguem viagem e eu insultei-os mentalmente!

Em Bilbao só deu para ver o Guggenheim. Bilbao está cheia de referências ao Pio Baroja que, para quem não sabe, é o nickname do nosso bilbaíno da confraria. Sim, que nós somos uma confraria internacional e temos um bilbaíno. Em Bilbao há livros do Pio Baroja em todas as livrarias, há calles Pio Baroja, estátuas e até um parque de estacionamento. Exige-se um post sobre o Pio Baroja ao confrade que assim se assina (bela cacofonia esta: cassimsassina!). Guggenheim é o Guggenheim. Estava lá uma merdunça de uma exposição fantástica sobre os aztecas. Não é que eu não goste, mas eu ia em busca da pop art, do Warhol, do Rauschenberg, Rosemquist e Koons e estava tudo cheio de aztecas! Só um Warhol (150 Marilyns coloridas) um Rosemquist e três ou quatro Rauschenberg. Gostei dos expressionistas abstractos. Destaco Franz Kleine, Willem de Kooning, um Rothko só (de entre os vários da Fundação) e, sobretudo, o catalão Tapiès de quem venho gostando cada vez mais. Referência para o Richard Serra que está representado em Serralves, com uma instalação intitulada “The matter of time”.

Jantar numa sidreria no casco viejo. Atenção a esta ementa: enchidos variados, omolete de bacalhau e uma costeleta de boi em sangue que ocupava o prato todo e que foi a melhor carne que já comi nos últimos anos, queijo e marmelada, café e sidra à discrição! Preço? 15 euros! Quanto à sidra, embora sendo agradável e propicie um ambiente engraçado com aquele ritual em que se serve, só a bebe quem não tem vinho.

A caminho de S. Sebastian, fomos por Azpeitia, com paragem em Loiola, terra de Santo Inácio. A religiosidade ferverosa dos bascos é facilmente visível. Há jesuítas em todo o lado, e Santo Inácio é um herói nacional nas terras do interior. A basílica que ergueram a Inácio na sua terra natal - Loiola - é imponente. O jesuitismo basco, compatível com a prosperidade e desenvolvimento económico, financeiro, cultural e social das terras bascas, devia dar que pensar aos jacobinos republicanos que encontraram no jesuitismo a causa da decadência e do atraso económico português. O País Basco é a prova do contrário. A jesuítica prosperidade basca prova ainda a burrice dos jacobinos republicanos portugueses (e não só!) que expulsaram, prenderam, humilharam e ridicularizaram os jesuítas, imbecilmente convencidos que assim trilhavam os rumos da prosperidade.

Em San Sebastian é tudo bom e bonito. Tão bom que se me dessem a escolher uma cidade para viver eu hesitaria entre San Sebastian e Barcelona. Abominei apenas aqueles bares bascos que eu também já vira em Bilbao, com a bandeira colada na parede rodeada com fotos dos etarras que eles consideram mártires. Usam boina como marca de uma raça que acham exclusiva e falam uma língua que se orgulham que ninguém entenda e isso, além de imbecil, preocupa-me, pois que se o País Basco é das terras mais belas, prósperas e atractivas que já visitei, temo que este fechamento cultural do qual este orgulho etarra, terrorista e narcísico, possa vir a condenar a Espanha à mesma sorte do Andaluz de há 500 anos. A causa de então parece ser a mesma de agora: soberba e fechamento cultural numa época de universalismo, mobilidade e multiculturalismo. Alguém que explique aos etarras que a especificidade da língua basca se deve apenas a um factor: o ter ficado à margem da acção benfazeja e civilizadora da latinização.

05/07/05

Jornada Gloriosa, por Isabel de Arranhão

Ontem, feriado municipal em Coimbra, dia da Rainha Santa, a confraria RS.T saiu em peso para o campo de Montebelo. Jornada gloriosa em dia esplêndido. A foto do Kirk Douglas (não é o verdadeiro Kirk Douglas, é a malta a brincar!) fala por si. No fim, duche tomado e baza para Canas de Senhorim, o País Basco de Nelas. Jantar no «Zé Pataco». Boa jantarada regada com um belo branco da «Quinta da Murganheira». A vida 'tá dura e antes que o Zé Sócrates nos proíba os vícios burgueses, o melhor é começar já a pensar noutra. Eu sugiro o «Bem Haja», também em Nelas, que está para Canas como Madrid está para Bilbao.