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04/05/12

Buñuel: o Fantasma da Liberdade, por Cãondaluz

Luís Buñuel consegue o feito de transpor os princípios surrealistas para um suporte tão complicado como o cinema. Não é por acaso que associamos o surrealismo, fundamentalmente, à pintura (e à literatura). Mas como reproduzir o universo do surreal mediante o recurso à imagem realista do cinema? Buñuel consegue-o e isso é notório em O Fantasma da Liberdade de 1974. Não é só na criação de imagens surreais que isso se nota, mas também na construção de narrativas desconexas e desconcertantes. O filme não tem qualquer unidade narrativa e quase pode ser visto como um conjunto de sketches subordinados a uma unidade temática que passa pela crítica à autoridade nas suas várias formas (o exército, a família, o clero, a escola, etc, etc) e pelo desprezo gozão para com as convenções. A cena que segue é um exemplo do melhor Buñuel: um casal de meia idade e a sua filha acabam de chegar a casa de um casal de amigos que os aguardam ao início da noite. «Já estavam atrasados. Estávamos prestes a começar sem vocês», e por aí fora:

18/03/10

Endless Summer, por Super Tubo

Endless Summer é um clássico filme de culto, realizado em 1968. O filme é basicamente uma boa ideia. Bob Brown, o realizador, acompanhou dois jovens surfistas americanos que tiveram e concretizaram um sonho: seguir o verão por todo o planeta a surfar. Michael e Robert saíram da califórnia, no fim do verão, passaram pelo Hawai, pela América do Sul, deram um salto a África, Índia, Indonésia, Austrália, Nova Zelândia, Taiti, Hawai de novo...O filme consiste na montagem de horas e horas de filmagens pelo narrador/realizador. Não se passa nada a não ser muito surf, ondas perfeitas, umas longas outras curtas, umas grandes outras pequenas, mais ondas e mais surf e as reacções dos locais que vão contactando com Robert e Michael. Como o filme já tem mais de 40 anos (!!!!) e é um trabalho mais ou menos amador, mantém uma aura de credibilidade que lhe advém da fotografia «envelhecida». Adorei o filme e o conceito. E gostava imenso - se soubesse surfar - de correr o mundo em cima de uma prancha, durante um verão sem fim.

30/11/08

O Manelito, porque As Vacas não São Sagradas


Ontem à noite o Canal 2 ofereceu-nos duas experiências cinematográficas fascinantes. Na habitual sessão dupla dos sábados, sucederam-se o “Belle Toujours” de Manoel de Oliveira e o “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson. Foi como se tivesse colocado dois opostos lado a lado. O primeiro é dos objectos mais inanes da história da sétima arte, algo tipo filme série z- armado ao cagalhão; o segundo, bem pelo contrário, é uma obra a todos os títulos notável. O primeiro é o milionésino quarto filme e meio de um realizador quase centenário; o segundo é um dos primeiros filmes de um jovem cineasta; o primeiro comete a proeza de transformar Michel Piccoli num actor medíocre; o segundo comete o feito de transformar Tom Cruise num actor extraordinário. E por aí fora.
O facto de se terem sucedido um ao outro, enfim, foi particularmente interessante porque acentuou o contraste. E sobretudo porque acentuou o barro dos pés do “gigante” português. Já andava para escrever aqui alguma coisa sobre o Oliveira há muito, a propósito de gigantes pequenitos, como o Saramago que levou nas trombas ali para trás algures aqui no tapor – ressalvo aqui, no entanto, uma diferença fundamental entre os dois ícones da cultura portuguesa: Saramago sabe escrever, escreve bem e escreve livros realmente interessantes, não é isso que ponho em causa; já em relação a Oliveira, quanto melhor conheço a obra mais duvido da competência artística.
O mesmo canal 2 tem oferecido todos os sábados uma obra de Oliveira e tenho feito o esforço (com ênfase no “esforço) de ver ou rever a obra daquele a quem alguns chamam “mestre”. Para perceber, sobretudo, se a minha aversão antiga ao universo Oliveira era fruto de preconceito. Cheguei à conclusão que não era. Os filmes do homem são mesmo intragáveis, o que adensa o mistério em torno da aclamação que às vezes parece unânime, pelo menos entre uma certa comunidade cinéfila alegadamente mais intelectualizada e dada a cinematografias mais “densas” ou “alternativas”.
“Belle Toujors”, que pretende ser uma sequela/homenagem ao marco “Belle de Jour” de Bunuel, sintetiza em certa medida as “qualidades” do cinema de Oliveira, pelo menos aquele que tenho visto nas últimas semanas, e sobretudo aquele em que o realizador é também argumentista (quando a Agustina entra em campo, é certo, a qualidade sobe de tom). O resultado balança entre o trágico e o cómico, com diálogos e situações completamente inverosímeis e patéticas (a conversas entre o protagonista e o barman são de uma idiotice antológica!), duma superficialidade intelectualóide confrangedora, uma teatralidade rígida e vulgar, onde abundam os clichês e os simbolismos de pacotilha e encenações museológicas e cristalizadas.
Ver o “Belle Toujours” inspirou-me basicamente dois tipos de reacção: a repulsa e a gargalhada. E confirmou o carácter enigmático da popularidade do velho cineasta, cuja centelha de génio, digo eu, que se calhar não percebo nada disto, se esgotou no excelente Aniki Bobó. Seja como for e dada a dimensão mitológica da criatura, vou continuar a sofrer, perdão, a tentar perceber a lenda Oliveira. No próximo sábado à noite lá estarei à espera de um sinal, de uma centelha de talento, de algo que me desminta.

17/04/08

"Fast and Loose...", por Crítico Cinematográfico

The Hustler, de Robert Rossen (1961) é um dos enormes filmes da história do cinema. Um elenco de luxo, um argumento fabuloso e uma cinematografia fora de série. Tudo superlativo. E essa superlatividade como que se poderia condensar toda nesta cena que aqui vos deixo.
São dez minutos de grande intensidade dramática, onde Paul Newman (Fast Eddie Felson) trava os dois grandes duelos da sua vida, na mesa de bilhar com Minesotta Fats (interpretado por Jackie Gleason) e fora dela com George C. Scott:

26/03/08

Watchmen, por Graphic John

As Graphic Novels são o estado da arte dos comics, BD norte-americana para leitores maduros e sofisticados, uma expressão superior dos universos clássicos de editoras como a Marvel ou a DC Comics. Trata-se de um conceito que se foi delineando ao longo do século XX, até surgir com esta exacta designação (novelas ou romances gráficos) nos anos 70. A história das Graphic Novels está toda aqui bem explicada, mas foi sobretudo a partir dos anos 80 e da aposta dos gigantes editoriais referidos em públicos mais exigentes, que o estilo floresceu.

E floresceu com versões negras e de maior densidade psicológica e narrativa de heróis tradicionais como Batman (em obras como a série “Batman: Ano Um” ou o”O Regresso do Cavaleiro das Trevas”, ambas de Frank Miller, um dos expoentes do estilo), mas também com o surgimento de novos personagens e enredos, bem mais bizarros e desviantes do que os habitualmente lineares, previsíveis e moralistas super-heróis-modelo-dos-jovens, sempre com uma tirada pomposa ou patriótica nos dentes.

Os novos heróis das Graphic Novels são bem mais humanos, se assim se pode dizer. E uma das obras maiores desta especialidade artística, Watchmen, é exemplar dessa mesma tendência: Todos os heróis deste mundo cinzento à beira de uma guerra nuclear são, nesse aspecto, muito mais humanos; aliás, são até demasiado humanos, se isso existe…

Trata-se de um livro a todos os títulos excepcional, comparável a expoentes da banda desenhada contemporânea norte-americana como Maus, de Art Spigelman. Alan Moore escreveu e Dave Gibbons desenhou esta rebuscada aventura.

Apesar de Nova Iorque (a “mega-urbe” mitológica) ser também um dos cenários principais deste drama desenhado, Watchmen não será uma obra tão sórdida como Sin City, por exemplo. O facto é que são livros incomparáveis. Watchmen, além de ser a cores, o que faz muita diferença, adopta um esquema narrativo mais convencional e joga sobretudo com um olhar irónico e amargo sobre o próprio universo fantástico dos super-heróis. Os super-heróis de Watchmen subvertem a tradição de super-heróis maiores do que a vida. Estes são homens e mulheres ultrapassados, gastos, amargurados, violentos, traumatizados, megalómanos ou mesmo psicopatas sebentos, como é o caso de um dos personagens icónicos do livro, Roscharch.

Só para situar, refira-se que Watchmen, além de outras distinções, foi até agora a única graphic novel a receber um prémio Hugo, um dos mais prestigiados galardões para ficção científica e fantasia; e é também a única graphic presente, em 2005, na lista da Time das 100 melhores novelas (ou romances, “novels”) em inglês desde 1923 (in wikipedia).

Mas para quem não conheça, o melhor é mesmo ler o livro e chega de conversa. E vem isto a propósito de dar conta de um filme que só tem estreia prevista para exactamente daqui a um ano, e que é precisamente a adaptação de Watchmen.

Curiosamente, o parto do filme tem sido também uma pequena saga atormentada. Desde 1986, data do lançamento do livro, que se trabalha na possível versão cinematográfica da obra, a Warner e a 20th Century Fox pegaram na ideia, e o produtor Joel Silver começou a juntar as peças. Terry Gilliam foi o primeiro realizador envolvido neste projecto. E também foi dos primeiros a sair do barco, alegando que a história era “infilmável” (o mesmo Gilliam que fez Brazil, por exemplo…). E o projecto morreu na praia.

Já no século XXI, foi a Universal e a Paramount que se juntaram para levar a cabo a tarefa. Paul Grengrass foi o realizador escolhido, mas também não teve sorte. O filme acabou por ser cancelado devido a questões orçamentais.

Finalmente, em 2006, a Warner volta a pegar na ideia e colocou o realizador Zack Snyder (o mesmo de 300, outra adaptação de uma graphic novel) à frente do projecto. Este último, por seu turno, parece ser homem para grandes desafios, já que prepara também a rodagem de outra obra icónica da literatura fantástica, o clássico O Homem Ilustrado, de Bradbury. Mas agora o que interessa é que a coisa está a andar e ara para dar conta disto para marcarem na agenda: Março de 2009. Pronto.

12/08/07

A Rainha, por Frik Olá

«A “nova política” levada a cabo pelo PS tem como fio condutor comum a tentativa de desprestígio do papel do Estado (…) Ao tomar posse em condições de poder inéditas à esquerda, José Sócrates inicia a concretização de um programa político de influência ideológica neoliberal que tem como objectivo desestruturar o papel social do Estado tal como foi construído no pós-guerra (em Portugal, após o 25 de Abril), não só na vertente de garante de direitos democráticos, mas também na da redistribuição de riqueza, numa pressão inédita, numa luta de classes invertida, por forma a retirar poder de compra e qualidade de vida a quem trabalha, a favor do mercado, do capital e da classe dominante que o representa, as elites de gestores e empresários. O resultado tem sido o dumping social dos últimos dois anos.

Esta "contra-revolução neoliberal", como a designou Milton Friedman, que leva à precarização das relações de trabalho, à desregularização social, à informalização da política, está em marcha desde os anos 70 e domina, entretanto, os critérios de orientação da União Europeia. Chega agora a Portugal e é concretizada com um conjunto de medidas políticas, que têm como fio condutor comum a tentativa de desprestígio do papel do Estado e de criação de um novo modelo social em que os ricos são cada vez mais ricos e os pobres aumentam, em relação aos níveis de vida de há algumas décadas. Isto porque, apesar do bolo da riqueza aumentar, as fatias de uns aumentaram de tal forma que as que sobram para os outros são forçosamente mais pequenas.»

São José Almeida («Dois anos da “nova política”», Público, 17/03/07)


Por estes dias vi, finalmente, A Rainha. O filme, aparentemente simples mas complexo e minimamente profundo, não defraudou as expectativas, nem em relação a Helen Mirren (simplesmente fabulosa e merecedora de todos os prémios e mais alguns), nem em relação a Frears, realizador que continua a não defraudar desde que o descobri numa memorável bela lavandaria, há uns bons 20 anos atrás. Cinema britânico de grande público no seu melhor.

Mais do que um filme escorreito e irrepreensível aos mais diversos títulos artísticos, onde todos os actores fazem um trabalho soberbo, com destaque para Michael Sheen no papel de Tony Blair, e onde ressalta o texto magnifico de Peter Morgan (argumentista do também aclamado “O último rei da Escócia”, outra abordagem às questões do poder), A Rainha é um excelente e realista ensaio de ciência política, reflectindo sobre a natureza do poder, sobre as encruzilhadas das novas tendências de organização política democrática e sobre o papel e o poder dos média nos dias de hoje.

Li algures uma comparação entre A Rainha e o igualmente superlativo “All the president’s men”, filme norte-americano dos anos 70, de Allan J. Pakula, em torno do tristemente célebre episódio do Water Gate, que levaria à demissão do presidente Nixon. A analogia é de todo pertinente, mormente no registo realista. A grande diferença, segundo creio, reside precisamente no papel dos média. Se no filme de Pakula o jornalismo serve propósitos nobres, de desmistificação do poder político e dos seus métodos obscuros, enquanto contra-poder clarificador, na obra de Frears surge como principal motor e bandeira de uma histeria colectiva, explorando até à última gota o sangue do cadáver daquela que foi um dos mais curiosos epifenómenos mediáticos das últimas décadas, para efeitos de tiragem em sucessivas edições demagógicas e panfletárias.

Partindo da realidade particular e de certa forma peculiar do sistema político britânico, e centrando-se no episódio da morte de Diana Spencer (a acção da obra decorre quase toda na semana entre o acidente em Paris e o funeral), em 1997, Frears reflecte, num tom quase documental e de um rigor fantástico (fazendo inclusive uso abundante de imagens de arquivo reais) em torno da “contra-revolução liberal”, que a jornalista do Público acima transcrita menciona, citando Milton Friedman. E em torno da forma como essa “contra-revolução” afecta (e degrada) as tradicionais estruturas e instituições de poder político. No caso, da instituição monárquica, corporizada na figura dramática da rainha Isabel II, mas também da instituição executiva, governativa, que se (pre)ocupa sobretudo da reeleição e dos índices de popularidade.

Tony Blair, recorde-se, acabara de ser eleito pela primeira vez e trazia consigo a aura de grande reformador, mentor e rosto do chamado "new labour”, a famigerada “terceira via” do socialismo tradicional, que a Portugal chegaria algo timidamente com António Guterres e, mais tarde, em todo o seu visível esplendor com o presente Sócrates. É disso que fala São José Almeida. É disso que fala também Frears em “A Rainha”.

Blair entretanto caiu em desgraça (precisamente como a personagem de Mirren previra no final do filme, na última reunião entre o primeiro-ministro britânico e a monarca), mas em 1997, sobretudo com a golpada de mestre de marketing político que constituiu a frase “a princesa do povo”, estava em absoluto estado de graça, capitalizando o sentimento popular negativo em relação à família real e à Rainha de Inglaterra que, ao contrário do populista Blair (cuja simpatia solidária, em privado, para com a Rainha não teve o correspondente reflexo público), tentou resistir ao volátil ditame emocional das massas, privilegiando a dignidade e a estabilidade da instituição secular de poder que representa.

De um lado, Blair em representação da referida “informalização da política” (espelhada, por exemplo, claramente na insistência com que, como realça Frears, pedia a todos que o tratassem por tu), do outro Isabel II em representação dos valores tradicionais da seriedade de Estado, tentando ingloriamente resistir à influência de uns média crescentemente tabloidizados, primários e sensacionalistas. Os média, a comunicação social, de resto, constituem o terceiro vértice do filme e, em última análise, desta “contra-revolução neoliberal”, dominada pela chamada sociedade do espectáculo, “imediática”, a que Isabel II resistiu a adaptar-se, revelando-se tragicamente inadaptada e anacrónica.

Em relação ao filme em si, tem ainda outra virtude, esquecida no turbilhão mediático avassalador e altamente dramatizado que rodeou a morte (e a vida) de Diana: a de lembrar que todas as histórias têm mais do que uma versão. E a de que as versões simplistas raramente são as mais correctas. Finalmente, com esta obra magnífica de Frears (insuspeito, dada a sua pública antipatia pela monarquia do seu país), pudemos rever algumas ideias feitas e preconceitos e ter um vislumbre do que se passou nos bastidores “do outro lado”, do lado da Rainha, aqui humanizada e quase “reabilitada”, que sempre persistiu no recato da sua real posição, assente na assumpção histórica do seu papel de estadista e garante da unidade da nação britânica.

Imperdível.