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26/01/09

Da Maria Absoluta e doutros insectos, por Cão

Somos um país de insectos. Como insectos, somos esmagáveis com uma facilidade de chinelada. Vem a imagem lepidóptera (mais a ver com traças do que com borboletas) da tragicomédia em que esta terra se volveu.´
É o tremendo sr. Sócrates a requerer a “Maria Absoluta”, essa gaja tenebrosa.
É o inenarrável sr. Madail, ao arrepio das finanças nacionais, a encomendar o Mundial da Bola 2018, depois do fartote pato-bravo que foi o Euro 2004.
É a “benesse” ético-coisital dos casamentos gay (com adopção ou sem adoção de meninos?).
É o desbocado sr. Policarpo, cuja religião não permite sacerdotisas, a dizer aos papás que livrem as filhas de casamentos com aquela maltosa que passa férias em Guantánamo.(E já que a crónica mete o Cardeal ao barulho, pegue-se na Bíblia, encontre-se o Livro dos Provérbios e leia-se este apotegma: “Por três coisas se alvoroça a terra, e a quarta não a pode suportar: pelo servo, quando reina; pelo tolo, quando anda farto de pão; pela mulher aborrecida, quando casa; e pela serva, quando fica herdeira da sua senhora.”.)
A “senhora” em causa é, claro, a Maria Absoluta. O “tolo” é quem casa com ela.
Assim andam e desandam as coisas cá pelo “reino cadaveroso”. A canalhada mandante é vil. A desvergonha atinge foros de paroxismo. O saque é geral. A perspectiva é nula. A expectativa é magra. O “poder local” deveria levar “h” depois do “p”. O bacalhau sabe a tainha. O vinho das cooperativas é todo igual ao litro. E a traça nunca será borboleta.
Agora, que o meu leitor volte a cabeça de repente e para cima: vê? É o chinelo.

Crónica nº 87 da série Rosário Breve (O Ribatejo, www.oribatejo.pt)

07/03/07

Pêra-Manca, A Morte de Um Ícone Do Tinto Português, por Vampiro da Uva



Em primeiro lugar desfaça-se desde já a voz corrente de que o rótulo do Pêra-Manca era da autoria do José Malhoa. Não era. O rótulo resultava da adaptação de parte de um cartaz publicitário da autoria de Roque Gameiro. E digo, resultava, porque já não resulta, o rótulo mudou. A mais famosa imagem iconográfica do vinho português foi-se!

A imagem clássica e colorida do Pêra-Manca, com a moçoila folclórica a ofertar um copo ao cavaleiro, morreu e deu lugar a uma gravura a preto e branco da autoria do ilustrador inglês Bill Sanderson, com a renovação do rótulo a cargo de Pedro Albuquerque.

E está mal. Não, porque o novo rótulo não vá resultar ou não seja bonito, mas porque há um ícone poderoso que se perde e é preciso não esquecer que foi ele que fez o Pêra-Manca. O facto de o vinho ser bom, também ajudou claro. Mas o rótulo era um prazer para a vista. Saia da normalidade cinzenta e austera da rotularia vínica e afirmava-se como coisa única. Fazia a diferença. Paz à sua alma. Os ícones também se abatem.

12/02/07

Uma Prova Cega De Tomba-Gigantes, por Vampiro da Uva



- Pintas, 2004, Douro, nota 18 do João Paulo Martins, 65,00€ na Dom Vinho, apresentado pelo Barão…, 2º Lugar!!!,
- Mouchão, Tonel nº 3-4, 2001, Alentejo, nota 18 do João Paulo Martins, 68,00€ na Dom Vinho, apresentado pelo Mágico…, 7º Lugar!!!,
- Abandonado, Alves de Sousa, 2004, Douro, nota 18,5 da revista de vinhos, 51,00€ na Dom Vinho, apresentado pelo Derviche…, 5º Lugar!!!,
- C.V. Curriculum Vitae, 2004, Douro, nota 18 do João Paulo Martins, 60,00€ na Dom Vinho, apresentado pelo Nemo…, 3º Lugar!!!,

Eis quatro Colossos do vinho português da actualidade, tudo topos de gama das respectivas casas, uma coisa a rondar a média de 60,00€ de preço por botelha e a ascender aos 289,00€ no conjunto. Ora, destes quatro portentos fora de série, nenhum alcançou o Primeiro Lugar da 48ª Prova Cega da Real Satânica do Tinto, realizada à volta duns Peixinhos do Rio, Ruivacos e Enguias Fritas, maila Lampreia em Arroz carolino de cabidela da dita e acolitada de grelos. Pois, como se dizia, nenhum deles ascendeu ao Olimpo! É obra!

Ao primeiro lugar do Podium e ao Prémio Maligno, ascendeu um tal de Bragança de Carvalho, Moimenta da Beira de Carvalho ou coisa que o valha, de seu nome Viseu de Carvalho, Grande Escolha, 2003, um Douro com 15% de puro álcool, nota 17 do João Paulo Martins e 15,00€ de preço na Dom Vinho (sem dúvida a grande vencedora da Prova), pois, repita-se, foi este David que ousou e tombou os Golias presentes. Uma pedrada em cheio nas fuças e ei-los que caíram com estrondo, sem pompa e com agravamento de circunstâncias. Parabéns ao apresentante Xiita! Porque o vinho também é assim!

09/01/07

Buçaco Reserva 2001, por Abade de Barcouço

No passado dia 6 de Janeiro, a RS.T conheceu mais uma jornada épica. Golfe na Cúria a começar às 15:00 porque há quem não conheça o sentido da expressão «às 14:30 na Curia». Por causa disto não acabámos o jogo, ficaram alguns buracos por jogar. O campo estava em bom estado, o dia estava esplêndido. O Mestre Mau chegou atrasado, mas ainda a tempo, porque esteve ocupado a pôr silicone nas ranhuras da casa-de-banho e necessitou de assessoria internacional. Claro que o golfe não se troca por esta actividade extremamente relaxante, muito complexa e atraente que é esguichar silicone para as juntas da banheira!
Jantámos depois no restaurante O Pátio, no Barcouço, próximo de Santa Luzia. O Mister chegou atrasado e irado porque, segundo o próprio, combinámos mal o ponto de encontro por isso é que todos lá foram ter menos ele que ... foi ter a Mira! Fizemos um estardalhaço bestial no restaurante, a comida estava muito boa (raia grelhada, lercas de novilho, bacalhau assado e polvo à lagareiro), óptimo ambiente, simpatia e eficiência no serviço. Bom preço. Recomenda-se. Os vinhos foram óptimos. A entrar, um moscatel de Setúbal da José Maria da Fonseca. Para esquecer. É barato, mas se não comprar poupa o dinheiro. Os tintos foram soberbos. Desde um Post Scriptum 2002 o segundo vinho da casa Prats & Symington, após o Chryseia, o Três Bagos 2003 da Lavradores da Feitoria, um Merlot australiano de que não me recordo o nome, referência a um Paço dos Falcões, um lamentável Quinta de Lemos, malgrado a opinião isolada do Pilemos, um Bairrada esquisito do Sanita Dourada, até a um LBV Warre’s 1995 que é, apesar da nega do Mira Mister, o último LBV lançado pela casa Warre’s, trazido pelo nosso Xeko e denegrido pelo infame Mangas que se arriscou a não molhar os beiços na pinga, não fosse a magnanimidade do ofertante.
Mas a estrela foi um Buçaco reserva 2001 da garrafeira do Palace Hotel. Já tínhamos bebido um, levado pelo mesmo confrade, mas não me ficou tão na memória. O vinho é produzido a partir das vinhas próprias do hotel e recorrendo à produção de viticultores das regiões limítrofes do Dão e da Bairrada. Foi precisamente esta localização que fez com que o falecido José dos Santos apurasse a qualidade dos vinhos misturando lotes de uma e de outra região. A fama universal destes vinhos é o legado deste homem. Relativamente ao reserva de 1985 escreveu Jancis Robinson (Jancis Robinson Prova os Melhores Vinhos Portugueses; Lisboa; Livros Cotovia; 1999; p. 185): «Que maravilhosa excepção antiquada neste apressado mundo dos vinhos moderno em que vivemos! A cor de tijolo velho, com um bordo pálido, revela uma considerável e complexa evolução na garrafa. Tem um bouquet doce e subtil a violetas cristalizadas e um longo envelhecimento em madeira. É um vinho tão invulgar que me faz lembrar os bebedores de uma outra época, menos apressada e menos mal-disposta - uma antiga dama delicada, em oposição à legião de jovens activos que a maioria dos produtores de vinhos fazem hoje em dia. Há ainda mais prazer no perfume deste vinho do que no seu palato que se desvanece levemente e onde, dentro de poucos anos, me parece que a acidez começará a dominar a fruta então em declínio. Porém, o fim é persistente e perdura. Beba-o agora, devagar.»
Concordo com tudo (menos com o "persistente que perdura"), mesmo que o vinho agora bebido fosse de uma colheita muito mais jovem, de 2001. Talvez por isso não estava tão atijolado, não se notava excesso de acidez e a fruta estava muito viva e subtil. Por isso digo o que disse logo após a prova: se este vinho fosse um monumento, seria um mosteiro românico. Sóbrio, austero, durável, com uma personalidade vincadíssima, intemporal, espirituoso e complexo, uma estrutura sólida, sem adornos supérfluos, penetrante e avesso a qualquer estratégia consumista.

05/04/06

Edital, por Assinatura Ilegível

Declaro abertas as inscrições para a 2ª edição do Grande Torneio de Golfe da RS.T. A prova realizar-se-á durante o mês de Abril, no campo de Montebelo. Podem inscrever-se todos os membros da RS.T, admitindo-se também os não membros desde que propostos por dois membros de pleno direito. Devem apresentar um handicap válido à comissão técnica, isto é, o Mau. Este encarregar-se-á de elaborar a respectiva lista de handicaps, bem como será responsável por todos os pormenores técnicos. Será ainda a instância decisora em matéria de aplicação e interpretação de regras. Não há recurso das suas decisões.

O primeiro prémio é um «Pêra Manca» tinto de 2001, com a condição de o vencedor o colocar na mesa durante o jantar que se seguirá ao torneio.

Junta de Freguesia da RS.T, tantos do tantos etc.

O Presidente da Junta

(Assinatura Ilegível)

PS. O Bandosgas deve jogar com o handicap 28, tal como o Mendigo, pedinchador de handicaps.

PS2. Admitem-se babby-sitters ao torneio.

02/04/06

A Perfect Day, por Felizardo

Serei telegráfico: 3 amigos em Montebelo às 10:00. 40 pontos em 96 pancadas. Tondela às 16:30 numa esplanada típica. Velhos sentados no muro da igreja a ver os carros passar. Mais velhos numa mesa escondida a jogar à batota. 4 amigos a uma mesa. Aos 3 iniciais juntou-se um Batuta 2001. 94 pontos da «Wine Spectator». Punheta de bacalhau, ossos, chispe e entrecosto. Batuta 2001. Intensíssimo, prolongadíssimo, cor bonita e cerrada. Aveludado, com taninos muito bem arredondados. Madeira discreta e bem integrada. Desdobram-se na boca os sabores que vão das ervas silvestres (urze e esteva, com algum eucalipto) até aos aromas quentes do cacau. Prolongado. Os grandes vinhos tornam grandes os bons momentos.

05/10/05

Vinho, por O Jóia da Bóia Um

Nem tudo é merda neste território lusitano. Alvissaras! Sárává! Motiva esta entrada de rompante uma excelente notícia para a economia nacional, nos capítulos import/export e auto-estima. Pode não parecer, mas quer-me cá parecer que é de facto uma óptima notícia, quando um jornal global prestigiado como o New Yok Times, publica, como hoje o faz (aqui, e também, presumo, na edição em papel), um extenso artigo extremamente encomiástico sobre o vinho português. O cronista, Eric Asimov, "O" especialista em vinhos do Times, discorre com abundância e grande entusiasmo sobre os néctares báquicos nacionais, num texto sintomaticamente intitulado: "For the next big thing, Look to Portugal". Nem é preciso dizer mais nada por estas bandas... O resto é ler o que lá está e suspirar um bocadinho de orgulho. Para quem goste de vinhos portugueses e para quem goste de ver um importante sector económico nacional em alta em termos mundiais. Esta peça do Times é ouro. Pronto, achei só que esta maralha que aqui chafurda, gostasse de saber estas novidades.

06/06/05

Jantar da RS.T na Adega da Portela, Coimbra, no dia 5 de Junho de 2005

Aos cinco dias do mês de Junho de dois mil e cinco, reuniram os membros da RS.T na Adega da Portela, Coimbra, sob a presidência do seu mui venerável Grão Mestre, com a seguinte ordem de trabalhos:
1. Entradas: polvo ensalsado, azeitonas, queijo fresco, morcela e enchidos vários
2. Prova aberta de dois vinhos: um sul africano de nome esquisito com rolha de plástico, apresentado pelo Vasco e Ana e um Ensaios da Filipa Pato 2003, apresentado pela Bette Davis / Vivian Leigh / Lauren Bacall / Katharine Hepburn (riscar o que não interessa).
3. Alhada de cação
4. Arroz de línguas de bacalhau com línguas panadas
5. 41ª prova cega de tintos com a presentação de 6 (seis) magníficos vinhos.
7. Sobremesas e café
8. Outros assuntos

Iniciou-se o encontro com a presença dos seguintes confrades e convidados: Grunfo, partenère e rebento, Guida P., partenère e amiga de infância, Vasco e Ana M., Catherine Deneuve / Fanny Ardant /Angelina Jolie (riscar o que não corresponde à verdade), Gustavo e Carla, Sábio Ressabiado capitão de canoas-de-mar-e-guerra, Banderas (o verdadeiro, autêntico e genuíno Antonio Banderas, mas pode optar por: John Wayne, Kirk Douglas ou Jimmy Stewart), Sô Silva, Mangas e Moi. Registaram-se a s seguintes ausências: Bom ex-Mau (não confundir com Mau ex-Bom), impossibilitado de estar presente porque ficou em casa com duas louras muita giras, Xeko que mandou sms à última da hora a dizer que não ia e implorando que o deixassem pagar as despesas (súplica aceite, cabem emolumentos no valor total de 20 euros), Biçoso que deixou de ser totalista (é favor devolver o louvor e a respectiva moldura, principalmente a moldura), Nini não sei porquê, Tinóni que deve andar a aprender a mudar fraldas, Corneteiro e os já conhecidos desaparecidos em combate: Galgo, Nikki man, Ari Vatanen da Lousã, o Assis Pacheco de Pombal e o Espírito Santo da Mealhada.
Como ponto prévio, informamos que o jantar foi precedido de uma excursão canoística desde Penacova até à Portela, na qual não participei porque fui para uma breve e solitária jornada golfística ao campo da Curia.
Iniciou-se a reunião cerca das 20:00, dando cumprimento aos dois primeiros pontos da ordem de trabalhos ao mesmo tempo. As entradas estavam fraquitas (isto é, uma merdunça), o vinho sul-africano (cuja capital é Tshwane) tambérm me pareceu fraquito, embora agradável e o Ensaios 2003 é muito melhor do que o outro.
A Alhada de cação estava boa e o arroz de línguas excelente. Menção especial para as línguas panadas. Quantidade e qualidade a merecer um louvor ao organizador Banderas (oral e sem moldura que é mais barato)
Quanto à 41ª prova cega, apresentaram-se a concurso os seguintes tintos: «Adega Cooperativa de Portalegre reserva 99», Guida P.; «Calda Bordaleza 2003», Grunfo; «Casa Santos Lima Touriga Nacional 2003» (acho eu), Sábio; um Bordeaux esquisito cujo nome não recordo, apresentado pelo Gustavo, que estava marado e que ficou em último lugar; um Dão de nome esquisito de cujo nome também não me lembro mas estou a ver o rótulo e que foi apresentado pela Filipa, conquistando um honroso penúltimo lugar e, finalmente, um sexto vinho que eu agora não me lembro, nem sequer do rótulo e muito menos de quem o apresentou. Nem sequer faço ideia do lugar em que ficou, mas não interessa porque se interessasse eu lembrava-me.
A 41ª prova cega foi ganha pelo «Adega Cooperativa de Portalegre reserva 99» com a seguinte pontuação: Sábio -1, Sô Silva - 7, Mangas - 5, Joaquim d'Almeida himself, o autêntico e genuíno - 6, Grunfo - 6, Moi - 7, Catarina Eufémia - 5, Carla - 6, Vasco - 6, Ana Maria - 6, e depois então a panelinha com Guida - 9, Amiga da Guida - 9, e Marido da Guida - 8, maravilhosamente sincronizados. Até parecia natação sincronizada! No entanto, que a panelinha não desmereça ou desqualifique o vinho. O vinho é bom, ainda que não para notas tão elevadas como o 8 ou 9 (máxima) e é, com o aval da crítica, o melhor vinho vindo a concurso, por mais que isso custe ao Sábio que ficou relegado para o segundo lugar do podium, vendo assim adiada a conquista do campeonato para a próxima jornada.
O jantar não se encerrou sem as sobremesas (banais) e sem as discussões habituais. O sô Silva arrebatou o prémio «boca mais foleira», o Sábio ganhou o prémio «fair play» e a Guida leva o prémio «cordelinhos».
No fim, e incluído no último ponto da ordem de trabalhos, discutimos onde haveríamos de ir beber uma caipirinha e seguiram-se os trâmites habituais, a saber: a) Galeria? b) Tu és doido, é sempre Galeria; c) 'Bora ao Galeria d ) Espera lá, e se fôssemos antes à "x". Desta vez a variável "x" foi preenchida com o Irish Bar. Eu bebi um gin tónico que estava uma merdunça.

29/01/05

Arquivos do Porco: memória dos vinte e três dias de Dezembro do ano de noventa e nove

No dia 23 de Dezembro dos idos de 99, por oferta do Grande Bom (ex-Mau. não confundir com o Mau ex-Bom), o Porco comeu parte de um seu semelhante: aviámos numa noite a pata de um porco negro, cortado com requintes de sadismo canibalesco em finíssimas fatias. Inigualável, aquele saudoso Pata Negra. Mais inigualável ainda porque acompanhado por um Vega Sicilia de 86. Nada mais nada menos do que o melhor vinho que o Porco já bebeu e um dos melhores vinhos de sempre.

A prová-lo, o jornal El Mundo, de 31 de Dezembro de 2004 dava conta do record alcançado na venda de um Magnum de três litros: 65000 dólares! Eu repito: 65000 dólares! Por extenso: sessenta e cinco mil dólares! Por extenso e em maiúsculas: SESSENTA E CINCO MIL DÓLARES! SESSENTA E CINCO MIL DÓLARES, CARALHO! 3 litros daquele vinhão foram vendidos por 65000 dólares! E nós já bebemos daquilo! Uma 0,75, é certo, mas bebemos, é muito provável que cá pelo meio das minhas entranhas ainda circule uma molécula perdida, um vaporzito esquecido por entre as fissuras do fígado dessa magnífica bebida que acabou de ser vendida por um preço record! 65000 dólares! A prová-lo está a notícia do El Mundo. Clicar na imagem para ver a notícia completa (foto pesada)


11/03/04

SAÚDE, PROST, CHEER`S E NAZDRÓVIA!, por SimplistaAvinhado

Há dias perguntava a Gotika pelo Vinho do Porto australiano. Ao mesmo tempo no seu blog, questionava-se em que é que Portugal era grande. Mata-se assim dois cágados, digo, dois coelhos de uma só cajadada.
Entre outras coisas, Portugal é excelente no seu Vinho do Porto. O Vinho do Porto é no estrangeiro uma vaca mítica e sagrada, que é sacrificada regularmente aos deuses do Olimpo. Mas atenção, que o nosso bom Vinho do Porto e que reconhecidamente goza de prestígio e estatuto de raridade gourmet in all the world that mater`s, não é a mistela de 4/5 euros que os gajos de fato-de-treino, se afadigam a comprar ao domingo nos Continentes, para os anos da sogra. Esses “lágrimas”, “rubys”, “tawnys”, “crusted” e quejandos, são parentes muito distantes do verdadeiro néctar do Douro, destinados a alimentar a esperança lusa de um ataque fulminante nas sogras ou a distrair os comparsas da bola das poucas cervejas que restam lá em casa. Essa tropa nefanda, vende-se por cá e não se vende para lá. Para lá vai a nata, os Vinhos do Porto “Vintage” e os “LBV” ou “Late Bottled Vintage”. E aqui importa descer ao mundo da precisão. Os “Vintage” são Vinhos do Porto, de uma única colheita (ano), considerada excepcional, que depois de um pequeno estágio em madeira, é engarrafado entre o Segundo e o Terceiro ano, após a vindima. Enquanto o tawny envelhece em madeira por anos e anos ou mesmo, dezenas de anos, até ganhar aquela cor amarelada e o sabor de “vinagrinho” característico, o “Vintage” ao invés, é engarrafado praticamente de imediato e vai envelhecer em garrafa, se o deixarem claro!
Este é o topo de gama do Porto, a categoria especial, a quinta-essência da coisa.
O “LBV” é a segunda categoria especial de Vinho do Porto, também de um só ano, identificado na garrafa, de uma colheita considerada muito boa, mas que não atingiu o nível de excepção, e que após um estágio em madeira mais prolongado que o Vintage, foi engarrafado entre o Quarto e o Sexto ano, após a vindima.
Estas duas categorias de Vinho do Porto, como não são sujeitas a estágios de madeira prolongados, são engarrafadas com uma força e uma riqueza aromática e gustativa, que nada tem a ver com as mistelas destinadas a cumprir a função de vinho doce nos aniversários. No essencial são vinhos tintos, só que mais alcoólicos (20%) e pujantes que o tinto normal. O doce está lá, mas abafado por uma complexidade e distinção aromática que nos deixa de rastos. Para quem, até agora, só andou pelas mistelas e vem meter os queixos, num Porto Noval, LBV, 1996 (14€), 97 (15€), ou mesmo num Warre`s, LBV, 92 (15€) ou no 94 (10€), só para falar dos três ou quatro que ainda me perduram na memória papilar, a coisa é um autêntico murro no estômago de contentamento e uma explosão no cérebro de admiração.
Infelizmente, os Vintage não são da nossa divisão. Jogam com os Châteaux Margaux, Haut-Brion, e Yquem`s nas major league inglesa, americana e japonesa, ao preço de 2.000,00€ a colheita do ano do Porto, Noval, Vintage, Nacional, ou ao preço de 20.000,00€ pelo mesmo Nacional de 1931, eleito pela Wine Spectator como um dos Cem Melhores Vinhos do Século. Tais belezas, (vintages da Noval, Dows, Niepoort, Graham`s, etc) estão todos os anos nas listas dos melhores do mundo da Wine Spectator, do Robert Parker ou da Challenge. Vão para lá e nós por cá se queremos ferrar o dente num Niepoort, Vintage, 1997 (98 pontos em 100 da Wine Spectator de Fevereiro de 2000), já temos que esportular 200,00€ e é encontrá-lo, que o animal já hiberna nas caves dos tascos e investidores de Nova Iorque e Tóquio.
Os autralianos, sul-africanos e californianos, obviamente querem uma fatia do bolo, mas só a conseguem junto dos gajos de fatito-de-treino dos antípodas que ainda tentam despachar a sogra.
Mas atenção, que os japões, britts e os yankees, esses capitalistas de merda, não o levam todo, não senhora! Há uma categoria especial, que resiste ainda e sempre, ao avanço das hordas bárbaras, que é o LBV. O LBV, tem a vantagem em relação ao Vintage de não se ter que esperar por ele, uma vez que já vem pró mercado com o estágio completo feito e está pronto a ser consumido. Obviamente, como tem menor potencial de envelhecimento, é menos apetecido pela corja monopolizadora.
E pra gáudio nosso, acontece que os brutos também se enganam. Como é que se distingue um colheita “excepcional” de uma “muito boa”? Por vezes, os rapazes lá do douro falham e fazem LBV de coisas excepcionais, que só por engano deles ou por imprevisível evolução no estágio, é que para aqui vem, em vez de ir pra Vintage. É o caso do Noval, LBV, 1997 que a 14,00€ euros, é ambrósia roubada aos deuses que nos aplaca a fúria anti-capitalista no final de uma boa refeição!

16/02/04

LAMPREIA-2004

LAMPREIA-2004
34ª PROVA CEGA DE TINTOS
06ª EXPEDIÇÃO PUNITIVA À LAMPREIA DO BERNARDES
46ª NAVEGAÇÃO TERRESTRE PRÓ-EXTINÇÃO DAS ESPÉCIES

1º CLASSIFICADO-76pontos-VALE MEÃO, 2000 (DOURO)-LE VICE-Prémio MALIGNO
título- FALCÃO DA CEPA, de grau 3
2º CLASSIFICADO-70pontos-GOUVYAS, VINHAS VELHAS, 2001 (DOURO)-GALGO
3º CLASSIFICADO-69pontos-CALLABRIGA, 1999 (DOURO)-HOMEM DO CACHIMBO

4º CLASSIFICADO-69pontos-HERDADE DO ESPORÃO, TRINCADEIRA, 2001 (ALENTEJO)-PRESTES JOÃO
5º CLASSIFICADO-68pontos-ESPORÃO, GARRAFEIRA, PRIVATE SELECTIONS, 2001 (ALENTEJO)-TÓZÉ
6º CLASSIFICADO-65pontos-QUINTA DA LEDA, 1999 (DOURO)-F. MARQUES
7º CLASSIFICADO-63pontos-JOÃO PORTUGAL RAMOS, SYRAH, 2002 (ALENTEJO)-NESTUM

8º CLASSIFICADO-62pontos-CORTES DE CIMA, SYRAH, 2002 (ALENTEJO)-O MAU-Prémio VINAGRE


Nota: Segundo a Autoridade o Syrah do Mau era mesmo mau, o pior Syrah do Cortes De Cima dos últimos anos, corrido a nota 4 pelos graúdos do reino vínico. está muito bem em último lugar.

MELHOR NOTA DE PROVA- O HOMEM DO CACHIMBO, com + 17 pontos

PIOR NOTA DE PROVA- PRESTES JOÃO, com - 5 pontos

ass: S.A.R.danápalo

15/02/04

Heroes (1977) e Quinta de Vale Meão (2000)

Dedico Heroes de David Bowie a mim próprio por ter ganho a Milésima Centésima Expedição Punitiva à Lampreia que teve lugar ontem na Catedral do Bernardes. Este hino é também dedicado ao meu amigo Paulo, que foi quem me ofereceu o fabuloso Quinta do Vale Meão/2000 com que me sagrei vencedor. Bem hajas, Paulo!
We can be heroes
Just for one day
Se há coisas raras de conseguir nesta vida efémera, uma delas é, certamente, um Maligno, o Óscar Negro da Esseponto, pintado e decorado pelas mãos exímias e pela cabeça perversa do nosso pintor, O Artista Anteriormente Conhecido Pelo Nome de Pilas. Ontem foi uma dessas noites raras em que tive os tais 5 minutos de fama e glória de que falava Andy Warhol. Ontem ganhei o meu terceiro Maligno, depois de volumosos anos a meter vinhos de excelência em Provas Cegas ainda mais excelentes.
I, i will be King and you, you will be queen
Though nothing will drive them away
we can beat them just for one day
We can be heroes just for one day.
Heroes começa com a guitarra espacial de Robert Fripp. Brian Eno – outro monstro visionário, acentua o efeito nas teclas e sintetizadores e já estamos em Andrómeda antes do refrão. Heroes é uma viagem interestelar, produzida em plena época do ácido. Quinta do Vale Meão/2000 é um vinho de excepção, um Ambrósio, na terminologia criptográfica da Esseponto. Não é para me armar aos cágados mas todos testemunharão que eu tinha a vitória de ontem como certa. Foi só pensar: já tínhamos provado o Vale de Meão/99 noutra ocasião e considerámos que necessitava de tempo para apurar as potencialidades. Assim, pensei que esta colheita de 2000 estaria agora, quatro anos depois, em condições óptimas, ainda por cima, sendo a lampreia um prato muito forte, a exigir tanino. Foi em cheio! Obviamente os vinhos apaneleirados do João Portugal Ramos e as castas Syrah lixaram-se. E bem – dois vinagres! A lampreia não quer sabores florais, quer alguma adstringência, quer tanino redondo, que não excessivo. Passámos toda a noite à procura dessas qualidades nos vinhos presentes. É certo que as encontrámos noutros vinhos e faço aqui jus aos 4 convidados que estiveram à altura do acontecimento.
I, i wish you could win
Like the dolphins, like the dolphins can swim.
Though nothing, though nothing will keep us together
We can beat them for ever and ever
Oh we can be heroes just for one day
A voz de Bowie começa a impor-se pela calma, pela tranquilidade. Há um momento na música de perfeita fusão entre o som espacial dos sintetizadores e a placidez de Bowie. Mas depressa se quebra esse oceano da tranquilidade e a música torna-se instável, nervosa, cada vez mais rock, cada vez mais dura… Gradualmente, a guitarra de Carlos Alomar faz-se notar como metal no meio do som planante da dupla Eno / Fripp. A voz de Bowie torna-se cada vez mais agressiva, agora é um grito de raiva, um grito de fé, sim, é verdade we could be heroes…

Com um Quinta da Leda, um Callabriga, um Reserva do Esporão e um Trincadeira (da herdade do Esporão?), os quatro convidados foram quatro magníficos. Estiveram à altura! Mas estiveram abaixo, mesmo assim, do excelente Gouvyas do nosso regressado Lampião e ainda mais do Vale Meão.
And the shame was on the other side
Oh we can beat them for ever and ever
We could be heroes just for one day
We can be heroes
We can be heroes
Até por isso mereço a música do Bowie – fomos ameaçados pelas excelentes escolhas dos convidados, mas mais uma vez o Maligno não saiu do Universo Confradal. Não sei se repararam que nunca, em 200 anos de Provas Cegas, um convidado logrou ganhar um Maligno. É obra! Ainda está para nascer o convidado que no arrebate um Maligno – e já muitos, um exército deles, o tentaram. Hoje, lá jazem todos, no pó da arena dos vencidos! Para mim (e para o Paulo) cá vai pois em altos berros:

We can beat them for ever and ever
We could be heroes
We could be heroes…