Restos de Colecção: Casas de Fado
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18 de setembro de 2025

"Nova Cintra"

A "Quinta de Nova Cintra", ou simplesmente "Nova Cintra", foi adquirida por José Joaquim Leite de Guimarães (1808-1870), natural de Guimarães e a quem foi atribuído, por El-Rei D. Luiz I em 11 de Dezembro de 1866, o título de "Barão de Nova Cintra".

"Nova Cintra" chamava-se inicialmente "Quinta de Santa Rita", e estava localizada no lugar de Carriche, mais concretamente no final da Calçada de Carriche, local onde existiam outras propriedades de famílias abastadas, provavelmente amigas de José Joaquim, que faziam desta zona um local de veraneio. 

Apesar de decidir, por fim, viver no Porto, nunca se desfez da "Quinta de Nova Cintra". No seu testamento pode-se ler: «Deixo mais à Santa Casa da Misericórdia do Porto a minha quinta denominada de Nova Cintra, na proximidade de Lisboa, da qual tirei o meu título de barão, com a obrigação de dar o líquido rendimento de que já há muito goza minha prezada cunhada… com sobrevivência dela para seu filho… com mais a condição de em tempo algum lhe poder ser mudada a designação…»

José Joaquim Leite de Guimarães (1808-1870) - Barão de Nova Cintra

Inicio este artigo acerca de "Nova Cintra", quinta no final da Calçada de Carriche, na freguezia de São João Baptista do Lumiar, transcrevendo por ordem cronológica, algumas passagens que ilustram bem este lugar, antes de passar às casas de fado que ali existiram, a partir de 1948, sem esquecer o "Hotel Nova Cintra", que ali existiu pelo menos desde 1873.

«Calçada de Carriche, encontra-se uma formosa quinta, baptisada com o nome de Nova Cintra, e a melhor casa de pasto extra-muros de Lisboa. Ruas de bem copado arvoredo, solitarios carramancheís, uma serra com bello caminho praticavel por entre canaviaes, no alto d'ella um mirante para descançar no fim d'aquella ascenção, agua purissíma e sempre fresca rebentando em abundancia ao lado de optimos fructos e flores varíegadas-eis-ahí a Nova Cintra, que bem merece o seu atrevido nome.
A mesa é bem servida em pequenas salas de uma habitação unida á quinta, ou em algum dos kioskos, ou mesmo nas ruas de arvoredo se assim o quereis.» (1)

Romaria do Senhor da Serra em Belas

«Terminaremos fallando da Calçada de Carriche, ponto obrigado para ser visitado por todos os viajantes, que vêm a Lisboa, e que difficultosamente deixam de ir á Nova Cintra, Nada pôde justificar este titulo; mas a moda concedeu-lho, e por isso não ha remédio senão sujeitar- se a gente aos seus caprichos. A Nova Cintra é uma pequena quinta com agradáveis passeios e uma boa casa de pasto. Para nós só tem um merecimento, e é poder servir de exemplo na eschola da vida para provar o que é a constância no trabalho e na industria, porque de um ordinário e pouco rendoso casal conseguiu o actual proprietário fazer uma boa e valiosa propriedade, e recebeu em recompensa das suas fadigas e lavores, deixar a adversidade de o perseguir, e ser hoje naquella localidade querido e festejado por uns, adulado e invejado por outros.» (2)

Na próxima transcrição já é referenciado o "Hotel Nova Cintra" (hospedaria) que terá funcionado até ao final da primeira década do século XX.

«Carriche ou Calçada de Carriche - aldeia da Extremadura, freguezia de S. João Baptista do Lumiar, termo, districto, comarca e 8 kilometros ao NO de Lisboa 21 fogos, 90 almas.
Situada sobre a estrada real, que de Lisboa conduz a Loures, e próximo do Lumiar e também na estrada para Odivellas (que é a mesma do Lumiar.)
No fundo da Calçada de Carriche, está uma hospedaria que pomposamente se intitulou "Hotel de Nova Cintra".
É por isto que muita gente vae chamando a este sitio Nova Cintra.
Em Nova Cintra é a quarta estação do Caminho do ferro Larmanjat de Lisboa a Torres Vedras.
Tem esta povoação tido bastantes melhoramentos, e, como é muito çoncorrida das familias de Lisboa (prinçipalmente no.verão) é bastante provavel que venha a merecer o nome de Nova Cintra.» (3)

1887


15 de Maio de 1909

«( ...) e logo em seguida, mais dois campinos e alguns amadores, todos subirem a encosta das oliveiras, nas Marnotas, para rapidamente virem desembocar na calçada de Carriche, proximo da Nova Cintra, restaurante que ainda é lembrado pela gente d'esse tempo, recordando as bellas festas que alli se deram por motivo d'estas diversões.» (4)

«Nas frescatas 3 nas hortas dos arredores da Lisboa de 1833, guitarreavam-se modinhas.
Assim acontecia na Gertrudes da "Perna de Pau" no  Manuel Jorge, ás portas de Sacavem, no "Zé Gordo", na calçada de S. Sebastião da Pedreira, no Quintalinho. á Cruz do Taboado - onde se vendiam iscas de viteíla espetadas em palitos - e no Calazans, á Cruz dos Qualro Caminhos.
Nas suas succedaneas de 1846, já se guitarreava o fado, como succedia na Horta das Tripas, no Escoveiro (à Cova da Piedade), no Ezequiel do Dafundo, no Miséria da estrada de Palhavã, na Viteileira da travessa dos Carros, na Rabicha, no Campo Pequeno ), no Arco do Cego, na Madre de Deus e no Beato António. E esta tradição do fado mantevese nas hortas das epochás posteriores: José da Bateira, António das Noras, em Arroyos, Quintalinho da travessa do Pintor, Theotonio da calçada de Carriche ou "Nova Cintra" (onde se ia em burricadas), a Joanna do Collete Encarnado, no lado oriental do Campo Grande (que passou depois para a azinhaga da Torre, no Lumiar), "Cá e lá", José Gallinheiro, Joaquim dos Melões, na Outra-Banda, Arieiro, José dos Pacatos, retiro do Pardal, nas terras da Casa da Pólvora, Salgado do Arco do Cego, Videira do Campo-Grande, a tendinha do Campo, José dos Passarinhos, em Alcântara, as Varandas, ao Caminho de Ferro, José dos Caracoes, no Campo Grande, Luiz Gaspar, na estrada das Mouras, Esparteiro do Alto do Pina, Pacatos Velhos, o Rouxinol, nos Terramotos, Quinta do Ferro de engommar; e, mais recentemente, Pedro da Porcalhota, Cazimjro do Poço dos Mouros, Bazalisa, Quinta do Papagaio, Quinta das Águias, as leiteiras, José Azeiteiro, o Quebra-Bilhas, no Campo Grande, e José Roque, de Palhavã.» (5)

Carroagens para Calçada de Carriche (Nova Cintra)


1855


1872

«Na Calçada de Carriche, a quinta chamada Nova Cintra teve muita fama entre os frequentadores de retiros campestres; mas hoje já se não servem aqui jantares e apenas subsistem no logar algumas vendas frequentadas pelos saloios e cocheiros em transito.» (6)

«Algumas diversões se organizaram entre os Motas e Mendonças, passeios a Carriche, ao Senhor Roubado, a Odivellas e Carnide ; leituras em pleno jardim e serões musicaes, em que Eduardo acabava sempre por adormecer.» (7)

«Entre as latadas de pâmpanos, na horta imensa e acidentada, que é Nova Cintra, nas sombras do arvoredo, através da rede dos galhos e das pernadas, por cima do tilintar das louças e dos vtdros, das covas dos valados, com rescendencias a madresilva e rosas silvestres, chegavam até os cavaleiros, já pela calçada de Carriche acima, acordes indistinctos do fado, de cantares, de vozes avinhadas ou cristalinas, de centenas de ruidos desprendidos dessa colmeia, que, aos sábados, na espera de touros, se enchia a transbordar.» (8)

O restaurante e esplanada "Nova Sintra", propriedade de Álvaro Anselmo de Oliveira - de sua alcunha «Álvaro do cãp» - foi naugurado em 4 de Setembro de 1948 na Calçada de Carriche, nº 111, no sítio conhecido por "Nova Sintra". Durante os primeiros meses foi seu diretor artístico o fadista Alfredo Marceneiro apenas por dois meses. Seguiram-se-lhe, os fadistas Fernando Farinha (o «Miúdo da Bica») e Áurea Ribeiro.

4 de Setembro de 1948

Calçada de Carriche, 111 (onde está o reclamo à "Frigelo") onde funcionou o "Nova Sintra" (1948-1951). Ao lado ainda o reclamo ao restaurante "Pampilho" (1956-1958)

Aos domingos a ementa era especial: caldo verde à transmontana e à alentejana, mariscos de todas as qualidades, gradum de pescada e cabrito à Bairrada. Mas a especialidade da casa era o famoso “Leitão assado à Nova Sintra”.

Então, o grande animador deste castiço restaurante-esplanada passou a ser Fernando Farinha, que ficou conhecido como o “Miúdo da Bica”. Foi neste espaço que este fadista festejou o seu 20.º aniversário natalício, em 20 de Dezembro de 1948, num jantar que foi presidido pela fadista Hermínia Silva, com a colaboração de diversos artistas do teatro, do fado e da rádio e com a direção artística do poeta João Linhares Barbosa.


11 de Dezembo de 1948

30 de Dezembro de 1948

No dia 10 de Dezembro de 1948, foi organizada uma festa de homenagem à fadista Hermínia Silva com a inauguração da "Sala Hermínia Silva”. Participaram no programa desta festa, além desta popular atriz e cantadeira Hermínia Silva, outras grandes figuras do fado: Lucília do Carmo, que tinha a sua casa de fado “Adega da Lucília”, na rua da Barroca, no Bairro Alto, Maria do Carmo que era antiga proprietária da casa de fado “Ferro de Engomar”, Júlio Proença, Áurea Ribeiro e o poeta popular Linhares Barbosa.

10 de Dezembro de 1948

30 de Junho de 1949

No dia 26 de dezembro de 1949 realizou-se neste famoso restaurante uma ceia e um espectáculo de homenagem ao actor Vasco Santana, com a colaboração de artistas de teatro, fado e da rádio e um grupo de fadistas.

Por aqui passaram as mais admiradas figuras do fado como Alfredo Marceneiro, Fernando Farinha, Hermínia Silva, Manuel Fernandes, Carlos Ramos, Carlos Duarte (o pirolito da Ericeira), Adelina Ramos, Maria Carmen, Ilda Silva, Maria da Saudade, Fernanda Baptista cantora e actriz de teatro e muitos outros.

Como já foi referido anteriormente, Alfredo Marceneiro manteve-se à frente da direcção artística do "Nova Sintra", mas por apenas dois meses, até à abertura do seu restaurante “O Solar do Marceneiro”, localizado um pouco mais adiante, e que abriria em 27 de Novembro de 1948. Localizava-se no princípio da estrada que seguia para Odivelas, junto ao monumento do Senhor Roubado. A 9 de Dezembro de 1950 mudadria de nome para "Solar a Tradição".


27 de Novembro de 1948


31 de Dezembro de 1948


8 de Dezembro de 1950

Depois de trespassar o seu "Solar do Marceneiro", regressa à direção artística do restaurante "Nova Sintra" e que ele tinha inaugurado. Por essa altura por lá cantavam Alfredo Marceneiro, o seu filho Alfredo Duarte Júnior, Maria de Lourdes e Luís dos Santos, acompanhados à guitarra por José Marques e à viola por Armando Silva. No final de Agosto de 1951, Alfredo Marceneiro regressou ao seu retiro, que passou a chamar-se de novo “Solar do Marceneiro”.

8 de Dezembro de 1950

29 de Dezembro de 1950

Entretanto restaurante "Nova Sintra" teria vida curta e encerraria no final de 1951. No seu lugar abriria, em 18 de Junho de 1955 o "Solar da Tibúrcia".  Aqui cantavam a fadista Áurea Ribeiro e o fadista Alfredo Duarte Júnior, filho de Alfredo Marceneiro. 

18 de Junho de 1955

Também teria uma existência curta e em 12 de Junho de 1956 seria substituído pelo "Pampilho". Este restaurante pertencia a Alfredo de Almeida, marido da fadista Lucília do Carmo (mãe do fadista Carlos do Carmo) donos da casa de fados "O Faia". 

«Abre hoje, na Calçada de Carriche, 111-C, o restaurante-típico «Pampilho», com bom serviço de cozinha regional, fados e guitarradas, que estará aberto toda a noite. Esta tarde, o seu proprietário, Alfredo de Almeida, dono do restaurante-tipico «O Faia», da Rua da Barroca, ofereceu um vinho de honra aos representantes da Imprensa e a numerosos clientes e amigos.» in: jornal "Diario de Lisbôa"

12 de Junho de 1956


Restaurante "Pampilho" 

Encerrou em Agosto de 1957 e voltou a abrir em 2 de Maio de 1958, sob a gerência do restaurante "Tricana", que tinha estad instalado na primeira "Feira Popular de Lisboa" na Palhavã até 1957 e que estaria na nova, a partir de 1961.. Acabou por encerrar definitivamente no final de 1958.

Outras casa de fado existiram na estrada para Loures como: 

"Retiro da Ti Jaquina" à saída do Casal de Olival Basto (Km 1 da estrada para Loures) - funcionou entre início do século XX e anos quarenta do mesmo século).

"Patrício" - Restaurante típico, com fados e guitarradas e que substituiu o "Retiro da Ti Jaquina" - funcionou entre 1949 e 1957.

"Retiro" - Restaurante, fados e boite que veio substitui o "Patrício" - funcionou entre 1958 e 1960.

"Roseiral" - Restaurante à saída de Olival Basto - funcionou entre 1958 e 1965 (?).

"Casa dos Caracóis" - Taberna e casa de fados que funcionou ao lado da "Nova Sintra" entre 1960 e 1967. Fechou destruído por violentas cheias e reabriria na Póvoa de Santo Adrião.


Bibliografia:

(1) -  "Novo Guia do Viajante em Lisboa e seus arredores", de 1853.
(2) - "Roteiro do viajante no continente: e nos caminhos de ferro de Portugal em 1865", de  João António Peres Abreu.
(3) - "Portugal antigo e moderno; diccionario ... de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal e de grande numero de aldeias" de Soares d'Azevedo Barbosa de Pinho Leal, em 1873.
(4) -   Revista "Serões" de 1901.
(5) -  "Historia do Fado" de Pinto de Carvalho, de 1903. 
(6) -  "A Extremadura Portugueza" de Alberto Pimentel, de 1908.
(7) -  "Ercília ou os amores de um Poeta", de 1908
(8) - "A Sociedade do Delírio" de Eduardo de Noronha, de 1921.

Blog"Fora de Portas",  de Filomena Viegas.

26 de novembro de 2023

Parreirinha do Rato

Na Rua Direita do Rato, nº 11, ao Rato, em Lisboa, existiu o "Pateo do Ferreira", cuja designação teve origem no actor Ferreira da Silva (1859-1923) «um dos primeiros artistas dramaticos portuguezes», e que lá viveu. 

O olisipógrafo Norberto de Araújo (1889-1952) descreve a sua origem e localização, na sua vasta obra "Peregrinações em Lisboa", donde retirei a seguinte passagem:

« (...) Neste angulo recto que fazem a Rua da Escola Politécnica e do Rato, e todo ainda não desfigurado, existiu a Real Fábrica das Sedas, cujas oficinas, secções, anexos e armazens em parte aqui se situavam, em ligação pelo interior rústico com a Rua – que se rasga de S. Mamede -  chamada de Fábrica das Sedas.
A Real Fábrica das Sedas foi criada, com organização própria oficial, pelo Marquez de Pombal em 1757, sucedendo à Fábrica fundada, em tempos de D. João V, por Ricardo Godin, um industrial francês que primeiramente  instalara o seu estabelecimento fabril na Fonte Santa, de onde transitou para o fundo da Rua de S. Bento e finalmente para o Rato; não foi feliz no empreendimento e já em 1750 o estado deitara a mão à sua Fábrica.
A Real Fábrica conheceu periodos de prosperidade, durante a administração pombalina sendo grande  a sua influência na sumptuária portuguesa da época, fornecendo paços, palácios, conventos  e igrejas, clientes que crivaram, por vezes, a fábrica de dívidas.


Futura "Quinta do Ferreira" na área delimitada a preto, em 1857 e ainda sem barracões construídos


"Quinta do Ferreira" na área delimitada a branco


"Quinta do Ferreira" na área delimitada a vermelho, em 1911 já com os barracões construídos

Morto Pombal, a Fábrica decaiu, arrastando-se contudo até 1855, ano em que D. Maria II mandou vender tudo, edificios, oficinas, teares, existência; uma parte foi ainda explorada por um industrial particular, e mais tarde multiplicaram-se mesmo os pequenos industriais da seda, nas Amoreiras, mas sem sinal de desafogo, havendo dessas fabriquetas  ainda vestigios como veremos noutro passo.
O prédio da esquina onde estava o armazém de vinhos de Domingos António Martins & Cia Ldª – fundado, como simples botequim, célebre no sitio, por Domingos António Martins em 1855, e renovado em 1914 – integrava-se no corpo do edificio da Real Fábrica.    ...
Antes da criação da Real Fábrica, estes terrenos por aqui, entre o Rato e a Rua da Imprensa Nacional (então Travessa do Pombal) até S. Bento faziam parte da Quinta do Morgado dos Soares da Cotovia – a quinta de D. Rodrigo  da primeira metade do séc. XVIII – e de que adiante te falarei.
Fez-se então a fábrica com as suas dependências, vendidas do século XIX.
Tudo foi depois parar às mãos de um Francisco Ferrari, de quem transitou para três filhas, duas das quais, que houveram a parte de um sobrinho, filho da outra irmã, casaram uma com o Visconde Silva Carvalho, outra com Guilherme Shindler; foi desta senhora que os imóveis da antiga Real Fábrica passaram para  sua filha D. Livia Ferrari Shindler  de Castelo Branco  viúva do estadista João Franco,  propritária de todas estas edificações, correspondentes à desaparecida fábrica, quer as da frente para a Rua da Escola quer as com frente para o Rato.
Mas façamos agora uma pausa, para entrarmos decididamente na Rua da Escola Politécnica, que vale, só por si, um passo de jornada.
... numa das dependências , com entrada pelo pátio viveu o actor Ferreira da Silva, morando ainda a veneranda viúva do ilustre artista.»


Comício Republicano, no "Pateo do Ferreira" em 1 de Maio de 1907


Neste pátio instalou-se, nuns barracões de tijolo e zinco, o "Novo Theatro de Variedades", propriedade do Dr. José Maria Couceiro da Costa e inaugurado em 27 de Março de 1880, com a peça "O Crime do Benformoso" de Costa Braga e a peça sacra "Martyrio e Gloria, ou Torquato", o Santo" de Antonio Mendes Leal. Mais tarde, viria a chamar-se "Theatro do Rato", e funcionaria até 1906, quando um incêndio o destruiu por completo. Acerca da história deste teatro consultar neste blog o seguinte link: "Teatro do Rato".


Ao lado do "Theatro do Rato" existiam outros barracões, alguns deles ocupados pelo "Chalet do Rato" que terá aberto em 1882. O "Chalet do Rato" não era mais que um conjunto de pequenas dependências pertencentes a José Martins R. da Silva, assim distribuídas : Botequim, Restaurante, Mercearia, Armazém de Vinhos, Vacaria, Bilhares, etc.


2 de Dezembro de 1882


24 de Dezembro de 1882

Como muitos dos empreendimentos comerciais da época não duravam muitos anos, pelo que este também não fugiu à regra e em 22 de Dezembro de 1884, já anunciava a o seu trespasse ...


21 de Dezembro de 1884

Contudo, logo a seguir em 01 de Janeiro de 1885 eis que aparece o anúncio que publico de seguida:


Deixou-me confuso este anuncio pelo seguinte. Primeiro anuncia o trespasse e neste anúncio refere: «José M.R. da Silva, antigo proprietario, participa ao respeitavel publico em geral, e aos seus bons amigos em particular, que continua a ter no seu vasto estabelecimento ... ». Neste mesmo texto diz «antigo proprietário», para logo de seguida referir: «seu vasto estabelecimento». Será que ficou apenas como gerente? Como não apareceu mais publicidade alguma a este estabelecimento, não consegui algum esclarecimento adicional.

Entretanto, já neste café-restaurante "Chalet do Rato" se cantava o fado. Alguns fadistas lá actuaram como: Artur Fininho, Artur Pinha, Guilherme Simões, etc. Depois de encerrado este espaço foi substituído pela casa de pasto e casa de fados a  "Parreirinha do Rato" nos anos 20 do século XX, onde se cantou o fado com mais frequência e muitos fadistas consagrados por lá passaram, a começar por Alfredo Marceneiro.

«Mas foi no «11» do Largo do Rato, antiga casa de jogo e que o dono transformou em «cabaret» quando os jogos de azar foram proibidos, que o jovem Alfredo começou a ser mais conhecido no meio fadista, sendo frequentemente convidado a cantar alguns «fadinhos», cujos versos ele mesmo improvisava. Outros versos que também cantava, letras de qualidade literária e poética muito fracas, eram adquiridos nos quiosques pelo preço de um vintém.
Aqui travou conhecimento com alguns dos poetas populares e grandes fadistas de nomeada daquela época, nomeadamente, o Britinho, estucador, o Soares, do Intendente, o Júlio Proença, estofador, o João Mulato, o Chico Viana, o Jorge, caldeireiro, (...)»


1950


Entrada e tabuleta luminosa da "Parreirinha do Rato" à esquerda na foto


1951

Em entrevista a Fernando Lemos (1926 - 2019), pintor, designer e poeta, à jornalista do jornal de "Negócios", Lucília Crespo em 16 de Agosto de 2019 o mesmo recordava:

«Meu pai andou com ele, foram amigos, frequentavam a mesma carvoaria, que é o lugar de vinho onde vendem carvão e onde há um aroma muito particular, um cheiro de carvão, de gasolina, de vinho junto. E, mais a mais, ficavam lá à noite, já de porta fechada, era só o pessoal do fado. Eu era ainda miúdo, colocavam-me sentado no balcão e ficava ouvindo aquela malta toda tocando, com o cigarro ainda aceso atrás da orelha. Era um ambiente bem característico. Havia uma casa de fados no Largo do Rato, a Parreirinha, onde a gente fazia festival de fado corrido, cada um ia cantando uma quadra e depois passava ao outro, homens e mulheres.

E o Fernando também cantava?

Também. Todos nós cantávamos… E o mestre era o Alfredo Marceneiro, ele era semelhante ao grande músico de swing americano, Louis Armstrong. O Armstrong tinha o som de uísque, o Alfredo Marceneiro tinha mais o som do vinho, do barril de vinho, o som de madeira do barril»


Tabuleta da "Parreirinha do Rato" à direita na foto


1 de Março de 1953


Entrada para a "Parreirinha do Rato" à esquerda nesta foto de 1967

Passaram as décadas e, felizmente, " A Parreirinha do Rato" foi resistindo aos tempos e "intempéries", e ainda está a funcionar.

Quanto à "Parreirinha do Rato" , o jornalista Paulo Campos, em 11 de Agosto de 2018, escrevia no site "O Tempo"

«Depois de mergulhar na poesia de Pessoa, a fome bate forte, e a recomendação de uma portuguesa que conheci na praça Jardim da Estrela é seguida à risca. Desço a rua das Amoreiras até a Parreirinha do Rato, no largo do Rato, onde precisa-se atravessar um arco para encontrar uma “tasca” à moda antiga.
Tascas são ambientes familiares, de comida caseira em doses generosas e barata, com toalhas de papel nas mesas e atendimento informal, verdadeiras portinholas onde se servem refeições. O cardápio, escrito à mão, anuncia os pratos do dia, da sardinha assada à costeleta de novilho, ao preço médio de 6,50 euros.»






No site oficial de "A Parreirinha do Rato" pode-se ler (excerto composto):

«Estamos naturalmente preparados para dar as boas-vindas a todos os clientes no nosso espaço sem barreiras arquitetónicas.
Temos sempre um delicioso almoço ou um jantar saboroso à sua espera. Use o nosso Wi-Fi gratuito para estar sempre bem informado. Temos uma área especial onde pode fumar com toda a tranquilidade.»

5 de outubro de 2022

Casa de Fados "Márcia Condessa"

A casa de fados e restaurante-típico "Márcia Condessa", foi inaugurada na Praça da Alegria, 38 em Lisboa, em 5 de Junho de 1952, ainda com a designação de "Festa Brava". Era propriedade da fadista Márcia Condessa (1915-2006), e ficava no mesmo prédio do famoso "Hot Clube de Portugal" que tinha sido fundado em 1948, e destruído por incêndio em 23 de Dezembro de 2009. 



De seu nome verdadeiro Maria da Conceição, nasceu no Minho a 28 de Setembro de 1915. Sem possibilidade para seguir estudos, já que era de uma família humilde de agricultores, veio ainda muito nova para Lisboa, para trabalhar para uns familiares que tinham uma pensão em Lisboa, na esquina da Praça da Alegria com a rua, com o mesmo nome. Esta pensão estava localizada em frente da casa de fados "Solar da Alegria" que tinha aberto em 23 de Dezembro de 1923.

Márcia Condessa, inicia-se no fado num restaurante do bairro da Bica onde trabalhava como ajudante de cozinha onde, por vezes, cantava fados e algumas canções galegas. Depois de ganhar o título de "Rainha do Fado", em 1938, ao vencer o "Concurso da Primavera", e promovido pelo jornal "Canção do Sul" a fadista.  Por consequência, é apresentada ao grande público, na capa da referida edição desse jornal, e passa a actuar em várias casas de fado e espectáculos vários, até abrir, em 5 de Junho de 1952 o seu próprio restaurante típico a "Festa Brava" na Praça da Alegria, 38 em Lisboa. Nome inspirado na "Tertúlia Festa Brava" que estava instalada na cave do prédio.

1 de Junho de 1948


29 de Dezembro de 1950

25 de Abril de 1951

Em 2 de Julho de 1951 Márcia Condessa toma a administração da  casa de fados "Cave Regional do Porto", na Praça Marquês de Pombal, 15 em Lisboa. «A mais típica casa de Lisboa - a única onde não há calor.»

A partir desse ano, a fadista que tinha integrado o elenco durante vários anos na "Adega Machado", e outras casas de fado, veria a sua carreira ficar condicionada com a abertura do seu restaurante, já que além de proprietária, era gerente do mesmo, actuando ali todas as noites.

Esta casa de fados, já com a nova designação de Restaurante-Típico "Márcia Condessa" desde 1954, tornar-se-ia um ponto de referência nos circuitos de exibição dos fadistas mais destacados. Para além das actuações da própria Márcia Condessa, passaram por este espaço artistas como Celeste Rodrigues, Alcindo Carvalho, Teresa Nunes, Alfredo Marceneiro, Fernando Farinha ou Beatriz da Conceição.



Márcia Condessa cantando no seu restaurante


EP de 1962


Alfredo Marceneiro no "Márcia Condessa"




Souvenir do "Márcia Condessa"


5 de Junho de 1956

Por esta sua casa ficaria Márcia Condessa até finais de 1974, altura em que decide abandonar a carreira artística, passando o restaurante "Márcia Condessa" a ser gerido por um sobrinho seu e, posteriormente por vários sócios que foram mantendo o nome da casa. Em 1990 este restaurante, deixando o fado, mudou de nome para "O Púcaro". Já não existe, assim como o "Hot Clube de Portugal", estando o prédio devoluto.

Lista de casa de fados no jornal "A Capital" em 29 de Abril de 1974

"O Púcaro" e o vizinho "Hot Clube de Portugal"

Márcia Condessa, que nos últimos anos da sua vida viveu na "Casa do Artista", viria a falecer em 1 de Julho de 2006.

Fotos in: Museu do FadoFadistandoArquivo Municipal de LisboaObservadorHemeroteca Digital de Lisboa