Restos de Colecção: Política
Mostrar mensagens com a etiqueta Política. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Política. Mostrar todas as mensagens

2 de maio de 2023

"A Revolução de Maio"

O filme português "A Revolução de Maio", foi realizado por António Lopes Ribeiro (1908-1995) e estreado em 6 de Junho de 1937, no "Cine-Teatro Tivoli", em Lisboa. A rodagem do filme tinha sido iniciada em 25 de Março de 1936, no Forte da Almada. A sua produção foi do "SPN - Secretariado da Propaganda Nacional", que tinha sido criado em 26 de Outubro de 1933, e dirigido por António Ferro (1895-1956).


O argumento do filme foi escrito por Jorge Afonso e Baltazar Fernandes, que não eram mais que os pseudónimos de António Ferro e de António Lopes Ribeiro respectivamente.

Sinopse:

César Valente, membro da resistência clandestina ao regime de Salazar, regressa do exílio para desencadear uma revolução em 28 de Maio de 1936, o dia exato em que a ditadura celebraria o seu décimo aniversário. No entanto, através do contato direto com a "Obra do Estado Novo" e depois de se apaixonar por Maria Clara, uma enfermeira da "Maternidade Dr. Alfredo da Costa", Valente irá pouco a pouco converter-se à ideologia do regime - quando contempla, extático, a bandeira nacional no alto do Castelo de São Jorge, chega mesmo a amarrotar a sua bandeira vermelha. No final do filme, a polícia política que vigiara todos os movimentos dos «agitadores bolcheviques», já nem sequer considera necessário prendê-lo: o regime conta agora com mais um fervoroso adepto.


Os actores Maria Clara (Maria Clara) e César Valente (António Martinez)

O realizador, António Lopes Ribeiro:

Realizador, crítico, jornalista e produtor de cinema, António Lopes Ribeiro (1908-1995) foi um nome central na história do cinema português na primeira metade do século XX. Pioneiro da crítica de cinema em Portugal, desde meados dos anos 1920, defendeu as vanguardas cinematográficas europeias e a renovação estética e técnica do cinema português. Realizou o seu primeiro filme, "Bailando ao Sol", em 1928, e participou nas rodagens dos filmes de José Leitão de Barros (1896-1967) "Nazaré, Praia de Pescadores" de 1929, "Lisboa, Crónica Anedótica" de 1930 e "Maria do Mar" de 1930.


António Lopes Ribeiro e Isy Goldberger durante a rodagem de "A Revolução de Maio"

Antes disso, faz uma célebre viagem pelos grandes estúdios de cinema de Paris, Berlim e Moscovo, onde atualizou conhecimentos, reuniu influências e conheceu Clair, Renoir, Lang, Pabst, Eisenstein e Vertov. O seu primeiro filme sonoro foi "Gado Bravo" em 1934, que reuniu vários técnicos e atores judeus fugidos da Alemanha de Hitler. Assinou o primeiro grande filme de propaganda do Estado Novo em 1937, "A Revolução de Maio", escrevendo o argumento com António Ferro, fundador e diretor do "Secretariado da Propaganda Nacional" - SPN. Acerca deste grande cineasta consultar neste blog o seguinte link: António Lopes Ribeiro


Olavo d'Eça Leal, Isy Golberger e António Lopes Ribeiro


Artigos no "Cine-Jornal"  de 17 de Fevereiro e 24 de Março de 1936


Na revista "Animatógrafo" de Outubro de 1941


Anúncio da exibição do filme no "Teatro Nacional São João", no Porto

Imagens da rodagem do filme "A Revolução de Maio"


«Primeira volta da manivela», no Forte de Almada













E, finalmente, a estreia em 6 de Junho de 1937, no "Cine-Teatro Tivoli", em Lisboa.


«Num permanente ambiente de ovação e delírio!» ...


Quanto à estreia do filme, à qual assistiram o Chefe de Estado General Óscar Carmona e o Presidente do Conselho, Dr. Oliveira Salazar, deixo aqui o recorte da notícia e crítica à mesma, no jornal "Diario de Lisbôa", publicada no dia 7 de Junho de 1937.


O suplemento semanal de "O Século", Cinéfilo de 5 de Junho de 1937, considera que quatro pontos cardeais nortearam o filme:

«"servir o cinema português", "servir o público português" ("o público português, de Portugal, do Brasil, das Possessões Ultramarinas, da Europa, da América e da África", que "reclama filmes falados em língua portuguesa"), "servir a propaganda de Portugal" (filmando o "espectáculo formidável" que desfilou perante os "aparelhos de filmar": "as mais lindas paisagens, os nossos mais belos trajos, grandes artistas nossos, a obra formidável do Estado Novo, o nosso Exército, a nossa Marinha, a nossa Esquadra, a nossa Aviação") e, finalmente, "servir a política de Salazar" ("o exemplo singular do que pode fazer o cérebro aliado ao braço, o braço aliado ao coração").»

Segundo João Bénard da Costa (Cinemateca 1995):

« (...) Mas a concepção dessas cenas, segundo Lopes Ribeiro sempre disse, pertenceram ao outro pseudónimo da ficha técnica: Baltazar Fernandes = António Lopes Ribeiro. Do primeiro, terá ficado, talvez, a divisa do duque de Guise que tanto gostava de invocar: “Tudo o que é nacional é nosso.” Do segundo, a divisa implícita, no que aprendera e vira, de que tudo quanto era alheio (alemão, russo, ou americano, pois que muito dos filmes de gangsters foi igualmente incorporado) podia também ser feito nosso, desde que convertido em nacional. E Salazar, que assistiu à estreia, o que é que achou? Lopes Ribeiro contava que António Ferro lho perguntou no dia seguinte: “Então, Senhor Presidente, gostou?” E Salazar respondeu-lhe: “Gostei, gostei muito. Mas aquilo acabou muito tarde e, esta noite, dormi muito mal. Olhe, não me leve mais a ver essas fitas.” E foi a partir daí que passou a dizer que o cinema era uma indústria horrivelmente cara.»

Na opinião de José Régio, numa crítica publicada na revista "Presença":

«O filme tem belos enquadramentos e belos ângulos, interessa tanto quanto possível o espectador, conta a anedota (sobretudo na parte digamos policial) com um à-vontade que mesmo relativo não encontramos muitas vezes, é regularmente representado..."


Elenco:

Maria Clara (Maria Clara)
Emília de Oliveira (A Mãe)
António Martinez (César Valente)
Francisco Ribeiro/"Ribeirinho" (Barata)
Alexandre de Azevedo (Chefe Moreira)
Clemente Pinto (Marques)
José Gamboa (O Silva Tipógrafo)
Luís de Campos (Agente Sobral)
Elieser Kamenesky (Dimoff)
Ricardo Malheiro (O motorista)

Imagens do filme "A Revolução de Outubro" por ordem cronológica das cenas


Abertura

No final dos genéricos do filme, uma nota da produção:

«As imagens documentárias incluidas nêste filme são autênticas reportagens cinematograficas, filmadas sem qualquer artifício de encenação. (Documentos filmados especialmente, fornecidos pelo Secretariado da Propaganda Nacional e pelo Ministério da Agricultura).»


















Ficha Técnica:

Realização, diálogos, planificação e montagem:

António Lopes Ribeiro

Argumento:

Jorge Afonso e Baltazar Fernandes

Assistente do realizador:

Olavo d’Eça Leal

Assistente técnico:

F. Bernaldez y Eder

Assistente geral:

Pereira de Carvalho

Imagem e Fotografia:

Isy Golberger

Colaboração:

Octávio Bobone, Manuel Luís Vieira, José Nunes das Neves

Direção musical:

Pedro de Freitas Branco

Musica:

Wenceslau Pinto

Decorações:

António Soares

Registo sonoro:

Engº Paulo de Brito Aranha

Assistente de produção:

Augusto Soares

Produção:

Secretariado da Propaganda Nacional - SPN

Laboratório de imagem:

Lisboa Filme - Película Kodak

Estúdios:

Tobis Portuguesa - Sistema Tobis Klangfilm

Imagens de arquivo:

Secretariado da Propaganda Nacional e Ministério da Agricultura

Duração:

138 minutos

Estreia:

Cine-Teatro Tivoli (Lisboa) em 6 de Junho de 1937

Distribuição:

Sonoro Filme

Outro filme se seguiria: "O Feitiço do Império" realizado, também, por António Lopes Ribeiro em 1940, e que seria a apologia da colonização portuguesa e do nacionalismo no tempo da II Guerra Mundial (1939-1945). Trata-se de um filme de que apenas se pode ver a imagem e ler o guião, graças à sua publicação por José Matos-Cruz, dado que se perdeu a banda sonora do mesmo.

fotos in: Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Horácio Novais), Hemeroteca Municipal de Lisboa

17 de agosto de 2022

Caixa Económica Operária

A "Caixa Economica Operaria" foi fundada em 8 de Novembro de 1876, como sociedade cooperativa de responsabilidade limitada, tendo instalado a sua sede social na Rua da Infância, actual Rua Voz do Operário, no Bairro da Graça em Lisboa. Embora denominada de Caixa Económica, nunca funcionou como instituição de crédito.

Para a instalação da sua sede, foi cedido pela Câmara Municipal de Lisboa o terreno nº 1 da Rua da Infância, por escritura lavrada em 21 de Fevereiro de 1875. Mais tarde em 4 de Janeiro de 1915, é vendido o mesmo terreno à "Caixa Económica Operaria", por escritura lavrada em 4 de Janeiro de 1915, tendo sido anulada a escritura anterior. 

Constituída com o capital mínimo de 1.000$00, representado por ações de 100$00 cada, teve estatutos de 18 de Setembro de 1925, 28 de Janeiro de 1928 e 8 de Junho de 1931. Segundo eles, a "Caixa Económica Operária" era uma sociedade cooperativa de crédito e consumo tendo por missão o crédito, a produção, o consumo, a instrução e o recreio dos seus sócios e familiares. As operações de crédito que praticava limitavam-se à concessão de empréstimos sob caução ou fiança e a créditos ao consumo dos próprios sócios.

Inauguração da Padaria na "Caixa Económica Operária" em 5 de Setembro de 1932

"Paulino Ferreira" um dos muitos que faziam parte de exposições. Aqui em 16 de Setembro de 1939

Por ocasião duma exposição de trabalhos de indústria dos seus associados nas instalações da "Caixa Economica Operaria", a revista "Occidente" de 1 de Junho de 1889 escrevia:

«Ha treze annos que alguns operarios do bairro de Alfama pesaram em organisar uma associação, sob o titulo de Caixa Economica Operaria com o fim de se auxiliarem mutuamente, instruindo-se, reunindo as suas economias e formarem um fundo social para prover as suas necessidades de consumo e fomentarem a sua produção a adquirir instrumentos de trabalho, formando emfim uma grande familia em que todos trabalhassem para um melhor futuro. (...)
Ao fim de dez annos de associação a Caixa Economica Operaria conseguia ter uma casa sua, construida em terreno que a camara municipal de Lisboa lhes cedeu para esse fim, e o capital preciso para levantar o edificio foi fornecido pelo cofre da Caixa e d'entro de dez annos deve estar pago.
E, em cada anno que passa o seu movimento de capital cresce a olhos vistos, recompensando generosamente, os sacrificios que foi mister fazer para chegar a este ponto.


Mas os indicadores d'esta florescente associação não se deixam adormecer sobre os louros colhidos, e vem d'isso dar uma prova evidente, na exposição de trabalhos da industria dos seus associadose de todos os que á mesma quizeram concorrer apresentando productos da industria nacional. (...)
Ali se podem vêr desde a machina de vapor até ás industrias caseiras. De tudo ha um pouco que nos diz que de tudo se produz na nossa industria.
Os productos de metallurgia, são completos e representam bem os progressos d'este ramo no nosso paiz. Depois encontramos os productos da typographia, da chapellaria, dos tabacos, da marcenaria, das industrias caseiras, da gravura e da esculptura em madeira em que se notam muito especialmente os magnificos trabalhos de talha executados pelos srs. Passos de Azevedo e José Maior para o sr. Dr. Rebello da Silva. (...)»


O edifício da "Caixa Económica Operária" compreendia, para além dos armazéns para os géneros de consumo, e escritório, contava também com um gabinete de leitura e biblioteca, e ainda uma sala de aula para os filhos dos associados.


O edifício após a sua ampliação e em foto de 1975



Artigo em 1912 no "Almanach O Mundo"

Na cidade do Porto em 18 de Março de 1900 era fundada, por operários militantes do "Partido Socialista Português" (fundado em 1875), a sua congénere: a "Cooperativa do Povo Portuense". Em 1906 já era uma florescente cooperativa de consumo e produção. Tinha uma unidade industrial de tipografia, onde os operários já usufruíam do horário de oito horas de trabalho diário. Tinha uma sapataria, duas mercearias no Porto e mais uma mercearia em Matosinhos, além de serviços funerários e de crédito, totalizando mais de mil sócios. 


Instalações da "Cooperativa do Povo Portuense", inauguradas em 1914

Entre 1917 e 1921 a "Caixa Económica Operária" viveu alguns momentos conturbados, fruto do clima político instável que assolava a praça lisboeta. As classes operárias da capital foram seriamente atingidas e a instituição, face às dificuldades sentidas, contraiu um empréstimo no "Montepio Geral".

4 de Agosto de 1937

Esta instituição também serviu fins políticos. Foi nas suas instalações que, o «Partido Comunista Português secção da Internacional Comunista» realizou o segundo e último congresso, em 29 de Maio de 1926, antes da sua ilegalização. Este congresso seria interrompido, no dia seguinte, devido ao golpe militar do Marechal Gomes da Costa, que vindo de Braga chegou a Lisboa nesse dia 30 de Maio.



1948





1998

Actualmente,  a "Caixa Económica Operária" promove espectáculos ao vivo, festas, torneios de cartas, etc.





2016

Esta instituição, teve um importante papel junto das classes trabalhadoras da capital, na prestação da sua missão, subsistindo até aos dias de hoje.

fotos in: Hemeroteca Municipal de LisboaArquivo Municipal de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Projecto Mosca