Mostrando postagens com marcador Rubens Barrichello. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rubens Barrichello. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de fevereiro de 2011

UMA LUZ SOBRE O FW33

Rubens Barrichello jamais perdeu a calma. Enquanto o carro da Williams colecionou problema nos boxes nos primeiros dias de testes, o brasileiro insistiu que os tempos obtidos eram irrelevantes comparando com os outros times e que, se andasse com pouca gasolina, faria um tempo muito bom com o FW33. No último dia de testes em Jerez de la Frontera, ele comprovou isto ao registrar a melhor marca da semana.

A volta em 1min19s832 veio no início de uma série de nove voltas consecutivas, o que indica que o carro poderia estar leve, mas não tanto como num treino de classificação. Mas não dá para concluir nada em cima das marcas do dia (clique aqui para vê-las). Com os tanques de gasolina abrigando até 120 litros, há um leque muito grande para possíveis diferença de peso entre os carros. De qualquer jeito, o tempo de Barrichello joga uma luz positiva sobre um dos carros mais inovadores de 2011. Afinal, pela primeira vez ele pôde trabalhar mais em cima do acerto do carro.

O modelo da Williams chama a atenção pela traseira praticamente plana. Para ganhar mais pressão aerodinâmica naquela área, os engenheiros do time criaram uma caixa de câmbio extremamente compacta e montada junto com o diferencial, o conjunto colocado numa altura bem mais baixa que o normal. A suspensão traseira também é diferente da dos outros times, com alguns braços saindo do elemento lateral da asa traseira até a roda.

Conversei com Barrichello sobre o conceito do FW33 quando estive em Valência. “Esse carro tem ideias diferentes, muitas delas vindas de conversas minhas com a equipe em cima do trabalho feito no ano passado. O comportamento é diferente do modelo anterior, mas isso também tem relação com os pneus, que são bem distintos agora. É difícil comparar com as outras equipes, mas em relação ao modelo anterior, estamos com um carro bem melhor”, apontou.

Até a abertura da temporada no Bahrein, porém, a equipe ainda tem alguns problemas para resolver. O KERS ainda não funcionou a contento (o tempo de hoje foi sem o dispositivo), mas o time aposta em uma nova solução para os trabalhos da semana que vem em Barcelona. E deixa Jerez de la Frontera animado com as mais de cem voltas completadas hoje por Barrichello.

Afinal, a quilometragem conta mais que a performance num momento em que as equipes ainda buscam conhecer melhor seus modelos e escondem alguns trunfos na manga. Uma parte deles deve vir à tona em Barcelona, uma pista fundamental para aferir o potencial aerodinâmico das máquinas - ali, uma pressão aerodinâmica eficiente é tudo, como mostra o segundo de vantagem que a Red Bull colocou no resto no GP da Espanha do ano passado.

O pouco que dá para concluir até agora é que o carro da Ferrari apresenta uma excelente confiabilidade - que, aliás, já foi a principal marca do antecessor - e o da Red Bull é o mais equilibrado nas curvas, algo que é confirmado pelo olhar de pilotos, engenheiros e jornalistas que se colocaram na beira delas durante estes dias em Jerez. Já McLaren, Williams (menos hoje) e Mercedes perderam tempo demais nos boxes esta semana com defeitos e levam uma lista grande de lição de casa para fazer até Barcelona. Mas dá tempo de sobra, nunca duvide da capacidade dos engenheiros e especialistas de uma equipe de F-1.

Interessante é o que se desenha em relação aos pneus. Mesmo o composto mais duro não está conseguindo durar mais que cem quilômetros - mas vamos levar em conta também que Jerez é uma pista “comedora” de borracha. Nos bastidores circula a informação de que a Pirelli vai jogar na segurança e optar pela combinação “macios-duros” para as quatro primeiras provas do ano. Uma boa escolha já que mantem o degrau entre os compostos com o “médio” ficando de fora. E, pelos dados de Jerez, aponta para a possibilidade de corridas com três paradas, quebrando a estratégia lógica que teríamos com duas na ordem “macio-duro-duro”. Mas a Pirelli já anunciou revisões nos compostos “super-macio” e “macio” para Barcelona, meio que reconhecendo que o desgaste deles está acentuado demais. Normal, vamos ver o resultado disso na semana que vem.

Mais tarde, um post comentando o dia de Bruno Senna.

(Foto Williams)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

RUBENS BARRICHELLO E A F-1 2011

Num dia de muitos lançamentos e pouco conclusivo pelo trabalho de pista, vale ouvir com atenção a entrevista de Rubens Barrichello. O brasileiro da Williams comenta sobre o carro novo, as novidades no regulamento, os pneus Pirelli e também sobre a bonita pintura provisória do carro que utilizou hoje. Confira!

(Fotos Luis Fernando Ramos - pitwall - e Williams - carro)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

RUBENS, POR SEUS COLEGAS

Continuindo com a série de materiais da temporada que não saíram do blog, coloco aqui hoje a matéria da RACING de setembro sobre a comemoração dos 300 GPs de Rubens Barrichello. Ao ver a contundente demonstração de respeito e carinho que o paddock da Fórmula 1 deu ao piloto brasileiro em Spa-Francorchamps, o caminho da pauta ficou claríssimo: ouvir as pessoas que já trabalharam com ele para entender os motivos disso. O resultado você lê abaixo:

+++

Circuito de Spa-Francorchamps, quinta-feira, 26 de agosto de 2010, 18 horas. O vão central do motorhome da Williams está completamente tomado. Pilotos, chefes de equipe, jornalistas e até mesmo Bernie Ecclestone estão com os olhos grudados nos monitores. Mas as lentes de cinegrafistas e fotógrafos focalizam outro ponto: o rosto de Rubens Barrichello, o homenageado.

As imagens do vídeo que a equipe preparou ao brasileiro vão se desenrolando numa ordem que conta a incrível trajetória de um piloto que chegou à incrível marca de 300 GPs disputados na Fórmula 1. Para se ter uma idéia do tamanho do feito, o brasileiro percorreu 73.495 quilômetros ao longo de 18 temporadas. São duas voltas completas pelo planeta Terra. Com um carro de Fórmula 1!

Os principais personagens que o acompanharam neste percurso estão lá, dando depoimentos contundentes: a família, o preparador de kart Magrão (Jamil Correia), Gary Anderson (Jordan), Jackie Stewart, Ross Brawn, Frank Williams. Quando os filhos aparecem desejando que ele fique muito mais tempo na Fórmula 1, Barrichello se emociona. Depois, usa da brincadeira para combater as lágrimas. “Depois de tantos elogios, porque só colocaram elogios no vídeo e deixaram as críticas de fora, posso correr na Fórmula 1 por mais dez anos. Podemos assinar agora, Frank”, pergunta em tom de brincadeira o piloto.

O chefe da Williams assume o microfone e não economiza nos elogios. “Sobre sua recente disputa com Michael (Schumacher, no GP da Hungria), foi a demonstração mais incrível de determinação e coragem que eu vi pelo menos nos últimos dez anos. E você lidou com a situação de forma brilhante”, ressalta Frank. “Quero te desejar em nome da equipe e todos os seus admiradores no paddock um futuro excelente. E agradecer por tudo o que você fez pela Fórmula 1”, completa o chefe de equipe.

Os outros pilotos saúdam efusivamente o brasileiro. Que recebeu de presente da equipe um pôster-gigante com charges retratando momentos de sua carreira. Além de uma bicicleta elétrica. “Pronta para colocarmos o KERS”, brinca o representante da Cosworth.

Um acontecimento como este, quando todo o paddock da Fórmula 1 faz uma pausa no ritmo massacrante de trabalho de um final de semana de corrida para homenagear um piloto, é muito raro de acontecer. Para o experiente jornalista inglês David Tremayne, do jornal “The Independent”, foi um testemunho da grandeza de Rubens Barrichello. “Quase todo mundo estava lá. Quem não foi é porque ainda estava em reunião. Ou Michael Schumacher. E dava para ver na cara de cada um que eles estavam genuinamente felizes por Rubens”, opina.

A felicidade acontecia também pelo fato do brasileiro ser uma das pessoas mais populares do paddock, com seu jeito aberto e brincalhão. E emotivo também. “Algo que eu sempre gostei de Rubens foi este seu lado muito humano, de trazer sua emoção à flor da pele. Ele chora quando está infeliz ou emocionado, ele sorri quando está feliz. É muito bom conviver com pessoas assim, porque o que você vê é exatamente como elas são de verdade”, diz Tremayne.

Mas “ser gente fina” não é nem de longe o principal segredo da carreira de Barrichello. O próprio piloto atesta isso na conversa que teve com os jornalistas brasileiros em Spa-Francorchamps. “A verdadeira razão técnica e mecânica de um piloto na F-1 é o talento. Ele pode ser o cara mais legal do mundo que não fica. Resumindo: as equipes olham para o que é feito na pista. É um mundo onde todos querem o melhor é o que faz um piloto permanecer na pista por tanto tempo é o talento”.

Barrichello continua sua análise destacando a importância de trabalhar constantemente o lado mental para que atingisse esta marca histórica. “É preciso ter lealdade e sorrir para os problemas. Foi dessa forma que sempre melhorei a cada ano. Não por uma questão física ou técnica, mas mental. É com a cabeça que a gente melhora muito. É lidando com os problemas de forma positiva, vendo que mensagem eles nos trazem ao invés de apenas lamentar e chutar tudo. Isso me fez uma pessoa melhor”.

Quando se fala em problemas na carreira de Barrichello, impossível não remeter aos seus anos na Ferrari. Foi na equipe italiana que o brasileiro conquistou a primeira e a maioria das suas vitórias. Mas foi lá também que viveu os momentos mais tensos e controversos, como o famoso episódio do GP da Áustria de 2002, na qual cedeu a vitória a Michael Schumacher a poucos metros da linha de chegada, a pedido da equipe.

Nos últimos anos, o brasileiro fez algumas críticas públicas à política interna que teve de se submeter na Ferrari. O time vê isso com naturalidade. “Faz parte da vida. Às vezes você discorda de coisas, tem uma opinião diferente. Mas se Rubens olhar para seus anos de Ferrari, ele só pode ter uma visão positiva dela. Às vezes ele podia não estar feliz, mas é impossível ter uma vida perfeita 365 dias por ano”, argumenta o assessor de imprensa do time, Luca Colajanni.

O italiano ressalta ainda a importância de Barrichello no período mais bem-sucedido na longa história ferrarista. “Ele era um elemento-chave do ‘Dream Team’ que tínhamos. Me lembro de temporadas como 2002 ou 2004 em que parecíamos invencíveis. De um ponto de vista pessoal e profissional, sempre foi muito fácil trabalhar com Rubens, que entendia perfeitamente a necessidade do contato com a imprensa e sempre se colocou disponível. Quando uma pessoa deixa a família, não significa que ela se torna uma inimiga. Ela permanece amiga e este é o caso com ele”, acrescenta Colajanni.

O atual comandante da Ferrari, Stefano Domenicali, era uma das pessoas mais próximas do brasileiro na sua passagem pelo time e também foi felicitá-lo pela marca histórica. “É um feito incrível. Estou contente de ter trabalhado e vencido com Rubens por tantos anos. Éramos vizinhos no motorhome, a sala dele era do lado do meu escritório. E dividimos momentos bons e momentos difíceis também. É uma satisfação ver como ele se manteve uma grande pessoa e um grande esportista”, reconhece.

A incrível longevidade de Barrichello gera algumas situações curiosas. “Quando fiz minha primeira corrida de kart, ele já estava na Fórmula 1”, se espanta Lucas di Grassi, da equipe Virgin. “É impressionante a vontade e a capacidade do Rubinho de se adaptar e de evoluir, não só como piloto mas como pessoa também, para conseguir manter o foco na categoria por tanto tempo”.

Outra situação rara está no fato do piloto ter sido o ídolo no esporte de um de seus chefes. O austríaco Toto Wolff conheceu Barrichello quando o brasileiro era um dos nomes de ponta na Fórmula Opel e Wolff andava de Fórmula Ford. “Pedi alguns conselhos para ele e me tornei seu fã. E neste ano nossos caminhos se cruzaram depois que me tornei sócio da Williams. Ele tem uma grande parcela de responsabilidade no fato de termos dado um grande passo à frente neste ano. Seu conhecimento técnico não tem preço”, afirma Wolff.

O engenheiro de corridas de Barrichello, o inglês Tony Ross, segue pelo mesmo caminho. “Rubens chegou num momento em que mudamos o fornecedor de motores, com um regulamente instável e diferenças significativas nos pneus, com os dianteiros ficando mais estreitos. Diante disso, sua experiência com isso é mesmo inestimável. Fizemos muitas mudanças importantes baseado só no que ele nos dizia. É o caso de dizer que, sem Rubens, estaríamos sofrendo muito nessa temporada”.

Quem também ressalta a importância do trabalho feito pelo recordista no desenvolvimento de um equipamento é Mark Gallagher, diretor-geral da Cosworth. “Rubens tinha pilotado um Honda em 2008, um Mercedes em 2009 e um Toyota da Williams num evento promocional no Catar. Então ele tinha a experiência de três motores diferentes em apenas 18 meses antes de começar a trabalhar conosco. Ele nos mostrou o que queria. E ele é duro. Se há um problema, ele nos diz imediatamente, às vezes com palavras firmes, dizendo o que tem de ser mudado. Mas é isso o que você precisa para vencer na F-1. É preciso trabalhar duro e foi isso o que ele fez na sua carreira inteira”, ressalta.

Gallagher vai além e compara Barrichello a Ayrton Senna neste aspecto técnico. “Todo mundo se lembra de como Senna ajudou a Honda a desenvolver um grande motor. Com Rubens acontece o mesmo, por sua vasta experiência. Acredito que ele ainda tem a chance de conseguir um bom pódio até o final do ano. E queremos vencer, assim como a Williams. Não haveria pessoa melhor para alcançar isto do que Rubens”.

Um fato citado por todos os entrevistados pela RACING foi a ultrapassagem que o brasileiro executou em Michael Schumacher na prova da Hungria. Tony Ross conta como viveu a manobra sentado no pitwall. “Não pensei no perigo na hora. Só estava concentrado em que ele passasse Michael e, quando isso aconteceu, achei ótimo. Só depois eu pensei: ‘putz, essa passou perto’. Foi uma reação secundária. Quando vi as fotos depois, ficou claro que realmente tinha pouco espaço ali. Mas na hora eu só pensava: ‘passa ele, passa ele’”.

Olhando em retrospecto, Ross admite que ganhou ainda mais admiração por Barrichello pelo episódio. “A manobra é um tremendo reflexo de como é Rubens. Depois de 300 GPs, ele faz uma manobra agressiva e corajosa como aquela. Não tem muitas pessoas que você pode descrever assim depois de 100 corridas, quanto mais depois de 300. Fiquei impressionado”, admite.

O carinho enorme que recebe em sua nova equipe evoca a questão se Rubens Barrichello finalmente encontrou, na Williams, sua verdadeira casa na Fórmula 1. Para o jornalista Tremayne, é mais uma questão do piloto se dar bem com quase todo mundo com quem já trabalhou. “Ele também teve um bom lar na Jordan por um tempo. Jackie Stewart adorava ele. E todos sabem o que aconteceu na sua vivência na Ferrari de Michael Schumacher. Na Honda/Brawn creio que ele tenha se ambientado bem, mas talvez não tanto no ano passado quando Jenson ganhou tantas corridas”, analisa.

Dentre as inúmeras conquistas da carreira de Rubens Barrichello, falta o título mundial da Fórmula 1. Mas será que esse fato não contribuiu decisivamente para esta impressionante longevidade na categoria? Tremayne: “Possivelmente não ganhar o título o manteve faminto. E acho que se ele tivesse ganho e atingido esse sonho, correr na categoria talvez não fosse mais tão importante. Mas Rubens sempre viu que havia outras conquistas para ganhar, em termos de trabalho, e isto o manteve motivado”.

A pergunta que fica depois desta marca histórica é sobre o alcance do piloto na Fórmula 1. O brasileiro, acertado com a Williams para a próxima temporada, não quer nem pensar no assunto. “Tenho a impressão de que a Silvana, minha esposa, olha pra mim e pensa: ‘Ai meu Deus, ele vai correr ainda por muitos anos’. É uma coisa boa. Tenho mesmo muito gás. É um limite que não gostaria de pensar, como não pensei no 257° grande prêmio, nem no 18°. Sou muito honesto comigo mesmo. Tenho certeza de que no dia em que entrar numa curva sem a mesma velocidade, será muito fácil reconhecer que chegou a hora”. Pelo ritmo que ele tem demonstrado nas pistas, com bons resultados, levantando a Williams e superando um companheiro jovem, talentoso e veloz, esta hora vai mesmo demorar a chegar.

(Foto Williams)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

POR AMOR OU POR DINHEIRO?

A confirmação de Pastor Maldonado na Williams poderia ser perfeitamente justificada pelo fato da equipe ter escolhido o campeão da GP2. Mas ela já havia feito isso no ano passado com Nico Hülkenberg, justamente o piloto que está dando lugar para a entrada do venezuelano. E isso depois de conseguir a primeira pole-position da equipe em cinco temporadas!

Fica claro que o vasto argumento financeiro da petrolífera PVDSA, uma estatal do governo de Hugo Chávez, foi decisivo para a equipe optar pela mudança. A Williams vai perder três patrocinadores no final do ano com o fim de seus respectivos contratos. E, nos dias atuais, não é nada fácil para os times da Fórmula 1 conseguir novos parceiros.

Com esse quadro, a equipe não pode abrir mão do montante estimado em 15 milhões de euros (cerca de R$ 33 milhões) que Maldonado traz consigo. Será um dinheiro fundamental para investir no desenvolvimento do carro. Com Rubens Barrichello do outro lado da garagem, a equipe sabe: terá a melhor base possível para esse trabalho, além de um piloto que alia velocidade e experiência para marcar o maior número possível de pontos que o equipamento permitir.

Já o desempenho de Maldonado é uma incógnita. No papel, o risco que a Williams corre é pequeno. Na GP2, o venezuelano sempre mostrou ser um piloto veloz, mas um pouco afobado. Na F-1, todos sabem que você pode ensinar consistência a um piloto rápido, mas não velocidade a um apenas consistente.

Por outro lado, o desempenho dele nos testes de Abu Dhabi foi decepcionante. No dia em que andou com o carro da Williams, ficou a 1s8 do tempo do inglês Sam Bird, que testou com a Mercedes, de desempenho parecido. Mesmo o mexicano Sergio Perez, que andou pela Sauber, foi um segundo mais veloz. Não se sabe a programação de cada time, mas os indícios são que os três andaram em condições parecidas.

Só poderemos medir com clareza o resultado dessa escolha no ano que vem. Até lá, é lamentar a situação de Nico Hülkenberg. O alemão aposta em seu talento para cavar uma vaga na Force Índia. Se não funcionou na Williams, difícil imaginar que dará certo ali.

Barrichello poderia ficar feliz com a chegada de um companheiro sem experiência, mas seu perfil não é esse. Pelo contrário, o brasileiro fez o possível para a Williams manter Hülkenberg por admirar o trabalho deste e achar que seria o melhor para a equipe. Chegou a falar para Frank Williams que Nico era um futuro campeão mundial. Não adiantou.

Com Barrichello e Maldonado, a Fórmula 1 volta a ter uma dupla formada por pilotos sul-americanos, algo que não acontecia desde o Grande Prêmio da Itália de 2004. Na ocasião, Antonio Pizzonia fazia sua última prova substituindo o convalescente Ralf Schumacher na mesma Williams, correndo ao lado do colombiano Juan Pablo Montoya.

sábado, 20 de novembro de 2010

“ELES ENTRARAM MUITO BEM NA F-1”

Encerrado o segundo dia de testes das equipes de Fórmula 1 em Abu Dhabi com os novos pneus da categoria, o trabalho se concentra nas fábricas daqui em diante. Apenas em fevereiro os motores voltarão a roncar na pista nos testes de pré-temporada e já com os modelos de 2011. Assim, como frisei ontem, o fundamental foi colher o maior número de informações possíveis, um teste no qual o número de voltas completadas vale muito mais do que o melhor tempo em si.

Para ajudar-nos a entender o trabalho, tive uma rápida conversa com Rubens Barrichello por telefone. As impressões positivas que teve, a revelação de um carro da Williams com mudanças radicais para o ano que vem e as férias em ritmo de velocidade, está tudo na conversa abaixo. Aperte o play, escute e comente!


(Foto Williams)

sábado, 6 de novembro de 2010

O SUPER-HOMEM

O apelido óbvio é o de “Incrível Hulk”, mas o que Interlagos testemunhou hoje foi o dia em que Clark Kent rasgou seu terno e revelou a fantasia do Super-Homem. A discussão se ele estava ou não com acerto para a pista molhada (o engenheiro dele jura que não) é inócua para explicar uma vantagem de mais de um segundo para uma Red Bull de um especialista em chuva como Sebastian Vettel.

A verdade é que Nico Hulkenberg fez as voltas mais alucinantes e perfeitas da sua vida. Entrou numa espécie de “Rush”, aquele estado que parece um transe em que você consegue atingir níveis inimagináveis de performance. Comparando as voltas e não os pilotos, foi o mesmo que Ayrton Senna sentiu no treino de Mônaco-88.

Nas condições de asfalto secando, era claro que a última das voltas cronometradas seria a melhor de cada piloto. Todos foram aos boxes a cinco minutos do final do Q3 para colocar um jogo novo de pneus slicks. A chave era aquecê-los rapidamente, algo que o piloto da Williams fez com maestria: três voltas seguidas, com a agressividade na dose certa e sem jamais sair um milímetro do trilho desenhado no asfalto paulistano. Um monólogo shakespeariano declamado sem tropeçar numa vírgula.

Na área reservada às mídias eletrônicas, perguntei a Hulkenberg sobre a metáfora do homem de aço. “Não, não me sinto como o Super-Homem”, riu. “Só me sinto muito bem. É um sonho, conseguimos alto fantástico. É só uma pena que não se ganha pontos pela pole position. Mesmo assim, temos o direito de festejar e saborear o resultado de hoje”, respondeu com olhar sorridente e cara de quem não estava com a ficha caída.

Aos favoritos azuis, restou capitular e reconhecer o inacreditável. Vettel: “Perder a pole por um segundo nunca é legal. Mas estou muito feliz por Nico. Nos conhecemos há muito tempo, tivemos disputas no kart e agora na F-1. Mesmo assim, me mantenho animado com minhas chances amanhã. A corrida é longa”.

A expectativa aponta um primeiro lugar de Hulkenberg se evaporando rapidamente com o clima seco que se anuncia para a prova. Só Mark Webber aponta que, se depender mais da motivação do que do carro, o alemão de Emmerich vai ser um fator na corrida dos candidatos ao título. “Ele vai abaixar a cabeça e pisar fundo com certeza. Está numa ótima posição para conseguir um bom resultado para sua equipe, mas terá muito trabalho pela frente”, avaliou.

Numa temporada de contornos épicos, a Fórmula 1 ganha um super-herói improvável nas páginas finais da saga. E é isso que a torna tão fascinante.

(Foto Williams)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

BARRICHELLO E WILLIAMS

Alguns leitores me questionaram sobre um rumor relativo ao futuro de Rubens Barrichello na Williams - com a possível entrada de Pastor Maldonado na equipe, seria o brasileiro que cederia sua vaga e não o alemão Nico Hülkenberg. Não acredito muito nessa possibilidade.

Já há algum tempo que o brasileiro sinaliza que sua parte com a equipe para o ano que vem estaria acertada. E também é conhecido no paddock o fato do time não ter acertado com Hülkenberg até agora - inclusive, a data-limite para definir se o contrato do alemão seria prolongado ou não foi adiada sucessivas vezes.

Mais do que isso, o papel de Barrichello no desenvolvimento do carro de 2011 o torna imprescindível para a equipe. Não dá para imaginar que, entrando Maldonado no time, a Williams vai mandar embora o piloto que ditou todo o projeto e usar dois garotos inexperientes para tocá-lo em frente. Seria um passo rumo ao abismo e é difícil pensar que eles não saibam disso.

As respostas aqui podem demorar mais um pouco. Me parece que a Williams vai esperar o teste de jovens pilotos de Abu Dhabi para avaliar na prática o potencial de Pastor Maldonado. Se o venezuelano não agradar e o time conseguir mais apoio financeiro até lá, quem sabe a dupla atual não continua no ano que vem? Eu não descartaria essa possibilidade.

(Foto Luis Fernando Ramos)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

OS ENGENHEIROS DOS BRASILEIROS - TONY ROSS

Um leitor do blog me pediu que eu retomasse aquela série de entrevistas com os engenheiros de pista dos pilotos brasileiros da Fórmula 1 - o fez pelos comentários ou pelo twitter e eu acabei me enrolando nessa enorme teia de redes sociais e não achei quem foi, desculpe.

Mas o tema é mesmo muito bacana para trazer para discussão aqui no blog e a pedida foi mais que oportuna. Me lembrei que havia conversado com Tony Ross na Bélgica, por ocasião dos 300 GPs de Rubens Barrichello. Parte do material foi aproveitado naquela semana em rádio, jornal, revista e sites. Mas aproveito para colocar a exclusiva abaixo na íntegra.

Ross tem um perfil típico dos engenheiros da Fórmula 1: um garoto que sonhava trabalhar na indústria aeroespacial mas cujos caminhos o levaram a trabalhar para fazer o oposto: que as máquinas ficassem bem grudadas no chão. Tímido ao microfone (como a maioria dos engenheiros), ele se solta quando demonstra a paixão pela competição. E se diz fã do piloto brasileiro. Confira e comente:

Como está sendo trabalhar com Rubens?
Rubens é muito experiente, é um prazer trabalhar em conjunto. Ele consegue dar um retorno muito acurado de como sente o carro. Para um engenheiro, é sempre muito bom estar com um piloto assim. Claro que só trabalhamos juntos em apenas 13 de suas 300 corridas, mas com certeza sou um grande fã dele.

Ele é do tipo que fala muito no rádio ou fica mais quieto?
Ele é razoavelmente breve, não faz longas descrições. Mas também tem um ponto muito forte em identificar rapidamente o comportamento de cada parte do carro. Na corrida ele não fala muito, apenas a comunicação básica mesmo.

Qual seu papel no desenvolvimento do carro?
Rubens chegou num momento em que mudamos o fornecedor de motores, com um regulamento instável e diferenças significativas nos pneus, com os dianteiros ficando mais estreitos. Diante disso, sua experiência com isso é mesmo inestimável. Ele nos mostrou que caminhos seguir. É o caso de dizer que, sem Rubens, estaríamos sofrendo muito nessa temporada.

Conversei com Jock Clear no ano passado e ele chamou a atenção que Rubens era muito bom para identificar as necessidades de um motor. Confere?
Sim, mas isso não se aplica só aos motores, é o mesmo com a aerodinâmica. Ele é bom em todas as áreas e fizemos muitas mudanças importantes baseado só no que ele dizia.

Tivemos recentemente o episódio da ultrapassagem dele sobre Michael Schumacher na Hungria. Você viveu a cena bem de perto, do pitwall. Como foi?
Não pensei no perigo na hora. Só estava concentrado em que ele passasse Michael então, quando isso aconteceu, achei ótimo. Só depois que eu pensei ‘putz, essa passou perto’. Foi uma reação secundária. Vendo as fotos depois, percebi que realmente tinha pouco espaço ali, mas na hora eu só pensava: ‘passa ele, passa ele’.

Te surpreendeu a firmeza dele na manobra?
Acho que esta manobra é um tremendo reflexo de como é Rubens. Depois de 300 GPs, ele faz uma manobra agressiva e corajosa como aquela. Não tem muitas pessoas que você pode descrever assim depois de 100 corridas, quanto mais depois de 300. Fiquei impressionado.

Para encerrar, perto do final da temporada temos o GP do Brasil. Rubens prometeu atuar de anfitrião?
Acho que sim (risos). Ele falou sobre nos levar para andar de kart, o que seria muito divertido. E espero uma visita a uma churrascaria também.

(Foto Luis Fernando Ramos)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

SINAL DE ALERTA

Minha coluna de hoje no Lance! trata do preocupante fato que o Brasil parou de preparar pilotos para a Fórmula 1. Em cima disso, Bruno Senna e Lucas di Grassi falaram coisas interessantes aos jornalistas presentes em Cingapura sobre as dificuldades de conseguir patrocínio no país. Vale muito a pena ler, ouvir os dois (que falam sobre o assunto ao longo da entrevista) e refletir sobre possíveis soluções:

COLUNA
Acostumados a um grande número de vitórias e títulos em um curto período de tempo na época de Nelson Piquet e Ayrton Senna, o torcedor brasileiro teve de engolir uma seca de seis temporadas sem ver um piloto do país no alto do pódio. E, desde então, mostrou dificuldades em aceitar que o sucesso de Rubens Barrichello e Felipe Massa em um ambiente extremamente competitivo não tenha se traduzido em um título. Pior, se sentiu traído em ver os dois tendo de se dobrar à mentalidade corporativa da Ferrari.


Mas se olhássemos para o futuro, talvez fosse o caso de saborear mais estes triunfos pontuais. Porque há muitos indícios de que não teremos mais nenhum piloto em condições de lutar por vitórias quando o contrato de Felipe Massa com a Ferrari terminar. E as perspectivas atuais de surgir um outro nome para tomar a F-1 de assalto não são nada boas. Não vai tardar o dia em que contaremos para nossos netos que brasileiros eram campeões na categoria. E eles acharão tão exótico quanto imaginarmos uma seleção nacional ganhando o mundial de Curling.


A melhor tradução destes dias difíceis está nas categorias de base. Bruno Junqueira, que hoje corre na F-Truck, foi o último piloto do país a ser campeão no último degrau antes da Fórmula 1. Isso foi em 1999 e, sabemos todos, o mineiro jamais conseguiu dar o passo final e ascender para a categoria. Nelsinho Piquet, Lucas di Grassi e Bruno Senna até conseguiram boas campanhas na GP2, mas não o suficiente para lhes garantir uma condição ideal para estrear na categoria.


É claro que não é o caso de culpar os pilotos. O problema está na absoluta falta de um sistema que dê suporte a novos talentos. A base do monopostos no Brasil praticamente desapareceu, embora a criação da Fórmula Future, uma categoria pós-kart apoiada por Felipe Massa, seja um passo positivo para mudar isso. E a Stock Car, principal foco de atividade profissional de automobilismo no país, virou uma lamentável bagunça na qual os resultados, na maioria das vezes, são definidos no tapetão horas depois da bandeira quadriculada.


Já estamos no limite da hora dos dirigentes acordarem para a realidade que Piquet e Senna foram duas exceções à regra.


+++


O problema no Brasil se agrava porque o esporte entrou num círculo vicioso: os patrocinadores somem porque não há uma administração consistente e os dirigentes ficam de mãos atadas porque os recursos são raros e/ou mal empregados. É por isso que precisa haver um projeto bem pensado para mudar isso, feito por gente séria (fora com os oportunistas) e mesmo com um dos pilotos da F-1 atual como embaixador.


+++


Se a Alemanha terá seis pilotos disputando o GP de Cingapura, isso não se deve a nenhum “efeito Schumacher”, mas ao trabalho sério que é feito em todas as esferas no automobilismo por lá. Alô CBA, tem vôos diários ligando São Paulo a Frankfurt para ir aprender como se faz. Se precisar de um intérprete, é só me chamar que eu trabalho de graça. Também quero ajudar.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

BARRICHELLO, 300 – II

Foi impressionante como a Fórmula 1 em peso reservou um horário na sempre massacrante rotina de um final de semana de corrida para comparecer ao motorhome da Williams na tarde de ontem e reverenciar Rubens Barrichello. Dentro do paddock, o brasileiro goza de imenso respeito e prestígio não só por ser um divertido e amigável colega de trabalho, mas acima de tudo por aliar toda a experiência que sua impressionante marca implica com velocidade e arrojo. Ninguém possui a sensação de estar diante de um veterano decadente que está apenas ocupando o lugar que deveria ser de um jovem talento, como aconteceu com vários de seus contemporâneos.

Mas o que mais me chamou a atenção na bonita homenagem, com direito a charge, bicicleta e um emocionante vídeo, foi olhar para o momento atual do piloto. De como, em pouco mais de dez meses de trabalho em conjunto, ele conseguiu plantar seu nome no coração de uma equipe com tanta tradição e história como a Williams.

O velho Frank era uma das pessoas mais felizes com o evento. Depois de dizer que Rubinho era “tranqüilamente um dos melhores pilotos que passaram em minha equipe”, emendou sua admiração pela recente disputa com Michael Schumacher: “Foi a demonstração mais incrível de determinação e coragem que eu vi pelo menos nos últimos dez anos”. E encerrou agradecendo ao piloto “por tudo o que você fez para a Fórmula 1”. Depois de dezoito temporadas na Fórmula 1, fica a sensação de que o piloto finalmente encontrou a sua casa na categoria.

É interessante ver também outro aspecto desse “Barrichello 300”. As alusões à bandeira brasileira no capacete, carenagem e macacão demonstram como ele valoriza a sua origem – característica comum, aliás, a vasta maioria dos atletas do país em qualquer modalidade. E, depois de uma relação complicada e cheio de conflitos como toda longa relação, a impressão que eu fico é de que ele finalmente está recebendo o respeito e a admiração dos torcedores de seu próprio país. É justamente o melhor presente que ele poderia receber no momento de uma marca tão especial.

(Foto Luis Fernando Ramos)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

BARRICHELLO, 300 – I


Rubens Barrichello já tinha duas temporadas, um acidente forte e 32 corridas de experiência na Fórmula 1 da primeira vez que o entrevistei, no GP do Brasil de 1995. Eram dias difíceis para ele, com uma nação de torcedores traumatizadas pela morte de Ayrton Senna e um jovem talento lidando com dificuldades com toda a pressão inerente a isso. Remexendo nas minhas coisas, achei esta matéria publicada na prova do ano seguinte, em 1996. Um registro interessante de um momento particular de sua carreira na categoria. Hoje, dá para testemunhar que esse equilíbrio emocional foi encontrado a algum tempo e foi fundamental para ele atingir a marca histórica. E dá para sentir, na época, a paixão pela categoria que o empurrou ao longo de todos estes anos. Clique na imagem para ampliar e ler a entrevista.

domingo, 1 de agosto de 2010

POR UM FIO

Horrível. Foi perfeita a palavra usada por Rubens Barrichello para descrever o comportamento de Michael Schumacher no momento da ultrapassagem a três voltas do final do Grande Prêmio da Hungria. O brasileiro tinha um carro muito mais veloz já que estava com um jogo de pneus praticamente novo. E se aproveitou de um erro do alemão na última curva para ganhar velocidade na reta. Barrichello colocou a Williams de lado, mas foi espremido pelo adversário em direção ao muro. Faltou muito pouco para que ocorresse um grave acidente. Pela velocidade que estavam, tinha tudo para ser uma tragédia.

“Eu quase não tenho o que falar. A gente não brinca mais de kart, não dá para fazer uma fechada assim. Prometi aos brasileiros: ele não vai me passar de novo. Ele não merece. Tenho pena da situação. Estamos aqui para tentar tudo, mas eu não ia tirar o pé hoje”, falou Barrichello, visivelmente abalado, logo após a prova.


Do outro lado do mesmo espaço reservado às mídias eletrônicas, Michael Schumacher usava de ironia para comentar o episódio. “ Eu deixei espaço, tanto que ele me passou, infelizmente. Mas conheço Rubens e não me surpreende seu pedido para me desclassificar. Ele sempre tem opiniões bem divergentes das minhas”.


Este último ponto talvez seja o único que o brasileiro concorda, tanto que nem cogita chamar o alemão para conversar: “Não adianta tentar dialogar com um cidadão que acha que sempre tem razão. Se isso acontecesse com um piloto novato, era uma coisa. Mas é um heptacampeão dando um mau exemplo para os pilotos das categorias de base”, falou Barrichello.


Os comissários da FIA concordaram, tanto que puniram o alemão com a perda de dez posições no grid de largada da próxima etapa por “impedir de forma ilegítima a ultrapassagem de um concorrente”. No release oficial da Mercedes, Schumacher aliviou o discurso. “Foi uma briga ferrenha e é para isso que estamos aqui. Mas aceito que os comissários tenham dito que foi duro demais”, resignou-se.


Eu concordo completamente que Schumacher tenha sido penalizado e acho até que a sentença foi branda. Uma defesa de posição dura contra o muro de uma reta não é novidade na Fórmula 1: Senna/Prost em Portugal-88, Schumi/Ralf em Nürburgring-2001, Webber/Massa em Fuji-2008. Acho todas perigosas e suscetíveis de punição (que não aconteceram). Mas a de hoje foi ainda mais extrema e Barrichello tem toda a razão que teve muita sorte no fato do muro ter acabado na hora certa. Sua frase para uma tevê inglesa foi sensacional: “Se Michael já quer ir para o paraíso – no caso dele ir para o paraíso – eu não me importo. Mas não quero ir antes dele”.


A polêmica entre os dois “inimigos íntimos” foi o ponto alto de uma corrida que foi até bem movimentada para os padrões do GP da Hungria. Principalmente pelo Safety Car surgido na 15ª volta por conta de um pedaço da asa dianteira do carro de Vitantonio Liuzzi que ficou no meio da pista.


Foi quando Mark Webber arriscou ao optar por fazer sua parada nos boxes o mais tarde possível. E recebeu os dividindos disso quando abriu uma margem suficiente para se manter na frente. A vitória o colocou na liderança do Mundial. Um líder improvável de um Mundial cada vez mais emocionante, com os cinco primeiros da tabela separados por apenas vinte pontos.


A prova teve ainda outros assuntos: a confusão nos boxes, o drive-through para Sebastian Vettel, a superioridade incrível dos carros da Red Bull em Hungaroring. Deixe seus comentários e opiniões para a próxima edição do “Credencial”!

(Foto xpb.cc)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

BALANÇO DE MEIA TEMPORADA II

WILLIAMS
O sonho de voltar à briga pelas primeiras posições não deu certo no início do ano para a Williams. A verdade é que a tradicional equipe vive um ano de transição, com a chegada de investidores e mudanças no comando. Com um nome de tradição, uma boa estrutura e um piloto experiente para ajudar no desenvolvimento do caso, a base para crescer está aí. Mas eventuais resultados melhores só aconteceriam no ano que vem. Por enquanto, brigar por pontos é a realidade.


Rubens Barrichello
encontrou na Williams um ambiente que combina com seu espírito apaixonado pelas corridas. As reuniões técnicas parecem um concílio ecumênico e, com o passar das corridas, o brasileiro conseguiu colocar suas idéias e apontar caminhos. Os resultados disso já se refletem na pista e Barrichello permanece com a energia – e sobra em velocidade – para ficar ainda mais tempo na Fórmula 1.

Nico Hülkenberg
chegou na Fórmula 1 exalando uma autoconfiança fora do comum, que soava quase como uma arrogância. Hoje em dia, anda mais quietinho. Seu início de temporada foi marcado por erros, algo que faz parte do aprendizado de cada novato. Mas a evolução está sendo mais lenta que o esperado. Muitos no paddock apostavam que o campeão da GP2 iria rapidamente atingir e manter o ritmo de seu experiente companheiro, mas Hûlkenberg ainda parece muito longe de conseguir isso.

SAUBER

Apareceu na pré-temporada como candidata a ser a surpresa da temporada, mas decepcionou demais no início do ano – em boa parte por problemas de confiabilidade do motor Ferrari, que não seriam de responsabilidade do time suíço. Aos poucos, o potencial do C29 começou a aparecer, especialmente em pistas de alta velocidade. É um time em ascendência, mas que pode voltar a cair pela falta de recursos.


Pedro de la Rosa
foi uma das decepções da temporada até aqui. A aposta que Peter Sauber fez no experiente e elogiado piloto de testes da McLaren não rendeu até agora e ele chega ao meio do ano sem marcar pontos. Não é um piloto lento, superou o companheiro em vários treinos classificatórios. Mas o ritmo de corrida do veterano espanhol deixa a desejar. Aposto que sai do time no final do ano.

Kamui Kobayashi
continua plantado firme nos corações dos amantes do automobilismo arrojado. Sua performance em Valência, uma pista onde o carro estava mal, é uma das melhores do ano até aqui. Menos pelas duas brilhantes ultrapassagens nas voltas finais, mais pelo ritmo de corrida infernal que empregou quando estava entre os primeiros. Diria que é o oposto de Sakon Yamamoto: sem dinheiro, mas com qualidade de sobra para permanecer na Fórmula 1 por um bom tempo.

TORO ROSSO

A equipe de Faenza ficou de certa forma órfã da poderosa Red Bull depois que a FIA exigiu que cada time fabricasse seu próprio chassi. Ainda assim o STR5 não é um carro ruim, feito com muita inspiração no RB5 utilizado por Vettel e Webber no ano passado. O que tem atrapalhado o time é realmente a falta de recursos para desenvolver o projeto, o que tem a relegado às últimas
posições do pelotão intermediário.


Sébastien Buemi
começou o ano sem repetir as boas atuações da temporada anterior, na qual foi claramente superior aos companheiros de equipe que teve – Sébastien Bourdais e Jaime Alguersuari. Chegou a receber algumas críticas do conselheiro da Red Bull Helmut Marko, que funcionaram: o suíço apresenta agora uma curva ascendente e fez boas apresentações recentes, especialmente no Canadá

Jaime Alguersuari
, ao contrário de Buemi, começou o ano muito bem, com boas corridas e brilhando em algumas disputas com Michael Schumacher (que tem idade para ser o pai dele). Mas a temporada chegou na metade e o espanhol ainda não conseguiu solucionar seu ponto fraco que é o desempenho nos treinos de classificação. Largando atrás e com um pelotão do meio mais competitivo, sua estrela deu uma apagada.

(Foto Luis Fernando Ramos)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

POSTAIS VALENCIANOS

A Jabulani correu solta hoje no amplo paddock de Valência, com o clima de Copa finalmente infectando o ambiente, muito mais que no Canadá. Mas a quinta-feira numa das pistas mais bonitas do calendário - ainda que só proporcionou corridas um pouco chatas nas edições anteriores - teve muito mais cenas e detalhes para fazer a alegria das lentes de máquinas fotográficas. Confira!
A carenagem desmontada do carro de Buemi criou um touro no estilo de Pablo Picasso, condizente com a terra do GP da Europa.

"Leve-me ao seu líder!"

Quinta-feira é dia de marcar os jogos de pneus, que serão fundamentais no resultado do final de semana.

O vencedor de 2009, atendendo a imprensa inglesa.

Lembrança do jubileu no box da Lotus.

O vencedor de 2008, atendendo a imprensa italiana no intervalo do fatídico jogo da Azzurra.

Minha nova aquisição. Fiz um escambo com Vijay Mallya por um dois dormitórios em Pirituba, em frente ao estádio onde a Índia vai enfrentar o Brasil na abertura do Mundial de 2014.

Nick Heidfeld, estilo Street Soccer

"Estamos salvos, o Pirlo vai entrar", garantiu o jornalista italiano a seu colega.

Alonso num tête-à-tête com a Jabulani.

Detalhe da sandália de Jarno Trulli, que foi assistir ao jogo no motorhome da Ferrari. Será que o calçado voou para o meio das águas do porto ao final de partida, em sinal de frustração?

A porosidade do asfalto na paisagem valenciana. Clique nas imagens para ampliar!

(Fotos Luis Fernando Ramos)

terça-feira, 18 de maio de 2010

VOLANTE E CONTROLE-REMOTO

Muita gente questionou se Rubens Barrichello seria punido pelo incidente do volante jogado na pista. Afinal, o item 30.5 do regulamento da FIA é claro nesse ponto, o volante deve ser colocado de volta no lugar depois do piloto ter saído do carro.

30.5 A driver who abandons a car must leave it in neutral or with the clutch disengaged, with the KERS shut down and with the steering wheel in place.

Não foi o que aconteceu na Williams do brasileiro, já que o volante foi coletado pela Hispânia de Karun Chandok e se desprendeu do carro do indiano apenas na saída do túnel. O ato de desespero de Barrichello é fácilmente compreensível para quem tem um mínimo de razão: depois de duas pancadas fortes (a primeira, mais), o piloto se viu com o carro avariado e de frente para o tráfego no meio de uma curva cega. O cérebro comandou uma descarga de adrenalina gritando “saia dali” e ele reagiu prontamente. Exigir compostura numa situação dessas – ou ainda achar que o fez para prejudicar os outros (???) é algo fora de propósito.

Curiosamente, quem o livrou de uma conversa com os comissários para explicar sua visão sobre o incidente foi justamente Michael Schumacher. Com a manobra polêmica do alemão na última volta, eles ficaram com uma batata-quente nas mãos e simplesmente se esqueceram de chamar Barrichello para um depoimento, algo que pretendiam fazer. Quando se deram conta, era tarde demais: a noite caíra e o piloto – e quase todo mundo que trabalhou na corrida – já tinha ido embora faz tempo. Foi o que disse um dos comissários, Paul Gutjahr, segundo nos relatou o colega suíço Roger Benoit. O caso está encerrado.

A questão que fica é se o brasileiro receberia uma punição. Difícil avaliar, mas um outro evento do final de semana sinaliza que ele receberia, no máximo, uma advertência. Isso porque na classificação no sábado, Jenson Button não pensou duas vezes quando se deu conta que o controle remoto do seu monitor tinha ficado dentro do cockpit quando ele foi para a pista. O inglês simplesmente jogou a peça para fora do carro na Rascasse. Sorte que um fiscal atento viu a cena e guardou o objeto. O ato não teve nenhum tipo de conseqüência. É certo que o objeto arremessado por Barrichello era maior, mas sua justificativa também era.

(Foto Luis Fernando Ramos)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

UM GRANDE CIRCUITO

Num dos treinos livres de hoje resolvi atravessar um escondido túnel subterrâneo que liga a área do paddock às arquibancadas principais do circuito de Sepang – aquelas cuja arquitetura dá a marca registrada do circuito. Por mais que nós, telespectadores, tenhamos mil ressalvas ao trabalho do senhor Tilke na Fórmula 1, é preciso dar vivas ao alemão aqui. O espaço reservado aos torcedores que vão à pista é extremamente funcional e dá a garantia de uma visão excepcional para vários pontos do circuito . algo no nível de Interlagos pré-hospitality centers. Não é à toa que é o ponto preferido para a ação dos fotógrafos profissionais – e também o de muitos amadores como eu. Hoje me juntei a uma centena que se divertia com suas lentes por lá. Confira abaixo um pouco do resultado obtido. Clique na imagem para ampliar!

(Fotos Luis Fernando Ramos)

domingo, 21 de março de 2010

AYRTON SENNA, 50

Não conheci Ayrton Senna pessoalmente. A primeira corrida que eu cobri na Fórmula 1 foi justamente o primeiro GP do Brasil depois da sua morte. Mas até hoje me impressiona como ele sempre esteve presente de alguma forma na categoria durante todo esse período, um tema recorrente na memória de todos, um parâmetro de compromisso total com o trabalho. Tive a chance de conversar com várias pessoas que conviveram com o piloto brasileiro para saber o que vem na mente quando pensam nele hoje. O resultado foi um mosaico interessante que nos ajuda a entender o tamanho do legado que ele deixou na categoria.

O
RIVAL
- É uma
pergunta muito difícil. São tantas coisas que vêm à cabeça. Pensando hoje, é claro que seria muito bom tê-lo aqui, nessa festa especial dos 60 anos da F-1. O que une todos os que estão aqui? Todos nós tivemos sucesso, porque fomos campeões, e temos amigos que se machucaram ou morreram. Quando olhamos nos olhos uns dos outros, pensamos como é bom estar aqui para lembrar de tudo o que aconteceu. Hoje, penso no Ayrton dessa forma, ele é parte do esporte e parte destes pilotos que tiveram azar neste esporte.
(Alain Prost, 55 anos, francês, enfrentou Ayrton Senna nas pistas em nove temporadas entre 1984 e 93, divindo com ele a equipe McLaren em 1988 e 89)

O AMIGO

- Quando
penso no Ayrton hoje? Penso no melhor piloto de todos os tempos. Acho que isso diz tudo.
(Gerhard Berger, 50
anos, austríaco, foi companheiro de Senna na McLaren de 1990 a 92 e um dos maiores amigos do brasileiro na F-1)

O
COMPANHEIRO DE EQUIPE
- Ayrton
era um indivíduo único. Tinha um comprometimento enorme com a competição e a pilotagem. Era por si um homem especial. Quando eu penso nele, penso na sua perda, no sentido da tragédia de não tê-lo visto continuar. E também no seu legado, no seu enorme espírito, não o da competição, mas o de assuntos além da Fórmula 1.
(Damon Hill, 49
anos, inglês, companheiro de equipe de Senna nas três provas que o brasileiro disputou no Mundial de 1994 pela Williams)

O
PUPILO
- O Ayrton
era uma pessoa jovem, eu não consigo imaginar o Ayrton como seria hoje, se estaria careca... Eu vejo de um lado pessoal, sempre lembro dele sorrindo e é essa imagem que permanece para mim. Provavelmente ele não estaria pilotando mais, mas com certeza teria conseguido mais títulos para o Brasil.
(Rubens Barrichello, 37
anos, brasileiro, conquistou seu primeiro pódio na F-1 uma corrida antes do GP de San Marino de 1994 e está na categoria até hoje)

O
SOBRINHO
-
Eu penso nele como meu tio. Mas é claro também que o vejo como uma inspiração e uma referência. Sempre me inspirei nele desde pequeno e aprendi muito com a maneira que ele tinha de encarar o automobilismo. Mas não tive que mudar o jeito que eu sou para isso, a família tem muito dessa natureza e acho que isto está funcionando bem para mim.
(Bruno Senna, 26
anos, brasileiro, começou no kart por influência e com o suporte do tio Ayrton Senna. Fez sua estréia na F-1 no último final de semana)

O FISIOTERAPEUTA

-
Ainda me sinto muito ligado à família Senna. Ainda que não nos encontremos muito, mas isso não importa. Gostaria de voltar a encontrar Dona Neide, Milton. É algo difícil de explicar, mas você pode imaginar. Foi um período tão positivo que passei com ele, com aquele caráter, isso foi uma parte muito importante da minha vida. Sobre o que vem à cabeça quando penso no Ayrton... É uma energia muito grande, não há uma única característica que se possa destacar nele. Há um todo. Ele não pilotava para si ou pelo dinheiro, mas queria vencer para o país, dar alegrias para as pessoas do país. Era uma paixão muito profunda nele, que não era de maneira nenhuma fingida. Era verdadeira e os torcedores sentiam isto. Acho que cada brasileiro conseguia sentir isso e se identificar com uma pessoa que era especial, mas era um igual a eles, não importando se era um jovem ou um velho, um rico ou um pobre. Era algo especial. Estou há tanto tempo na categoria, vivi tanta coisa mas, quanto mais os anos passam mais eu percebo como ele era uma personalidade especial e eu até sinto uma ponta de orgulho por ter participado um pouco dessa história.
(Joseph Leberer, 52
anos, austríaco, foi o fisioterapeuta de Ayrton Senna de 1988 a 1994 e era a pessoa no paddock da F-1 em quem o brasileiro mais tinha confiança)

O
MECÂNICO
- A
primeira coisa que eu penso é que é uma pena não tê-lo mais com a gente, especialmente agora que temos a volta de Schumacher, um piloto que quebrou tantos recordes e estabeleceu marcas que nunca serão superadas. Acho que todos estes recordes não teriam acontecido se Ayrton ainda estivesse correndo. Schumacher teve um pouco mais de facilidade porque em sua época não havia rivais tão fortes como na época do Ayrton - não porque ele quis assim, mas porque as coisas aconteceram dessa maneira. Nos tempos de Senna havia pilotos de muita qualidade, como Prost, Mansell e Piquet, em carros bons também. Mas, antes de tudo, todos perdemos essas disputas incríveis que aconteceriam entre Senna e Schumacher. Sim, é uma pena. O que Ayrton faria agora? Não sei, seria um chefe do esporte no Brasil... Estaria de alguma forma ajudando ao Brasil, era muito patriota, tinha muito orgulho de seu país e, como todos sabemos, vocês brasileiros perderam muito com a morte dele. Ele se foi jovem demais.
(Jo Ramirez, 68
anos, mexicano, era coordenador da equipe McLaren na passagem de Ayrton Senna pela equipe e um de seus grandes amigos na categoria)