Hoje, como sempre a 7 de Dezembro, é dia de inauguração da nova temporada do Teatro alla Scala e a ópera escolhida para o efeito foi "La Traviata", nem menos. Diana Damrau e Piotr Beczala serão Violetta e Alfredo. Mara Zampieri também lá estará, como Annina. O maestro será Daniele Gatti e a encenação é de Dmitri Tcherniakov. Comemora-se ainda o bicentenário de Verdi e celebra-se Santo Ambrósio. Que ele nos valha.
A transmissão, em diferido, começa pelas 19h49!
(Adenda: Fica disponível, para quem não viu, durante vinte e oito dias.)
Mais logo, pelas 20h30, Natalie Dessay estará no Théâtre de l'Archevêché, em Aix-en-Provence, como Violetta Valéry. "La Traviata" será transmitida em directo pelo canal ARTE e também pelo ARTE live WEB. Não podendo estar lá, é o que se arranja.
Cristina de Castro com Maria Callas (Traviata de Lisboa)
(Imagem de Opera per Tutti)
Jorge Rodrigues recorda a cantora e professora Cristina de Castro, que faleceu na passada terça-feira, 12 de Outubro.
A Cristina morreu!
Perdoe-se-me este desabafo despropositadamente familiar, mas não há volta a dar. Quando soube da morte dela, revoadas de memórias me assaltaram, a maior parte delas situadas na sala de sua casa em Campo de Ourique, onde tive, dadas por ela, as primeiríssimas aulas de canto. Eu tinha-lhe sido recomendado por um amigo então comum, e teria uns 18 anos. Curiosamente, descobri logo nos nossos primeiros contactos a coincidência de ambos fazermos anos a 7 de Janeiro, com a exacta diferença de 30 anos. A partir daí deglutimos em comum alguns jantares de aniversário.
Foi nessa sala que me comecei a embrenhar em assuntos – muito – sérios: saber estar num palco e o que significa exprimirmo-nos em cima dele com a voz; saber que o que interessa verdadeiramente nesta profissão é o público, e absolutamente mais ninguém, pois nenhum crítico há que consiga roubar um milionésimo que seja à felicidade que constitui um triunfo de público; saber que se deve ter um respeito absoluto pelos grandes expoentes da profissão; e, acima de tudo, saber que o nosso duca, signore e maestro é sempre o compositor.
Ela era também uma Professora fora de série no que concerne à sua absoluta entrega aos alunos. A todos os níveis, científico e pessoal. As minhas aulas, às terças e sextas, acabavam quase invariavelmente num restaurante quase em frente à sua casa, onde almoçávamos. Aí comi dezenas de alheiras com ovo estrelado, muitas delas pagas por ela, que, para além de nunca me ter aceitado um tostão por qualquer aula (agora posso dizê-lo, Cristina), ainda me pagava o almoço. Assinado: Maria Cristina de Castro.
Eu por essas alturas tinha tempo. Não sei o que foi sucedendo à minha vida, mas nos anos de juventude fartava-me de fazer coisas e tinha tempo para tudo, hoje não tenho tempo para nada! E com o tempo que então tinha, ficava muitas vezes a assistir a aulas de outros alunos. Gostava muito quando por lá aparecia o José Fardilha – o Zé – que me deixava esmagado pela potência, extensão e beleza da voz. Eu, que me esfalfava todo para dar um ré, um mi, ficava siderado com os lás bemóis, dados, assim, facilmente, ao meu lado. Eu estava a descobrir este mundo.
Cena típica:
- Ó Zé, foi lindo esse sol!
- Não foi nada, Cristina, foi uma porcaria, estava forçado!
Olhavam para mim. Para mim, o chavalo!, como se eu pudesse ser juiz naquelas, para mim altíssimas, contendas! Recordo que ficava sempre para morrer, sem saber que dizer – mas, obviamente, dizia:
- Eu achei fantástico!
Bem, o Zé parecia aceitar.
- Ó Zé, vês? Eu se te digo que está bem, é porque está! Tens de confiar em mim. Vá lá, vamos descer agora e depois fazemos outro vocalizo.
Recordo o Átila, um cão medonho, que gostava de morder em alguns alunos e que por vezes até na dona o fazia. Assim que ouvia tocar à porta punha-se do lado de dentro a rosnar ferozmente, mostrando uns dentes que lhe saíam dos beiços, dois de um lado e um do outro. Recordo cenas inacreditáveis, como a Cristina a ir buscar pedaços de carne ao frigorífico para com eles fazer um carreiro que levava à cozinha. O Átila atirava-se à carne, cujo último pedaço era lançado para o ponto da cozinha mais afastado da porta. Assim que ele voava para a carne, a Cristina fechava a porta aceleradamente. Ficava a casa em paz, podia prosseguir-se com a aula! Curiosamente, o Átila gostava de mim, e quando eu estava a assistir a aulas de outros alunos, sentado, num sofá que ficava do lado direito da Cristina, ele tinha por vezes – se o aluno lhe agradava – permissão de entrar. Colocava então a cabeça entre as minhas duas apavoradas pernas, olhando para mim com uma doçura irreal.
Recordo as pesquisas a gavetas e recantos, pejados de memórias líricas. A Cristina, sabendo reconhecer (ela tirava radiografias mentais às pessoas) a minha paixão, ia por vezes comigo visitar os programas, as fotos, as dedicatórias que ela tinha pela casa. Agarradas a estes objectos, milhares de memórias de astros com que cantou – Simionatos, Ghiaurovs, Corellis, Krausses, etc., etc. Eteceteras que significavam uma gloriosa galeria de cantores, alguns dos maiores da segunda metade do século XX. Eu deslumbrava-me com essas recordações!
Recordo que a Cristina manejou o canto com grandes seres – com Bechi, por exemplo – e esteve, nos inícios da carreira, ao lado de monstros sagrados. Quem teve a sorte de poder estar presente no camarim de Gwyneth Jones depois de esta ter cantado em concerto em São Carlos, nos anos 80, poderia vê-la em amena cavaqueira com a Cristina. Porque ambas disputaram em Inglaterra, em inícios de carreira, um Concurso de Canto. Gwyneth Jones ganhou o primeiro prémio, mas a Cristina ficou em segundo. E recordavam-no ali.
Será bom não esquecer a realidade portuguesa dos anos 50 e 60. Em São Carlos, salvas raras excepções, que começaram a ser mais numerosas e efectivas nos Anos 60 e nos Anos 70 antes do 25 de Abril, era vedado aos cantores portugueses o manejo dos grandes papéis operáticos. A Cristina, que teve os primeiros anos de carreira nos Anos 50, ainda apanhou o teatro querendo ouvir só vedetas. O São Carlos nos Anos 50, falo da temporada oficial, era um bastião estrangeiro, com director português. Mas os melhores cantores portugueses cantavam papéis mais secundários ao lado dos grandes craques. E a Cristina cantou com todos eles, em centenas de récitas de que tive ecos através dela.
Foi assim que a Cristina cantou ao lado de Maria Callas, em Março de 1958, fazendo a Annina. Nunca será demais magnificar a adoração que ela tinha por Callas. Falava dela sempre esmagada, com uma admiração sem nenhum, repito, nenhum limite. Adorou-a, ainda por cima, como ser humano. Um facto muito engraçado: ela não admitia nenhuma crítica à voz e à arte de Callas. Quando começavam, tipo Ricardo Araújo Pereira, naquela coisa de: Ai, mas a desigualdade; ai, mas o timbre, e coisa e tal… a Cristina cortava cerce. Repetia que a Callas era a maior, que não tinha defeitos, e desinteressava-se da conversa, numa espécie de voltar costas mental. Eu adorava isso.
Se eu já adorava Callas, o que também me uniu à Cristina nos primeiros tempos, fiquei a conhecer outras facetas da grande cantora em testemunho vivo. Um testemunho da minha professora!
Depois, os estudos com a Cristina acabaram, são coisas da vida, mas ela continuou, no Conservatório e, depois de se reformar, em casa, a receber alunos que vinham do ensino (pois as gargantas dos professores sofrem muito), do teatro, do canto, obviamente, sei lá eu de onde eles vinham. Foram centenas! Ela, também, nunca recusava ajudar, e tinha com a juventude um contacto facílimo. Quase toda a gente neste país passou pelo seu ensino, num momento ou outro, com mais ou menos frequência.
Isto porque a Cristina era verdadeiramente uma artista, e estes têm um coração e um cérebro sempre jovens. Há neles uma loucura, um modo algo descentrado da vida dos normais humanos que apaixona e brilha. Recordo, por exemplo, que uma vez ela foi jantar a minha casa em Benfica. Foi de carro, sozinha, e ao sair eu dei-lhe indicações de como chegar a casa. No outro dia apanhámos uma barrigada de riso: saída das portas de Benfica para ir para Campolide, deu por ela em Carcavelos, sem saber como lá tinha ido parar.
Conto todas estas cenas, porque foram as que me irromperam, assim de repente. E poderia ficar aqui a escrever páginas e páginas de memórias, muito mais concretas e numerosas. É a quantidade imensa de memórias que me faz sentir o quanto gosto de alguém.
E da Cristina eu sempre gostei muito, muito.
Ai, os gostares! - como escreveu Guimarães Rosa.
E como ela gostava também muito das pessoas de quem gostava, creio que escolheu a data em que morreu. Por amizade.
Eu explico: a grande adoração da Cristina era Callas. Tenho para mim que, quando soube da morte de Sutherland, a Cristina resolveu morrer, para que não se falasse tanto da australiana. É que esta, em Portugal, também cantou uma única vez e, tal como Callas, a ópera La Traviata de Verdi. E, não apenas pelo supremo brilhantismo com que o fez, mas também pelas circunstâncias históricas em que decorreu a última récita – na noite de 24 de Abril de 1974 – será talvez a única cantora que poderá fazer empalidecer um pouco a magnitude da Traviata de 58. E a Cristina não esteve para isso. Morreu. Pelo menos sabia que em Portugal, no seu Portugal, a notícia da sua morte ia desviar as atenções da – lamentável – morte de Sutherland.
Estou a imaginar o Céu, por esta altura. A Callas, sentada, vendo aparecer a Cristina:
Era o ano de 1988 e Novembro corria frio e molhado em Barcelona. Comprámos o Guía del Ocio para nos inteirarmos do que se passava na cidade e ficámos a saber que Joan Sutherland e Alfredo Kraus cantavam "Lucia di Lammermoor" nessa noite. Ora... e bilhetes? pensámos, desanimados. Dirigimo-nos à Praça da Catalunha e começámos a descer as Ramblas até nos depararmos com o Gran Teatre del Liceu.
Por desfastio, embora descrentes, perguntámos na bilheteira se ainda haveria dois bilhetinhos para mais logo. Para nosso grande espanto e felicidade, havia, sim, poucos e com visibilidade reduzida.
No velhinho Liceu, antes do incêndio, havia duas entradas: a boa, na Rambla dels Caputxins, e a dos pobrezinhos, no Carrer de Sant Pau. Subimos as escadas até ao topo e tomámos os nossos lugares. Quase podíamos tocar no tecto. Do cenário víamos pouco mas isso não importava. Se nos empoleirássemos ligeiramente, por vezes até conseguíamos ver a Lucia e o Edgardo. E quando eles cantavam, apesar de já terem ambos passado o apogeu havia muito, o teatro inteiro vibrava. A Cena da Loucura de Lucia deixou o público em delírio. No final de uma récita inesquecível, o Liceu inteiro saiu à Rambla em euforia. Dois anos mais tarde, Joan Sutherland retirou-se dos palcos. Ontem, retirou-se da vida.
Como Lucia, em Covent Garden (1959)
(Imagens daqui)
A Cena da Loucura, como Joan Sutherland a cantou em Barcelona em 1988:
A Teresa é uma das maiores fãs de Dame Joan Sutherland que conheço. Leia aqui as suas entradas sobre La Stupenda, nomeadamente a que fala da sua experiência em Lisboa, quando cá cantou "La Traviata", em Abril de 74.
ADENDA: A Antena 2 tem disponível online o Império dos Sentidos de hoje. Paulo Alves Guerra e João Pereira Bastos falam de Joan Sutherland e deixam-nos ouvir excertos das suas gravações e de uma interessante entrevista concedida por Dame Joan ao próprio João Pereira Bastos, com perguntas fornecidas por Jorge Rodrigues para o programa "Vozes de São Carlos", de que era autor.
Born in Munich, July 10, 1969, tenor Jonas Kaufmann has made sensational debuts in recent seasons in many of the world's leading opera houses... Temos tenor.
Em 1817, mais coisa menos coisa, Caspar David Friedrich pintou uma das obras mais representativas do romantismo alemão: "Der Wanderer über dem Nebelmeer" (O viajante sobre o mar de névoa, actualmente na Kunsthalle de Hamburgo).
Esta obra serviu de base à capa do novo disco de Jonas Kaufmann, "Sehnsucht" (Saudade), a sair antes do fim de Maio. Como o título indica, trata-se de um disco com gravações de árias alemãs, de compositores do período romântico e pré-romântico, a saber: Mozart, Beethoven, Schubert e Wagner, com Claudio Abbado e a Mahler Chamber Orchestra.
Veja-se ainda este excerto de "La Traviata", que Kaufmann cantou em Paris com Christine Schäfer, visite-se o seu MySpace e ouça-se In fernem Land, de "Lohengrin".
E se for tudo falso? O blogue de Nina Foresti denuncia diversas falsificações na discografia de Maria Callas, de factos da sua vida privada e da sua carreira artística e, também, de objectos que circulam em exposições que lhe são dedicadas, nomeadamente trajes e jóias de cena. Descubra as diferenças, comparando as fotos dos vestidos originais da "Traviata de Lisboa" e da "Tosca de Zeffirelli" com as dos que estão agora expostos no Museu da Electricidade.
A Central Tejo (Museu da Electricidade) vai mostrar a exposição dedicada ao cinquentenário da Traviata de Lisboa, a partir de 12 de Julho e até 19 de Outubro de 2008.
Callas no camarim do Teatro de São Carlos, em 1958
A preparação desta mostra tinha sido abordada aqui mas, agora, já se conhecem alguns detalhes relativamente às peças que vamos poder ver ao vivo e a cores. Além dos vestidos de noite e das jóias de uso pessoal, destacam-se os trajes de cena*, como o da "Tosca" encenada por Franco Zeffirelli em Covent Garden, em 1964. Felizmente, o II acto foi filmado e é fundamental, pela intensidade dramática, por ter tanto teatro quando Floria Tosca planta o punhal no coração de Scarpia e profere "Questo è il bacio di Tosca". Pois é, o vestido que Callas usava naquele momento é este*:
*Era, de facto, mais ou menos como este. O site de Nina Foresti apresenta fotos de diversos trajes de cena usados por Callas e das suas cópias.
Ainda segundo o site oficial da exposição, poderemos também admirar os adereços de cena do filme "Medea", de Pasolini, um colar da "Aida" do México (Mi bemol), de 1950, e a coroa desenhada por Christian Dior para a "Norma" da Ópera de Paris, em 1965.
Já aqui se falou da Traviata de Lisboa e hoje é dia de voltar a falar dela. Aconteceu há exactamente cinquenta anos, no Teatro de São Carlos. No dia 27 de Março de 1958 alguém teve a feliz ideia de gravar o som da récita de Maria Callas e Alfredo Kraus, que veio a ser uma das grandes referências para esta ópera. Infelizmente não se chegou a filmar a récita completa e o que existe, que eu saiba, são apenas estes excertos. É o que há.
Está a ser preparada uma exposição que vai assinalar a vinda de Callas a Lisboa, a inaugurar em finais de Junho na Central Tejo (Museu da Electricidade). Os cenários da Traviata de São Carlos estarão presentes na exposição, assim como fotografias e peças que ainda serão seleccionadas na Associazione Culturale Maria Callas, em Veneza. Do espólio constam vestidos, jóias e documentos.
Callas como Violetta no Teatro alla Scala, Milão, 1955
Há trinta anos, no dia 16 de Setembro de 1977, Maria Callas foi encontrada sem vida, no seu apartamento da Avenue Georges Mandel, em Paris (faria 54 anos em Dezembro desse ano).
Ainda muito nova, com 25 anos, já tinha cantado dois dos papéis mais difíceis de Wagner: Isolde e Brünnhilde (em Italiano). Mas logo se dedicou ao repertório dos compositores italianos, fazendo de Norma, Lucia di Lammermoor, Tosca e Violetta (La Traviata) as grandes personagens da sua vida. Foi precisamente neste último papel que se apresentou em Lisboa, em Março de 1958. Ao seu lado estava um tenor ainda desconhecido, Alfredo Kraus. A gravação de uma das récitas de São Carlos tornou-se célebre e é uma referência fundamental. Nos anos '80, Terrence McNally escreveu a peça The Lisbon Traviata, em que explora a obsessão por Callas e por esta gravação. A peça acabou por ter algum sucesso em Nova Iorque e em Londres.
O maestro Nicola Rescigno fala sobre a sua experiência com Callas na Traviata de Londres. Pedia-lhe para atacar a nota final de "Ah, fors'è lui" forte, para a voz não quebrar (quereria dizer "Addio del passato", perto do final da ópera). Callas respondia que se Violetta estava a morrer, era assim que tinha de ser: a voz quebrar-se-lhe-ia todas as noites. Também foi assim em Lisboa: "Ah! Tutto finì, or tutto finì". Divina.
A "Morte de Isolda", gravada em 1957, com a Orquestra do Festival de Atenas, dirigida por Antonino Votto:
Dolce e calmo, sorridente,
Ei dischiude gli occhi belli.
Nol vedete?
Nol vedete?
Come chiara fiamma ei brilla.
Viva stella in alto ciel!
Nol vedete?
Come fiero balza il core?
Scorga in lui qual magico fonte!
Sul suo labro calmo appar
La dolcezza del sorriso.
Dite! Ah! Non lo vede alcun?
Odo io sola questo canto,
Voce arcana, voce pia,
Calma, pura come il pianto,
Dolce incanto, inno santo,
Che penetra l'esser mio,
Risuonandomi d'intorno?
Cresce, appressa, già m'invade.
Sei tu l'onda delle brezze?
Sei tu nube fatta d'incensi?
Che m'inonda, che mi avvolge.
Ch'io ti aspiri! Che in te spiri!
In te immersa e sommersa,
Sento l'esser mio svanire
Nel immenso ondeggiar,
Nel crescente clangor.
Nel fulgor d'una luce immortal!
Attratta... rapita...
Me smarrir!
Sommo ben!