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29 de março de 2024

101 POEMAS PORTUGUESES - #30


CANÇÃO DO NU

Lindo
Mármore precioso que na alcova
Surpreendi dormindo!
E lindo
À luz dum fósforo, acendido a medo,
Despertou sorrindo.
E, lindo,
Dos olhos as meninas me saltaram
Para o nu que se estava descobrindo.

Linda!
Ficou-se ao desgasalho adormecida,
Ai vida,
Como ainda não vi coisa tão linda.

Linda,
Braços abertos em desnudo amplexo,
Seu corpo era uma púbere mendiga,
E ele é que estava pedindo,
Lindo,
O meu sexo.


Afonso Duarte (Ereira, Montemor-o-Velho, 1884 - Coimbra, 1958),
Rapsódia do Sol-Nado seguido de Ritual do Amor (1916)

25 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (18)

 

CALAI

 

Calai os versos abstractos

E a mansidão dos olhos que têm os bois pacatos.

 

Calai tanto, tanto espírito na terra,

E a cristianíssima paz que nos faz guerra.

 

Calai, promessas de anjo, o céu sublime,

Quando as mãos, cheias de oiro, trazem máscaras de crime.

 

Calai loas de amor às crianças maltrapilhas

Que esses farrapos de alma não lhes cobrem as virilhas.

 

Calai as lágrimas à beira dos enfermos:

Prefiro a solidão que é soluço nos ermos.

 

Calai, palhinhas de Jesus, que sois o ai de quem ama:

Paz na terra e no céu: ao cristão, ao judeu, e à gentílica moirama.

 

Calai-vos, bêbedos aos bordos nas estradas:

Para matar tristezas, Nossa Senhor das Dores com suas sete espadas.

 

AFONSO DUARTE, Ossadas (1947)

1 de janeiro de 2012

Afonso Duarte, 128

Afonso Duarte nasceu a 1 de Janeiro de 1884, na Ereira, Montemor-o-Velho.

28 de outubro de 2011

CANÇÃO DO NU, Afonso Duarte

Lindo
Mármore precioso que na alcova
Surpreendi dormindo!
E lindo
À luz dum fósforo, acendido a medo,
Despertou sorrindo.
E, lindo,
Dos olhos as meninas me saltaram
Para o nu que se estava descobrindo.

Linda!
Ficou-se ao desgasalho adormecida,
Ai vida,
Como ainda não vi coisa tão linda.

Linda,
Braços abertos em desnudo amplexo,
Seu corpo era uma púbere mendiga,
E ele é que estava pedindo,
Lindo,
O meu sexo.

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 13.
(lido na sessão de 7 de Outubro de 2011).

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Afonso Duarte