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1 de novembro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (25)


DO LIVRO SEGUNDO DA NOITE ESCURA, DE SÃO JOÃO DA CRUZ  5

 

Entendo agora a nudez do pobre

E posso tocar-lhe como quem toca a alma às escuras

Mesmo sem a tremenda noite com que lhe toca a mão divina

 

O terceiro modo da paixão são os extremos. Agora entendo

Os dedos dos cegos

Agora entendo o ovo e o mártir quando é cercado para morrer

Entendo o ventre do bicho marinho, o fundo dos golfos

E já sei como abrem os ressuscitados os olhos no sepulcro

 

Sei o que é ser vomitado nas praias

O que é voltar a terra firme – ao dia mais do que à luz

 

Sei o que é o ouro no fogo e no inferno

Sei o que é renascer pelas águas

 

DANIEL FARIA (1971-1999), Poesia (edição póstuma)


16 de agosto de 2013

Quero a fome de calar-me, Daniel Faria

Quero a fome de calar-me. O silêncio. Único Recado que repito para que me não esqueça. pedra Que trago para sentar-me no banquete A única glória no mundo - ouvir-te. Ver Quando plantas a vinha, como abres A fonte, o curso caudaloso Da vergôntea - a sombra com que jorras do rochedo Quero o jorro da escrita verdadeira, a dolorosa Chaga do pastor Que abriu o redil no próprio corpo e sai Ao encontro da ovelha separada. Cerco Os sentidos que dispersam o rebanho. Estendo as direcções, estudo-lhes A flor - várias árvors cortadas Continuam a altear os pássaros. Os caminhos Seguem a linha do canivete nos troncos As mãos acima da cabeça adornam As águas nocturnas - pequenos Nenúfares celestes. As estrelas como as pinhas fechadas Caem - quero fechar-me e cair. O silêncio. DANIEL FARIA