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27 de novembro de 2023

101 poemas portugueses - #10


JORGE

Constantemente vejo o filho amado
Na minha escuridão, onde fulgura
A estática pupila da loucura,
Sinistra luz dum cérebro queimado.

Nas rugas de seu rosto macerado
Transpira a cruciantíssima tortura
Que escurentou na pobre alma tão pura
Talento, aspirações... tudo apagado!

Meu triste filho, passas vagabundo
Por sobre um grande mar calmo, profundo,
Sem bússola, sem norte e sem farol!

Nem gosto nem paixão te altera a vida!
Eu choro sem remédio a luz perdida...
Bem mais feliz és tu, que vês o sol.


Camilo Castelo Branco (Lisboa, 1825 - São Miguel de Seide, Vila Nova da Famalicão, 1890), Nas Trevas (1890) / Poesia, edição de Ernesto Rodrigues, 2008.