Miguel Torga, Bichos (1940), 19.ª ed, Coimbra, 1995
Miguel Torga, Bichos (1940), 19.ª ed, Coimbra, 1995
INSTANTE
A cena é muda e breve:
Num lameiro,
Um cordeiro
A pastar ao de leve.
Embevecida,
A mãe ovelha deixa de remoer
E a vida
Pára também, a ver.
Miguel Torga (São Martinho de Anta, Sabrosa, 1907 - Coimbra, 1995)
Diário I (1941)
NATAL
Outro Natal.
Outra comprida noite
De consoada,
Fria,
Vazia,
Bonita só de ser imaginada.
Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve,
Recitado
pela neve
A cair, ao de leve,
No telhado.
MIGUEL TORGA, Diário XII
ARIANE
Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeiras à
proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.
Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades…
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem
saudades…
Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre gaivotas que se dão no rio.
Mas eu é que não pude ainda por meus
passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar a âncora, e cair nos
braços
De Ariane, o veleiro.
MIGUEL TORGA, Diário I (1941)
Quer experimentar? Então deixe-se prender por esta coletânea organizada pela equipa responsável pela Biblioteca Escolar da Secundária de Amares (até o nome parece fadado...). Basta um clique na imagem, escolher um dos três grupos de poemas e ouça, ouça.
Que tal?