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Monday, January 20, 2025

TRUMP E O FIM DA FED

Trump lança memecoin e acumula 50 mil milhões de dólares em dois dias

Trump promotes new meme coin before taking office on pro-crypto agenda President-elect Donald Trump has launched a new cryptocurrency token that’s soaring in value and potentially boosting his net worth 

Melania Trump launches her own cryptocurrency

É uma avalanche.

Ainda esta manhã anotei que Trump quer que criptoactivos sejam prioridade política nos EUA. e, depois de almoço levo com uma dose dupla de cryptos, de Trump e da sua Melania.

A ideia de libertar o sistema financeiro das decisões do Banco Central do EUA, a Federal Reserve, FED, não é nova. Foi muito defendida por Ron Paul, líder libertário, e entusiasmou muito dos seguidores para o capitalismo radical.

Trump dificilmente aceita que algumas das poucas insituições norte-americanas que ainda escapam aos seus instintos ditatoriais não sejam coartadas ou até extintas. A sua intenção de atribuir aos criptoactivos um papel prioritário na política dos EUA só pode ter uma leitura: reduzir progressivamente a capacidade de intervenção da Federal Reserve.

Alguém me sabe explicar, de modo que os próprios explicadores entendam, onde é que vai parar o sistema financeiro internacional se as cryptos avançam e as moedas suportadas pelos bancos centrais se desvalorizam até não terem suporte algum?

Há momentos o euro valorizava contra as principais moedas; no entanto, muito recentemente, prognosticavam os (supostos) entendidos na matéria que euro e dólar se encaminhavam para a paridade. Estará já a intenção de Trump desvalorizar o dólar e crípton trumpear a economia norte-americana? 

Evolução do câmbio euro/dólar nos últimos 10 anos.
(clicar para aumentar)
                                      
Apesar das ameaças de Putin e Trump à União Europeia e de alguns eurófagos que se alimentam dela para a destruirem, o euro tem-se aguentado bastante bem.
Até quando?

Thursday, May 04, 2017

O FASCÍNIO DA MENTIRA

- Não voto na Le Pen porque não posso votar. Mas tenho dois filhos aqui em Saint-Gilles, que têm nacionalidade francesa, e que vão votar na Marine Le Pen. E se tivesse cá o terceiro, também ele votaria na Le Pen, garanto-lhe!
- E não o preocupa a possibilidade de ser expulso para Portugal por não ter nacionalidade francesa? Não o preocupa que ele tome medidas, relativamente aos emigrantes, idênticas às anunciadas pelo Trump nos Estados Unidos da América?
- Não me preocupa nada. O Trump disse que fazia muita coisa mas vai-se a ver e não faz nada do que disse que faria ...

No confronto de ontem à noite entre os dois candidatos à presidência de França, com reflexos tremendos no futuro da Europa se Le Pen vencer - e não está garantido que não possa vencer - ouviu-se, de um lado, uma argumentação consistente e elaborada, e, do outro, um corrupio de afirmações ou questões curtas para emprenhar pelos ouvidos.

Macron venceu o debate e consolidou a vantagem que as sondagens lhe atribuem? Talvez.
Mas não é descartável a hipótese de uma maioria de eleitores, como os dois portugueses de Saint-Gilles, votarem contra os seus próprios interesses iludidos pelo cântico da sereia nacionalista.

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Correl. - Emmanuel Macron files complaint over Le Pen debate 'defamation' 

"Macron came to Greece’s aid during our crisis. The French left should back him" - Yanis Varoufakis




Monday, January 02, 2017

BOA QUEDA

Há quedas que vêm por bem.

A queda do euro contra o dólar (1,04874, no momento em que teclo este apontamento), que agora se situa em mínimos dos últimos catorze anos, depois de ter atingido um máximo em Abril de 2008 (1,59752), tem as suas vantagens, sem que possamos ignorar os seus inconvenientes: o custo das importações de combustíveis fósseis, o aumento da dívida externa titulada em dólares, por exemplo. (vd. aqui gráfico da evolução euro/dólar nos últimos dez anos)

As vantagens, que se traduzem sobretudo no crescimento (transitório) da competitividade monetária das exportações com reflexo no crescimento económico na Europa, são boas notícias no meio de um leque de ameaças que pairam sobre o ocidente europeu, que animam os extremistas nacionalistas, xenófobos, racistas e todos quantos aproveitam as pragas para dominar as sociedades democráticas infectadas pelos vírus que eles espalham descaradamente e quase sem oposição que eficazmente os denuncie e anule. Estão os valores democráticos condenados a submeterem-se à tirania disfarçada dos seus algozes, por uso abusado desses mesmos valores, redimindo-se da sua pusilanimidade apenas in-extremis ou por desgraça de outra guerra? 

Se até agora ao euro tem sido atribuído o papel de bode expiatório de todos as causas perturbadoras da união europeia, pode acontecer que, por obra e graça da ascensão do populismo nos EUA, se torne menos grave o  contágio deste lado de cá do Atlântico. Pelo menos até que do lado de lá caia Trump por trumpgate. 

Vem este apontamento a propósito desta noticia: 

"A percepção dos gestores de compras da Zona Euro aponta para que a actividade da indústria dos 19 do clube da moeda única tenha atingido um máximo de quase seis anos em Dezembro, fechando o ano de 2016 com uma tendência de crescimento.

De acordo com a Markit, o índice PMI ficou no último mês do ano em 54,9 pontos, confirmando a primeira leitura e reforçando o perfil de crescimento em relação a Novembro, quando tinha sido de 53,7. É o valor mais elevado desde Abril de 2011, mantendo-se acima da linha de 50, o limite a partir do qual se estabelece que a actividade registou expansão.

A actividade acelerou entre os dois últimos trimestres (passando de 52,1 para 54), elevando a média anual deste indicador para 52,5, levando a que o ano fechasse no valor mais elevado desde 2010.


Por mercados, a Holanda e a Áustria são aqueles onde se denota maior expansão da actividade, ao passo que na Alemanha, a "locomotiva económica" do euro, regista um máximo de três anos. O maior parceiro comercial de Portugal, Espanha, atingiu a melhor marca em 11 meses, enquanto o desempenho de França é o melhor em quase seis anos.

Na base do desempenho do clube dos 19 está, segundo a Markit, um crescimento mais rápido da produção e de novas encomendas, tanto no mercado interno como para exportação, a beneficiar da queda do euro face ao dólar nas últimas semanas. 

O crescimento da procura elevou as listas de encomendas também para o maior valor em mais de cinco anos, resultando na criação de mais postos de trabalho. A empresa de estudos de mercado destaca ainda o aumento da pressão inflacionista, perante o aumento dos custos das importações devido a factores cambiais e ao aumento dos preços das matérias-primas. 

Apesar de reconhecer o forte final de 2016 para a economia do euro, Chris Williamson, o economista-chefe da Markit, destaca o risco político trazido pelo ano novo, nomeadamente em torno do desfecho das eleições na Holanda, França e Alemanha. Eventuais alterações geopolíticas podem conduzir a uma "intensificação da incerteza política na região", o que leva a organização a estimar um abrandamento no crescimento da economia, dos 1,7% de 2016 para 1,4% no ano que vem."

Wednesday, September 14, 2016

UE VERSUS EUA

Uma das questões mais recorrentes colocadas por aqueles que defendem, e é o meu caso, o euro como instrumento de integração europeia quando colocados perante os argumentos daqueles - Stiglitz, Krugman, entre muitos outros - que consideram que o euro está condenado como moeda do uma zona monetária que não é suficientemente políticamente integrada, é :

se os norte-americanos têm o dólar porque não pode o euro sustentar-se como moeda única numa zona única monetária europeia?

Para uma pergunta cândida, uma resposta óbvia: a União Europeia, e, particularmente a Zona Euro, não é uma federação de estados como os Estados Unidos da América. 

A diferença, que é enorme, explica não só as fortes turbulências observadas na Europa - que, por exemplo, ameaçam a permanência da Grécia, e não só, como membro da Zona Euro e, muito provavelmente, da União Europeia, e instigaram os resultados do referendo sobre o Brêxit - mas também as dificuldades da recuperação económica da União Europeia após 2008. Mesmo a Alemanha, fortemente superavitária na balança comercial, tem experimentado um crescimento económico débil de 0,9%/ano, desde então.
No mesmo lapso de tempo, que coincide com os dois mandatos da administração Obama, os EUA, onde a crise financeira tinha espoletado, conseguiram uma inversão rápida da recessão e um crescimento económico, débil, mas consistente, de 1,2%/ano.  
Por outro lado, enquanto a taxa de desemprego na Europa se mantém em níveis médios de dois dígitos, nos EUA o desemprego caiu de 11% no início da crise para cerca de 5%, actualmente. 

Hoje, lê-se aqui no Washington Post, que segundo relatório do "Census Bureau" publicado ontem, as  classes médias e pobres nos EUA obtiveram em 2015 o maior crescimento (+5,2%) de rendimentos familiares nas últimas décadas, sem, contudo terem recuperado para os níveis que dispunham antes da crise. A aparente disparidade esclarece-se pelo facto ter aumentado a desigualdade de rendimentos - o mesmo aconteceu na Europa - em consequência de mais apropriação das classes afluentes durante a crise. 

Se os membros da União Europeia não acelararem o processo de integração política, aproximando suficiente e adequadamente, as suas instituições daquelas que são imprescindíveis à sobrevivência da  moeda única, a UE não subsistirá com a configuração actual,obrigando à saída de alguns membros da Zona Euro, muito provavelmente os do Sul, ou de todos.
Isto é, resumidamente, o que diz Stiglitz. 
Até prova em contrário.

Sunday, September 11, 2016

STIGLITZ E A GERINGONÇA EUROPEIA - 2

Ilustríssimos*,

O desafio (discutir as afirmações de Stiglitz sobre o euro) é interessante, e, mais que interessante, é necessário.

A bem da verdade, começo por declarar que ainda não li o livro todo.
Cheguei há pouco à página 151 da edição original.
Pelo que li até agora, e estou certo que a entrevista referida (no e-mail que suscitou este comentário) não contraria o conteúdo de "the euro - How a Common Currency Threatens the Future of Europe", Stiglitz recomenda a saída do Euro, não ignorando os custos da saída, se não forem instaladas as instituições  e adoptados os institutos que possam viabilizar a continuidade do euro. 
Porque, assegura ele, e eu concordo, se não forem implementadas as condições que, em tempo que já é escasso mas que ainda pode ser oportuno, podem sustentar o euro, a zona euro está condenada à implosão.

Há algumas afirmações de Stiglitz de que discordo, outras de que ainda não entendi o alcance, mas penso que é difícil a um leitor não ideologicamente comprometido, contestar a grande maioria das suas afirmações, deduções e conclusões. 

A ler este livro de Stiglitz, ocorreu-me para a União Europeia a imagem hoje corrente no jargão político actual em Portugal:
É uma geringonça que funciona. Funciona mal, mas funciona. 
Até quando? 

Anotei há pouco tempo isso mesmo aqui.

Discordem, sff.
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* Membros de um grupo que costuma discutir sem fazer nascer luz.

Tuesday, September 06, 2016

STIGLITZ E A GERINGONÇA EUROPEIA

Stiglitz apareceu mais uma vez avisando que, tendo em conta as perdas e os lucros, melhor seria que Portugal saísse amigavelmente do euro. E, como é habitual, mereceu aplausos e apupos.
Destes últimos, merece realce o argumento recorrente que invoca o desconhecimento de Stiglitz da realidade política e económica portuguesa, e, consequentemente, as contas que fez, se as fez, assentam em pressupostos inconsistentes, desfasados da nossa situação socio-económica.
Têm razão?

Do ponto de vista do balanço entre vantagens e e desvantagens, mantenho a minha posição inteiramente alinhada com aqueles que consideram que a saída seria asfixiante, mesmo que os outros membros da zona euro concordassem em fornecer-nos quantidades generosas de oxigénio. 
Então, será Stiglitz, e não apenas Stiglitz, tão casmurro para persistir numa tese sem fundamento por desconhecimento de causa?

De Stiglitz, acaba de ser editado um volume de 416 páginas - The euro : How a Common Currency Threatens the Future of Europe -, que, de modo circunstanciado mas acessível, expõe as razões pelas quais, do ponde vista dele, e de vários outros académicos, o euro acabará por desgastar a fragilidade da construção da União Europeia. Stiglitz não condena o euro, condena a persistência de o quererem sustentar num ambiente que, de todo em todo, não lhe é  adequado. 

E, assim sendo, recomenda Stiglitz, a Portugal mais convém sair enquanto as hipóteses de uma negociação amigável são mais favoráveis do que aquelas que poderão emergir, no futuro, de uma debandada generalizada. Tem razão, Stiglitz?

 Lamentavelmente, talvez tenha.
 Lamentavelmente, porque a União Europeia não é uma construção sólida e equilibrada. Os nacionalismos que forjaram a sua múltipla identidade em guerras sem fim, subsistem e obstaculizam os avanços para uma identidade europeia que possa acolher uma moeda comum. O euro, devem ter suposto os seus criadores, iria provocar a cimentação das partes culturalmente diversas. Não foi, ou, até agora, não foi, e, de factor potencialmente agregador tornou-se um factor potencialmente desagregador. 

E as razões são conhecidas.
Por analogia com uma designação que hoje já faz parte do jargão político corrente em Portugal, a União Europeia, e, muito sobretudo, a zona Euro, é uma geringonça.
Funciona?
Pois funciona. Mal, mas funciona. Só não sabemos até quando.

 

Monday, January 11, 2016

QUANTO VALE O EURO SEGUNDO O BIG MAC

O Economist publica na edição desta semana o seu já icónico "The Big Mac index", desta vez comparativo dos preços de um Big Mac em Janeiro de 2014 e Janeiro de 2016 para, através dele, "medir" a subvalorização ou sobrevalorização de um conjunto de moedas relativamente ao dólar americano. 
E conclui que "as fortes desvalorizações de moeda não estão, agora, a provocar os crescimentos de exportações que antes se observavam". Se o Big Mac serve para alguma coisa, esta conclusão não confirma a tese daqueles que vêm no euro, desde sempre, um obstáculo à reanimação da economia portuguesa.

Registe-se o apontamento feito aqui em Julho de 2012:
"Para Martin Feldstein, professor em Harvard, "uma queda brusca do euro pode salvar a Espanha do colapso". Veja aqui porquê." 

Nem o euro não caiu bruscamente nem a Espanha colapsou. 


Em Janeiro de 2014 a cotação média do euro relativamente ao dólar (0,734198/1,36203) avaliada pelo Big Mac Index denotava uma valorização do euro, que entretanto se inverteu. Durante os últimos 11 dias aquela relação apresentou um valor médio (0,921563/1,085113) reflectindo uma desvalorização do euro relativamente ao dólar rondando os 19%. O equilíbrio das duas moedas situar-se-á agora, pelo menos na compra de um Big Mac, em quase 1,30 dólares por um euro.




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Vd. aqui dados sobre a dimensão da McDonald´s

Monday, October 12, 2015

QUANDO O NOVO PRIMEIRO-MINISTRO CHEGAR A SÃO BENTO

O Sr. António Costa anda em shopping around à esquerda e à direita para tentar sobreviver com os trocos que tem. Ninguém, nem provavelmente ele, acredita que a Sra. Catarina Martins e o Sr. Jerónimo de Sousa se atravessem em compromissos inequívocos e escritos que frontalmente ofendam as reclamações que lhe grangearam as transferências de votos com que aumentaram a sua representatividade na AR e retiraram ao PS, pelo menos, a maioria relativa.

Parece, no entanto, que o Sr. António Costa se não está encadeado pela miragem de se sentar em São Bento a qualquer preço, nem que seja por um dia, conseguirá com alguma facilidade que os líderes à sua esquerda mostrem o jogo que estão dispostos a jogar e, deste modo, ou formar um governo insólitamente estável à esquerda ou retirar-lhes os argumentos com que eles possam continuar a minar as posições socialistas no futuro. 

Cristina Ferreira escreve hoje no Público, vd. aqui, um artigo, que merece uma leitura na íntegra, e do qual destaco,


"... Quando o novo primeiro-ministro chegar a São Bento, vai encontrar na sua secretária vários “barris de pólvora”. Um deles esconde a capitalização da banca portuguesa, em particular a da CGD e do Novo Banco, mas também a reestruturação do Banif, onde o Estado é, desde Dezembro de 2012, o accionista maioritário. Os três dominam cerca de 40% do mercado e a sua relação com o tesouro não é igual. A CGD é 100% pública. Já o Novo Banco e o Banif foram resgatados e aguardam por um comprador, mas, enquanto não transitarem para o domínio privado, terá de ser o Estado a garantir a sua solidez.
Nos últimos três anos, o último executivo PSD/CDS-PP aplicou directa e indirectamente quase 6000 milhões de euros nas três instituições. E analistas admitem novas ajudas da ordem dos 2500 milhões..."

Estes, e outros acidentes gravíssimos não deveriam ter acontecido, mas aconteceram.
Como é que a Srª. Catarina Martins e o Sr. Jerónimo de Sousa se propõem desactivar os tais barris de pólvora sem mandar o país pelos ares? Saindo do euro? Saindo da União Euopeia? Nacionalizando a banca?
E o Sr. António Costa concorda com eles? 
E o Sr. Passos Coelho em que é que discorda do Sr. António Costa?

Se há da parte dos líderes partidários com representação parlamentar o intuito de servirem o país antes de servirem os seus próprios interesses, por mais respeitáveis que sejam, seria bom que o próximo governo se sentasse com a garantia de que a sua a capacidade para desactivar as ameaças não seja inevitavelmente torpedeada e o país estilhaçado pelas ambições desmedidas das claques partidárias. 

Este é o momento do Sr. António Costa demonstrar a sua apregoada capacidade para negociar a defesa dos interesses públicos, evitando o ofuscamento da tentação de um triunfo efémero.

Tuesday, July 28, 2015

ESQUIZOFRENIA EUROPEIA

Há um mês atrás (27/06) comentei aqui:

"Tsípras talvez tenha anunciado a noite passada o Plano B com que partiu para as negociações com os parceiros europeus na UE logo que ganhou as eleições e assumiu o governo em Atenas. Por onde passa esse plano B, uma vez desencadeado o processo de anúncio da consulta popular, não sabemos, mas espera-se que Tsípras saiba. Ou, pelo menos, saiba por onde quer que ele passe. 
Tsípras, contrariamente ao que o termo que usou significa, e os media estão a replicar, não convocou um referendo, convocou pelo menos três. Que, implicitamente, implicam o plebiscito do regime que defende."
.
E do meu ponto de  vista, ou vencia o Não, e Tsipras tinha suporte popular suficiente para rejeitar as exigências do trio UE-BCE-FMI, e avançar (com um Plano B) para a saída da Grécia da zona euro se o trio não cedesse; ou vencia o Sim, e Tsipras, logicamente, deveria demitir-se.
.
Mas a lógica em política é uma batata, venceu o Não, e Tsipras acabou por aceitar, discordando, um conjunto de medidas mais gravoso que aquele que tinha rejeitado e motivado a convocação do plebiscito. Demitiu Varoufakis e, sabe-se agora, Varoufakis congeminara um plano B para voltar ao dracma, e Tsipras sabia disso.
.
Ontem, o Financial Times transcrevia parte de uma entrevista a Varoufakis, reproduzida aqui em registo audio, que está a desencadear nos meios políticos polémica q.b. (considerando um escândalo ter Varoufakis ter tornado público a intenção e os meios para sair do euro) e para "a Procuradoria-geral grega ter recebido duas queixas contra o ex-ministro das Finanças por gestão danosa e traição, e o Supremo ter pedido o levantamento da imunidade parlamentar do deputado Varoufakis."
.
Hoje, o Financial Times publica um esclarecimento de Varoufakis sobre o assunto que, no entanto, não contraria o essencial da entrevista.

Entretanto, as negociações complementares para o acordo, que Tsipras aceitou, discordando, prosseguem e a notícias de hoje dão conta que o conjunto de exigências do trio continua a ser carregado com mais medidas. A hipótese do Grexit não foi descartada e Schäuble continua a defender a saída da Grécia da zona euro, com todas as consequências daí decorrentes. 

Resumindo: Varoufakis tinha desenhado um Plano B. Louco, megalómano, radical e revolucionário, como aqui se sugere, talvez.
Por outro lado, sabe-se que as instituições europeias têm preparado um plano que suporte uma eventual saída Grécia da zona euro. Se um escandaliza e o outro não, é porque, provavelmente, não sabemos que plano é este outro.
O erro de Varoufakis foi ter mostrado o jogo depois de o ter perdido. Para um especialista da Teoria de Jogos é imperdoável que desconheça o que nenhum jogador principiante de pocker ignora.

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Correl . - "People are apparently shocked, shocked to learn that Greece did indeed have plans to introduce a parallel currency if necessary. I mean, really: it would have been shocking if there weren’t contingency plans. Preparing for something you know might happen doesn’t show that you want it to happen." - Paul Krugman / Contingency Plans

Wednesday, July 15, 2015

ENTRE O SONHO E A REALIDADE

Arrebatado pela gravata, vd. como aqui,  Tsipras passou a linha vermelha que ele próprio tinha traçado, caindo nos braços da volúvel Christine. Imagine quem quiser o que terá passado pela mente da directora-geral naquela noite de pesadelo. 

Nos dias seguintes, Tsipras torceu-se e distorceu-se em argumentos que esbarraram contra a intransigência dos outros 1+17 e a rispidez altiva da srª. Lagarde. Irado, chamou-lhes criminosos, foi plebiscitado pelo seu povo, e acabou por aceitar a pior de todas as propostas, perdendo, naturalmente, por 18 a 1. Que, também naturalmente, não vai ser cumprida.

Hoje, com os bancos gregos fechados talvez por mais um mês, soube-se que, vd. aqui, o FMI da previsível na imprevisibilidade Christine Lagarde critica e ameaça não participar no terceito resgate da Grécia nos termos em que foram impostos pela arrasante maioria dos membros da zona euro, e nomeadamente por tal acordo não incluir uma substancial redução da dívida grega.  Precisamente o ponto mais relevante porque se bateu Tsipras e que foi liminarente refutado pela srª. Merkel, ouvido o sr. Schäuble, e que mereceu a aprovação adormecida a altas horas da noite de todos os outros 17. 

Como Tsipras tentou que o FMI não fizesse parte deste terceiro resgate, Christine promete fazer-lhe a vontade e deixá-lo agora com água a crescer-lhe na boca.

Monday, July 06, 2015

PERDIDOS POR DEZ, PERDIDOS POR MIL

"Em três ou quatro apressados dias, transferiu para o povo a responsabilidade da decisão. Mas não contou aos gregos como lhes vai pagar os ordenados, aprovisionar as farmácias e as mercearias." - cf.  aqui.

A previsão de que a Grécia vai atravessar dias de grande calamidade, a juntar aqueles que já experimentou, tem alta probabilidade de acontecer. 

Tsipras chegou ao poder prometendo muito que não poderia vir a cumprir. Nisso não se distingue da generalidade dos políticos, exemplos desses abundam também por cá, e por toda a parte . E, é sabido, as promessas são tanto mais atraentes quanto mais os crentes estão aflitos. Ora os gregos tinham sido apanhados na ratoeira de uma dívida externa que os esmagava e continua a esmagar, uma situação que o último relatório do FMI atesta.

A história já foi contada vezes incontáveis: os bancos, ou investidores através deles, emprestaram aos bancos fundos em volumes completamente desproporcionados com as capacidades de pagamento da economia grega. São os gregos vítimas inocentes desta armadilha sinistra? Não todos: há muitos coniventes, activos ou passivos, geralmente gente bem instalada na vida.

Apesar da ténue recuperação da economia observada em 2014, os gregos rejeitaram nas eleições de alguns meses atrás a continuidade da liderança política daqueles que os tinham metido num beco sem saída. E, em desespero de causa, atiraram-se para os braços do vendedor de promessas. Acontece fequentemente, é assim que as democracias sossobram e os demagogos são idolatrados.

Tendo Tsipras prometido o que não pôde conseguir nas negociações em Bruxelas e etc., não tinha mais alternativas senão voltar a Atenas e perguntar ao povo que o tinha elegido o que queria o povo, ou demitir-se. Escolheu a primeira e o povo disse que não, que não aceita as condições impostas pelas instituições europeias e pelo FMI.

Votaram os gregos na ignorância do que vai acontecer a partir de hoje? De modo algum. Se há conhecimento adquirido pelos gregos, por todos, ao longo destes últimos anos, o mais intenso será certamente o das consequências da ruptura social, económica e financeira. Eles votaram à vista de filas de gente em frente às máquinas ATM e os bancos encerrados há dias.

E, agora?
Agora não sei, quem sabe?, o que irá acontecer.
Mas suponho que a União Europeia irá mudar radicalmente a partir de hoje.
Repito-me: A União Europeia é insustentável sem uma moeda comum. E uma moeda comum é insustentável sem uma federação política dos seus membros. Soberania e democracia (numa zona económica e monetária) são destrutivamente conflituantes se não se reunirem no mesmo espaço político.

Se a Europa apreender e aproveitar de vez o resultado de ontem em Atenas, o contributo de Tsipras não deve ser vilipendiado.

Varoufakis demitiu-se, ou foi aconselhado a isso, para faclitar o diálogo em mais uma maratona de negociações. É esse o geral entendimento de analistas dos mais insuspeitos quadrantes de serem alinhados com a esquerda: Financial Times, Economist, entre outros.
Parece-me pouco pertinente ( ) considerá-lo cobarde e incompetente.

( ) Colocar Tsipras e Varoufakis como principais responsáveis da tragédia grega, quando é claríssimo que a tragédia já tinha atingido o clímax quando eles entraram em cena por repúdio da plateia dos actores que lá tinham estado antes,  é muito excessivo. Os grandes responsáveis pelas diversas tragédias que se desenrolam de tempos a tempos em vários pontos deste mundo são os banqueiros.

Sim, os banqueiros.
Foram eles que, movidos pela ganância, emprestaram muito para além das possibilidades de reembolso aos credores.
E os gregos?

Os gregos são inacreditáveis?
Os gregos são impostores?
Os gregos são intratáveis?
Os gregos são chantagistas?
Os gregos são tudo isso e muito pior?

Admitamos que sim.
Então por que lhe emprestaram os banqueiros tanto dinheiro conhecendo-lhes a falta de carácter?

Sabe-se bem porquê:
Se uma empresa vende mercadoria a um cliente sem analisar o risco que corre, isto é, a capacidade do devedor pagar o que deve, o que acontece se o cliente não paga? O fornecedor incauto tem de registar na sua contabilidade um "incobrável", uma perda, portanto.

O que é aconteceu aos bancos que emprestaram aos gregos (e aos portugueses ... e a tantos outros, agora e no passado), as dívidas a esses bancos foram assumidas pelo FMI e pelo BCE na sua quase totalidade, isto é, foram colocados às costas dos contribuintes.

Não é isto verdade?

( ) Acusar Tsipras de companhia de terem prometido o impossível para se alcandorarem ao poder, é pertinente.
E os nossos governantes, o que fizeram para alcançar o poder?
Falaram verdade?
As desonestidades de uns não justificam as de outros mas é sempre mais higiénico não acusarmos alguém de pouca limpeza com os nossos dedos sujos.

(colocado aqui)

Saturday, June 27, 2015

TSÍPRAS, OS GREGOS, E O PLEBISCITO*


Tsípras talvez tenha anunciado a noite passada o Plano B com que partiu para as negociações com os parceiros europeus na UE logo que ganhou as eleições e assumiu o governo em Atenas. Por onde passa esse plano B, uma vez desencadeado o processo de anúncio da consulta popular, não sabemos, mas espera-se que Tsípras saiba. Ou, pelo menos, saiba por onde quer que ele passe. 

Tsípras, contrariamente ao que o termo que usou significa, e os media estão a replicar, não convocou um referendo, convocou pelo menos três. Que, implicitamente, implicam o plebiscito do regime que defende.

Sabe-se que a opinião pública grega é, por um lado, muito maioritariamente favorável à permanência no euro mas, por outro, a maioria apoia a actução de Tsípras no modo como tem conduzido as alegações de defesa dos interesses e da dignidade dos gregos  em Bruxelas. Acontece, contudo, que a permanência no euro não é compatível com a recusa das propostas dos credores, que o governo de Atenas considera um ultimatum. E Tsípras, ao mesmo tempo que anunciava a consulta popular para 5 de Julho, fez saber que irá fazer campanha pelo Não à aceitação do ultimatum. O mesmo é dizer, pela saída do euro.

Se vencer o Não, abre-se a Caixa de Pandora, e ninguém pode calcular como se propagam os efeitos dos diabos à solta. Saindo do euro, sairá da UE? Sairá da Nato? Ainda é possível algum recuo? Quando Samaras, o anterior primeiro-ministro grego, aventou a hipótese de um referendum na Grécia foi rapidamente dissuadido por Berlim e Bruxelas. Mas nessa altura ainda estavam por parquear no BCE muitos empréstimos de bancos alemães, franceses, holandeses, ... e Samaras não é Tsípras.
Se vencer o Sim, Tsípras não tem alternativa senão demitir-se, provocando eleições legislativas antecipadas.


Segunda-feira começa o teste. Tsípras disse que não imporá controlo de capitais e os bancos abrirão como de costume. Sendo improvável que os gregos, na dúvida de qual será o resultado daí a uma semana,  não corram para lá a sacar os seus depósitos em euros, os bancos abrirão para fecharem pouco depois. A menos que o Plano B de Tsípras, se existe, continue a surpreender-nos.

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 *  vd. aqui,
( ), podemos dizer que plebiscito é uma consulta ao povo antes de uma lei ser constituída, de modo a aprovar ou rejeitar as opções que lhe são propostas; o referendo é uma consulta ao povo após a lei ser constituída, em que o povo ratifica ("sanciona") a lei já aprovada pelo Estado ou a rejeita. Maurice Battelli, de fato, define plebiscito como a manifestação direta da vontade do povo que delibera sobre um determinado assunto, enquanto que o referendo seria um ato mais complexo, em que o povo delibera sobre outra deliberação (já tomada pelo órgão de Estado respectivo).
 -
Marcello Caetano (  ) definia o referendo como um processo próprio de uma conjuntura governativa instituída, enquanto que o plebiscito seria próprio de tomadas de decisão que visassem alterações profundas na estrutura do regime político governante (em geral, da própria Constituição).
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Pensionista grego e fila de gente junto a ATM

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 (05/07)

Grecia decide hoy el destino del euro y de la Unión Europea 

El resultado del referéndum no garantiza en ningún caso la salida de la crisis. La votación es un plebiscito sobre el primer ministro - cf. aqui

Friday, June 26, 2015

ESTA NOITE DORMIMOS JUNTOS

- Tsípras ??? ... Aléxis Tsípras !!!??? ... Como? ... e a que propósito ... entraste no meu quarto ... ? ... às ... às .... às quatro da manhã? ... rua! ... rua! ... rua!... rua, ou ligo imediatamente à recepção do hotel!
.
(Christine Lagarde teve um dia arrasador mesmo para uma mulher de aço. As reuniões com os gregos são esgotantes, as intervenções de Varoufakis sufocantes. Nos últimos dias, Christine cede às recomendações da sua amiga Brigitte e toma o xanax que ela lhe dá. Varoufakis não sabe mas ele é o único tipo que até agora teve o condão de a levar a um nível de tensão que lhe retira o sono. Se pudesse esbofeteava-o em público. É insinuante e insolente, arrogantemente melífluo, um convencido imaturo. Resumidamente, um cretino.
São duas da manhã, o xanax demora a produzir efeito, enquanto a droga não lhe entorpece a mente, Christine rememora o que disse, o que não disse, mas sobretudo o que não devia ter dito durante as infindáveis reuniões daquele dia e o que irá dizer na reunião marcada para dentro de seis horas. E, outra vez, sempre, o avantesma, Varoufakis. Boceja, Oh! Yanis, Yanis, volta-se pela enésima vez na cama, alonga-se entre os lençois, e abraça a cabeceira.
Acorda duas horas depois, sobressaltada pelo restolhar dos cortinados, acende a luz, e o seu espanto não tem medida. Alguém entrou no quarto, um homem entrou pela janela que ela deixara aberta para se libertar do sufoco carregado durante as reuniões do dia. É Tsipras, o estupor do Aléxis Tsípras, armado em valet: calça e sapatos pretos, colete preto sobre camisa branca, uma gravata vermelha, vermelho vivo, ao pescoço. Na mão direita um spray de tinta, destes que os árbitros de futebol usam para marcar distâncias no futebol, uma toalha branca no braço esquerdo. Indiferente ao espanto de Christine, Tsípras marca uma linha vermelha ao longo da cama, a meio metro de distância, e perfila-se, mudo e quedo,  atrás dessa linha)

- Que é isto? A que propósito? O que é que pretendes Aléxis??? ... Ouves-me? ... Aléxis, o que é que pretendes de mim?

(A exaltação inicial de Christine esbate-se na mudez e na imobilidade do intruso)

- Ah! Ah! Ah! Pretendes, por acaso, acusar-me de violação a um criado de hotel? Sabes bem que esse é um argumento que raramente funciona ao contrário. E os franceses não sairam todos do mesmo molde. O Dominique será um libertino impenitente com um nome andrógeno, eu não sou, nem nunca fui, mulher de fúrias libidinosas  ocasionais. Sou pérfida, dizem vocês, mas enganam-se. Sou sensível. A Ângela, essa sim, é pérfida. E aquela outra garota, como é que ela se chama?, a portuguesa? Pérfidas e libidinosas, não se nota porque vocês não lhe ouvem as conversas. Se os homens ouvissem o que dizem as  mulheres entre si ... nem todas, bem entendido. Em França temos mais fama mas menos proveito, garanto-te. 
O turbilhão grego atormenta-me profundamente porque não sei como possa amainá-lo. Acusam-me de contradições nos meus discursos, e não posso deixar de reconhecer que entre aquilo que penso e aquilo que as minhas funções me obrigam a fazer vai a distância que me dilacera. Bom, reconheço que gostaria muito de ver renovado o meu mandato e essa renovação só é possível com os votos de muitos, de quase todos, os membros do FMI. Lamento recordar-te, Aléxis, mas a Grécia está quase só. Contas, do teu lado, com quem? Com Putin? Ah! Ah! Ah! Putin prefere, por agora, que os problemas gregos contribuam para a destruição das  instituições europeias. Dar-te-á um caramelo, só te dará um caramelo, e a tua sede aumenta ....
 .
(Christine faz uma pausa, e olha fixamente para Aléxis, imóvel, mudo, os olhos imóveis nos olhos dela)
 .
... - Agora que olho mais detidamente para ti, Aléxis, reparo que não és desengraçado de todo, sabes? Não, não vou dizer que és um tipo sexy. O Yanis é sexy, reconheço. É um estupor mas é um homem interessante. Melhor dizendo, é um estupor com certo interesse, de homem terá o que uma mulher vulgar precisa, não mais que isso. Tu tens cabeça, e essa trunfa rebelde atiça, estou certa disso, o interesse feminino mais exigente, aquele que vai além das bolsas de testosterona. Chega-te cá! Vá lá, chega-te aqui mais perto. Passa essa linha vermelha que traçaste e eu juro-te que não chamo a polícia. 

(Aléxis, não mexe, sequer, um músculo da cara)

Dizem-me que já te decidiste a roer a corda e mandar os credores às urtigas. Tens ideia, Aléxis, uma pequena ideia que seja, do sarilho em que te metes se saltas do euro sem para-quedas? És doido?
Amanhã é sábado, terça-feira o dead line. Se não há acordo amanhã, o mais tardar domingo, como é que governas sem euros nem dracmas? Ou já tens rotativas clandestinas a trabalhar ou a Grécia é uma bagunça sem rei nem roque à espera que os militares ponham tudo em sentido. Estás acordado ou a dormir em pé?

(Tsipras lembra uma estátua grega antiga, o movimento suspenso, vestida a preto e branco e um toque encarnado. Christine faz nova pausa no discurso, e para o olhar no olhar dele)

- Afinal, o que vieste cá fazer, monstro? Chegas de lata na mão e toalha no braço, traças uma linha  a vermelho, e não soltas sequer um grunhido por quê? Chega cá, dá-me a tua mão, só a mão, ou nem a mão pode passar essa estúpida linha vermelha? Bom, se a montanha não vai a Maomé ... vai Maomé à montanha. Se não te mexes, levanto-me eu. Upa!

(Christine tenta levantar-se e agarrar Tsipras mas só consegue chegar-lhe à gravata)

- A gravata já cá canta. Esta noite dormimos juntos.


Saturday, June 20, 2015

A GRÉCIA NÃO SAIRÁ DO EURO

Não é um palpite, é uma inevitabilidade.
E por quê?
Mesmo dando de barato que seria tecnicamente possível que a Grécia abandonasse o euro, ou fosse posta borda fora, numa sexta-feira à tarde e reabrissem os bancos gregos dois dias depois com as contas em dracmas, para começar cada dracma igual a um euro, a mudança seria inevitavelmente acompanhada por uma campanha de populismo político levado ao rubro.

Inevitavelmente, porque as consequências imediatas de uma saída da Grécia do euro na vida da grande maioria dos gregos seriam tão dramáticas que, das duas uma, ou Tsipras &Varoufakis conquistavam a Praça Sintagma com manifestantações ululantes contra a malvada União Europeia que expulsara "a pátria da democracia" ou seriam linchados na praça. A saída da Grécia do euro desencadearia uma revolta tão profunda contra os outros membros europeus que implicaria também a saída da União Europeia. Em qualquer dos casos, glorificação ou linchamento dos protagonistas, o ressabiamento grego iria vingar-se da traição ocidental atirando-se para os braços de Putin. Salvo se, entretanto, os norte-americanos não fizessem o que a União Europeia não soube fazer: segurar a Grécia no lado de cá. 

A abordagem da questão grega do ponto de vista meramente financeiro (ou económico, para quem preferir segurar o embrulho por esse lado) parece querer esquecer, para além das perdas financeiras que um "default" grego implicaria nos bolsos dos contribuintes europeus, e, muito principalmente de alemães e franceses, que a Grécia é membro da Nato. Ora é bom lembrar que a fractura geopolítica que atravessa a fronteira com a Rússia desde os Bálticos até ao Mediterrâneo voltou a dar sinais de grande intranquilidade sísmica, para além da ocupação da Crimeia e a indefinição da guerra no leste da Ucrânia . E que se os Bálticos aproveitaram a ocasião do desmoronamento soviético para se colocarem ao abrigo da União Europeia e da Nato, não é de todo descartável a hipótese que a Grécia, ressabiada, se arrogue o direito inelianável de fazer um movimento semelhante ao contrário.

Seria a concretização do sonho de Putin: reconstruir o império onde há, não tantos anos assim, foi membro da polícia política do regime que viu sossobrar. Entre outros, o governo de Budapeste há muito que não esconde a sua admiração pela liderança do novo czar das Rússias.

Entretanto, enquanto a Grécia sai ou não sai do euro, os euros continuam a sair da Grécia.
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Correl . -
Entre outros apontamentos colocados neste caderno : O abraço de Putin
Enquanto a Grécia treme, Tsipras é festejado em S. Petersburgo , Financial Times, hoje.

Greek Prime Minister Alexis Tsipras, centre, arrives to meet business representatives in St Petersburg on Thursday

Monday, June 15, 2015

E SE A GRÉCIA DISSER NÃO?

"A Grécia não tem nada a perder ao dizer não aos credores", afirma Wolfgang Münchau no Financial Times de ontem - cf. aqui -, hoje publicado no Diário de Notícias  - cf.  aqui. E diz, de modo muito claro por quê. 

Outro colunista do Financial Times, Gideon Rachman, considera aqui que os gregos podem optar por uma de quatro alternativas mas as negociações cada vez se assemelham mais à cena final de "Rebel Without a Cause" (Fúria de Viver, na tradução portuguesa do título) que acaba com a queda de um dos concorrentes no precipício. Rachman não palpita quem será, neste caso, o personagem desempenhado por James Dean, implicitamente concluindo que o desfecho de um eventual Grexit é uma inextrincável incógnita.

Também hoje e no Financial Times, Mohamed El-Erian, outro colunista do FT, prevê aqui que "A Grécia não seria a única perdedora no caso de um divórcio não amigável".

Interpelado por Elisa Ferreira, na sua qualidade de porta-voz dos socialistas europeus para os assuntos económicos, acerca das consequências de uma saída da Grécia do euro, Draghi respondeu - vd. aqui - o BCE "não é uma instituição política e atua de acordo com regras já existentes", apontando que as decisões devem ser tomadas em sede do Eurogrupo, acrescentando que também é da opinião de que, "neste momento, a bola está do lado das autoridades gregas". Para bom entendedor: Se querem uma solução, essa solução tem de ser política.

Há uma semana atrás, Francesco Giavazzi, professor de Economia na Universidade Bocconi de Milão opinava aqui, também no Financial Times, cit aqui, que "se a Grécia escolhe a pobreza, deixem-na seguir o seu caminho e não lhe emprestem mais dinheiro" .

Há quatro meses atrás anotei aqui: Assim vão as coisas no clube. Para uns, os gregos são uns refinadíssimos safados, para outros, são vítimas dos algozes do norte, em qualquer caso quanto mais depressa ficarem por sua conta e risco tanto melhor para todos. A tentação de abrir a caixa (de pandora) é grande. Já amanhã?
Não foi. E se não foi daquela vez, presumo que não será de outra. 
Apesar da louvada reputação do prof. Giavazzi.
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Correl . -  Hoje, 16/06, "Leaving Greece to its own devices is not an option"
Tony Barber/Financial Times 
The gap between Greek and German views my be to great for the politicians to bridge
Economist 

Friday, March 27, 2015

CADA VEZ PERCEBO MENOS

Há nove dias atrás anotei aqui que não percebia a intenção dos discursos dos responsáveis da União Europeia, e nomeadamente do presidente do Eurogrupo, que publicamente confirmavam o que o Spiegel tinha divulgado: os alemães (leia-se o grupo liderado por Schäuble) estavam a preparar medidas que bloqueassem as fugas de capitais da Grécia, encerrando os bancos gregos por uns dias, aplicando a receita adoptada em Chipre.  Cf. aqui: "Cyprus Scenario possible for Greece, says Dijsselbloem".

Estranhei que medidas destas fossem divulgadas e confirmadas, uma vez que, segundo a lógica comum, elas iriam provocar novas ondas de fuga antes que fossem adoptadas. Meu dito, meu feito, lia-se menos de uma semana depois no Financial Times, aqui, que o governo grego estava a mobilizar os fundos do sistema de saúde e do metropolitano de Atenas para poder pagar as responsabilidades mais imediatas. Cf. aqui: "Athens raids public health coffers in hunt for cash". E isto porque a fuga de capitais observada nos últimos dias está a deixar os bancos gregos à beira do colapso. 

Hoje, pode ler-se no mesmo FT um artigo, vd. aqui, do correspondente do jornal em Bruxelas, que os dados conhecidos evidenciam uma corrida aos bancos perante a perspectiva de um segundo resgate. Normal, não? O que não se percebe, e não se percebe desde o início do processo de ataque à crise espoletada em 2008, é o conjunto de medidas que suscitaram a fuga de capitais dos países mais fragililizados do sul para refúgios a norte, e principalmente para a Alemanha, aumentando insuportavelmente a carga dos juros aos primeiros (fragilizados) e permitindo aos segundos (confortáveis) financiarem-se a taxa negativas. E muito menos se entende que, num momento em que decorrem conversações entre gregos e alemães, i.e., entre Tsipras e Merkel (os outros assistem), o discurso da eurogrupo empurre os gregos para o suicídio do seu sistema financeiro.

A menos que o objectivo seja mesmo esse: Correr com eles da zona euro, e depois se verá...
O desastre.
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Correl. - Greece to pay pensions ... for this month
ou
os apertos do tesouro e a indisciplina fiscal grega.

Thursday, February 19, 2015

A CONFISSÃO DE JUNCKER

Juncker sobre a troika: "Pecámos contra a dignidade" de Portugal e Grécia - aqui

É sempre arriscado fazer contas com o que dizem os políticos. Mme. Christine Lagarde disse e repetiu vezes várias que a política de austeridade estava a ser sobre administrada e os representantes do FMI na troica continuaram impávidos e decididos a apertar o parafuso na porca mesmo quando a porca, de modo muito evidente, já não dava mais aperto. E as declarações de ontem do sr. Jean-Claude Juncker são, no mínimo, espantosas se considerarmos as suas responsabilidades e anuências anteriores.  

Apesar de espantosas, as declarações de Juncker dificilmente deixarão de ter consequências porque, sendo ele presidente da Comissão Europeia, a partir de agora a sua posição tornar-se-á insustentável se não existir coerência entre o que ele afirmou ontem e o modo como se relacionará Bruxelas com Berlim a respeito do dossier grego. Entre a inflexível dureza, por vezes por demais arrogante, da posição de Schäuble, interpõe-se a partir de ontem a confissão de Juncker que ou o remete de volta para a sua casa ali ao lado ou obriga Schäuble a baixar a bitola para o governo poder saltar para um campo menos minado.

Juncker, por mais volta que se dêm às suas declarações de ontem, não podem senão considerar-se também um claro apoio a algumas das considerações e reivindicações do governo de Alexis Tsipras.  

Mas também pode continuar tudo na mesma?
Pois pode. Da capacidade de contorcionismo dos políticos é sempre possível esperar todos os enrolamentos. Mas para já haverá muita genta, pelo menos temporariamente, engasgada.
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Correl. - Marques Guedes diz que Juncker foi infeliz e dignidade de Portugal nunca foi beliscada 

Nuno de Magalhães diz que críticas de Juncker à troika coincidem com alertas do CDS 

Monday, February 16, 2015

JOGO PERIGOSO


O Eurogrupo deu hoje ao governo grego quatro dias para que peça a extensão do actual plano  de resgate, que expira no fim deste mês.

Um ultimatum que não se vê como possa Tsipras aceitar sem ser apeado por manifestações daqueles que ainda esta semana passada lhe manifestaram o seu incondicional apoio. 

O desmoronamento da União Europeia pode ter começado hoje.


Sunday, January 18, 2015

PODE SALVAR-SE A EUROPA COM A DESVALORIZAÇÃO DO EURO?



O euro celebra este mês o 16º aniversário e a  pergunta é colocada aqui, numa altura em que a cotação da moeda única europeia contra o dólar atingiu o valor mais baixo ($ 1,15512) nos últimos dez anos. A inesperada decisão do Banco Nacional da Suiça tomada na passada quinta-feira de abandonar a intervenção no mercado de divisas iniciada em meados de 2011, veio confirmar a antecipação de uma desvalorização inevitável com o anunciado programa do BCE de aquisição de dívida pública de menor risco. 

Pode esta desvalorização ajudar à reanimação das economias europeias, e não apenas as da zona euro considerando a colagem da generalidade das outras moedas ao euro, e, mais alargadamente, à economia global? Não é garantido. E não é garantido porque, apesar da desvalorização da moeda única ser, praticamente, agora a único mola capaz de funcionar no ambiente estagnado em que se deixou cair a Europa, as probabilidades de sucesso, segundo os analistas citados no artigo que refiro, são indecisas.

Em todo o caso, a desvalorização do euro vai, certamente, proporcionar às exportações portuguesas ganhos, transitórios como todos os ganhos de competitividade monetária. Tendo, por outro lado, caído as cotações do crude para níveis não previsíveis há alguns meses atrás, o efeito da desvalorização sobre as exportações e importações portugesas será significativamente positivo. Será? Ou seria? As últimas notícias sobre as restrições de Angola às importações de Portugal é um dos vários factores que podem afectar negativamente algum optimismo das expectativas.

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Correl . - The eurozone : a strained bond


Sunday, January 04, 2015

AFINAL, O EURO

Para muita gente supostamente respeitável por aquilo que afirma, o euro é uma construção insustentável, que não resistirá às crises inerentes aos inevitáveis ciclos económicos. Pode a resiliência demonstrada pela moeda única europeia em 2014 considerar-se um dos eventos que mais marcou o ano passado,  tendo em conta que foram muitos os que lhe previram o fim? Aqui, considera-se que sim - Ainda houve quem apostasse no seu fim no início do ano, mas agora para 2015 isso parece ter desaparecido.
Mas terá desaparecido mesmo?

2015 promete ser um ano politicamente muito complicado na União Europeia, com eleições legislativas na Grécia, dentro de duas semanas, Reino Unido, Espanha, Portugal e Itália, num contexto de generalizada progressão dos movimentos mais radicais. De direita, sobretudo a norte, mobilizados por reivindicações anti-imigração, que facilmente descambam para acções xenófobas e racistas. De esquerda, a sul, mobilizados pelo descontentamento que as políticas de austeridade geraram e continuam a gerar, porque o crescimento económico estagnou, e as dívidas soberanas continuam a crescer. 

Culpa do euro?
Anteontem, Paul Krugman comentava aqui um artigo de Simon Wren-Lewis, um economista britânico - How good has the UK recovery been? - resumindo neste gráfico,

as consequências das políticas de austeridade adoptadas na Europa vis-a-vis a evolução observada nos EUA. Notável é ainda o comportamento da economia francesa, que é parte da zona euro, avaliada em termos de PIB/capita relativamente à britânica, que não abdicou da sua libra.

Eis o triunfo da austeridade, ou talvez não, comenta Krugman
E continua: (cito, resumindo)

"O sucesso da economia reclamado pelo governo britânico durante os últimos um ou dois anos é uma falácia porque ignora o mau comportamento no período anterior. ... Por outro lado, atribui-se geralmente à dimensão do estado social em França a causa da estagnação da economia francesa. E à austeridade no Reino Unido é atribuido o sucesso da sua economia nos últimos tempos"

Tudo isto é deprimente, remata Krugman, desde o início da crise um crítico tenaz das políticas de austeridade adoptadas na Europa. 
Receio que continue a ter razão.