Meus amigos e amigas do ®DOUG BLOG, vou publicar este conto de três baratas que é também um “barato”, qual escrevi em (2003), para participar da primeira edição da “FLIP - Feira Literária Internacional de Paraty”.
Em um canto empoeirado e úmido de uma cozinha, viviam três baratinhas chamadas: Coleoptera, Kafkalina e Não-pise-em-mim.
Coleoptera não era uma barata comum. Filha do “baratão Kafka”¹ e da barata Naftalina, tinha duas irmãs, Kafkalina e Não-pise-em-mim. As três se contentavam em correr pelos rodapés e se banquetear com migalhas esquecidas, embora, Coleoptera tinha aspirações filosóficas:
💬 Qual é o nosso propósito?
Sussurrava para uma migalha de pão amanhecido, que obviamente não respondia.
💬 Nascemos apenas para correr dos chinelos e esbarrar em pés descalços?
Enfatizava com tristeza.
Kafkalina, com seu olhar pragmático de barata, revirava seus olhos múltiplos e dizia:
💬 O nosso propósito, minha irmã, é sobreviver e nos reproduzir.
Não-pise-em-mim, sempre um pouco distraída, apenas cambaleava, como se desse passos de Cowboy em um duelo, tentando encontrar um lugar mais escuro para dormir e não ser pisoteada por humanos tão cruéis com as baratas.
Uma noite, no meio de uma incursão noturna ao lixo, Coleoptera teve uma epifania. Ela viu um humano, com seu celular nas mãos, rindo de algo na tela e pensou: “Eles também têm um propósito, mas, o deles parece ser mais engraçado”.
No dia seguinte, Coleoptera reuniu suas irmãs e disse:
💬 Eu descobri! Nosso propósito não é apenas sobreviver... É entreter.
Kafkalina quase se engasgou com um pedaço de cereal encontrado no chão e, entre “tosses de barata”, disse:
💬 Entreter quem... O gato?
E Coleoptera responde, toda dona de si:
💬 Não... Os humanos. Pensem bem, por que eles gritam tanto quando nos veem? Por que eles pulam? É porque somos inesperadas. Somos a divina comédia do dia a dia deles.
Não-pise-em-mim, pela primeira vez, pareceu genuinamente interessada e diz:
💬 Então, quando um humano grita e sobe na cadeira, ele está rindo de nós?
Coleoptera abanou suas antenas animadamente:
💬 Exatamente! É uma espécie de riso histérico. Mas, é um riso. Somos a prova de que a vida, por mais banal que pareça, sempre pode ter um toque de absurdo e surpresa.
Desde aquele dia, Coleoptera passou a encarar sua existência com novo vigor. Quando via um humano se aproximando com um chinelo na mão, não fugia, fazia um desvio dramático, uma pequena pirueta no ar, como se estivesse se apresentando para uma plateia invisível. Às vezes, arriscava até um voo rasante, só para garantir uma boa risada, ou um grito estridente, que para ela era a mesma coisa.
Kafkalina e Não-pise-em-mim preferiam girar de costas, como se dançassem “breaking” e, embora ainda não entendessem completamente a filosofia de Coleoptera, notaram que a irmã parecia mais feliz.
E os humanos naquela cozinha, naquela casa... Bem, eles continuavam gritando e pulando. Mas, talvez, só talvez, no fundo de suas mentes, uma pequena parte deles estivesse, de fato, rindo da “divina comédia” inesperada que Coleoptera e suas irmãs proporcionavam, afinal, quem precisa de um “talk show” na TV, quando se tem “baratas filosóficas” em casa?
°°°
[NOTAS FINAIS ®DOUG BLOG]
¹ “Franz Kafka” (3 de julho de 1883 - 3 de junho de 1924), renomado escritor austríaco de idioma alemão.
* O primeiro “Smartphone” de boa qualidade foi o “Nokia 9000 Communicator”, lançado em (1996). Ele combinava funções de telefone com acesso à internet e um teclado físico completo, sendo um dos primeiros aparelhos a oferecer recursos de um computador em um dispositivo móvel.
웃 PERSONAGENS NAS ARTES NÃO MENCIONADOS NO TEXTO:
* “Batman”, é uma criação dos desenhistas e roteiristas de HQ americanos: “Bob Kane” (24 de outubro de 1915 - 3 de novembro de 1998) e “Bill Finger” (8 de fevereiro de 1914 - 18 de janeiro de 1974).
♫Aí Fernando...
Fala compadre.
Se liga na barata da vizinha tá aí meu filho.
Deixa comigo.
Só pra contrariar.
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama;
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama.
Diz aí Luís Fernando o que você vai fazer?
Vou comprar um pau pra me defender.
Diz aí Luís Fernando o que você vai fazer?
Vou comprar um pau pra me defender.
Ele vai dar uma paulada na barata dela...
Ele vai dar uma paulada na barata dela...
Ele vai dar uma paulada na barata dela...
Ele vai dar uma paulada na barata dela.
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama;
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama.
Diz aí Juliano o que você vai fazer?
Eu vou comprar um chicote pra me defender.
Diz aí Juliano o que você vai fazer?
Eu vou comprar um chicote pra me defender.
Ele vai dar uma chicotada na barata dela...
Ele vai dar uma chicotada na barata dela...
Ele vai dar uma chicotada na barata dela...
Ele vai dar uma chicotada na barata dela.
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama;
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama.
Diz aí Popó o que você vai fazer?
Eu vou comprar uma furadeira pra me defender.
Diz aí Popó o que você vai fazer?
Eu vou comprar uma furadeira pra me defender.
Ele vai dar uma furada na barata dela...
Ele vai dar uma furada na barata dela...
Ele vai dar uma furada na barata dela...
Ele vai dar uma furada na barata dela.
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama;
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama.
Diz aí Serginho o que você vai fazer?
Eu vou comprar uma espora pra me defender.
Diz aí Serginho o que você vai fazer?
Eu vou comprar uma espora pra me defender.
Ele vai dar uma esporada na barata dela...
Ele vai dar uma esporada na barata dela...
Ele vai dar uma esporada na barata dela...
Ele vai dar uma esporada na barata dela.
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama;
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama.
Diz aí Luizinho o que você vai fazer?
Eu vou comprar inseticida pra me defender.
Diz aí Luizinho o que você vai fazer?
Eu vou comprar inseticida pra me defender.
Ele vai dar uma tonteada na barata dela...
Ele vai dar uma tonteada na barata dela...
Ele vai dar uma tonteada na barata dela...
Ele vai dar uma tonteada na barata dela.
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama;
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama.
Diz aí Fernandinho o que você vai fazer?
Eu vou comprar uma bomba pra me defender.
Diz aí Fernando o que você vai fazer?
Eu vou comprar uma bomba pra me defender.
Ele vai dar uma bombada na barata dela...
Ele vai dar uma bombada na barata dela...
Ele vai dar uma bombada na barata dela...
Ele vai dar uma bombada na barata dela.
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama;
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama.
Diz aí “nego véio o que cê vai fazer?” [público]
Diz aí “nego véio o que cê vai fazer?” [público]
Ele vai dar uma espetada na barata dela...
Ele vai dar uma espetada na barata dela...
Ele vai dar uma espetada na barata dela...
Ele vai dar uma espetada na barata dela.
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama;
Toda vez que eu chego em casa
A barata da vizinha tá na minha cama;
Diz aí Alexandre o que você vai fazer?
Eu vou chamar a Xuxa pra me defender.
Diz aí Alexandre o que você vai fazer?
Eu vou chamar a Xuxa pra me defender.
Ele vai dar...
Ele vai dar...
Ele vai dar...
Ele vai dar...
Ele vai dar...
Ele vai dar...
Ele vai dar...
Ele vai dar...
Ele vai dar...
Ele vai dar...
Ele vai dar...
Ele vai dar...♫
°°°
* “A Barata - SPC - Só Pra Contrariar” (1993), compositor: “Alexandre Pires do Nascimento” (8 de janeiro de 1976).