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24 March 2025

PÉROLAS IMPERFEITAS
 
 
A culpa foi dos críticos. E, neste caso, daqueles já longínquos dos séculos XVII/XVIII que, quando confrontados com criações musicais menos conformes às regras da época, as recusaram e procuraram desacreditar. O primeiro terá sido o anónimo que, no "Mercure de France" de Maio de 1734, se queixava de, na ópera Hippolyte et Aricie, de Rameau, a única novidade ser "du barocque", isto é, a "ausência de melodias coerentes, as dissonâncias constantes, e as frequentes mudanças de tonalidade e compasso". O termo, "barroco", fora buscá-lo à língua portuguesa na qual, por via do latim - verrūca/verruga - se transformara num sinónimo de "pérola imperfeita". Em 1768, na Encyclopédie, também Jean-Jacques Rousseau se pronunciaria: "Música barroca é aquela cuja harmonia é confusa e sobrecarregada de modulações e dissonâncias. O canto é agreste e pouco natural, a entonação difícil e o movimento limitado". (daqui; segue para aqui)
 
John Randolph Marr - "Raggedy Ann"

12 February 2024

O IMENSO ABISMO NEGRO

Não é propriamente uma inovação herética: na banda sonora de Marie Antoinette, de Sofia Coppola (2006), escutámos, sem sobressalto, Siouxsie & The Banshees, New Order, Cure, Bow Wow Wow ou os Gang Of Four lado a lado com Vivaldi, Rameau ou Scarlatti; em Moulin Rouge, de Baz Luhrmann (2001), cruzarmo-nos com Madonna, T. Rex, Police, Nirvana e Elton John ou assistirmos ao parto de "The Sound Of Music" na trepidante Montmartre da viragem do século, não foi motivo de nenhum escândalo. E, pulando para o domínio das séries de televisão, na belíssima Westworld (2016/2022) - "um 'western' com robots" -, 'Paint It Black', dos Rolling Stones, 'House Of The Rising Sun', dos Animals, 'A Forest', de The Cure, 'Black Hole Sun', dos Soundgarden, ou 'Exit Music (For A Film)', dos Radiohead, tocadas por uma vetusta pianola, não provocaram a menor perplexidade. Mas, provavelmente, nenhuma outra atingiu tão plenamente a perfeição no encaixe entre música eléctrica contemporânea e contexto histórico "divergente" (início do século XX) como Peaky Blinders (2013/2022). (daqui; segue para aqui)
Anna Calvi- "Miquelon"

08 June 2020

Jean Philippe Rameau - L'Orchestre de Louis XV (Le Concert des Nations, dir. Jordi Savall)

03 June 2020

A ESTÉTICA DA RAPIDINHA


“Então, também está em quarentena?...” são as primeiras palavras que Stephin Merritt me dirige, a 5 400 quilómetros de distância, algures em Nova Iorque. Quilómetros a mais, aparentemente, para a rede telefónica que, após alguns minutos de tentativas frustradas de continuar um diálogo em termos inteligíveis, obrigará a prossegui-lo via e-mail. Ainda de viva voz, explicar-me-á que, para o novo álbum dos Magnetic Fields, Quickies – 28 canções com durações entre 17” e 2’30” – o conceito de “rapidinhas” só surgiu a meio caminho: “Raramente, se é que alguma vez isso aconteceu, decido fazer um álbum sem ter pelo menos algumas canções já escritas. Na verdade, 23 das canções de 69 Love Songs eram suficientemente curtas para poderem ter sido incluídas em Quickies. Creio que já tinha escrito ‘Bathroom Quickie’ e pus-me a imaginar como poderia ser um álbum em que ela encaixasse bem ou pudesse mesmo ser a peça central”


Pergunto-lhe se a atmosfera musical de caixa de música distorcida que atravessa todo o álbum terá algo a ver com aquilo que o "press release" revela – ele terá andado a ouvir muita música barroca francesa para cravo – e, primeiro, dá-me um bom conselho (“Nunca acreditar numa só palavra do que se lê num press release”), para, a seguir, confirmar: “É verdade que, no carro, tenho escutado bastante música para cravo de Rameau e da família Couperin. É perfeita porque não se deixa abafar pelo ruído do motor. Daí ter começado também a apreciar o som de um único instrumento, não usando a força mas a persuasão, e sem precisar de exagerar nos registos graves. Mas, de facto, tenho várias caixas de música e, um dia, ainda hei-de escrever alguma coisa para elas”. E remata com uma máxima digna de Leonard Bernstein: “Suponho que sou o tipo de pessoa que gosta desse tipo de sonoridade e exprimir aquilo de que gostamos em música é o primeiro e único propósito da música”. Todas as miniaturas de Quickies são povoadas por personagens peculiares, excêntricas, bizarras... ficcionais ou inspiradas em figuras e situações reais? “A maioria é imaginária embora "When the Brat Upstairs Got a Drum Kit" siga de muito perto algo que aconteceu com a Claudia Gonson e "I Wish I Were a Prostitute Again" registe e exagere discursos que ouvi a dois amigos meus que foram trabalhadores sexuais. "The Boy In The Corner" sou eu, sem dúvida, até ao ponto em que ele é atingido por um raio. Como figura contrastante, imaginei um amigo particularmente extrovertido que sempre que entra numa sala nunca passa despercebido. E nunca foi atingido por nenhum raio”.

Mas, numa gravação em que os temas recorrentes são “a morte súbita (por vezes, em escala massiva); os alemães; cientistas que fazem coisas estranhas com animais; conspirações; e o verdadeiro amor”, algumas merecem especial atenção: a rapariga de "The Biggest Tits In History”, o cientista louco de "Castle Down a Dirty Road", a criatura fantástica de "I WishI Had Fangs And A Tail", pretextos para divagações com consequências teológicas: “Qualquer pessoa que tenha aprendido a programar um sintetizador deve ter reparado como isso é semelhante a ser um cientista louco: ficar a pé, noite fora, a mexer em botões indecifráveis para fazer algo que os meros mortais nunca entenderiam nem que isso destruísse o mundo à volta!... Os desejos em ‘I Wish I Had Fangs And A Tail’ não são necessariamente cumulativos, o bigode garboso e as garras, por exemplo, podem anular-se. Tal como as qualidades de Deus se contradizem: é impossível ser, simultaneamente, omnisciente e omnipotente. A omnisciência implica conhecer o futuro mas, se o futuro já existe, não pode ser mudado, logo, não é omnipotente”.


O que, à boleia de "I’ve Got a Date With Jesus" e "You’ve Got a Friend in Beelzebub", o autoriza a concluir: “Acho a religião uma coisa completamente idiota, não entendo como pode ser levada tão a sério. A encarnação do mal costumava ser uma serpente mas, agora, tem asas de morcego e cascos fendidos. Pobre tipo! É o que dá desejar ter garras e cauda. Ser omnipotente? Nãããooo!...” Apresente-se, então o alter-ego de Bakunin moderno de Stephin Merritt, tal como é exposto nos dois manifestos radicais "The Day The Politicians Died" (todos! sem excepção!) e o feminista "Kill a Man A Week". São para levar à letra? “O desejo da eliminação dos políticos não é porque pense que devam ser destruidos individualmente por um raio de Zeus, ainda que isso fosse agradável. Mas não deveriam existir enquanto classe. As relações de poder entre pais e filhos são um mal necessário que, apenas décadas depois, pode ser vingado. Todas as outras relações de poder são males desnecessários. ‘Kill A Man A Week’ resolveria, sem dúvida, muitos problemas embora não de um modo tão eficiente como o extermínio dos políticos. Mas não me parece que, actualmente, pudesse existir um Bakunin, as armas nucleares deram cabo dessa possibilidade”.


Problemas de índole laboral e existencial abundam, como os do protagonista de "I Wish I Were A Prostitute Again", sonhando com um El Dorado irremediavelmente perdido (“A verdade é que ele pode sempre arregaçar as mangas e voltar a trabalhar como prostituto. Muito mais tristes são os desejos irrealizáveis daquele pobre diabo que quer pertencer a um 'biker gang' e nunca será suficientemente 'cool' para o fazer”), mas que, no que à trama narrativa respeita, poderiam passar de mão em mão, entre todas as personagens: “Lola, a ornitologista, despe a bata do laboratório e revela ter garras e cauda. Mas está também na comissão de planeamento da aldeia e é atingida por um raio no momento em que se preparava para atacar o ‘rock’n’roll guy’ com as suas mamas gigantes. E pode fazer-se o mesmo com as personagens de qualquer álbum: ‘Lucy in the sky’ ‘is leaving home’, despede-se do emprego como ‘meter maid’ e junta-se à Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band que vai dar um concerto no Albert Hall (depois de taparem os buracos) porque o exército inglês acabou de vencer a guerra (como se tal coisa fosse possível! é sempre a marinha que ganha)”.

Ainda que todas brevíssimas, canções como "Bathroom Quickie", "Song Of The Ant", "Death Pact", "She Says Hello" e "Castles Of America", com um segundo a menos de respiração, evaporar-se-iam. O objectivo último é inventar o haiku pop? “Bem, elas rimam, para haikus, são ainda grandes demais, e falta-lhes uma relação entre a natureza e as estações do ano. Não diria que não a essa ideia mas alguém já o deve ter feito (e não me apetece ir procurar ao Google)”. Para o imprevisível futuro dos outros alter-egos de Merritt - The 6ths, Gothic Archies e Future Bible Heroes –, porém, é necessário que estejam reunidas algumas condições: “Ainda só passaram 7 anos desde o último álbum dos Future Bible Heroes. Da última vez, foram 12 o que é uma frequência tipo Kraftwerk ou Kate Bush. Os 6ths andam mais por um interregno à escala dos My Bloody Valentine, é melhor começar a pensar em gravar qualquer coisa. Os Gothic Archies deram há pouco um concerto o que significa que, mais década, menos década, haverá um álbum. Estamos à espera que a situação mundial se torne muito, muito negra. Ainda não está suficientemente negra”. Não há-de tardar muito.