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27 February 2021


(sequência daqui) "The Land of Cockayne is one of the oldest English utopias, even pre-dating Thomas More. For the feudal and downtrodden peasant class of the Middle Ages, troubadours singing of Cockayne offered a compensatory vision of unimaginable plenty without effort; where unending physical and gastronomical pleasure was on tap and no punishment was meted out for laziness. 'The Big Rock Candy Mountain', a song originally collected in the 1930s by John Lomax, updates Cockayne for the Great Depression's discontents. Fittingly, the song as recorded by Burl Ives in 1949, was one of the first singles in the new Americam 'folk guitar' idiom to hit the big time back in the Old Country. The hobo's paradise where 'there ain't no short-handed shovels, no axes, saws, or picks... where you sleep all day, where they hang the Turk that invented work' is a post-industrial iteration of utopia that sounded mighty fine to a grey, somber Britain licking its war wounds" (Rob Young - Electric Eden/Unearthing Britain's Visionary Music) (segue para aqui)

Harry McClintock - "Big Rock Candy Mountain" (de O Brother, Where Art Thou?, de Joel e Ethan Coen, 2000)

11 December 2017

À PROCURA DE CANÇÕES


Libellus vere aureus, nec minus salutaris quam festivus, de optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia (“Um pequeno livro verdadeiramente dourado, não menos benéfico que divertido, sobre o melhor estado de uma república e a nova ilha Utopia"), – simplificando, a Utopia (1516) – seria o relato feito a Thomas More pelo imaginário navegador português, Rafael Hitlodeu, no qual ele descreve uma também imaginária sociedade ideal que teria descoberto numa ilha do Novo Mundo. Fundamentalmente igualitária e abominando a propriedade privada, andava, porém, longe da perfeição: cada família possuía dois escravos; as mulheres deviam confessar os seus pecados aos maridos mensalmente; a deslocação dentro da ilha só era permitida com autorização superior sob pena de escravatura, castigo igualmente aplicado em caso de adultério; e todas as religiões eram aceites mas os ateus eram mal vistos e persuadidos a corrigir o seu “erro”. 



Quinhentos anos depois, pareceu a Björk ser altura de imaginar uma nova Utopia: “Se, alguma vez, ser optimista foi urgente, agora é-o mais do que nunca. Em vez de resmungarmos e nos zangarmos, há que apresentar sugestões acerca de como deverá ser o mundo onde, no futuro desejamos viver”, desabafou ao “New York Times”. E, à “Pitchfork”, acrescentou: “Nestes tempos de Trump, é necessário ter um plano, um manifesto, uma alternativa. É uma questão de vida ou de morte para a nossa espécie. Como música, posso sugerir um ângulo poético: após tantas tragédias, há que inventar, tricotar ou bordar um novo mundo”. E, candidamente, descreve a sua Utopia (e respectivo álbum em que a apresenta): “Uma cidade nas núvens, liberta da gravidade, flutuando no ar”. Ou – porque, confessa, tem andado a ler obras de ficção-científica de autoras lésbicas negras –, “uma fuga organizada para uma ilha onde só há mulheres e crianças, toda a gente anda nua e toca flauta, a violência é desconhecida, e há pássaros e plantas jamais vistos”.



Oscar Wilde estava carregado de razão quando escreveu que “Um mapa do mundo que não inclua a Utopia não merece sequer ser olhado de relance”. O problema com a Utopia de Björk é que, mesmo descontando a imensa e embaraçosa ingenuidade, é coisa perigosamente próxima dos piores pesadelos "hippie-new-age", em reprovável promiscuidade com tiradas de "coach" de auto-ajuda. O plano inclinado começara já em Vulnicura (2015) – relato psicoticamente cronológico da separação de Matthew Barney – mas, se esse foi o álbum das trevas, este pretenderia ser o da luz e da redenção. No entanto (de novo com Arca/Alejandro Ghersi enquanto co-produtor e quase co-autor), o que se oferece para escutar é uma sucessão desnecessariamente longa de texturas, efeitos, sobreposições de vozes e timbres desesperadamente à procura de canções (Björk chama-lhe “uma rebelião optimista contra a melodia narrativa normal”), uma esgotante jornada na qual, de baixo de cada pedra saltam passarinhos, flautas, harpas e coros apropriadamente “paradisíacos”, e não se descobre um único texto que não soe pateticamente ridículo. 



Ele há os tântrico-esotéricos (“My sexual DNA, X-rays of my Kama Sutras, summons different bodies, compares spines and buttocks and back of necks” ou “Then my body memory kicks in, all bosoms and embraces, oral, anal entrances, enjoy the satisfaction if the other is growing”), os feministas-matriarcais (“All trapped in legal harness, Kafkaesque farce like patriarchy” e “Watch me form new nests, weave a matriarchal dome, build a musical scaffolding”) e os místico-pagãos (“As you narrate your own heart tale, you thread souls into one beam, the love you gave and have been given weave into your own dream, I trust my cells to rearchive my love historic stream (…) Tied ribbons on my ankles for you, drew orchids on my thighs for you, my spine curved erotically, we're finally vulnerable”). Na capa, Björk mostra um implante vulvar na testa, orifícios de flauta no pescoço e trompas de Falópio no lugar das sobrancelhas. A distopia anatómica?

29 November 2017

NÓS


“Para quê, para que servem os poetas em tempo de indigência?”, pergunta Hélia Correia pela voz de Amélia Muge, citando o Hölderlin de “Pão e Vinho”. Não terão, porventura, ainda reparado mas, no que acabaram de ler, está, senão a totalidade, pelo menos, a semente de Archipelagos - Passagens, de Amélia Muge e Michales Loukovikas. Esta atribuição de autoria está, entretanto, tremendamente amputada. Acrescentem-se, então, como se deve, Armando Soares, Euripides, Fernando Lopes-Graça, Fernando Pessoa (bilingue), Giorgos Andreou, Giorgos Mitsakis, João de Deus, José Gomes Ferreira, José Niza, José Saramago, Beethoven, Manos Achalinotópoulos, Martín Codax, Panagiotis Tountas, Rosalía de Castro, Safo, Vasilis Tsitsanis e Violeta Parra. Aos quais, enquanto co-autores, haverá de se adicionar António José Martins e Filipe Raposo, duas dezenas de instrumentistas lusos e helénicos, três corais, a Orquestra de Cordas Palhetadas Tanassis Tsipinakis, e as vozes (faladas) de Maria José Muge e Hélia Correia.



Talvez não capaz de rivalizar com as 18 000 ilhas do arquipélago da Indonésia, mas, ainda assim, quanto basta para, em exercício de geometria vertiginosamente variável, os articular num amplo mapa que se alarga do Médio Oriente à Macaronésia (Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde), do Mediterrâneo ao Atlântico. Esta, a cartografia exterior. Porque aquilo a que, na verdade, deverá prestar-se atenção é ao labirinto de sentidos, palavras e ideias que é obrigatório percorrer para que “Nós, os ateus, nós, os monoteístas, nós, os que reduzimos a beleza a pequenas tarefas, nós, os pobres adornados, os pobres confortáveis, os que a si mesmos se vigarizavam olhando para cima, para as torres, supondo que as podiam habitar” consigamos descobrir o que há de comum e o que distingue Ítaca da Utopia, de Thomas More, como navegar entre "bulerias" e mornas nas ondas de Codax, qual o elo entre a Trácia e a Galiza, entre divertimentos exdrúxulos e as personas de Pessoa. Com a bússola de A Terceira Miséria, de Hélia, nas mãos de Amélia Loukovikas, a (des)orientar o percurso dos “emudecidos, irmanados com os sem-terra, nós, os futuramente esfomeados, bárbaros com os pés no alcatrão, bebedores de petróleo” que se interrogam: “De que armas disporemos, se não destas que estão dentro do corpo: o pensamento, a ideia de polis, resgatada de um grande abuso, uma noção de casa e de hospitalidade e de barulho?”.

29 May 2017

UTOPIAS

(post convidado no Delito de Opinião)

Adão dá nomes aos animais - Theophanes de Creta, sec. XVI
 
Ia jurar ter lido algures que, acerca de Marx – Karl, não Groucho –, alguém terá dito que fez todas as perguntas certas e deu todas as respostas erradas. Procurei o autor mas não fui capaz de descobri-lo. Caso o consigam, agradeço. Se não, podem sempre atribuir-me a citação. Até porque, com autor devidamente identificado (Voltaire), há outra pelo menos tão eloquente: “Devemos julgar um homem pelas perguntas que faz mais do que pelas respostas que dá”. Em Janeiro deste ano, “Le Monde”, numa das suas publicações “hors-série”, actualizava L’Atlas des Utopies, lançado pela primeira vez em 2012. Quase 200 páginas, outros tantos mapas e 25 séculos de História repletos de perguntas e respostas. Mas, naturalmente, num inventário que vai da propriamente dita Utopia – acerca de cuja autoria os académicos hesitam: se muitos pensam ter sido Thomas More, outros, adeptos das “teses de Boliqueime” de um doutor honoris causa em Letras pelas universidades de Goa e Heriot-Watt, de Edimburgo, juram tratar-se de Thomas Mann – à República, de Platão, ao esperanto (designação anterior daquilo a que, hoje, chamamos “inglês”), às comunas owenianas, fourieristas, comunistas, socialistas e anarquistas (para cima de uma centena de covis de bisavós hippies), ou às profecias de Marx – Karl, não Groucho –, a utopia primordial é, sem dúvida, o Paraíso bíblico (ou Jardim do Éden), sobre o qual, mais do que exigir respostas, há imensas perguntas a fazer.

Lilith - Kenyon Cox, 1892
 
Umberto Eco, por exemplo, em Serendipities: Language and Lunacy, interrogava-se a propósito de um perturbante mistério: se, em Génesis 2:20, Adão teve por missão dar nome “a todos os animais: os rebanhos domésticos, as aves do céu e a todas as feras”, quem (sim, quem?) nomeou os peixes? Aliás, logo a seguir, surge outra dilacerante dúvida: se, em Génesis 1:27, lemos “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”, por que divino raio, em inexplicável "raccord" com o episódio da bicharada, somos testemunhas de um Jeová que, verificando que "Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”, não apenas pratica o primeiro acto cirúrgico precedido de anestesia – “Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne” – como realiza uma pioneiríssima clonagem transgénero: “com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele” (Génesis 2:21, 22)!... Onde pára, então, a miúda que nos tinha sido apresentada em Génesis 1:27?

Lilith (Suméria)

Poderá não ser a melhor resposta mas, algures entre os séculos VIII e XI, alguém arriscou dá-la, no Alfabeto de Ben Sirach. Afinal, no original, deveria ler-se assim: “Depois de ter criado Adão, Deus disse: não é bom que o homem esteja só. Criou, então, da terra, uma mulher para Adão, tal como o havia criado a ele e chamou-lhe Lilith. Adão e Lilith começaram imediatamente a desentender-se. Ela disse, ‘Não me deitarei por baixo de ti’, e ele disse ‘Não me deitarei por baixo de ti, apenas por cima. Foste feita para ficar por baixo e eu por cima’. Lilith respondeu ‘Somos iguais porque fomos ambos criados da terra’. Mas não chegaram a acordo e, quando Lilith se apercebeu disso, pronunciou o nome inefável e voou pelos ares”. Ou seja, tudo terá tido origem numa inconciliável diferença de preferências sobre posições coitais: enquanto Adão era adepto da que – por boas razões – viria a ser conhecida como “do missionário”, Lilith era, decididamente, uma “cowgirl”.

Fellatio Interruptus - Miguel Ângelo, sec. XVI 

Os sarilhos de Adão com mulheres continuariam com a segunda concubina, Eva. Por um motivo, aliás, teologicamente peculiar: em Génesis 2:16, Jeová, para autorizar o casal a viver no Eden Condominium, obrigara-o contratualmente a uma condição “De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás”. Traduzindo: uma vez que “o conhecimento do bem e do mal” é aquilo a que chamamos moral, se pretendiam permanecer eternamente felizes, não deveriam preocupar-se sequer com tais ninharias. E, a fazer fé (pois é disso que se trata) na maravilhosa representação do fellatio interruptus no qual Miguel Ângelo os apanha no tecto da Capela Sistina, cumpriam à risca o acordo. Momento dramático, porém: é justamente nesse instante que, enroscada na árvore, a serpente oferece o fruto proibido (como vimos antes, a moral) à compreensivelmente distraída Eva. E nova perplexidade surge: de cabeça perdida, Jeová vira-se para o surpreendido réptil e amaldiçoa-o: “Rastejarás sobre o teu próprio ventre!” (Génesis 3:14). Seguramente, mais tarde ou mais cedo, a paleontologia criacionista haverá de descobrir provas da existência de serpentes bípedes ou quadrúpedes contemporâneas de Adão e Eva. Mas, numa história que começou tão problemática e só pode ter prosseguido com um reprovável festival de incesto, é capaz de ser optimismo demasiado pensar em utopias.

25 April 2010

SE CALHAR É SÓ MÁ VONTADE MINHA MAS OUVIR
O CAVACO A DIZER COISINHAS QUERIDAS SOBRE
AS "INDÚSTRIAS CRIATIVAS" SOA-ME DEMASIADO
PARECIDO COM O CRISTIANO RONALDO A TECER
LOUVORES AO "TRACTATUS" DO WITTGENSTEIN...




Barcelona, Berlim, Amsterdão, Estocolmo e... tcharaaam!... Porto???!!!... assim como quem diz "aqui para nós, que ninguém nos ouve, se tivesse dependido de mim, tinha trocado vinte autoestradas pela Utopia do Thomas Mann" ?... (gente do Nuorte, nada de confusões: contem comigo na primeira linha para que o Puârto seja a "New Amsterdam" - estarei lá caído, dia-sim, dia-não).

(2010)