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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Onna bakari no yoru (1961) de Kinuyo Tanaka



por Estela Cosme

Como se pode escapar ao passado quando ele é ilegal? Como se pode refazer uma vida que o estado considera imoral? As mulheres que lideram o centro de reabilitação de Shiragiku parecem pensar que é através do trabalho árduo, submetendo as ex-prostitutas a tarefas domésticas e manuais que visam transformar as suas vidas, afastando-as assim da profissão que estão agora proibidas de exercer. A lei implementada em 1957 surgiu do boom que a atividade teve no Japão durante a Segunda Guerra Mundial, levando à pressão da sociedade para legislar medidas de proteção e reabilitação para as trabalhadoras, evitando a sua persistente exploração. Contudo, ao perder a sua única forma de sustento, estas mulheres não têm alternativa a não ser submeter-se a estes centros corretivos e aprender a distanciar-se de uma vida criminal. Mas a adaptação não é minimamente fácil pois fora do seu reformatório a sociedade continua a julgá-las e a desdenhar as suas tentativas de conversão. É Kuniko, a protagonista de Mulheres da Noite, quem descobre isso repetidamente, levando-a a um destino turbulento e amargo. 

A profissão mais velha do mundo é também aquela que mais dá que falar. Debatida pela sua moralidade (ou falta dela), não é de surpreender que seja retratada no cinema de forma tão variada, do mais banal ao mais sóbrio (isto quando não é adereço para as mulheres na vida de protagonistas masculinos). A romantização da prostituta Vivian em Um Sonho de Mulher (1990) e a glamourização de Satine em Moulin Rouge! (2001) em nada representam as realidades das profissionais do sexo. A inocente Iris de Taxi Driver (1976) existe quase apenas para alimentar o delírio do protagonista que decide salvá-la. Já Séverine de A Bela de Dia (1967) leva uma vida dupla, na qual encontra na prostituição uma libertação das suas fantasias sexuais e dos seus problemas matrimoniais. Bella Baxter no recente Pobres Criaturas (2023) vê na atividade uma continuação da sua exploração do mundo e do seu interior feminino. No anterior ciclo de Fassbinder, vimos como a protagonista de Lola (1981) aproveita a sua profissão para manipular as pessoas à sua volta. Quase todas elas apresentam algum grau de influência que as permite progredir social ou economicamente ou até ter algum proveito pessoal, romântico ou sexual. Perante estas representações ilusórias, as mulheres de Tanaka surgem como uma verdadeira antítese e talvez por isso seja um filme tão doloroso de presenciar, embora seja um antecessor a todos os aqui mencionados. 

Este filme foi escrito por Sumie Tanaka (adaptando um romance de Masako Yana) e certamente não será surpresa descobrir que também foi a guionista de Para Sempre Mulher (1955) de Kinuyo Tanaka, talvez o filme mais perturbador da realizadora até este. Todas as suas obras são centradas em mulheres, com vertente feminista, mas os dois filmes que fez com Sumie Tanaka são-no de forma mais vincada. Já tínhamos também assistido ao retrato de prostitutas em Carta de Amor (1953), mas este é apenas o ponto de partida para explorar o trágico romance entre os protagonistas. Certamente não é tão gráfico e realista na forma como retrata as trabalhadoras, sendo o seu contexto histórico muito diferente. Mulheres da Noite surge uns meros quatro anos após a implementação da lei anti-prostituição japonesa e tanto realizadora como escritora certamente detetaram uma urgência em retratar a nova realidade. O resultado é ferozmente comovente e talvez seja a lição mais empática que Tanaka nos ilustra. 

Kuniko não é uma personagem livre de defeitos. Afinal, ela reverte para os seus velhos costumes como forma de escapar à humilhação da sua primeira patroa, seduzindo sem remorsos o seu marido influenciável. Cansada de se esconder, no seu seguinte emprego decide assumir quem foi, uma honestidade que a aliena das suas novas colegas de trabalho. Kuniko rejeita os seus pedidos de prostituir-se e como tal vingam-se nela fisicamente. A violência ilustrada é de tal magnitude que se torna um tormento assistir à sua brutalização, sendo o momento de mutilação para além de agonizante. A agressão é ainda perpetrada por outras mulheres semelhantes a ela, que se julgam dignas de imputar e executar a Kuniko o castigo mais horrendo. Numa cena realizada de forma sucinta mas altamente eficaz, Tanaka roga-nos que não sejamos indiferentes aos infortúnios que acodem a mulheres como Kuniko. 

Já as cenas em que vemos Kuniko no seu terceiro emprego parecem etéreas, como se estivéssemos a ver outro filme, aliviados de ver Kuniko rodeada por filas e filas de flores na qual surge um novo amor, delicado e fugaz após tanto sofrimento. Contudo, é bom demais para durar e o passado volta a assombrá-la mais uma vez quando descobre que ela e o seu amado não podem casar, uma vez mais pelos seus crimes imorais. Por momentos pensamos que isto a levou a regredir para o lugar onde começou mas respiramos de alívio quando a vemos numa praia, com uma rede às costas, bem longe do seu passado, quer recente quer distante. Ela agora é uma ama, profissão japonesa de pescadores de pérolas e mariscos, uma humilde profissão para quem ainda anseia recomeçar outra vez. Esta é a sua quarta tentativa. 

Talvez seja aqui que o seu passado possa ser finalmente lavado, expurgado, um renascer assegurado como o sol que nasce todas as manhãs sobre o mar em que agora mergulha. Talvez aqui se aperceba que uma mulher tem sempre o poder de se reconstruir, uma e outra vez. E a vontade de uma mulher resiliente nunca ninguém pode ilegalizar.



quarta-feira, 4 de maio de 2022

Accattone (1961) de Pier Paolo Pasolini



por António Cruz Mendes

“Neste mundo já não se pode viver. É preciso afiar as garras”, diz-nos a dada altura Accattone, a personagem central desta história. E, mais tarde, o mesmo será dito por Balila, o chefe de um bando de pequenos ladrões: “O mundo é de quem tem dentes”. 

Nos seus termos, em palavras cruas e duras, os dois marginais limitam-se a confirmar uma ideia dominante numa sociedade fundada no interesse individual e na concorrência feroz. O propósito de acumular capital submete a si todos os valores e a posse de dinheiro ou a sua falta divide o mundo em vencedores e vencidos. Mas, existem as formas legalmente autorizadas de o obter e aquelas que são proibidas. Aos deserdados da sorte, a esse subproletariado que sobrevive nas periferias degradadas de Roma, restam as segundas. Pela sua origem social é gente do povo, mas aquilo que a sua prática social espelha nada mais é que uma versão mais sórdida, crua e descomposta da ideologia da burguesia. 

É comum considerar-se que os primeiros filmes de Pasolini denotam ainda a influência do neo-realismo italiano e é verdade que essa influência é evidente em Accattone, que foi a sua primeira longa-metragem. Percebemo-la na opção por actores não profissionais e no protagonismo dado a pessoas comuns, marcadas pela pobreza. Contudo, os protagonistas de Accattone não são os trabalhadores e o seu tema não é o da sua luta contra as injustiças de que são alvo, mas sim esse refugo social de pequenos ladrões e vigaristas, de chulos e de prostitutas que a boa sociedade burguesa condena e que, na medida do possível, tenta esconder da nossa vista. Pasolini, pelo contrário, trá-los à luz e, embora os veja como um pobre subproduto da sociedade capitalista, nutre por eles, um sentimento de simpatia e piedade. De facto, eleva-os à categoria de personagens trágicas que encontram um paralelo nos exemplos bíblicos e literários que, ao longo do filme, vão sendo citados. 

Nesta sua visão do seu mundo, misturam-se, para alguns algo estranhamente (a sua obra motivou críticas indignadas, tanto da Igreja como do PCI), as suas convicções cristãs e a suas convicções marxistas. Aliás, isso podia-se já observar em Meninos da Vida (1955) e em Uma Vida Violenta (1959), romances que antecederam Accattone e dos quais ele é, de certa forma, uma continuação. 
 
Em Accattone cruzam-se o desprezo pelo trabalho, a bazófia despropositada, a cínica exploração da prostituição e o acolhimento de uma família desprotegida, o amor de Stella e um desejo de redenção. O que o filme de Pasolini nos diz é que, mesmo no meio da maior miséria material e moral, ainda pode haver lugar para o amor e a esperança. 

Porém, este novelo de contradições só se poderia resolver num final trágico. A morte de Accattone adivinha-se logo nas primeiras sequências, quando ele aceita o desafio de se atirar de uma ponte depois de uma lauta refeição. Logo ali, se discute como será o seu funeral e o que se há-de escrever na sua lápide funerária. A partir de então, as várias cenas, pontuadas pelos acordes da Paixão Segundo S. Mateus, são como que os passos da subida ao Calvário que Accattone vai encetar. 

Nas sequências finais, regressado a casa exausto e humilhado, depois de um dia de trabalho muito duro, Vittorio assiste em sonho ao funeral de Accattone. Um sonho que se revelará premonitório. Então, finalmente, poderá descansar. As suas últimas palavras serão: “agora estou bem”.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Splendor in the Grass (1961) de Elia Kazan



por José Amaro

Este é o filme que inspirou o título do nosso ciclo de cinema deste mês de abril, “O clamor do sexo”. Foi este o nome que o Brasil, muito apropriadamente, deu a Esplendor na Relva
 
É uma das histórias de amor mais bem passadas para o cinema do que decorre um dos filmes mais belos de sempre. Sendo assim, ou mais ou menos assim, como foi possível uma tão má receção por parte do público, dos públicos já que esta receção aconteceu em todo o lado? O que é mais estranho é o facto da própria crítica o ter recebido mal. 

A beleza deste filme, para além da magnífica interpretação de Natalie Wood (Deanie) e do estreante Warren Beatty (Bud), arrisco dizer que ninguém como eles nos poderia representar as grandes questões que a dupla Elia Kazan, o realizador e William Inge, argumentista, nos trazem neste Esplendor na Relva

Estas questões, interligadíssimas, têm a ver com obediência castradoramente opressiva, aos pais (à mãe de Deanie e ao pai de Bud), que lhes dificulta, irreparavelmente, uma passagem normal à idade adulta. São estas questões centrais que declinam na mais importante de todas e que se pode traduzir numa privação de uma vida, a perda de algo inestimável. A perda de um primeiro amor que será primeiro e último. 

O caminho percorrido por ambos, Deanie e Bud, é um caminho tortuoso, pois percorre-se entre a obediência e a luta pela desobediência. Para qual deles o mais difícil já que o pai de Bud oprime pela ambição de fazer do filho um vencedor no mundo dos negócios, filho que quer apenas ter um rancho onde possa ser agricultor e ter uma vida normal. Para Deanie, que apenas quer ser feliz já e para sempre. 

É evidente que, para ambos, a forma de ultrapassar as suas dificuldades obriga-os a ultrapassar o quadro mental dos pais, tão coarctadores que são através de uma desmesurada exigência, para quem só há dois tipos de mulheres, as puras e as outras. 

Bud e a Deanie não conseguem dizer um ao outro as tantas coisas que querem dizer. Eles vão calando tudo deixando-se corroer pelos silêncios devidos à opressão dos pais. Mas é esse calar que nos faz entender tudo o que querem dizer. Digamos que nos dizem tudo com este inconseguimento em expressarem-se. É ao fazê-lo que ambos dão ao filme momentos de enorme beleza. 
 
Mas, voltemos ao início, 

What though the radiance
Apesar de a luminosidade
which was once so bright
outrora tão brilhante
Be now for ever taken from my sight, 
Estar agora para sempre afastada do meu olhar,
Though nothing can bring back the hour 
Ainda que nada possa devolver o momento
Of splendour in the grass, 
Do esplendor na relva,
of glory in the flower, 
da glória na flor,
We will grieve not, rather find 
Não nos lamentaremos, inspirados
Strength in what remains behind; 
no que fica para trás;
In the primal sympathy 
Na empatia primordial
Which having been must ever be; 
que tendo sido sempre será;
In the soothing thoughts that spring 
Nos suaves pensamentos que nascem
Out of human suffering; 
do sofrimento humano;
In the faith that looks through death, 
Na fé que supera a morte,
In years that bring the philosophic mind. 
Nos tempos que anunciam o espírito filosófico.

(tradução de Catarina Belo) 
 
...porque o início foi este poema de William Wordsworth ao inspirar Elia Kazan para o filme com o mesmo título: Splendor in the Grass. Chegado aqui, não resisto, porque não sei dizer melhor, a transcrever um trecho da folha da Cinemateca, escrita pelo fabuloso João Bénard da Costa: 
 
“Numa aula (aquelas aulas em que Natalie Wood entra sempre com três livros apertados ao peito, um deles de capa azul), o tema em vez de ser, dessa vez, o dos Cavaleiros da Távola Redonda, é Wordsworth e a “Ode of Intimation to Immortality”. Quando Natalie Wood entra na aula, de vestido grenat muito escuro, e gola de rendas, já todas sabem - e ela também, embora ninguém lho tenha dito - o que se passou entre Bud e Juanita. E é quando todo o mundo vacila à roda dela que a professora a interpela para lhe perguntar o que é que o poeta quer dizer com os versos famosos: “No, nothing can bring back the hour/ the splendor in the grass, the glory in the flower”. Para a estúpida e pedagógica pergunta não há resposta, ou - a esse nível - só há a que Natalie Wood comoventemente tenta articular. Mas não é nada disso que conta, não é nada disso que o poeta quis dizer. 
O que conta, o que o poeta quis dizer, é aquele espantoso travelling que põe Deannie diante da professora, depois o outro que nos atira com uma porta na cara e, por fim, o plano em que a vemos, sozinha, na profundidade de campo do corredor, até ir parar à enfermaria: Nesse minuto de cinema sabemos, para além das palavras, que “that radiance that was once so bright / Is now forever taken from my sight”. Essa radiance que existiu entre o plano inicial (a primeira visão da catarata, “I’m afraid, oh Bud”) até essa outra sequência da catarata, já sem ela, quando Bud saciou no corpo de outra o desejo de que essas cataratas são a mais poderosas das metáforas. O splendor in the grass é o que vimos até essa aula” 
 
Também é verdade que o filme, embora da década de 1960, reporta ao final da década de 1920, quando tudo, petróleo, Bolsa de Valores, Indústria etc, só tinha um caminho, o caminho do crescimento. Mas, para a economia de interesses desta folha de sala, nada disto me importa, o que importa é o Clamor do sexo, que os castradores pais “proibiram” levando os filhos a uma perda de algo extremamente valioso ...uma vida de felicidade que, como é confessado por ambos (Deanie e Bud) no último diálogo do filme: eles já não pensam nessa coisa da felicidade...vão apenas viver. 
 
Mas foi ou não a vida que lhes roubaram?

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Cléo de 5 à 7 (1961) de Agnès Varda



por Roger Tailleur

Cléo: Daqui até à Eternidade

Comecemos por colocar o filme num pedestal dentro das minhas classificações pessoais: a meu ver, Cléo de 5 à 7 é o melhor filme francês desde Hiroshima, meu Amor de Alain Resnais, Le Bel Age de Pierre Kast e Le Trou de Jacques Becker.

Não há nada mais admirável do que um intelecto regado com sensibilidade, tirando talvez a sensibilidade guiada pelo intelecto. Não há nada mais raro do que uma mente apaixonada em igual medida pelo rigor e pela fantasia, tirando um temperamento que é hiper-instintivo e extra-lúcido ao mesmo tempo. Agnès Varda é a harmonia dos seus contrários, e talvez a mais completa dos nossos cineastas, se não se vir demasiado limitada pelo seu sexo (nada poderia ser menos certo do que isso, como costuma acontecer). Cléo é então tanto o mais livre dos filmes como o filme que é maior prisioneiro de constrições, o mais natural e o mais formal, o mais realista e o mais precioso, o mais comovente de ver e o mais agradável para assistir. Com tanta felicidade em termos de expressão, uma coisa é clara: Varda, para usar as suas próprias palavras, teve de sujar as mãos pelo menos uma vez na vida. Deu-lhe sorte.[1]

Varda, que é a criadora de La Pointe courte, que outrora nos aborrecia mas que na nova versão foi re-sincronizado e em retrospectiva bem nos podia encher de vergonha – e que também fez três curtas maravilhosas, não é a jóia mais pequena da nova coroa cinematográfica francesa. É uma maravilhosa representante desse cinema, em pé de igualdade com Resnais e Chris Marker, para não mencionar Armand Gatti, Kast e Jean-Claude Bonnardot. Uma família estranha, talvez? No entanto, basta dar uma olhadela às suas respectivas filmografias, em que dão conselhos uns aos outros, comentam o trabalho uns dos outros, partilham montadores, compositores, directores de fotografia, e olhar para os seus filmes, com as suas piscadelas de olho recíprocas e despreocupadas ocasionais, que são notáveis principalmente pela audácia dos seus temas e as suas estruturas, para ver que para além das recepções variadas dadas a estes filmes – ao lado de um êxito rodeado de amarga controvérsia, três filmes totalmente banidos e alguns fracassos de bilheteira – o que estes criadores nos oferecem não é um bando barulhento e bem organizado. Nem um sindicato empenhado na intimidação numa tentativa de ganhar prestígio, mas um verdadeiro Centre National de la Recherche Cinématographique, em que os nómadas respondem aos que ficam em casa e a experiência mais esotérica é bem contrabalançada pelas afirmações de talento mais estritamente estruturadas.

Isto é então um esforço para situar Varda, “condicioná-la”, como ela gosta de dizer, e em relação a Cléo, salientar a pesquisa narrativa, as limitações temporais, as preocupações vitais, o tom e a superfície elegantes, e dois a dois, o humor e a ansiedade, a gravidade e a poesia.



O QUÊ 

Qual é o tema de Cléo? Uma mulher sabe que vai morrer; de forma mais precisa, pode morrer e acredita que vai morrer. É uma mulher jovem e muito bonita. Por um período de noventa minutos, desde a altura (5 da tarde) em que consulta uma adivinhadeira pouco reconfortante, até às 6:30 da tarde, quando um médico lhe dá só com algumas palavras uma perspectiva bem optimista (sobre a qual podemos duvidar da sua sinceridade total) baseada nos resultados de uma análise médica, noventa minutos até ela, como um herói macabro obcecado com uma questão menor, não conseguir pensar em mais nada: o escândalo, a sua morte. A sua secretária Angèle (Dominique Davray), o seu namorado, os músicos com quem ensaia algumas canções às 5:30 da tarde (segundo Varda, “ela não é uma cantora muito conhecida”), uma amiga, Dorothée (Dorothée Blank), que é modelo de esculturas, que ela visita às seis menos dez, um jovem que dá pelo nome de Antoine (Antoine Bourseiller) e que a aborda um quarto de hora mais tarde no Parque de Montsouris e a acompanha para o Hospital de Salpêtriére, nenhum deles se consegue pôr mesmo entre Cléo (Corinne Marchand) e a sua obsessão incontrolável. Nenhum a não ser Antoine, mesmo no fim, apenas alguns momentos antes do médico aparecer, um oráculo subitamente bem fútil.

A morte está em todo o lado pelo caminho seguido por Cléo nessa tarde: é a máscara pálida da adivinhadeira; uma velha de cabelos brancos apanhada subitamente de um ângulo baixo filmada como uma mulher morta num filme de Carl Dreyer (as melhores estão em Eles apanharam a barcaça e Vampiro); são as muitas seduções de uma chapelaria (“O preto fica-me muito bem,” diz Cléo, experimentando vários chapéus); são as máscaras africanas nas janelas da loja de antiguidades na Rua Guénégaud, que nos lembram todas que “as estátuas também morrem” e que os censores estão à frente do funeral; a confrontação com um funeral em Montparnasse, neste caso; é a ironia de uma placa que diz “à nossa saúde”; é um filme curto, macabro e burlesco visto da sala de projecção; ou as palavras infelizes usadas em conversa: “Os mortos, já não sabemos quem são,” diz Dorothée enquanto tenta perceber os nomes das ruas nas placas. “Se se for preso, é improvável que se morra,” diz uma taxista. “Hoje,” diz Antoine, “o sol deixa a constelação de Gémeos e entra na de Carangueijo[2].” Longe de permanecer um leitmotiv abstracto, o pensamento escava fundo pela carne de Cléo, como uma lasca, e qualquer cena que seja ligeiramente anormal, desde que sugira dor física ou acrobacias viscerais, causa repulsa e deixa-nos à beira da náusea.

Um engolidor de sapos, um acupuncturista de rua, um buraco de bala numa janela de café como liquidação de umas contas misteriosas, quase a fazem desmaiar: “Sinto-me virada do avesso.” Depois de ver a primeira máscara africana, põe a cabeça de fora da janela do táxi para uma lufada de ar fresco. Umas notícias na rádio sobre a convalescência difícil da sua bem conhecida colega cantora Edith Piaf, uma história que lhe é contada pela mulher taxista sobre alguns dos seus encontros com clientes difíceis, e uma discussão de mulheres paraquedistas, põem-na fria com o horror. No clima que reina devido a uma obsessão destas, a superstição cresce. Mas Cléo, que procura respostas nas cartas e se aborrece com um espelho partido, não está sozinha em querer propiciar os decretos da providência. Por outro lado, os amigos dela vêem a sua sensibilidade para com o destino como uma forma de serem atenciosos e delicados com ela. “Nada de noves numa Terça-Feira,” diz e repete Angèle, a secretária, “não queres má sorte nenhuma, pois não?” Este táxi, não, tem um número com azar,” acrescenta Angèle dez segundos depois. Dorothée, que se ausenta um momento, diz-lhe para “pensar noutra coisa; conta chapéus de marinheiros.” E a própria Varda divide calmamente a sua história num prólogo e treze capítulos, e depois arranja as coisas de forma a que corra tudo de forma tranquila para a sua heroína, assim que regressa. A generosidade atenciosa de Dorothée ao dar-lhe o chapéu que queria, um pequeno chapéu de pele preta que tinha escolhido apesar dos protestos de Angèle.

Uma abundância tal de referências à morte e aos sinais da morte seria insuportável, obviamente, se Varda acreditasse mesmo ligeiramente no simbolismo. Mas, em vez disso, ela é definitivamente uma realista absoluta. Jean-Luc Godard, depois de incorporar no seu filme O Acossado uma cena de um acidente de carro que Jean-Paul Belmondo tinha testemunhado por um momento, foi capaz de dizer sobre o seu filme, entre muitos outros comentários auto-referenciais palavrosos, que estava concentrado na obsessão com a morte; essa foi a explicação dele, supostamente resultante de um acesso de inspiração febril, para todos os fins práticos. Varda, que como acabámos de ver, também consegue lidar com o destino, permanece lúcida quando a criação artística está em discussão, e não está particularmente interessada em partilhar os seus créditos com o acaso ou quaisquer outras forças obscuras de adivinhação. Tal como L'Opéra-mouffe de Varda era o diário de uma mulher grávida, Cléo é o diário de alguém que está mesmo doente, não apenas a imaginá-lo, e que tem medo de morrer. Na revista Témoignage Chrétien (3 de Abril de 1959), Varda explicou: “A forma como compreendemos uma mulher grávida é condicionada, e portanto alterada, pelas suas circunstâncias. Ela escolhe reparar inconscientemente no que é que isto significa ao certo, como o facto de ver velhos enquanto que nós, na mesma rua, veríamos principalmente crianças, casas ou cafés... Portanto o meu cinema é expressionista, distorce o mundo, mostra-o de um ângulo particular.” E falando de Cléo, numa entrevista para revista L'Express (29 de Junho de 1961): “No princípio, queria viajar à volta de Paris, mas Paris vista por alguém que olhasse para as coisas de forma especial. Porque não o ponto de vista de alguém que vai morrer? Porque não uma mulher? … O que me interessa sempre é a forma de apreender a realidade.” “Condicionada,” “ângulo particular,” “forma especial” – poderá ser esta a versão feminina do “ponto de vista documentado” tão caro a Jean Vigo? Em todo o caso, há uma grande diferença entre não ter consciência de todos os detalhes numa coisa que foi extensivamente estudada e não ter consciência de algo por causa de uma pincelada de preguiça ou falta de preparação, e entre os impulsos que foram investigados e retransmitidos e os impulsos que andam aos círculos. 

Esta visão realista, de uma forma extrema e imediatamente concreta, que nos mostra alternadamente Cléo e o que a sua “opinião” do mundo selecciona dele, é como um longo acto de equilíbrio não só de planos e planos de ângulos inversos, porque os planos de Cléo não são menos subjectivos que os outros, mas subjectivos de uma forma muito variável em termos do seu nível de referência à própria heroína. De facto, Cléo encontra pessoas que a medem de cima a baixo tal como ela as mede a elas, e cada um dos treze capítulos inclui um nome próprio no título (Cléo cinco vezes, seguida de Angèle, Bob, Dorothée e Antoine). A criadora explicou o significado dos seus títulos num pequeno preâmbulo ao filme: “A rodagem, a realização e até as “cores” de cada capítulo têm a intenção de caracterizar a opinião ou a perspectiva de cada pessoa, e quando é Cléo que 'vê,' ela idealiza o seu carácter (por exemplo, Angèle 'vê' imagens simples, claras e realistas em planos estáticos. Cléo vê imagens enquadradas diante de planos de fundo pálidos e vagos em movimentos sinuosos).” Este “marienbadismo”[3] do filme não é tão sistemático, apressamo-lo a dizer, como essas palavras parecem indicar. Em primeiro lugar, se fosse absolutamente necessário estar ciente dos saltos de ponto de vista de uns capítulos para os outros, então os títulos seriam suficientes para nos informar imediatamente de quem assumia o controlo. Mas o realismo possante impõe uma forma de consistência e fluidez de tom ao filme que, inicialmente, torna o público inconsciente de todos esses saltos no discurso.

Se não fosse o preâmbulo, eu não teria reparado no que quer que fosse, e acreditaria sem rodeios que os títulos dos capítulos só estavam lá para estruturar a história, situar-nos no tempo e apresentar as personagens. Estaria enganado; por exemplo, a sequência com a visita do namorado não se chama “José” mas “Cléo.” Tendo pensado sobre esses assuntos, porque era necessário fazê-lo, não discutamos com Varda acerca dos seus travellings no Capítulo IV, chamado “Angèle”, e admitamos que muitos dos capítulos, estritamente da perspectiva da realização, são desenhados de forma admirável em termos de ponto de vista: O Capítulo VI, por exemplo, que é louco e cheio de gags e movimentos de câmara, e digno em todos os aspectos das fantasias desenfreadas do compositor Bob (Michel Legrand); o Capítulo V é elegante, agitado e pleno de sorrisos afectados de Cléo; O Capítulo VIII (“Outros”) está cheio de mudanças abruptas, impressões fragmentadas e unilateralidade documental. De forma mais frequente, e mais simples, as personagens têm capítulos em que são “a estrela” em termos de diálogo e presença no ecrã: Angèle no Capítulo II, porque está cheio da tagarelice carinhosa dela; Raoul (José-Luis de Villalonga) no Capítulo X porque o cenário é a sala de cinema em que ele trabalha como projeccionista, e em que diz, “Não há doença que ganhe se se conseguir parar para rir por um momento” antes de projectar uma curta cómica; Antoine no Capítulo XII porque está lá, a lidar com a guerra e com o amor; e por último, o Capítulo XIII, “Cléo e Antoine,” porque Cléo aceita falar pela primeira vez.

Sejam quais forem os níveis de subjectividade para os vários episódios, e a nossa acuidade correspondente de percepção, as diferentes “visões” sobre a observação, com duas excepções, permanecem puramente retinianas: o que vemos é algo que toda a gente consegue ver – só mudam os pontos de vista. As únicas duas vezes em que o olhar imperturbavelmente concreto do filme pestaneja são às 5:05 da tarde enquanto Cléo deixa a adivinhadeira, quando o mesmo plano é usado três vezes numa sequência de montagem rápida que mostra a cara dela a mover-se de forma estridente para a frente, uma impressão bem traduzida de descer uma escadaria a ritmo médio; e às 5:50 da tarde, quando pensa em pessoas diferentes a descer a rua, e nos são dados planos em lampejos sobrepostos da adivinhadeira, do engolidor de sapos, do namorado, de Angèle e da própria Cléo a arrancar o cabelo falso dela, etc, pontos de vista excessivamente óbvios cortados no tempo com a objectividade igualmente insistente do metrónomo ouvido mais cedo durante os créditos. Nestes dois momentos, quando o olho interior substitui o olho físico, triunfa o “marienbadismo” de que acabámos de falar. 

Mas o triunfo é de pouca duração. A vitória de Cléo está noutro lado: numa co-existência próxima entre o objectivo e o subjectivo, em que o melhor de uma pessoa pode viver em bons termos com o melhor de outra, sem que qualquer uma delas se afaste ou sinta enfraquecida pela outra, tal como nos filmes de Michelangelo Antonioni o invólucro aparente esconde artifícios (comentário, câmara subjectiva, monólogos interiores, etc.) mas cuja substância íntima reflecte um nível incomparável de subjectividade.



ONDE E QUANDO 

Para conseguir isso, Varda utiliza uma variedade de pontos de referência objectivos, de tal forma que o seu filme tem mais limitações auto-impostas do que qualquer outro que se possa imaginar. Ela decidiu seguir Cléo para todo o lado durante noventa minutos seguidos, sem nunca permitir uma elipse que remova a heroína tanto do tempo em que vive mesmo como dos lugares por que passa. Isto é um desafio único porque os filmes famosos do passado rodados em “tempo absoluto” (The Set-Up de Robert Wise, A Corda de Alfred Hitchcock e High Noon de Fred Zinnemann), comprometiam a sua continuidade temporal, e às vezes a sua continuidade espacial, por se centrarem em personagens diferentes. Mas ela vence o desafio, apenas com duas breves excepções, as famosas duas excepções que confirmam a regra: às 5:04 da tarde, a adivinhadeira fecha a porta a Cléo e diz ao marido (?), que está no quarto ao lado, “Vi-lhe cancro na mão”; e às 5:13 da tarde, quando os dois músicos nas alas montam uma farsa especial que inventaram só para Cléo. Com a excepção destes parcos segundos, estamos sempre com Cléo; esteja ou não no enquadramento, está na cena. O que está no ecrã é o que ela está a viver ou o que está a ver. Também há detalhes de todos os tipos, e parecem ser obsessivos, para os nossos olhos desabituados.

Quando saltamos para um táxi na Rua de Rivoli para ir para a rua Huyghens, estamos claramente a descer a rua Vavin, que é muito perto do Studio-Parnasse. Quando chegamos ao Parque de Montsouris pela avenida Montsouris, apeamos pela avenida Reille precisamente no sítio em que encontramos, senão uma estátua de Ado Kyrou, pelo menos o seu fantasma. O autocarro 67 que nos leva do Parque de Montsouris para o Hospital de la Pitié vai até à Estação de Verlaine e, um bocado mais longe, atravessa a Praça de Itália. Tem de se dar dois bilhetes ao revisor, tal como foram pagos quatro francos novos pela viagem no primeiro táxi. Quando o rádio do táxi diz que são 5:22 da tarde, não estão a brincar; podia-se sincronizar o relógio pela coisa. E estes noventa minutos altamente ostensivos não estão algures na eternidade; foram vividos uma vez, apenas uma e de uma vez por todas. O que é que estávamos a fazer a 21 de Junho de 1961, o primeiro dia oficial do Verão, o dia mais longo do ano? Por volta das 6 da tarde, mesmo no momento em que Cléo estava às gargalhadas a ver o seu pequeno filme burlesco, eu estava a entrar no Cinema Elysée para ver outra vez O Homem do Oeste, com Gary Cooper, que, por sinal, tinha morrido de cancro no mês anterior. Marcel Achard, o Claude Chabrol da geração passada, que estava sentado na fila atrás de mim, podia-o confirmar prontamente, pelo menos se os seus papéis pessoais estiverem em tão boas condições como os meus. Mas acho que vinte e um foi uma Quarta-feira, ao passo que Cléo, como nos lembram no incidente do chapéu preto, se passou numa Terça-Feira. Então, foi no século vinte ou no vinte e um? Quem tem razão, o meu calendário ou o simpático mas tagarela Antoine, o mensageiro do Verão cuja omnisciência não o impediu de confundir Flora com Ceres? Talvez o noticiário no rádio do táxi nos possa informar.

Conseguíamos ouvir conversas sobre a próxima Tour de France, dos problemas dos camponeses na Bretanha, acidentes de trabalho, e por último, lentamente, equilibrado na voz monótona de um altifalante, da guerra decididamente interminável na Argélia. Pobre cinema francês, cinema esterilizado pobrezinho, em que a projecção de um simples noticiário no silêncio de uma sala escura constitui um evento audaz e inovador, e nós ficamos surpreendidos quando o ouvimos e tememos a presença provável de um censor na escuridão. Mais tarde, depois desta fenda ter sido bem e mesmo aberta, Antoine, o soldado de licença, dirá sem levantar a voz o quanto odeia morrer por nada, antes de se preparar para apanhar o barco de volta para lá. (Ao escrever isto, lembro-me subitamente que Cléo é como um remake novo e muito francês de Trade Winds de Tay Garnett, em que duas pessoas, uma das quais suspeita de homicídio, têm um breve interlúdio de amor.) O reino “que pertence a todos” é de novo brilhante nas sequências e planos em que Agnès se consegue entregar alegremente a si mesma ao documentário: os travellings avedonianos numa chapelaria; mais dois num estúdio de escultura; o café Dôme esboçado de forma magistral; uma psicanálise rápida de Godard a utilizar o método do Dr. Mack Sennett; e na banda-sonora, graças às discussões prolongadas de Antoine, dignas de Jean Giraudoux, com milhares de detalhes úteis e informativos sobre as árvores e os hospitais de Paris, amor do tipo que as raparigas jovens não sentem, mitologia e outros etcéteras detectáveis.

A estrutura da história não é menos rigorosa e precisa do que a própria realidade. Permitam-me falar aqui sobre estrutura musical. Cléo começa com uma abertura (uma abertura francesa ao estilo da Carmen, diria o purista) em que tudo é dito, reunido e resumido, com um tema principal e temas secundários. Enquanto brinca com as suas cartas de tarot, a adivinhadeira fala a Cléo sobre a sua vida, quase sem se desviar do tópico da morte. Fala-lhe sobre o amante que não casa com ela, um jovem que vai conhecer, uma partida, uma viagem, uma doença séria que ela leva demasiado a sério, e mesmo antes da última carta, a número treze, diz a Cléo às lágrimas: “Não é morte, mas uma transformação profunda de todo o seu ser.” A abertura chega aqui a um fim e aparecem os créditos. Mais tarde, no Capítulo II, reaparece um tema na forma de uma anedota contada por Angèle: Angèle fala sobre um camponês das Causses a sudeste de França, que depois de ter sido informado pelos seus médicos de que ia morrer, parte numa longa viagem – não a última viagem – pelo Mediterrâneo e regressa saudável e animado à sua pequena aldeia, onde a mulher, a infeliz Penelope, tinha morrido num acidente enquanto ele estava fora. O tema também é parafraseado, sempre com um contraponto filosófico, no pequeno filme burlesco: devido aos seus óculos escuros, Godard vê de forma tão falsa como indicaria o visionamento demasiado simplista de O Acossado. Acha que Anna, a sua mulher, é preta; ela é esmagada e desaparece num horrível carro fúnebre, etc. Depois, quando atira os seus óculos escuros para o rio e se livra da miopia sistemática das suas ideias e visões negras, volta a encontrar Anna, outra vez com o cabelo louro. “Ah, estava a ver tudo preto por causa dos meus óculos,” diz a legenda, “Raio dos óculos escuros!”



PORQUÊ 

O tema principal, de que não falei muito até agora, é que todos os padrões fixos matam, através das palavras. Aquilo que se encontra no cerne de Cléo é menos a obsessão com a morte e mais a possibilidade de quebrar esse círculo, não tanto da morte, mas da mudança. “A transformação profunda do ser,” como disse a velha, uma forma de pôr um fim aos monólogos banais, à superstição, e de arrancar persianas e óculos escuros, sair de nós próprios para ir de encontro aos outros, ou pelo menos na direcção um do outro. Podemos seguir as etapas desta passagem quase imperceptível mas contínua entre ser egocêntrico e passar a ser mais comunicativo nos diálogos, e ainda melhor à frente dos outros, dependendo do facto de sermos confrontados com uma esfinge de indiferença ou um Pítias reconfortante. Cléo tem uma constelação de rostos humanos quase ao nível de L'Opera-mouffe, em que as caras tinham uma presença assombrosa.

Depois de verem o filme A Paixão de Joana d'Arc de Carl Dreyer, os clientes esperam na loja da adivinhadeira a uma luz que é digna da manhã perfeita para as execuções; temos Cléo a procurar a sua cara, do fundo das escadas, a chorar em frente ao seu reflexo, “A morte é ser feia; estou dez vezes mais viva do que os outros,” e a chorar de novo no café, com a cara contra o espelho. Temos a atenção excessivamente profissional do dono e de um empregado (“Então, menina, o que é que se passa?”), indiferença elevada a um sistema, apoiada com rações, justificações, etc., do amante, a curiosidade fugaz dos transeuntes na rua, a multidão no café Dôme em ilhas pequenas mas bem repartidas, e temos Cléo diante de outro espelho, num restaurante chinês: “Está toda a gente a olhar para mim e eu só olho para mim mesma,” em resposta a Dorothée e depois desta lhe perguntar sobre a sua doença: “É no estômago; pelo menos não se pode ver, ninguém suspeita do que quer que seja,” e depois admitindo a Antoine: “Estou surpreendida com tudo, as caras das pessoas e a minha ao lado delas.” Retratar este bailado de rostos perpétuo, esta interacção incessante de vislumbres e olhares, dá num filme que descreve em detalhe as pessoas a olharem umas para as outras e a verem-se a olhar umas para as outras; por outro lado, há imagens-espelho, porque para Cléo outra cara é simplesmente outro espelho, mas um que distorce mais, que é mais incómodo e, com um bocado de sorte, como no retrato refrangente de Dorian Gray, existe a oportunidade de ver a própria morte a trabalhar (como disse Cocteau); noutras alturas é como uma luta de esgrima, em que a melhor opção de Cléo para contrariar a agressão do olhar da outra pessoa é recusar-se a apanhar o seu florete.

Mas Cléo vai mudar. Cléo a criança mimada, Cléo a rapariga arrogante, Cléo a fazer o beicinho, a Cléo tempestiva, que brinca com o seu corpo mas não oferece o coração, Cléo a quem os títulos de canções “L'Allumeuse” (“A Provocadora”), depois “ La Menteuse” (“A Mentirosa”), e depois “Moi, je joue” (“Eu jogo o jogo”) se adequam tão bem, Cléo vai mudar. O local é um jardim cheio de chilrear de pássaros, cascatas, e paisagens lunares, e outro jardim, que se parece com o parque que rodeava um castelo em tempos passados. Neste mapa do Terno [um país alegórico em que se imaginaram diversas formas de amor], onde se pode encontrar de novo o Éden, coberto de sapatilhas, de Du côté de la côte, os autocarros antigos com plataforma funcional sem perigo algum. Varda insiste em tornar instrumental Antoine, quase a primeira pessoa a aparecer, pensando talvez neste poema inspirado encantador de René Char chamado “L'Amour”:

Ser
O primeiro a aparecer.

Gostávamos que as primeiras pessoas a aparecer fossem exactamente como ele. Durante meia-hora, Antoine transforma um desses discursos de amizade afectuosa e cumplicidade crescente, na forma em que os imaginaríamos, perfeitos e eternos, apenas com os olhos fechados na escuridão, na borda de um sono que não vai chegar. O talentoso Antoine Bourseiller, um tipo simpático e contagioso, fala incansavelmente da sua forma séria e divertida, humilde e segura, sentenciosa e agradável. Durante vinte minutos temos um movimento amplo e firmemente ascendente que constitui uma das duas ou três cenas mais belas de amor de todo o cinema. Há uma cena em que o amor é discutido, mas só de forma indirecta, em que a frase “Eu amo-te” e o beijo não se mostram, sem nem sequer uma vez nos fazer lembrar dos conceitos de discrição ou sobriedade, esses apêndices críticos vulgares, porque é tudo feito com uma naturalidade maravilhosa. Cléo deixa de ser um sujeito tirânico e pode permanecer fora de si mesma; isto quer dizer que ela quer ser um objecto apenas enquanto se torna parte de um casal. Quando Antoine está prestes a sair do autocarro, ela chama-o de volta dizendo, “Mas tu estás comigo!” Ele responde calmamente, “Tu também estás comigo.” E depois temos a oferta de uma flor, um dar de mãos, uma troca de endereços, um “Obrigado Florence, obrigado Cléo,” e começam a falar sobre o futuro juntos, levando este duo exemplar a um clímax excepcionalmente modesto e particularmente comovente. Ao mesmo tempo, Cléo livra-se das últimas réstias do seu medo, uma de cada vez. Ela, que tem medo de tudo, de elevadores a pássaros, e que cultiva o melodrama (“Com ela, tens drama e companhia,” diz Angèle, e Antoine encontra o rótulo que pega, “És uma melomaníaca, adoras a sentimentalidade”) ainda vacila quando vê o letreiro do “Hospital”, e a ausência de um médico enerva-a. E quando o médico desaparece, ela vem na nossa direcção com Antoine, os dois encostados um ao outro, oferecendo-lhe o seu primeiro sorriso, ainda não muito confiante, e o seu primeiro olhar. Estão tão nus ao lado um do outro como os casais de L'Opéra-mouffe e Du côté de la côte. “Parece-me que já não tenho medo. Pareço estar feliz” – a fábula do camponês de Causses chegou ao fim. Foi virada a carta número treze, e está a começar a viagem para Cléo; O romance La fête de Roger Vailland diria que ela já não é uma mulher que se queixa, que aceita, que se lamenta, que fica no interior; é uma mulher que se vira para o exterior. Raio dos óculos escuros!



COMO 

Embora a análise acima isole algumas das características-chave deste filme abundante que grita por ser comentado, diz muitíssimo pouco sobre o charme, a poesia e a emoção, essas vastas áreas do inefável, em suma, com que Cléo lida. Elogiar a luva de ferro sem uma palavra sobre a mão de veludo, louvar a harmonia e a construção rigorosas esquecendo-se de comentar sobre os cenários porque se tem medo de entrar no templo, é um bocado como criticar um musical falando sobre os travellings, medir os ângulos de câmara, citar algumas letras, e deixar a coisa assim. Equivale a uma avaliação apropriada da profundidade, o que é valioso e admirável, mas com uma vista cega para com o estilo e a elegância.

As armas de sedução de Varda são muitas. Pelo diálogo, pela beleza das suas imagens, a beleza da sua heroína e a riqueza inventiva da sua realização, ela é estilo, como George-Louis Buffon foi incapaz de definir: o estilo é mulher. Estes diálogos são uma mistura de tiradas, jogos de palavras simples e deliberados, como máximas, declamações, preciosidade e provérbios de Khrushchev; em suma, ela pegou em muitas coisas que são reconhecidamente negativas, ampliou-as aqui usando um tom natural e misturando-as umas às outras, e com uma lei matemática inventou o signo inegável do talento. Ao comentar sobre a busca de Varda e do seu operador de câmara, Jean Rabier, seria um eufemismo dizer que os resultados que produziram são pelo menos tão felizes como os de Raoul Coutard, e eles nunca se esquecem de um facto essencial que as pessoas que andam com câmaras esquecem facilmente: o significado do formal.

Varda talvez seja o único cineasta no mundo capaz de fazer um filme veneziano (“La Mélangite”, Deus, François Truffaut, Carlo Ponti e mais uns quantos dispostos) tão bonito como Othello e Sait-on jamais... juntos. Os cenários de Cléo, sejam em exteriores ou desenhados por Bernard Evein, também são uma das suas forças. O apartamento da heroína é uma enorme sala de espera branca rococó em que os gatos vagueiam. Num roupão de cetim, Cléo move-se de um trapézio para um balouço e para uma cama fabulosa que só podemos imaginar que a realizadora de La Pointe courte verificou e mexeu em cada vieira, cada astragália, do dossel aos pilares torcidos da cama e mesmo a colcha. Se tivermos de demonstrar uma imparcialidade rigorosa pelo menos num aspecto e mencionar as fraquezas de um filme que não é perfeito (mas também já alguém amou uma mulher perfeita? Deve ser muito entediante), então teria de ser sobre a interpretação por vezes solta, particularmente nos papéis mais pequenos. Mas a simplicidade de Dorothée Blank, o humor de Michel Legrand e, claro, Antoine Bourseiller e Corinne Marchand depressa varrem quaisquer desejos vagos de comentar sobre as interpretações. Nunca o humor ligeiro foi debitado com tanta graciosidade como por Marchand, uma boneca esculpida em carne, uma boneca em tamanho grande. A corista de Lola transformou-se na mais bela das mulheres deprimidas. Também canta canções que o diálogo nos diz com razão terem palavras (escritas por Varda) que são bonitas, e as melodias (por Legrand) estão ao mesmo nível. Legrand também compôs a música do filme, que é terna e engraçada ao mesmo tempo, e da qual gostaria de ser capaz de separar o que se poderia chamar de primeiro movimento, um adágio, da sua Sinfonia de Montsouris (a entrada de Lola num táxi). Esperando que a minha próxima visita a Raoul Vidal me permita comprar o LP de 33 rotações em que se precisa de registar tudo isso, comento agora a última canção, em que Cléo canta sobre a sua solidão e o seu medo e desata a chorar, numa experiência catártica inesperada e pouco produtiva. Um travelling circular é seguido de um plano de grua para a frente que pára no alabastro frágil e puro do rosto de Cléo, húmido de lágrimas, enquanto ouvimos o seu lamento:

E se chegares tarde demais
Já me terão enterrado,
Sozinha, feia e pálida de morte,
Sem ti, sem ti, sem ti.

É um dos pontos altos do filme, um momento de beleza pura, e prova de que junto a algumas das outras razões que já mencionei, Varda está enganada quando diz achar que não seria boa em musicais, e no entanto o realismo tem sido um elemento dos musicais há já mais de dez anos.

E cá estamos, dos grandes planos aos travellings, a falar de realização. A realização de Cléo, e espero que isto se tenha destacado de forma clara em tudo o que disse, está cheia de pequenas e grandes ideias, para não falar de ideias breves, longas, sérias, rebuscadas, ambiciosas e leves, produzindo às vezes imagens sublimes, imagens que podem transfigurar um trabalho, quando – aqui não é o caso – se sente a necessidade urgente. Podia-se vir com uma lista de inovações longa, sem nos repetirmos uma única vez, inovações de que todos os outros andam à procura e que aqui estão claramente em exibição. E que grandes inovações são: essas barras de ferro nos Jardins de Luxemburgo, por exemplo, quando a rádio proclama “Libertem os bretões!”; os fósforos que a provocadora tira um a um ao ritmo de “Ele ama-me... um bocado... muito”; o pastiche de Brahms que sauda a entrada de Villalonga; o fabuloso plano de grua desde o carro do médico, até ao fim, deixando o casal literalmente onde está, como um deus ex machina, e depois subindo a uma velocidade alarmante até às arcadas, com a missão cumprida; a distração-indiscrição de Cléo num café quando ouve uma palavra na história de Angèle e salta quando ouve a mesma palavra na conversa de um casal próximo, deixando-nos a escolher entre a história sobre o camponês e a discussão do casal, ambas das quais se podem ouvir com o mesmo volume; a “palavra” poética, que é digna do Orfeu de Cocteau, e que aparece de forma soberba no ecrã. Angèle fica preocupada com as lágrimas de Cléo depois da última canção. “Em que estado ela se põe!” enquanto Cléo desaparece por essa altura por uma cortina negra. Corta para outro plano, um fade-out – mas afinal não é um fade-out – e a cortina que enche agora o enquadramento do ecrã é violentamente puxada por Cléo, que vem para a frente completamente vestida em trajes de luto: “Estou vestida de preto.”

Os dois planos sublimes, que guardei para o fim, são os seguintes: o primeiro é indescritível porque nada na execução técnica o denuncia (é um plano estático, de Cléo e Antoine virados um para o outro na plataforma do autocarro, e um travelling ao mesmo tempo, porque o autocarro está a descer a estrada) e particularmente porque, isolado da continuidade dramática, emocional e amorosa não quer dizer grande coisa. De forma muito simples, temos Cléo e Antoine cara a cara sem dizer uma palavra. No plano anterior, ele deu-lhe uma flor; imóvel, olha para Cléo, que olha de volta para ele de forma quase furtiva, várias vezes, puxando o cabelo levado pelo vento para trás, com a mão que segura a flor. Varda filmou a primeira centelha do amor, uma conflagração série e silenciosa. O segundo plano é o do jardim do hospital, quando Cléo, que acabou de fazer o seu discurso a Antoine, está subitamente cheia de planos: “O que é que vamos fazer? Ficamos? Vamos ao restaurante? Queres comer numa esplanada?” e depois se acalma: “Temos todo o tipo de tempo,” enquanto que a câmara, num plano extremamente afastado, isola o casal, imóvel no banco a meio do jardim, num momento de silêncio sereno, fora do tempo.

É essencial um sentido de propriedade e até de avareza, como no amor; os melhores filmes dão-nos o desejo, obviamente condenado, de preparar um inventário exaustivo. Condenado porque só os vários filmes medíocres devem evocar uma obsessão pelo inventário: um círculo vicioso, mas delicioso. Pelo menos “contei as minhas riquezas,” como diz Marker. Estou a pensar outra vez nesse momento único, o resultado final de uma centena de minutos de medo. Até esse momento, tínhamos Cléo Victoire, cantora, das 5 às 7 da tarde no vigésimo ou vigésimo primeiro século de Junho de 1961. Agora é Florence e Cleópatra, daqui até à eternidade.

[1] Rosiguer: marcher dans la m... (cf. Express, 29 de Junho de 1961). (nota de Tailleur)
[2] Em francês, a constelação de Capricórnio chama-se “Cancer”, que também quer dizer “cancro” - daí a reacção de Cléo ao ouvir Antoine dizer isto no filme (nota do tradutor).
[3] Referência a L'année dernière à Marienbad, de Alain Resnais (n.t).

in «Positif» 44, Março de 1962.
Tradução: João Palhares

quarta-feira, 29 de junho de 2016

The Hustler (1961) de Robert Rossen



por José Oliveira

The Hustler é o penúltimo filme de um realizador americano que ao contrário de muitos dos seus contemporâneos não primou pela extensa filmografia nem pela multiplicidade de géneros. Se fosse preciso uma palavra impossível para resumir ou centrar a sua obra – que sempre permaneceu irresumível e descentrada – ela talvez fosse “obsessão”. Do pugilista encarnado e afundado por John Garfield em Body and Soul, até à elevação suprema de Alexander The Great, chegando-se à perfeita comunhão entre o homem e o seu dom que veremos no filme de hoje - a natureza e a consciência - a rampa da solidão e da tragédia sempre se mostrou escancarada a quem investiu na única coisa possível. Se estraçalharmos a palavra “obsessão” vai jorrar vulcânicamente o assombramento, a sombra e a treva, o buraco prometido a quem não se adapta a todas, espinhos da perfeição. E aí já estamos no demonismo de Lilith, o ápice de Rossen e um dos traçados mais tortuosos percorridos por uma alma que sugou o corpo e o meio rodeante oferecido. 

The Hustler é sobre o mundo do bilhar, mas o que realmente interessa não é a precisão plana e abstracta sobre uma mesa que pode obedecer a regras cósmicas, a gravidade que pode estar completamente incompreensível, electricidade invisível e big bangs privados, linhas de tensão curtas e infinitas em relação com as forças e leis da física tornadas visíveis nesse magnífico jogo, mas no caso esse corpo (caixões esburacados, dirão os fatalistas) que comporta tudo isso e que faz corpo com a personagem de Paul Newman - Eddie Felson, hoje mítico mais pelo que é genuíno no seu comportamento, mesmo ou talvez sobretudo nas misérias, do que pelo efeito ou estilo de estrela. Eddie Felson é alguém que pode estar dominado por um chamamento incomensurável que o puxa para si e o devora, morrendo nessa consumição; ou simplesmente o taco do jogo faz fatalmente parte de si mesmo, carregado das suas veias e do seu sangue, e assim mesmo ele está certo, sendo a obsessão o factor vital de qualquer ser animado. 

No início, ainda o jogo, ou seja, a dissimulação e o pacto com as regras. Eddie e o seu agente, enganando e rebaixando os outros mas eles mesmos em primeira instância, inseridos nos mecanismos sociais e brilhando na corda bamba. A batalha épica que dura e dura com Minnesota Fats, o seu talento extraordinário a impor-se e a sua natureza a derrubá-lo secamente, sem recurso. Com o sorriso ampliado ainda do medo. Sai do jogo, entrega-se a si próprio incondicionalmente, conhece uma mulher/menina/velha que ao contrário dele ou não tem interesse nenhum na vida ou já o teve e o que sobrou foi o que esse fogo permitiu. De tragédia em tragédia – de fidelidade plena em fidelidade plena – vivem o sonho que pode ser real ou apenas o onírico de qualquer paraíso – rodeado de flores e sorrisos ou do degredo do álcool e do caos caseiro, como aquela pintura de algodão dos anjos dos impressionistas ou de Borzage em que ambos nos fecham a janela para eles mesmos – e no instante ao mesmo tempo mais fugaz e de maior peso de todo o filme – esse piquenique à Kazan ou à Joshua Logan – a mulher das letras diz ao Eddie da acção que ele não é um perdedor nato mas sim um vencedor sem margem para dúvidas. Muitos passam uma longa vida inteira sem se interessarem por nada, falando como Eddie fala da sua paixão, basta um segundo ou a bola ao calhas. 

Entre deuses e homens. Carlos Resende, treinador de Andebol do ABC de Braga e um dos grandes génios da actualidade quer se trate de desporto ou de qualquer outra área que envolva pensamento, humanismo e pressão, campeão esta época com uma equipa de tostões alguns anos depois de ter acabado a carreira de jogador como o melhor de sempre, disse em entrevista que nunca fez um esforço na vida (ou na carreira, para o politicamente correcto); sempre se levantou cedo da cama, conciliou estudos e bola, trabalho e bola, família, amigos e bola, com o maior dos prazeres e das facilidades. Nunca ninguém lhe apontou uma pistola à cabeça para exercer a sua paixão, nunca proferiu o credo dos coitadinhos, e assim brilhou, com a mais certa das naturalidades, a beleza e o tal do génio. Eddie Felson, cravado dos demónios das pulsões indetectáveis e do mau olhado que o fumo das salas (ou necrotérios, segundo os pessimistas) e a diversão de quem faz o que gosta traz aos comentadores de bancada da vidinha que não admitem que os outros vivam os seus sonhos por eles, poderia ser um Carlos Resende, mas as arestas entre a sombra e a claridade são cortantes e sem aviso. Alguns, atraídos pela cor da noite, de lá não desejam sair, campeões sem manchetes. E assim, à personalidade que lhe era exigida pelos patrões e donos da vida adulta, essa menina e velha fez-lhe perceber que a solução era a entrega directa. Só que uns são muito fortes e morrem mil vezes e continuam a insistir nos mesmos buracos, e outros mesmo sabendo o certo só fazem o errado. Sarah Packard, esse ser acima de tudo descascado como nunca se viu em película, talvez tenha sabido demais, mirrado e morrido; ou alguma coisa inconfessável não tenha dito para lá da acusação feita ao agente de George C. Scott antes de cortar os pulsos e se entregar ao desconhecido; Outra hipótese, a mais cruel e que rasga a ontologia com ambiguidades de cálculo, é que ela não tenha aprendido a não dar as desculpas dos desistentes, como parece ter aprendido Eddie no jogo derradeiro com Fats, em assunção total rumo a um amanhecer (ou ao eclipse, mas mesmo assim assumido). Com o sorriso já sabido. Sabido e porventura fuzilado pelo mais roedor dos bichos, a culpa. Esperemos pela longa escuridão que nos trará os néons, o speed e Tom Cruise em The Color of Money, novas velocidades e nova psicologia que muito terá a esconder e a revelar nos esconsos do tempo que passou. 

Rossen parece só se interessar e só se mexer nos meandros mais frágeis, imperscrutáveis e sem cor exacta da existência – andou pela escrita de The Roaring Twenties de Raoul Walsh, ainda nos anos 30 – e então não há sinopse, análise ou conclusão que valha, apenas o relato, os olhos húmidos e o andar estragado, esse vacilar como certeza incerta de constituições assim. O final, um caminhar para algures, desconhecido muito mais temível, é a maré dos obsessivos. Esses que por não sossegarem ficam sem rumo, sem crédito, sem emprego ou amanhã, sabendo o certo e praticando o incerto. The Hustler é sobre pedreiros, sobre cineastas, até sobre prostitutas, vagabundos, deformações, casualidades ou conquistadores do mundo, santos ou guerreiros que caminharam sem pedirem desculpas. No nosso ciclo de cinema americano houve Howard Roark (The Fountainhead) e há-de haver Robert Eroica Dupea (Five Easy Pieces), ambos absolutamente radicais e absolutamente principiantes. The Hustler é sublime pois a tensão das vontades e das acções e a matéria do filme estão síncronas – como uma máquina de sobrevivência médica faz parte do moribundo - concentrando o absoluto num universo de onde não saímos – dentro das paredes do jogo ou nos quartos – entalhados e drenados no traçado e no peso do enquadramento imperturbável que se entrega ao caos e o comporta; no branco e no negro mesclados, metamorfoseados, possuídos. O vórtice da paixão escutada. Tão ferrado como Nicholas Ray ou Sam Fuller; tremente e teimoso pelos subterrâneos de Phil Karlson ou Jack Garfein.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

The Deadly Companions (1961) de Sam Peckinpah



por Mário Fernandes


Sam Peckinpah tem sido o realizador mais importante na minha vida. Durante anos, sempre que chegava bêbedo a casa (o que acontecia com frequência), punha-me a ver o Wild Bunch ou o Pat Garrett e Billy The Kid. Eram altas horas da noite, a vizinhança tocava à campainha com sermões de “respeito por quem trabalha”, eu respondia aumentando o volume no “Let’s go” do Pike[1] ou no “Knock Knock on Heaven’s Door”. Ao fim de algum tempo, circulou um abaixo-assinado para me expulsar do prédio, alegando tiroteios a horas impróprias. Guardei temporariamente o arsenal debaixo da cama e passei a chegar mais tarde a casa para não incomodar os vizinhos. 

Nessas noites peckinpanianas - uma garrafa de whisky mini-preço onde nadavam meia dúzia de sardinhas da Mouraria – conheci o Manuel Pike de los Mozos, um fígado que bebia a tempo inteiro sem se queixar, pistoleiro da quadrilha selvagem que ora desarmava partilhando um bife ou um vinho generoso com um estranho, ora enchia de chumbo o melhor amigo – “a essência do western é matar quem mais amamos” dizia ele, antes de gritar para um taxista na praça da alegria: BRING ME THE HEAD OF ALFREDO GARCIA[2]! 

Manuel de los Mozos escreveu o melhor texto sobre “uma montanha chamada Peckinpah”, depois há o Miguel Marías sobre o Pat Garrett, o “caminho da última vez” de Bruno Andrade e a balada Billy the Kid de Ruy Belo (“Para onde há-de ir Billy the kid?/Billy não sabe para onde há-de ir/Persegue a morte na pessoa dos outros/quando era nele que a devia perseguir/Mata inimigos e mata amigos/Viver é para ele matar/Procura um refúgio mas nunca sabe/Onde se há-de refugiar/Sabeis qual é o seu maior inimigo?/É ele o seu maior inimigo.”) Quanto a bibliografia estamos conversados, boas leituras. 

Deadly Companions, o filme programado pelo melhor cineclube do mundo, é hoje o meu “Sam” favorito. Nada tem de apoteótico, nada há de muito digno, nada de exaltação da tragédia humana como no orgiástico final de Wild Bunch; desengane-se pois quem conhece outros filmes de Peckinpah[3], aqui não há vómitos de sangue em slow motion nem máquinas trituradoras de planos, nem grandes movimentos de câmara, nem combates ganhos apesar de perdidos. 

Comove-me, desde logo, o companheiro mortal Brian Keith, o genial actor tantas vezes esquecido, a quem John Milius dedicou o último filme-romance total feito na América – falo de Rough Riders[4] (para mim tão importante e violentamente nostálgico como Heaven’s Gate ou Once Upon a Time in America), derradeira participação de Keith antes do suicídio em 1997. Mais cedo ou mais tarde, todos acordamos numa casa com fotografias a preto e branco. 

Foi Brian Keith quem escolheu Peckinpah para a realização de Deadly Companions em 1961, após profícua colaboração nos 13 episódios da série televisiva The Westerner (concluída em 1960), concebida por Sam Peckinpah e protagonizada por Brian Keith, este acompanhado pelo cão Brown que nem sempre era o melhor amigo do homem. No final de cada episódio, Brian Keith olhava para trás enquanto o cavalo galopava em frente com o cão fiel/infiel ao lado. Difícil encontrar imagem mais adequada para a vida cinematográfica de Peckinpah, terminada em 1984 depois de milhares de whiskys inoculados, centenas de putas fodidas, crianças contratadas para compra ilegal de drogas, alguns divórcios[5] (o primeiro mal terminou a rodagem do seu primeiro filme, justamente Deadly Companions[6]) e pelo menos uma filha adorável – Lupita Peckinpah. Acabou a sua curta mas intensa carreira a realizar videoclips (Too Late for Goodbyes), as paisagens que “pintou” no seu rosto arruinado, profundo, cavado, como um romântico intransigente isolado do mundo pela sua própria violência; as cinzas voaram para o mar em 1985, “smell of death on you”. Além de episódios e filmes feitos para televisão por tuta e meia, foi lançado no meio pelo B- MAN Don Siegel, foi assistente de Jacques Tourneur em Wichita, foi argumentista e co-realizador não creditado de One-Eyed Jacks de Marlon Brando, esse corpanzil decadente montado num cavalo estafado, que puxava a coice a diligência do cinema clássico americano e se lançava contra o mar na última fronteira. 

O Brian Keith de The Westerner foi recuperado em Deadly Companions, cara de chapéu cinzento enrugado, abas despenteadas puxadas para os olhos, lento de movimentos pouco naturais, ligeiramente curvado por um qualquer peso morto, experiências passageiras com mulheres levianas ou comprometidas, amargo, trágico, ridículo Yellowleg que recusa tirar o chapéu para esconder uma cicatriz de 5 anos. 

Yellowleg, já agora, é o nome com que baptizei um dos meus melhores amigos - o meu carro-, casa móvel em tantas viagens sentimentais, funcionais ou puramente absurdas, meu expedicionário nos arquipélagos das insónias, inventor de mapas (efémeros como todos os mapas), cartógrafo de relações perdidas, tantas vezes o maior peso é o vazio da paisagem que nos cerca (uma insipidez quase abstracta), folha de outono resistindo à passagem do temporal, sempre viajando, de imobilidade em imobilidade, protagonista anónimo de vidas e filmes, meu companheiro mortal cheio de cicatrizes por contar, acolhendo na barriga o doce sono da Loukia sob as estrelas incendiárias do São João, o velho e bondoso Yellowleg, noites ligando e desligando as luzes dos teus olhos como num jogo de lanterna mágica. 

II 

A conflituosa relação de Peckinpah com os produtores começou logo neste seu primeiro filme, de orçamento baixíssimo e apenas 19 dias de rodagem num “scope” que Peckinpah de todo desconhecia. Charles Fitzsimons, produtor e irmão da protagonista Maureen O’Hara, apostado em repetir o sucesso de The Parent Trap (1960) com a mesma dupla Keith/O’Hara, disse aos membros da equipa para não darem ouvidos a Peckinpah e proibiu o próprio realizador de falar ou se aproximar da diva Maureen O’Hara. Como também não o deixavam tocar no guião, Peckinpah ensaiava com Brian Keith às escondidas do produtor. O filme seria ainda desvirtuado na sala de montagem e algumas cenas refeitas pelo produtor, que fez, por exemplo, Turk disparar sobre as costas de Billy (na versão de Peckinpah era Yellowleg quem matava Billy a sangue frio). Talvez por tudo isso Peckinpah tenha considerado este filme “uma boa merda” e ainda hoje Deadly Companions é visto pela esmagadora maioria dos críticos como um falhanço. 

O que me surpreende mais é como todas estas tensões e difíceis circunstâncias são corpo presente no filme. Apesar dos esforços do irmão-produtor para afastar a Morte de Peckinpah da Beleza de O’Hara, não será este o primeiro papel “mortal” de O’Hara, antes de Mclintock em 1963 e de Big Jake em 1971, ambos com o inseparável John Wayne? Não é Peckinpah quem dispara em Maureen O’Hara na cena em que esta dá as costas à câmara e esse belo e longo “escalpe” de ruiva estremece em campo com o tiro fora de campo de Yellowleg sobre o cavalo, letalmente mordido por uma cobra? E não passam todas as personagens do filme a dar as costas umas às outras (“matamo-lo pelas costas?”, pergunta Billy a Turk mais do que uma vez) ou à câmara de Peckinpah? Não será este um dos filmes menos frontais jamais feitos[7]? Não será o filme, por momentos, um absurdo campo-contra campo entre o chapéu de Yellowleg e o rabo de cabelo de Maureen O’Hara? Mas se o erotismo e a sensualidade de O’Hara são despertados sempre que Billy entra em cena (“nunca levo armas quando sou sociável”), não serão anulados na presença de Brian Keith que vê nesse “rabo” mais a lembrança do próprio “escalpe” do que o desejo amoroso[8]? E que será da candura erótica e sagrada de Maureen O’Hara nas mãos de Borzage ou Ford, quando a vemos colher flores doentes às quais já não bate a luz ou, como puta viúva ou viúva puta, procura em vão o marido morto entre as dezenas de lápides do cemitério, ela que tanta certeza tinha quanto à sua localização? Não soa a canção de O’Hara mais a crepúsculo dos deuses que a sonhos de amor? Não sairá deste filme a imortal Maureen O’Hara mais mortal do que nunca? 

Contada a peregrinação deste filme ninguém acredita, pois não é uma mera réplica aos modelos do bandido e da prostituta em viagem, de Stagecoach de John Ford (já visto neste cineclube) a Naked Spur de Anthony Mann. Possivelmente inspirada em As I lay dying de William Faulkner, onde também se carrega uma carroça com um caixão e se empreende uma viagem longa e absurda para enterrar a pessoa no “lugar devido”, esta história de Peckinpah[9] nada tem de realismo ou verosimilhança[10]. Se viajar com a Morte é um tema recorrente na obra de Peckinpah - vejam por exemplo o episódio Going Home da série The Westerner (Brian Keith escolta o cadáver de um amigo até casa) ou Bring Me The Head of Alfredo Garcia, onde o protagonista Bennie (Warren Oates) transporta uma cabeça humana confrontando-se com moscas e afins (na altura não havia sacos térmicos) - , parece-me que essa viagem nunca foi tão absurda como neste filme[11]. Uma mãe vê o filho morto e o que mais a preocupa é provar às costureirinhas da moral que o filho tem um pai “legal” e por isso inicia esta procissão de muitos quilómetros e perigos? Não vos parece disparate transportar o caixão[12] com um miúdo numa velha charrete, menino vadio que vemos no início viver à margem[13] das outras crianças[14] (elas brincam cá em baixo, ele toca harmónica lá em cima), mas da qual nunca mais nos lembramos afectivamente ao longo do filme? Como é possível Yellowleg (o homicida “involuntário” da criança[15]) se tornar o principal aliado e futuro amante de Kit nesta missão, ele um ressabiado sem raízes, obcecado com uma escaramuça de há 5 anos? Porque começa Yellowleg por salvar a vida do homem que desejou morto, o também cicatrizado Turk[16]? Porque adiará sempre a vingança[17]? E podemos multiplicar os exemplos ad absurdum. Porque recusa Yellowleg que o doutor lhe tire a bala, preferindo continuar limitado fisicamente? Porque Billy e Turk não matam Yellowleg pelas costas? Porque Turk dispara nas costas de Billy depois de já ter sido atingido e caído? Porque as setas dos índios falham sempre o alvo Kit e Yellowleg? Porque o ataque dos índios, que vemos bêbedos e decadentes, nos parece tão forçado? Porque Turk, um desertor, quer criar uma república no deserto, oferecer uniformes a torto e a direito e reconstituir um exército a partir de escravos índios, corolário louco da mitomania de todos os personagens? E não são Yellowleg e Turk estranhamente obcecados por chapéus, um recusando-se destapar a cabeça, outro tirando do bolso o chapéu de general, de um exército que só nos sonhos mais tresloucados dirigirá? Porque insiste Yellowleg em vestir o uniforme yankee quando a guerra já terminou? Porque Kit só se dá ares de Antígona para salvar a sua reputação e jamais chora a morte do filho, e quando Yellowleg lhe atira isso à cara a resposta é uma chibatada? Porque Billy sai do bar aos tiros sem se passar nada que o justifique e dispara sobre o seu reflexo no espelho? Porque prefere trocar todas as riquezas por um momento com Kit? E porque, quando tem essa oportunidade, deixa Yellowleg e Kit a sós para partilharem as suas cicatrizes? Resumindo, porque é este filme um acumular de episódios absurdos e totalmente inverosímeis[18]? Porque armam todo este teatro[19] beckettiano de “fim de partida”? Porque a Morte não está no caixão mas cavalga dentro de Kit e Yellowleg? Serão personagens dramáticas num filme sem drama? Personagens de duelo num filme sem duelos (os que vão morrer caem que nem tordos e o duelo final é, na versão de Peckinpah ou do produtor, totalmente desritualizado)? Mitómanos num mundo sem mitos? “Heróis de tempos sem heroísmo” (Bruno Andrade sobre Junior Bonner)? Obcecados por uma eternidade perdida que os condena a uma existência absurda? Atiradores atirados contra a paisagem? Caçadores caçados? Disparadores disparatados? Autores de papéis trágicos que já não conseguem interpretar (o “it’s gettin’ dark[20]” de Bob Dylan[21] é dito pela primeira vez pelo aleijado Yellowleg “I can’t shoot anymore”)? Como passar a viver na história quando se viveu na lenda? Como resistir o Western à Realidade when the legends die? Será que quanto mais se olha para trás, mais se pinta de sangue o crepúsculo à nossa frente? Será uma grandeza impossível que auto-destrói tantos personagens de Peckinpah? Será que só uma violência forçada/teatralizada os readmitirá no paraíso? Uma mitologia pessoal que os resgate do castigo primordial da mortalidade? 

O que dói neste filme ridículo e trágico é que Yellowleg não consumará a vingança (ele que viveu em função desse mito, entranhado como a bala que carrega dentro dele[22]), O’Hara findará a peregrinação enterrando os seus mortos numa cidade fantasma, Siringo vazia de vida (porventura um antigo palco de guerra, agora teatro de ruínas) e, na ânsia desmesurada de afecto, se abraçarão como mantos esfarrapados, toda a fatal ternura e aceitação, não da redenção, mas da expulsão do paraíso, mitos furados, destinos e misérias. Reparem como no final partem na direcção contrária dos “civilizados”, dando-nos as costas rumo ao oeste perdido e crepuscular, mais esvaziados do que redimidos. Será que vivemos de ódio e morremos de amor? Para onde vão Kit e Yellowleg afinal? Para o “caminho da última vez[23]” que liga este filme ao “slow west” de Two-Lane Blacktop já nos anos 70 (lembre-se que o autor de Slow Fade, Rudolph Wurlitzer, é argumentista tanto de Pat Garrett e Billy the Kid[24] como de Two-Lane Blacktop[25])? Serão deuses dançando num vulcão extinto ou protagonistas de um road movie em estradas febris de cansaços? Passado o alcatrão por cima dos mortos, espera-os a lentidão de uma vida sem peripécias[26] ou, como dirá Pat Garrett, “uma vida em que já não se quer saber o que seguirá”? Serão atropelados pelo progresso como Cable Hogue ou irão para uma vida mais mortal que a Morte[27]? E a mobilidade épica não esmaecerá na imobilidade de uma paisagem cujo único incêndio é uma outonal melancolia[28], o galope não se fará trote? Tombarão como tantos pistoleiros de Peckinpah à medida que desaparecem no horizonte, ou aguentarão, na sua dignidade alcoólica, mais uns tempos em cima do cavalo? Viverão nessa harmonia calada que se dissolve no whisky de Yellowleg (curvado sobre o balcão com vergonha de mostrar a cara)[29]? Ou viverão no slow motion do touro que fecha a boca para estancar a corrente de sangue, a fim de prolongar a vida para uma última cornada?[30] 

Como as silhuetas negras, recortadas no lusco-fusco, que pontualmente ocupam o ecrã, parece-me cada vez mais que estas duas personagens se enterram na luz moribunda do derradeiro crepúsculo[31]. “Com a beleza habita a beleza que morre”, escreveu John Keats. 

Brian Keith e Maureen O’Hara, Yellowleg e Kit, companheiros mortais. 

Notas:

[1] Peckinpah: “Let’s go, i’ve got a fuckin’ movie to make.” 

[2] Como única disciplina a indisciplina da vida. 

[3] Àqueles que ainda acham que o cinema de Peckinpah é acção pela acção (cliché de uma estupidez atroz), o melhor é dar a palavra ao realizador: “a acção não funciona sem pessoas, sem personagens. A acção só porque sim é uma merda.” 

[4] Último grande filme americano a emoldurar com a matéria intemporal do mito o retrato mortal dos guerreiros. 

[5] Chegou a ser baptizado numa pia de vodka para se poder casar com uma actriz mexicana. 

[6] Peckinpah: “em vez de dizer "este é um filme para o museu", digo "este filme sou eu."” (...) “não quero saber do estilo, só quero lá pôr a minha verdade.” Existem realizadores temerários (entre as minhas preferências, Fuller, Peckinpah e Carax) que não estão à procura de soluções artísticas para contornar problemas, mas fortemente empenhados em pegar o touro pelos cornos- nem que me foda, nem que o filme se foda, nem que leve tudo para o inferno. Muito mais do que uma obra para o museu, o cinema é uma experiência existencial. Quando se sonha com Peckinpah, o importante é acordar a cuspir sangue. Without movies we have no guts. 

[7] As costas chumbadas de Brian Keith, as costas banhadas de Maureen O’Hara, as costas alvejadas de Billy. 

[8] Será por acaso que, no ataque sexual a Kit, Billy desce as armas e Yellowleg deixa cair o chapéu que logo recupera para conservar a sua assexuada armadura? E, no início, não prefere Yellowleg o bar e Billy o bordel onde trabalha Kit (não há domingo sem missa, não há sábado sem piça)? E não “foge” Yellowleg da gruta de O’Hara? 

[9] Sabe-se hoje que o livro Yellowleg de Fleischman foi uma adaptação do filme e não o contrário. 

[10] Miguel Marías sobre Patt Garrett e Billy the Kid: "a verosimilhança naturalista nunca interessou a Peckinpah, mas tudo aqui é comentário, reflexão, mito.” 

[11] Os filmes de Peckinpah estão repletos de fragmentadas, desordenadas e contraditórias expedições: Ride the High Country, Major Dundee, Cross of Iron, etc.. 

[12] A maior indústria do cinema americano é a fabricação de caixões, por isso se corta logo para o homem da funerária com a caixa de pinho. 

[13] Reparem como Turk e Billy se integram minimamente na comunidade tirando o chapéu às respeitáveis e “irrespeitáveis” da Igreja. Os únicos totalmente marginalizados neste filme são o miúdo (gozado pelos colegas), a mãe vista pelas ratas de sacristia como uma puta com um filho “ilegítimo” (diz o pequeno “se elas vão para o céu, eu não quero ir”) e Yellowleg que prefere abandonar a Igreja-Bar a tirar o chapéu. 

[14] Os filmes de Peckinpah são povoados por crianças terríveis: baloiçam nas cordas do enforcado, fritam escorpiões e insectos, exercitam esgrima, brincam com o fogo, correm à pedrada os protagonistas ou são amamentadas a pólvora pelo coldre das mães. 

[15] À miséria física de Yellowleg junta-se a miséria moral. É, no entanto, a morte dessa criança que estranhamente aproximará estes dois escorraçados contraditórios (O ́Hara tanto lhe aponta a espingarda como lhe agradece a companhia), escoltados pelos perdidos Turk (ex-confederado) e Billy. Apesar de serem quatro os viajantes, os companheiros mortais são sobretudo Yellowleg e Kit, os únicos que Peckinpah enquadra no mesmo buraco, cavando a mesma sepultura adiada. Como o cinema de Peckinpah consagra o direito de cada Homem cavar a sua sepultura, "Deadly Companions" serão também Gil, Steve, Cable, Pike, Deke, Pat, Billy, Junior, Bennie, Rolf, Duck, etc.. Sam Peckinpah, por sua vez, será o realizador-cangalheiro de todos eles em Pat Garrett e Billy the Kid

[16] Veja-se como a câmara sobe das pernas dos vivaços até ao pescoço do sentenciado. É numa breve acumulação de detalhes, entres eles a cicatriz na mão de Turk (dentada de Yellowleg para defender o “escalpe”), que Yellowleg se torna Actor no filme. 

[17] Estará a resposta na história que Yellowleg conta sobre um homem (ele próprio) que viveu 5 anos habitado pelo ódio e desejo de vingança e quando saciou esse desejo descobriu que não havia mais motivos para viver? Será um forçado romanesco de Yellowleg para mistificar a sua razão que logo desaparecerá ao desistir da vingança e partir mortalmente com Kit? 

[18] Miguel Marías sobre Pat Garrett e Billy the Kid: “acumulação pausada e monótona (sem sentido pejorativo) de situações que não fazem progredir a acção” (...) “amontoar de patéticos testemunhos de decadência ou desintegração.” 

[19] Recorde-se que Peckinpah recusou a carreira de advogado, licenciado-se em teatro com um trabalho final sobre como filmar peças de teatro. 

[20] A cena do Pat Garrett e Billy the Kid em que entra o “Knock Knock on Heavens door” terá ficado demasiado escura para desespero de Sam Peckinpah, o que o levou a mijar no ecrã e a despedir imensa gente por incompetência. Ironicamente, a imagem casa melhor com o “too dark to see” de Bob Dylan. Essa luz que só queima e não ilumina nunca mais deixará Sam. 

[21] Para quem não sabe, Bob Dylan e Kris Kristofferson, durante as rodagens em que participaram, tocavam todas as noites várias músicas para os amigos na casa de Sam. Segundo vários testemunhos, Peckinpah trabalhou toda a vida com os mesmos gajos, não pelo talento que tinham, mas pela amizade, cumplicidade e confiança que lhe inspiravam. 

[22] É essa bala alojada na carne, que ele recusa extrair, a responsável por falhar o alvo e matar o filho de Kit. Nesse acto falhado, não matará Yellowleg a sua juventude como Pat Garrett a matará disparando em the Kid

[23] Bruno Andrade: “epopeia transformada lentamente em epitáfio.” 

[24] Não será esse western uma marcha lenta para a morte, à espera de um tiro do melhor amigo/inimigo de estimação? 

[25] Personagens esvaziando-se na duração de viagens em ponto morto até ao fim. O sangue não esbirra mas empapa como mancha de ferrugem. 

[26] “Another shitty day in Paradise”, na expressão de Steve McQueen, apanhada pelo genial repórter Grover Lewis, na rodagem de The Getaway

[27] John Wayne: “You fight, that ́s life. You stop fighting, that’s death.” (Big Trail, 1930) 

[28] O filme seguinte de Peckinpah, Ride the High Country (1962), será o melhor exemplo. O Outono, em delicado e sereno desespero, coincide com a existência crepuscular dos “velhos” Randolph Scott e Joel McCrea, dois ícones do Western, numa última missão. 

[29] Inesquecível o plano da harmónica no pó que Yellowleg recolherá mais tarde como eco da sua própria morte. Harmonias perdidas também no 2o episódio da série The Westerner, brilhantemente dirigido por André De Toth, quando uma caixinha de música toca para dois mortos estatelados no chão e para o vivo Dave Blassingame (Brian Keith). 

[30] Cabem neste filme todas as dúvidas, contradições, incoerências, assim exige a complexidade e ambiguidade de todas as personagens de Peckinpah. Confuso? Irregular? Mal polido? Inverosímil? Violento? Tudo pedras que os garotos da crítica ainda hoje atiram contra Peckinpah. Para mim o fundamental é a procura – diz Brian Keith que há “coisas em mim que nunca vou entender” – e perder a cabeça nessa louca e endiabrada viagem, pois “não me fio em ninguém que não perca a cabeça de vez em quando” (Turk à entrada do filme). 

[31] O primeiro filme de Peckinpah é já terminal. Peckinpah, de resto, começa quando tudo está a acabar. Entrou no cinema como o miúdo que chega atrasado, já no fim, à festa mais aguardada da sua vida. Mas, ao invés do choradinho, o nosso cowboy tardio crescerá no confronto permanente, a morte a morder no dedo do gatilho. Embora mais psicológico do que pictórico, Peckinpah - como vários pintores barrocos de crepúsculos (por exemplo Claude Lorrain) - , construiu uma obra integrando as ruínas do classicismo, suas personagens como folhas caídas num templo abandonado. As constelações de valores humanistas e os códigos de honra e lealdade ainda passam, mas já através de todas as brechas de um cimento a esfarelar-se. Perdida a casa, derrubadas as pontes, rios de corrente incerta, talvez só se possa defender Ford e Hawks morrendo – heróica e absurdamente – como um pistoleiro da quadrilha selvagem. Por tudo isso está o Homem que tanto amou e tanto se entregou àquilo que o destruiu, poeta numa época que não lhe pertence, escarrador de risos com os pés para a cova, bêbedo sanguinário disposto a fazer filmes – bons, maus, assim- assim – até ao fim da vida. Dizia Peckinpah com amarga ironia: “Sou uma puta, faço o que me mandam. Mas não sou tão boa se não me pagarem.”