Dá a surpresa de ser

Dá a surpresa de ser É alta, de um louro escuro. Faz bem só pensar em ver Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem (Se ela estivesse deitada) Dois montinhos que amanhecem Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco Assenta em palmo espalhado Sobre a saliência do flanco Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco. Tem qualquer coisa de gomo. Meu Deus, quando é que eu embarco? Ó fome, quando é que eu como?

10-9-1930 - Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995) - 123.

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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

O Poeta Bocage (10) ... e último !

 Vou trazer aqui em dez publicações, trinta sonetos de Manuel Maria Barbosa du Bocage (Elmano Sadino), pseudónimo adoptado em 1790, quando da sua adesão à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia. Bocage é um dos nossos melhores poetas, embora não lhe seja reconhecida a sua genialidade, visto ser basicamente conhecido pelas suas anedotas obscenas ou ousadas. Escolhi trinta sonetos, dez da poesia lírica, dez de poesia satírica e outros dez da poesia erótica.

Alguns links sobre a poesia de Bocage, bem como onde poderão encontrar  alguns livros editados do poeta:

https://www.bertrand.pt/autor/bocage/9129

https://www.wook.pt/livro/poesias-eroticas-bocage/223553

https://www.fnac.pt/Antologia-de-Poesia-Erotica-de-Bocage-Bocage/a1320322

Na RTP

Entrevista a Daniel Pires, presidente do Centro de Estudos Bocagianos sobre a obra satírica e erótica do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, com visita à exposição "2005 Ano Bocage", Comemorações do Bicentenário da Morte de Bocage, patente no Museu de Arqueologia e Etnografia de Setúbal realizada por Henrique Félix.

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/poesia-erotica-e-satirica-de-bocage/

Na TSF

https://www.tsf.pt/programa/o-livro-do-dia/emissao/antologia-de-poesia-erotica-de-bocage-8963082.html

No Município de Setúbal

https://www.mun-setubal.pt/livro-valoriza-poesia-erotica/



Sobre a artista plástica Dina de Sousa:

http://artistasportugueses.weebly.com/dina-de-sousa.html


Lírica

Tenta em vão temerária conjectura

Sondar o abismo do invisível Fado,

Que, de umbrosos mistérios enlutado,

Some aos olhos mortais a luz futura.

 

Presumia (ai de mim!) vendo a ternura

Daquela, que me trouxe enfeitiçado…

Presumia que Amor tinha guardado

Nos braços de meu bem minha ventura.

 

Oh terra! Oh céu! Mentiram-me os brilhantes

Olhos seus, onde achei suave abrigo:

Quão fáceis de enganar são os amantes!

 

Humanos, que seguis as lei que sigo,

Vós, corações, que ao meu sois semelhantes,

Ah! comigo aprendei, chorai comigo.

 

Satírica

Famosa geração de faladores

Soa que foi, Riseu, a origem tua;

Que nem todos os cães ladrando à Lua,

Tiveram que faer com teus maiores.

 

Um a língua ensinou dos palradores,

Outro o moto-contínuo achou na sua;

Outro, além de encovar toda uma rua,

Açaimou numa junta a cem doutores.

 

Teu avô, santanário venerando,

Soube mais orações que mil beatas,

Com reza impertinente os Céus zangando;

 

Teu pai foi um trovão de pataratas;

Teu tio, o bacharel, morreu falando;

Tu falando, Riseu, não morres, matas.

 

Erótica

Soneto da Escultura Escandalosa

 

Um esquentado frisão, brutal masmarro (cavalo da Frísia, Holanda)

Girava em Santarém na pobre feira;

Eis que olha ao longe em Couva Ceira

Os seus bons irmãos seráficos de barro;

 

O bruto, que atira um boi de carro

Na carranca feroz, parte à carreira,

Os sagrados bonecos escaqueira, (parte, destrói)

E arranca de ufania um longo escarro. (orgulho)

 

Na alma o santo furor lhe arqueja, e berra;

Mas vós enchei-vos de íntimo alvoroço,

Povos, que do frio sofreis a guerra;

 

Que dos bonzos de barro o vil destroço

É presságio talvez de irem por terra

Membrudos fradalhões de carne e osso!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

O Poeta Bocage (9)

 Vou trazer aqui em dez publicações, trinta sonetos de Manuel Maria Barbosa du Bocage (Elmano Sadino), pseudónimo adoptado em 1790, quando da sua adesão à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia. Bocage é um dos nossos melhores poetas, embora não lhe seja reconhecida a sua genialidade, visto ser basicamente conhecido pelas suas anedotas obscenas ou ousadas. Escolhi trinta sonetos, dez da poesia lírica, dez de poesia satírica e outros dez da poesia erótica.

Alguns links sobre a poesia de Bocage, bem como onde poderão encontrar  alguns livros editados do poeta:

https://www.bertrand.pt/autor/bocage/9129

https://www.wook.pt/livro/poesias-eroticas-bocage/223553

https://www.fnac.pt/Antologia-de-Poesia-Erotica-de-Bocage-Bocage/a1320322

Na RTP

Entrevista a Daniel Pires, presidente do Centro de Estudos Bocagianos sobre a obra satírica e erótica do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, com visita à exposição "2005 Ano Bocage", Comemorações do Bicentenário da Morte de Bocage, patente no Museu de Arqueologia e Etnografia de Setúbal realizada por Henrique Félix.

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/poesia-erotica-e-satirica-de-bocage/

Na TSF

https://www.tsf.pt/programa/o-livro-do-dia/emissao/antologia-de-poesia-erotica-de-bocage-8963082.html

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Lírica

 

Se é doce no recente, ameno estio

Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,

E, lambendo as areias e os verdores,

Mole e queixoso deslizar-se o rio;

 

Se é doce no inocente desafio

Ouvirem-se os voláteis amadores,

Seus versos modelando e seus ardores,

De entre os aromas de pomar sombrio;

 

Se é doce mares, céus ver anilados

Pela quadra gentil, de Amor querida,

Que esperta os corações, floreia os prados;

 

Mais doce é ver-te de meus ais vencida,

Dar-me em teus brandos olhos desmaiados

Morte, morte de amor, melhor que a vida.

 

Satírica

 

Oh triste malfadada Academia!

O vate Elmano em sátiras se espraia;

Fervem correios ao Ioquaz Talaia

Que a todos teu descrédito anuncia

 

Apolo exulta, o povo te assobia,

A glória tua em convulsões desmaia.

Ah! Primeiro que a pobre em terra caia,

Corte-se o voo da fatal porfia.

 

Ao satírico audaz põe duro freio,

Pune o declamador, que te flagela;

Dá-lhe assento outra vez no magro seio…

 

Bem como a quem profana uma donzela,

Que em pena do afrontoso estupro feio

Fazem próvidas leis casar com ela!

 

Erótica

 

Soneto da Donzela Ansiosa

 

Deitada donzela em fofo leito,

Deixando erguer a virginal camisa,

Sobre as roliças coxas se divisa (olha; repara)

Entre sombras subtis, o pachacho estreito.

 

De louro pelo um círculo imperfeito

Os papudos beicinhos lhe matiza;

E a branca crica, nacarada e lisa, (doce)

Em pingos verte alvo licor desfeito.

 

A voraz piça as guelras encrespando

Arruma a focinheira, e entre gemidos

A moça treme, os olhos requebrados.

 

Como é ainda boçal, perde os sentidos. (inexperiente)

Porém vai com tal ânsia trabalhando,

Que os homens é que vêm a ser fodidos.

sábado, 6 de novembro de 2021

O Poeta Bocage (8)

Vou trazer aqui em dez publicações, trinta sonetos de Manuel Maria Barbosa du Bocage (Elmano Sadino), pseudónimo adoptado em 1790, quando da sua adesão à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia. Bocage é um dos nossos melhores poetas, embora não lhe seja reconhecida a sua genialidade, visto ser basicamente conhecido pelas suas anedotas obscenas ou ousadas. Escolhi trinta sonetos, dez da poesia lírica, dez de poesia satírica e outros dez da poesia erótica.

Alguns links sobre a poesia de Bocage, bem como onde poderão encontrar  alguns livros editados do poeta:

https://www.bertrand.pt/autor/bocage/9129

https://www.wook.pt/livro/poesias-eroticas-bocage/223553

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Na RTP

Entrevista a Daniel Pires, presidente do Centro de Estudos Bocagianos sobre a obra satírica e erótica do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, com visita à exposição "2005 Ano Bocage", Comemorações do Bicentenário da Morte de Bocage, patente no Museu de Arqueologia e Etnografia de Setúbal realizada por Henrique Félix.

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Lírica

Das faixas infantis despido apenas,

Sentia o sacro fogo arder na mente-,

Meu tenro coração inda inocente,

Iam ganhando as plácidas Camenas

 

Faces gentis, angélicas, serenas,

De olhos suaves o volver fulgente,

Da ideia me extraíam de repente

Mil simples, maviosas cantilenas.

 

O tempo me soprou fervor divino,

E as Musas me fizeram desgraçado,

Desgraçado me fez o deus menino.

 

A Amor quis esquivar-me, e ao dom sagrado:

Mas vendo no meu génio o meu destino,

Que havia de fazer ? Cedi ao fado.

 

Satírica

Rapada, amarelenta cabeleira;

Vesgos olhos, que o chá e o doce engoda;

Boca que à parte esquerda se acomoda

(Uns afirmam que fede, outros que cheira);

 

Japona, que da Ladra andou na feira;

Ferrugento faim, que já foi moda

No tempo em que Albuquerque fez a poda

Ao soberbo Hidalcão, com mão guerreira;

 

Ruço calção que espipa no joelho,

Meia e sapato, com que ao lodo avança,

Vindo a encontrar-se co’o esburgado artelho;

 

Jarra, com apetites de criança;

Cara com semelhança de besbelho;

Eis o bedel do Pindo, o doutor França.

 

Erótica

Soneto do velho escandaloso

 

Tu, ó demente velho descarado,

Escândalo do sexo masculino,

Que por alta justiça do Destino

Tens o impotente membro decepado!

 

Tu, que, em torpe furor incendiado

Sofres de ímpia paixão ardor maligno,

E a consorte gentil, de que és indigno,

Entregas a infrutífero castrado!

 

Tu, que tendo bebido o menstruo imundo,

Esse amor indiscreto te não gasta

De ímpia mulher o orgulho furibundo!

 

Em castigo do vício, que te arrasta,

Saiba a ínclita Lísia, e todo o mundo

Que és vil por génio, que és cabrão, e basta. 

terça-feira, 19 de outubro de 2021

O Poeta Bocage (7)

Vou trazer aqui em dez publicações, trinta sonetos de Manuel Maria Barbosa du Bocage (Elmano Sadino), pseudónimo adoptado em 1790, quando da sua adesão à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia. Bocage é um dos nossos melhores poetas, embora não lhe seja reconhecida a sua genialidade, visto ser basicamente conhecido pelas suas anedotas obscenas ou ousadas. Escolhi trinta sonetos, dez da poesia lírica, dez de poesia satírica e outros dez da poesia erótica.

Alguns links sobre a poesia de Bocage, bem como onde poderão encontrar  alguns livros editados do poeta:

https://www.bertrand.pt/autor/bocage/9129

https://www.wook.pt/livro/poesias-eroticas-bocage/223553

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Na RTP

Entrevista a Daniel Pires, presidente do Centro de Estudos Bocagianos sobre a obra satírica e erótica do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, com visita à exposição "2005 Ano Bocage", Comemorações do Bicentenário da Morte de Bocage, patente no Museu de Arqueologia e Etnografia de Setúbal realizada por Henrique Félix.

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Lírica

Nascemos para amar; a humanidade

Vai tarde ou cedo aos laços da ternura.

Tu és doce atractivo, ó formosura,

Que encanta, que seduz, que persuade.

 

Enleia-se por gosto a liberdade;

E depois que a paixão n’alma se apura,

Alguns então chamam-lhe desventura,

Chamam-lhe alguns então felicidade.

 

Qual se abisma nas lôbregas tristezas,

Qual em suaves júbilos discorre,

Com esperanças mil na ideia acesas.

 

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre;

E, segundo as diversas naturezas,

Um porfia, este esquece, aquele morre.

 

Satírica

Havia mais de um mês que o bom Lizeno

Fechar sequer um olho não podia.

Subemtido à fatal sabedoria

Do respeitável médico pequeno

 

Hipocrates daqui, dali Galeno

Revolvia o tacão na livraria;

Remédios contra a insónia requeria,

Porém cada receita era um veneno.

 

Eis do Franco lhe lembra em-continente

Cada verso, mais duro do que um tronco,

E recipe de alguns forma ao doente:

 

Em curta dose aplica o metro bronco;

Receitou-lhe um terceto: eis de repente

Começa a bocejar, e prega um ronco!

 

Erótica

Soneto da Dama a cagar

 

Cagando estava a dama mais formosa,

E nunca se viu cu de tanta alvura;

Porém ver cagar a formosura

Mete nojo à vontade mais gulosa!

 

Ela a massa expulsou fedentinosa

Com algum custo, porque estava dura;

Uma carta de amor de limpadura

Serviu àquela parte malcheirosa;

 

Ora mandem à moça mais bonita

Um escrito de amor que lisonjeiro

Afetos move, corações incita;

 

Para o ir ver servir de reposteiro

À porta, onde o fedor, e a trampa habita,

Do sombrio palácio do alcatreiro! (rabo).

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

O Poeta Bocage (6)

Vou trazer aqui em dez publicações, trinta sonetos de Manuel Maria Barbosa du Bocage (Elmano Sadino), pseudónimo adoptado em 1790, quando da sua adesão à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia. Bocage é um dos nossos melhores poetas, embora não lhe seja reconhecida a sua genialidade, visto ser basicamente conhecido pelas suas anedotas obscenas ou ousadas. Escolhi trinta sonetos, dez da poesia lírica, dez de poesia satírica e outros dez da poesia erótica.

Alguns links sobre a poesia de Bocage, bem como onde poderão encontrar  alguns livros editados do poeta:

https://www.bertrand.pt/autor/bocage/9129

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Na RTP

Entrevista a Daniel Pires, presidente do Centro de Estudos Bocagianos sobre a obra satírica e erótica do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, com visita à exposição "2005 Ano Bocage", Comemorações do Bicentenário da Morte de Bocage, patente no Museu de Arqueologia e Etnografia de Setúbal realizada por Henrique Félix.

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/poesia-erotica-e-satirica-de-bocage/

Na TSF

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No Município de Setúbal

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Sobre a artista plástica Dina de Sousa:

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Lírica

Em que estado, meu bem, por ti me vejo,

Em que estado infeliz, penoso, e duro !

Delido o coração de um fogo impuro

Meus pesados grilhões adoro e beijo

 

Quando te logro mais, mais te desejo,

Quando te encontro mais, mais te procuro,

Quando mo juras mais, menos seguro

Julgo esse doce amor, que adorna o pejo.

 

Assim passo, assim vivo, assim mesu fados

Me desarreigam da alma a paz, e o riso

Sendo só meu sustento os meus cuidados

 

E, de todo apagada a luz do siso,

Esquecem-se (ai de mim !) por teus agrados

«Morte, Juízo, Inferno e Paraíso.»

 

Satírica

Conhecem um vigário de chorina,

De insulsa frase, da ralé maruja?

Sapo imundo, que bebe ou que babuja

No que deita por fora a Cabatina ?

 

Este é um tal Franco, um tal sovina,

Que orelhas mil e mil com trovas suja,

Digno rival do mocho e da coruja

Quando a voz desenfreia, a banza afina.

 

Faz versos em francês, francês antigo,

Em gíria de Veneza, e finalmente

Em corrupto espanhol; leve o castigo:

 

Ele diz que são bons, e os mais que mente;

Põe mãos à obra, faze o que te digo:

Chicoteia esse bruto, e crê na gente.

 

Erótica

Soneto do caralho decadente

 

Com quem magoas o não digo! Eu nem te vejo,

Meu caralho infeliz! Tu, que algum dia

Na gaiteira amorosa filistria

Foste o regalo do meu pátrio Tejo!

 

Sem te importar o feminino pejo, (pudor)

Atrás da mimosa virgem, que fugia,

Ficando a terna, fadigada Armia,

Lhe pegavas no coninho um beijo.

 

Hoje, canal de fétida remela,

O misantropo do país das bimbas,

Apenas olha a cândida donzela!

 

Deitado dos colhões sobre as tarimbas,

Só com a memória em feminil canela

Às vezes pívia (*) casual cachimbas.

 

(*) pívia = punheta. Por outras palavras: "às vezes ainda dás para bater algumas punhetas." Bocage revela neste poema que está velho e que a sua vitalidade já não é a mesma de antigamente. 

sábado, 4 de setembro de 2021

O Poeta Bocage (5)

 Vou trazer aqui em dez publicações, trinta sonetos de Manuel Maria Barbosa du Bocage (Elmano Sadino), pseudónimo adoptado em 1790, quando da sua adesão à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia. Bocage é um dos nossos melhores poetas, embora não lhe seja reconhecida a sua genialidade, visto ser basicamente conhecido pelas suas anedotas obscenas ou ousadas. Escolhi trinta sonetos, dez da poesia lírica, dez de poesia satírica e outros dez da poesia erótica.

 

Alguns links sobre a poesia de Bocage, bem como onde poderão encontrar  alguns livros editados do poeta:

https://www.bertrand.pt/autor/bocage/9129

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Na RTP

Entrevista a Daniel Pires, presidente do Centro de Estudos Bocagianos sobre a obra satírica e erótica do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, com visita à exposição "2005 Ano Bocage", Comemorações do Bicentenário da Morte de Bocage, patente no Museu de Arqueologia e Etnografia de Setúbal realizada por Henrique Félix.

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Lírica

Olhos suaves, que em suaves dias

Vi nos meus tantas vezes empregados;

Vista, que sobre esta alma despedias

Deleitosos farpões, no céu forjados:

 

Santuários de amor, luzes sombrias

Olhos, olhos da cor de meus cuidados,

Que podeis inflamar as pedras frias,

Animar os cadáveres mirrados:

 

Troquei-vos pelos ventos, pelos mares,

Cuja verde arrogância as nuvens toca,

Cuja horríssona voz perturba os ares.

 

Troquei-vos pelo mal, que me sufoca;

Troquei-vos pelos ais, pelos pesares.

Oh câmbio triste! oh deplorável troca!

 

Satírica

Deixa, insigne Bocage, insulsos vates,

Que o zelo teu à guerra desafia:

Brutos são, desconhecem poesia,

Com as armas de Apolo em vão combates.

 

Por mais que em corrigi-los te dilates

Fruto só tirarás dessa porfia,

Conduzindo-os à alta enfermaria

Da piedosa casa dos orates.

 

A Lereno, que é homem de juízo,

Por muitos versos, cheios de beleza,

Perdoa, se não gostas de improviso:

 

O egípcio entremez ele despreza;

Nos outros, sócio Elmano, é que é preciso

Palhas, dieta, e vergalhada tesa.

 

Erótica

Soneto da cópula canina

 

Quando no estado natural vivia

Metida pelo mato a espécie humana,

Ai da gentil menina desumana,

Que à força a greta virginal abria!

 

Entrou o estado social um dia;

Mandou a lei que o irmão não foda a mana,

É crime até chuchar uma sacana,

E pesa a excomunhão na sodomia;

 

Quanto, lascivos cães, sois mais ditosos! (felizes)

Se na igreja gostais de uma cachorra,

Lá mesmo, perante o altar, fodeis gostosos;

 

Enquanto a linda moça, feita zorra, (cadela)

Voltando a custo os olhos voluptuosos,

Põe num altar a vista, a ideia em porra. (piça; pénis)

sábado, 21 de agosto de 2021

O Poeta Bocage (4)

Vou trazer aqui em dez publicações, trinta sonetos de Manuel Maria Barbosa du Bocage (Elmano Sadino), pseudónimo adoptado em 1790, quando da sua adesão à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia. Bocage é um dos nossos melhores poetas, embora não lhe seja reconhecida a sua genialidade, visto ser basicamente conhecido pelas suas anedotas obscenas ou ousadas. Escolhi trinta sonetos, dez da poesia lírica, dez de poesia satírica e outros dez da poesia erótica.

Alguns links sobre a poesia de Bocage, bem como onde poderão encontrar  alguns livros editados do poeta:

https://www.bertrand.pt/autor/bocage/9129

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Entrevista a Daniel Pires, presidente do Centro de Estudos Bocagianos sobre a obra satírica e erótica do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, com visita à exposição "2005 Ano Bocage", Comemorações do Bicentenário da Morte de Bocage, patente no Museu de Arqueologia e Etnografia de Setúbal realizada por Henrique Félix.

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Lírica

Vai-te, fera cruel, vai-te, inimiga,

Horror do mundo, escândalo de gente,

Que um férreo peito, uma alma que não sente,

Não merece a paixão que me afadiga.

 

O Céu te falte, a terra te persiga,

Negras fúrias o Inferno te apresente,

E da baça tristeza o voraz dente

Morda o vil coração, que Amor não diga.

 

Disfarçados, mortíferos venenos

Entre licor suave em áurea taça

Mão vingativa te prepare ao menos;

 

E seja, seja tal tua desgraça,

Que ainda por mais leves, mais pequenos

Os meus tormentes invejar te faça.

 

Satírica

Vós, ò Franças, Semedos; Quintanilhas,

Macedos e outras pestes condenadas;

Vós, de cujas buzinas penduradas

Tremem de Jove as melindrosas filhas;

 

Vós, néscios, que mamais das vis quadrilhas

Do baixo vulgo insossas gargalhadas,

Por versos maus, por trovas aleijadas,

De que engenhais as vossas maravilhas,

 

Deixai Elmano, que, inocente e honrado,

Nunca de vós se lembra, meditando

Em coisas sérias, de mais alto estado.

 

E se quereis, os olhos alongando,

Ei-lo! Vede-o no Pindo recostado,

De perna erguida sobre vós mijando.

 

Erótica

Soneto de todos os cornos

 

Não lamentes, Alcino, o teu estado,

Corno tem sido muita gente boa;

Cornissimos fidalgos tem Lisboa,

Milhões de vezes cornos têm reinado.

 

Siceu foi corno, e corno de um soldado;

Marco António por corno perdeu coroa;

Anfitrião com toda a sua proa

Na fábula não passa por honrado;

 

Um rei Fernando foi cabrão famoso

(Segundo a antiga letra da gazeta)

E entre mil cornos expirou vaidoso;

 

Tudo no mundo está sujeito à greta;

Não fiques mais, Alcino, duvidoso,

Pois isto de ser corno é tudo peta.

domingo, 1 de agosto de 2021

O Poeta Bocage (3)

Vou trazer aqui em dez publicações, trinta sonetos de Manuel Maria Barbosa du Bocage (Elmano Sadino), pseudónimo adoptado em 1790, quando da sua adesão à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia. Bocage é um dos nossos melhores poetas, embora não lhe seja reconhecida a sua genialidade, visto ser basicamente conhecido pelas suas anedotas obscenas ou ousadas. Escolhi trinta sonetos, dez da poesia lírica, dez de poesia satírica e outros dez da poesia erótica.

Alguns links sobre a poesia de Bocage, bem como onde poderão encontrar  alguns livros editados do poeta:

https://www.bertrand.pt/autor/bocage/9129

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https://www.tsf.pt/programa/o-livro-do-dia/emissao/antologia-de-poesia-erotica-de-bocage-8963082.html

No Município de Setúbal

https://www.mun-setubal.pt/livro-valoriza-poesia-erotica/


Sobre a artista plástica Dina de Sousa:

http://artistasportugueses.weebly.com/dina-de-sousa.html


Lírica

A frouxidão no amor é uma ofensa,

Ofensa que se eleva a grau supremo;

Paixão requer paixão, fervor e extremo;

Com extremo e fervor se recompensa,

 

Vê qual sou, vê qual és, vê que dif’rença!

Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;

Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;

Em sombras a razão se me condensa.

 

Tu só tens gratidão, só tens brandura,

E antes que um coração pouco amoroso

Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.

 

Talvez me enfadaria aspecto iroso;

Mas de teu peito a lânguida ternura

Tem-me cativo, e não me faz ditoso.


Satírica

Não tendo que fazer Apolo, um dia,

Às Musas disse: «Irmãs, é benefício

Vadios empregar; dêmos ofício

Aos sócios vãos da magra Academia:

 

O Caldas satisfaça a padaria;

O França de enjoar tenha exercício,

E o autor do entremez do rei egípcio

O Pégaso veloz conduza à pia.

 

Vá na Ulisseia tasquinhar o ex-frade,

Da sala o Quintanilha acenda as velas,

Em se juntando alguma sociedade.

 

Bernardo nénias faça, e roa nelas;

E Belmiro, por ter habilidade,

Como de antes, trabalhe em bagatelas».

 

Erótica

Soneto de todas as putas

 

Não lamentes, ó Nize, o teu estado;

Puta tem sido muita gente boa;

Putíssimas fidalgas tem Lisboa,

Milhões de vezes putas têm reinado;

 

Dido foi puta, e puta de um soldado;

Cleópatra por puta alcançou a coroa;

Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,

O teu cono não passa por honrado: (cona)

 

Essa da Rússia imperatriz famosa,

Que ainda há pouco morreu (diz a Gazeta)

Entre mil piças expirou vaidosa;

 

Todas no mundo dão a sua greta;

Não fiques pois, ó Nize, duvidosa

Que isso de virgem e honra é tudo peta. 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

O Poeta Bocage (2)

Vou trazer aqui em dez publicações, trinta sonetos de Manuel Maria Barbosa du Bocage (Elmano Sadino), pseudónimo adoptado em 1790, quando da sua adesão à Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia. Bocage é um dos nossos melhores poetas, embora não lhe seja reconhecida a sua genialidade, visto ser basicamente conhecido pelas suas anedotas obscenas ou ousadas. Escolhi trinta sonetos, dez da poesia lírica, dez de poesia satírica e outros dez da poesia erótica.

Alguns links sobre a poesia de Bocage, bem como onde poderão encontrar  alguns livros editados do poeta:

https://www.bertrand.pt/autor/bocage/9129

https://www.wook.pt/livro/poesias-eroticas-bocage/223553

https://www.fnac.pt/Antologia-de-Poesia-Erotica-de-Bocage-Bocage/a1320322

Na RTP

Entrevista a Daniel Pires, presidente do Centro de Estudos Bocagianos sobre a obra satírica e erótica do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, com visita à exposição "2005 Ano Bocage", Comemorações do Bicentenário da Morte de Bocage, patente no Museu de Arqueologia e Etnografia de Setúbal realizada por Henrique Félix.

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/poesia-erotica-e-satirica-de-bocage/

Na TSF

https://www.tsf.pt/programa/o-livro-do-dia/emissao/antologia-de-poesia-erotica-de-bocage-8963082.html

No Município de Setúbal

https://www.mun-setubal.pt/livro-valoriza-poesia-erotica/



Sobre a artista plástica Dina de Sousa:

http://artistasportugueses.weebly.com/dina-de-sousa.html


Lírica

Temo que a minha ausência e desventura

Vão na tua alma, docemente acesa,

Apoucando os excessos de foirmeza,

Rebatendo os assaltos da ternura.

 

Temo que a tua singular candura

Leve o Tempo, fugaz nas asas presa,

Que é quase sempre o vício da beleza

Génio mudável, condição perjura.

 

Temp; e se o fado mau, fado inimigo,

Confirmar ìmpiamente este receio,

Espectro perseguidor, que anda comigo,

 

Com rosto, alguma vez de mágoa cheio,

Recorda-te de mim, dize contigo:

«Era fiel, amava-me, e deixei-o.»


Satírica

Preside o neto da rainha Ginga

À corja vil, aduladora, insana.

Traz sujo moço amostras de chanfana,

Em copos desiguais se esgota a pinga.

 

Vem pão, manteiga e chá, tudo à catinga;

Masca farinha a turba americana;

E o orangotango a corda à banza abana,

Com gesto e visagens de mandinga.

 

Um bando de comparsas logo acode

Do fofo Conde ao novo Talaveiras;

Improvisa berrando o rouco bode.

 

Aplaudem de contínuo as frioleiras

Belmiro em ditirambo, o ex-frade em ode.

Eis aqui Lereno as quartas-feiras.


Erótica

Soneto (Des)pejado

 

Num capote embrulhado, ao pé de Armia,

Que tinha perto a mãe o chá fazendo,

Na linda mão lhe foi (oh céus) metendo

O meu caralho, que de amor fervia;

 

Entre o susto, entre o pudor, a moça ardia;

E eu solapado os beijos remordendo,

Pela fisga da saia a mão crescendo

A chamada sacana lhe fazia;

 

Começa a vir-se a menina... Ah! Que vergonha!

"Que tens?" — diz-lhe a mãe sobressaltada;

Não pôde ela encobrir na mão langonha;

 

Sufocada ficou, a mãe corada;

Finda a partida, e mais do que medonha

A noite começou à bofetada.