Eles ajudaram a criar o Hard Rock, venderam 100 milhões de álbuns e
foram oficialmente considerados a banda mais barulhenta do mundo. O
Deep Purple também nos proporcionou o hino supremo do headbanging,
Smoke on the water. Mas ainda mais legendárias foram as discussões
entre o guitarrista Ritchie Blackmore e o cantor Ian Gillan. Em certa
época as brigas e mudanças na formação ameaçaram acabar com uma das
maiores bandas da Inglaterra. Porém, desde que o guitarrista Steve
Morse se juntou à banda em 1994, o Deep Purple voltou a sua melhor
forma e está caminhando para seu aniversário de 40 anos.

P :Ian Paice, você é o único membro original, então você é o chefe?
Paice: Se você é Paul McCartney e Wings ou Count Basie e sua orquestra
então alguém seria o chefe, mas nós somos um grupo. Cada um de nós tem
ideias e precisamos uns dos outros para fazê-las funcionarem. Não posso
obrigá-los (os outros membros da banda) a fazer algo que não queiram.
P : Vocês estão em turnê durante todo o tempo – como fazem isso?
Gillan: A coisa funciona ao contrário, se eu não o fizesse não seria
mais capaz de fazê-lo. Se você é um cantor com mais de 40 anos é
particularmente difícil porque sua voz pode mudar se você não a mantém
treinada. Sobre meu grito com marca registrada em Child in Time, eu
acho que me mandaria para um hospital se eu o tentasse agora. As notas
ainda estão disponíveis, mas não conseguiria sustentá-las por tanto
tempo.
P: Vocês têm um repertório massivo. Como fazem para escolher as
músicas que vão tocar?
Gillan: Primeiro você não atende aos pedidos, esse é o dia em que você
pendurou as chuteiras. Falando sério, existe uma fórmula. Boa parte do
material é histórica, está enraizada nas memórias de nossos fãs mais
antigos e também são as composições clássicas a que os novos fãs se
habituaram. Então, claro que tocamos Smoke on the water, Space Truckin,
Black Night. Mas o que mantém tudo isso vivo é o fato de que fazemos um
novo álbum a cada dois anos e daí temos que trazer conosco algo desse
material. É como mudar sua dieta. Você sempre tem os alimentos básicos,
mas tem que mudar os acessórios e isso faz com que tudo valha à pena.
Além do mais precisamos de material contemporâneo. Tentamos também
encontrar quais das músicas novas caem bem com o material antigo.
Paice: Sempre que começamos uma turnê temos a ideia de colocar juntos
três shows diferentes – ato A, ato B e ato C – para fazer um rodízio
com as músicas. Muitas pessoas vão a mais de um show. Então tentamos
tocar o maior número de músicas possível. Acontece então uma seleção
natural e descobrimos que o ato B é melhor do que o C ou o A, no final
temos músicas que funcionam bem juntas. Podemos fazer algumas
alterações, mas uma vez que decidimos, pensamos “Isso está legal, vamos
fazê-lo.”
Gillan: Algumas coisas não funcionam. Sempre ouvimos pedidos para
tocarmos “The Flight of the Rat”, do In Rock, mas não soa legal, está
muito datada, não serve mais para o contexto atual da banda. Outro
elemento importante é a improvisação, mantém a coisa fresca. Alguns
críticos que vêem nossa lista de músicas dizem “Meu deus, eles fizeram
o mesmo show da semana passada.” Mas é claro que não. A lista de
músicas pode ter sido a mesma, mas a performance é totalmente diferente
e se eles checarem a duração verão que um show levou uma hora e 40
minutos e o outro durou duas horas e dez minutos, quase meia hora de
diferença.

P: Ian, foi difícil para você deixar o Purple em 1973, no auge de
sua forma, e então ver sua banda continuar com David Coverdale?
Gillan: Deixar a banda foi triste, particularmente porque eu não estava
totalmente seguro do que eu estava fazendo. Eu comprei os álbuns “Burn”
e “Stormbringer” com David Coverdale nos vocais – ainda os tenho – mas
eu jamais poderia escutá-los. No último minuto algo me disse que seria
como ver minha ex-mulher transando com outra pessoa.
P:E como foi a decisão de reunir a formação clássica do Mark Number
II (Deep Purple tem a descrição da história de seus line-ups, cada um é
definido pelo número do "Mark", que vai de I, a formação original até a
atual que é MK VIII), com Ritchie, em 1984 e depois retornar em 1992
mesmo tendo sido expulso por ele?
Gillan: As coisas foram fáceis em 1984, ainda havia uma fagulha de
desejo e respeito mútuo, o resultado foi o álbum “Perfect Strangers”. A
volta em 1992 foi completamente diferente; nós nos enfrentamos por
algum tempo até que Ritchie deixou a banda alguns meses mais tarde.
P:Quais foram as principais diferenças entre você e Ritchie?
Gillan: Bem, tenho que ser honesto, a principal diferença entre eu e
Ritchie era: eu era um cara legal e ele era um palerma. Sério, Ritchie
foi meu companheiro de quarto durante o primeiro ano. Ele tinha um
grande senso de humor, bem negro diga-se de passagem, mas que nos fazia
rir. Não havia essa coisa de amor/ódio. Mas ele tinha tendências
dominadoras e eu não gosto de ser mandado e desmandado, assim acho que
era inevitável que nossa relação não iria se desenvolver positivamente.
P:A banda parece bem feliz e estável agora, comparando com os
velhos tempos.
Gillan: Sim é parte de um processo de crescimento. Você pode se
preparar para qualquer coisa durante seus anos de formação – como ser
um músico, até como escrever músicas. Mas você jamais pode se preparar
para o sucesso e leva algum tempo para você se adaptar a isso,
particularmente quando você está com 20 e poucos anos e tem dinheiro
saindo pelas orelhas. Então você se isola e começa a ficar num quarto
particular. Então, de repente, temos empresários e coisa e tal e você
descobre que é um mundo diferente, um mundo brutal. Daí você começa a
construir paredes ao seu redor e a ficar na defensiva e você não pode
fazer isso quando é um artista. Você preserva e escolhe o que quer que
seja bom e tenta viver a vida com isso. Isso não é bom, não funciona.
Então as coisas mudam, desmoronam. A banda terminou e quando nos
reunimos novamente (em 1984) não éramos mais as mesmas pessoas.
Paice: Se você não leva nenhuma porcaria para o palco tocar é realmente
fácil. Se torna um problema se você traz consigo seus problemas, sejam
sobre negócios ou pessoais, ou se seu café da manhã não foi legal. Se
você traz toda essa merda para o palco você não toca direito.


P: Era essa a dificuldade com Ritchie?
Paice: Ele se acostumou a levar seus problemas para o palco, qualquer
que tenha sido a razão disso. É um cara muito emotivo. Com o passar do
tempo ele se tornou uma versão mais concentrada de si mesmo e ficou
muito difícil trabalhar com ele. Não direi nada de mal sobre ele,
porque ele foi incrivelmente importante para a formação e para a vida
do Deep Purple.
P:A banda parece estar trabalhando duro para recuperar o tempo
perdido com todos esses problemas. É justa essa avaliação?
Gillan: Eu acho que sempre tentamos trabalhar duro. Quando nos
aproximamos da morte valorizamos cada segundo de nossa vida e o Deep
Purple estava se aproximando da morte em 1993. Nosso público estava
minguando, estávamos tocando em lugares com 4000 assentos para meras
1200/1500 pessoas. Aquela definitivamente iria ser a última turnê.
Então, felizmente, Ritchie apareceu, o sol brilhou de novo e nós todos
dissemos “Ok, vamos dar mais mais um pega”. Então, sim, nós somos
agradecidos por essa chance.
P:O que Steve Morse trouxe para a banda?
Gillan: Ele trouxe Steve Morse. Não importam quais sejam suas
habilidades, o maior impacto que você terá sobre um grupo é devido à
sua personalidade. Steve é um músico e um criador incrível, ele ainda
pratica até seis horas por dia, até em dias de show.
P:Ao longo dos anos várias pessoas passaram pelo Deep Purple.
Gillan: Tenho uma coisa, que o musicólogo Pete Frame fez para um
programa da BBC, chamada a árvore genealógica do Deep purple. Esse cara
apareceu e disse “Isso não é uma árvore, é uma maldita floresta”, e é o
mesmo com todas as conexões da banda.
P:Vocês fazem muitas turnês pelo leste europeu – parece que há
muita afeição por vocês por lá.
Gillan: Até onde sabemos no bloco do leste, ou atrás da Cortina de
ferro, nossa música era proibida. Eu conversei com muitas pessoas que
aprenderam inglês através de álbuns proibidos, de bandas como o Deep
Purple. Eles entenderam sobre o que Child in Time falava (guerra fria)
e que existiam garotos do outro lado do muro de Berlin que sentiam o
mesmo que eles.
Conheci um cara que pegou três anos de cadeia por porte de um disco do
DeepPurple, In Rock – eu acho que ele deveria ter pegado um pouco mais
(risos). Ele subiu no palco e meu deu um abraço tão forte que quase me
matou. Três anos de cadeia é muito tempo somente por ter certo disco.
Assim você imagina como aquilo era opressivo.
P:Você acha que a indústria fonográfica é um lixo?
Gillan: Eu acho que eles têm visão de curto prazo. Eles deveriam ter
apoiado a revolução digital. Todas as pessoas criativas que conheci em
estúdios – empresários, produtores – estavam excitados quando tudo isso
começou a acontecer. Todos nós temos essa visão de uma grande jukebox
nos céus, como seria bom fazer download de filmes, qualquer coisa, como
seria bom. A indústria viu isso como uma ameaça. Ao invés de apoiar,
eles lutaram contra. Existem inúmeras pessoas nesse negócio pelas quais
eu tenho um enorme respeito. Mas por outro lado existem pessoas que não
tem nenhum respeito pela música.
Houve um encontro na AOL/Time-warner, no qual estava um amigo meu. E o
grande Ahmet Ertgun, da Atlantic Records – um dos caras das grandes
companhias, que história – foi intimado por que não havia gasto seu
orçamento do ano anterior. Eles iriam cortar o orçamento do próximo ano
e ele estava tentando explicar a eles que algumas vezes o dinheiro era
investido e em algumas ocasiões era poupado, para poder eventualmente
investir em algum artista em que estivesse interessado. De qualquer
maneira, disseram a ele, compre um iate, mas gaste essa grana. E houve
dois idiotas que haviam acabado de se juntarem à mesa, um deles disse
sobre Ertegun “Quem diabos é esse cara?” e o outro disse “Não sei,
algum provedor de conteúdo”. Isso resume muito bem quanto interesse
essas grandes corporações têm.
Nós começamos como uma banda underground. Mas você faz sucesso e
espera-se que se comporte de certa maneira. De certa forma você tem que
mudar, senão morre, e isso nós fizemos internamente. Mas a indústria
fonográfica é implacável.
Paice: Nós desistimos de fazer vídeos há alguns anos atrás. Se nós
gastamos 2 milhões de libras tentando fazer o melhor vídeo de todos os
tempos eles não iriam tocá-lo, então para que gastar 2 milhões de
libras? Havia um single do Kasabian, com um vídeo fabuloso. A música
era ok, mas eu não acho que as pessoas iriam reparar, caso o vídeo não
fosse tão bom. Daí desistimos de nos preocupar com MTV ou com qualquer
um dos canais de música da televisão há 15 anos atrás. Isso é
complicado, pois é uma excelente maneira de expor seu trabalho para o
público. Se você não é menor de idade ou um artista de rap, é uma perda
de tempo e de dinheiro. Quando começamos, nossa fama cresceu graças à
comunicação direta entre as pessoas e é assim ainda hoje.


P:Por que sua geração é considerada mágica? Por que os músicos
duraram tanto tempo?
GILLAN: A longa duração é fácil de entender, nós não tínhamos a
aspiração de sermos celebridades. Houve alguns grandes personagens e
personalidades que eram espontaneamente engraçados e se tornaram
celebridades – pessoas como Keith Moon e John Lennon.
Eventualmente você pode ver uma pessoa como essa em qualquer lugar.
Alguém me pergunta, “Como posso me tornar um rock star?” Eu digo “Faça
um belo corte de cabelo, olhe no jornal e veja o quê as pessoas estão
usando, faça um vídeo, enfim. Mas se você quer ser um músico... isso é
algo diferente. Posso lhe dar toneladas de conselhos.
Nós entendemos o valor do trabalho. Tivemos que passar por audições
antes de nos permitirem tocar na BBC. De certa forma isso é uma merda,
mas tem a ver com profissionalismo – você não vai fazer algo errado.
Você tem que estar lá na hora certa para os ensaios, você não fica
bêbado no palco. Embora houve uma época em que nós o fazíamos por que
pensávamos que éramos imortais.
Em relação à mágica de nossa geração, os astros estavam num bom momento
politicamente falando. Éramos encorajados a
sermos criativos, havia muita coisa para ser reconstruída, a sociedade
precisava ser reconstruída. E é claro houve Jim Marshall (fabricante de
amplificadores) e a guitarra elétrica. Aqueles pequenos detalhes sobre
o mundo da música de quem ninguém fala nada.
Paice: É incrível que bandas de Rock’n’Roll consigam durar cinco, dez
anos. Nós estamos caminhando para nosso 40o aniversário. Tocamos
músicas que foram criadas dez ou quinze anos antes que a maioria de
nosso público tivesse sequer nascido. E eles estão encontrando algo em
nós, algo que eles não encontram em sua própria geração. É impossível
analisar e descobrir o porquê disso, mas talvez seja por que ouvimos
aqueles álbuns maravilhosos dos anos 60 e 70 e eles são muito humanos.
Têm algumas discrepâncias, alguns passos em falso, mas é possível
escutar os sons do estúdio onde foram gravados, sentir o clima,
perceber as pessoas gravando. A maioria dos álbuns modernos são tão
perfeitos tecnicamente, são peças clínicas de criação e algumas vezes
não é possível se conectar de alguma maneira com as pessoas que o estão
tocando. São muito perfeitos, perderam sua humanidade.
Quando os garotos escutam músicas de Jimi Hendrix pela primeira vez,
com toda sua agressividade e liberdade ultrajantes, ou quando eles
escutam os gloriosos sons dos Beatles com sua musicalidade pura, existe
algo que eles não atingem mais escutando a Radio 1 ou assistindo a MTV.
Ok, então naquela época a música se tornou um pouco bombástica mas
havia bandas como o Zeppelin e o Purple e você podia “viajar”
livremente. Não havia um homenzinho de terno dizendo que sua música não
era boa pois não soava como o último hit que você havia gravado. E,
além disso, nos davam a liberdade de ver aonde a música iria nos levar.
Não acho que isso volte jamais, a música não é mais tão importante
quanto foi para nossa geração. Também acho que tinha a ver com o país
em que nascemos. Se eu tivesse nascido na Romênia em 1948 tenho certeza
que minha vida teria sido completamente diferente.
P:Como é criado o som do Deep Purple?
Gillan: Nós todos trazemos sonoridades diferentes para a banda – folk,
clássicos, blues, rock, opera, jazz. Ian Paice cresceu na escola de
Buddy Rich – aquela batida de Big Band.
Paice: Todas as bandas clássicas de Rock’n’Roll da época tinham a
guitarra como instrumento principal. O Purple era uma mistura de
teclados e guitarra, era um som diferente. Houve bandas com um músico
virtuoso, talvez dois, mas nunca todos da banda e nós nunca ficamos
para trás nesse aspecto. Nunca permitimos ninguém senão os melhores
nessa nossa pequena família.


P:Os créditos nas músicas e letras são muito democráticos.
Paice: Houve um tempo em que esse processo se tornou um pouco seletivo,
mas as melhores músicas que nós criamos foram feitos com idéias de
todos, ninguém falando “Isso é meu”. A maioria daquilo que criamos veio
de nossas jam sessions.
Colocamos uma fita gravando e mandamos ver por algumas horas, só nos
divertindo, então encontramos algo que ficou bom e trabalhamos nisso.
Então as coisas saem do nada – apenas alguns de nós tocando juntos.
Nada é planejado, é apenas diversão. De vez em quando encontramos
alguma parte mágica que nos faz sorrir e vamos aí “agora está legal”.
Depois somamos e refinamos junto com o resto da banda e ninguém sabe
quem escreveu o quê. Democracia é muito bom para uma banda por que
significa que todos ficam num patamar financeiro similar.
P:Algum conselho para bandas atuais?
Gillan: Com minha experiência eu poderia dar muitos conselhos para
músicos aspirantes – como tirar o máximo de suas habilidades e como
evitar as armadilhas mais óbvias. Mas se alguém apenas quer ficar
famoso tudo que posso fazer é desejar boa sorte; provavelmente já é
muito tarde para conselhos.
Nada de errado com boas relações públicas, você deve fazer com que as
pessoas saibam o que você tem a oferecer. Mas se você faz muita onda é
quase inevitável que você irá passar maus bocados nas marolas.
P: Você se entusiasma com algo que esteja escutando atualmente?
Gillan: Eu descobri o patronalismo que era isso quando escutei a
geração de meus pais dizer que eles adoravam Elvis, eu realmente fiquei
ressentido com isso. Ele não pertencia a eles. Há uma certa
exclusividade na música de cada geração. Você pode concluir que alguém
tenha talento, mas você jamais o entenderá. Suponho que o quê eu
procuro por aí é música pop das boas. Eu cresci na época de Dusty
Springfield, Small Faces e The Kinks além de outras coisas boas.
Dessa maneira foi muito agradável escutar uma nova geração de bandas
que apareceram no ano passado e que não necessariamente vieram da era
de Zeppelin, Sabbath e Purple. Quando eu escuto Kaiser Chiefs eu os
acho brilhantes. Não sei nada sobre eles, por que raramente fico na
Inglaterra, estou sempre na estrada. Mas eu os vi na MTV e os ouvi no
rádio do carro.
P:O que vocês acham do “X Factor” e da maneira como faz “estrelas”
e então rapidamente as esquece?
Gillan: Está além da minha compreensão e não tem nada a ver com talento
original. Imagine uma banda competindo, com Elvis Presley nos vocais,
Jimi Hendrix no banjo, Keith Moon como baterista e Jack Bruce no baixo.
Eles não passariam da primeira audição no auditório local por que eles
não se encaixam no perfil raso e datado que existe na cabeça estúpida
desses apresentadores baratos e na TV com seu apetite insaciável, mas
autofágico, por conteúdo. Da mesma maneira que (essas atrações) chegam
e logo desaparecem, então o quê esperar?
Paice: É muito fácil ser uma celebridade hoje em dia – fácil para
fazer sucesso, fácil para gravar discos. Assim temos um monte de
joões-ninguém que ficam em evidência alguns meses e depois desaparecem.
É todo um universo de fast foods e entretenimento barato. E quando as
pessoas dizem que a qualidade não é lá essas coisas, o quê esperar?
Estão pegando garotos que talvez tenham uma centelha de talento, mas
eles estão sendo esmagados pela indústria antes de terem a chance de
desabrocharem. Eles perdem o interesse em se tornarem talvez outro Paul
McCartney e terminam trabalhando numa fábrica por que pensam “Não, isso
é horrível”.
P:Você é um grande fã de Elvis, já se encontrou com ele alguma vez?
Gillan: Eu não suportaria isso. Acho que ele foi um cara decente, mas
que viveu cercado por sicofantas. Elvis se perdeu depois de voltar do
exército e começar a fazer aquelas porcarias de filmes. Não suporto
aquilo tudo. Pareceu que ele havia perdido sua integridade. E isso foi
uma lição para mim, evitar todas aquelas armadilhas. Mas de qualquer
maneira temos que escutar sua voz e não olhar para aquele terno
estúpido cravejado de pedras baratas que escarneceu de tudo o que ele
fez. De fato estou fazendo um documentário para o rádio sobre o manager
de Elvis, Coronel Tom Parker. Tenho algumas questões que precisam ser
respondidas.
p:O que vocês acham do Blackmore’s Night ( o projeto solo atual do
guitarrista em que ele se veste com roupas medievais)?
Gillan: Eu acho que Ritchie está perdendo seu tempo. Eu sei que ele
sempre adorou músicas medievais. Ele sempre tocava Greensleeves e ele é
excêntrico. Tocou por bastante tempo com Screaming Lord Sutch (nome
artístico de David Edward Sutch, um inglês maluco, músico, parecido com
o Chacrinha mas que foi até político, fundador de partidos excêntricos
com o Official Monster Raving Loony Party) e acho que algo se
desgastou. Ele é um incrível guitarrista, um músico articulado,
fenomenal – simplesmente incrível. Acho que muitos fãs adorariam vê-lo
tocando rock’n’roll novamente. Mas ele encontrou algo que o faz feliz e
até onde eu me preocupo se ele está feliz nós estamos felizes.
Paice: Eu não acho que isso é o que ele deveria estar fazendo. Acho que
ele pode fazer um ábum de Rock’n’Roll devastador. Ele é um mestre na
criação de riffs. Se ele tivesse a necessidade estou certo de que ele
poderia fazê-lo amanhã. Mas se algum dia ele vai liberar sua fúria
novamente eu já não sei. Boa sorte, mas para mim é um desperdício de um
grande guitarrista de Rock’n’Roll.


P:O que você acha do termo Heavy Metal?
Gillan: Bom, fomos chamados de um bocado de coisas ao longo dos anos,
algumas delas não muito agradáveis. Mas Heavy Metal, mesmo que
involuntariamente, é um termo inapropriado. Provoca desde um erguer de
sobrancelhas até uma ligeira náusea na maioria dos músicos que eu
conheço. De qualquer maneira não é tão irritante ou ofensivo como o
igualmente involuntário, mas muito mais daninho, “Classic Rock”.
p:Você já ficou entediado ao tocar Smoke? (já ficou entediado com a
pergunta sobre se você já ficou entediado ao tocar Smoke?)
Gillan: Tente imaginar. Coloque-se no meu lugar. Não, é como um
garanhão indomado ou uma super motocicleta estacionada ali fora. Eu
posso simplesmente montar e decolar – sentir o vento em meus cabelos.
Pavarotti disse uma vez que me invejava. Estávamos fazendo Nessum Dorma
(quer dizer em italiano Ninguém durma, é uma ária do último ato de
Turandot, ópera de Giacomo Puccini) juntos em seu show anual para
angariar fundos e ele disse: “Escutei você cantando Smoke tantas vezes
e sempre é diferente, não muito mas diferente o bastante para ser
interessante, não importa quantas vezes você a cante. Com Nessum Dorma
eu tenho que ser tecnicamente exato em cada apresentação – qualquer
desvio da apresentação clássica e eu seria crucificado. Estou com
inveja, você é um cara de sorte”. De fato essa canção agora é um bem
público e a audiência, que é o sexto membro da banda, a que em todos os
shows.
p:É verdade que você inventou o Headbanging?
Gillan: Definitivamente é uma possibilidade, eu fui um entusiasta do
headbanging. Não era exatamente headbanging era mais um hair floating
(literalmente, cabelo flutuando). Eu descobri que se movesse minha
cabeça de certa maneira eu criava um contra dinamismo da velha
cabeleira, e eu não tive ideia disso até ver algumas fotografias. De
fato eu não tinha idéia sobre quase nada, pois meu cabelo quase
obscurecia minha face completamente. Outra coisa sobre a qual não tinha
ideia era meu apelido na época. Eu era conhecido como “The Nose” por
que aparentemente era tudo de minha face que normalmente ficava
visível.
p:Conte-nos como você escolheu os músicos e o material para seu
álbum solo retrospectivo Gillan’s Inn.
Gillan: Bem, a ideia foi criar algum tipo de álbum para o 40o
aniversário, pois meu empresário disse que já era hora de fazê-lo.
Então fiz algumas ligações, mandei alguns emails e tive uma resposta
fantástica. Em 20 minutos Joe Elliot disse “Eu estarei lá, pode contar
comigo parceiro”. Daí eu, Joe Elliot do Def Leppard, Tony Iommi do
Black Sabbath, com que eu estive junto por um ano, acabamos gravando
Thrashed juntos com Ian Paice e Roger Glover, que foi tipo uma versão
Black Purple. Joe Satriani esteve com o Deep Purple por um ano depois
que Ritchie saiu em 1993, Janick Gers do Iron Maiden estava na Gillan
Band. Daí uma vez que eu tinha os músicos todas as músicas meio que se
auto selecionaram. E há seleções da maior parte de minha carreira.
P:O Purple está planejando uma continuação para o álbum atual,
Rapture of the Deep?
Gillan: Eu sei que parece peculiar mas não, não temos nenhum plano.
Nunca fazemos planos para gravar, nunca fizemos, exceto no último
minuto é claro, para agendar um vôo ou coisa assim. De qualquer maneira
estou certo de que acabaremos num estúdio nalgum dia no final da turnê,
mexeremos o caldo, então faremos alguns questionamentos sobre os
prospectos de Sunderland, QPR e Notts Forest (estúdios), antes de nos
concentrarmos por cinco semanas, então deveremos ter um novo álbum e a
base para mais uma turnê de dois anos. Eu amo isso!
P:Finalmente como o Purple de agora se compara com o Purple de
antigamente?
Gillan: Posso lhe oferecer apenas uma comparação subjetiva. Passamos
por altos e baixos, mas acho que nos saímos bem, enquanto a equipe
mudou um pouco agora temos a formação mais estável de todos os tempos e
ainda temos 60 por cento do “antigamente”.
TRADUÇÃO LIVRE : PEDRÃO