
P: Em primeiro lugar, o que está acontecendo com o EP que a Relapse vai lançar para vocês? Por que vocês resolveram gravar um EP? Pelo que entendi é uma coleção de material ao vivo, além de sons ainda não lançados de uma demo-tape e sairá somente em versão digital, antes do lançamento do novo álbum (o magnífico Traitors, nesta altura já lançado). Alguma idéia de quando o EP estará disponível?
JN: Depois de gravarmos Discordia em 2006, fizemos muitos shows e entre as viagens, para nos divertirmos fizemos algumas músicas. Ao longo do caminho, estivemos no estúdio de um amigo e gravamos este material. Algumas vezes, espontaneamente, escrevemos e gravamos tudo num só dia. O resultado foi um vinil de 7’’ da turnê “Hang’em high” na Europa no começo de 2007 e o “Rulling class canceled”, que saiu em CD e em vinil 7’’, também de uma turnê na Europa no começo de 2008. Assim, como o próximo álbum sairia somente no final de 2008, a Relapse sugeriu que lançássemos esse material oficialmente para os fãs que não têm toca discos e para aqueles que não conseguiram as gravações de qualquer maneira. Estes lançamentos foram feitos por pequenos selos europeus e muitos fãs não tiveram sequer a oportunidade de ouvi-los. Foi por isso que resolvemos juntar mais algumas gravações ao vivo de nossa última turnê e lançar tudo em formato digital enquanto o novo álbum não sai.
P: Alguns anos se passaram desde Discordia. O que tem rolado desde então?
JN: Turnês, turnês e mais turnês e além das gravações mencionadas acima, bem pouco. Viajando e cruzando o mundo como uma banda de Death metal tem suas pequenas recompensas, no entanto. A lembrança de fazer cerca de 300 shows em mais de 25 países por pouco mais de 2 anos é digna de ser levada para a sepultura.
P: Agora que teremos o EP lançado para despertar nosso apetite, o que podemos esperar do próximo álbum, em termos musicais e conceituais? Será uma continuação do Death-grind furioso do Discordia ou vocês irão experimentar novas sonoridades? A frase “em time que está ganhando não se mexe” parece representar o que ocorre geralmente com as bandas de seu estilo. Recentemente houve muito barulho por causa de shows do Cryptopsy com material novo, aparentemente fãs de Death metal não são muito abertos para experimentação. Antes de soltar algum material novo vocês se preocupam com o que os fãs vão achar?
JN: Sim, o novo álbum pode ser considerado um passo refinado para além do material do Discordia. Isso tem a ver com o fato de que estamos tocando e escrevendo como um time coeso de quatro pessoas há pelo menos 3 anos. Eu acho que o Discordia representou uma banda que havia se formado há pouco tempo, o guitarrista/vocalista Mark e o baterista Adam haviam se juntado à banda pouco tempo antes de escrevermos e gravarmos o álbum. Neste novo trabalho a sonoridade violenta está intacta, combinada com uma excelente gravação. Estamos mais contentes do que nunca e acreditamos que este novo álbum é a melhor coisa que já gravamos até agora. Os fãs antigos vão curtir e acho que ganharemos mais alguns, certamente.

P: Que tipo de tema vocês exploram no novo álbum? Têm algo que você poderia nos adiantar sobre isso?
JN: O nome do álbum é Traitors. É um tipo de diatribe contra a situação atual do lema “se você não está conosco então está contra nós” daqueles que acham que o medo é a melhor forma de controlar uma sociedade, principalmente na sociedade americana. Qualquer cidadão que questione ou critique a “guerra ao terror’ rapidamente é tachado de “não-americano”, de traidor. Tomamos cuidado de incluir todos os aspectos da mídia politizada, que é de fato uma ferramenta para definir e preservar o que é aceitável ou não de ser discutido em relação à tal “guerra ao terror”. Assim como a guerra contra as drogas ou a guerra contra a pobreza, estas são guerras contra idéias, guerras que nunca terminam e servem como instrumentos de controle da sociedade . Além do mais há a idéia de que nossa nação foi formada a partir da rebelião e nossos “pais fundadores” seriam tachados de terroristas pelos padrões atuais. Algumas das novas músicas, como a instrumental “We never come in peace” é dedicada à memória de povos indígenas de todo o planeta que foram destruídos por colonizadores predadores ao longo dos séculos. “Ghosts of Catalonia” é dedicada à sociedade anarquista que floresceu em Barcelona e em outros locais da Espanha de 1936 a 1939, como foi contado no livro de George Orwell “Homage to Catalonia”. “Black sites” fala da capacidade extraordinária dos governos de eliminarem pessoas ou idéias que vão contra seus interesses.
P: O Misery Index é considerada uma banda politizada, pois suas letras têm uma visão esquerdista e, como foi deixado claro em sua última fala, vocês discutem de religião e injustiças históricas até os males atuais da sociedade. Embora não seja surpresa ver uma banda cujo nome saiu de uma música do Assuck discutir estes temas, na cena Death metal isto não é muito comum. Vocês se sentem mais alinhados, ideologicamente pelo menos, com as cenas grind/anarcho/crust/hardcore/punk? Como vocês acham que se encaixam na cena do Heavy metal de maneira geral?
JN: Bem, em primeiro lugar para nós vem a música. A banda surgiu para nos expressarmos musicalmente e isso é a base de tudo. Nós não nos alinhamos com cena alguma especificamente, mas nossa música é essencialmente Death metal, nós concordamos com essa descrição já que esse estilo representa nossas raízes e é nossa paixão. Claro que não nos impomos limites, já que o crust/grind se infiltram em nossa música de um jeito ou de outro. Porém a ideologia e as letras são como um toque final (icing on the cake) para o Misery Index. Fui feliz o bastante para ter outros 3 caras na banda que dão suporte e aprovam grande parte dos temas correntes em nossas letras, eles aprovam a idéia de o Misery Index ser mais do que apenas uma banda de Death metal ao ponto de sermos confortavelmente tachados de uma banda “politizada”, mesmo que isso não seja a única categoria em que sejamos classificados. Nós amamos a música, queremos nos divertir e viajar e ao mesmo tempo queremos gritar algo sobre o qual estejamos realmente putos. Acredito que isso é algo que muitas pessoas aprovariam.

P: O Metal e o Punk ( além dos diversos estilos abrigados sob estes nomes) são mais que apenas gêneros musicais; são uma cultura, um estilo de vida tribal de certa maneira. Você não vê isso acontecer com outros gêneros musicais. Aparentemente isso é mais comum nas expressões mais extremas da música. Por que você acha que esses estilos (Metal e Punk) despertam tal comportamento nas pessoas e se tornam tão importantes em suas vidas? O que você acha que rola com a música pesada extrema que atrai as pessoas desta maneira?
JN: Bom, desde o inicio o metal sempre exerceu uma atração insidiosa. Eu acho que posso rastrear isso até as capas de bandas como Iron maiden e Slayer. Na época dos vinis de 12’’ no final dos anos 80, quando um garoto de mente aberta que quisesse questionar a sociedade tradicional entrava numa loja de discos havia aquela atração sinistra logo de cara nas capas dos discos. Eu não tive ninguém que me apresentasse as músicas e eu nunca as escutei no rádio, apenas comprava os discos. Soube então que havia encontrado algo que passava despercebido pelo radar da cultura dominante e que se tornou a trilha sonora de uma juventude rebelde e questionadora. Em seguido veio a ligação com outras pessoas que gostavam das mesmas músicas e com o tempo isso se tornou uma força unificadora para aquela minoria de sujeitos estranhos e cabeludos. Claro que existiam outros caminhos, haviam os punks e os góticos, mas o metal teve aquela pegada e a imagem que capturaram minha mente e meus ouvidos. Acredito que o espírito de rebelião como força unificadora através da música ainda rola. No entanto, o Heavy metal se fragmentou em diversos estilos, até chega a ser um pouco caótico. Mas no cerne ainda é a música, e como toda música que se comunica com as pessoas de alguma maneira misteriosa é algo que vai lhe acompanhar por toda a vida. Eventualmente você vai associar essa música com sua própria identidade e experiência de vida.
P: Quais bandas o inspiraram para que começasse a tocar? Quais o inspiram agora?
JN: Como mencionei anteriormente as grandes bandas da década de 80, principalmente Iron Maiden, me trouxeram para o movimento. Steve Harris me fez querer tocar baixo. Apenas vendo-o tocar como uma força poderosa nas músicas da banda era hipnotizante, assim como o fato de que na época todo mundo parecia ter escolhido tocar guitarra ou bateria. Então eu pensei “Por que não tocar baixo?” E a partir de bandas como Anthrax e Metallica eu passei a cavar mais fundo, na seção de importados das lojas. Fui então fisgado pelo Thrash e Metal de bandas como Savatage, Fates warning, Kreator, Possessed, Death, Coroner, Flotsam and Jetsam, Sacred Reich, Sanctuary, Helloween, DRI, Holy Terror entre outras. Quando o Death metal explodiu no final dos 80’s, caímos de cabeça naquilo e depois de escutar bandas como Broken Hope, Suffocation, Solstice, Brutal Truth e Entombed formamos o Dying Fetus. Até hoje ainda adoro e escuto todas essas bandas, mas desde então ampliei meus horizontes musicais com bandas do final dos 90’s como Phobia, Assuck, From Ashes Rise, His Hero is Gone, Tragedy, Exhumed e Nasum entre outros. É como uma onda contínua de amor pela música sob todas estas formas.
P: Como você se interessou por teoria política e ativismo. Por que isso é tão importante para você e para os ouros membros da banda?
JN: Eu estava estudando relações internacionais na universidade no final dos anos 90 e quanto mais eu lia e pesquisava a maneira como o mundo realmente funciona (por trás da idiotice e fachada da mídia tradicional!) mais eu compreendia o quão podre é a ordem mundial. Falando apenas sobre aqueles aspectos de nossa história que nos são contados e nos quais somos levados à acreditar que são nobres e justos. Essas crenças se esfarelam diante da história factual, do que realmente aconteceu e não como nos contaram na escola. Então, sem sair muito de nossa conversa, eu diria que isso acendeu uma fagulha em meu ser e no começo desta década eu era muito mais ativo, participava de sindicatos e protestos anti-globalização. Recentemente tenho me dedicado mais à minhas pesquisas, sob minha própria orientação. Os outros caras da banda também têm esse espírito de uma maneira ou de outra contribuímos como podemos para tornarmos a situação socialmente melhor possível para todos.

P: O que você acha que é o tema mais importante para o povo dos EUA atualmente?
JN: Provavelmente é o surgimento de um cinismo terminal: uma atitude coletiva derrotista que diz “nós somos incapazes de fazer qualquer coisa para mudar, então não vale a pena tentar e por isso foda-se tudo”. Uma moléstia nacional parece estar em curso, fomentada e vigiada pela mídia. Quando quer que os ícones do consumo não estão querendo nos vender algo, não estão nos fazendo sentir inadequados de um jeito ou de outro ou não nos fazem temer nossos vizinhos geralmente eles estão tentando nos afogar em ilusões. Eles querem nos manter sempre sonhando e querendo, de maneira que nunca possamos encontrar de fato aquilo que é importante e que está dentro de nós mesmos. Isso eu acho que é a verdadeira tragédia atual.
P: O que vai rolar com o Misery Index após o lançamento do novo álbum?
JN: Provavelmente muitas turnês e então provavelmente vamos nos refugiar em nosso rancho na Guiana para planejar algum socorro para os povos.
P: Algum pensamento final ou palavras de despedida?
JN: Procurem e batalhem por bons momentos, sempre.
Entrevista com Jason Netherton, baixista do Misery Index. Traduzido diretamente da revista Resound “free music resource guide” da gravadora Relapse records.
TRADUÇÃO LIVRE DO PEDRÃO DIRETO PARA O BLOG!!!