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20 agosto 2023

OPERAÇÃO «ALCANCE INFINITO»

(Republicação)
20 de Agosto de 1998. Há precisamente vinte e cinco anos e em retaliação contra dois atentados que haviam tido lugar contra as embaixadas americanas de Nairobi e Dar es Salaam, os Estados Unidos desencadeiam um conjunto de ataques com mísseis contra alvos da Al-Qaeda no Afeganistão e também contra uma fábrica de produtos farmacêuticos situada no Sudão. Baptizaram a iniciativa de Operação «Alcance Infinito» (Infinite Reach). Convém recordar, entretanto, que, três anos antes do 11 de Setembro de 2001, a comunicação social internacional encarava o terrorismo islâmico em geral e figuras como Osama bin Laden (acima) com uma condescendência que os ataques contra as torres do WTC irão depois alterar radicalmente. Tanto, que hoje já esquecemos essa condescendência. Na foto acima, um momento de uma entrevista dada por bin Laden a uma cadeia televisiva alemã, a imagem captada pelo cameraman (a mão que segura a arma, o entrevistador ao centro e o entrevistado com o mapa mundo por detrás), não teria sido diferente se se tratasse de um filme de propaganda. E não era um fenómeno exclusivo de televisões não americanas: em 1997, a CNN havia-o entrevistado.

É preciso recordar esse pano de fundo de uma comunicação social internacional neutral, senão mesmo hostil, para se perceber uma certa pedagogia cautelosa no discurso em que o presidente Bill Clinton anuncia, nessa noite, o desencadear da operação aos próprios americanos. A opinião pública doméstica não se sentia incomodada, muito menos ameaçada, com os múltiplos atentados atribuídos à Al-Qaeda que são enumerados por Clinton, todos ocorridos no estrangeiro. Mas isso não impediu que, a crer nas sondagens efectuadas, a esmagadora maioria dos americanos apoiasse a iniciativa, muito embora uma apreciável minoria visse nela um expediente para distrair a atenção do escândalo envolvendo Bill Clinton e a estagiária Monica Lewinsky, então numa fase de apogeu mediático. No resto do Mundo, habituado à exuberância de outras intervenções militares norte-americanas, esta, que não teve continuidade nem envolveu tropas, surpreendeu por isso. Em termos de imagens televisivas, os protestos dos países muçulmanos (abaixo, trata-se do Bangladesh) ocuparam o lugar que as concordâncias discretas das opiniões públicas dos países ocidentais não podiam preencher.

25 fevereiro 2023

IMAGENS DE COMO O PASSADO EM ALGUNS PAÍSES MUÇULMANOS PODE PARECER HOJE UM PAÍS ESTRANGEIRO

Teerão 1971 - actualidade
Damasco c. 1975 - actualidade
Cabul 1979 - actualidade

06 fevereiro 2023

POR ORDEM DO GENERAL…

A pretexto da morte do protagonista, republico um texto a respeito de Pervez Musharraf, originalmente aqui publicado a 12 de Julho de 2007 
Há notícias interessantes e há notícias importantes. Da combinação destes dois atributos resultam quatro resultados e uma regra, não escrita, que estabelece que a grande maioria das notícias interessantes não são importantes e que a grande maioria das notícias importantes não são interessantes. Também há as que não são uma coisa nem outra, e nisso estou, por exemplo, com Mika Brzezinski e com a sua opinião sobre a notícia da saída de Paris Hilton da prisão…

Mas o que me deixa mais intrigado são os casos em que não são exploradas daquelas raras notícias que são ao mesmo tempo interessantes e importantes, como foi o caso da ordem dada pelo general Pervez Musharraf para que o Exército paquistanês procedesse ao assalto da mesquita Lal Masjid de Islamabad, onde se tinham entrincheirado um largo grupo de radicais islâmicos. Desencadeado na Terça-Feira passada, ainda hoje se especula qual terá sido o número total de mortos causados pela operação.

Os ataques a locais onde fanáticos religiosos estavam entrincheirados foram acontecimentos que sempre saíram bem na televisão. Foi o caso do assalto do FBI ao rancho em Waco no Texas, onde se refugiaram os seguidores da seita de David Korresh, que decidiram imolar-se lançando fogo às instalações. Também foram acontecimentos importantes pelas suas consequências, como foi o caso do assalto pelo Exército indiano ao Templo Dourado em Amritsar, lugar sagrado para os sikhs.
É por isso curioso a ausência de atenção dedicada a um daqueles acontecimentos raros, ao mesmo tempo tão interessante quanto importante. E Pervez Musharraf, presidente do Paquistão e comandante-chefe das suas Forças Armadas é o homem chave de toda esta situação complicada, desencadeada sob sua responsabilidade (Ayman Al-Zawahiri o rosto da Al-Qaeda nos tempos que correm já apareceu em vídeo a condená-lo), num país cuja coesão interna sempre foi o seu maior problema.

Nunca é demais recordar que o Paquistão resulta das províncias do Império das Índias britânicas, onde havia uma maioria de população muçulmana. É um co-herdeiro, com a União Indiana (e depois de 1971, com o Bangladesh), da identidade regional estabelecida pelos britânicos para toda aquela região. Aliás, o rio Indo, de onde os gregos e depois os europeus retiraram o nome que empregam para designar o subcontinente (a designação equivalente em hindi é Bharat), corre em território paquistanês…

De uma forma sintética, o grande problema do Paquistão, quando em comparação com os seus vizinhos do subcontinente, é que, com mais de 150 milhões de habitantes, a sua população não é tão homogénea quanto a do Bangladesh (150 milhões, uma esmagadora maioria deles muçulmanos de cultura bengali), nem tão heterogénea quanto a da Índia (1.120 milhões, distribuídos por 28 estados e 7 territórios, com 18 idiomas oficiais entre 1.650 línguas utilizadas…), o que impossibilita a ascensão de um só grupo dominante.

No Paquistão há quatro (e meia…) regiões históricas: Punjab, Sind, Baluchistão e (usando ainda a designação colonial britânica) a Província da Fronteira de Noroeste, cujo acrónimo em inglês correntemente usado é NWFP. A meia região histórica mencionada acima é a parcela de Caxemira controlada pelo Paquistão (cuja maior parte está sob controle indiano), numa disputa de 1947 ainda hoje por resolver. Há ainda os territórios do Norte, da capital federal (Islamabad) e o Território Federal das Áreas Tribais.
Mais de 75% da população paquistanesa vive ao longo do vale do Indo e seus afluentes, que são as áreas mais férteis do país, onde se situam as províncias do Punjab e do Sind. Foi para melhor protecção destas regiões férteis que os britânicos se decidiram a controlar as regiões adjacentes do Baluchistão, da Fronteira Noroeste e das Áreas Tribais (ver mapas) onde se situavam os corredores naturais de invasão da Índia. O problema eram os habitantes desses corredores naturais…

A presença britânica naquelas regiões acabou por ser, por assim dizer, muito pouco presente. Aliás, a designação (que se mantém) em inglês do Território Federal das Áreas Tribais (Federally Administered Tribal AreasFATA) dá-nos uma indicação como as áreas são e eram administradas - a nível federal, longínquo… Outra pista é-nos dada pela manutenção da palavra fronteira na designação (que também se manteve) da Província da Fronteira de Noroeste (NWFP), numa indicação da sua funcionalidade para a Índia britânica…

Outro exemplo, foi em Quetta, capital do Baluchistão que os britânicos decidiram instalar em 1907 o prestigiado Instituto de Comando e Estado-Maior (Command & Staff College) do Exército britânico das Índias. Os alunos do Instituto não teriam de se deslocar para muito longe nas suas semanas de campo, especialmente quando o assunto era contra-subversão, campo onde o Instituto era muito prestigiado, tendo sido pioneiro, na década de 1920, da doutrina de emprego de meios aéreos no apoio à contra-subversão...

O dilema de qualquer governante paquistanês desde 1947 tem sido o de fazer a síntese entre as várias expressões de Paquistão. Há esta fracção ora descrita, minoritária mas que sempre foi muito insubmissa e militante, que está mais vocacionada para o vizinho ocidental – o Afeganistão – com quem tem aliás parentescos étnicos. Há também a fracção maioritária, mais sedentária e menos exuberante, nas províncias maiores do Pundjab e do Sind, embora ela também esteja dividida por divisões culturais.
O (escasso) rotativismo eleitoral que o Paquistão já teve, funcionou à volta de duas famílias de latifundiários do Punjab (os Sharif) e do Sind (os Bhutto). Qualquer mapa dos resultados eleitorais mostra que, dada a concentração regional dos votos, a vitória de qualquer um deles foi também a vitória de uma das duas principais regiões constituintes do Paquistão sobre a outra. Dada a ausência de práticas democráticas, o favorecimento de uma das facções cria, a prazo, uma enorme pressão na coesão nacional paquistanesa.

Aqueles que se consideram os verdadeiros intérpretes do ideal paquistanês são aqueles que imigraram para o Paquistão em 1947, quando da Partição, e que são conhecidos pela designação de mohajirs. Embora estejam, com os descendentes, estimados em apenas 4 a 7% da população total, a sua importância social é desmesuradamente muito superior ao seu peso social: Pervez Musharraf é um deles (nasceu em Nova Deli, na Índia), controlam economicamente Karachi, a capital económica do país e administrativamente o aparelho de estado.

São também eles os defensores da manutenção do urdu (a par do inglês) como idioma oficial do Paquistão. O urdu, actualmente conhecido através do sistema escolar por mais de 25% dos paquistaneses mas que não é o idioma nativo de qualquer dos povos que hoje pertencem ao Paquistão, é a versão islamizada do hindi, a língua oficial (também a par do inglês) da União Indiana. Apesar de escritas em alfabetos diferentes elas são inteligíveis e é por isso que a televisão indiana e os filmes de Bollywood* podem ser tão populares no Paquistão…

Mas, se as classes instruídas não se têm mostrado, na generalidade, hostis ao desempenho de Musharraf, também vieram a mostrar recentemente, através de manifestações colectivas que parecem ter bloqueado a tentativa de Musharraf de afastar o juiz Iftikhar Mohammad Chaudhry do Supremo Tribunal, que consideram que devem existir limites para o poder presidencial e que o Paquistão não deve ter à sua frente um déspota oriental como acontece normalmente com os outros países islâmicos da região.
Por causa das condições que presidiram ao seu nascimento em 1947, o Islão tem de ser sempre um componente indispensável à identidade nacional paquistanesa. Mas, como nas receitas, ele tem de ser em quantidade q.b. (quanto baste). Nada dos exageros produzidos pelas madrassas radicais das províncias marginais do Paquistão. Houve tempos, no passado, em que esses radicais foram activos de uma política externa dinâmica do Paquistão junto dos países vizinhos (Afeganistão ou Caxemira).

Agora, tornaram-se em passivos, numa chatice. Podem servir de apoio parlamentar às ficções eleitorais do regime de Musharraf mas as proezas de realizar atentados contra comboios indianos em Bombaim ou de dar apoio logístico a guerrilheiros empenhados em combate contra forças da NATO são gestos capazes de provocar a ponderação das autoridades paquistanesas sobre os benefícios recíprocos do entendimento... Embora desencadear a ruptura também tenha os seus riscos, sendo um deles o da decomposição do próprio Paquistão entre os das montanhas e e os dos rios.

Nesse eventual cenário, a Índia, que teria delirado há 20 anos com um desfecho desses, hoje tem de ter a preocupação de acautelar em quais das parcelas ficariam os detonadores das bombas atómicas… Há duas coisas que parecem certas: a política paquistanesa não se pode desviar muito das condicionantes que aqui tracei e elas manter-se-ão, qualquer que seja o protagonista, e o general estaria, de certeza, muito consciente de todas as implicações associadas à sua ordem de ataque à mesquita Lal Masjid na passada Terça-Feira…

* Trocadilho com Hollywood, referindo-se às produções de cinema indiano feitas em Bombaim, faladas em hindi e também em urdu. Curiosamente, o idioma popular em Bombaim não é o hindi, mas sim o marathi.

02 fevereiro 2023

RONALD REAGAN E A DELEGAÇÃO AFEGÃ

2 de Fevereiro de 1983. O presidente norte-americano Ronald Reagan recebe na Sala Oval da Casa Branca uma delegação de líderes da resistência afegã, quando o Afeganistão fora invadido e ocupado três anos antes pelos soviéticos. Repare-se a inclusão na delegação de uma interprete (à direita), porventura mais desenvolta a exprimir-se em inglês para que o presidente Reagan percebesse directamente a mensagem que os afegãos lhe viriam trazer, muito embora ele tivesse junto a si também um tradutor. O presidente americano saiu da reunião a designá-los por freedom fighters (combatentes da liberdade), o que era notoriamente um exercício de propaganda. Curiosamente, esta mesma fotografia foi ainda há poucos anos utilizada inapropriadamente quando a legendaram explicando que se tratava de uma delegação de talibãs, quando o aparecimento destes últimos é pelo menos meia dúzia de anos posterior ao fim da presidência de Ronald Reagan... Onde nos pode levar a ignorância!

25 novembro 2022

«SAUDADES» DA «INFORMAÇÃO» DOS JORNAIS COMUNISTAS!

Quinta Feira, 25 de Novembro de 1982, parece-me uma data apropriada para evocar graficamente como se noticiavam comparativamente num jornal comunista (Diário de Lisboa) a presença americana em El Salvador e a presença soviética no Afeganistão. Note-se o espaço, o detalhe e a terminologia distintas que são dedicados pelo jornal às duas realidades, apesar da sua semelhança. No caso de El Salvador «os americanos» aparecem logo no cabeçalho, mas no caso do Afeganistão só no detalhe é que se percebe que «a intervenção estrangeira» é protagonizada... pelos soviéticos. A reputação da imparcialidade não parecia ser uma grande preocupação destes jornalistas militantes.

01 março 2022

OPERAÇÃO ANACONDA

1 de Março de 2002. Início num Afeganistão recentemente ocupado pelas tropas americanas de uma operação militar baptizada por Anaconda. Um destacamento heli-transportado de 1.700 soldados norte-americanos da 10ª Divisão de Montanha, apoiados por mais 1.000 soldados afegãos das forças pró-governamentais, iriam atacar um reduto que reagrupava combatentes talibãs e da Al-Qaeda, num vale acidentadíssimo chamado Shah-i-Kot, de altitude variando entre os 2.500 e os 3.000 metros, situado na província de Paktia, que faz fronteira com o Paquistão. Era uma operação que tinha óbvias finalidades militares, mas que também tinha finalidades mediáticas e, por isso, havia um denso acompanhamento de jornalistas. Que envolveram a operação em imensas opiniões. Quando a operação terminou, dali por três semanas, as forças atacantes haviam sofrido 80 baixas, entre as quais 15 mortos. A estimativa de baixas inimigas era mais entusiasmadamente inflacionada - 500 a 800. A questão é que os jornalistas que acompanhavam a operação nunca deram por essas centenas de baixas...
Apesar destas críticas de jornalista, esta campanha inicial da América no Afeganistão desde Outubro de 2001 havia sido um retumbante sucesso: com uns 110 operacionais da CIA e mais 350 efectivos das forças especiais, complementados por cerca de 5.000 fuzileiros e rangers, a coberto de uma impressionante cobertura aérea, haviam liquidado ou aprisionado cerca de 15.000 guerrilheiros talibãs nos cinco meses precedentes. Ao custo de 12 vidas americanas. A operação Anaconda, pensada para ser um sucesso mediático, acabara por se tornar numa inconveniência, porque diversos factores - a começar por lacunas das informações quanto ao número de inimigos, quanto ao seu moral e à sua capacidade de resistência - estragara a coreografia do desfecho da operação. Conclusão: não era para repetir e nos próximos quatro anos não houve mais nenhum combate a esta escala no Afeganistão. Nenhuma das partes estava interessada em enfrentar-se. 

27 setembro 2021

A PENÚLTIMA CONQUISTA DE CABUL PELOS TALIBÃS

27 de Setembro de 1996. Foi a última vez que os talibãs conquistaram Cabul, antes da conquista do mês passado que passou em todas as notícias. 25 anos passaram-se e a história repetiu-se. Mas esta foi apenas a história da presença norte-americana no Afeganistão, a que terminou embaraçosamente quando vimos as cenas da debandada do aeroporto de Cabul. A história do Afeganistão está a continuar, e, quem a conhece, sabe que a conquista e o controle da capital do país até pode funcionar como uma adversidade. Neste momento, por exemplo e em concreto, o problema do governo provisório do regime talibã é conseguir ser reconhecido pela comunidade internacional. O que lá se passa deixou de ser um problema do amor-próprio dos americanos mas vai continuar a ser um problema corrente dos afegãos.

18 agosto 2021

UMA COMPILAÇÃO DO QUE AQUI FUI DEIXANDO ESCRITO A RESPEITO DA HISTÓRIA RECENTE DO AFEGANISTÃO

Os acontecimentos recentes do Afeganistão, com as imagens que os acompanharam (e acompanham), parecem ter basculado as opiniões das redes sociais. E não apenas as dos famosos. Tanto assim, que uma das minhas consultas curiosas ao tráfego de visitas a este blogue veio a revelar um incremento substancial de consultas aos postes que vim publicando ao longo dos anos a respeito do Afeganistão. As pessoas (pelo menos algumas pessoas) parecem interessadas em documentar-se sobre vários aspectos da história mais recente do Afeganistão, a começar pela revolução de Saur (1978) que levou os comunistas ao poder e o golpe de estado de Setembro de 1979 que precipitou a intervenção soviética no país. Como estes últimos travaram a sua guerra contra-subversiva (1) (2) (3). Ou então aprender um narrativa de um episódio glorioso para as armas soviéticas que, mesmo, assim e apesar das encenações, não esconderam a derrota final. E há o que veio depois. Relembrar que os talibãs já haviam entrado em Cabul. Lembrar que a sociedade que construíram (e aquilo que destruíram...) não lhes confere direito a benefício da dúvida. Mas o que mais parece estar a interessar as pessoas será tudo aquilo que se passou de há vinte anos para cá, depois da invasão americana. Sobre isso, creio que o mais importante será esclarecer que os diagnósticos já estavam feitos há mais de dez anos (Janeiro de 2010). Há agora uma tendência para esquecer que a eles se seguiram «paródias de cerimónias de retirada» (2014) que depois havia que reverter porque o dispositivo militar formado localmente era uma piada de incompetência (não escrevi especificamente sobre o exército afegão, mas escrevi sobre o exército iraquiano, do mesmo género e igualmente merdoso, que demorou nove meses a libertar a cidade de Mossul! - o dobro do tempo que durou toda a batalha de Estalinegrado...). Enfim, a situação político militar era conhecida, e depois de tentadas várias soluções e de muito dinheiro gasto na sua implementação, os resultados permaneceram insatisfatórios. O problema que se pôs às sucessivas administrações norte-americanas passou a ser político: reconhecer a sua impotência. E os Estados Unidos detestam reconhecer a sua impotência... Portanto, quando há quase ano e meio (Março de 2020) eu aqui anunciei a próxima derrota dos Estados Unidos no Afeganistão (abaixo), eu não estava a ser visionário, aquela era mesmo uma opinião muito compartilhada por quem conhecia a situação. Por fim, já em princípios de Julho deste ano, aquilo que se ia tornando notícia no curso da transição de responsabilidades do exército norte-americano para o local, mostrava que havia demasiadas coisas a correr mal e que parecia haver um derradeiro esforço de uma facção para condicionar a opinião pública americana quanto ao desfecho. Para mim, o que se percebe ter havido foi um défice de atenção da opinião publicada, espero que as pessoas interessadas que vêm consultar aquilo que aqui fui deixando publicado percebam isso.

16 agosto 2021

O ENSAIO DO FAMOSO «STRIPPER», PROMETIDO - E NUNCA CUMPRIDO - NO CASO DE NÃO SE ENCONTRAR ARMAS DE DESTRUIÇÃO MACIÇA NO IRAQUE

Comecei por vê-lo elogiado numa das redes sociais («artigo relevante», «não lerei outro de igual qualidade»). Depois, como estamos em Agosto e está tudo de férias, e o «Ensaio» acima de Vasco Rato saiu com a grande oportunidade da véspera da inesperada queda de Cabul, hoje já o temos, ao «Ensaio», consagrado nos canais da informação formal. O jornalista de serviço ao Expresso, por exemplo, no seu exercício ingrato de «encher pneus», classifica-o de «ensaio instrutivo de Vasco Rato» com o respectivo link. Vamos lá então prestar atenção à «instrução» «relevante» dada por Vasco Rato, de que não se publicará outra de «igual qualidade».

Algo que já se sabia antes do ensaio, era que a permanência dos Estados Unidos no Afeganistão estava em via de completar os 20 anos (2001-2021), batendo os recordes de missões semelhantes em que os Estados Unidos se haviam visto envolvidos. Outro facto relevante e que gera até um exercício interessante para descascar a instrutividade do ensaio de Vasco Rato, é o desdobramento desses 20 anos por administrações: simplificadamente teremos 7 anos de administração W Bush (republicana 2001-2009); seguiram-se 8 anos de administração Obama (democrática 2009-2017); depois 4 anos de administração Trump (republicana, 2017-2021) e finalmente 1 ano (incompleto) de administração Biden (democrática 2021-2021). Eu tenho que dizer que uma das primeiras impressões que retirei da leitura do texto foi o seu desequilíbrio. Todo o período original da invasão e ocupação do Afeganistão (e que corresponde ao período W. Bush de 7 anos - ou seja ⅓ do total) é tratada minimamente, o que não faz qualquer sentido porque foi sob essa administração que se decidiu não só proceder à invasão do Afeganistão (invocando a retaliação contra os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001) como foi então que se «trouxe a NATO atrás» de si para auxiliar os norte-americanos nessa missão, naquele que era então um entendimento muito elástico das funções para as quais a organização fora inicialmente concebida (contra a ameaça soviética). É aliás por causa dessa elasticidade NATO que Portugal se vê envolvido directamente na questão afegã. Mas, sobre tudo isso, o desenvolvimento do ensaio é parco (no mínimo), apesar de eu considerar Vasco Rato um entendido sobre a actuação e o legado da actuação internacional da administração W. Bush (disponibilizo aqui um texto seu de Setembro de 2008 a respeito da herança deixada por aquela administração). Onde Vasco Rato se aplica, desenvolto, é sobre a conduta e as opções estratégicas assumidas pela administração Obama, assumida depois de 7 anos de ocupação. Ora 7 anos é um intervalo de tempo significativo, superior, por exemplo, ao tempo total de ocupação que os Estados Unidos despenderam tanto na Alemanha, quanto no Japão, imediatamente a seguir à Segunda Guerra Mundial. É uma estrutura argumentativa baseada no «esqueçam lá o como isto tudo começou...» Outra construção gramatical interessante de Vasco Rato foi a que assinalei acima, sublinhando-a: «As administrações Bush e Obama enfrentaram um colossal dilema» Uma redacção mais rigorosa teria sido: a administração Bush criou um colossal dilema, a administração Obama confrontou-se com ele.

Um exercício engraçado a que me dediquei para melhor transmitir a ideia da parcialidade que acabei de descrever acima foi sublinhar a cores diferentes o nome de cada presidente. O resultado é que, ao longo de um ensaio que é essencialmente o balanço de um fracasso: «...a retirada do Afeganistão encerra um ciclo de política externa marcado pela convicção de que os Estados Unidos poderiam construir um mundo melhor e mais pacífico. Este projecto imperial ruiu porque, em larga medida, a democracia americana não suporta os sacrifícios inerentes às ocupações militares prolongadas, como sucedeu no Japão e na Alemanha depois de 1945.», W. Bush é mencionado 4 vezes, Obama 9 vezes, Trump 1 vez e Biden 2 vezes. Neste aspecto da contagem, concordo com o jornalista do Expresso: é instrutivo, mas para perceber quem Vasco Rato responsabiliza pelo desfecho. Não que eu discorde substancialmente da maioria das opiniões expressas, quero ser é mais abrangente na distribuição das responsabilidades, recolocando muitas da que ele transferiu para Obama para os criadores do pecado original, os da administração Bush. Por fim, não considero muito original a conclusão acima de Vasco Rato, que é afinal uma reciclagem daquilo que li pela primeira vez concluído por Niall Ferguson em Colossus no longínquo ano de 2004. Ano em que ainda estava muito presente uma promessa insensata que Vasco Rato fizera publicamente por ocasião da eclosão da guerra do Iraque... (veja-se mais abaixo). Vasco Rato é muito mais do que um stripper, mas o episódio que lhe está associado define-lhe um ancoramento político do qual não se pode dissociar. Que pode ir de aceitar previa e positivamente a derrota de Trump em 2016, até colocar-se ao seu lado na contestação aos resultados eleitorais em 2020. Como acontecia com o outro Vasco (Pulido Valente), o problema deste Vasco não é só do Vasco, nem sobretudo do Vasco: é de todo um resto que o rodeia.

11 agosto 2021

EM VIAS DE SE REEDITAR UMA MESMA HISTÓRIA?

Este é um documentário de 17 minutos da Associated Press sobre a queda de Saigão, a tomada do poder pelos nortistas e a adesão das população. Será que iremos assistir a cenas muito parecidas como estas brevemente em Cabul? Se assim for, convém ter em conta que se tratou - em qualquer dos casos - de 20 anos de investimento político e material num regime ameaçado, que, nem mesmo nas circunstâncias mais críticas, mostra possuir a força anímica para se defender.

15 julho 2021

A CURIOSA COINCIDÊNCIA DAS NOTÍCIAS ENVOLVENDO 22 MÁRTIRES NO AFEGANISTÃO

Depois da concretização da retirada americana do Afeganistão, a concretizar-se até 11 de Setembro, ainda se trava uma última batalha mediática em solo americano, procurando reverter a decisão. Não vale a pena aduzir razões. Não as desenvolvo aqui porque as opiniões estão formadas e ninguém está interessado em ler opiniões contrárias. Eu também não: eu não leio argumentos de quem ainda defende a manutenção da presença dos Estados Unidos por aquelas paragens depois de vinte anos. Mas agora, parece que entrámos numa fase de argumentação instintiva... Em que, por uma coincidência oportuna, a CNN e as restantes cadeias de informação publicam um vídeo em que se vê que os talibans terão executado 22 comandos governamentais que se tentavam render...
O problema é que havia uns dois ou três detalhes nesta notícia recente que me despertam a sensação de dejá vu... O local onde acontecera - Afeganistão - as circunstâncias - a execução pelos talibans - e o número de vítimas - 22. Afinal, após uma rápida consulta, apercebi-me que circulava por aí uma história (veja-se abaixo um desmentido da France Press) que, em 2019, já era considerada uma «velha aldrabice» (an old hoax), contando a execução de 22 missionários cristãos. Como prometi no parágrafo mais acima, nem argumento. Limito-me a registar a(s) coincidência(s) e o facto dos talibans cometerem aquilo que os jornalistas da CNN descrevem como «estes verdadeiros desastres de relações públicas» precisamente nas ocasiões mais convenientes para quem se lhes opõe...

07 julho 2021

A RETIRADA AMERICANA DO AFEGANISTÃO

No quadro da retirada total das forças norte-americanas destacadas no Afeganistão, a maior base aérea do país, a de Bagram, foi evacuada no princípio deste mês de Julho. Não correu bem: não houve qualquer coordenação entre os norte-americanos que partiam e as autoridades afegãs a quem competiria ocupar as instalações vagas. Estas só descobriram posteriormente o que acontecera. Isto pode descrever-se, mas há que reconhecer que o impacto das imagens (acima) confere um impacto muito mais pungente ao que está a acontecer lá por aquelas paragens, depois de vinte anos de investimentos e esforços na construção de um modelo de sociedade que fosse uma alternativa à dos «talibans». Vinte anos foi muito tempo. A avaliação dos resultados tem que ser prudente. Mas situações como esta, em que os americanos acabam por não mostrar o mínimo respeito por aqueles que foram até agora os seus aliados locais, tornam a analogia com aquilo que aconteceu no Vietname do Sul assaz pertinente. Sobretudo quando se recorda o desfecho...

02 março 2021

A DESTRUIÇÃO DOS BUDAS DE BAMIÃ

2 de Março de 2001. Destruição das estátuas de Buda do vale de Bamiã, no Afeganistão. A iniciativa foi do regime dos talibãs, encabeçado pelo Mulá Omar. É um daqueles casos em que, como ocidentais, até podemos julgar a questão com distanciamento. De um lado está o Islão e do outro o Budismo. E embora se possa argumentar que aquilo é o extremismo islâmico, há qualquer coisa de intoleravelmente perverso nas pessoas que tomaram aquela decisão.

03 março 2020

A PRÓXIMA DERROTA ANUNCIADA DOS ESTADOS UNIDOS

Com uma notável discrição política e mediática, os Estados Unidos assinaram em finais de Fevereiro um documento visando pôr fim ao seu engajamento de 18 anos no Afeganistão. Tais serão as cautelas na viabilidade do que foi assinado, que se foi muito cuidadoso no título escolhido: é um acordo, mas não de paz, antes para trazer a paz. Se calhar, ficamo-nos mesmo pelas intenções: dois dias depois da cerimónia da assinatura, o anúncio de uma facção dos taliban de que eles vão prosseguir com os seus ataques contra as forças governamentais (embora não contra as tropas americanas), arrisca-se a fazer descarrilar o comboio do que terá sido acordado e logo na primeira agulha. Mas não se tratará propriamente de uma novidade: as pantominas da diplomacia externa da administração americana sob Donald Trump tornaram-se numa «constante da vida» (para glosar os dois primeiros versos da «pedra filosofal»).

E contudo, a cena desta assinatura remete para outros tempos, quando os norte-americanos se davam a outros respeitos. Esta cerimónia de Doha induz a uma analogia quase imediata com um outro processo negocial em circunstâncias muito parecidas, Paris em 1973, quando eles estavam à procura de uma retirada honrosa do Vietname. Também naquela ocasião e apesar das aparências satisfeitas dos intervenientes, existia a sensação de que os Estados Unidos se haviam descartado completamente dos interesses daqueles que haviam sido até aí os seus aliados na região (o governo sul-vietnamita). O que eximia Kissinger (e Nixon) das criticas da derrota era o benefício da dúvida do que seria o futuro, dúvidas essas que, dois anos depois, vieram a ser esclarecidas... 47 anos depois e tomando em conta o precedente, já não há dúvidas: os Estados Unidos também perderam esta guerra no Afeganistão.

O objectivo proclamado dos taliban é, não apenas simples, como também o mesmo que fora quanto os soviéticos haviam ocupado o país em 1979: correr com as tropas estrangeiras. E é isso que eles parecem em vias de conseguir dentro de 14 meses. Quanto aos americanos, os seus objectivos no longínquo e já esquecido ano de 2001, eram os seguintes: a) derrotar os taliban: eles ainda ali estão; b) controlar os circuitos de produção e distribuição dos opiáceos que os sustentam: também parece ter falhado; c) criar um governo afegão alternativo, legítimo e eficaz: não parece que exista; d) criar forças armadas que o suportassem contra os taliban: se as houvesse, a retirada já se teria processado há muito tempo. Mas tudo isto é a irrelevante realidade afegã. O que é importante é considerar estes acontecimentos à luz da disputa eleitoral deste ano nos Estados Unidos: onde Donald Trump quer exibir a coisa que foi assinada como uma peça de campanha.

Não foi Donald Trump a começar o envolvimento dos Estados Unidos no Afeganistão. George W. Bush terá obedecido a um impulso de retaliar mas terá sido sobretudo a Barack Obama, que lhe sucedeu, que terá faltado a coragem política de assumir o fiasco em que esse envolvimento se tornara. E para este desfecho, os Estados Unidos também não se poderão queixar, nestes 18 anos, de falta de solidariedade dos seus aliados em geral, os da NATO em particular. Mas é à luz desta última realidade que vale a pena voltar a Donald Trump e às lições de moral como ele tem marcado as cimeiras da organização com as suas recriminações para que os seus aliados gastem mais com a defesa. Quanto a isso, e comparando com o resto do Mundo, há imensas maneiras de demonstrar que os Estados Unidos é que vão com o passo trocado na formatura. Há várias maneiras de o concluir a partir dos dados deste gráfico que se exibe abaixo:
Constata-se que: os Estados Unidos gastam quase 40% das despesas mundiais com a defesa. Que os seus gastos são o quádruplo do seu mais imediato rival, a China, e o décuplo do seu tradicional rival, a Rússia. Que aquilo que eles gastam com a defesa equivale em valor ao total dos gastos dos dez outros países que mais gastam com a defesa a seguir a si - dos quais sete são seus aliados desde há setenta anos. E no entanto, apesar de todos aqueles recursos pletóricos, o Estados Unidos preparam-se para assumir finalmente uma derrota político-militar num país que está situado num dos rincões mais remotos do Mundo e onde intervieram para dar satisfação a uma opinião pública que não sabia muito bem quem culpar pelo que acontecera em 11 de Setembro de 2001. Lá se comprova mais uma vez o ditado de que «o dinheiro não compra tudo e que nem tudo se compra com dinheiro».

03 maio 2019

A TERCEIRA GUERRA ANGLO-AFEGÃ

3 de Maio de 1919. Começa a Terceira Guerra Anglo-Afegã. Supreendentemente, foi desencadeada pelos afegãos que, num golpe de audácia e desafiando aquela que era uma das três grandes potências vencedoras do conflito mundial que acabara de terminar, há precisamente cem anos franquearam a fronteira comum na extremidade oeste do passo de Khiber, capturando uma pequena povoação. Esta retirava a sua importância do facto de ser a fonte de água de uma guarnição anglo-indiana de duas companhias aquartelada num forte situado a alguns quilómetros de distância. Do lado britânico não se conheciam bem, nem se não sabia, quais seriam as intenções de Amanullah, o emir afegão, que acabara de subir ao trono há pouco mais de dois meses, mas o domínio britânico sobre a Índia registara recentemente um incidente de repercussões políticas muito desagradáveis em Amritsar. Em Peshawar e Nova Deli (as capitais provincial e imperial da soberania britânica sobre a Índia, respectivamente), resolveu-se assumir a ameaça como muito séria e a Índia Britânica declarou guerra ao Afeganistão em 6 de Maio de 1919.
O conflito mais aceso vai durar cerca de um mês, e prolongar-se-á formalmente por mais dois meses, até à assinatura do Tratado de Rawalpindi em 8 de Agosto de 1919. A novidade táctica naquela região e naquele género de conflito foi a aparição da aviação que permitiu aos anglo-indianos alcançar uma outra superioridade sobre o inimigo. Desse ponto de vista não se colocam dúvidas sobre o desfecho e a identidade do vencedor desta Guerra. Mas a questão estratégica era outra: por esta vez, uma Grã Bretanha exaurida pela Grande Guerra, perdera a iniciativa, e não se mostrava minimamente capaz, nem interessada, de aproveitar esta provocação afegã para avançar para a controle directo desse país, beneficiando-se da momentânea fraqueza russa, que estava a braços com uma Guerra Civil, e dessa forma marcando pontos adicionais naquilo que fora uma das grandes rivalidades estratégicas do Século XIX, denominada o Grande Jogo. E o Afeganistão saía pelo menos vencedor de um outro pequeno jogo em que se mostrava demasiado custoso para ser ocupado. É o que se pode deduzir deste aviso afixado sobre a fronteira...

15 fevereiro 2019

AS CERIMÓNIAS DA RETIRADA DAS ÚLTIMAS TROPAS SOVIÉTICAS DO AFEGANISTÃO

15 de Fevereiro de 1989. Tinham lugar as cerimónias que assinalavam a retirada das últimas tropas soviéticas estacionadas no Afeganistão. Era um momento triste para o imperialismo russo/soviético mas isso não obstava a que esse momento fosse coreografado com o maior cuidado possível para que ele não parecesse aquilo que era: uma humilhante derrota, que replicava na simetria, aquela que os rivais norte-americanos haviam sofrido havia catorze anos no Vietname do Sul. Note-se, através das fotografias acima, o cuidado dedicado à cenografia, com as bandeiras desfraldadas, o cartaz afixado num dos arcos da ponte, destinado a ser lido pelas câmaras que recebem os veteranos e o enxame de fotógrafos e operadores de câmara que os acolhe do lado soviético da fronteira, cuidadosamente cortados da fotografia da esquerda.

Os canais das televisões dos Estados Unidos dão eco a todas essas cenas, incluindo o beijo e o ramo de flores do filho de 15 anos que acolheu o último comandante soviético, o general Boris Gromov (um general fotogénico, quase escolhido como se tivesse havido um casting, com apenas 45 anos...). A complacência dos norte-americanos em retransmitir tanta propaganda não escondia, porém, uma certa volúpia pelo significado do que transmitiam. Tanta (falsa) alegria não escondia o facto de que o marxismo-leninismo e o internacionalismo proletário não viviam os seus melhores dias. Eloquente quanto a isso, até no nosso conhecido Diário de Lisboa, o prognóstico que se dava quanto à sobrevivência a curto prazo do regime que os soviéticos haviam deixado em Cabul era muito reservado. Curiosamente, e numa última reviravolta dialéctica, esse regime vai iludir inimigos e aliados e subsistir por mais três anos.

27 setembro 2018

O EMIRATO ISLÂMICO DO AFEGANISTÃO

27 de Setembro de 1996. Depois de uma Guerra Civil continuada, que apenas se havia parcialmente amenizado com a retirada dos soviéticos em 1989, neste dia de há 22 anos, os talibãs entravam em Cabul, proclamando a transformação do Afeganistão num Emirato Islâmico. Apesar de controlarem já a maior parte do país (as áreas esverdeadas do mapa abaixo), foi só com a conquista da capital que as atenções mediáticas se concentraram nalgumas características menos usuais daquele movimento radical. Alguns dias depois, num artigo enviado da capital recém conquistada, uma correspondente da CNN tentava explicar à audiência mais curiosa daquela estação televisiva quem eram e o que caracterizava os talibãs. A descrição não arrebatava e os americanos que se interessavam por aqueles assuntos, que sempre tinham ficado convencidos que, por causa da dinâmica da política externa dos anos de Reagan, se tinham desforrado no Afeganistão da derrota do Vietname, recolhiam os primeiros indícios que os conflitos da Guerra Fria não eram para avaliar com a simplicidade dos resultados de uma competição desportiva. Cinco anos depois, os Estados Unidos envolveram-se no assunto e mantêm-se por lá há dezassete anos - apesar da promessa da retirada ter sido mais uma daquelas coisas que Trump dizia antes de ser eleito...

14 setembro 2018

O GOLPE DE SETEMBRO DE 1979 NO AFEGANISTÃO ou COMO LENINE FOI MAL TRADUZIDO PARA AFEGÃO

14 de Setembro de 1979. No Afeganistão, o primeiro dirigente progressista da sua história era derrubado. Como já foi evocado aqui no blogue, depois do golpe de estado de Abril de 1978, o Afeganistão deixara de ser um país neutral e remoto para passar a ser um país bem quisto pelo bloco comunista. E isso incluía a simpatia dos comunistas domésticos, incluindo naturalmente a comunicação social que lhe era afecta. Contudo, após 17 meses de revolução, o partido comunista afegão ainda não incorporara os princípios leninistas avançados do centralismo democrático e o partido apresentava-se dilacerado entre duas facções. No quadro desses conflitos internos, há precisamente 39 anos, desencadeava-se um novo pronunciamento militar em Cabul, depondo o presidente Taraki, substituído por um novo homem forte, o seu rival Hafizullah Amin. O que era engraçado - se alguma graça a situação tinha... - era assistir ao desconforto da imprensa comunista ao descrever uma situação político-militar para a qual ainda não havia doutrina explicativa. Os golpes de estado e os pronunciamentos militares eram fenómenos típicos de países incipientes como os de África ou então das ditaduras militares empedernidas da América Latina. Mas isso eram defeitos dos países capitalistas, não era para acontecer em países que se reclamavam estar a viver uma revolução socialista. Aí o partido seria soberano, não os militares. Simbólico da atrapalhação ou do carácter remoto do país socialista, a notícia demorou três dias (a notícia acima foi publicada dia 17) a aparecer no Diário de Lisboa. E mesmo assim eivada de suposições. Hoje sabe-se que os acontecimentos não se distinguiram muito de um ajuste de contas entre famílias mafiosas, só que envolvendo blindados T-54. O que acontecera a Taraki era então uma incógnita: teve o destino de qualquer dirigente comunista caído em desgraça durante o estalinismo. Mas a história do Afeganistão estava muito longe de estar toda contada, abalando as ortodoxias.

27 abril 2018

A REVOLUÇÃO DE SAUR

27 de Abril de 1978. Se, nos quarenta anos precedentes, o Afeganistão fora um país esquecido ali no interior da Ásia, onde, de quando em vez, aconteciam umas coisas que não interessavam muito ao resto do mundo, nos quarenta anos que se seguirão desde a Revolução do Saur, o mesmo Afeganistão ganhará o prestígio duvidoso de raramente abandonar o destaque da informação mundial. Exemplo: a onda de atentados que devastou o país no princípio da semana... E tudo terá começado por um golpe de estado há quarenta anos. Mercê da sua condição de país vizinho da União Soviética, o Afeganistão era um dos raros países islâmicos onde o partido comunista tinha uma existência legal. Contudo, fruto da sociologia local, esse partido comunista afegão (denominado PDPA - Partido Democrático do Povo Afegão) estava dividido em duas facções rivais tão hostis entre si quanto o partido o seria em relação às outras formações políticas rivais. A fraqueza delas era a força de quem se lhes opunha, no caso o presidente. Razões circunstanciais (a morte suspeita de um dos dirigentes do partido, a que se seguiu uma vaga de prisões) terão feito que ambas as facções se tenham sentido ameaçadas e cooperado num pronunciamento militar em que os aviões de origem soviética da Força Aérea (os pilotos haviam sido ali formados) foram determinante no ataque ao palácio presidencial. Essa foi a acção decisiva da Revolução do Saur, que culminou na morte do presidente Mohammed Daud Khan. O detalhe do acontecimento está (bem) sintetizado na Wikipedia. O que aconteceu depois do golpe, a chegada dos comunistas ao poder com a sua agenda revolucionária e laica, criou uma dinâmica de enfrentamento local que acabou envolvendo as duas superpotências na década seguinte. Mas isso é outra história. Refira-se que Saur é o nome do mês do calendário iraniano em que os acontecimentos tiveram lugar - Revolução de Saur é, assim, uma espécie de reedição da nossa Revolução de Abril, expressão tão acarinhada pelos comunistas portugueses naquela altura. O que nos leva até a outra perspectiva da Revolução afegã, a da forma como ela foi noticiada entre nós, nomeadamente nos órgãos de informação desses mesmos comunistas (abaixo)...
No Diário de Lisboa do dia seguinte, repare-se como se enfatiza a bondade dos militares autores do golpe, qualificando-os de progressistas (um código bem compreendido pelos leitores de então como substituto de comunistas - ou seja, militares, mas dos bons) e como na descrição, necessariamente sucinta, da situação política num Afeganistão que era então desconhecido por essa época, se davam alguns pontapés na verdade e nos factos: «...o anterior regime proibia as actividades do Partido Comunista. (...) A rádio serviu-se da palavra persa «khalaq» (massas - nota: na verdade khalq) que serve também para designar o Partido Comunista». (Nota: como se viu acima o partido denominava-se PDPA e khalq referia-se apenas a uma das facções rivais desse partido; a outra era a Parcham). Portanto: um excelente trabalho de militância, um péssimo trabalho de jornalismo... A quem possa interessar: o selo que ilustra o poste está redigido em francês (para lá do persa) porque essa é que era a língua internacional da UPU.

28 dezembro 2017

AS «PARÓDIAS DE GUERRA» E AS PARÓDIAS DE FIM DA GUERRA...

28 de Dezembro de 2014. Com pompa e circunstância os Estados Unidos e os aliados que os tinham acompanhado na aventura afegã (incluindo Portugal) anunciavam pôr fim às suas missões de combate naquele país, tal qual se pode ler acima pelo artigo em que a revista Time se faz eco do facto. Foi há precisamente três anos e é engraçado perceber como os tempos mudaram radicalmente desde os meados do século XX. Há precisamente 78 anos, por ocasião da época das Festas de 1939, havia uma guerra na Europa ocidental entre os exércitos franco-britânicos de um lado e alemães do outro, que era uma guerra que fora declarada mas que não se travava no terreno e que por isso veio a ser baptizada ironicamente de «Paródia de guerra» (drôle de guerre, phoney war, Sitzkrieg). 75 anos depois desses meses militarmente caricatos, apresentava-se-nos uma reviravolta de 180º daquela atitude, no que será uma espécie de «Paródia de Paz», quando se pretendia que um anúncio formal ds cessação do envolvimento directo pusesse um fim unilateral a um conflito. Ainda há seis dias foi notícia - na mesma Time - a visita do vice-presidente norte-americano ao Afeganistão, a esse país sempre em vias de pacificação e de onde os Estados Unidos se haviam desengajado militarmente. Nem de propósito, as notícias de hoje, terceiro aniversário da cerimónia acima e ainda na mesma revista Time, são de um assalto a um centro cultural xiita de Cabul que provocou 35 mortos. Tem sido notório pela multiplicação destes episódios quanto, depois de 13 anos de operações* (2001-2014), os Estados Unidos e os seus aliados deixaram uma situação militar perfeitamente controlada atrás de si...
* Sensivelmente a mesma duração das operações militares portuguesas em Angola (1961-1974).