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06 julho 2024

A SENHORA LÁ ATRÁS QUE, DISCRETAMENTE, VALE € 767 MILHÕES

A esposa de ar macambúzio que agarra desajeitadamente um chapéu de chuva e que aparece por detrás de Rishi Sunak à despedida do nº10 de Downing Street tem uma fortuna pessoal estimada em € 767 milhões (é uma das herdeiras de um dos co-fundadores da Infosys). Apesar da cenografia calculada da ocasião, a verdade é que, para quem não esteja informado, as aparências podem iludir.

28 junho 2024

O CUMPRIMENTO PROTOCOLAR QUE «FUGIU» AO PROTOCOLO

28 de Junho de 2019. Esta fotografia protocolar dos tradicionais cumprimentos entre os dirigentes presentes na cimeira do G20 que decorreu na cidade japonesa de Osaka correu mundo. E correu mundo porque a fotografia fugiu ao protocolo. Era mesmo para fugir ao protocolo. Ao afixar aquelas trombas de quilómetro a primeira-ministra britânica estava a dar satisfação à opinião pública e publicada do seu país, que se mostrava indignada com o facto de os russos andarem a promover operações «à James Bond» no país do próprio James Bond. Envenenando exilados políticos russos. Não se sabia então, mas esse viria a ser apenas o preâmbulo de uma progressiva antipatia das opiniões públicas e publicadas ocidentais por Vladimir Putin. Finalmente, e só para constatar que, não sendo nada fotogénica, Theresa May podia afixar outras expressões para a ocasião, duas fotografias dela, uma delas na mesma cimeira, mas cumprimentando o anfitrião Shinzo Abe, e outra com o mesmo Putin, mas numa outra cimeira em 2016.

27 junho 2024

DE UM VALEDERO DE FICÇÃO A UM ÁRBENZ REAL

(Republicação a pretexto de que hoje, 27 de Junho, se completam 70 anos sobre a renúncia de Jacobo Árbenz à presidência da Guatemala)
aqui falei de O Regresso do Fantasma, uma história de BD de Hermann & Greg de 1973. Recontando a síntese do enredo, o presidente (Juan Enrique Valedero) de uma República latino-americana (Monteguana) é vítima de um atentado que destrói o seu iate de cruzeiro e ao qual ele escapa por acaso. O navio dos nossos heróis (o Cormoran), acidentalmente por perto, recolhe-o, assim como aos seus dois guarda-costas, os únicos sobreviventes da tragédia. Antes de o poder comunicar, Valedero apercebeu-se que o atentado se tornara um pretexto para que houvesse um golpe de estado em Monteguana.
A morte do presidente já fora anunciada pela comunicação social de Monteguana sem que tivesse havido qualquer pedido de socorro, tanto do iate como do Cormoran. Os nossos heróis vêm-se assim associados aos esforços do presidente fantasma para recuperar o poder, enquanto os golpistas tentam eliminá-los a todos, tornando real a verdade oficial que fora entretanto antecipadamente proclamada. É nessa viagem para recuperar o poder que Valedero, um intelectual de ascendência europeia oriundo das elites do país, se apercebe que a realidade política do seu país é muito diferente da que imaginava…
A história acaba bem, com um presidente mais lúcido de um país retrógrado – veja-se como o soldado na imagem acima apenas o reconhece por causa dos selos do correio… Em O Regresso do Fantasma nota-se tanto a inspiração histórica do exemplo de Jacobo Árbenz, o presidente da Guatemala entre 1951 e 1954, como uma certa perspectiva ideológica europeia¹ que acreditava que o despotismo esclarecido bem intencionado de alguns dos membros das elites tradicionais poderia ser o catalisador para transformações sociais que derrubassem as oligarquias locais tradicionalmente apoiadas pelos norte-americanos.
Jacobo Árbenz (1913-1971) havia nascido de uma dessas famílias guatemaltecas, no caso de ascendência suíça e a natureza dotou-o, como se nota, com a pose aristocrática indispensável a quem pretende pertencer às elites. Por força das circunstâncias (o pai suicidara-se e a família passava por dificuldades financeiras) veio a matricular-se e graduar-se como oficial do exército em 1935 com um percurso académico brilhante. Dois anos depois tornava-se ali professor. E nos inícios de 1939 casava na sua classe, com uma filha de uma família de latifundiários salvadorenha. Entretanto começara a Segunda Guerra Mundial.
Os anos finais da Guerra foram um período de liberalização do continente, substituindo os regimes despóticos anacrónicos que os Estados Unidos haviam protegido, como era o caso do guatemalteco do General Ubico. O Capitão Árbenz, apesar da juventude (31 anos), já aparece associado aos movimentos militares que em 1944 vão acabar por conduzir à realização das primeiras eleições razoavelmente livres da História da Guatemala, que foram ganhas de uma forma esmagadora (cerca de 85% dos votos) por Juan José Arévalo, um académico intelectual, professor universitário e doutorado em Filosofia.
O período de seis anos (1945-51) da presidência de Arévalo foi uma época impar do usufruto de liberdades políticas na Guatemala que criaram condições para que a disputa política quanto à sua sucessão se tivesse travado nas urnas e não com armas como era a tradição do continente. Defrontavam-se a facção radical de inspiração marxista do movimento que colocara Arévalo no poder e a facção conservadora desse mesmo movimento, que pretendia estancar por ali a dinâmica entretanto criada. A primeira facção, protagonizada por Jacobo Árbenz, venceu as eleições presidenciais de 1951 com cerca de 60% dos votos.
A eleição de um esquerdista teve o condão de colocar a até então ignorada Guatemala no mapa das preocupações norte-americanas, atenta ao que a então recém-criada CIA designava por penetração soviética na América Latina. O detonador das inquietações foi a intenção, manifestada por Árbenz, em realizar uma Reforma Agrária², problema capaz de desencadear um conflito entre os interesses guatemaltecos e norte-americanos, com a multinacional United Fruit Company (a maior empresa mundial de comércio de frutos tropicais) de permeio como a maior empregadora e a maior latifundiária do país.
As operações da CIA que conduziram ao derrube de Árbenz, criando e treinando um exército dito rebelde, promovendo uma guerra de propaganda e algumas manobras de diplomacia de canhoneira tornaram-se exemplos das guerras sujas desenvolvidas por aquela organização para estes casos. O regime acabou por cair com uma facilidade que desmentia as conexões soviéticas. A Jacobo Árbenz foi-lhe permitido partir para o exílio no México mas, derradeira humilhação, foi-lhe exigida uma revista metódica na alfândega. Até ao fim, mesmo fotografado de cuecas, Árbenz mostrou ser o perfeito aristocrata…
¹ Essa perspectiva no Século XX é exclusivamente de esquerda, onde a referência obrigatória é Fidel Castro, mas no Século XIX, como se vê pelo caso da intervenção do Imperador Napoleão III no México (1862-67), mostra como aquela perspectiva ideológica era abrangente.
² Tratava-se de uma verdadeira Reforma Agrária, envolvendo a expropriação de parte das terras dos latifundiários para que elas fossem repartidas e redistribuídas entre os camponeses pobres. Não confundir com a colectivização das terras ocupadas e/ou expropriadas, processo a que os comunistas portugueses em 1975 deram o mesmo nome.

21 junho 2024

MISSISSIPPI EM CHAMAS

(Republicação)
O episódio teve lugar no Sul Profundo (Deep South) dos Estados Unidos durante o Verão de 1964. E as chamas do título são uma referência aos incêndios ateados pelos membros do Ku Klux Klan (acima) nas igrejas das congregações negras onde os activistas dos direitos cívicos haviam realizado previamente sessões incentivando os negros a registarem-se como eleitores. Pelo menos 20 igrejas haviam sido incendiadas quando outro incidente mais grave fez concentrar a atenção dos Estados Unidos em Neshoba, Mississippi.
A 21 de Junho de 1964, a organização que patrocinava aquelas sessões anunciou publicamente o desaparecimento súbito de três dos seus jovens activistas (acima e da esquerda para a direita: Andrew Goodman de 20 anos, James Chaney de 21 e Michael Schwerner, de 24), que haviam saído para inspeccionar os destroços duma das igrejas incendiadas no condado de Neshoba. Sabia-se que a polícia local os havia detido por umas horas mas que acabara por os libertar, tendo-se perdido o seu rasto depois disso.
Noutros tempos, um desaparecimento destes poderia ter sido considerado um incidente menor e passar desapercebido. Mas naquelas circunstâncias, no quadro da luta dos negros pelos Direitos Cívicos (acima Martin Luther King), conjugado com o facto de dois dos desaparecidos serem de origem nova-iorquina, o incidente acabou por vir a receber uma atenção mediática inusitada, a que não faltou a ressonância da clivagem entre o Norte e o Sul que havia provocado a Guerra Civil (1861-1865) precisamente cem anos antes.
Foi a pressão mediática que levou a administração federal a afectar à investigação os meios e a atenção que as autoridades estaduais e locais – do Mississippi e de Neshoba – não pareciam dispostas a dedicar. Durante seis semanas as peripécias da investigação desenvolvida pelo FBI, nomeadamente a descoberta da carcaça ardida do automóvel que transportava os activistas (acima), foram notícia nacional, até à descoberta do paradeiro dos cadáveres, enterrados num açude a uns meros 10 km a Sudoeste da capital do condado
…e depois disso percebeu-se a razão principal para a ineficácia das investigações das autoridades locais: o próprio xerife de Neshoba e o seu adjunto também estavam directamente envolvidos nos acontecimentos que haviam conduzido ao assassinato! Concretamente, o adjunto libertara os activistas conduzindo-os à emboscada onde haviam sido mortos. Politicamente, a causa dos negros ganhara imensos pontos: em 2 de Julho, o Presidente Lyndon Johnson (também ele Sulista, do Texas) assinara a Lei dos Direitos Cívicos.
A outra batalha – a da condenação dos responsáveis pelos assassinatos – não teve um desfecho tão claro. O julgamento de 18 réus arrastou-se até 1967 e os recursos às sentenças até 1970. Quanto à atitude dos principais envolvidos durante as audiências era a insolência da fotografia acima, o adjunto Price ao lado do xerife Rainey mascando tabaco. Detestáveis! A longo prazo a causa racista estava perdida. Em 1988 Hollywood produziu um filme sobre os acontecimentos (abaixo) e eles eram considerados irrecuperavelmente maus

16 junho 2024

UMA VIAGEM AO PASSADO FALANDO SOBRE «A BOLHA» DOS CONSPIRADORES PROFISSIONAIS REVOLUCIONÁRIOS

Muito me surpreenderá se houver um leitor do Herdeiro de Aécio que reconheça a pessoa do retrato acima. A Wikipedia resolve o problema: trata-se de Filippo Buonarroti (1761-1837), que a página respectiva descreve como um «revolucionário e teórico socialista italiano radicado em França». Quanto ao retrato, a Wikipedia não esclarece, mas ele foi pintado por Philippe Auguste Jeanron (1808-1877). A acção predominante de Buonarroti foi, porém, em França, onde ele se tornou conhecido por ser um dos activistas mais radicais no período mais dinâmico da Revolução Francesa (1791-1797), é considerado alguém muito próximo do proto-comunista François Noël Babeuf (1760-1797), que veio a morrer na guilhotina em resultado de uma conspiração - conhecida pela Conspiração dos Iguais - intentada contra o governo do Directório. Apesar de envolvido na conspiração, Buonarroti sobreviveu com uma pena de desterro e é como teórico - mas sempre conspirador - que ele se vem a tornar famoso, quando publica em 1828 o livro acima: Conspiração para Igualdade dita de Babeuf. Repare-se o pormenor que o livro foi editado em Bruxelas, que fazia parte então do Reino dos Países Baixos e onde Buonarroti estava então exilado. A obra foi muito bem acolhida, nomeadamente por teóricos revolucionários de gerações posteriores, os casos mais notáveis de Marx, Engels, Bakunin e Trotsky, todos eles produziram textos com referências elogiosas a Buonarroti. Preso por uma última vez ainda em Paris, em Outubro de 1833, aos 72 anos, Buonarroti vem a falecer cego na mesma cidade em 1837. Com esta história de vida, é considerado o percursor dos conspiradores profissionais que sacrificaram toda a sua vida pela luta por uma causa. Mas, remetido para aquela categoria implacável e talvez simplista de socialista utópico com que estes precursores vieram a ser mimoseados pelos conspiradores profissionais revolucionários do século seguinte, estes últimos esqueceram Buonarroti por completo.
O que é uma excelente deixa para apresentar esta outra fotografia, que foi tirada num dos anos finais do século XX (1997/8?) pelo fotógrafo Eduardo Gageiro. Trata-se de uma fotografia de conjunto dos dirigentes históricos do Partido Comunista Português (PCP). Sentados e da esquerda para a direita: António Dias Lourenço (1915-2010), Álvaro Cunhal (1913-2005), José Vitoriano (1917-2006), Joaquim Gomes (1917-2010) e Octávio Pato (1925-1999). Detrás, de pé e pela mesma ordem: Jaime Serra (1921-2022), Sérgio Vilarigues (1914-2007) e Fernando Blanqui Teixeira (1922-2004). Para os mais rigorosos e mais interessados, o elenco congrega não apenas os quatro membros eleitos para o Secretariado do Comité Central (CC) do PCP em 4 de Maio de 1974 (Cunhal, Gomes, Pato e Vilarigues), como também oito dos dez membros da Comissão Política desse mesmo Comité Central que foram eleitos nessa mesma altura, conforme se pode ler num documento da autoria de um dos presentes, Joaquim Gomes, que foi publicado em 1999 e de onde tomei a liberdade de retirar a lista que se pode apreciar mais abaixo, onde se dá conta de como ficou a composição do CC do PCP logo depois do 25 de Abril. Os nomes dos presentes na foto acima estão sublinhados. E nota-se aplicação e método na enumeração feita por Joaquim Gomes. Cada nome aparece acompanhado da antiguidade como militante, como funcionário do partido (i.e., trabalhando em exclusivo na actividade política clandestina), os anos de prisão, e também a antiguidade do militante como membro do CC. Estranhamente, o que ficou por nomear foi a idade de cada um. Assim, em 1974 aquela vanguarda mais esclarecida dos comunistas portugueses que nos aparece mais acima tinha uma idade média de 56 anos, estivera preso quase 10 anos, era militante há 37 anos, funcionário do PCP há um pouco mais de 29 anos e integrava o CC desde há 24 anos e meio.
Embora seja um pouco forçado este processo de sintetizar todos aqueles números acima evocados num retrato-robot da elite dos militantes comunistas quando da queda do Estado Novo, a verdade é que aqueles dados nos podem dizer muita coisa: todos eles se haviam tornado militantes muito novos, aos 19 anos em média (i.e. 56-37 anos) e tinham-se profissionalizado também muito cedo: cerca dos 27 anos (56-39) haviam-se passado a dedicar exclusivamente ao partido. Uma profissão que comportava muitos riscos: 10 anos de prisão da PIDE em média. Mas, precisamente por causa desses riscos, mas também por se considerarem uma vanguarda de cunho quase sacerdotal, não se pode dizer que eles pudessem compartilhar a vivência do povo que tanto invocavam. Na época ainda não se inventara a expressão «viver numa bolha» mas era precisamente o que acontecia com eles, discípulos longínquos de um Buonarroti, conspiradores profissionais dedicados à causa da revolução. A que surgiu em Abril de 1974, era-lhes favorável, mas ainda não era a revolução deles. E felizmente nunca foi a revolução deles. É precisamente isso e o que aconteceu depois do 25 de Abril no Portugal democrático que eu gostaria de enfatizar e que me levou a escrever este poste, baseando-me na fotografia de 1997/98, que foi tirada quase 25 anos depois do 25 de Abril. A fotografia mostra-nos que esse quarto de século em que Portugal passou a viver em Democracia, mesmo que essa circunstância tivesse feito desaparecer as ameaças que pendiam sobre os membros do CC nos 37 anos precedentes de militância comunista, parece não ter tido qualquer influência profissional na actividade de qualquer um deles veio a exercer. Haviam sido funcionários do partido antes de 1974 e aqui vêmo-los reformados de funcionários do partido. Precisamente, como agora se diz, na mesma «bolha».
Uma última nota para acrescentar esta outra fotografia com os mesmos, que foi provavelmente feita na mesma altura, mas onde a sua ordem é diferente. Octávio Pato mudou-se da extrema direita para a extrema esquerda sentada, desalojando Dias Lourenço que foi para a extrema direita levantada, enquanto Blanqui Teixeira ocupou o lugar sentado que fora o de Octávio Pato. Os outros ocupam os mesmos lugares. Nesta versão da foto, a debilidade física de Octávio Pato é notória e isso torna-se mais evidente pelo olhar que lhe dedica José Vitoriano (ao centro). Apesar de ser o mais novo dos oito, Octávio Pato será o primeiro a falecer, em Fevereiro de 1999.

14 junho 2024

O MASSACRE DE KUTA RÉ

14 de Junho de 1904. No decurso de uma das denominadas campanhas de pacificação que, neste caso, as tropas coloniais holandesas estavam a efectuar na ilha de Samatra (actual Indonésia), ocorre o massacre de Kuta Ré, quando um destacamento dessas tropas comandado pelo tenente-coronel van Daalen - 12 oficiais e sargentos holandeses, 200 soldados de origem javanesa e 450 carregadores - atacaram e mataram quase todos os habitantes de uma povoação que procurara resistir à implantação da soberania holandesa. Na acção registaram-se 563 mortos, 2 soldados entre os atacantes, e 313 homens, 189 mulheres e 59 crianças entre os defensores. Terão sobrevivido 51 ou 61 pessoas (apenas mulheres e crianças). Na semana seguinte - a 20 de Junho - noutra operação semelhante de submissão de uma outra povoação foram abatidas mais 432 pessoas e ainda outros quatro dias passados, foram mais 654 mortos. No computo global, a campanha de cinco meses do tenente-coronel van Daalen saldou-se por um registo de 2.902 aldeões abatidos, entre os quais 1.159 mulheres e crianças. Mas o que o episódio de há precisamente 120 anos tem de particular e que o destaca do resto do morticínio, são as fotografias (acima e abaixo) que foram tomadas nesse dia pelo médico militar da coluna, o tenente Neeb. Nessas fotografias, e porque a arte fotográfica ainda estava na infância, podem ver-se as pilhas dos mortos contrastando, na de cima, com os militares vitoriosos do lado esquerdo da foto. A história revisitada dos acontecimentos pretende actualmente - os holandeses costumam ser muito habilidosos em escondê-la e reescrevê-la* - que as fotos chegaram aos Países Baixos onde terão sido objecto de muitas críticas no parlamento. Na realidade, van Daalen acabou sendo nomeado governador da província de Achém de 1905 a 1908 e veio a ser promovido a oficial general, assumindo o comando do exército colonial de 1910 até 1914, quando se reformou e regressou à Europa. Não é a carreira de alguém que foi sancionado pela sua conduta, por muito que tentem dar agora a volta ao texto e, pior, quando dos Países Baixos se põem a tentar dar lições de moral sobre colonialismo a outras potências coloniais como Portugal.
* Exemplos: (1) a história pouco conhecida de Dirk de Geer, o primeiro-ministro dos Países Baixos invadidos pela Alemanha em Maio de 1940, que fugiu e se exilou no Reino Unido, mas que, pela sua germanofilia, acabou por ser demitido, tendo regressado aos Países Baixos ocupados pela Alemanha; (2) as tradicionais simpatias germanófilas dos comandantes militares daquele país, tanto durante a Primeira como nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, o que até levou à substituição forçada deste último, Izaak Reijnders; (3) o curioso facto de que, entre as inúmeras nacionalidades dos pilotos que se engajaram a lutar em aviões da RAF durante a Batalha de Inglaterra, não havia holandeses. Ao contrário de polacos, checos ou belgas, os alemães haviam ocupado o seu país mas os pilotos militares holandeses não manifestavam disposição de combater do outro lado.

10 junho 2024

INICIATIVA LIBERAL: ISTO ARRISCA-SE A CORRER MAL

Se estes são os melhores sorrisos que lhes conseguimos arrancar numa noite em que o partido alcançou um excelente resultado eleitoral, então há que encarar o futuro do ambiente interno da Iniciativa Liberal com toda a circunspecção.

30 maio 2024

A FOTOGRAFIA DO POLÍTICO QUE NÃO TINHA JEITO PARA APANHAR BOLAS

(Republicação reeditada)
Comecemos por apresentar aos leitores deste blogue Robert Stanfield (1914-2003), que foi um político canadiano, porém desconhecido fora do Canadá. E, mesmo aí, será de perguntar quantos passageiros do Aeroporto Internacional de Halifax (que foi baptizado com o seu nome) saberão quem ele terá sido. Durante nove anos, de 1967-1976, Robert Stanfield foi o líder do Partido Conservador Progressista e, por inerência, o dirigente da oposição canadiana. Foram uns anos difíceis para se ser oposição, com a arena política dominada pela exuberância e popularidade do Primeiro-Ministro liberal Pierre Elliot Trudeau (1919-2000) – a Trudeaumania, já aqui por mim abordada num outro poste. E Robert Stanfield disputou (e perdeu) três eleições consecutivas com Pierre Trudeau: em 1968, 1972 e 1974.
Foi durante a campanha para aquelas últimas eleições que foram disputadas em Julho de 1974, que os assistentes de Stanfield se lembraram de trabalhar de algum modo a sua imagem rígida, sobretudo quando em comparação com a referência do primeiro-ministro Trudeau. A ideia, concretizada a 30 de Maio de 1974, completam-se hoje 50 anos, foi convidar um fotógrafo (Doug Ball) para lhe tirar umas fotografias espontâneas de jovialidade, com o candidato atirando, ou recebendo (acima) ou… falhando a recepção de uma bola de futebol americano. Claro que, das 36 fotografias do lote, foi esta última, a que se vê abaixo, a aparecer na primeira página dos jornais liberais do dia seguinte… e a tornar-se um péssimo prenúncio para as eleições que aí viriam.
Até hoje, o episódio é considerado um dos primeiros e principais exemplos dos efeitos da política de imagem na história política do Canadá. Contudo, a honestidade intelectual (e o exemplo de uma outra fotografia da mesma ocasião que acima inserimos) manda-nos reconhecer que a ideia de fotografar o candidato naqueles preparos e para efeitos promocionais era péssima e o milagre é que os assessores políticos e de imprensa de Robert Stanfield conseguem sair do episódio escondidos pela narrativa da vitimização do candidato por uma imprensa rival implacável, quando, no fundo, eles é que foram uns incompetentes de alto calibre. Quem é que se lembraria agora e por exemplo, de ir tirar fotografias a Pedro Nuno Santos para a Academia das Ciência de Lisboa?...

25 maio 2024

A ÚLTIMA FOTOGRAFIA DE ROBERT CAPA… E UMA DAS PENÚLTIMAS.

(Republicação)
É muita conhecida esta última fotografia de Robert Capa, tirada ao princípio da tarde de 25 de Maio de 1954, num pequeno troço de estrada de cerca de 20 km que separa Nam Dinh de Thái Bình no delta do Rio Vermelho, no Norte do Vietname. A coluna militar francesa onde seguia Robert Capa fez uma pausa, ele apeou-se e saiu da estrada para tirar umas fotografias, tirou algumas e… pisou uma mina cuja explosão o matou. Tinha 40 anos.

Muito menos conhecida que a outra, mas muito mais simbólica, é esta fotografia abaixo, tirada anteriormente, durante essa última deambulação de Capa. A coluna militar motorizada na estrada, em contraste com o camponês que trabalha com o seu búfalo no arrozal, é, apesar das aparências, uma coluna de um exército derrotado: menos de três semanas antes, a 7 de Maio, as unidades de elite francesas tinham-se rendido em Dien Bien Phu...

20 maio 2024

OS "MELÕES" (ELEITORAIS) E AQUILO QUE PARECE SER A NOVA ESTRATÉGIA POLÍTICA DA "MELANCIA" COMUNISTA

Se querem saber a minha opinião ao ler esta promoção às «jornadas parlamentares comunistas», acho que é uma grande injustiça para os mais de 40 anos de leais serviços à causa comunista por parte do partido ecologista os verdes. O PEV «foi fundado em 1982 e concorreu sempre às eleições em coligação com o PCP», na função subalterna de partido satélite encarregue dos assuntos ambientais e com a função de fazer com que o PCP se apresentasse a eleições como se fosse uma frente eleitoral, e não o partido per se. O sucesso da primeira parte do expediente não parece ter durado muito, mas, avaliando a duração de 40 anos, terá deixado os seus autores felizes quanto ao sucesso da segunda parte - a da ficção da frente eleitoral. Até ao definhamento eleitoral do PCP registado nas sucessivas eleições legislativas desta última década: 446.000 votos (2015), 332.000 (2019), 242.000 (2022), 203.000 (2024). Apesar da robustez aparente da expressão acima, onde se lê «...que juntarão os deputados e eurodeputados do partido», está-se a falar concretamente de uma meia-dúzia: são quatro deputados e dois eurodeputados, os que o PCP conta hoje por eleitos (quiçá queiram adicionar ainda o deputado regional da Madeira ao elenco para serem sete...). Por detrás desse parece-o-que-não-é, aquilo que me considero verdadeiramente inédito no artigo comunicado acima é o destaque dado a assuntos que canonicamente pertenceriam aos verdes - «questões que se prendem com a defesa do ambiente, a protecção do nosso património natural, da natureza, da biodiversidade». Ora esta manobra parece-me uma grande - e injusta - rasteira à Heloísa Apolónia. Depois de tantos anos com os verdes, são agora os comunistas, falhos de outras perspectivas, a quererem fazer-se passar por melancias. É ainda mais triste do que quando eram os verdes a fazê-lo, passarem-se por ecologistas.

É que a imagética tradicional do comunismo está repleta de exemplos do Homem a dominar e domar a natureza, de hossanas à produção, como esta fotografia abaixo de Vsevolod Tarasevich de uma fábrica de cimento soviética em plena laboração em 1954, há 70 anos. Com muito fumo, a simbolizar muita actividade. E, pelo contrário, não conheço muitas fotografias de propaganda comunista canónica com ninhos de passarinhos, ou outra temática bucólica análoga... Com este lastro, é muito tarde para os comunistas portugueses se reinventarem a serem outras coisas...

13 maio 2024

A CAPITAL MUNDIAL DA TELEVISÃO A CORES

Algures em 1954 temos esta fotografia da linha de montagem de televisores a cores da RCA instalada em Bloomington, no estado norte americana do Indiana. Tendo começado a produzir televisores desde 1949, à época, as instalações, com 14 hectares e onde chegaram a trabalhar 8 mil pessoas, eram uma das maiores fábricas de televisores de todo o Mundo, com a particularidade de já ali se produzirem (como se pode ver na foto) televisores a cores (a ponto de a cidade ser conhecida como "a capital mundial da televisão a cores"). Contudo, estas televisões a cores eram desproporcionadamente caras: custariam mais de € 10.000 aos preços actuais. Além disso, a programação a cores era escassa e a qualidade da imagem, como se percebe na foto, não era grande coisa. Não se vendiam muitas televisões a cores. Era uma capital mas não era uma grande capital. A tecnologia para uma televisão a cores mais acessível, tanto no que se refere a custos de produção de programas, como a custos dos receptores domésticos, estava reservada para uns 15 anos no futuro, no final da década de 1960. Entretanto, a fábrica de Bloomington viveu o seu ciclo, entre 1949 e 1998, quando foi encerrada e transferida para o México. Durante esses quase 50 anos, produziu um pouco mais de 65 milhões de televisores, tanto a cores como a preto e branco.

29 abril 2024

AS PRESIDENCIAIS FRANCESAS DE 1974 E AS ESPECIFICIDADES DAS ESPOSAS DE CADA CANDIDATO

(Republicação)
Última semana de Abril de 1974. Enquanto por cá se vivia o ambiente decorrente do 25 de Abril, em França preparava-se a primeira volta das eleições presidenciais desencadeadas pelo falecimento no cargo de Georges Pompidou (a 2 de Abril). Pela primeira vez, emulando o modelo norte-americano e esquecendo a tradição francesa que, por exemplo, fizera de Yvonne de Gaulle uma presença sempre discreta ao lado do marido, os mecanismo da campanha concentravam-se nas esposas dos candidatos.
No caso da esposa do candidato da direita republicana Valery Giscard d'Estaing, aquilo que havia a contrariar era o perfil aristocrático do candidato, ainda aumentado pelas origens familiares da esposa, nascida Anne-Aymone Sauvage de Brantes. A aristocracia de França sempre fora tradicionalmente inimiga da República e havia que atenuar essa imagem. Daí a ideia de uma fotografia mostrando-a diante de uma colecção de instrumentos de cozinha, qual Filipa Vacondeus precoce, cozinhando para o povo.
No caso da esposa do candidato das esquerdas, François Mitterrand, aí não havia, naturalmente, qualquer perigo de conotação com a aristocracia. O problema do casal Mitterrand, Danielle (nascida Danielle Gouze) e François, era que, como era já conhecido nos círculos informados, eles haviam deixado de ser um casal, vivendo vidas separadas. Para as eleições próximas, e paradoxalmente para o candidato da esquerda, quase como se se tratasse de monarcas, houve que encenar fotograficamente uma vida comum ficcional.
E havia finalmente a esposa do candidato gaullista, Jacques Chaban-Delmas. Aí o problema não era a esposa, Micheline Chavelet Chaban-Delmas, uma divorciada com 4 filhos, cuja beleza era comparada pelos seus apoiantes à actriz Ali McGraw de Love Story, antes a abrasiva reputação sentimental do próprio candidato, que se divorciara da primeira mulher para casar com a secretária, enviuvando desta segunda esposa por causa de um controverso acidente de viação (1970) quando já vivia maritalmente com Micheline. Acessoriamente, era primeiro-ministro...

28 abril 2024

A AQUISIÇÃO DE RESPEITABILIDADE POR AQUILO QUE FORA A «OPOSIÇÃO»

28 de Abril de 1974. Esta fotografia foi tirada por ocasião da chegada de Mário Soares à estação de Santa Apolónia, vindo no Sud-Expresso de Paris. Soares socorre-se de um megafone para falar da varanda da estação à multidão que o aguardava. A rodear Soares na foto aparecem quatro expoentes daquilo que até quatro dias era qualificado como a «oposição»: da esquerda para a direita, Manuel Tito de Morais, 64 anos, António Dias Lourenço, 59 anos, o próprio Mário Soares, 49 anos, Hermínio da Palma Inácio, 52 anos, e finalmente Manuel Serra, 42 anos. A esmagadora maioria dos portugueses quer muito vitoriá-los, mas não faz a mínima ideia de quem eles são.

27 abril 2024

O 25 DE ABRIL E AS PARTICIPAÇÕES DE CADA UM DOS RAMOS DAS FORÇAS ARMADAS

(Republicação de 25 de Abril de 2016)
Se analisarmos a participação de cada um dos ramos das Forças Armadas com os seus meios próprios no movimento de 25 de Abril, para além da participação mais óbvia, dir-se-ia mesmo omnipresente, do Exército, começando pela da coluna da Escola Prática de Santarém, acaba por se descobrir que o momento mais significativo da participação da Armada terá sido... a não participação da fragata Almirante Gago Coutinho, quando se recusou a obedecer às ordens de fazer fogo sobre as forças rebeldes que ocupavam o Terreiro do Paço (na foto acima, de Alfredo Cunha). Por outro lado, a respeito da participação da Força Aérea, cuja participação nas operações daquele dia, em apoio de qualquer dos lados, não me recordo de alguma vez terem sido referidos, vim a surpreender-me, muitos anos depois com esta fotografia abaixo de Jorge Horta, onde se vê um helicóptero voando sobre a Baixa naquele dia, não sei a que horas nem sei com que propósito, se em manobra de intimidação,...
...e aí de quem sobre quem, se apenas em manobra de observação de como pairavam as coisas... Há ainda quem levante a hipótese do helicóptero ter vindo ver da (im)possibilidade de evacuar Marcello Caetano cercado no Quartel do Carmo. Isso combinaria com a cronologia que consultei. Ali, a primeira vez que se menciona a adesão de unidades militares da Força Aérea é às 20H00 de dia 25 de Abril, precisamente a mesma hora em que se tornam a mencionar unidades da Armada. Nessa altura, já Marcello Caetano se rendera. Esta última fotografia abaixo de Alfredo Cunha, feita na sede da PIDE com um fuzileiro de guarda e o retrato oficial de Marcello Caetano pelo chão, mas feita já a 26 de Abril, parece ser icónica por mais do que aquela razão aparente pela qual a fotografia é tão conhecida: o regime caíra; e mal se dera por ela no dia decisivo, mas no dia seguinte a Marinha já se tornara no ramo mais revolucionário das Forças Armadas. Iria manter essa vantagem nos 19 meses que se seguiriam...

OUTROS HERÓIS DE ABRIL – O CAÇADOR DE PIDES

(Republicação)
Na ressaca dos dias imediatos ao 25 de Abril de 1974, o Rossio e as outras mais frequentadas da baixa da Lisboa tornaram-se locais de um amplo trabalho de mobilização das massas populares. Ficaram famosos alguns trabalhos de cobertura fotográfica dessa mobilização com a identificação e prisão de agentes da PIDE ainda em liberdade em sequências que chegaram a ser publicadas em reputados órgãos de informação internacional (acima). Contudo, os 50 anos que entretanto decorreram podem permitir-nos vê-las, às fotografias, com uma atenção que o fervor revolucionário daquela época não possibilitava: dediquemo-nos ao militar assinalado (qual barão desarmado de Camões...) que, na última fotografia da série acima, arrasta para longe da fúria popular o pide ensanguentado.
A sua cara está apontada directamente para a objectiva e a sua expressão é indiscutivelmente triunfal, embora a exuberância do bigode, que não tardaria a banalizar-se num exército que passara a estar sempre, sempre ao lado do povo, nos comece a dar os primeiros sinais de suspeita, por não ter podido crescer até àquela exuberância anti-regulamentar nos escassos dias então decorridos depois do 25 de Abril... Melhor: o lídimo representante do MFA envergava uma das vulgares fardas de trabalho (designada por nº 2, salvo erro) onde coexistia uma barreta de condecorações com uma (condecoração) propriamente dita (o que nunca se faz) e esta era, nada mais, nada menos, do que uma cruz de guerra, que se atribui por feitos em combate. Isso não impedia que esse heroísmo redobrado coexistisse com uma notória falta de aprumo (uma camisa desbarrigada, um porta-chaves demasiado à vista), talvez explicável pelos dois números que faltariam ao blusão para que ele assentasse devidamente ao nosso herói. Nas suas platinas nem galões nem divisas, sugerindo que, apesar do ar de quem lidera o destacamento, se estava perante um soldado básico, um condutor de homens inato, mas modesto...
Naquele ano de 1974, a Páscoa fora recente, calhara a 14 de Abril, o Carnaval fora por isso em finais de Fevereiro mas, em finais de Abril parecia ainda haver quem se divertisse mascarado em pleno Rossio e – bónus suplementar para o folião – sem que ninguém desse ou se incomodasse com isso… Suspeito que faltaria ao criador original (José Carlos Ary dos Santos) a capacidade de saber rir deste caminho aonde o poderia levar a ironia dos seus próprios versos, mas creio que esta também foi mais uma das portas que Abril abriu

26 abril 2024

ZERO DE ABRIL

(Republicação destacando o 10º aniversário de um daqueles costumeiros disparates de Vasco Pulido Valente a que as/os groupies do sujeito davam grande publicidade, numa demonstração viva que o 25 de Abril também se fez para que os aldrabões das histórias recebessem uma promoção imerecida)
Muito mais instrutivo do que o título que a entrevistadora (Ana Sá Lopes) escolheu para a entrevista que fez a Vasco Pulido Valente acerca da forma como este terá vivido o dia 25 de Abril de 1974 (e os dias que se seguiram), será o exercício de comparar as declarações que ele ali lhe prestou com a visão que Maria Filomena Mónica dá desse dia e desses mesmos acontecimentos no seu livro Bilhete de Identidade (pp. 315-319). Ambos concordam ter passado o dia com o outro (Fui acordado de manhã e depois fui com a Maria Filomena Mónica para a rua. Fomos ao Largo do Carmo, andámos por ali. – ele – A 25, pelas dez horas da manhã, (o Vasco) chegou a minha casa. Dirigimo-nos para o Largo do Carmo. – ela). Ela mais superficial e evocativa do tempo ou do que vestia (…estava uma manhã cinzenta e com nortada. Lembro-me de ter saído de casa com uma camisa branca sob um casaco verde.), ele mais chão nesse tipo de memórias avulsas (...fui almoçar a um restaurante pegado ao elevador da Glória). Mas verificam-se algumas contradições evidentes nas duas histórias: Ela queria ir à PIDE, mas eu disse que era melhor não irmos. (…) Aquilo devia ter sido um ponto estratégico se o Movimento das Forças Armadas tivesse sido conduzido por alguém com alguma inteligência.... Maria Filomena Mónica ter-se-á marimbado para a hipotética inteligência estratégica do companheiro e tê-lo-á arrastado: Ao princípio da tarde, fomos até à sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso. (…) reinava a paz dos sepulcros.

Mas o mais estranho que terá escapado a Maria Filomena Mónica foi o verdadeiro prodígio da electrónica realizado naquela tarde histórica de Abril, quando Vasco Pulido Valente voltou ...para o carro e consegui(u) ouvir – porque se ouvia nas telefonias dos carros – a banda de rádio da GNR. (…) O comandante a dizer: «É melhor acabarmos com isto senão isto ainda vai dar uma chatice.» Vasco Pulido Valente considera esta última frase inesquecível. Eu considero – para além da coincidência do Vasco ter apanhado a parte mais sumarenta do diálogo – todo o processo da escuta tecnicamente brilhante. Basta pensarmos como Garcia dos Santos teria andado no quartel da Pontinha a montar um complexo sistema de intercepção de comunicações para aquele dia, quando o Vasco Pulido Valente lhe poderia ter resolvido boa parte do problema só com o rádio do carro… Para além da verosimilhança, a versão daqueles dias escrita por Maria Filomena Mónica tem a vantagem de ser, não só mais desenvolvida, mas também intelectualmente mais modesta (Os dias que se seguiram foram passados na companhia do Vasco, tão surpreendido quanto eu com o que se estava a passar) e de ser ilustrada com uma fotografia (tirada pela Micuxa Galvão Teles) de uma honestidade simbólica: nela se vêem os dois a zero, coscuvilheiros, com Vasco Pulido Valente apropriada e simbolicamente nos bicos de pés atrás da multidão, a tentarem ainda assim perceber o que se estaria a passar.
Tomando por inspiração aquilo que Vasco Pulido Valente diz(ia) que devemos aos capitães de Abril, também aquilo que ele narra(va) sobre a forma como vive(ra) aqueles dias é de fidedignidade zero - como quase tudo o que Vasco Pulido Valente escrevia, de resto...

25 abril 2024

O CRAVO NA ARMA ERRADA

(Republicação a propósito do cinquentenário)
A fotografia acima, pretendendo passar por uma fotografia do 25 de Abril, não pode ser considerada uma verdadeira fotografia simbólica do 25 de Abril. Mesmo que o cravo e a boa disposição manifestada pelos fotografados estejam adequados ao evento, a arma onde a rapariga deposita o cravo está errada – trata-se de uma espingarda Mauser e não de uma G-3 – e o soldado é afinal um graduado da Guarda Nacional Republicana (GNR). Recorde-se que foi entre a GNR, no quartel do Carmo, que o presidente do conselho Marcelo Caetano se refugiou antes de se vir a render. Nada impede que os seus militares tivessem depois aderido ao espírito do acontecimento mas, institucionalmente, a GNR foi um dos vencidos do dia.

AINDA IMAGENS DO 25 de ABRIL ORIGINAL: A PRISÃO DO PIDE

(Republicação a propósito do cinquentenário)
O rebranding que fora promovido em 1969 sob Marcello Caetano nunca funcionara: a antiga Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE) mudara o seu nome para Direcção Geral de Segurança (DGS), mas a manutenção de tudo o resto, competências, estrutura, director (major Silva Pais) fizera com que, a justo título, a instituição e os seus agentes continuassem a ser designados pelo nome de sempre: a PIDE, um pide. Na fotografia é um deles que é preso por quatro soldados diante de uma assistência de outros tantos populares que parecem assistir, não da bancada mas do peão, à Revolução que se desenrola a 25 de Abril. A roupa a secar numa varanda e meio anúncio luminoso de uma loja de Gazcidla (o gás engarrafado consumido pelas classes baixas) confirmam o retoque popular da imagem.

17 abril 2024

NENHUMAS, MAS EM AMARELO...

Quando nos questionamos sobre as hipóteses de sobrevivência do actual executivo, a resposta mais adequada de que me recordo vou buscá-la a um imaginativo cartaz de que me lembro, exibido em 2016 por altura do referendo sobre o Brexit, e que exibia um gráfico sobre as chances de que o Brexit tivesse um bom desfecho. Como a política moderna parece ser feita tendo em conta a coreografia e não a essência das questões, a paródia do autor do cartaz terá sido desenhar um gráfico colorido em que todo ele representava o mesmo desfecho, mas em que havia uma fatia do gráfico que aparecia pintada de amarelo. Não havia quaisquer hipóteses que o Brexit tivesse um bom desfecho, como se veio a comprovar, mas, ao menos, o gráfico do cartaz não tinha uma aparência deprimente... Quando ouvi Luís Montenegro anunciar no princípio deste mês que o seu governo viera «para governar quatro anos e meio» instintivamente pensei na foto acima e ocorreu-me como o orador resolvera pintar aquela parte do seu discurso de posse de amarelo...

04 abril 2024

EM ESTILO DE «RESERVOIR DOGS»

Há coisa de um ano, o governo antecedente de António Costa exibiu-se numa fotografia que nos fazia lembrar a primeira parte - a paralítica - de um daqueles tradicionais vídeos do Harlem Shake... (que haviam estado na moda dez anos antes) Em contraste e como seria de esperar, a pose e estilo como o novo executivo se pretende apresentar são completamente diferentes, dinâmicos, a lembrar-nos a abertura do filme «Reservoir Dogs»...
Para além da semelhança estética, uma certa orientação muito predominante na comunicação social nas críticas elogiosas como os comentadores estão a acolher o novo executivo, faz-me lembrar precisamente a atitude como costumam ser acolhidos todos os filmes de Quentin Tarentino...