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10 julho 2021

UMA PITORESCA TENTATIVA DE ASSASSINATO/GOLPE DE ESTADO EM MARROCOS

10 de Julho de 1971. A propósito do recente assassinato do presidente do Haiti, vem mesmo a propósito evocar uma tentativa de golpe de estado que teve lugar há precisamente 50 anos em Marrocos e que envolvia também o assassinato do monarca daquele país, o rei Hassan II (1929-1999, acima).
O cabecilha da intentona, vir-se-ia depois a descobrir, era o general Medbouh (1927-1971), um ajudante de campo do rei, que contava com várias cumplicidades do exterior, nomeadamente os comandos e cerca de 1.000 cadetes de uma escola de formação de sargentos do exército marroquino.
O local e a ocasião foram, verdadeiramente, das Arábias: o palácio real de Skhirat, por ocasião das celebrações do 42º aniversário do rei, quando o palácio se encontrava cheio de centenas de convidados ilustres. Os rebeldes irromperam pelo palácio aos tiros, conforme se percebe pelo desenho supra.
O assalto durou umas duas horas, mas o rei conseguiu esconder-se, fugir e depois retomar o controlo da situação, com a convocação de tropas leais. As notícias do dia seguinte ainda não haviam conseguido explicar o que acontecera. Alegando «apoio estrangeiro» aos rebeldes, eram apenas peças de propaganda do regime ameaçado. 

Como acontece, de resto, agora, no caso haitiano, com a invocação da condição de estrangeiros dos assassinos do presidente. Como se o interesse pela liquidação do presidente haitiano fosse uma questão colombiana... Adenda: Nem de propósito, a versão colombiana começa a ser posta em causa...

22 abril 2021

DE PAI PARA FILHO

22 de Abril de 1971. No Haiti, no dia seguinte à morte do pai, o presidente François «Papa Doc» Duvalier, o seu filho com quase 20 anos, Jean-Claude Duvalier (e que virá a ficar conhecido para a História com a alcunha - previsível - de «Baby Doc»), toma posse desse mesmo cargo presidencial, perante as críticas unânimes de uma comunidade internacional que se mostrava ainda pouco habituada a gestos tão despropositados de sucessão monárquica, pelo menos quando acontecendo em regimes que se reclamam dos princípios republicanos. Quase 50 anos contados dia a dia se passaram, e a 21 de Abril de 2021, aconteceu precisamente o mesmo no Chade, com a morte do presidente Idriss Déby, que foi substituído de imediato no cargo pelo seu filho Mahamat Déby Itno, um sucessor que, com os seus 37 anos, até faz figura de veterano quando em comparação com Baby Doc. A diferença é que agora já não há quem se indigne por aí além com estas sucessões dinásticas como acontecia outrora... até já as houve - e por duas vezes - em países socialistas avançados como a Coreia do Norte!

18 maio 2011

FABIENNE – ATÉ ONDE UMA HISTÓRIA INTERESSA…

No Mundo da informação é fundamental traçar a diferença entre as histórias que geram as fotografias e as fotografias que geram as histórias. Estas fotografias pertencem ao segundo grupo; a de cima, da autoria do fotógrafo Paul Hansen, foi premiada na Suécia e a de baixo, de Lucas Oleniuk, foi premiada no Canadá, ambas no meio de uma igual controvérsia por causa das circunstâncias (idênticas) em que foram obtidas.
A 12 de Janeiro de 2010, Port au Prince, a capital do Haiti, foi quase toda destruída por um violento terramoto. Estima-se que ele tenha provocado umas 200 mil mortes. Mas a morte mais gráfica daquele enorme acidente (se atendermos à difusão do circo informativo mundial) não foi provocada directamente pelo terramoto, mas antes pelas medidas de excepção que se costumam decretar nessas situações de grandes catástrofes…
Numa acção para dissuasão dos saqueadores, a polícia haitiana abateu a tiro uma adolescente de 15 anos chamada Fabienne Cherisma quando esta transportava duas cadeiras de plástico e três quadros emoldurados. O enquadramento das fotografias acima, onde se podem ver os outros saqueadores em actividade, totalmente indiferentes à acção de dissuasão da polícia haitiana são uma cruel acusação à posteriori da gratuitidade do gesto.
Mas rode-se agora um pouco o enquadramento das fotografias (acima) e perceba-se como (como é costume) todas estas fotografias que geram histórias, tendo vítimas, não têm heróis, com os fotógrafos agachando-se como se fossem um bando de abutres junto ao cadáver de Fabienne… Mesmo a história da dor de um pai que vem recolher o cadáver da filha (abaixo) terá parecido complexa demais para a sofisticação do fotojornalismo moderno…

01 fevereiro 2010

O LAGO ENRIQUILLO E O ARGUMENTO DE 007 – A VIEW TO A KILL RESSUSCITADO

O Lago Enriquillo é um lago situado na República Dominicana. Tratando-se de um destino turístico secundário do país, muito diferente das praias que lhe dão a reputação, o lago, com 265 km² de extensão, caracteriza-se por se situar numa depressão abaixo do nível do mar, por ter um regime de alimentação muito irregular, o que faz com que o nível das suas águas e, em consequência, a configuração das suas margens, sejam muito instáveis, por ter águas com uma salinidade superior à água do mar e por ter uma fauna de repteis (como crocodilos e iguanas) e aves de grande porte que tornam o lago quase único entre as grandes Antilhas.
A depressão em que o lago se situa é uma importante falha tectónica que se prolonga para a metade haitiana da Hispaniola, onde também existe um lago semelhante, embora ligeiramente mais pequeno, o Lago Azuei ou Étang Saumâtre (170 km²), e em cima da qual, como se pode observar nos mapas anexos, também se localiza a capital do Haiti, Port-au-Prince, que foi recentemente devastada pelo terramoto de 12 de Janeiro, ocorrido nessa falha. Tudo isto já se sabia... O que é novidade foi uma notícia, posta recentemente a correr pela marinha russa, que os responsáveis pelo terramoto terão sido os Estados Unidos, com uma arma secreta
Já tinha lido uma história parecida… Em 1985, num filme do 007 chamado A View to a Kill, protagonizada por um James Bond desgastado (Roger Moore com 57 anos…) e com um mau, Max Zorin (Christopher Walken), que se propunha destruir Silicon Valley induzindo um gigantesco terramoto numa falha tectónica chamada falha de Santo André. Num 007 tudo é possível, mas a sério, quando se constatam as energias associadas ao fenómeno, equivalentes às do armamento nuclear mais potente, e as profundidades a que ocorrem, da ordem das dezenas de quilómetros, suspeita-se logo que na Rússia alguém começou o Carnaval mais cedo