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23 junho 2024

80º ANIVERSÁRIO DA OPERAÇÃO «BAGRATION»

(Republicação)
23 de Junho de 1944. Início da Operação Bagration. Para os soviéticos, o desencadear da Operação Úrano, em Novembro de 1942, foi mais uma proeza de astúcia do que de força, cercando, para o aniquilar, e apenas devido à dispersão das forças do inimigo, o exército alemão que se obcecara em excesso com a conquista de Stalinegrado. Em Julho de 1943, na Batalha do Kursk (a Operação Cidadela, segundo o nome dado pelos alemães), já as forças presentes dos dois lados se equivaliam, e a vitória soviética resultou da habilidade de, conhecendo-lhe as intenções, dar a iniciativa ao inimigo, desgastando-o na sua ofensiva, para depois o contra-atacar depois disso. Mas nesta Operação Bagration, a coincidir com o início do Verão de 1944 e prometida aos Aliados por Stalin para a fazer coincidir com o desembarque na Normandia, já a superioridade passara inteiramente para o lado soviético. A questão já não se poria em saber qual o desfecho da ofensiva que o Exército Vermelho iria desencadear, a dúvida consistia apenas em saber qual a dimensão da derrota táctica da Wehrmacht. Essa derrota será colossal (como os cenários macroeconómicos de Vítor Gaspar...). Em duas semanas, pouco mais, serão destruídas 25 divisões alemãs, perder-se-ão 400.000 combatentes, haverá uma hecatombe entre os oficiais generais alemães: 9 mortos e 23 prisioneiros (na fotografia abaixo, da capitulação de Vitebsk, os dois generais alemães vencidos do lado direito, são o general Gollwitzer, comandante do 53º Corpo de Exército e o general Hitter, comandante da 206ª Divisão). O avanço soviético cifrou-se em 400 km e alcançou as antigas fronteiras da União Soviética com a Polónia e as repúblicas bálticas, a dinâmica da ofensiva veio a ser mais perturbada pelos problemas da logística de acompanhar um exército fortemente motorizado, do que pela capacidade de resistência das unidades alemãs ainda em condições de combater. No lugar das 25 divisões destruídas restaria o equivalente a 8 enquanto se aguardava a chegada de outras 8 em reforço. Diante delas, o estado-maior alemão enumeraria 126 divisões soviéticas de infantaria e outras 6 de cavalaria, para além de 62 brigadas blindadas. Naquele sector da Frente Leste e em termos de potencial de combate os alemães defrontar-se-ão a partir daí numa desproporção de um para dez! Hitler's Greatest Defeat é um livro já com 30 anos mas que cumpre a sua missão de explicar sucintamente uma tão grande e tão decisiva ofensiva em 170 páginas. Que é muito mais do que se pode dizer de evocações de jornal (em 2019) que mostram que quem as escreveu nem sequer quis perder muito tempo na wikipedia a documentar-se (para dizer mais que trivialidades misturadas com asneiras...).

13 março 2022

O FRENESIM MEDIÁTICO DA ACTUALIDADE QUANDO COMPARADO COM A «BLITZKRIEG» ORIGINAL

Tal é o frenesim mediático que acompanha a cobertura da invasão russa da Ucrânia, que hoje, 18º dia do conflito, vivemos sob a impressão que já aconteceram imensas coisas importantes. Na verdade, não aconteceram. Mais, raramente acontecem. Um óptimo exercício para o perceber consiste em sobrepôr o calendário actual da invasão russa da Ucrânia, com o calendário da invasão alemã da Polónia, a campanha que coincide com o eclodir da Segunda Guerra Mundial, a partir de 1 de Setembro de 1939. O ritmo dos acontecimentos parecia tão acelerado naquela altura que apareceu a palavra blitzkrieg (guerra relâmpago em alemão) para o descrever. Mas, mesmo por esse padrão e apesar dos exércitos polacos estarem a recuar em todas as frentes, um pouco à semelhança do que parece estar a acontecer na Ucrânia, só ao 17º dia dos combates (17 de Setembro) é que aconteceu algo de significativo: noutro momento indigno da Rússia, esta invadiu a Polónia pelo Leste. Talvez a Bielorrússia esteja a pensar fazer o mesmo... Servindo o exemplo polaco de referência - Varsóvia resistiu quatro semanas e a campanha da Polónia terminou em cinco (35 dias) - então será de antecipar a conquista de Kiev pelos russos para uma data à volta de 23 de Março e a rendição das tropas ucranianas para o fim deste mesmo mês. Tudo o que for para além disso é para ser considerado bónus para os ucranianos. Explicado o método simples como foram estimadas, são previsões que valem o mesmo que várias outras que já ouvi por aí pela comunicação social.

08 agosto 2019

OS POLACOS CONQUISTAM MINSK

8 de Agosto de 1919. O novo exército polaco conquista a cidade de Minsk ao exército vermelho dos bolcheviques (acima, uma fotografia da entrada das tropas na cidade; abaixo, o mapa das operações). Ora Minsk é a actual capital da Bielorrússia. A conquista mostrava que as ambições da recém-renascida Polónia, e ao contrário do princípio das nacionalidades preconizado por Woodrow Wilson, iam muito para além da constituição de um estado nacional polaco e procuravam recuperar as fronteiras que haviam sido as da Polónia histórica, o estado multinacional que fora sucessivamente retalhado por alemães, austríacos e russos entre 1772 e 1795. Mas, apesar das circunstâncias serem extremamente propícias, sobretudo por causa da milagrosa fraqueza momentânea e simultânea dos dois inimigos hereditários (alemães e russos), a ambição polaca revelou-se demasiada.

13 outubro 2018

A DERRADEIRA CAMPANHA DE RUSSIFICAÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA

13 de Outubro de 1978. O conselho de ministros da União Soviética aprova um decreto acentuando o recurso ao emprego do idioma russo tanto na educação como em muitos outros aspectos da vida quotidiana. Dado o carácter sensível do assunto, por causa da diversidade das nacionalidades da União e da carga histórica negativa das medidas para a imposição do russo, que haviam estado associadas aos tempos autocráticos do czarismo, a notificação do documento, vindo de Moscovo para as capitais das restantes catorze repúblicas que compunham a URSS, seguiu um protocolo de distribuição paralelo ao oficial, entregue em mão aos responsáveis locais de cada república pela educação, para que estes o consultassem e ficassem cientes do seu conteúdo mas sem deixar rasto documental, evitando a possibilidade que o documento fosse copiado e publicitado. No aspecto, as iniciativas que posteriormente se viessem a adoptar para a russificação do ensino pareceriam ter nascido concertadamente nas repúblicas sem que tivesse havido instruções expressas de Moscovo para o fazer. Em Outubro de 1977, um ano antes, a URSS aprovara uma nova constituição (é esse o sentido da exortação da fotografia acima - por muito que ela não faça sentido afixada num cabeleireiro - e o autor da fotografia é Igor Gavrilov), e esta campanha vocacionada para acelerar a russificação do império soviético enquadra-se nesse esforço para o transformar numa entidade organicamente mais homogénea,...
...embora acautelando que não se perdesse a imagem obrigatória da pluralidade de nacionalidades que compunham a União (acima - uma espécie de bilhete postal). Dali por sete meses, em finais de Maio de 1979, cerca de um milhar de pessoas ligadas ao ensino e difusão do russo ir-se-ão encontrar num congresso que se realizará em Tashkent, capital do Uzbequistão. Para além dos tradicionais burocratas, esta reunião virá a ser abrilhantada com a presença de figuras gradas dos partidos comunistas das repúblicas, como S. N. Imashev do Cazaquistão, L. K. Shepetis da Lituânia, K. N. Kulmatov da Quirguízia, G. B. Bobosadykova do Tadjiquistão ou M. M. Mollaeva do Turquemenistão. Mas, mais significativa que essas presenças será a mensagem endereçada pelo próprio Leonid I. Brejnev, lida no início dos trabalhos:
 
«Sob a égide do Socialismo desenvolvido, quando a economia do nosso país se transformou num único sistema económico e quando emergiu uma nova entidade histórica - o Povo Soviético, existe objectiva e necessariamente um papel crescente para a língua russa como idioma de comunicação internacional no edifício do Comunismo, na educação do Homem Novo. Em conjunto com o do seu próprio idioma, o emprego fluente do russo, que foi aceite como herança histórica comum por todo o povo soviético, facilitará a futura estabilização da unidade política económica e espiritual do povo soviético. (...)»
 
Depois do desmembramento da URSS, uma das formas das antigas repúblicas soviéticas fugirem à influência de Moscovo foi passar a privilegiar o inglês como língua de comunicação internacional, como acontece nomeadamente hoje com as três repúblicas bálticas.

30 setembro 2016

A HERANÇA SOVIÉTICA

O socialismo avançado e a planificação cientifica terão criado uma tradição nos países que fizeram parte da União Soviética que leva a que as cerimónias protocolares se realizem no formato antevisto independentemente das circunstâncias. É assim que se regam árvores sob chuvas copiosas e se depõem palmas de flores quando o melhor era não o fazer...

28 abril 2016

«OBER OST»

Sob o nome de Ober Ost, formou-se a partir de 1915, uma estrutura administrativa dos territórios que haviam sido conquistados e estavam ocupados pelo exército alemão na frente oriental. Ocupando as terras imediatamente adjacentes à Prússia e ocupando também as costas do Báltico, o Ober Ost, conforme os mapas que se exibem, tinha uma extensão total de 108.800 km² (20% da Alemanha) e, de acordo com o último recenseamento que fora efectuado pelo poder imperial russo em 1897, uma população cifrada em 2.900.000 habitantes. Mas muito heterogénea, tanto na composição como também na forma como se distribuía: havia uma área central onde predominavam os lituanos (34% da população), outra onde predominavam os bielorrussos (21%) a sul e noutra ainda os letões (10,5%) a norte, mas os judeus (13,5%), os polacos (12%) e os russos (6%) estavam disseminados por toda a parte, sobretudo nas cidades. A sua capital, que era a localização do Quartel-General alemão para a Frente Leste era a cidade de Kaunas. De acordo com as leis internacionais e as práticas da época, os territórios conquistados seriam para ser administrados pelas autoridades civis pré-existentes durante o período que durasse a ocupação militar. O status quo político só poderia ser alterado depois da guerra. Porém, naquele caso, as autoridades imperiais russas também haviam fugido à frente dos exércitos alemães, cumprindo as instruções de Petrogrado de criar aos invasores a tradicional política russa de terra queimada diante de um invasor. Os militares alemães foram assim sugados para aquele vácuo administrativo e tiveram que assegurar muitos aspectos triviais do quotidiano para o prosseguimento das suas operações. Não sendo assim uma criação deliberada dos alemães – o regime em vigor na mesma época na Bélgica também ocupada era diferente deste, por exemplo – o Ober Ost tornou-se, apesar disso, no mais famoso sistema de ocupação militar a que se assistiu durante a Primeira Guerra Mundial. E isso porque, como veremos adiante, configurou um claro antecedente aos métodos brutais que os mesmos alemães viriam a assumir no Leste da Europa na Segunda Guerra Mundial.
A figura dominante desse estado militar de Ober Ost foi Erich Ludendorff (acima), a sua pessoa mas também o seu pensamento político-militar, que depois se viria a impor em toda a Alemanha nos dois anos finais do conflito (de 1916 a 1918). Como se fosse uma adaptação ao século XX do trabalho dos cavaleiros teutónicos que haviam colonizado a Prússia, Ludendorff descrevia esta sua tarefa como uma obra de civilização que iria beneficiar o exército, a Alemanha mas também o próprio país e os seus habitantes – atente-se à ordem como os factores são nomeados... Os oficiais de Ludendorff tornaram-se vítimas da sua própria propaganda e concebiam-se como paladinos da civilização e da cultura. Ober Ost estava destinada a ser uma colónia adjacente ao Reich, um estado tampão onde se fixariam os alemães vindos da Rússia depois da vitória. A engenharia militar, por exemplo, não só reerguera as diversas pontes destruídas pelos russos à retirada como até construíra outras, 434 no total, incluindo uma extensíssima cruzando o rio Bug na província meridional de Bialystok. Outros investimentos foram feitos directamente nos sectores produtivos, conservas, lacticínios, serrações, carpintarias para aproveitar a rica cobertura florestal do sul do país. Também a educação, pelo menos a dos níveis mais elementares, não foi descurada: sob o regime militar o número de escolas primárias duplicou para mais de 1.350. O problema era o que esta utopia custava, e não apenas em custos materiais, aos habitantes locais, para quem tudo aquilo não estava a ser construído. Naquilo que seria um híbrido entre uma Constituição local e uma Ordem de Serviço de uma unidade militar, deixava-se isso claro a 7 de Junho de 1916 quandos e escrevia que os interesses do exército e do Reich alemão se sobreporão sempre aos do território ocupado. Como uma qualquer colónia de África, a menor preocupação dos militares alemães era captar a simpatia das populações submetidas...
Considerações várias, algumas delas pertinentes, levaram as autoridades a restringir completamente a circulação das pessoas. Havia barreiras para o exterior mas também as havia internas, separando as várias províncias, tornando os passes obrigatórios para a mais ínfima deslocação. Com uma meticulosidade alemã, todo o país foi submetido a um registo de pessoas – um cartão de identificação para os maiores de 10 anos – e de propriedades – um cadastro como as autoridades russas nunca haviam elaborado. O regime tributário tornou-se opressivo, não apenas através dos impostos directos sobre as pessoas, os imóveis ou os lucros, mas sobretudo via impostos indirectos, cobrados através de monopólios estatais em produtos como os cigarros, bebidas alcoólicas, cerveja, sal, açúcar, sacarina e fósforos. E o rigor alemão dava uma outra eficácia fiscal a documentos como licenças de pesca ou a autorizações - muito contestadas - para a posse de cães. Mas a exigência das autoridades militares de Ober Ost que era pior suportada pelas populações locais fora m as corveias que lhes começaram a ser impostas a partir de Janeiro de 1916. Muitos milhares foram assim recrutados para trabalhar nos projectos alemães de construção de novas estradas, vias férreas e linhas telegráficas, em que os empreendimentos saíam a um preço de saldo – os trabalhadores não eram remunerados... Os judeus, como grupo predominantemente urbano, sem trabalhar nas áreas que os alemães reputavam de sensíveis (como a agricultura), foram desproporcionadamente afectados por essa mobilização para os Z.A.B. – Zivil Arbeiter Batallionen (batalhões de trabalhadores civis). Só na província da Lituânia, estima-se que 130.000 homens e mulheres foram recrutados dessa maneira. Não se sabe o número de mortes mas sabe-se o de execuções: 1.000 - mais uma vez: apenas nessa província. As condições eram horríveis, a alimentação má e escassa (250 gramas de pão/dia), os alojamentos estavam rodeados por arame farpado, as sanções por mau comportamento eram frequentes e envolviam agressões físicas, e os prisioneiros – pois não passavam disso – raramente conseguiam contactar com as suas famílias. As taxas de deserções e, sobretudo, de mortalidade eram impressionantes.
Em Agosto de 1916, porque a dupla Hindenburg/Ludendorff foi chamada a Berlim para assumir a direcção estratégica do esforço de guerra alemão, o Ober Ost passou a ser dirigido por uma figura decorativa e mais amena do que o fora o austero Ludendorff, o príncipe Leopoldo da Baviera (acima), um velhote de 70 anos (acima). Ainda bem para os alemães porque um dos efeitos colaterais da Revolução de Fevereiro de 1917 na Rússia, e da consequente capacidade de atracção que ela produziu entre as populações locais, foi que obrigou os alemães a terminar com as práticas mais criticáveis, dissolvendo, por exemplo, embora apenas na teoria, os ZAB em Setembro de 1917. Claro que sob outro nome acabou por quase nada mudar, porque o investimento nas infra-estruturas do Ober Ost, agora numa perspectiva de vitória, parecia ser cada vez mais importante para os alemães para poder ser cancelado. O problema é que as duas revoluções russas de 1917 - a de Fevereiro, derrubando o czar, e a de Outubro que levou os bolcheviques ao poder - haviam criado uma dinâmica independentista entre as várias nacionalidades que anteriormente haviam estado submetidas ao poder imperial russo – polacos, finlandeses, lituanos, letões, estónios, ucranianos – dinâmica essa que os alemães já não conseguiam controlar por causa da forma como haviam malbaratado a boa vontade dessas nacionalidades nos primeiros anos da guerra. Tipicamente, quando num gesto de leniência os alemães permitiram que em Setembro de 1917 se reunisse a Taryba, uma assembleia de notáveis lituanos, esta rapidamente extravasou as suas competências e em Fevereiro de 1918, em antecipação às concessões que os alemães haviam obtido dos russos no Tratado de Brest-Litovsk, proclamou a independência da Lituânia. Relativamente pouco conhecida, como de resto o é toda a História da Frente Leste da Primeira Guerra Mundial (1914-17), esta proto-colónia chamada Ober Ost demonstra a superioridade implícita como os alemães sempre se apresentaram diante dos seus vizinhos europeus e de como se trata de um fenómeno social independente (que até precedeu historicamente a ascensão) do nazismo.

11 julho 2014

MILEX 2014

Não foi por pacifismo, apenas por distração que só hoje, dia do encerramento, assinalo aqui a realização em Minsk, na Bielorrússia de uma Exposição denominada MILEX 2014. Um certame interessantíssimo dedicado à promoção de armamento e artigos correlacionados como se comprova pelas fotografias anexas: não é em qualquer lugar que se tem o privilégio de apreciar todo um sortido de granadas para as mais diversas funções, unidas no propósito de incomodar quem se manifeste…
…ou então uma vitrine repleta de munições com uma variedade e um colorido a fazer lembrar mostruários de perfumaria, lacas ou maquilhagem embora a dimensão dos frascos e a presença do dispersor por perto modere a nossa disposição a submetermo-nos a tais tratamento de beleza. Apesar do tema, ou talvez mesmo por causa dele, a presença feminina é sempre encorajada e destacada, como a proprietária destes calções camuflados que promove o evento na sua coxa.

26 agosto 2013

OS LIMITES DO DESCARAMENTO

Este cartaz de propaganda, onde se vêem traços identificativamente soviéticos, representa Aleksandr Lukashenko, o presidente da Bielorrússia nos últimos dezanove anos (possivelmente para durar, que o homem ainda não fez 60 anos…), a renegar veementemente um suborno norte-americano (note-se a chapinha com a star and stripes no pulso do oferente destinado àqueles que não concluíssem o óbvio das notas de dólar…), enquanto na legenda se pode ler que Não! A Bielorrússia não está à venda… É verdade que boa parte da hostilidade que no Ocidente se manifesta para com Lukashenko e o seu regime se deverá, muito provavelmente, ao facto deste não ter aberto a economia (eufemismo para privatização) bielorrussa à iniciativa privada. E que os países estão no direito de se preservar dessa interferência exterior que só beneficia as economias mais pujantes.

Mas enganam-se também aqueles que se disponham a aproveitar o episódio para o reinventar de acordo com cânones políticos que desapareceram: Lukashenko pode passar por anticapitalista, pode invocar o nacionalismo, poder-se-á opor à interferência de outros capitalistas mas convêm que se saiba que ele se tornou, simultaneamente, no maior multimilionário da Bielorrússia, com uma fortuna pessoal estimada em 7.000 milhões de €uros…em 2006. É caso para dizer, regressando à mensagem (que se percebe agora) indecente no cartaz inicial, que bem pode ele aparecer ali a renunciar aos subornos do capital norte-americano quando pessoalmente já terá roubado que chegasse ao seu próprio povo…

10 junho 2010

O 29º BOLETIM

Maladetchna é uma média cidade bielorrussa com quase 100.000 habitantes que possui pelo menos duas curiosidades históricas: por um lado, ainda tem uma estátua de Lenine numa das suas praças centrais que não foi apeada do pedestal em 1991 (abaixo) e, por outro lado, como acontece muito frequentemente por aquelas paragens, é uma cidade conhecida por mais do que um nome, de acordo com os nomes das potências que a dominaram ao longo da história: Molodetchno em russo e Mołodeczno em polaco.
Foi com a última designação que ela entrou para a História Universal ao tornar-se o lugar de onde Napoleão Bonaparte emitiu a 3 de Dezembro de 1812 aquele que se viria a tornar o seu famoso 29º Boletim, em que ele anunciava que o Grande Exército com que invadira a Rússia estava agora reduzido a punhados de soldados dispersos e que se preparava para regressar a Paris onde houvera uma tentativa de Golpe de Estado. Consolo para todos: o boletim terminava com a informação que a saúde de Sua Majestade estava melhor que nunca!

13 novembro 2008

NOVOS JOGOS DE GUERRA

Os norte-americanos sempre insistiram que o sistema anti-míssil que eles pretendem instalar na Polónia e na República Checa não se destina a ameaçar os russos, nem sequer constituiria um sistema de defesa que se revelasse eficaz contra o dispositivo ofensivo dos russos. O sistema norte-americano que os norte-americanos pretendem instalar pode ser eficaz, mas apenas para ameaças de pequena dimensão, constituídas por um punhado de mísseis com ogivas nucleares de uma pequena potência, como seria o caso do Irão, ou então no caso do cenário (muito ao gosto de Hollywood...) de uma facção dissidente que se apoderasse de uma pequena parte do dispositivo russo.
Do ponto de vista táctico, mesmo para um leigo, a argumentação norte-americana é de levar em conta. Aos russos não interessa mencionar, na sua propaganda, que o dispositivo que os norte-americanos pretendem instalar na Polónia, é composto apenas por 10 silos para mísseis de intercepção, enquanto os russos, mesmo contando apenas com os ICBM* de última geração, e mesmo depois de todos os acordos de desarmamento, ainda dispõem actualmente de cerca de 40 SS-18, 126 SS-19, 201 SS-25 e 65 SS-27, para não mencionar os mísseis lançados a partir de submarinos, como o Bulava. Qualquer destes 450 mísseis possui ogivas múltiplas (MIRV*), ou seja, transporta várias bombas atómicas, cerca de 2.000 no total...
Ainda que discretamente, longe dos holofotes da propaganda, os especialistas russos são os primeiros a reconhecer que, mesmo que os norte-americanos decuplicassem o sistema anti-míssil que estão a instalar no Leste da Europa, esse sistema nunca conseguiria assegurar que neutralizaria uma ofensiva russa. Mas, perguntam os russos, se (e aqui entramos nos jogos de guerra à boa maneira da Guerra-Fria…) os norte-americanos atacassem primeiro? Aí, os mísseis de intercepção instalados na Polónia só teriam que se haver com a retaliação russa e com os mísseis russos que tivessem sobrevivido ao primeiro ataque norte-americano… Daí, concluem os russos, a importância da sua neutralização.
A explicação é plausível mas rebuscada, digna de um falcão do antigamente. Desde o princípio se percebeu que esta questão não é apenas, nem principalmente, do âmbito militar mas sim do âmbito político e estratégico, por muito que a argumentação dos norte-americanos pareça inocente. Como acontecia antigamente com os Impérios, que nas regiões fronteiriças conflituosas marcavam os seus limites com muralhas, parece as potências de hoje marcam os limites das suas áreas de influência com sistemas de mísseis. E é nessa gramática que se entende esta decisão anunciada pelo Presidente Medvedev de instalar mísseis SS-26 no enclave de Kaliningrado – e provavelmente também o fará na Bielorrússia.
Os SS-26 (acima) são mísseis mais pequenos, de curto alcance (designados por SRBM*), terão um alcance até 400 km e virão a estar dirigidos aos silos dos mísseis norte-americanos na Polónia. A fase seguinte da escalada, que parece já estar em curso, é a de guarnecer o local da Polónia onde estão instalados os mísseis norte-americanos, com mísseis anti-mísseis, para os defender dos SS-26: são os MIM-104 Patriot (abaixo), que se tornaram tão famosos quanto controversos na Primeira Guerra do Golfo. Mas isso são tudo medidas de segurança passivas. Tanto os russos (e os bielorrussos) como os polacos e checos (estes equipados pelos norte-americanos) também poderão aumentar o dispositivo ofensivo das suas forças aéreas…
Mas talvez a explicação e a solução para esta potencial e inoportuna (devido ao ambiente económico) escalada militar possam ser também políticas, com o gesto de Dimitri Medvedev a ser interpretado como uma jogada de antecipação e de condicionamento à futura Administração de Barack Obama, quando o próprio futuro Presidente norte-americano se colocou recentemente numa posição descomprometida quanto à conclusão do sistema anti-míssil, prevista para daqui a dois ou três anos.

* ICBM - Intercontinental ballistic missile (Míssil Balístico Intercontinental)
MIRV - Multiple independently targetable reentry vehicle (Mísseis de Reentrada Múltipla Independentemente Direccionados)
SRBM - Short-range ballistic missile (Míssil Balístico de Curto Alcance)

30 setembro 2008

AS ELEIÇÕES BIELORRUSSAS

Decorreram no fim-de-semana passado eleições parlamentares na Bielorrússia. O resultado, com a vitória esmagadora das forças governamentais dirigidas pelo presidente Alexander Lukashenko (abaixo, num momento eleitoral populista), não foi propriamente surpreendente, assim como o não foi a unanimidade com que foram noticiadas as referidas eleições na comunicação social, condenando, por intermédio das declarações dos portas vozes dos 900 observadores internacionais da OSCE e de outras organizações destacados para as acompanhar, a manipulação que ali parece ter tido lugar. Segundo as referidas notícias, nenhum dos deputados eleitos poderá ser conotado com a oposição…
Mas aquelas informações menos opinativas e mais elementares de que andava originalmente à procura é que me foram mais difíceis de encontrar... Ainda assim, consegui ficar a saber que se apresentaram 263 candidatos aos 110 lugares em disputa em círculos uninominais, que 82 desses candidatos pertenciam a oito partidos políticos distintos, sendo os restantes candidatos considerados independentes, e ainda que a taxa de afluência às urnas se situou nos 75,3%. O que não consegui encontrar por essa internet adiante foram os resultados eleitorais expressos em % das votações dos oito partidos concorrentes ou então dos candidatos governamentais versus os da oposição…
E, nesta ignorância, ocorreu-me perguntar maliciosamente se as forças governamentais terão registado na Bielorrússia um score acima ou abaixo dos oitenta e tal por cento que aconteceram recentemente numas outras eleições parlamentares, essas indiscutivelmente democráticas, disputadas num outro país, num outro continente, também acompanhadas por uma miríade de observadores internacionais. Mas deixem-me ser claro na malícia: não se trata de uma questão de absolver os esquemas de Lukashenko, trata-se de voltar a questionar se não existe um problema de falta de credibilidade e de dioptrias nestas observações

05 setembro 2008

A FRONTEIRA RUSSO-POLACA...

Há coisa de um mês e meio, foi tremendamente propagandeada uma gaffe de John McCain que, numa entrevista para a televisão, criou uma mítica fronteira (inexistente) entre o Iraque e o Paquistão. Na altura, a comunidade informativa parecia estar toda atenta ao possível lapso verbal do candidato, e a sua asneira correu mundo.

Hoje, parece que os membros da comunidade desse turno mais forte em geografia devem estar todos de férias, quando se começa a difundir a notícia (por escrito) que a Rússia instala armas de precisão na fronteira com a Polónia. É só olhar para um mapa da Europa Oriental (acima), para verificar que, com excepção do pequeno enclave russo de Kaliningrado, a Rússia não tem fronteiras com a Polónia…

Como escrevi mais abaixo a respeito do Mar Negro, estamos de volta a mais um daqueles casos em que a preocupação informativa vai toda para o cabeçalho que dê da Rússia a imagem de uma potência agressiva, esquecendo o substancial. É que se pretendem mesmo instalar as tais armas junto à Polónia, então os russos precisarão de as instalar na sua aliada Bielorrússia, o que tornará todo este assunto muito mais interessante…