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15 setembro 2023

A BATALHA DE CAMPO GRANDE ENTRE PARAGUAIOS E BOLIVIANOS

15 de Setembro de 1933. A Guerra do Chaco, entre a Bolívia e o Paraguai, havia começado mais ou menos há um ano, sem ter aspecto de ter começado, e a informação de todo o mundo continuava a dedicar-lhe uma atenção diminuta. Neste dia de há 90 anos os paraguaios alcançaram aquilo que, mesmo depois, vieram a considerar uma vitória fundamental na batalha de Campo Grande. No quadro acima, a vermelho identificam-se as forças bolivianas, a azul as paraguaias que as cercavam e que haviam obtido a sua rendição. Como se lê, a notícia do jornal português descreve o combate como «grande», mas não se alarga propriamente a explicar porquê...

09 setembro 2022

A GUERRA DO CHACO QUE COMEÇOU OU TALVEZ NÃO HÁ NOVENTA ANOS

A Guerra do Chaco, que envolveu a Bolívia e o Paraguai entre 1932 e 1935, evoluiu de forma tão progressiva que a doutrina se divide quanto à data a considerar para o início das hostilidades. As páginas da wikipedia em espanhol, inglês e francês escolhem este dia 9 de Setembro de 1932, enquanto as escritas em português, alemão e russo preferem o dia 15 de Junho. Em abono desta última versão, a constatação que na edição de há 90 anos do Diário de Lisboa não se assinalava nada de particular na situação permanente tensa daquela região da América do Sul (notícia abaixo, à esquerda). Mais, passar-se-iam mais três dias antes do jornal regressar dia 12 ao mesmo assunto, com notícias oriundas das duas capitais: Assunção (Paraguai) e La Paz (Bolívia), mas ainda sem mencionar expressamente alguma alteração substantiva no grau de conflitualidade entre os dois países. Mas também se pode tratar de um desinteresse pelo tópico, num momento em que haveria tantos outros assuntos interessantes na actualidade internacional. Quanto ao conflito propriamente dito, tive oportunidade de escrever em 2011 um pequeno texto a respeito dele.

26 julho 2022

A CONFERÊNCIA DE GUAYAQUIL

26 de Julho de 1822. Os dois líderes dos movimentos militares que promoviam a emancipação das várias colónias espanholas da  América do Sul encontram-se na cidade - hoje equatoriana - de Guayaquil. De um lado Simón Bolívar, então com 39 anos, representava as possessões do Norte (mormente a Colômbia e a Venezuela de onde era originário), enquanto José de San Martín, com 44/45 anos, nascera em regiões que viriam a constituir a Argentina, mesmo junto à fronteira que viria a existir com o Uruguai, e representava o Sul das extensíssimas possessões espanholas do continente sul-americano. No total, Norte e Sul perfaziam cerca de 9 milhões de km²! E no entanto, esta conferência vai perpetuar-se na História apenas pelo seu significado simbólico, já que as consequências políticas do encontro vão ser nulas. Aquele potencial colosso imperial, em contraste com o que viria a acontecer com a América do Sul portuguesa que, com 8,5 milhões de km² viria a transformar-se num só país, o Brasil, o enorme conjunto colonial espanhol viria a cindir-se em 10 países! Por detrás da animosidade comum contra as autoridades coloniais espanholas e a vontade de as substituir, havia muito pouca confluência de vontades, estilos, métodos e ambições entre Bolívar e San Martín. É, mais uma vez, apenas simbólico, mas a comparação entre os brindes formulados pelos dois homens por ocasião do banquete que assinalou o encontro, diz-nos muito como seria difícil compatibilizar as correntes que representavam: saudava Bolívar: «Aos dois maiores homens da América do Sul: o general San Martin e eu!»; e retribuía San Martín: «À conclusão rápida da guerra, à organização das diferentes repúblicas do continente e à saúde do libertador da Colômbia!». É muito possível que esta última história seja apócrifa, mas os factos futuros vieram demonstrar que nunca os dois homens vieram a cooperar entre eles de forma construtiva.

23 dezembro 2020

É SÓ VOCÊ QUE NÃO FAZ A MÍNIMA IDEIA DE QUEM É DEBRAY?

23 de Dezembro de 1970. O interesse da notícia sublinhada não é o que ela contém. Se Debray havia sido libertado, ainda bem para ele. O interesse, cinquenta anos transcorridos, é considerar o destaque de primeira página que a notícia da sua libertação mereceu. Porque, só aqui entre nós, não é só você que não faz a mínima ideia de quem é - ainda está vivo - Régis Debray. Debray é um intelectual francês que resolveu passar das teorias à prática quando se dispôs a acompanhar «Che» Guevara quando este último foi fazer a revolução na Bolívia em 1967. Sabe-se quanto a guerrilha de Guevara foi um fiasco: Debray foi capturado ainda antes de Guevara, as autoridades bolivianas condenaram-no a trinta anos de prisão, mas teve um enorme e poderoso lóbi a protegê-lo e a pedir a sua libertação, incluindo o escritor e antigo ministro gaulista André Malraux, o próprio Charles de Gaulle e ainda o papa Paulo VI. Depois de uns decorosos três anos de cárcere, os bolivianos, chamuscados pelo assassinato e martirização de Guevara, libertaram Debray. Esta parece ter aprendido a lição: regressou ao pensamento e à escrita mas não mais voltou às experiências concretas sobre revoluções. Régis Debray tem hoje oitenta anos, mas os últimos cinquenta foram desprovidos do charme que o projectava para uma primeira página de jornal noutras paragens do mundo que não a Bolívia ou a França.

27 julho 2016

SALAR DE UYUNI

Em contraste com a limpidez das águas do lago Melissani, as do salar de Uyuni na Bolívia encontram-se tão saturadas de sais que a sua superfície parece funcionar por vezes como um espelho perfeito.

13 junho 2016

O JOSÉ GOMES FERREIRA LÁ DO SÍTIO

Explicar aos portugueses quem é François Lenglet (acima, à direita) pode simplificar-se: é uma espécie de José Gomes Ferreira em versão francesa. Em vez da SIC trabalha na France 2 mas é a mesma reputação de jornalista especializado em economia de estilo assertivo, de quem nunca tem dúvidas. A pessoa que com ele contracena na figura acima e no vídeo abaixo é Jean-Luc Mélenchon, a coqueluche política de uma certa esquerda intelectual francesa, os últimos vestígios soixante-huitards. Não tivesse a cena que vou narrar decorrido com ele e existiriam suspeitas fundamentadas que toda ela teria passado desapercebida. Numa entrevista televisiva de há umas duas semanas (abaixo), Lenglet confrontou o seu convidado Mélenchon com as actuações de três políticos internacionais que o segundo afirmava admirar: Chávez da Venezuela, Morales da Bolívia e Tsipras da Grécia. No novo estilo de jornalismo televisivo a que por cá também já nos habituámos, Lenglet também não pediu as opiniões de Mélenchon sobre os três políticos, deu-as ele próprio, porque neste figurino o que compete ao convidado é o trabalho de refutar as opiniões do anfitrião: ...dito de outra forma, (os três são) alguém que precipitou a falência do seu país, um corrompido e um traidor social. No seu estilo, mais exuberante que consequente, Mélenchon contra-atacou de imediato: ...meça as palavras senhor Lenglet, você é sem dúvida mais corrupto do que alguma vez será o Evo (Morales). A tréplica de Lenglet manteve o nível: ...não retiro nada do que disse, a namorada de Morales, que é a mãe do seu filho, beneficiou de encomendas do Estado de 500 milhões de dólares. Não me venha dizer que acha isto normal. Até Mélenchon se render: Bom, de acordo, tem razão.

A chatice é que, concedendo-lha, Lenglet não teria a razão toda que pretenderia ter, apesar de Mélenchon ser afinal incapaz de o desmentir. Como se pôde ler na época em que a história se tornou conhecida, no princípio de 2016, a namorada terá namorado muito pouco com Morales e o namoro aconteceu em 2007, há nove anos, o filho de ambos morreu ao nascer, a empresa que ganhou os 500 milhões de contratos é uma empresa de capitais chineses e não de interesse obscuros representados pela namorada, os diversos contratos foram escrutinados judicialmente e nada de anómalo se descobriu neles, a história serviu sobretudo como arma de arremesso político contra Evo Morales quando este disputou um referendo (que perdeu) em Fevereiro deste ano, referendo esse que pretendia prolongar a sua presença na presidência. Não é de estranhar que a embaixada da Bolívia tivesse reagido desagradada a tanta ignorância dita de forma tão assertiva. Mas o episódio também serviu para escrutinar a densidade das opiniões de Jean-Luc Mélenchon - sobre pessoas que ele afirma admirar! Gesto mais inédito, pelo militantismo implícito, foi a iniciativa de promover uma petição para o despedimento de François Lenglet. Sobre o gesto, compartilho opiniões que li sobre a sua inocuidade: tiram de lá um e põem lá outro que se vem a revelar tão parcial quanto o anterior; só a parcialidade é que pode ser de simpatia política diferente. O futuro destes programas políticos, em França como cá, consiste em reduzir-lhes progressivamente a seriedade até ao burlesco, como o sucesso de um formato como o do Governo-Sombra. Repare-se como, ao contrário das de José Gomes Ferreira, ninguém presta atenção às patacoadas de João Miguel Tavares.

07 agosto 2011

GUERRAS ESQUECIDAS (7) – A GUERRA DO CHACO

A recente transmissão dos jogos das selecções da Copa América (que culminaram numa final pouco comum entre as equipas do Uruguai e do Paraguai – acima) despertou-me a atenção para o quanto – com excepção dos casos do Brasil com a Argentina e desta última com o Chile – nos são desconhecidas as rivalidades tradicionais entre os países sul-americanos. Ora uma das expressões mais sangrentas dessas rivalidades foi a Guerra do Chaco, que se travou entre 1932 e 1935 e onde se confrontaram a Bolívia e o Paraguai. O Chaco que deu o nome à Guerra é uma grande região natural do interior da América do Sul com cerca de 650.000 km² de extensão, quase totalmente desabitada porque inóspita. A inospitabilidade acentua-se mais na zona que era disputada pela Bolívia e pelo Paraguai, o denominado Chaco Boreal, que ocupa metade daquela área – acima, vê-se um mapa de um frustrado projecto de partilha da região de 1879; abaixo aspectos da flora típica do local (notem-se os cactos…) durante uma patrulha de militares bolivianos.
A falta de água foi um factor importante a interferir no decorrer das operações. Outro factor ainda mais importante para a forma como essas operações decorreram foi o da pobreza dos dois países beligerantes que se reflectiu na pobreza de meios técnicos dos dois exércitos engajados. É verdade que nessa época de mobilizações gerais, tanto a Bolívia (com cerca de 2.150.000 habitantes) quanto o Paraguai (com uns 900.000) terão mobilizado mais de 10% da sua população – 250 mil e 120 mil homens – para os seus exércitos.
Porém, outra coisa distinta era equipar esses milhares de mobilizados… Se observarmos com atenção as fotografias da época, nota-se na fotografia acima – no caso, até em contraste com as botas de montar a brilhar do general Kundt ao centro – as sandálias calçadas por alguns dos soldados bolivianos. E há que dizer que as sandálias podiam até ser um privilégio, pois o soldado paraguaio que nos aparece devidamente equipado abaixo está descalço, justificando o epíteto pejorativo de Pila (pé descalço) dado pelos seus inimigos.
Tratou-se essencialmente de uma guerra da infantaria condicionada pelos problemas logísticos da água, enquanto o emprego de outros meios de combate mais sofisticados como fossem os casos da artilharia, aviação ou blindados se revestiram muitas vezes de facetas caricatas: a ofensiva inicial boliviana envolveu a participação de… cinco blindados – de dois tipos diferentes! As duas Forças Aéreas mostravam-se igualmente heterogéneas, raramente havia mais do que um punhado de aviões do mesmo tipo e origem.
Apenas no ramo naval é que existia uma superioridade nítida de um dos beligerantes: a flotilha fluvial paraguaia (acima) navegando o extenso Rio que dá o nome ao país. Não só por causa dela, mas também por causa dela, o Paraguai veio a vencer o conflito que causou cerca de 100 mil mortos, substancialmente muitos mais por doença do que em combate. E até as celebrações da Vitória que tiveram a ter lugar em Assunção, capital do Paraguai (abaixo), parecem ter-se adequado em contenção e modéstia a esta Guerra entre países pobres…

16 setembro 2008

A OUTRA AMÉRICA

A América do Sul não goza do destaque mediático da sua irmã setentrional. Apesar de ali termos tido a nossa maior e mais importante colónia e do Brasil se afirmar cada vez mais como a potência hegemónica do continente, a nossa ignorância sobre o que ali se passa e sobre o que ali se passou costuma ser muito grande. E nem nos deve servir de consolação o facto de, compartilhando a mesma língua, essa ignorância sobre os problemas brasileiros e sul-americanos ser muitas vezes recíproca, quanto ao que no Brasil se atenta aos problemas portugueses e europeus.
O mapa abaixo é um desses pormenores desconhecidos do passado, e mostra-nos como o continente foi atravessado ao longo do Século XIX por inúmeras disputas fronteiriças entre os países que se haviam tornado independentes de Espanha e de Portugal durante o primeiro quartel do século. Como o Brasil tem fronteiras com quase todos os países sul-americanos (salvo com o Chile e com o Equador) quase só por excepção é que o Brasil não esteve envolvido nas rectificações fronteiriças (algumas delas violentas) que ali vieram a ter lugar.
O Brasil esteve também envolvido no último e, até agora, único episódio de uma secessão bem sucedida que veio a ter lugar no continente sul-americano: a do Uruguai, em 1828, que se tornou independente da tutela brasileira. Aliás, todas as questões envolvendo o Uruguai e também o Paraguai (onde se travou uma guerra entre 1864 e 1870) tiveram e mantêm a importância estratégica de se localizarem na região tampão que separa os dois países que têm pretensões hegemónicas sobre o continente: a Argentina e o Brasil
Mas a maioria dos conflitos que estão mais acima assinalados é-nos desconhecida, assim como nos é também desconhecida a única guerra convencional de alguma envergadura que se travou no continente durante o Século XX e que ficou conhecida pela Guerra do Chaco (acima), que opôs o Paraguai e a Bolívia entre 1932 e 1935, a pretexto de uma enorme região árida e despovoada designada pelo nome de Chaco Boreal. Foi uma guerra peculiar, opondo interesses comerciais antagónicos, mais do que os países participantes.
Do lado boliviano estava a Standard Oil norte-americana e do paraguaio a Royal Dutch-Shell anglo-holandesa e no meio as suspeitas que sob o Chaco estariam alguns dos campos petrolíferos mais ricos descobertos até então. Não fosse a memória dos 100.000 mortos causados pelo conflito (a maioria por doença) e a síntese da sua história poderia ser perfeitamente dada pela descrição que dela faz Hergé no livro de BD de Tintin, A Orelha Quebrada (acima), onde nos faz a apresentação do típico oficial sul-americano, o General Alcazar (abaixo)
Para a História, e apesar dos muitos erros militares acumulados pelos dois antagonistas, a vitória veio a pertencer ao Paraguai que veio a receber quase todo o território do Chaco que estava em disputa. Foi a terceira derrota consecutiva da Bolívia nestes conflitos fronteiriços. Ela já havia perdido a saída para o mar para o Chile e também os seringais de borracha do território do Acre para o Brasil. Contudo, desta vez, a Shell acabou por ficar desapontadíssima com o que ganhara porque o Chaco afinal não se veio a revelar aquele mar de petróleo que se imaginava.
Paradoxalmente, os grandes depósitos de hidrocarbonetos que o território boliviano escondia afinal eram de gás natural e situavam-se um pouco mais a Norte da área disputada, na província de Santa Cruz, precisamente aquela que hoje lidera o processo autonomista/separatista que tem dividido a Bolívia. E, mais uma vez, embora a voz dominante seja a do costumeiro presidente venezuelano, Hugo Chavez, o tal que não se cala, adivinham-se, mais do que se vêm, os omnipresentes interesses brasileiros no acompanhamento da crise.

13 maio 2006

UM FREI TOMÁS DE SOMBRERO

O México tem um presidente, Vicente Fox de seu nome, conhecido por usar umas botas castiças de vaqueiro e por ter trabalhado para a Coca-Cola Company, o que deve fazer dele um paladino do liberalismo.

Pelo menos isso se deve julgar; foi um dos chefes de estado que, na recente cimeira de Viena, entre os líderes da União Europeia e da América Latina, mais se destacou nas censuras à Venezuela e à Bolívia, nomeadamente à decisão recente do presidente boliviano Morales de nacionalizar os seus recursos energéticos.

O que Fox se deve ter esquecido, provavelmente por distracção, é que Morales está a tomar uma atitude (criticável, segundo os seus comentários) idêntica à que o seu longínquo antecessor Lázaro Cárdenas tomou em 1938, quando nacionalizou os petróleos mexicanos às companhias estrangeiras e fundou a PEMEX (Petróleo Mexicanos), a actual monopolista mexicana do sector.

Pode ter sido a antiguidade do acontecimento (68 anos!), a responsável pelo lapso, mas é conveniente que o presidente mexicano recupere intelectualmente alguma agilidade, o que é, aliás, o apanágio de um dos seus compatriotas mais famosos: Speedy Gonzalez.

02 maio 2006

A VER SE O JOGO ANIMA…

Ao reler-me no poste sobre as nacionalizações da Bolívia, surpreendi-me pela faceta quase entusiasmada da minha descrição do gesto de Evo Morales. Mas a explicação é bem simples:

Imaginem que estavam a assistir a um jogo de futebol disputado entre Ultraliberais e Nacionalizadores, em que não têm nenhuma simpatia especial por nenhum dos lados. Os Ultraliberais estão a ganhar por 5 a 0. De repente Evo Morales, dos Nacionalizadores marca um golo. 5-1.

Você até bate palmas! É para ver se o jogo anima… Ainda para mais quando os Ultraliberais jogam em casa e têm a claque toda! Agora já andam a dizer que o golo foi irregular e que o preço do petróleo vai subir por causa de Morales… O que sendo residualmente verdadeiro, soa mesmo como um argumento faccioso de adepto de futebol…

NACIONALIZAÇÕES

Há muito tempo que o verbo nacionalizar, ou um dos seus derivados, não aparecia assim num cabeçalho de jornal. Já ninguém nacionaliza, a nacionalização tinha saído de moda, tudo o que é público destinava-se a vir a ser privatizado, porque os privados, e o Fernando Pinto da TAP, é que sabem como gerir mais eficientemente as empresas.

E o poder, contrariamente ao que se andava a dizer por aí, parecia estar na ponta do cifrão, que a das armas está entupida com todos os cravos que lá puseram. E, importantíssimo, tudo isto se está a passar em sintonia com as grandes correntes internacionais da globalização, a tal a que não nos podemos furtar.

Eis senão quando um senhor de aspecto índio e de nome Evo Morales, presidente da Bolívia (em cima na fotografia à esquerda de Hugo Chavez, presidente da Venezuela) deu em nacionalizar o sector da produção do petróleo e gás natural boliviano, acompanhando o gesto de uma ocupação das instalações por destacamentos das forças armadas bolivianas.

Não existissem arquivos e até pensaríamos estar a assistir a algo de radicalmente novo. Não é. Todos os grandes países produtores da OPEP negociaram no passado com as petrolíferas em posição de força e de coação (a expropriação), de forma a vergá-las negocialmente. O que parece ser precisamente o objectivo anunciado por Morales.

Estes novos eixos que se andam a formar pela América Latina (Cuba, Venezuela, Bolívia), que se reclamam da figura de Simon Bolívar mas onde Che Guevara seria um ícone mais apropriado, têm o cimento frágil da hostilidade comum aos Estados Unidos e ao seu comportamento histórico naquela região mas têm as suas potencialidades de manobras multiplicadas pela riqueza da alta do preço do petróleo de que a Venezuela é um grande produtor.

Só a auto-confiança venezuelana transposta para um apoio incondicional de Chavez a Morales pode explicar a ousadia de um pequeno país como a Bolívia romper um status quo de cerca de 25 anos e regressar, embora circunstancialmente, à trilha das boas e velhas nacionalizações. Sem golden shares ou outras legislações específicas e manhosas.