Álvaro Cunhal (1913-2005), o mais destacado dirigente comunista português do século XX, sempre se mostrou extremamente avesso a receber condecorações. Pelo menos em Portugal. Sempre que foi sondado com tal propósito, a sua resposta foi invariavelmente negativa. Tão conhecida se tornou essa sua aversão que, quando Cunhal faleceu em 2005, nem se equacionou sequer a hipótese de que o então presidente, Jorge Sampaio, o condecorasse a título póstumo, como muitas vezes acontece nestes casos. Este preâmbulo torna-se indispensável para que o leitor perceba melhor o anacronismo irónico em que consiste a notícia acima, publicada a 19 de Janeiro de 1984, em que o Diário de Lisboa dá notícia da alta condecoração que o líder cubano Fidel Castro impusera a Álvaro Cunhal que visitava Cuba. A Ordem «Playa Girón» é a mais elevada da hierarquia das ordens honoríficas cubanas, concedida apenas excepcionalmente. E é assim que se pode perceber como teria sido, provavelmente, um Álvaro Cunhal extremamente contrariado a participar naquela cerimónia, sem que o próprio tivesse para com Fidel a coragem que mostrava para com os seus compatriotas. Coisas do internacionalismo proletário... Aliás, mais de uma década antes, ainda antes do 25 de Abril e do retorno de Cunhal a Portugal, os soviéticos haviam-lhe pregado uma partida semelhante, concedendo-lhe a Ordem da Revolução de Outubro, que fora instituída em 1967 (abaixo, à direita). Ainda depois desta condecoração cubana, recebida com um imaginável sorriso amarelo, Álvaro Cunhal virá ainda a receber a ainda mais prestigiada Ordem de Lenine (abaixo, à esquerda) dos mesmos soviéticos, já em 1989. Conhecidas as diferenças ideológicas da época entre Cunhal e Gorbachev e também a aversão do primeiro por condecorações, o que se dizia em surdina é que aquela iniciativa de Gorbachev fora mesmo para chatear Cunhal de forma cortêz e diplomática... E, mais uma vez, Cunhal não teve a franqueza de dizer que não. Foi pena...
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19 janeiro 2024
29 abril 2023
UM CUBANO NA NEVE
29 de Abril de 1963. Assim como teria sido incomum ver um russo a trepar a um coqueiro, também a foto de um cubano a esquiar se destacará pelo seu carácter inusitado. Fidel Castro, o líder cubano, estava a realizar a primeira das suas prolongadas visitas à União Soviética - esta iria durar 40 dias! E começara pela cidade portuária árctica de Murmansk, aonde aterrara, vindo directamente de Havana, dois dias antes. Embora se estivesse já nos finais de Abril ainda havia suficiente neve por aquelas paragens setentrionais para que o dirigente cubano fosse fotografado aplicadamente aprendendo a esquiar.
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23 fevereiro 2023
A BASE NAVAL AMERICANA DA BAÍA DE GUANTANAMO
23 de Fevereiro de 1903. Entrada em vigor do Tratado que cede em regime de aluguer intemporal a área da baía de Guantanamo, situada no sul da ilha de Cuba (veja-se o mapa acima). Ocupando uma área de 177 km², o território foi concebido originalmente para se tornar uma base naval e um depósito de carvão da Marinha dos Estados Unidos, numa época em que o carvão era o combustível dos couraçados e a autonomia destes últimos era muito reduzida quando em comparação com os padrões modernos. Mesmo tendo perdido essa razão primordial para a sua existência a partir da substituição do carvão pelo petróleo, a base manteve-se. Mas a importância da base de Guantanamo só adquiriu relevância quando, a partir de 1959, e ao contrário do que acontecera até então, passou a existir em Cuba um regime hostil aos Estados Unidos. O governo cubano tentou por todos os meios que os Estados Unidos abandonassem a base, mas as sucessivas administrações americanas recusaram-se: ao contrário de outros acordos do género, este não contempla qualquer prazo de vigência e os inquilinos persistem em continuar. Já no século XXI, a base adquiriu uma notoriedade redobrada quando foi escolhida para local de uma prisão militar que, pela peculiaridade da sua localização (não é um território dos Estados Unidos), escapa aos direitos e garantias legalmente concedidos a qualquer preso nos Estados Unidos. Ao todo, terão estado ali detidos cerca de 780 prisioneiros provindos dos mais variados países do Mundo, mas com o traço comum de serem muçulmanos. Foi mais uma daquelas iniciativas que contribuiu para o nadir reputacional por que os Estados Unidos passaram no início deste século.
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29 dezembro 2022
COMO SE FAZ POR CONSERTAR (EM PARTE) O DESASTRE DA BAÍA DOS PORCOS, A INVASÃO FALHADA DE CUBA
29 de Dezembro de 1962. O presidente Kennedy e a esposa Jacqueline participam numa cerimónia de acolhimento aos cubanos que haviam participado na frustrada operação da Baía dos Porcos em Abril de 1961. Os 1.113 participantes que haviam sobrevivido ao cativeiro de 20 meses nas prisões cubanas tinham sido libertados muito recentemente contra doações substanciais (53 milhões de dólares) de alimentação e medicamentos a Cuba. A cerimónia teve lugar num estádio de Miami, que era a capital da comunidade exilada cubana. Numa cerimónia cuidadosamente encenada, em que o presidente não se queria envolver directamente, foi a sua esposa que proferiu um discurso num castelhano esforçado, mas estropiado:
«É uma honra para mim estar hoje entre um grupo dos homens mais valentes do mundo (aplausos) e de participar na alegria dos membros das suas famílias que por tanto tempo viveram esperançadas, rogaram e esperaram (mais aplausos). Sinto-me orgulhosa pelo meu filho tenha conhecido os seus oficiais (aplausos). Ele é demasiado novo para se dar conta do que aconteceu, mas terei ocasião a história da vossa valentia (aplausos). Espero e desejo que ele venha a ser um homem com, pelo menos, a metade da valentia que mostraram... (aplausos) ...que mostraram os membros da brigada 2506. Boa sorte. »
Era um discurso simpático de escutar, granjeava a Kennedy uma certa simpatia por interposta pessoa, mas não o comprometia pessoalmente no que fora um fiasco, para o qual, percebe-se hoje, fora praticamente empurrado pela CIA.
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22 outubro 2022
O DISCURSO DE JOHN F. KENNEDY SOBRE A CRISE DOS MÍSSEIS DE CUBA
22 de Outubro de 1962. Mais de uma semana depois da Crise dos Misseis de Cuba ter começado, o presidente John F. Kennedy informa os norte-americanos da situação. Fá-lo através de um discurso televisivo ao país, a partir das 07H00 da tarde daquela segunda feira. O discurso completo tem uma duração de 18 minutos e, na opinião de quem os costumava escrever (Ted Sorensen) terá sido, não o mais bem escrito, nem sequer o mais significativo, mas, do ponto de vista histórico, foi o mais importante dos discursos que John Kennedy terá proferido durante o seu mandato. Neste discurso, o presidente comunica aos seus compatriotas aquilo que se sabia até então sobre as intenções soviéticas em instalar mísseis em Cuba, assim como aquilo que ele decidira implementar para as contrariar, nomeadamente o bloqueio naval da ilha. Tratava-se de um enfrentamento directo entre Estados Unidos e União Soviética, de consequências imprevisíveis, senão mesmo uma possível guerra nuclear, e o panorama noticioso depois disso reflectia a gravidade da situação. A edição seguinte do Diário de Lisboa dedicava 4 das suas 20 páginas ao assunto, com o destaque que se pode apreciar abaixo. E mais uma vez, demonstrando como, em informação, os problemas não têm um valor absoluto, as notícias têm apenas um valor relativo, a guerra que, dois dias antes, acabara de eclodir entre a China e a Índia (por sinal, os dois maiores países do Mundo em população...), essa guerra não tem direito a uma linha sequer nesta edição abaixo do Diário de Lisboa.
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14 outubro 2022
O PRINCÍPIO DA CRISE DOS MÍSSEIS DE CUBA
14 de Outubro de 1962. Um avião espião U-2, pilotado pelo major Richard S. Heyser da USAF, fotografa os sítios em Cuba onde os soviéticos se preparavam para instalar mísseis MRBM SS-4 e IRBM SS-5 com capacidade para atingir o território dos Estados Unidos. A fotografia havia sido tomada a uma altitude de quase 22 quilómetros (!) (o dobro da altitude de um voo de um avião comercial), mas a fotografia continha os detalhes suficientes (acima) para que os analistas norte-americanos ajuizassem com alguma precisão quais eram as intenções soviéticas: a instalação de sites de lançamento de mísseis com capacidade de transportar ogivas nucleares e alcance suficiente para atingir os Estados Unidos. E queriam-no fazer subrepticiamente, para confrontar os Estados Unidos com o dispositivo instalado. É o início do que virá a ser a Crise dos Mísseis de Cuba, tópico que voltaremos a abordar nestas evocações e que costumava ser considerado o momento histórico em que mais próximo se teria estado de uma confrontação nuclear entre as duas super-potências. Esse momento-expoente do belicismo nuclear foi recentemente levado ainda mais além por Vladimir Putin e por outros responsáveis do Kremlin, que ultrapassaram em declarações tudo aquilo que os seus antecessores de há 50 anos se haviam permitido dizer. Mas, tirando talvez o presidente dos Estados Unidos, mais ninguém proeminente quis conferir seriedade às ameaças do presidente russo. É por estes casos que se percebe que, apesar de ter a fama, Joe Biden não tem o proveito de gerir a agenda mediática mundial. Em registo mais ligeiro e numa daquelas coincidências irónicas em que a história é fértil, o jornal britânico «Observer» desse mesmo dia 14, havia escolhido criticar os Estados Unidos pela sua obsessão no que respeita a Cuba.
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26 junho 2022
AS PROLONGADAS «TOURNÉES» DE UM FIDEL CASTRO TORNADO »SUPERSTAR» DO MARXISMO-LENINISMO
26 de Junho de 1972. Fidel Castro chegava a Moscovo, para uma visita oficial à União Soviética que se prolongaria por quinze dias, com um roteiro bastante alargado, abrangendo várias deslocações no vasto território soviético. Esta visita era, aliás, o término de um extenso périplo que tomaria a Fidel Castro um total de mais de dois meses a completar, e que o fizera visitar entretanto e sucessivamente: a Guiné Conakry e a Argélia, em África, e a Bulgária, a Polónia, a Roménia, a Hungria, a Alemanha Oriental e a Checoslováquia, na Europa. A coreografia (com muitos abraços mas dispensando os beijos entre homens da cultura eslava, já que Fidel não gostava de passar por maricón...), e como se pode comprovar pelas imagens abaixo, era sempre a mesma. Mas, para além do aspecto coreográfico, que a repetição que as imagens abaixo torna ridículo, a duração da viagem do líder revolucionário cubano comprovava dois aspectos políticos importantes: a) que o regime comunista cubano se consolidara e aguentava perfeitamente uma ausência tão prolongada do seu líder; b) e, precisamente por essa mesma ausência prolongada, sugeria que Fidel Castro não era pessoa com perfil ou preocupações para assumir o governo propriamente dito de Cuba.
Sofia, Bulgária, 12 de Maio
Budapeste, Hungria, 30 de Maio
Varsóvia, Polónia, 6 de Junho
Bucareste, Roménia, 9 de Junho
Berlim, Alemanha Oriental, 13 de Junho
Praga, Checoslováquia, 22 de Junho
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12 abril 2022
APRENDER A LER OS SUBENTENDIDOS DE UM JORNAL PORTUGUÊS DURANTE O PERÍODO DO ESTADO NOVO
12 de Abril de 1962. Em primeira página, o Diário de Lisboa anuncia a libertação próxima dos rebeldes cubanos que haviam estado envolvidos no desembarque da Baía dos Porcos em Abril do ano anterior. A habilidade de um leitor português de há sessenta anos era perceber que o destaque dado àquela notícia era uma alusão indirecta aos soldados portugueses que ainda estavam aprisionados na Índia, na sequência da invasão desta de Goa, Damão e Diu de Dezembro de 1961. Por sinal, sabe-se hoje que a notícia era falsa ou, pelo menos, muito prematura: os exilados cubados só irão ser libertados pelo governo de Fidel Castro em finais de Dezembro daquele ano. Mas, perguntar pelo andamento das negociações para a libertação dos prisioneiros portugueses na Índia era, como se imagina, um assunto tabu na imprensa portuguesa.
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17 abril 2021
O DESEMBARQUE NA BAÍA DOS PORCOS
17 de Abril de 1961. Um pequeno contingente de 1.500 soldados cubanos treinados pela CIA desembarca em Cuba com o intuito de derrubar o governo de Fidel Castro. As avaliações feitas posteriormente são unânimes em considerar que, considerados a escassez dos meios mobilizados pelos invasores para o desembarque, a operação teria sempre muito poucas hipóteses de vingar. A expectativa dos autores do projecto seria que o regime cubano entrasse em colapso ou, alternativamente, que o engajamento viesse a colocar a administração americana numa situação tão complicada, que forçasse a sua intervenção directa e aí a capacidade militar norte-americana seria decisiva. Mas nenhuma dos dois cenários aconteceu por razões que não virão ao caso desenvolver, e o episódio saldou-se por um fracasso total, que veio a reforçar interna e internacionalmente a posição do regime castrista. Nos dias que correm, não tem ninguém que o defenda, e parece que nem teve autores. Mas, tal é a unanimidade à volta da impossibilidade de sucesso deste projecto da CIA, que me apetece apreciá-lo invertendo a lógica que, certo dia, o marechal Joffre estabeleceu a respeito da Batalha do Marne. Ele, que dela saíra como o general vencedor, comentava-a depois numa ironia ácida: «Eu não sei quem venceu a Batalha do Marne. Agora, se tivesse sido uma derrota, aí sei quem a teria perdido.» Aqui, no caso da Baía dos Porcos, tal é a unanimidade, o determinismo e a assertividade em criticar os planos de invasão, que nem imagino o que se poderia dizer se, por acaso, o desfecho tivesse sido outro... É que, historicamente, há que reconhecer que já houve regimes que colapsaram perante ameaças muito inferiores.
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22 março 2021
O QUE FAZER COM UM OFICIAL CUBANO CAPTURADO EM COMBATE NA GUINÉ?
22 de Março de 1971. Pedro Rodriguez Peralta era um oficial cubano que fora capturado em Novembro de 1969 numa operação na Guiné. Tornara-se um activo de propaganda do regime português e um embaraço para o regime cubano. Estranhamente, considerada a natureza totalitária mas antagónica dos dois regimes, até havia relações diplomáticas entre Lisboa e Havana, mas o lado português nunca fez tenção de "esticar a corda" a pretexto desta descarada interferência "internacionalista" dos cubanos em assuntos que Lisboa considerava exclusivamente seus. A pessoa do capitão Peralta, que fora capturada seriamente ferido e que fora depois disso tratado e recuperado, representaria, depois de esgotada a sua utilidade propagandística, um fardo. Que fazer com ele? Fora acusado na Guiné da «prática de de crimes contra a segurança do Estado». Mas esse género de acusações, típicas de todos os "subversivos", deveria cair sob a alçada da investigação da PIDE e do julgamento de um Tribunal Criminal. Fora nesse sentido que se pronunciara o Tribunal Militar de Lisboa, que se julgara incompetente para o julgar, já que o réu era militar, mas militar cubano. Agora o processo do capitão Peralta andava de Herodes para Pilatos, um jogo onde se percebiam dois silêncios ribombantes: o do poder político português, que, por detrás das cortinas, não dava directivas ao poder judicial quanto ao que fazer, e o poder em Cuba, que nada fazia para proteger o seu cidadão que fora capturado em circunstâncias manhosas, mas em que cumpria ordens do seu governo. Pedro Peralta só veio a ser libertado em Setembro de 1974, por ocasião do acordo de troca de prisioneiros entre o governo português e o da nova Guiné-Bissau independente. Só a partir daí é que o governo cubano passou a andar com o antigo prisioneiro ao colo, para se redimir dos cinco anos em que fingira que não o conhecia de lado algum.
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19 fevereiro 2021
A LUTA DELES ERA UMA «LUTA» MUITO «PALAVROSA»... MAS NÃO PROPRIAMENTE DO POVO
19 de Fevereiro de 1981. A Editorial Avante promovia a apresentação do livro acima de Fidel Castro. O apresentador era Mário Castrim. Um evento para verdadeiros trabalhadores intelectuais engajados. O livro - provavelmente uma compilação de discursos do ditador cubano - devia ser tão chato, mas tão chato, que agora nem há quem se atreva a pô-lo à venda no OLX. O slogan da fauna típica destes momentos era «os amanhãs que cantam...» mas neste caso, ao fim da tarde, o linguajar do clã, um livro que se compra mas que não se iria abrir sequer, seriam mais «os amanhãs que cochilam e bocejam»...
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09 janeiro 2021
O QUARTETO DE CORDAS
Durante os tempos da rivalidade Ocidente-Leste, havia uma piada recorrente, mordaz, que se contava quanto da repetição de episódios como o que é acima narrado no jornal: «o que é um quarteto de cordas russo? É que resta de uma orquestra sinfónica soviética quando regressa ao seu país, depois de uma digressão por países ocidentais...» Neste caso, que é noticiado a 9 de Janeiro de 1981 e verificado no aeroporto de Lisboa quando de uma escala de um avião da Aeroflot, não se tratava nem de músicos nem de russos, mas de cubanos. Porém, a sangria contínua de quadros que fugiam dos países comunistas era mais do que um motivo de anedota política, era um custo financeiro e moral para os países que os viam fugir e a derrota assumida na guerra de propaganda ideológica da Guerra Fria. Por causa disso, teve que se construir um muro na Alemanha e uma cortina de ferro a dividir a Europa. Mas descobriam-se sempre novas maneiras de fugir ao socialismo avançado. Esta que é acima descrita fora descoberta há pouco tempo (Outubro), e ainda estaria operacional - os quatro cubanos que haviam fugido desta vez iam juntar-se «a outros oito que já se encontravam desde há tempos na capital portuguesa e que também pediram asilo político».
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26 setembro 2020
UM DITADOR CUBANO EM NOVA IORQUE
26 de Setembro de 1960. Fidel Castro discursa na assembleia geral da ONU acompanhado de uma cobertura jornalística completamente distorcida. A História é implacável nos seus julgamentos: um ditador é um ditador, por muito que a propaganda e uma certa pretensiosidade intelectual pretenda que o não é.
11 setembro 2020
... UMA «DEMOCRATIZAÇÃO» TÃO «PROGRESSIVA» QUE A REVOLUÇÃO CUBANA AINDA AGORA NÃO É DEMOCRÁTICA!
11 de Setembro de 1970. Cinquenta anos transcorridos e Fidel Castro assinala-se para a História por ser o revolucionário latino americano que mais bocas e aldrabices terá pronunciado ao longo dos 47 anos de poder de que dispôs em Cuba.
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27 julho 2020
A MORTE DE UM DITADOR E A PERPETUAÇÃO NO PODER DE OUTRO
Ainda 27 de Julho de 1970. Precisamente no mesmo dia em que morria Salazar, era notícia um outro ditador de longa duração: Fidel Castro. Na altura ainda o não era, mas viria a ser. Num daqueles comemorações/comícios em que a população cubana era convidada a comparecer em grande número - na notícia da France Press pode ler-se 200.000 pessoas - o ditador cubano pronuncia um dos seus característicos discursos intermináveis em que parece apresentar um acto de contrição sobre os objectivos económicos (não) alcançados por Cuba, depois de 11 anos a ocuparem o poder (1959-1970): «A nossa aprendizagem, de nós os chefes da revolução custou excessivamente caro. Pagamos agora as consequências da nossa ignorância. Valeria mais dizer ao povo que escolhesse um outro chefe ou, o que seria preferível, outros chefes.» Mas Fidel não estava a falar a sério... como se percebia pela continuação: adoptar uma tal atitude «seria hipócrita» porque substituí-lo e aos seus colaboradores mais próximos não solucionaria os problemas actuais do povo cubano. Ou seja, se, por um lado, assumia haver fracassado rotundamente, continuava por outro a considerar ser ele e apenas ele o único cubano com capacidade de saber como se solucionavam os problemas do povo cubano. Claro que Fidel não era hipócrita e se sacrificou para continuar as suas diligências para solucionar os problemas passados e vindouros do povo cubano. À época, não se sabia por quanto tempo mais, mas hoje sabe-se: foram mais 36 anos, até que em Julho de 2006 Fidel transferiu os seus poderes para o seu irmão Raul. É apenas uma coincidência curiosa lembrar a propósito, que também Salazar ocupara o poder por 36 anos (1932-1968). O que não seria curiosa coincidência seria imaginar Salazar a transferir o poder para um seu - hipotético - irmão... Sempre houve nepotismo no fascismo, mas nunca foi tão descarado como no comunismo.
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27 janeiro 2019
DUAS NOTÍCIAS DIALÉCTICAS DE HÁ SESSENTA ANOS
27 de Janeiro de 1959. Emparelhadas na última página do jornal, duas notícias importantes para os comunistas de todo o mundo, unidos:
a) Ocorrera a inauguração, em Moscovo, do 21º Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Expressamente ao contrário do que acontecera durante o congresso precedente, ainda hoje reputado pelo secretismo do discurso de Khrushchev onde fizera a denúncia dos excessos do estalinismo. Este congresso, que consagrava a consolidação no poder do secretário-geral, era uma exuberância de cobertura noticiosa quando em comparação (abaixo). Mais, quando se percebia que desta vez o discurso de abertura do mesmo Khrushchev durara sete(!) horas, assaltar-nos-ia a dúvida se não seria merecido conservar todos os discursos dele em segredo...
b) Ficava-se a saber que, em Cuba, Fidel Castro estabelecera uma ordem de sucessão revolucionária e que designara o seu irmão Raúl para lhe suceder no caso de lhe acontecer um «acidente». Apesar do dramatismo da decisão, e de hoje se saber que algumas ameaças eram sérias num país onde o preço das vidas era muito barato (vejam-se as notícias dos fuzilamentos), o «acidente» só viria a ocorrer 45 anos depois e quis a ironia da história que não passasse de um trôpego tropeço no degrau de um palco (que fracturou o joelho do velho revolucionário), ocorrido diante das câmaras de televisão. Raúl Castro só veio a tornar-se presidente de Cuba, sucedendo ao irmão, de 2008 a 2018.
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10 janeiro 2019
A RETIRADA CUBANA DE ANGOLA
10 de Janeiro de 1989. Os soldados cubanos começavam a abandonar finalmente Angola: há treze anos que eles lá estavam (logo depois, e muito provavelmente até mesmo antes, da independência concedida pelos portugueses em Novembro de 1975) e há treze anos que andavam a prometer que de lá saíam (veja-se esta notícia de Maio de 1976!). Em comparação, outros treze anos de guerra (1961-1974) haviam esgotado a força anímica dos portugueses em quererem defender Angola como sua. Mas estes treze anos de guerra (1975-1989) pareciam não ter beliscado a determinação dos cubanos em defender um país irmão na ideologia situado a 11.000 km de distância! Ou é a constatação da superioridade moral do marxismo-leninismo, ou é a constatação de que a ditadura cubana era particularmente mais eficaz do que a portuguesa quanto à supressão das manifestações sociais de revolta a respeito do engajamento numa guerra distante. Os últimos soldados cubanos só abandonarão Angola em 1991 e durante esses quinze anos terão sido cerca de 310.000 os cubanos mobilizados para lá combater, deixando um saldo oficial de 2.016 mortos.
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31 dezembro 2018
A QUEDA DE UMA DITADURA E A EMERGÊNCIA DE OUTRA
31 de Dezembro de 1958. O presidente (e ditador) cubano Fulgêncio Batista (1901-1973) anuncia a sua renúncia ao cargo durante a festa do réveillon. A cena foi recriada em 1974 no filme O Padrinho II (acima), onde se enfatizam as celebrações populares e onde, pela capacidade de antecipar os acontecimentos, se deixa a insinuação que aquela revolução que iria colocar de seguida Fidel Castro no poder, fora acompanhada de perto, senão mesmo financiada, pelo próprio Padrinho, Michael Corleone. Um Fidel Castro (1926-2016) que - nunca é demais recordar! - irá estabelecer uma outra ditadura e permanecer pessoalmente no poder em Cuba pelos próximos cinquenta anos.
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20 setembro 2018
VOO 950 PARA HAVANA
20 de Setembro de 1968. Um Boeing 720 da Eastern Airlines (como o da fotografia acima), que fazia a ligação entre San Juan de Porto Rico e Miami nos Estados Unidos, levando 53 pessoas a bordo, é desviado por um dos passageiros para Havana em Cuba. Se observarmos o mapa das Caraíbas e o trajecto do voo (a azul) constatar-se-á como o pirata do ar foi consciencioso, escolhendo uma ligação cujo desvio (a vermelho) provocasse o menor incómodo aos seus companheiros de viagem. A prática de desviar um avião para ir para Cuba parecia estar a banalizar-se. Depois de apenas três episódios em 1967, o desvio do voo 950 da Eastern Airlines já era o 13º desvio do género que ocorria em 1968, contando apenas aqueles em que o destino escolhido pelos sequestradores fora a capital cubana. Se já se percebera qual era a tendência da moda para a temporada daquele Outono/Inverno, ainda não se sabia que, até ao final daquele ano de 1968, registar-se-á um total de 24 desvios para Cuba, a uma média de dois por mês, e que, no ano seguinte (1969), essa média mensal subirá ainda para os três desvios (34 no total). Se as jovens gerações posteriores passaram a sublimar a sua busca pelo prazer da adrenalina em práticas como a do «bungee jumping», a geração jovem de há cinquenta anos misturava a coisa com uma capa diáfana de militância política. Não era difícil viajar para Cuba mas desviar um avião comercial para o fazer era toda uma outra emoção, uma afirmação política para uma audiência de milhões. Numa época em que também se tornara moda inventar slogans turísticos irónicos - Visite a União Soviética antes que a União Soviética o venha visitar a si!, em homenagem à invasão da Checoslováquia que acabara de ter lugar - esta outra prática de sequestrar aviões para chegar a um destino que era perfeitamente acessível também era passível do seu slogan irónico: «Conheça Cuba de uma forma radical: desvie o seu avião para lá chegar!»
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03 janeiro 2018
CRISES INTERNACIONAIS: COMO SE NOTICIAVAM E COMO SE NOTICIAM
Há 57 anos, durante a primeira semana de Janeiro de 1961, assistiu-se a uma crise internacional entre os Estados Unidos e Cuba depois de esta nação ter procedido à nacionalização de muitas propriedades que eram pertença de norte-americanos. Os Estados Unidos romperam as suas relações diplomáticas com Cuba e Cuba apresentou uma queixa ao conselho de segurança das Nações Unidas, acusando o vizinho da intenção de invadir o país. Durante esse período os jornais portugueses deram a cobertura ao assunto que acima se pode apreciar pelos títulos do Diário de Lisboa. Servem aqueles para estabelecer um contraste com as crises internacionais da actualidade (abaixo, os Estados Unidos novamente, mas agora com a Coreia do Norte), como estas são menos noticiadas (muito menos texto), como são mais ilustradas (indispensável a fotografia), e como, quanto ao desempenho dos protagonistas, se caiu no grau mais confrangedor da infantilidade irresponsável. Era com comportamentos parecidos com estes que se costumava descrever o reinado de Nero, o imperador romano (54 - 68 d.C.), para demonstrar a quanto chegara a degenerescência de Roma!
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