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Wednesday, June 24, 2026

errâncias

«-- As tempestades tornaram, nos últimos dias, o caminho intransitável. Ainda na semana passada ficaram lá enterrados dois automóveis. Não encontra, certamente, em Ax, um único motorista que queira lá ir. / Calo-me a observar a saraivada que lá fora cai.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra»

«O carro sobe a ligeira encosta. Dentro dele, alheios a nós próprios, vamos povoando com homens pretéritos a terra que vemos, homens rudes, meio nus, os braços e as pernas saindo duma pele que lhes tapa somente o tronco. Mas é inútil. A natureza, toda remoçada, toda verde e esquecida do passado, recusa esses habitantes que a nossa evocação lhe oferece.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Thursday, May 14, 2026

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«Mais ainda do que os Dardanelos, ele separa duas civilizações completamente diferentes. Duma das suas ribas -- e ambas se vêem a olho limpo de auxílio -- os europeus espreitam os árabes da África e, da outra, os árabes espreitam os europeus. Esta vizinhança está, porém, cheia de lonjura; tão perto geograficamente, eles encontram-se mui distantes uns dos outros, por mentalidade, costumes e religiões.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«Em frente, abre-se grande vale, todo verdejante após as chuvas dos últimos dias; um ramal de estrada nova, que se vê ao longe, como esses que se dirigem para os santuários das montanhas, vai-o ladeando e subindo; e na placa da confluência, que reproduz um bisão conhecido no Mundo inteiro, fêmea de grande úbere, deitada e dobrada sobre si mesma, como se padecesse de fortes dores, lemos com emoção -- "Altamira -- 2 quilómetros".» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«O Sr. Not, tão pobre de gestos e expressões como de letras é o seu nome, aponta, na soleira da porta, um cão ladrando furiosamente para o céu, onde os relâmpagos traçam curvas alucinantes e os trovões fazem ouvir a sua voz pavorosa.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra» [1929]

Friday, February 20, 2026

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«O estreito famoso não conta mais de doze quilómetros de largura. Quem vê, desprevenido, o curto passo de água, apenas com dois veleiros na soledade matinal, tarda a admitir a sua magna importância. E, todavia, é bem certo que deste pequeno e líquido traço de união depende a riqueza ou a miséria, a vitória ou a derrota, de muitos povos, de centenas de milhões de vidas.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«O proprietário do hotel olha-me de alto a baixo, como a considerar a minha resistência física. Avalia também o peso da bagagem. Em seguida, diz pausadamente: / -- Não lhe é muito fácil chegar a Andorra, não... Tem de ir a cavalo até Soldeu, que é a primeira povoação andorrana, a 25 quilómetros daqui. E lá, quem sabe! Só de Encamp em diante é que a estrada estará boa. Ele há um caminho para Soldeu, isso há; mas os automóveis não podem, agora, romper... / -- Porquê? -- interrogo, inquieto.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) 

«Santilhana do mar termina na estrada de Santander a Comilhas e vemos de novo árvores, camionetas que passam, ciclistas que se esforçam sobre a suas máquinas, um cão a coçar-se na valeta, uma rapariga sentada a vender fruta; quase sem transição, a vida reintegrou-se na nossa época.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Thursday, January 08, 2026

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«A estação do caminho-de-ferro e umas minas próximas sugerem, com as suas torres metálicas, os seus fios, as suas placas, a terra mexicana de onde se extrai o petróleo. / Informo-me sobre o caminho para Andorra. Vou, enfim, saber como posso atingir o original país, que novo paraíso deve ser pela dificuldade em o encontrar.»  Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra» [1929]

«Duas centenas de metros e o presente faz uma aparição fugidia, um corte brusco no cenário, assim como se dividíssemos, de repente, o corpo vivo duma mulher correndo entre velhas estátuas, numa galeria que tivesse por fundo a luz e o colorido dum parque.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Com a manhã nascida, extintas, ao longe, as lumieiras de Cádis e dobrada a porta de Trafalgar, metemos ao canal que separa a Europa da África. Dum lado e outro, na terra alta, cortada quase a prumo, canhões espanhóis, de longo alcance, espreitam, de suas luras, quem entra e quem sai. É a entrada do Mediterrâneo que eles visam e o penhasco de Gibraltar, agora ao alcance destas bocarras de fogo.» A Volta ao Mundo (1940-44)

Friday, November 14, 2025

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«Afinal demorou pouco. Mal esvaziamos a chávena fumegante, voltamos ao carro e mandamo-lo, enfim, correr para as grandes noites da espécie humana, que os homens contemporâneos não conseguiram ainda iluminar de todo.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Nós vamos erguer, pela segunda vez, a nossa tenda na Grécia, que da primeira não quisemos escrever e ajuizar sobre tão multiforme terra, com tantas galas vestida, sem a termos observado novamente. De caminho, porém, deter-nos-emos em Gibraltar, Argel e Palermo, ligeiros ante-rostos do Mundo que vamos trilhar.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«Arribo a Hospitalet uma hora depois. Lugarejo cor de lebre, com um pequeno hotel que desempenha ali, entre as patas das serranias, o papel das antigas mala-postas, tem um ambiente de Far-West, cenário de filme de aventuras americano.» (1929) Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

Tuesday, September 23, 2025

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«E, contudo, estende-se, lá fora, um luar sortílego e um mar calmo, numa noite de maravilha propícia a fazer-nos sonhar com as mais belas coisas da vida. Mas o navio está cheio dessa inquietação que, hoje, tortura os homens, no planeta inteiro.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«O carro desliza numa estrada branca, que ladeia, de quando em quando, o Ariège murmurante. A paisagem torna-se adusta. Começa a severidade das montanhas e os píncaros cobrem-se com grandes chapéus de bruma.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

«Não lhe dizemos que a pressa nos percorre as veias e nos queima como o fogo dentro do rastilho, mas a nossa expressão deve trair-nos, porque ela logo nos adverte: / --É preciso fazê-lo. Demora alguns minutos. / Resignamo-nos, que remédio! Como podemos dar, com plena satisfação, o novo passo sobre o tempo, se nos acompanhar, seco e impertinente, o vício insatisfeito?» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63) 

Friday, August 22, 2025

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«Ao ver impresso, aqui e ali, o nome do pequeno país, sinto-me puerilmente comovido, como se fosse encontrar, após longas pesquisas, um ser amado, até esse momento perdido no Mundo... O dia mostra-se esplendente quando deixo as termas, com as suas ruas mui limpas e claras, suas árvores penteadas, todo esse ambiente garrido, luminoso, aguarelado, das vilas de águas francesas, que dir-se-ão passadas a ferro para seduzir os hóspedes.» «Andorra» [1929], Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

«Entramos, pois, no "Parador Gil Blas", que celebra o herói do famoso romance de Lesage. É, também, um velho palácio que o turismo adaptou a hotel. Do fundo da sala, envidraçada e com o seu todo de jardim-de-inverno, a governanta vem ao nosso encontro, alta, distinta e de olhos negros, sonhadores, como requer um albergue de bom nome literário.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Já no Atlântico, contornando a costa portuguesa e, depois, a espanhola, os passageiros que vêm de Nova Iorque entregam-se aos jornais ingleses, recém-comprados em Lisboa, reunindo-se, à noite, não em frente da orquestra, que toca, solitária, no grande salão, mas juntos dos aparelhos que espalham notícias do Mundo convulso.» A Volta ao Mundo (1940-44) 

Tuesday, August 12, 2025

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«Santilhana do Mar não tem Cafés. Na Idade Média, a Europa desconhecia a bebida negra e estimulante, boa companheira, inimiga dos nervos frouxos e das noites de chumbo; e, mesmo que a conhecesse, nunca os aristocratas de Santilhana sairiam dos seus palácios, tão adornados de panóplias como de preconceitos de castas, para irem amesendar-se na sala democrática dum Café, onde se compra a igualdade humana por alguns níqueis apenas.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Inúmeras ameaças transitam no ambiente que respiramos, no que se ouve e se lê, nas paixões e nas cobiças que emprestam ao nosso tempo uma angústia mais densa do que a de velhas eras. / O "Saturnia" desce, lentamente, o Tejo e, à direita, entre as velas do rio, fulge a Torre de Belém, símbolo do país das grandes viagens. Mais abaixo, a luz vespertina enche de colorido as vivendas do Estoril, enquanto lá ao fundo, na serra de Sintra, irisada bruma dá ao castelo um aspecto fantástico.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«No dia seguinte, larguei de Toulouse em direcção a Ax-les-Thermes. O castelo de Foix, projectando a sua sombra sobre o Ariège, serve de guarda avançada, de vetusto guardião a uma paisagem deslumbrante. O comboio eléctrico passa por Hospitalet e vai até Puigcerdá, já em Espanha. Mas eu desço em Ax-les-Thermes, onde se começa a fazer, timidamente embora, propaganda turística da Andorra misteriosa.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) -- «Andorra» [1929]

Tuesday, July 22, 2025

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«Nós vamos ver, agora, o planeta que eles devassaram em todas as direcções há quase cinco séculos, e, para se iniciar a volta ao Mundo, bom é o porto de onde largaram aqueles que o Mundo andaram a descobrir. Como nessa época já remota, os mesmos mares então prenhes de mistério, estão hoje povoados de monstros e estes verdadeiros; monstros de ferro e aço, aos quais uma palavra bastará para exercerem a sua acção de morte.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«O encanto desta viagem à aventura, das poucas, senão a única, que a indústria do turismo ainda não destruiu na Europa, rompeu-se, uma noite, na redacção de La Dépêche, em Toulouse. Um dos redactores, que já tinha peregrinado pelos confins do Ariège, disse-me que, como eu supunha, Hospitalet, aldeiazita francesa sepultada nos Pirenéus orientais, dava acesso a Andorra. Não havia, porém, estradas... E, quanto a passaporte, nenhum visto se exigia...» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) «Andorra» [1929]

«"Voltaremos mais tarde, com calma" -- garantimos a nós próprios, para nos redimir das ásperas censuras que nos fazemos. E saímos a passos largos, ansiosos de matar a curiosidade maior, enquanto à porta do claustro, o padre-guia da colegiata, de dedo estendido e olhos móveis, conta e reconta os novos visitantes, não vá algum estar ali sem haver pago a entrada.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63) 

Monday, June 09, 2025

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«Havia de entrar, sucedesse o que sucedesse! Como contrabandista, como refugiado político, de dia ou de noite, a pé ou de avião -- de qualquer maneira!» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

«Há muito tempo que temos pressa. E, agora que estamos perto, a dois ou três quilómetros apenas do íman, não nos podemos dominar. / Vemos os antigos bastiões, a colegiata magnífica, cheia de preciosidades acumuladas desde o século V, e o nosso açodamento, numa imperdoável deslealdade com as riquezas que nos cercam, aumenta sempre.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«O navio, o primeiro das duas dezenas que devíamos utilizar, larga às três da tarde. No cais, os nossos amigos acenam-nos os últimos adeuses. E, por detrás, nas suas sete colinas, espairece ao sol a velha cidade de Lisboa. / Outrora, estes outeiros, vestidos de polícromo casaredo, viam partir os homens em frágeis caravelas, rumo ao desconhecido, que os oceanos eram, para eles, tão fabulosos como o foram, um dia, para os nossos olhos de menino.» A Volta ao Mundo (1940-44)

Thursday, April 24, 2025

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«Vamos olhando as maravilhosas "rejas" de ferro forjado, os portões solenes, as soberbas realizações arquitectónicas, todo este conjunto sóbrio e belo; e sentimos, ao mesmo tempo, que atraiçoamos Santillana, que menosprezamos o seu grande interesse artístico, atraídos e apressados por outra fascinação.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Poderemos ver e estudar, durante quanto tempo quisermos, os seres e as coisas do Globo, sem ouvirmos o silvo do paquete em que os outros são forçados a partir. Traçamos, é certo, o mais incómodo e longo itinerário que se pode fazer, mas, também, o mais fascinante e fecundo, pelos povos que nos permitirá observar, alternando os centros urbanos, onde rutila a civilização, com os fundões da terra, onde a vida do Homem se encontra ainda selvagem, como se acabasse de surgir, de olhos e alma ofuscados, perante o Sol que a todos alumia.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«O sub-prefeito chegou a mandar buscar o Larousse, só não o consultando porque eu lhe afirmei já saber de cor as palavras do nobre dicionário... / Na tarde desse dia resolvi continuar a ascensão dos Pirenéus. Impossível me parecia que, na última povoação indicada no mapa como vizinha de Andorra, ninguém me soubesse dizer a rota a seguir. E atrás não voltaria!» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra» [1929]

Wednesday, February 19, 2025

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«Depois de exame feito a todos os programas que outros teceram, a todos eles renunciamos e estabelecemos programa próprio, sem compromisso algum com armadores, livres, completamente livres. Visitaremos, assim, os países que ilustram as viagens em redor do Orbe, organizadas por companhias de navegação, e também aqueles, de denso valor humano,, artístico e histórico, que nessas viagens nunca figuram.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«Havia lido, não sei em que absurda gazeta, ser o bispo desta cidade quem dava o santo e a senha para se entrar na república patriarcal. Sondada, porém, aquela dignidade eclesiástica por Monsenhor Costa, velho emigrado português e director de uma das piscinas de Lourdes, a resposta foi negativa. Dirigimo-nos, então, à Compagnie du Midi e. finalmente, à Prefeitura. Nada! Para eles como para mim, Andorra só existia no mapa!» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

«-- É a marquesa X, surda e louca -- dizem-nos e nós temos dificuldade em vencer a súbita ideia de que se trata duma ressuscitada que está ali apenas para completar o ambiente  e que o seu vaivém soturno é uma forma de impaciência, enquanto ela espera que se reabra o túmulo.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63) 

Thursday, February 06, 2025

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«Em Bayonne, deixei de estranhar a ignorância encontrada em Lisboa e no Bureau National du Tourisme, em Paris; ali, primeira grande porta dos Pirenéus, nada se sabia também sobre os caminhos que conduzem a Andorra... E em Lourdes, a mesma incerteza. Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

«Sujeito está a quedar-se apenas dois dias onde desejaria demorar-se duas semanas e duas semanas onde onde lhe bastaria ficar dois dias apenas. E a menos que possa seu tempo perder, este viajante solitário verá, enervado, partir o navio único de sua conveniência, que não é, geralmente, o navio que ele tem direito a tomar.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«Numa janela alta, vemos um rosto colado ao vidro. Num pátio, um vulto negro que se esgueira. Mais adiante, em sala de rés-do-chão, a figura escura e desgrenhada de mulher que se passeia incessantemente dum lado a outro, com as pupilas sempre fixas na parede para onde avança e de todo alheia a quem a segue cá de fora.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-1963) 

Wednesday, January 08, 2025

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«Interessado pela psicologia de todos os povos minúsculos, eu queria conhecer a vida e os costumes desse povo que quase ninguém conhecia -- nem mesmo aqueles que se vangloriavam de ter debruçado a sua curiosidade por todas as varandas do Mundo.» «Andorra», Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) 

«Toda a velha Espanha, pesada de orgulho, carregada de religião, de força e de prejuízos, nos legou aqui a síntese desse tempo. / A cidade é ainda habitada, mas não o parece. Raramente se vislumbra alguém nas ruas e aqueles que vivem nos seus remotos palácios dir-se-ão membros duma população de espectros.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63) 

«Há, também, "A volta individual ao Mundo". Companhias de navegação, para o efeito ajustadas, acordaram vender trânsito marítimo, com diminuídos preços, aos que pretendem rodear a esfera terrestre e voltar ao ponto de partida. Viagem menos cómoda do que a outra, quem a realiza torna-se servo não do muito ou pouco interesse do sítio visitado, mas da entrada e saída dos navios em que o seu bilhete lhe permite embarcar.» A Volta ao Mundo (1940-44)

Wednesday, December 04, 2024

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«Tudo se apresenta moreno ou ocre. É uma cidade heráldica, palácio a seguir a palácio, brasões em todas as fachadas, residências dos grandes senhores que se afastaram do povo, criando um mundo só para eles, um mundo altivo, onde em concorrência de vaidade e de poderio, cada qual procurou construir melhor e mais ostensivamente.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«De Hong-Kong, o navio, que, até ali, só fundeou nas extremidades dos continentes, despede, a toda a brida, para algumas ilhas do pacífico, ansioso de transpor o Panamá e em Nova Iorque lançar âncora, férreo ponto final em superficial capítulo. Assim é "A Volta ao Mundo colectiva", cruzeiro de luxo por mares distantes.» A Volta ao Mundo (1940-44) 

«Havia um recurso: ir lá. mas ir como? Os mapas afirmavam a existência do povo remoto; os guias dos caminhos-de-ferro negavam-na terminantemente. Nas agências de viagens, os funcionários, interrogados, olhavam-nos com reservas, não fosse estarmos a caçoar com eles... / Um dia, porém, resolvi abalar de Paris, convencido de que havia de chegar a Andorra.» «Andorra», Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

Thursday, November 14, 2024

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«Não se cura de revelar o Mundo aos passageiros e sim de lhes permitir dizer aos amigos que eles deram a volta ao Mundo. Viagem de bom conforto, nas cidades visitadas esperam guias e automóveis, que levam os curiosos aos monumentos principais e, depois, os reconduzem a bordo, para que se lavem da poeira do Oriente, jantem bem e bailem até de madrugada, enquanto o talha-mar vai singrando em direitura a outro porto.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«Não. Ia-se muito longe, devassavam-se os mais distantes recantos do planeta, mas a Andorra, que estava perto, manando, possivelmente, inéditas emoções, ninguém ia, ninguém pensava ir. Nasceu, assim, a minha curiosidade, que, a princípio, tentei saciar com papel impresso. Foi desejo quase inútil, pois da bibliografia andorrana, pequena como o país, dificilmente se encontrava em Portugal obra de jeito.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

«Lembra, por este mérito, o bairro dos cruzados em Rodes e Fatehpur Sikri, que foi capital da Índia e também permanece intacta, rutilando, escarlate e fantástica, sobre o topo duma colina. / Logo que entramos em Santilhana a nossa época desaparece. Os séculos medievos -- o XI, o XII, o XIII, o XIV -- abrem-nos as suas grossas portas, nas ruas em declive, e, então, a própria cor do nosso tempo se modifica.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-1963)



Capa do n.º espécime (1959)
Jan van Eyck, O Homem do Turbante Vermelho


Thursday, October 24, 2024

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«Ao longo da vida temos topado muitos homens que fumaram ópio na China, tomaram vodka na Rússia, miraram o Vale dos Reis e subiram aos Andes; nenhum, impenitente vagamundo fosse ele, que nos baforasse a frase célebre: "Corri Seca e Meca e os Vales de Andorra". Nenhum que houvesse desejado ver como aquilo era e por que vivia quase independente, há tantos séculos já, um país tão minúsculo, quando outros maiores têm sido anexados.» «Andorra», Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

«Chega-se aqui e fica-se surpreendido, já que Santilhana, ao contrário da regra, ultrapassa tudo quanto sobre ela se leu ou se ouviu. Tem-se uma profunda sensação de descoberta. / Cidade medieval, esquecida do tempo, sem graves mutilações, sem pedras injuriadas, dir-se-á recém-saída de colossal redoma, que lhe conservou todo o seu carácter antigo.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-1963) 

«Mas da grande Índia mostra apenas Bombaím e Ceilão; da longa península de Malaca não se verá mais do que Singapura e da China imensa apenas a minúscula ilha de Hong-Kong. Outrora, ainda ele se aventurava a outras plagas. De ano para ano foi minguando, porém, as milhas da sua rota, que assim, passagens mais baratas, ajuntaria maior número de clientes.» A Volta ao Mundo (1940-1944)



Capa do n.º espécime, por Roberto Nobre (1940)


Wednesday, October 09, 2024

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«AS MARAVILHAS QUE O SOL NÃO VÊ. I RESSURREIÇÃO E GLÓRIA DE ALTAMIRA Erguida ao centro de verdes relvas, numa encosta suave, onde pastam vacas indolentes e voam corvos e pegas, Santilhana do Mar, a trinta quilómetros de Santander, é dos mais impressionantes burgos de toda a terra hispânica. Vendo-a, mal se compreende o seu débil renome e a pouca atenção que lhe prestam os arautos do turismo.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«INÍCIO Concertaram-se, na nossa época, várias formas para se dar a volta ao Mundo. Em anos de remansosa paz, um navio americano abala de Nova Iorque e, de casco branco, mastros festonados de gaivotas, ladeia Américas e Áfricas, detém-se, aqui, ali, em três ou quatro cidades, e corta, depois, o Índico.» A Volta ao Mundo (1940-44)


«ANDORRA Andorra foi sempre, na terra portuguesa e na Europa inteira, um tear de sorrisos. Por ser pequena? Por se ter conservado, através dos séculos, extática, enlevada, adormecida no seu berço de montanhas? Por ser ignorada, adormecida no seu berço de montanhas? Nem sempre o que é grande é o mais belo; e a maior fascinação reside sempre no desconhecido.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)


Capa do n.º espécime, por Roberto Nobre (1937)