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9.7.24

CAROLINA

 Reedição



A mulher que sentada na beira da cama se  entregava à tarefa de entrançar a sua farta e negra cabeleira, não teria mais de trinta  anos, embora pequenas rugas, a fizessem parecer mais velha.
Era muito bonita, talvez um pouco alta demais para o comum das mulheres portuguesas, mas muito bem proporcionada. Muito morena de cabelos e olhos negros. Na aldeia quando era menina, e as outras crianças por qualquer razão se zangavam, chamavam-lhe farrusca por causa do seu tom de pele. Ela crescera com esse desgosto, mas agora aquela cor começava a estar na moda e não raras vezes ela notava os olhares de inveja que lhe lançavam.
Lançou um breve olhar sobre o berço onde um bebé dormia tranquilamente. Hoje era um dia especial. O menino ia ser batizado. Não haveria festa, o dinheiro era escasso, a vida era muito difícil a meio do século XX. Mas para ela, o dia em que o seu menino ia ser apresentado ao altar e purificado com o sacramento do batismo, seria sempre um dia especial.
Acabou de entrançar o cabelo e enrolou a trança no alto da cabeça prendendo-a com alguns ganchos.
Alisou a saia rodada que lhe chegava a meio da perna, dobrou um velho pedaço de lençol impecavelmente limpo em triângulo como se fosse um lenço, dobrou outro pedaço igual de modo a ficar como uma tira que colocou por cima do anterior, ficando assim com as fraldas preparadas para mudar o menino quando ele acordasse. Debaixo da cama retirou uma caixa que colocou em cima da mesma. Lá dentro repousava o vestidinho de crepe azul que a madrinha entregara na véspera para o batizado.
 Foi até à cozinha, pegou as malgas do pequeno-almoço que tinham ficado a escorrer e guardou no armário. A cafeteira de alumínio foi pendurada na grade de madeira na parede.
A casa era pequena, apenas o quarto e a cozinha, mas apresentava-se limpa. No quintal, separada da casa alguns passos, uma pequena divisão, com uma sanita e um chuveiro. Claro que era aborrecido que não estivesse ligada à casa, especialmente de noite e de inverno, mas ainda assim Carolina achava que tinha muita sorte pois tinha água canalizada, coisa, que na maioria das casas, daquele pátio não existia. Não tinha eletricidade, mas nunca faltara o petróleo para o candeeiro.
Sentou-se de novo na beira da cama, junto ao berço do filho e enquanto aguardava o marido que fora ao barbeiro à Telha, deixou que as lembranças saltassem da gaveta das memórias, onde ela as trancara.
Carolina era a sexta filha de um casal já entrado na idade e que já tinha cinco rapazes entre os vinte e os nove anos. Fruto de um descuido do pai,(1)a mãe que julgava estar na menopausa só se apercebeu da gravidez quando já era demasiado tarde para a “pôr a estudar”.(2)
A mãe falecera poucos meses após o seu nascimento, vítima de complicações surgidas pós parto e o pai culpava-a pela morte dela. Os irmãos não sabiam o que fazer com ela e não fora uma vizinha tomar conta dela, talvez não tivesse sobrevivido. Até porque os tempos eram muito difíceis, a segunda guerra mundial  ainda não tinha acabado e muitos dos bens essenciais eram racionados. Não fora por isso, uma criança desejada e muito menos amada.
Mas como diziam na aldeia, “mal de quem vai, quem cá fica, trambolhão daqui, trambolhão dali, tudo se cria”
Quando Carolina entrou na adolescência mostrava já que iria ser uma bela mulher, e aí começou nova luta, já que os irmãos, diziam que ela estava uma bela "franguinha" e o mundo estava cheio de gaviões. E não a deixavam pôr o pé fora de casa, e ela tinha ânsias de liberdade. Entretanto o pai faleceu, os dois irmãos mais velhos casaram e foram viver para a cidade grande, o terceiro casara e fora viver com o sogro na aldeia vizinha. Na velha casa de família restava ela e um dos irmãos, já que o mais novo emigrara para o Brasil, na esperança de um futuro mais risonho. Farta da vida na pequena aldeia, escrevera aos dois irmãos, pedindo para ir viver com eles na cidade, mas não recebeu resposta.
Então começou a juntar algum dinheirito, do que o irmão lhe dava para as compras da casa, e um belo dia de Verão fugiu de casa rumo a Lisboa. Acabara de fazer dezasseis anos mas o seu corpo era já o de uma mulher.


CONTINUA


Como vêm esta história é uma reedição. Foi publicada em 2014. É uma história de outros tempos,  pequenina só dois posts. Espero que gostem.

(1) Naquela época o único meio que os casais conheciam de evitar uma gravidez era o coito interrompido. Milhares de crianças nasciam porque o homem não era muito hábil na hora, e quando isso acontecia as mulheres diziam que a gravidez era um descuido do marido.

(2) "pôr a estudar" era a maneira como diziam de quando uma mulher provocava a si mesma um aborto, utilizando algumas mezinhas caseiras cujo preparo, passava de mãe para filha. 

22.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XXII




O verão terminou, as folhas das árvores trocaram o verde pelos tons alaranjados e depois começaram a cair, o céu deslumbrava com ocasos que pareciam paletas de cores, apareceram as primeiras chuvas e o sol deixou de aquecer. Era o outono em todo o seu esplendor. O ano aproximava-se do fim a passos largos. Miguel adaptou-se muito bem à creche, todavia começou a fazer perguntas incómodas, como porque é que ele não tinha pai. Laura achava que ele ainda era muito pequenino para uma explicação correta sobre a vida e a morte, então disse-lhe que o pai estava no céu, era uma daquelas estrelinhas que ele via à noite a brilhar lá em cima no espaço. Mas então o menino perguntou porque é que ele não era filho de um homem, e sim de uma estrela. E quanto mais a mãe explicava mais o menino queria saber.

Então Sara, pegou na fotografia do pai e disse-lhe:

- Este é o nosso pai. Lembras do Bobi? Ele adoeceu e morreu. Lembras-te que a mãe abriu uma cova no jardim e o enterrou? Pois bem, o pai também ficou doente, e morreu. Mas como era um homem e não um cão em vez de ser enterrado no jardim foi para o céu e lá transformou-se numa estrela.

 Claro que Sara sabia o que tinha acontecido. Já tinha nove anos quando o pai morrera, estivera no funeral, ia ao cemitério com a mãe de vez em quando, levar flores à campa do pai.

Felizmente o menino pareceu ficar satisfeito com a explicação da irmã e acabou com as perguntas. Até quando ninguém sabia.  

Sara continuava a boa aluna de sempre, e cada vez tinha uma ligação maior à prima. 

Laura também se adaptou muito bem ao trabalho na clínica, estabeleceu uma boa relação de amizade com Diana com quem conversava todos os dias pelo telefone, e gostava de trabalhar com Fernando cuja faceta profissional lhe agradava bastante.

A meio de outubro, Rita a sócia da sua cunhada Helena, deu à luz uma bela menina, e no início de novembro foi a vez de Diana ter um lindo rapagão de quase quatro quilos e meio. Sara e a prima estavam doidas de alegria, queriam ir ver os bebés todos os fins de semana, mas Miguel não mostrava grande interesse, e dizia com uma certa graça:

“Que interesse tem ir ver os bebés? Estão quase sempre a dormir, não falam, não brincam, quando abrem a boca ou é para chorar ou para comer.”

-És tonto, Miguel, -dizia-lhe a irmã a rir. Falas como se já tivesses nascido assim. Há bem pouco tempo eras como eles.

A família também adquirira um novo hábito. Todos os sábados, Laura e os filhos jantavam com o irmão e a família dele. Uma semana na sua casa, outra em casa de Gonçalo. Um sábado, Gonçalo convidou Fernando, e a partir daí a presença dele tornou-se habitual nos jantares de sábado, fortalecendo assim os laços de amizade com as crianças que aliás o adoravam. 

Também ganhara o hábito de ficar um pouco mais com Laura depois das crianças irem para a cama, aproveitando para se despedir com beijos que se iam tornando cada vez mais intensos e apaixonados, a que Laura correspondia cada vez com mais intensidade. Porém apesar de reconhecer que se tinha apaixonado por Fernando, continuava a não querer ouvir falar de casamento.

 Uma semana antes do Natal, que seria celebrado na quinta dos pais de Helena, na aldeia, não só porque a casa era grande e podiam juntar as duas famílias, bem como Rita o marido e a filha, que tanto a cunhada como os seus pais e irmão, consideravam como mais um membro da família. Matilde e Sara estavam radiantes, porque teriam a companhia dos primos, o que lhes permitiria organizar jogos e outros programas sem os mais velhos.

Naquela noite, Laura e a cunhada arrumavam a cozinha enquanto na sala, Gonçalo e Fernando discutiam os problemas da escassez de médicos de determinadas especialidades no SNS.

15.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XIX


Preparavam-se para sair de casa quando um carro estacionou à porta Laura olhou os pais e inquiriu:

-Quem será? Não estava à espera de ninguém, e vocês?

- Nós também não. Ou pensas que combinávamos jantar fora se estivéssemos à espera de alguém? – respondeu a mãe com um ar de inocência muito convincente

Naquele momento a campainha tocou, e Sara apressou-se a ir abrir.

-É o tio Fernando, - gritou antes de se pendurar no pescoço dele para o beijar.

- Se vinhas ver os noivos, eles já foram – disse Laura aparecendo junto deles.

- Olá -respondeu ele sorrindo. Eles passaram por minha casa, e disseram-me que os teus pais se iam embora amanhã. Vinha despedir-me, mas vejo que vão sair.

- Vamos jantar fora, - apressou-se a dizer dona Teresa. Mas vem connosco, estás convidado, ou já jantaste?

- Na verdade, não.

- Então não se fala mais nisso.  Na verdade, podes levar a Laura contigo, nós levamos as crianças, escusamos de ir tão apertados.

- Mãe! – disse Laura envergonhada. Não seria melhor irem vocês os três, e eu jantava em casa com as crianças? Afinal o Fernando vinha despedir-se de vocês.

-Era só o que faltava. Tens o ano inteiro para jantar com as crianças. Hoje vamos jantar todos juntos, e acabou-se a conversa, - respondeu a mãe.

Vencida, mas não convencida, logo que entraram no carro Laura disse:

-Meu Deus, a minha mãe não faz mais do que empurrar-me para os teus braços. Sinto-me envergonhada

- Porquê?

-Parece que eu sou uma mercadoria que ninguém quer, encalhada na Loja.

- Nada disso. Toda a tua família como a minha sabem de há muito tempo, do meu amor, por ti.  A minha mãe, fartou-se de chorar quando casaste e vivia desgostosa por saber que não conseguia esquecer-te e ia morrer sem chegar a conhecer os netos.

-Mas, eu nunca soube dos teus sentimentos. Para mim eras um irmão, embora não fossemos do mesmo sangue o meu sentimento por ti era o mesmo que tinha pelo Gonçalo.

-Eu sei. Por isso mesmo não lutei por ti na época. Mas hoje é diferente. Estás viúva há mais de três anos, não me podes impedir de ter esperanças.

- Mas eu ainda não esqueci o Quim…

-Nem eu espero que o esqueças. Foi o teu primeiro amor e o pai dos teus filhos.

Mas Laura, eras uma jovem mimada que nada sabia da vida, quando o conheceste e casaste. Hoje és uma mulher que conhece as alegrias e tristezas que a vida acarreta. Sofreste a dor da perda, amadureceste. A jovem que casou com o Quim ficou lá no passado, tenho a certeza que a mulher que és hoje, será capaz de me amar como eu te amo se abrires o coração a uma nova oportunidade.

Laura estava espantada consigo própria. Como é que ela se permitia falar assim abertamente com ele. Será que Fernando tinha razão? Estaria ela a transformar-se numa nova mulher?  



Vejamos se hoje o técnico consegue acabar com a Internet "vai e vem" que tenho há mais de 10 dias

19.1.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE II

 




Trabalharam exaustivamente durante todo o dia. O autocarro transportava cinquenta crianças e duas professoras. Dez crianças tiveram que ser submetidas a cirurgia, uma por hemorragia interna, as outras por fraturas expostas. Outras trinta tinham, pequenos cortes e escoriações e as restantes embora tivessem saído ilesas do acidente, estavam em pânico. Uma das professoras, sofrera uma pancada na cabeça, e estava em observação por suspeita de traumatismo craniano, a outra saíra ilesa.
Nuno Albuquerque acabou de suturar a perna do menino, e encarou o ortopedista que tinha estado com ele. Dada a multiplicidade da fratura, a criança tivera que levar duas placas metálicas e alguns parafusos para manterem os ossos na posição correta que lhe permitisse a cura.
- Parece que terminámos, colega.
-Já não era sem tempo. Estou estoirado. Felizmente não há mortes a lamentar. Vamos ver como decorre o pós-operatório. Se não houver nenhuma complicação, em breve poderão voltar à sua vida normal – disse Ricardo Ferreira, o ortopedista.
O doutor Ricardo era um homem não muito alto, meio calvo, de olhos vivos e ar bonacheirão, daquelas pessoas, a quem parece que a vida está sempre a sorrir e nada há  que os abale. Tinha completado há pouco cinquenta anos, era casado e tinha três filhos, um dos quais acabara de se formar, e estagiava naquele mesmo hospital.
-Não sei se será assim tão fácil. Alguns terão que fazer terapia, ou ficarão com traumas para a vida inteira.
Encontravam-se na ante sala do bloco, onde retiravam as roupas anteriormente esterilizadas com que acabavam de trabalhar e voltavam às suas batas normais.
- Talvez, mas nestas idades, as crianças conseguem ultrapassar bem estas coisas. Diferente seria se algum deles tivesse morrido. Aí sim, ia ser mais problemático. Bom colega, terminei o meu turno, às quatro e são oito. Vou passar pela minha ala, falar com o colega que me substitui e vou até casa. Estou estoirado. O colega também terminou ou está de serviço?
- Também terminei às quatro. Vou fazer o mesmo. Até à próxima Ricardo. É sempre muito bom trabalhar consigo.
- Eu digo o mesmo Nuno. Até à próxima.
Seguiram cada um para a ala da sua especialidade, que na prática ficavam em direções opostas.

24.11.21

A CORAGEM DE DIZER: BASTA!




A mulher que caminhava pela praia naquele entardecer, era muito bonita, mas trazia nos olhos uma tristeza, que parecia impossível de esconder. Ali perto, duas crianças brincavam na areia, enquanto a mãe sacudia a toalha e a metia no saco, dando por findo aquele dia de praia.

Ela porém, nem se apercebia do que se passava à sua volta. Parecia perdida num outro mar, que não aquele que suavemente lhe beijava os pés. Um mar  de recordações.

Fora num fim de tarde assim, que conhecera Eduardo. 

Ela caminhava pelo parque da cidade, olhando embevecida as crianças que brincavam no escorrega, fazendo grande algazarra. As flores, impregnavam o ar com um intenso, mas agradável aroma.

 Rita, ia tão absorta, que não viu aquela raiz, na qual foi tropeçar, saindo projetada para...os braços dele. Sim porque fora ele. que por ali passava e a segurara, quando se apercebeu que ela ia cair. 

Rita sentiu o olhar intenso e trocista do homem, e sentiu-se envergonhada, mas coisa esquisita, sentiu uma estranha sensação de felicidade. Agradeceu sentindo-se corar sob o olhar masculino. 

Eduardo pelo contrário parecia divertido com a sua atrapalhação. E depois de algumas palavras que ela quase não escutou, combinaram encontrar-se no dia seguinte. Naquela noite, o sono tardou para Rita.

 Ela não conseguia esquecer o desconhecido do parque. E só nessa altura se deu conta que tinha esquecido de perguntar o seu nome. Que faria ele no parque? Passaria ali por um acaso, e a vida teria caprichado naquele tropeço, para que se conhecessem? E se assim era qual iria ser o seu papel na vida dela? Era bonito, pensava ela. E dava voltas na cama, ansiando pelo nascimento do novo dia.

 Pobre Rita! Se ela soubesse o quanto ia sofrer por aquele homem, teria sufocado a sua lembrança, e nunca teria voltado ao parque, para o encontro. Mas ela era muito jovem, tinha a cabeça cheia de sonhos românticos, e ansiava pelo amor.

No início Eduardo parecia ser o homem dos seus sonhos. E o que começou com uma amizade, não tardou em transformar-se numa intensa paixão. Ela vivia cada beijo, cada instante, sentindo-se a mulher mais feliz e mais amada da terra.

Casaram num dia de sol em pleno mês de Maio. Eduardo não quis casar na igreja, e isso foi uma pequena nuvem a ensombrar a felicidade de Rita, cuja fé lhe pedia a bênção no altar. Porém em breve essa contrariedade deixou de ter significado, ultrapassada por outras bem maiores.

Três dias, durou  a lua de mel. 

Três dias como o Carnaval. Carnaval! Estranha associação, pensava enquanto continuava caminhando pela praia solitária.
Mas a verdade é que ao fim de três dias, a ternura dera lugar à prepotência, os beijos, às palavras duras, e sarcásticas. Menos de um mês depois, começaram as ameaças. Começou a pensar, que o homem com quem se casara, era um desconhecido, que usara uma máscara, pela qual ela se apaixonara. Como fora possível iludir-se assim?
 
Nunca mais saíram juntos. Ele saía depois do jantar e voltava tarde da noite, algumas vezes dormia fora, e chegava a casa a cheirar a perfume barato.  

Mas apesar da sua juventude, Rita era uma mulher de coragem e substituído o amor pela desilusão, decidiu pôr um ponto final no casamento.  
E naquela  tarde, passeava junto ao mar, a sua falsa liberdade.
Falsa sim, porque se o divórcio a libertara do casamento, não levara do seu peito, a desilusão e a dor, nem do seu cérebro a amarga recordação do que fora a sua vida durante o casamento.



29.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XXV

 

- Como conseguiste? - perguntou Helena quando saíram do quarto. Não tem pesadelos com muita frequência, mas quando os teve só acalmou quando o levei para a minha cama.
- Segredo masculino, - disse ele sorrindo.- O Diogo é um menino muito inteligente. Joga com a tua ansiedade, para conseguir o que quer. E todas as crianças, gostam de se meter na cama dos pais, quando acordam de noite.
- Parece que percebes muito de crianças. Será que tens filhos?
- Não o creio. Se os tivesse, a mãe deles já teria entrado em contacto com a polícia, não achas?
-Sim claro. Perdi o sono. Vou beber um copo de leite. Também queres?
- Não. Mas também estou sem sono. Tive outro sonho estranho.

Dirigiram-se à cozinha. Ele sentou-se. Ela abriu o frigorífico despejou o leite no copo e colocou-o a aquecer no micro-ondas. 
- Não queres mesmo um copo de leite? Talvez um chá…
Ele moveu a cabeça negativamente e ela sentou-se à sua frente. Deu um gole no leite, e disse:
- Estou a ouvir-te

Ele contou o sonho como o tinha vivido, até ao momento em que o grito de Diogo o acordou.

- Que te parece. Achas que está relacionado comigo?
- Pode ser. Mas também pode ser, um reflexo do teu inconsciente, ao que o inspetor disse. Ou ainda, um daqueles sonhos que não se relacionam com coisa nenhuma e parecem ser brincadeiras do nosso cérebro. Reconheceste alguém?

- Sim. Na verdade reconheci as pessoas importantes da terra, mas não vi quem era o morto. Nem sequer sei se era homem ou mulher.  Havia um homem que me empurrou, e fechou a urna. Parece que  me queria afastar.
- Isso pode ser interessante. E quem era esse homem? Sabes?
- Não. Só que era pouco mais velho do que eu. E parecia que estava acompanhado da mãe.
- Olha são quatro horas, e a casa está fria. Porque não voltamos para a cama e de manhã pensamos nisso?

 Ele olhou-a intensamente e ela corou ao perceber o desejo nos olhos masculinos, e pensou que a sua ideia de voltarem para a cama podia ser interpretada como um convite.
Levantou-se, e voltou-se para colocar o copo no lava-loiça.

Ele aproximou-se, e pondo-lhe as mãos nos ombros, obrigou-a a voltar-se. Com o olhar fixo no dela, disse:
- Não tenhas medo, doutora. Por muito que te deseje, não vai acontecer nada entre nós, enquanto eu não souber, se sou digno de ti.
Virou-lhe as costas e dirigiu-se ao quarto.



Para os amigos que nos estimam.
Ontem chegou a biópsia do que tiraram do estomago do marido. E graças a Deus não é nada de origem maligna.

9.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXIX


 - Meu Deus , Gonçalo! Como deves ter sofrido durante todos estes anos, sem que nós pudéssemos ajudar-te. Porque não nos contaste que não tinhas recuperado parte da memória?

Os dois irmãos encontravam--se sentados na sala da casa de Laura, onde Gonçalo tinha estado a jantar. Queria contar à irmã, a reviravolta que a sua vida sofrera, mas com os sobrinhos à sua volta, isso fora impossível. Agora que as crianças já dormiam, fora enfim possível desabafar com a irmã.

- Porque havia de vos contar? Se os médicos não me conseguiram ajudar, o que é que vocês podiam fazer. Só ia preocupar-vos. Agora é diferente, porque embora eu não tenha recuperado aquela parte da minha vida, ela deu frutos. Tenho uma filha linda. Que te vai surpreender, como poderás ver agora, disse lançando a mão do seu telemóvel e mostrando-lhe uma foto.

- Santo Deus, mano. Qualquer um que nos visse juntas, diria que é minha filha.

- Foi exatamente por isso que quando a vi, tive a certeza que tinha encontrado o elo que faltava na cadeia do meu passado. Foi essa semelhança que me levou a questionar Helena. Lembras-te daquela fotografia que tiraste mais ou menos nessa idade e que trago sempre na carteira? Foi com ela que questionei Helena, e consegui que ela me ouvisse. Sempre vais passar a Páscoa com os pais?

- Vamos amanhã de manhã. Tu não? Pensei que ias Sexta-feira à tardinha depois de saíres do hospital. 

-- Não. A família da Helena é de uma aldeia do concelho do Fundão. A família reúne-se lá para passar a Páscoa. Eu não conheço a sua família apesar da Helena dizer que conheci bem o seu irmão e cunhada. Quero conhecer os seus pais, quero que eles saibam, que não foi culpa minha, não ter assumido a responsabilidade dos meus atos e dado à sua filha e neta o lar que mereciam. 

Vou para lá no Sábado de manhã, A Helena contou hoje à Matilde que eu sou seu pai. E diz que ela ficou muito feliz e quer ver-me. Levas o portátil para Braga?

-Levo, porquê?

- Porque eu trouxe uma pen com o arquivo digital que a Helena me mandou ontem à noite. É uma espécie de história fotográfica da sua vida que a mãe foi compondo ao longo dos anos. Vi cada uma mais do que uma vez. 

Quase não dormi esta noite. Depois fiz cópias e passei para duas pens para não correr o risco de as perder. Trouxe-te uma e peço-te que contes aos pais o que se passa.  

Diz à mãe que não se preocupe mais em descobrir jovens para me apresentar. Já encontrei a mulher da minha vida. E diz-lhe que logo que a Matilde esteja completamente recuperada, iremos lá para que eles conheçam a neta, já o disse a Helena e ela está de acordo.

- E para quando o casamento? Já falaram nisso?

---Já. Mas a Helena não aceitou o meu pedido. Ela diz que não se casará apenas por causa da Matilde, apesar de reconhecer os meus direitos como pai. 

Ela aceitar-me-ia com uma declaração de amor que em consciência eu não posso fazer de momento. Eu não tenho nenhuma memória da história de amor que vivemos. 

Para mim é como se acabasse de a conhecer. Existe uma grande atração entre os dois, e estou certo de que voltaria a amá-la depois do casamento, mas ela não quer arriscar um casamento baseado na atração física. Respeito a sua opinião, mas não vou desistir. 

Ela é uma mulher linda, inteligente e de muita coragem. Admiro-a muito e tenho a certeza que em breve estarei irremediavelmente apaixonado. Afinal se a amei uma vez não vai ser difícil amá-la de novo. Quero na minha vida, a família que aquele maldito acidente me roubou. 



14.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLV



- Mas não posso ir para a tua casa!- protestou.

- Porque não, Teresa? Conheces a casa, sabes que tem todas as condições para que fiques bem instalada.  Podes ter duas enfermeiras para cuidar de ti, embora eu o pudesse fazer pelo menos de noite, mas compreendo que não te sintas à-vontade sozinha comigo. Depois há uma coisa que não podes esquecer, as crianças que carregas no ventre são também meus filhos. Ninguém pode querer protegê-las mais, do que nós dois. E juntos somos mais fortes.

- O João tem razão, - disse Inês. – Se ele pode ter duas enfermeiras a cuidar de ti, tenho a certeza que a doutora Laura Aguilar, vai achar preferível que estejas em casa. Depois ela pode dar todas as indicações por escrito para as enfermeiras.

-Está bem, se a médica achar melhor eu vou para tua casa. Mas hoje fico aqui.

- Então eu também fico – disse Inês. - Já avisei o Gustavo de que se não aceitasses ir lá para casa, eu dormia aqui, pois não te vou deixar sozinha, depois do que a médica disse.

- Não senhora. A Inês vai para casa, eu fico com ela. Preferia levá-la para minha casa, mas se ela quer ficar aqui, eu também fico. Não é justo a Inês prejudicar a sua família por nossa causa:

- Está bem, vocês ganharam. João esperas na sala enquanto a Inês me põe na mala o que preciso e me visto?

-Claro.

Voltou costas e saiu do quarto.

Inês tirou de cima do guarda-fato a mala que colocou em cima da cama, e começou a guardar nela algumas roupas enquanto Teresa ia à casa de banho.

Quando voltou, despiu a camisa e enquanto se vestia, pediu à amiga.

- Guarda-me o vestido azul, e as sandálias da mesma cor para eu levar amanhã ao hospital. Além disso e da roupa interior põe na mala só camisas de dormir, pijamas e dois robes. E os meus objetos pessoais, que estão na casa de banho. Se vou passar o tempo na cama, não preciso de mais.

- Não me tinhas dito nada que já conhecias a casa dele, - disse Inês enquanto guardava as roupas na mala.

- Não foi de propósito apenas não se proporcionou a conversa. Foi no sábado depois do almoço. Acreditas se te disser que vive no último andar da empresa? Convidou-me a conhecer a empresa e de súbito estávamos em sua casa?

- E depois? Que aconteceu? - perguntou a amiga.

- Nada de mais. Conversámos um pouco na sala, e depois mostrou-me a casa. Convidou-me para lanchar, mas eu disse que tinha que tomar as vitaminas e ele trouxe-me a casa.

Inês fechou a mala e perguntou:

- Não te esqueces de nada? Os documentos?

- Estão aqui, - respondeu mostrando a carteira.

Teresa, saiu para a sala. Inês, pegou na mala, apagou a luz do quarto e seguiu-a.

Na sala, João tirou-lhe  a mala das mãos e disse:

-Se a Inês puder acompanhar-nos agradecia. Tenho a certeza de que a Teresa ia gostar. Aproveita, fica a conhecer a casa e pode sempre que quiser e puder ir visitá-la.

-Claro, eu sigo-vos no meu carro. Assim,  quando a Teresa estiver instalada regresso a casa.

Saíram e seguiram para o elevador.

Já na rua, João abriu a porta do carro, ajudou Teresa a sentar-se, colocou a mala no banco de trás e foi sentar-se ao volante. Arrancou depois de olhar pelo espelho  retrovisor e ver que Inês se encontrava pronta a segui-lo.

 

4.6.20

ISABEL - PARTE XVII

                                             
- E depois? Não falaram? Não trocaram número de telefone? Não sabes como encontrá-lo?
Isabel abanou a cabeça e então contou o encontro do dia anterior, e de como ela fugira da estação de serviço de Palmela.
-Ó Isabel, tu estás irremediavelmente apaixonada - sentenciou Amélia.
- Estás louca! - Como posso estar apaixonada por um homem que mal conheço? De quem, nem o nome sei?
- Sempre achei que a tua fortaleza, a tua indiferença para as coisas do coração, era mais aparente que real. És uma mulher dedicada e sensível. Basta ver como cuidaste dos teus pais. Julgaste viver um grande amor…
- Não julguei. Eu vivi um grande amor – interrompeu Isabel
- Será Isabel? Eras uma menina ingénua e sonhadora que nada sabia da vida. Aos dezoito anos, não nos apaixonamos pelo homem. Enamoramos-nos do próprio amor. O homem, vem por acréscimo. E se muitas vezes é o companheiro ideal, que nos vai acompanhar pelo resto da vida, na maior parte das vezes os príncipes não passam de sapos disfarçados, que transformam os nossos sonhos em pesadelos. Culpa deles, ou nossa? Provavelmente de ambos, não sei. Consegues olhar para ti hoje, e, comparar-te à Isabel que eras nesse tempo? Claro que não. Quem nos diz, que se o Fernando não tivesse partido,  teria acompanhado a tua evolução? Ou quem sabe, não ficaria lá atrás no seu cantinho? Quem sabe se vocês, seriam hoje um casal feliz, ou se estariam divorciados? Ninguém.
Mas tu assumiste que ele era o teu grande amor e criaste à tua volta uma espécie de casulo, onde te encerraste, com a tua dor. Por causa disso afastaste todas as hipóteses de viveres um novo amor. Um amor de mulher, mais madura, que conhece a vida, os seus sonhos e as suas dores.
Isabel permanecia com os cotovelos em cima da mesa e o rosto entra as mãos. No fundo ela sabia que a amiga tinha razão. Mas custava-lhe admitir a verdade, até para si própria. Amélia passou-lhe a mão pelos cabelos, num gesto carinhoso, e acrescentou.
- Se a vida te está dando outra oportunidade não a desperdices minha amiga. Quem sabe se é a derradeira? E nada pior, do que viver o resto da vida imaginando, o que ela poderia ter sido e não foi por sermos covardes.
- Mas eu não sei nada sobre ele. Nem sequer o nome. Apenas que tem uns olhos cinzentos que parecem mergulhar dentro de nós até ao mais ínfimo da nossa alma. E uma voz rouca, sensual…
- E um corpo alto atlético e moreno, e uns braços fortes onde gostavas de te acolher – riu Amélia.
- Não sejas assim, - disse zangada. Vamos-nos deixar de conversas e trabalhar. Marca as entrevistas para quarta-feira. Uma para as dez horas a outra para as quinze. Telefona à Dulce e pergunta se a campanha do início das aulas que lhe entreguei antes das férias está pronta, quero vê-la. Como foi o Paulo que a aprovou, gostava que ele a visse. Se a gravação estiver pronta, telefona-lhe e pede para ele passar por cá para a ver.
Amélia afastou-se e levando a mão à testa, imitou o gesto do militar perante um superior dizendo:

- Sim chefe.

22.5.20

ISABEL - PARTE VIII

                                         Estátua do rei D. Sebastião
                                                    Foto minha


Nessa mesma tarde, perto das seis, Isabel saiu de casa com intenção de dar um último passeio pela baixa da cidade. O dia, que de manhã ameaçara chuva, apresentava agora um céu limpo, onde reinava um sol intenso.
Vestia uma saia calção, de algodão azul-marinho e uma blusa branca do mesmo tecido, com um decote na diagonal que deixava a descoberto um dos  ombros. O cabelo castanho apanhado mostrava a forma longilínea do pescoço.
Óculos escuros, escondiam-lhe os olhos sem tirar encanto a um rosto onde se destacava a boca pequena e bem desenhada. Desceu a rua Cândido dos Reis em direção ao centro histórico, passou pela Praça Gil Eanes, onde um turista se deixava fotografar junto à polémica estátua do rei D. Sebastião da autoria do escultor João Cutileiro, lançou um breve olhar à estátua humana, que do outro lado, aguardava que alguém deitasse na caixa uma moeda, para esboçar um breve agradecimento e aliviar ainda que momentaneamente o corpo da incomoda imobilidade.
Seguiu por entre esplanadas até ao mercado municipal, e aí atravessou a Avenida dos Descobrimentos e foi sentar-se num banco sob a sombra de uma frondosa palmeira, junto ao canal. Encantava-se com aquela enorme avenida que corria desde o início da cidade, ao longo da ribeira de Bensafrim, até ao forte Pau da Bandeira, onde se juntava ao mar. 
Pela ribeira, que naquele sitio mais parecia um canal, passavam constantemente barcos, dos mais variados tamanhos e origens.
Grandes e luxuosos iates, que pertenciam aos turistas e se dirigiam à marina, barcos de turismo que fazem a ligação Lagos – Sagres - Lagos, traineiras que saíam ou chegavam da pesca, e os pequenos barcos a motor, sempre cheios de turistas para uma curta viagem até à Ponta da Piedade, cujas grutas marinhas e formações rochosas, são o orgulho da cidade.
Isabel retirou da bolsa um livro e tentou concentrar-se na leitura. O livro "Tsunami!" de Richard Martin Stern, contava a história de um oceanógrafo que descobriu, uma plataforma rochosa abaixo da superfície do oceano Pacífico que está prestes a desmoronar-se o que provocará uma onda aterradora e de dimensão  gigantesca  capaz de destruir por completo a cidade de Encino Beach, no sul da Califórnia. O problema é que tudo parece demasiado calmo e ninguém quer acreditar no cientista, que luta com todas as forças para convencer as pessoas a abandonar a cidade antes do desastre, sabendo que a cada hora que passa o tempo encurta e a tragédia aproxima-se.
 A leitura era interessante, mas a atenção de Isabel aos poucos foi-se afastando,  até que a memória mergulhou de novo no passado. Ultimamente recordava demasiadas vezes o passado. Não sabia porquê, mas que acontecia era um facto.
Lembrou aquela tarde em que disse aos pais que queria trabalhar. E pouco tempo depois estava a trabalhar numa papelaria. Mas o trabalho, não chegava para apagar na memória e no coração a angústia pelo que tinha acontecido. Decidiu estudar. Matriculou-se num curso nocturno. Era uma boa aluna. Terminou o Secundário. Seguiu-se a faculdade. Ela sempre gostara muito de publicidade e era muito criativa. Na hora da escolha decidiu-se pelo curso de Marketing, Publicidade e Relações Públicas. O fim do Curso foi o último dia em que teve os pais junto de si.
Fechou o livro. Olhou à volta e reparou no homem que um pouco mais à frente observava qualquer coisa na água. Encontrava-se de frente para a ribeira, com um pé em cima da muralha e a mão apoiada no joelho. Vestia calça de ganga e uma camisa branca. 
Isabel não conseguiu ver-lhe o rosto voltado para a marina, mas qualquer coisa nele lhe despertou a atenção e pensou que a figura não lhe era totalmente estranha.          

13.12.19

CONTOS DE NATAL - UM NATAL MUITO ESPECIAL


  1.  Um Natal muito especial
  2. Era o primeiro Natal da Rita Ratinha. O céu rasgava-se de rosas e dourados e o ar era frio. Algo cintilava através da janela de uma casa, brilhando na escuridão da noite. — O que é aquilo, mamã? — guinchou a Rita. — Chama-se árvore de Natal — respondeu a mãe. — As pessoas enchem-na de bolas brilhantes, luzes e estrelas. — Quem me dera ter uma árvore de Natal — suspirou a Rita. — E se fôssemos à floresta procurar uma? — sugeriu a mãe. — Podes pô-la tão bonita como aquela que se vê na janela. A Rita achou a ideia maravilhosa. Chamou os irmãos e as irmãs, e lá foram todos à procura. E
  3.  Pelo caminho, encontraram um celeiro e os ratinhos aventuram-se lá dentro, à procura de alguma coisa para colocar na sua árvore. Debaixo de um enorme monte de palha, a Rita encontrou uma boneca. — É igual à que está no cimo da árvore de Natal que se vê à janela — comentou. — É perfeita para a nossa árvore! Mas a boneca já tinha dono. — Grrrrr! — rosnou o velho cão da quinta. — Essa boneca é minha! — Não corras atrás de nós — pediu a Rita. — Só pensei que a boneca ficaria bem na nossa árvore de Natal.
  4. O velho cão bocejou. É verdade que, por vezes, corria atrás de ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, ou por se lembrar da altura em que brincava com as crianças,
  5. junto da árvore de Natal da quinta, o cão disse aos ratinhos que podiam levar o brinquedo emprestado. Os ratos saíram da quinta, levando consigo a boneca, e chegaram ao outro lado da floresta. — Vejam! Encontrei outra coisa para colocarmos na nossa árvore! — exclamou a Rita. Era uma fita dourada, que pendia de um ramo de um carvalho. A Rita trepou pelo tronco acima, agarrou a fita e puxou... Mas a fita pertencia a uma gralha, que queria usá-la para forrar o seu ninho.
  6. — Por favor, não te zangues — pediu a Rita. — Só a queria para enfeitar a nossa árvore de Natal. Ora, normalmente, as gralhas perseguem ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, ou por também ter ficado a admirar a árvore de Natal que se via à janela, ela largou a fita e a Rita levou-a consigo. Ao longe, a Rita viu umas coisinhas vermelhas a brilhar, caídas no chão. Eram muito parecidas com as bolas penduradas na árvore de Natal que se via à janela.
  7. — É mesmo disto que precisamos! — exclamou a Rita, correndo para apanhar uma delas. — Agora, já temos uma boneca, uma fita dourada e uma bola brilhante! Mas as bolas brilhantes pertenciam a uma raposa.
  8. — Essas maçãs são minhas — resmungou. — Estou a guardá-las para ter o que comer no Inverno frio. — Nós só achamos que uma ficaria bem na nossa árvore de Natal — disse a Rita, tremendo de medo. A raposa cheirou-a. Já correra atrás de muitos ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, voltou para o interior da floresta, deixando que a Rita escolhesse uma maçã e a levasse com ela. O sol começava a pôr- -se, à medida que os ratinhos avançavam cada vez mais para o interior da floresta. Por fim, numa
  9. clareira, encontraram uma árvore verde muito grande. — A nossa árvore de Natal! — gritou a Rita. E, nos seus ramos, penduraram a boneca, a fita e a maçã. — Oh — disse a Rita, quando terminaram. — Não se parece nada com a árvore de Natal que eu vi. Tristes, os ratinhos voltaram as costas e, desiludidos, caminharam de regresso a casa, para se deitarem.
  10. A meio da noite, a Senhora Rato acordou os seus pequenotes. — Venham comigo — sussurrou. — Quero mostrar-vos uma coisa. Os ratinhos apressaram-se para junto da mãe, seguindo-a em direção à floresta. Pelo caminho, viam alguns animais que passavam por eles, cheios de pressa. Por fim, os ratinhos chegaram à clareira. A Rita parou de repente e os seus olhos começaram a ficar mais e mais redondos e brilhantes. — Oh, vejam aquilo! — exclamou.
  11. Durante a noite, os animais da floresta tinham acrescentado mais enfeites à árvore e a neve começara a cair, cobrindo tudo com o seu brilho. A pequena árvore piscava sem parar na escuridão. — A nossa árvore é ainda melhor do que a que se vê à janela. — sussurrou a Rita, muito feliz. E, talvez por ser Natal, todos os animais se sentaram à volta da árvore, tranquilos e em paz.

  12.  Christine Leeson 
  13. Um Natal muito especial V. N. Gaia,
  14.  Edições Gailivro, 2006 Texto adaptado

Uma história bem levinha para os que não gostaram da história de ontem. Eu adorei-a porque entendi que ela tem, não uma mas duas grandes mensagens. A primeira de amor, do marido e filhos que tudo fizeram para amenizar a dor e o desalento da doente, a segunda a mensagem de que nem sempre o cancro é sinal de morte. Muita gente se cura e essa é a esperança que todos devem ter, a força para lutar contra a doença. 

8.12.19

CONTOS DE NATAL - DAVID E A ESTRELA











A casa de Ciryl e Paola fica mesmo no alto da serra da Malveira. Quando se chega lá acima, o ar é leve e, se levantarmos os braços, podemos tocar nas nuvens e agarrar o sol.
É uma casa antiga, de grossas paredes de pedra, com salas enormes onde se ouve música antiga, canções e poemas porque os corações de Ciryl e Paola estão sempre abertos à beleza e à amizade. Talvez por isso, porque Ciryl e Paola da serra da Malveira são pessoas especiais e lindas, esta história aconteceu.


Da varanda da casa que lembra um desses castelos com reis, princesas e fadas boas, avista-se o mar. Até lá, muito longe, onde o olhar quase se perde, crescem as árvores, flores, e o vento que nos despenteia carrega o perfume de coisas que nos enchem de paz e alegria. Mas, o ano passado, alguém deitou fogo à serra.
Por entre as sirenes dos carros de bombeiros, os gritos, o voo assustado das aves, o gemido dos pequenos animais sem abrigo, ouviam-se as árvores a chorar. Primeiro erguiam os seus grandes ramos para o céu, depois, as pequenas folhas estalavam e, com um ruído ensurdecedor, víamo-las tombar como gigantes feridos. Foi tão triste! Nos meses seguintes o que se avistava da varanda mais alta da casa, eram apenas os caminhos queimados cobertos de tristeza e silêncio.
Certa manhã de dezembro, já perto do Natal, Ciryl e Paola tiveram uma ideia: foram pelas escolas e desafiaram as crianças: «Vamos semear pinheirinhos novos e deixar a nossa serra toda verde como era dantes.»
«Vamos!», disseram os meninos. «Vamos!», disseram as meninas.
De súbito, foi como se um sino tivesse tocado no coração do mundo.
Parecia uma só voz o que se ouviu e ecoou por todo o lado, das casas ao mar.
E tinha tanta força essa voz que os pais dos meninos, e as mães, e as avós, e os tios, e as tias, e os primos, e as primas, e as madrinhas, e os padrinhos vieram também. Traziam pás, ancinhos, enxadas, pequenos sachos, regadores. Era como um filme.
Pela serra inteira, gente que andava, parava, ria, abria buracos e plantava árvores. Árvores, dezenas de árvores que o Ciryl e a Paola mandaram vir de todas as partes do mundo: pinheiros, abetos, araucárias, cedros do Líbano.
As pessoas, pela serra, pareciam borboletas voando: corriam aqui, escorregavam ali, levantavam-se, trocavam pequenas palavras, muitas sugestões. Uns plantavam a sua árvore na encosta; outros, nas faldas da serra.
Ao fim da tarde, cansados, os pais e as mães, os primos e as primas, os tios e as tias, os padrinhos e as madrinhas, as crianças, os velhos e os assim-assim juntaram o pão e a salada, o queijo e a Coca-Cola, os pastéis de bacalhau e o bolo-rei, a alegria e o coração contente e fizeram uma grande festa.
A serra parecia pintada de verde fresco e nos olhos de todas as pessoas havia um brilho diferente. Todos se falavam, mesmo os que de manhã não se conheciam e as gargalhadas que davam eram como água fresca que apetecia beber e repartir.
Só David, um dos mais pequeninos, o que tinha olhos azuis e reflexos de ouro nos cabelos lisos, indiferente à festa, continuou a subir a serra. Queria que a sua árvore fosse a mais alta, a que ficasse lá mais acima e se pudesse contemplar da terra inteira.
Subiu, subiu. Subiu muito. Rasgou a pele nas silvas, bebeu o sumo das amoras porque tinha sede. Subiu mais ainda.
Com a sua pequena enxada de plástico cavou um buraquinho. Quando acabou de plantar o seu cedro do Líbano, deitou-se na terra fresca e adormeceu. Então, inexplicavelmente, a árvore começou a crescer, a crescer, e cobriu-o de sombra. Uma ave, veio dos lados do sol nascente e embalou-lhe o sono com seu cantar. Quando a noite desceu, perfumada, uma estrela desceu de mansinho e pousou no ramo mais alto, iluminando todos os caminhos. De repente, no meio da festa, alguém deu pela falta de David. Chamaram, chamaram e nada. Ninguém respondia. Então, como se fosse um formigueiro em movimento, as pessoas começaram a espreitar na urze, no sumo dos frutos, no espelho de água do tanque, dentro da chaminé, debaixo do piano. Chegaram à varanda. Olharam a serra.
Lá no alto, iluminado, enorme, o cedro era um sinal.
Correram todos para lá.
Um grande silêncio desceu na serra. Todos se olhavam estupefactos. Ninguém sabia explicar por que crescera assim, em tão poucas horas, aquela árvore que uma estrela iluminava.
E quando viram David a dormir, segurando ainda na mão o pequeno sacho, com a cara toda lambuzada de amoras e terra, Ciryl disse sorrindo e simplesmente: «Oh! Parece o Menino Jesus!»
E regressaram. Cantando.


Maria Rosa Colaço 



Fonte   A

7.12.19

CONTOS DE NATAL - O URSINHO COR DE CARAMELO


Ah-ha! Finalmente tinha encontrado o presente perfeito para a meia de Eric!
O urso cor de caramelo estava sentado, todo empoleirado, em exibição junto da montra da frente da loja. Numa mão segurava uma bola de futebol, mesmo com os cordões e tudo e, na outra, um capacete! Depois de ter localizado o urso, já sabia que tinha que me esgueirar até lá mais tarde, para o comprar sem ter os mais pequenos à minha volta. Estava tão entusiasmada!


Todos os anos, a nossa família ia para o centro comercial durante uma hora para arranjarmos as prendas de Natal uns dos outros. O meu marido, David, e eu separávamo-nos, levando um ou dois miúdos a fazer as compras para os outros membros da família. Depois, encontrávamo-nos num sítio combinado e trocávamos de miúdos para completar as listas.

Após o almoço, os três miúdos já tinham acabado as suas listas.
David levou então as crianças, cansadas mas felizes, para o carro, onde eu me juntaria a eles depois de completar a minha incumbência específica. Os miúdos tinham-se portado mesmo bem, e eu não demoraria porque sabia exatamente o que queria e onde estava.

Ao entrar na pequena loja, o empregado cumprimentou-me com um alegre sorriso.
— Posso ajudá-la?
— Oh, não, obrigada! — disse eu, toda confiante. — Estive aqui ainda há pouco, e agora escapei-me de volta sem as crianças para comprar o que preciso.
Apressei-me em direção à prateleira, pronta para agarrar no bichinho e ir embora. Imaginem a minha surpresa! O urso não estava lá! Remexi em todos os outros animais de peluche em exposição — mas nada de urso cor de caramelo.
Interpelei o empregado, que respondeu:
— Oh, lamento. Alguém comprou esse urso mesmo há pouquinho, e não temos mais.

Sentia-me derrotada. Tinham sido só umas duas horas! Quem poderia ter comprado aquele urso? Poderia procurar uma outra coisa, mas já tinha estado em praticamente todas as lojas do centro comercial sem ter visto algo que se aproximasse sequer do presente ideal. Além disso, os meus filhos estavam no carro, à espera. Com um enorme suspiro, apressei-me a sair do centro, ao encontro da minha família.

Na manhã de Natal os miúdos abriram todos os seus presentes.
Agora era a nossa vez.
— Mamã, abre primeiro o meu!
Eric irradiava alegria, empunhando o seu presente embrulhado em papel infantil.
— Está bem. O que é que me terás comprado?
— Não te digo!

Era o primeiro ano em que ele nada dizia, ele que geralmente proclamava bem alto os segredos de Natal que sabia!
Abri a embalagem devagar.
— Humm… O que será isto? — provoquei-o.
Ele riu-se.
— Abre e logo vais descobrir!

Assim que o papel se abriu totalmente, os meus olhos encheram-se de lágrimas. Diante de mim estava o urso cor de caramelo que eu tanto queria para ele!
E ele tinha-o comprado para a minha coleção de ursinhos!
— Gostas?

A sua carinha esperava, ansiosa e orgulhosa.
— Na verdade, eu também queria muito esse urso, mas achei que seria um lindo presente para ti, Mamã!

Engolindo as lágrimas, abracei-o e disse-lhe:
— Adoro, querido. Obrigada. É realmente a prenda perfeita!

Paula F. Blevins