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30.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XIX


Acabara de fazer a mala. Pegou no telemóvel e fez uma chamada.
- Mãe vou a caminho do aeroporto. Parto dentro de duas horas, com destino a Barcelona. Sabes que há muito tempo desejava visitar esta cidade.
Escutou por momentos:
-A Paris? Para já não. Ainda não me sinto preparada. Quando o fizer digo-te. Vou dando notícias. Dá um beijo a todos por mim.
Desligou, e chamou um táxi.
No dia seguinte, estava em Barcelona, mas deu-se conta que não conseguia elaborar um programa cultural de visitas, pois não conseguia deixar de pensar em Simão.
É como dizia Horácio. "A negra preocupação monta sempre à garupa do cavaleiro".
Percebeu que não lhe adiantava fugir. Precisava descobrir o que se passava com ela. Que sentimentos albergava no seu peito.
 A visita a Barcelona seria de novo adiada. E nessa mesma tarde viajou para Paris. Mas contrariamente ao que tinha dito à mãe, não a avisou.
Tinha a morada de Simão, há dois anos. Tinha-lha dado o seu irmão João, numa altura em que pensava ir a Paris. Depois acabara por desistir da viagem. Não sabia se ainda morava no mesmo sítio, mas não tinha ouvido qualquer comentário sobre mudança. De qualquer modo, havia de encontrá-lo. Em último caso iria à galeria de arte, onde costumava expor as suas obras, e pediria a morada. Decidida, apanhou um táxi no aeroporto, para a morada que tinha.
A porta do prédio, estava aberta, e subiu as escadas até às águas furtadas. Uma tarefa complicada com os saltos altos e a mala de viagem. Sentia-se muito cansada, não sabia se pela longa escadaria, se pelo seu sistema nervoso. O coração batia-lhe tão forte que parecia querer saltar-lhe do peito. Por fim tocou a campainha. Pouco depois a porta abriu-se. Surpresa, alegria, emoção. O rosto dele, era um poema feito de emoções.
Descalço, envergando umas calças de ganga, o tronco nu, Simão passou a mão pelo cabelo murmurando:
- Vieste!
E ela tremente, sem deixar de o olhar:
-Vim.
Então ele baixou-se para apanhar a mala e disse:
- Entra. Desculpa receber-te assim. Não sabia que vinhas, estava a embalar as últimas telas para a exposição. Vêm buscá-las logo de manhã.
Pousou a mala junto à porta, pegou a camisa abandonada sobre o sofá e vestiu-a. Depois calçou os ténis.
Reparou que continuava de pé.
- Senta-te. Deves estar cansada.
Pegou-lhe na mão e esse contacto fez com que tremesse da cabeça aos pés. Sentaram-se no sofá. Perguntou suavemente:
- Porque vieste, Ana?
- Porque não conseguia esquecer o teu beijo.
Assim, simples e direta, fizera a confissão. Abraçou-a emocionado. Sem deixar de a fitar disse:
- Sabes que te amo. Amo-te tanto que me dói o peito. O maior sonho da minha vida, é viver a teu lado. Deitar-me contigo, e acordar a teu lado todos os dias da minha vida, é a minha noção de felicidade.
Falava devagar, calmamente como quem fala com uma criança. Não queria assustá-la com a força do seu amor.

reedição



Gente vocês acham que o Sexta está com um ar muito sujo?
Sabem quantos comentários anúncios de empresas de limpeza já mandei hoje para o Spam? 8 E já está ali outro na publicação em anterior. 
Isto é o coroar de um dia esquisito ou será que o blogue está mesmo a precisar de limpeza?



14.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXVIII




“Senhor, vós sabeis que eu não sei orar. Nunca ninguém me ensinou, como dirigir-me a Ti, mas sempre ouvi que Tu sabes o que vai nos nossos corações. Acredito que assim seja, afinal somos obra Tua. 
Assim sendo, sabes o que a minha mãe fez. Quero dizer-Te que lhe perdoei, e não lhe guardo rancor. Não Sejas muito severo com ela, que já expiou na terra o seu pecado, porque como Sabes, nunca foi feliz.
Senhor, quero agradecer-Te pelo tio que me deste, e pedir- Te que alivias a sua tristeza e a sua dor. E acreditando que Jorge Noronha, é o meu pai, também Te quero dar graças por tê-lo encontrado e por ele ser a pessoa  integra e digna que é. Obrigado meu Deus.
Senhor; quero ainda falar-Te de um homem que conheci há dias e que não me sai do pensamento. Nunca tinha conhecido ninguém que me impressionasse tanto. Como decerto não vou voltar a vê-lo, Faz com que ele seja feliz e que eu o esqueça. Obrigado, Senhor.”
Ficou ainda uns momentos em silêncio olhando a imagem do Sagrado Coração de Jesus, como se esperasse ver algum sinal de que Deus a escutara. Depois persignou-se e abandonou o local. Desceu a escadaria, e olhou o largo e a rua que se seguia. Ao contrário de quando chegara, nos últimos dias de Agosto, em que a cidade fervilhava de gente a toda a hora, agora, terminadas as férias os emigrantes regressaram aos países onde ganhavam a vida, não se via naquele domingo ninguém nas ruas. É verdade que Setembro ia bastante quente, mas ainda assim uma semana antes havia muita gente pelas ruas.
Ali mesmo ao pé da Igreja, na rua do Coval, estava a Casa da Ribeira, um Museu Etnográfico, um espaço de memórias de outros tempos, outras gentes, outros saberes. Helena gostava muito de artesanato, não ia deixar de ver, tanto mais que a visita era gratuita. Encantou-se com as técnicas usadas na fiação e tecelagem do linho. Conversou com a artesã, que estava a tecer uma manta de trapos, num enorme tear manual. Viu como a peça que ela tecia ia crescendo, viu as fotos dos antigos barcos que traziam os romeiros para a Igreja de Nª Srª da Conceição, de onde ela saíra minutos antes. Aprendeu toda a técnica de trabalhar a lã desde a tosquia, até à fiação, passando pela lavagem, secagem, e cardação. Viu as almofadas com o pique e os bilros onde as rendeiras faziam a bonita e delicada renda, como demonstravam as fotos na parede, e também sobre uma mesa algumas rendas já feitas.
 Encantou-se também com os trabalhos de olaria expostos, e pelas fotos viu como era trabalhado o barro, a sua cozedura e todo o processo até finalizar a peça. E ainda belos trabalhos de cestaria, em vários objetos expostos.
Foram quase duas horas em que se esqueceu de tudo, menos do que via e aprendia. Como o Museu tinha uma secção de venda ao público, ela adquiriu uma miniatura de uma estatueta em olaria, que lhe chamara a atenção, como recordação daquela visita.



O DIREITO À VERDADE - XXVII




No domingo depois de almoço, Helena foi visitar a zona da Ribeira nas margens do rio Paiva. A jovem deixara-se envolver pela beleza da zona, quando recebeu uma chamada do seu presumível pai. 
Jorge queria saber como ela estava, pedia desculpa de não ir à cidade estar com ela, mas como lhe tinha dito, a esposa estava doente, e além disso o mês de Setembro já ia na segunda semana, estava-se a entrar na época das vindimas, e havia muito trabalho na quinta. Confirmava o exame de ADN para o dia seguinte, e informava que estaria no hotel às dez para irem ao laboratório.
A jovem ficou feliz com o telefonema. Jorge era um homem conhecido e estimado na terra, segunda as informações que obtivera na Vinícola e no café de Nelas. Fora carinhoso com ela, não duvidara nem por um momento do que lhe contou, e mostrava-se um homem interessado e carinhoso mesmo antes de terem efetuado o teste e ter a certeza se era ou não sua filha. Oxalá fosse, Gostava da ideia de saber, que podia contar com alguém que a amasse, e lhe oferecesse o ombro quando ela precisasse. Claro que ela tinha o tio Alberto, que sempre fora muito carinhoso com ela, e que tinha redobrado de atenções depois que o filho morrera. Coitado do tio, a vida, como as madrastas más da história, roubara-lhe tudo. Primeiro a esposa, quando ele mal completara quarenta e cinco anos, deixando-o com um filho prestes a entrar na adolescência, e recentemente esse mesmo filho. Ela sabia que podia contar com o tio. O envelope que lhe entregara na estação era prova disso. Mas um pai é sempre um pai, e ela que nunca experimentara esse sentimento, rogava a Deus que o exame fosse positivo.
Helena estava agora junto da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, e resolveu entrar. Não tinha recebido uma educação católica, apesar de ser batizada. Gostava de visitar Igrejas, como quem visita um museu. Para admirar a arquitetura, as pinturas, os retábulos, a riqueza interior. Porém naquele momento a necessidade que a fez entrar na Igreja era outra. Pela primeira vez sentia vontade de estar em comunhão com Deus, de conversar com ELE.
Antes de entrar viu a informação sobre o monumento. Datava do século XVIII, mas sofrera várias transformações a maior das quais no início do século vinte, quando construíram a escadaria que lhe dava aquele aspeto cénico.
Entrou. A Igreja de uma só nave tinha três belos retábulos. O principal, do altar, dedicado a Nª Sª da Conceição. Os outros dois mais pequenos, colocados, um de cada lado do espaço do altar, dedicados ao Sagrado Coração de Jesus, e a Santo António.
Na Igreja estava apenas uma mulher já idosa que ia desfiando as contas de um rosário.
A jovem ajoelhou, um pouco mais atrás e ficou em silêncio, observando o altar, talvez tentando entrar em contato com o divino, ou talvez buscando no seu íntimo as palavras, com que devia dirigir-se a Deus.