-Há uns dias fui surpreendido com uma carta muito
estranha – disse abrindo a gaveta e retirando a carta que entregou ao
investigador. - Com a carta veio esta cópia de registo de nascimento, de uma menina. Como podes ver, registada como minha filha. Não sei o que pensar porque
de uma coisa eu tenho a certeza absoluta. Não conheci essa tal Susana e não sou o pai da miúda. Decidido
a prová-lo fiz o teste do ADN. Chegou hoje o resultado, e como eu tinha a
certeza, confirma que não sou pai da criança. Mas acrescenta que posso ser um familiar
direto e aconselham-me a repetir o exame, para determinar o grau de parentesco.
Tinha anunciado à tia da miúda que ia impugnar o registo logo que recebesse o
resultado do teste de ADN e agora não sei o que fazer. Se a criança é da minha
família não quero abandoná-la a uma vida de privações, quando eu tenho mais do
que o suficiente para o resto da minha vida.
Passou o relatório do laboratório ao amigo que o analisou cuidadosamente:
Passou o relatório do laboratório ao amigo que o analisou cuidadosamente:
- De posse do resultado deste teste, podes pedir a
impugnação judicial, do teu nome no registo da criança, apresentando
um requerimento fundamentado neste resultado. É melhor arranjares um advogado,
ele te aconselhará como deves fazê-lo. Provavelmente o juiz pedirá um novo teste num
laboratório indicado pelo tribunal. Acontece que se o resultado se mantiver, a
criança é sem dúvida um familiar teu. Por outro lado, se a amiga dessa
Susana, que frequentava a Universidade com ela, te reconheceu na foto que lhe
mostrei, a pessoa em questão terá que ser uma pessoa muito parecida contigo.
- Mas não sou eu. Eu nem sequer sabia da sua existência,
juro.
- Acredito. De repente passou-me uma ideia pela
cabeça. Pode ser maluquice, mas …
- Desembucha, estás a pôr-me nervoso.
- Tu juras não ter conhecido a mãe da criança, mas ela
estava convencida do contrário. Por outro lado, se não te conhecia como sabia o
teu nome completo, a freguesia onde nasceste e todos os dados que estão nessa cópia de registo?
-Como hei de saber? – disse Ricardo levantando-se e
caminhando até à janela. – Não sou adivinho.
E no entanto só há uma hipótese. Alguém namorou com ela
em teu nome e lhe deu os teus dados. Por outro lado atendendo a esse resultado,
tinha que ser alguém da tua família e bastante parecido contigo. Diz-me uma
coisa? Quando foi a última vez que o teu irmão esteve em Portugal?
Ricardo voltou-se repentinamente.
- Que queres dizer com isso?
- Não me dirás que não é o tipo de coisa que o teu irmão
costumava fazer.
- Sim, claro, mas na altura era um miúdo. Agora é um homem, casado e
com família. Por pouca simpatia que me tenha, não teria como fazer isso. Depois
a Susana era uma miúda. Quase podia ser filha dele.