Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta secretária. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta secretária. Mostrar todas as mensagens

5.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XIII

A avó viu-a entrar. Leu-lhe o desespero no olhar. Uma sombra de tristeza, perpassou-lhe pelos olhos cansados. Conhecia aquele filme. Tinha-o visto dez anos antes. E dessa vez ficou cinco anos sem ver a neta. Se a história se repetia, tinha a certeza de que nunca mais a veria. Esperou um pouco e foi ter com ela ao quarto. Ouviu o choro da jovem. Abriu a porta, e sentando-se na cama, perguntou:

- Que aconteceu, Isabel? Há uma hora atrás, parecia que estava tudo bem.
- Ele lembrou-se de mim, avó.
- Lembrou-se? Como assim?
-Disse que se esqueceu de perguntar-te pela tua neta, que sempre estava por cá nesta altura.
- E isso que tem, Isabel? Eram tão amigos, é natural que se lembre. Filha se não te explicas, não consigo perceber, porque é que isso te faz chorar. Afinal a minha neta, és tu.

- É que ele disse que a amava como uma irmã. Como uma irmã, avó. Entendes? Foi assim que ele me viu há dez anos, foi assim que sempre me amou. Em contrapartida, eu sempre o amei como homem. Desde os doze  anos, antes mesmo de saber que era  amor, aquilo que sentia. Não me consigo imaginar com mais ninguém. E não penses que nestes dez anos, não tentei. Eu pensei que se fosse trabalhar com ele, sem ele saber quem eu era, podia fazer com que se apaixonasse por mim. Todavia ou sou a sua secretária, ou a amiga, com quem gosta de conversar. Nunca mostrou qualquer interesse pela mulher que sou. Acreditas que nunca me tocou?

-Nunca te tocou, como?
- Tu sabes que os invisuais sentem as coisas com a ponta dos dedos. Ele nunca me pediu para tocar o meu rosto. Porquê? Porque na verdade, não lhe interessa se sou bonita ou feia, se tenho a pele lisa, ou cheia de rugas.

-Ele não acabou, já o livro? Então o que tens a fazer, é deixá-lo e seguires com a tua vida. Ainda que agora te pareça impossível, um dia acabarás por esquecê-lo. O tempo é um excelente remédio. Não queiras transformar-te numa heroína da Idade Média. Hoje em dia já ninguém morre por amor. Vamos lá, levanta dessa cama vai lavar a cara e vem ajudar-me com o jantar.

Levantou-se e dirigiu-se para a porta. Embora sentindo-se impotente perante o sofrimento da neta, tinha que ser firme. Gostava do jovem. Conheceu-o de garoto, viu-o crescer e fazer-se homem. Depois os pais morreram, ele ficou sozinho, e de vez em quando, visitavam-se. Confiava tanto nele, que nem se preocupou com a admiração que a neta tinha por ele, nem com os constantes passeios dos dois. Sabia que ele nunca lhe faria mal, nunca lhe passou pela cabeça que o perigo para a neta, viria dos seus próprios sentimentos. Nem mesmo quando mais tarde suspeitou disso, sempre pensou que era uma paixoneta de garota que logo esqueceria. Agora estava assustada com a força daquele sentimento.

20.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE VI

 


Isabel abriu o portão e disse ao homem que estava no jardim, que ia por causa da vaga de secretária. Ele pediu-lhe para esperar, e entrou em casa. Voltou pouco depois e levou-a ao escritório. Ela ia olhando para a casa. Estava bonita, mais moderna, mas mais impessoal. Tão diferente daquilo que ela se recordava.

O homem abriu a porta, deu-lhe passagem e fechou-a atrás dela. Na sua frente, Hélder encontrava-se recostado num cadeirão, com o cão a seu lado. Tinha vestido umas calças cinzentas, e um polo azul-escuro.

Mentalmente fez as contas. Se ela tinha vinte e seis anos, ele tinha trinta e seis. Parecia mais velho. Tinha já alguns fios de cabelo branco. O rosto moreno, continuava bonito, apesar dos óculos escuros, que escondiam os outrora brilhantes, olhos castanhos.

- Bom-dia, - saudou. - Venho por causa da vaga de secretária.
- Bom-dia. A agência não me informou de que tinham mandado alguém.
- Bom, é que não vim mandada pela agência.
- Como assim?
- É que ouvi um comentário no talho, em que diziam que estava à procura de uma secretária. Eu estou a trabalhar num escritório de advocacia na cidade, mas como moro aqui se conseguisse empregar-me cá, era muito melhor para mim. Assim resolvi tentar a minha sorte.

- E diz que trabalha num escritório de advocacia? Naturalmente vai dar-me o nome e número de telefone para que possa confirmar e tomar referências.
- Claro, sem problema.
- Bom, se decidir dar-lhe o lugar, quero que saiba que não quero mexericos, não quero saber que a minha vida ande na praça pública. Também poderá, uma ou outra vez, sair mais tarde. De qualquer modo será sempre compensada monetariamente cada vez que o seu dia, vá para além do  horário normal.

- Não tenho por hábito falar da vida de ninguém,- retorquiu ela
- Já nos conhecemos? Parece-me que reconheço a sua voz, - disse franzindo a testa, como a procurar recordar-se.
 - Passei por si, ontem na praia e saudei-o. Deve ser daí – apressou-se a dizer Isabel.
- Talvez, – não parecia muito convencido. - Como disse que se chamava?
- Não disse. Chamo-me Isabel Antunes.

Era o apelido de sua mãe, antes do casamento. Tinha a certeza que apesar de não poder mudar o nome, ele não associaria aquele apelido a ela. Se é que ele se lembraria dela.
- Bom, deixe-me os seus dados, e o número de contacto. Terá notícias em breve.
Ela já estava preparada para isso. Retirou a folha da mala e estendeu-lha. Ele rodou o braço na procura do papel e encontrou-o.

- Bom dia, senhor, - disse ela voltando-se e encaminhando-se para a porta. Abriu-a e saiu. Mal chegou ao jardim ligou para o escritório e falou com a telefonista da empresa, dizendo-lhe que era provável que lhe ligassem para pedir referências sobre ela. Devia dar as melhores, como secretária, e de maneira nenhuma dizer que era advogada. Só então se dirigiu à casa da avó.
“A sorte está lançada. Vamos ver onde me levará” – murmurou.

15.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE IV



Depois do jantar, como já era tarde, e a avó se deitava cedo, Isabel arrumou as suas roupas e como a noite estava quente resolveu dar um passeio. Enquanto o fazia, pensava no que a avó lhe tinha contado. Hélder estava cego. Como era possível? O que teria acontecido? E era escritor? Ela nunca ouvira o seu nome ligado à literatura, nem vira nenhum livro dele. Decerto usaria um pseudônimo. Mas qual? 

De súbito viu-o no passeio do outro lado da rua, e agora sim, reconheceu o cão guia. Ficou parada no passeio, vendo como o cão parava junto do portão do jardim, que ele abria, e entrava, fechando-o atrás de si.

Sentiu uma pena enorme dele, e dela que em dez anos não esquecera um único dia, a vergonha da rejeição que sofrera, e o amor que desde menina lhe devotava.

Lentamente tomou o caminho de casa, uma ideia martelando na sua cabeça. A avó dissera que ele andava à procura de uma secretária. E se ela fosse essa secretária? Tinha aquele mês de férias, e depois podia pedir férias sem vencimento. Afinal nunca lhe davam casos importantes para defender pois no escritório, todos sabiam que mais cedo ou mais tarde sairia, para ir viver com a avó e montar um escritório passando a exercer lá a sua profissão.

 Mas enquanto montava ou não o escritório, enquanto arranjava clientes, podia ser secretária dele. A questão era que ainda não tivesse preenchido a vaga, e que não soubesse quem ela era. Para isso teria que pedir segredo à avó.

No dia seguinte, falaria com ela. Depois iria, vê-lo e tentar ganhar o lugar de secretária. Talvez quem sabe, ficasse a saber a razão daqueles dez anos de ausência,  do que tinha feito entretanto, e do seu pseudônimo literário. 

Será que ele se lembrava dela? Que guardaria uma boa recordação daqueles tempos, ou ficara tão zangado que a eliminara das suas lembranças?
A noite estava bastante quente. Isabel, tomou banho, enfiou um curto pijama de Verão, e finalmente adormeceu.
 
Acordou cedo. Lavou o rosto, escovou os dentes e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou a avó a fazer as torradas.
Deu-lhe um beijo e disse:
- Senta-te avó, eu faço o pequeno-almoço. 

5.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLI

                                        


Após alguns minutos de indecisão, Olga entrou no gabinete do empresário e encontrou-o de costas junto à janela. Conhecia-o bem demais, para não saber que era a atitude que tomava quando alguma coisa o incomodava. Não se atreveu a perguntar sobre a visita do advogado, limitou-se a recolher o tabuleiro com as chávenas vazias e a perguntar:

- Precisas de alguma coisa?

Sobressaltado voltou-se. Perdido nos seus pensamentos não dera pela entrada da sua assistente.

- Não. Pousa isso e senta-te. Preciso falar contigo, - disse encaminhando-se para a sua secretária e sentando-se.

Olga obedeceu e aguardou. O patrão parecia-lhe tão transtornado, que apesar de toda a confiança que os unia, não se atreveu a fazer-lhe perguntas. Depois de um curto silêncio ele perguntou:

- Tu tens mais dez anos do que eu, verdade?

- Quase onze, sabes bem disso, - respondeu Olga sem descortinar a razão de semelhante pergunta.

- E aos dez, onze anos,  as crianças já guardam recordações que ficam para a vida. Sempre moraste naquela casa?

Cada vez mais intrigada, ela respondeu;

-Nasci lá. Meu pai recebeu-a do meu avô, como prenda de casamento.

- Tu lembras-te da minha mãe?

- Sim.

- Como era ela? Não me refiro ao físico, mas como pessoa.

- Porque queres saber isso agora, se nunca permitiste a ninguém que te falasse dela? O que aconteceu? Quem era aquele advogado, e porque é que quando eu entrei vocês pareciam dois galos de combate antes de uma luta?

- Mais tarde eu te conto, agora por favor, responde à minha pergunta.

- Sim lembro-me bem da tua mãe. Era uma mulher de sorriso doce com uns olhos iguais aos teus, mas tão tristes, que pareciam estar sempre cheios de lágrimas, embora na verdade nunca me lembre de a ver chorar. Devia ser por causa das brigas que tinha com o teu pai.

- O quê? Ele maltratava-a? – perguntou levantando-se e encaminhando-se de novo para a janela.

- Queres saber se lhe batia? Penso que não, pelo menos nem eu nem a mãe, demos alguma vez por ela ter marcas físicas. Nas sabes bem que muitas vezes nem são os maus tratos físicos os que causam mais danos, A minha mãe, dizia que a pobre vivia enclausurada por causa dos ciúmes doentios do marido. Ela só saía de casa acompanhada por ele, e não podia falar com ninguém. Mesmo connosco só o fazia, quando ele estava na oficina. Hoje quando penso nisso, acho que ela tinha chegado a um ponto que só tinha dois caminhos à sua frente. Ou fugia para onde ele não a encontrasse, ou acabava com a vida. E nós nunca acreditámos que ela fugiu com um amante. Isso foi invenção do teu pai. Um dia no fim da manhã, quando cheguei da escola, encontrei a mãe a dar-te o biberão. Disse-me que a vizinha lhe pediu se ficava contigo enquanto ia ao posto médico onde tinha uma consulta. Nunca voltou. Mais tarde a mãe disse que desconfiara de alguma coisa, porque se despediu de ti a chorar.

- Meu Deus, e ele sempre me fez acreditar que ela era uma galdéria, capaz de nos abandonar para correr atrás de um dos seus amantes. E mesmo na hora da morte, quando me pediu perdão por não ter sido um bom pai, me disse que a culpa de ele ter sido assim fora dela, que toda a vida a amara e que depois que ela o abandonara se sentira morto por dentro e talvez por isso não tivesse sabido ser bom pai.

- Talvez ele acreditasse nisso. A minha mãe sempre dizia que aquilo não eram ciúmes, era doença.

-Mas vocês cuidavam da casa. Eu sempre pensei que eram amigas dele.

- O teu pai não era homem que tivesse amizade com ninguém. E nós cuidávamos da casa, das roupas, da comida, por ti. Diz-me quantas vezes te lembras do teu pai cozinhar para vós? Tu não terás memória disso, mas até quase aos quatro anos comias e dormias na nossa casa, como se fosses meu irmão. E durante esses quatro anos ele nunca bateu à nossa porta para perguntar como estavas.  Um dia, sem qualquer explicação chegou lá, pegou-te num braço, levou-te para casa e nunca mais te deixou ficar connosco passando a levar-te com ele para a oficina. Mas porque nós víamos a pouca importância que ele te ligava, é que lá íamos fazer a comida e limpar a casa. Era por ti, não por ele.

- Obrigado Olga.  Vou sair. Amanhã ou depois conto-te tudo. Tudo isto é muito doloroso para mim.  Agora preciso arrumar ideias, respirar ar puro.

 

17.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XX


No regresso ao seu gabinete, ao passar pela secretária da sua assistente, João reparou no olhar curioso que ela lhe lançou, e sorriu pensando no quanto Gloria estaria desejando saber quem era a visita e porque estivera tanto tempo com ele. Porém ia deixá-la curiosa mais uns minutos, não por malvadez, mas porque queria ler o cartão que Teresa lhe deixara, e ver no computador se existia a tal padaria-pastelaria “Flor da Avenida”.
Feito isso,  guardou o cartão na carteira, e só então chamou Olga.
-Já avisaste o Afonso, para abandonar a pesquisa? – perguntou assim que ela entrou no gabinete.
-Já. Ele mostrou-se atónito, mas disse que amanhã falava contigo, hoje, como já está perto da hora de saída, não valia a pena vir cá. Confesso que eu também estou surpresa. Estavas tão decidido há dias. Que se passa, fizeste novos exames e já sabes que não tens que te preocupar, ou a tua decisão tem alguma coisa a ver, com a visita daquela mulher, que não conhecias e com quem passaste mais de uma hora?
O empresário esboçou um sorriso.
- Estava a ver que a curiosidade te engasgava antes de perguntares. Senta-te. Aguardou que se sentasse em frente da secretária, e continuou.
-Teresa Sobral é a mulher que procurávamos. Ela também foi informada pelo Centro Clínico do erro, e não sei porquê, mas talvez porque receassem que se eu fosse para tribunal, ela se veria metida em apuros, revelaram-lhe o meu nome.
- E ela procurou-te por…
Olga não se atreveu a concluir a frase. João era um homem muito rico, e uma mulher ambiciosa podia utilizar o seu filho para ficar bem na vida. Porém, ela não conhecia Teresa e não queria fazer maus juízos.
-Procurou-me para me pedir que não avançasse com nenhuma ação sobre o caso e a deixasse em paz durante três meses, dizendo que é nestes primeiros três meses que mais abortos espontâneos acontecem e não queria perder a criança, por se sentir demasiado pressionada.
- Nisso tem razão. E o que vais fazer, entretanto? Vais pedir ao Emílio para investigá-la?
-Não. Ela disse-me quem é, onde vive, o que faz. Inclusive a razão porque procurou a Procriação Medicamente Assistida em vez de querer uma gravidez natural. Combinamos que depois destes três meses vamos encontrar-nos e decidir o  futuro, em função da criança, que como ela diz é filha dos dois.
- E confias nela? Achas que te vai deixar fazer parte da vida da criança, conviver com ela?
- Sabes como sou desconfiado e como gosto de me precaver em todas as situações da minha vida. Todavia confio nela, sim. Observei-a durante todo o tempo que aqui esteve e nem uma única vez a sua linguagem corporal me disse, que o que ela me estava a dizer era mentira.
- Bom e então, como pensas resolver o assunto? Vais contentar-te em ver o teu filho uma ou duas vezes por semana?
- A falar verdade, ainda não pensei nisso. Ainda estou a digerir a situação. E pronto saciei a tua curiosidade?
-Pois, para ser sincera, ainda não. Podias ser simpático e contar-me porque recorreu ela à PMA e não engravidou como toda a gente. É jovem, bonita...
-Não está em nenhuma relação e parece não as desejar.
- “Deus os fez, Deus os juntou”, como dizia a minha mãe.
- O que queres dizer com isso? - perguntou o empresário
- Que é outra desiludida da vida, como tu, - respondeu Olga levantando-se. Bom são sete horas. Está na minha hora de saída.
Se não precisas de mais nada, vou sair. Até amanhã.
-Até amanhã Olga.





A nossa gratidão pelas vossas carinhosas mensagens pelo nosso aniversário.
Bem Hajam!


10.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XVII


Tentando aparentar uma calma que não tinha, João voltou para o seu lugar e sentou-se.
- Muito bem, Teresa. Suponho que não tenha inconveniente em que nos tratemos pelo nome. Vamos resolver o assunto com calma entre os dois, pelo menos durante a gravidez, de modo algum, quero ser o motivo, de um possível aborto. Deseja tomar alguma coisa?
- Uma água por favor.
Ele carregou no intercomunicador e disse:
- Olga, por favor, traz-me um café. E um copo de água para a dona Teresa!
Enquanto aguardavam pelas bebidas, ficaram em silêncio, observando-se mutuamente. Era como se cada um estudasse o outro, na tentativa de descobrir se eram ou não confiáveis.
Pouco depois, Olga entrou trazendo um tabuleiro com as bebidas que poisou sobre a secretária.
- Mais alguma coisa? – perguntou Olga ao poisar sobre a secretária o tabuleiro com as bebidas.
-Localiza o Afonso e diz-lhe que abandone a missão, e regresse à empresa.
-Sem nenhuma explicação? – perguntou.
-Mais tarde, falo com ele.
Quando a porta se fechou atrás da assistente, João  disse:
- Como deve calcular, quando o Centro Clínico entrou em contato comigo, fiquei revoltado, aquela era a minha única hipótese de ser pai, de ter um herdeiro, que desse sentido ao trabalho, de toda uma vida, de sentir o que é ter nos braços um pequeno ser, a quem amar, proteger e educar. Quero esse filho. Pelo que me disse há pouco, você deseja-o de igual modo, pelo que não vou correr o risco de a ofender, oferecendo-lhe dinheiro para que mo entregue quando nascer. De modo que temos um problema para resolver. O que pensa fazer?
- Como bem disse, é um problema que temos de resolver, mas de momento a única coisa que quero é paz. Quase mal acabei de saber, que o filho que tanto desejara, estava a caminho; e sem ter sequer tempo para festejar, dizem-me que houve um erro, que o pai dessa criança está disposto a tudo para ma tirar, que por causa disso posso ver-me envolvida numa longa batalha judicial, que a imprensa vai levar meses a alimentar-se do escândalo, vai esmiuçar a minha vida até ao meu nascimento, quiçá para além disso. Não preciso do seu dinheiro, tenho mais do que suficiente para criar e educar sem esforço, um ou dois filhos, porém podia precisar muito, trabalhar sem descanso, dia e noite até à exaustão, que não aceitaria nunca dinheiro, para ceder os meus direitos de mãe.
Fez uma ligeira pausa, como que tentando reorganizar os seus pensamentos, enquanto o empresário a olhava admirado com a paixão que ela punha nas palavras, e mentalmente se interrogava, se ela usaria a mesma paixão na intimidade da sua cama. Passou a mão pela testa, tentando afastar tão inoportunos pensamentos, enquanto Teresa alheia aos seus pensamentos, continuava:
- Não sei se sabe, mas a maior parte dos abortos espontâneos acontecem nos primeiros três meses de gravidez, razão porque nós, mulheres, não gostamos de falar do nosso estado, antes de decorrido esse tempo. Compreendo o seu desespero, e em consciência sei que não lhe posso negar o direito de ver, e conviver com a criança, tal como os casais que se separam não o podem fazer. Seria uma crueldade, e eu não sou cruel.


7.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XVI







Olga bateu levemente à porta do escritório e entrou de seguida.
- O porteiro acaba de informar que está a subir a Teresa Sobral para a entrevista das dezasseis horas. Não está na minha agenda, esqueceste de me avisar? – perguntou.
- Como assim? Não marquei nenhuma entrevista para esta tarde, - disse João olhando-a com estranheza. - Para falar verdade, nunca ouvi tal nome. Será alguma cliente?
- Não sei, mas já deve estar lá fora. O que faço?
- Atende-a, pergunta-lhe qual o assunto e se for uma cliente encaminha-a para a secção de vendas. O Afonso também não telefonou hoje?
- Não. Sabes que ele só aparecerá quando conseguir uma informação válida. Bom vou ver o que quer a visita.
Olga saiu fechando a porta atrás de si e dirigiu-se para a sua secretária. A mulher que se encontrava de costas junto da janela, voltou-se e aproximou-se.
- Boa tarde! Venho falar como senhor João Teixeira.
- Boa tarde. Diz-me o seu nome por favor? – perguntou Olga pegando na sua agenda.
- Teresa Sobral. Mas não perca tempo a procurar, não está aí. Por favor, pode informar o seu chefe de que preciso muito de falar com ele?
- Não, sem saber qual o assunto. O doutor João é um homem muito ocupado, ainda há minutos me informou de que não devia interrompê-lo, e que devia passar a informação de que ele não estava.
-É uma pena, porque vou entrar na mesma, - disse encaminhando-se resolutamente para a porta, surpreendendo Olga que levou alguns segundos a reagir, o bastante para que Teresa abrisse a porta e se introduzisse no gabinete, perante o olhar atónito do homem que se encontrava sentado à secretária.
- Desculpa, surpreendeu-me e entrou sem autorização, - disse Olga da porta. - Chamo os seguranças?
- Não. Já que a senhora se deu a tanto trabalho para falar comigo, tenho curiosidade em saber o que a trouxe aqui. Volta para o teu lugar. Se for caso disso, eu mesmo chamo os seguranças.
A secretária saiu e por momentos reinou o silêncio no escritório. Depois João disse:
- Por favor, sente-se e diga-me ao que vem. Se é cliente deveria ter-se dirigido à secção de vendas e se pretende um emprego às Relações Públicas.
Ela sentou-se. Entre os dois a enorme secretária em madeira de mogno, e o silêncio.  Nervosa, Teresa remexia as mãos no colo sem saber como dizer ao que vinha. Pela primeira vez desde que saíra de casa, pensou que talvez se tivesse precipitado e estivesse a fazer asneira, mas já não havia como voltar atrás.
- Então, senhora, estou à espera.
Ela respirou fundo e disse:
-Eu também estou à espera, e se tudo correr bem vou esperar por nove meses…
João levantou-se de um salto, deu a volta à secretária e aproximou-se dela.
-Quem é você? E o que quis dizer com isso?
- Eu, sou a mulher que o senhor procura. Fui informada pelo meu médico do erro que o Centro Clínico cometeu ao fazer o procedimento, que me deixou grávida. Aquela que recebeu a doação de um material genético que não tinha sido doado. Também fui informada de que o senhor queria saber quem tinha sido a recetora, e que ameaçava o Centro com os tribunais e a imprensa. Sei que é poderoso e que o pode fazer, todavia vim informá-lo de que não tenho qualquer culpa do que aconteceu, a criança que trago no ventre é meu filho, e não estou disposta a perdê-lo porque o senhor decidiu armar um arraial, que me deixou de rastos e me fez abortar.
As palavras saíam-lhe aos borbotões, como água que brota da rocha.


15.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE VI


Visivelmente irritado, João Teixeira, desligou a chamada. Levantou-se e foi até à janela, de onde observou a rua lá em baixo, onde as pessoas se cruzavam em passo acelerado, como formigas em carreiros diferentes.
Depois de uns momentos, voltou para a secretária. Alto, bem constituído, vestia um fato azul, cujo casaco repousava nas costas da cadeira, e camisa branca que acentuava a largura dos seus ombros. Sentou-se e passou os dedos pelos cabelos castanho-escuro, já salpicados por alguns fios brancos, afastando da testa uma madeixa rebelde. Parecia preocupado e irritado.
Carregou no botão que o ligava ao gabinete da sua assistente.
Quase no mesmo instante, ouviu-se uma batida na porta e uma mulher dos seus quarenta e cinco anos, de cabelo curto e fato creme, entrou no gabinete com um bloco.
- Ainda não acabei o relatório que me pediste, - disse.
-Não foi por isso que te chamei. Liga para o departamento jurídico, e pergunta se o Afonso Cardoso está, e se estiver diz-lhe que estou à sua espera no meu gabinete.
- E se não estiver, pode ser outro advogado?
-Não.
-Pareces irritado. Aconteceu alguma coisa?
- Desculpa, agora não dá para falar nisso. Mais tarde te conto!
- Muito bem, vou ver se encontro o advogado. Não era hoje que ele tinha uma audiência, por causa dos tipos que fizeram aquelas cópias piratas?
- Tens razão. Então é provável que ainda esteja no tribunal. Envia-lhe uma mensagem para o telemóvel, caso ainda não tenha regressado.
- Precisas de mais alguma coisa?
- De momento não, obrigado.
Olga era a sua assistente. Mas era muito mais do que uma secretária, era o seu braço direito como soe dizer-se.  Conheceu-a quando tinha dezoito anos e a cabeça tão cheia de projetos, quanto de sonhos. Era sua vizinha e contrariamente ao seu pai, que levava a vida a insistir com ele, para ir trabalhar na sua oficina de mecânica, e a queixar-se do “madraço” do filho, que estava sempre agarrado ao computador e não queria fazer nada, Olga incentivava-o a aperfeiçoar a sua ideia, e ajudou-o a registar o seu jogo e a  comercializá-lo através de uma reputada distribuidora.  João tinha fé no jogo, mas nem em sonhos, pensou que o seu sucesso fosse tão retumbante, nem que lhe desse tanto dinheiro.
Assim que começou com a empresa, na altura num barracão alugado, convidou Olga para sua secretária. Nessa época, ela estava a trabalhar numa empresa de venda a retalho, mas aceitou imediatamente a sua proposta. Isso, tinha sido há quase dezasseis anos, e desde essa época muita coisa tinha acontecido na sua vida.
Tinha criado um império,  geria um negócio que movimentava muitos milhões, e empregava quase meio milhar de trabalhadores entre engenheiros eletrotécnicos e de computadores, engenheiros de controle, analistas de sistema, especialistas em jogos digitais e toda uma vasta gama de outros técnicos, que produziam não só peças e programas, como computadores e telemóveis, numa empresa que era, no seu género, a maior da Península.
 Ouviu-se um toque na porta e de seguida Olga entrou.
- Aqui tens o relatório que pediste. Telefonou a Rita Sampaio, da Academia Moderna, diz que estão com problemas no programa que lhe instalámos. Não conseguem entrar no stock das sucursais de Almada e Setúbal.  Mandei o Aníbal Guerreiro para lá. E já falei com o Afonso. A audiência terminou há momentos, ele está a caminho.
-Fá-lo entrar assim que chegue.

3.6.20

ISABEL - PARTE XVI


foto do google


Quando na manhã seguinte Amélia chegou à agência, Isabel já se encontrava na sua secretária, analisando alguns documentos.
- Bom dia saudou. Caíste da cama?
- Bom dia, - respondeu Isabel. Estive quinze dias fora. Foi muito tempo. Preciso ver como estão as coisas. Há aqui dois clientes novos?
- Potenciais clientes, Isabel. Com a crise, as pessoas retraem-se e não compram. Por isso alguns empresários começam a investir em campanhas mais agressivas. Esses dois querem algo assim. Agora que chegaste vou marcar uma reunião para veres o que desejam e tentar fazer o contrato.
- E a Luísa?
- Ah! Esqueci de te dizer. A Luísa só vem de tarde. Foi chamada à Segurança Social. O tempo de estágio termina no fim do mês. Vais contratá-la?
- Estou a pensar nisso. Estamos a precisar de ajuda e ela mostrou-se competente. É responsável e criativa o que no nosso trabalho é muito importante. Não vamos meter outra estagiária e perder tempo a ensinar tudo de novo. Ela já é a quarta estagiária que tivemos. As outras não tinham grande aptidão para o lugar. Agora que encontrámos uma competente, é uma estupidez mandá-la embora.
Durante uns segundos ficaram em silêncio. Depois…
- Isabel é verdade que não aconteceu nada nas férias?
Levantou a cabeça e olhou-a franzindo as sobrancelhas. Mas não respondeu.
Segundos depois Amélia insistiu:
- Ontem senti-te estranha. De vez em quando parecias ficar ausente. Entre nós nunca houve segredos. Sempre pensei que devias arranjar um namorado. E tu, tinhas dito poucos dias antes das férias, que te começava a pesar a solidão. Tinha esperança de que arranjasses alguém. Todas as vezes que te liguei senti que tudo estava igual. Mas ontem não. Até o Afonso comentou comigo que estavas estranha. Aconteceu alguma coisa? Não queres falar disso agora?
- Não há nada para falar, Amélia. Aconteceu que tive dois ou três encontros casuais com um homem no qual penso mais do que devia e isso desorienta-me. Na vida só amei o Fernando. Depois disso sempre que pensava refazer a vida, a imagem dele e as recordações sobrepunham-se ao meu desejo. Parecia-me que estava cometendo uma traição. Isso fazia com que logo desistisse.
Fez uma pausa. Passou a mão pela testa num gesto habitual quando algo a incomodava. Depois continuou
- Sabes que adoro crianças, e sempre sonhei ser mãe. Talvez seja o meu relógio biológico que alterou o meu equilíbrio hormonal e emocional, ou quem sabe o facto de me encontrar sozinha no mundo, pois como sabes sou filha única de pais que também não tinham irmãos. O certo é que ultimamente tenho-me sentido diferente. E de vez em quando, dou comigo a pensar como seria diferente se tivesse um homem a meu lado. Um homem que partilhasse o meu amor, as minhas preocupações, os meus sonhos, e a minha loucura. Claro que tento compensar com o trabalho, é nele que escondo as minhas fraquezas, e os meus desejos.
Calou-se e por breves instantes escondeu o rosto entre as mãos. Amélia foi até junto dela e poisou a mão sobre o seu ombro.
- As férias estavam quase a acabar – prosseguiu Isabel. No Sábado esbarrei na praia com um homem que me segurou nos seus braços por breves instantes. E não sei o que me aconteceu mas esse homem mexeu comigo. Santo Deus como mexeu. Penso nele de dia, sonho com ele de noite. Estou desorientada.


Nota: Hoje vou para o hospital de Santa Maria a fim de que o cirurgião que me fez o transplante veja como está o olho, e o que fazer a seguir uma vez que apesar de ter visão, coisa que não tinha antes do transplante, continuo a ver ondulado e meio desfocado.  A outra consulta por causa da retina que era para as 10h de hoje foi remarcada ontem para as 10h do dia 3 de Agosto.


7.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XVII


Mais um mês se passou, sem qualquer novidade digna de relevo na vida de Sandra. Continuava a ser uma excelente secretária, e a ver Gabriel quase todas as noites, num convívio que se ia a pouco-e-pouco tornando mais difícil, com o homem fugindo dos seus sentimentos e ela sofrendo em silêncio, numa espera feita de ansiedade e desespero. Continuava a ir ver o pai sempre que as visitas eram permitidas, e cada dia o achava mais desanimado. 
Gabriel  que viajara para o estrangeiro, já estava ausente há quatro dias, quando o inspetor se apresentou naquela tarde, no escritório, finalmente portador de uma boa notícia. Tinha conseguido a prova para reabrir o processo e libertar o pai de Sandra.
Reunira as provas precisas contra Fernando e podia agora provar sem qualquer dúvida que fora ele quem se apoderara do dinheiro e forjara as provas que haveriam de condenar o contabilista. O homem tinha o vício do jogo, mas era um jogador azarado. Perdera grandes somas de dinheiro, e estava a ser ameaçado de morte, pelo que o dinheiro do desfalque servira para pagar essas dívidas. O dinheiro mal entrara na sua conta, fora direcionado, para o pagamento das mesmas.
- Então e agora? – perguntou a jovem.
Agora vamos entregar ao juiz, o resultado desta investigação, e esperar que ele ordene a reabertura do processo e revogue a sentença que ditou a prisão do seu pai.
- E isso ainda vai levar muito tempo?
Algum. E há outra coisa. Eu não posso fazer isso, toda esta investigação, foi feita de modo particular, a pedido do Gabriel, de quem sou amigo desde criança. Isto tem que ser tratado por um advogado. Vocês têm algum?
- Não. Na verdade, na altura meu pai, foi defendido por um advogado nomeado oficialmente. O ano passado consultei um de renome, mas cobra muito caro. E eu só posso contar com o meu ordenado.
- Todavia vai ter que nomear um, para que possa tratar do caso e apresentar ao juiz as provas que inocentam o seu pai. Quando o tiver, ele que entre em contacto comigo e eu lhe entregarei todas as provas que consegui. Agora o mais importante, é que seu pai vai poder provar a sua inocência, sair em liberdade, e provavelmente até, ser indemnizado por danos morais. E o Gabriel, quando volta?
- Não sei. Penso que chegará esta noite, ou amanhã de manhã. Tem uma reunião agendada com uns clientes importantes para amanhã à tarde, e não me pediu para cancelá-la.
- Diga-lhe que me telefone logo que possível.


6.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XVI


Ela que nunca fazia perguntas, não se conteve e perguntou enquanto lhe servia o café.
-Então? Há alguma novidade?
- O Pedro pensa que pode haver. Ele encontrou uma imagem do Fernando, no gabinete de contabilidade. O registo da hora, marca as vinte e uma horas, e a essa hora é suposto não haver ninguém na firma, a não ser alguém que esteja a fazer serão para acabar algum trabalho extra. Se fosse o teu pai que lá estivesse a essa hora, seria normal. Qualquer outra pessoa, não podia estar naquele gabinete, aquela hora.
- E quem é esse Fernando?
- O sobrinho do meu ex-sócio. O curioso é que ele nunca trabalhou na empresa, oficialmente. Mas lembro-me que uns dois meses antes de descobrirmos o desvio, ele passou um tempo lá, ajudando o tio, que tinha sofrido um enfarte e estava muito débil.
- Então pode ter sido esse Fernando, a cometer o desfalque?
- Pode. Todavia para ter acesso à conta, ele tinha que ter acesso à senha do teu pai. O Pedro, diz que tem que investigar a vida do Fernando, por essa altura, pois não se pode acusar uma pessoa sem ter provas para manter a acusação. Só com provas consistentes, poderá ter na mão a chave para reabrir o processo.
- Mas como é que esse Fernando, teve acesso à senha do meu pai?
-Na altura ainda não tínhamos o actual sistema de segurança. Ele só foi introduzido depois do desfalque. Tínhamos  segurança privada nas instalações, mas a segurança informática e bancária deixava muito a desejar.
Segundo o Pedro, se ele conheceu a senha do tio, era fácil conhecer as outras, já que na altura, havia uma senha única, que correspondia à empresa, seguida da inicial do nome do utilizador. Ele não ia utilizar a senha do tio nem a minha. Se utilizasse a da Alice,  a secretária, provavelmente ninguém acreditaria e a investigação podia chegar até ele. Mas utilizando a do teu pai, e sobretudo  adulterando os livros, provava a culpabilidade dele. Acontece que é essencial saber, se havia motivações e tentar seguir o rasto do dinheiro. Só conseguindo-o teremos a prova, para reabrir o processo.
- E como vão conseguir isso, agora tanto tempo depois?
-Para nós seria impossível, mas não para um investigador da Judiciária, e o Pedro é dos melhores. Pode levar algum tempo, mas ele consegue, podes acreditar.
- Obrigado. Nunca te poderei pagar o que estás a fazer por nós. O meu pai tem sofrido tanto!
-É também por mim, Sandra. Não posso permitir que haja quem pense que o fiz para obrigar o meu sócio a vender-me a sua parte, e acabei condenando um inocente à prisão.
- Nunca me perdoarás, pois não? – perguntou com tristeza.
Ele sorriu.
-Não há nada a perdoar Sandra. Se estivesse no teu lugar, era capaz de ter pensado o mesmo.
Levantou-se, e encaminhou-se para a porta.
- Vai descansar. Quem sabe, não demorará muito a teres o teu pai de volta.


4.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XIV





Depois daquele fim-de-semana alucinante, em que o patinho feio da empresa se transformou num belo cisne, e fechadas que foram as bocas de espanto, com o novo visual da secretária, a vida parecia ter voltado ao normal. 
Parecia, porque não raras vezes, depois daquele dia, Gabriel visitava Sandra à noite. Como se houvesse prévia combinação, chegava pelas dez horas, perguntava se ela lhe oferecia um café, e seguia para a sala, enquanto a jovem ia preparar a aromática bebida. Durante uma hora, conversavam de tudo e de nada, e pelas onze horas ele levantava-se e ia embora.  O que o levava a agir assim, nem ele próprio entendia. O que sabia é que às vezes na solidão da sua grande e luxuosa sala, sentia uma necessidade premente de conversar com ela, saudade do calor humano que sentia na modesta sala de Sandra. 
 Ninguém que conhecesse Gabriel, acreditaria, que ele sentia necessidade de estar com uma mulher, que não fosse sua amante, e no entanto nunca houvera nada entre eles, nem sequer uma insinuação de ordem mais intima. Durante as horas de expediente, as suas relações, eram agora as de qualquer chefe, com a sua secretária. Educadas e profissionais. À noite, eram… bom a falar verdade nem ele mesmo sabia o que eram. Só sabia que aquele estranho ritual lhe dava um imenso prazer, e que se sentia em casa dela, como alguém que anda perdido e de repente encontra o seu porto de abrigo.
Por vezes sentia uma vontade louca de a beijar.  Todavia sabia que se a beijasse, não se contentaria só com isso. E provavelmente ela não lhe iria perdoar nunca, e ele não arriscaria de modo algum, perder aquela sensação de bem estar consigo e com os outros, tão desconhecida até uns meses atrás. 
Por isso, quando o desejo ameaçava tornar-se maior do que a sua força de vontade, despedia-se e regressava a casa.
Sandra não dizia nada. Limitava-se a fechar a porta e a encostar-se nela sorrindo tristemente. Depois que teve a certeza de que ele não era culpado do desfalque que tinha jogado o seu pai, na prisão; e que estava sinceramente disposto a ajudá-la a descobrir a verdade, o seu coração solitário e carente não resistiu. Apaixonou-se como uma adolescente. Todavia não tinha ilusões, nem acreditava no futuro daquele amor. Afinal ele era um homem rico, com uma grande empresa, e ela era apenas a filha do homem que segundo a justiça o roubara.
No seu intimo, acredita que Gabriel terá por ela um sentimento semelhante ao seu, embora talvez ele não o reconheça. Conhece-lhe o desejo, percebe a luta que ele trava consigo mesmo.
Por sua vez, ele sabe, que ela nunca será sua amante. Do mesmo modo que sabe, que ainda não está preparado para aceitar e viver uma relação séria de casamento. Por isso vivem assim, a vida pela metade, o sonho presente, uma hora por dia, quase todas as noites.
E entretanto passaram três semanas e o inspetor Pedro, ainda não dera sinal de vida.


Nota: devem notar que tenho estado mais ausente nos últimos dias. Tenho estado com ardores nos olhos e muito chorosa, pelo que estou no computador o mínimo possível. Felizmente a história é uma reposição, pois há quase uma semana que só consigo escrever alguns comentários e pouco mais.

30.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XIII





- Estou a ver. E porque desistiu do disfarce?
- O senhor Gabriel descobriu-me. Na academia de dança.
- À sim, essa parte ele já me contou. E então o que fez, além de ser a eficiente  secretária do Gabriel?
- Eu, - voltou a olhar o rosto de Gabriel, como que pedindo desculpa. – Revirei as gavetas do escritório, pesquisei as pastas, tentei até entrar no seu computador, mas não descobri a password.
- E…
- Nada, senhor.
- Sabe que me espanta a sua ingenuidade? Então pensa que se o Gabriel, tivesse feito o que pensou, ele deixaria as provas aqui à mão de semear, à espera que alguém as viesse procurar? E mais, sabe que com essa confissão, pode ser despedida e denunciada pelo que fez?
Sandra limitou-se a acenar com a cabeça.
-Por favor Pedro, - interrompeu Gabriel - conhecendo as suas razões, eu nunca faria isso! 
- Sei que não. Conheço - te há muitos anos. E conheço o cordeiro que se esconde, sob a pele de lobo. Só quero que a Sandra tenha noção do risco que correu, porque o que fez é crime.  Agora diz-me, já tinhas câmaras de vigilância na altura do desfalque?
- Já.
E tens todas as gravações guardadas, ou são apagadas ao fim de algum tempo?
-Creio que estejam todas guardadas, mas sinceramente não sei. Foi o meu sócio que tratou do contrato com a empresa de segurança, e eles é que tratam disso. Mas podemos já saber disso. É só chamar o segurança de serviço - disse pegando no telefone, e chamando-o.
- E quem mais podia ter acesso à conta da empresa, sem seres tu, e o teu sócio? - perguntou o inspetor.
- Naquela altura, a firma não funcionava como agora.  Inicialmente a sociedade era composta pelo António e pelo meu pai. Eu entrei pouco tempo antes do desfalque, quando morreu o meu pai, e herdei a sua parte. A firma estava antiquada, em muitas coisas, e a segurança informática, não era lá grande coisa. O contabilista e a secretária, tinham acesso à conta, tal como eu e o meu sócio.
- A secretária? Tua, ou do teu sócio? E o que foi feito dessa secretária?
-A Alice assessorava-nos aos dois. Era uma senhora de meia-idade, que estava na firma desde a sua fundação. Faleceu há dois anos de ataque cardíaco.
Bateram à porta e o segurança entrou.
- Boas-tardes, - saudou
 - Boa-tarde, Francisco. Gostaria de saber o que fazem vocês às cassetes de video vigilância, - perguntou Gabriel
- Estão todas arquivadas por ano e mês, lá no depósito. Desde o início até agora.
- Obrigado. Pode retirar-se.
O segurança saiu fechando a porta. Gabriel perguntou então ao inspetor:
- Pensas que pode estar lá qualquer coisa que escapou aos investigadores? Porque eles examinaram-nas.  
- Não sei. Mas pode acontecer, se a data do desvio não coincidir com a data em que vocês deram por isso. Diz-me uma coisa, tens confiança no teu ex-sócio?
- Absoluta.
- E com que frequência vocês verificavam o saldo da empresa?
- Bom, recordo que na altura, eu ainda estava a tentar inteirar-me do que acontecia por aqui. Preocupava-me mais com os projetos que meu pai tinha deixado a meio do que com as contas. Isso estava mais com o António e nessa altura ele também andava um bocado em baixo não só com a morte do meu pai de quem era amigo há anos, como com a própria saúde.
- Isso torna possível que o desfalque tenha ocorrido algum tempo antes de vocês darem por isso, - concluiu o inspetor ficando por momentos pensativo. Depois de alguns segundos em que o silêncio reinou no gabinete, retomou a palavra e disse olhando para a jovem:
- Não prometo inocentar o seu pai, mas posso prometer que vou fazer todos os possíveis para descobrir a verdade sobre o desfalque. Vou ter que analisar as cassetes da video vigilância, desde o dia em que foi detetado o desvio até três meses antes. Calculo que por muito em baixo que estivesse o teu sócio, não levaria mais de três meses sem verificar o saldo da conta. Espero que as tenhas todas amanhã à tarde, Gabriel. Passarei por aqui no fim do trabalho, a recolhê-las. Peço que mantenham segredo absoluto sobre as nossas intenções, e não quero que ninguém saiba que a Sandra é filha do antigo contabilista. Para todos os efeitos, tudo tem que continuar como até hoje. Entendido?
-Sim - disseram os dois em uníssono.
- Então creio que podemos ir. – voltou-se para Gabriel. – Não te esqueças de ter as cassetes separadas para eu levar amanhã à tarde. Sandra, tenho que ir visitar o seu pai. Ele está onde?
- Em Monsanto.
-Muito bem. Vamos?
E os três encaminharam-se para a saída, onde se despediram e partiram cada qual para seu lado.

Só para os que estão a ler a história pela primeira vez.
Parece evidente que o Gabriel não teve nada a ver com o desfalque.  Então quem vos parece que tenha sido? Alice? António, o ex-sócio de Gabriel? Outro empregado? Ou Sandra está completamente enganada em relação ao pai?

E amanhã é de novo um dia especial, pelo que esta história continua a 4 de Maio.


28.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XII






No dia seguinte, depois de muito pensar, Gabriel decidiu que o melhor local para se encontrarem e falarem sem serem interrompidos, seria na empresa, que, como era domingo, estava fechada. Depois telefonou ao amigo e à jovem informando-os da sua decisão e confirmando a hora da reunião.
Gabriel, chegou um pouco antes da hora marcada, e aguardou no parque a chegada dos outros dois. Cinco minutos mais tarde chegou Sandra. Trajava um vestido preto que se ajustava ao corpo como uma luva e lhe descia até aos joelhos. Por cima uma casaquinha branca debruada a preto. O empresário ficou contente por ela ter posto de lado as ridículas e antiquadas roupas que usara até ao fim de semana anterior. O cabelo estava preso como de costume. Simples e muito elegante. Pouco depois, chegou o inspetor, e Gabriel  apresentou-os. Depois dirigiram-se para o escritório onde se sentaram. O inspetor foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Bom, Sandra, o Gabriel pôs-me ao corrente do que fez. Parece que andou por aqui, vasculhando o escritório dele, tentando encontrar alguma prova para ilibar o seu pai. Isso quer dizer que está convencida que seu pai é mesmo inocente. Posso saber o que lhe dá essa certeza?
- O meu pai jurou-me. Mas não era preciso que o fizesse. Conheço-o desde que nasci. Ele foi meu pai, minha mãe, meu amigo. Confio nele como em mim própria, senhor.
- Muito bem. Porém deve saber, que na maioria das vezes, as nossas certezas são falsas. Às vezes a pessoa tem tentações a que não consegue resistir.
- Não o meu pai. E se o senhor não acredita que ele está inocente, não vai ajudar-me em nada. O melhor é ir-me embora, - disse levantando-se.
- Por favor sente-se e acalme-se. O Gabriel pediu-me ajuda e eu vim. Isso significa que quero ajudar. Deve compreender que na minha profissão, somos desconfiados por natureza e não conheço o seu pai. Tudo o que lhe possa perguntar, será o mesmo que perguntaria em qualquer outro caso em que estivesse envolvido, na certeza de que procurarei acima de tudo a verdade. Nem por amizade ou mesmo laços familiares eu falsearia um resultado. Entendeu? 
-Sim. Peço desculpa!
-Não precisa. Sei que para si a situação é muito dolorosa. Voltando à nossa conversa. Que mais lhe disse o seu pai, além de jurar, que era inocente?
- Ele disse-me que alguém tinha armado as provas para o incriminar. E que se descobrisse quem o fez, descobriria quem tinha roubado o dinheiro.
-E ele desconfiava de alguém em particular?
- Não.
- E a Sandra? Desconfiou de alguém?
Ela enrubesceu e olhou para Gabriel. Sentiu como o rosto masculino endurecia, talvez estivesse magoado, mas ela tinha que ser sincera.
- Sim. Quando descobri que o senhor Gabriel Santana, comprou a parte do seu sócio, poucos meses depois da condenação do meu pai, acreditei que ele poderia ter feito o desfalque para desestabilizar a firma e fazer com que o sócio lhe vendesse a sua parte.
- E por isso conseguiu o lugar de secretária dele?
- Isso foi uma questão de sorte. A empresa onde trabalhara até pouco tempo antes, mudara a sede para o norte do país e eu não podia afastar-me de Lisboa, por causa das visitas ao meu pai e então despedi-me. Procurava emprego, quando vi o anúncio para a vaga e resolvi candidatar-me.
- É muito bonita, Sandra. Esperava apanhar o Gabriel seduzindo-o?
Sem se conter, Gabriel soltou uma gargalhada, enquanto ela corava até à raiz do cabelo.
- O que é que eu disse de tão engraçado? - perguntou o inspetor olhando para o amigo com estranheza. 
- É que não te contei. A Sandra resolveu disfarçar-se de alguém sem graça. Devias tê-la visto. Se não fosse uma ótima profissional, tinha-a despedido no segundo dia. Parecia... uma dama de um quadro de museu.


E porque amanhã é um dia de festa, não haverá esta história. Mas por favor não faltem. Estão todos convidados.