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domingo, 10 de maio de 2020

Cazuza - Só Se For A Dois [1987]

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Por Carlos Eduardo Lima em MonkeyBuzz

Nem sempre Cazuza foi chamado de “poeta”, “mito”, “exagerado” ou qualquer outra nomeação hiperbólica, fato tão comum e inescapável quando lemos algo sobre sua carreira e seu fim tão triste e abrupto. Houve tempo em que Cazuza era apenas um integrante do Barão Vermelho ou, mais ainda, um ex-vocalista de banda, em busca de um caminho só seu, dada a circunstância de seu carisma ter ultrapassado as fronteiras às vezes pequenas e limitadoras de uma banda de Rock. Poucos sabem que Cazuza foi o último integrante a fazer parte do nascente grupo carioca, que ensaiava na casa do tecladista Maurício Barros, durante as tardes do início dos anos 80. Leo Jaime, então conhecido como Leo Guanabara, recebera o convite para integrar o Barão, mas declinara e decidira colocar Frejat, Guto, Mauricio e Dé em contato com seu amigo Cazuza, que ele conhecia das noites do Baixo Leblon e do grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone. Quando o quarteto ouviu os vocais derramados e intensos de Cazuza, descobriu que havia encontrado o frontman que tanto buscara.

Em 1985, logo após o Rock In Rio, Cazuza deixou a banda. Teve uma carreira vitoriosa à frente do Barão, cravara hits eternos do Rock oitentista como Beth Balanço, Maior Abandonado e Pro Dia Nascer Feliz mas era hora de seguir sua trajetória solo. O primeiro disco, Exagerado, lançado pela Som Livre ainda em 1985, teve na faixa título um hit nacional, parceria com Leoni, então egresso do Kid Abelha. Além dela, Codinome Beija-Flor também cravou a imagem de um Cazuza entre o furioso e o lírico, sempre caracterizado pela dicotomia e pela oscilação. Medieval II, Mal Nenhum (com Lobão) e Só As Mães São Felizes também fizeram bonito neste primeiro disco, mas o ápice viria com o trabalho seguinte, espremido entre a estreia e a delimitação de novos espaços como artista solo e a superexposição que viria com o terceiro álbum, Ideologia, a ser lançado em 1988, em meio às suspeitas sobre Cazuza estar com AIDS, algo que ele admitiria logo em seguida.

Só Se For A Dois foi gravado no fim de 1986 e lançado no ano seguinte por conta de problemas com a gravadora. A Som Livre, braço das Organizações Globo, era dirigida por seu pai, João Araújo, e estava dispensando seu elenco para se dedicar apenas ao lançamento de trilhas sonoras de novelas. Cazuza teve seu segundo disco lançado pela Polygram, que o contratou logo após. A musicalidade dele já se mostrava muito mais evoluída, cada vez mais distante das sonoridades perpetradas pelo Barão Vermelho. A banda que Cazuza arregimentara para o novo trabalho também fazia a diferença, sobretudo pela presença do baixista Nilo Romero e do guitarrista Rogério Meanda. O próprio Cazuza diria estar exercitando um lado “cantor de churrascaria” no disco, algo fora do Rock. E estava mesmo. As interpretações são mais cuidadosas, mais contidas e elegantes. Canções como Lobo Mau da Ucrânia ou Balada Do Esplanada, que não chegaram a fazer sucesso, são pequenos achados dentro da poesia típica do cantor. Assim também o são Heavy Love e a faixa título.

O grande fascínio de Só Se For A Dois reside numa trinca de canções que estão no Top 5 da carreira de Cazuza. O primeiro hit do disco, O Nosso Amor A Gente Inventa (Uma Estória Romântica) é um pequeno primor de beleza, parceria de Cazuza com Nilo Romero e o tecladista João Rebouças. Versos como te ver não é mais tão bacana quanto a semana passada ou o teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer, o meu, poesia de cego, você nem pode ver são exemplos da evolução da estética cazuziana no que diz respeito a letras de amor. Neste mesmo caminho segue a segunda grande canção do disco, Solidão Que Nada, parceria com o kid abelha George Israel e Nilo Romero, que vai num arranjo mais lento e melancólico. O refrão on the run traz viver é bom nas curvas da estrada, solidão, que nada, bem no espírito do Rock nacional oitentista amadurecendo em meio aos holofotes da superexposição.

O grande momento do álbum vem em Vai À Luta, que se vale de arranjo Pop Soul, com metais e andamento curvilíneo. A letra de Cazuza fala sobre a fama fácil, o deslumbramento como consequência natural e se encaixa perfeitamente na melodia criada pelo guitarrista Rogério Meanda. Os versos originais eu te avisei, vai à luta, marca o teu ponto na justa foram subvertidos em um programa na Rádio Transamérica FM da época para eu te avisei, vai à luta, marca um encontro com a Xuxa, do tempo em que havia shows ao vivo nas rádios em programas especiais, feitos com visitas dos artistas aos estúdios das emissoras.

Em 1986/87, este escriba partia para o fim dos estudos no Colégio Santo Agostinho. Lembro de um colega querido que, ao ver o anúncio do show de lançamento do disco no Teatro Ipanema, me falou, entristecido: “poxa, eu queria ir ao show, mas não vai dar”. Eu perguntei o motivo e ele respondeu: “eu não tenho com quem ir”. Mesmo sabendo que ir sozinho a um show pode ser uma experiência melancólica, ainda o animei, dizendo que, se ele estava a fim de ver, deveria ir mesmo sozinho. Meu amigo, hoje médico de sucesso, ex-vereador na cidade de Macaé, me disse: “mas só podem entrar casais, o show é só se for a dois”. Sim, ele havia confundido o nome do espetáculo/disco com uma improvável exigência para assisti-lo.

Depois desse álbum, Cazuza se descobriria portador do vírus da AIDS e sua carreira iniciaria uma lenta decadência. Ainda haveria espaço para três discos, Ideologia (1988), O Tempo Não Para (1989) e Burguesia (1990). Só Se For A Dois foi editado em CD nos anos 2000, depois incluido em uma caixa comemorativa, junto com toda a discografia de Cazuza, ambos já fora de catálogo. Pode ser encontrado à venda em sites da internet por preços camaradas, que não ultrapassam R$ 30,00. É um belo registro de um Cazuza humano, normal, nada mais que um popstar brasileiro em seu tempo.



A1 Só Se For A Dois 4:00
A2 Ritual 2:45
A3 O Nosso Amor Agente Inventa 3:31
A4 Culpa De Estimação 3:00
A5 Solidão Que Nada 3:53
B1 Completamente Blue 3:18
B2 Vai À Luta 3:44
B3 Quarta Feira 3:49
B4 Heavy Love 3:00
B5 Lobo Mau Da Ucrânia 2:17
B6 Balada Do Esplanada

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Zé Geraldo - Sol Girassol [1984]

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A1 Sol Girassol
A2 Quem Nasce Zé Não Morre Johnny
A3 Semente De Tudo
A4 Primeiro Pensamento Da Manhã
A5 A Poeira, O Canto E Você
B1 A Fé
B2 Figueira
B3 Luz Ainda Que Tardia
B4 Cobra D'água
B5 O Preço Da Rosa
B6 Asas Partidas

domingo, 12 de abril de 2020

Leo Gandelman - Ocidente [1988]

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1 Sem Destino 
2 Ocidente
3 Pensando Em Você
4 Xafoul
5 No Ar
6 Techno-Macumba
7 Radio Sax
8 Pra Dizer Adeus
9 Saxsambando

domingo, 29 de março de 2020

Raul Seixas [1983]

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Por Flávio Magalhães em Memorial Raul Seixas

Após Abre-te Sésamo, Raul Seixas viveu um hiato involuntário de quase três anos. Saindo da CBS brigado com a direção da empresa, bateu em todas as grandes gravadoras com seu projeto de ópera-rock chamado Nuit, composto com a ajuda de Kika Seixas. Em vão, pois ninguém se interessou.

Era uma fase particularmente difícil para Raul, que alternava shows memoráveis – como a histórica apresentação na Praia do Gonzaga, em Santos (SP), para 180 mil pessoas – com verdadeiros fiascos – como o vexame em Caieiras (SP), onde se apresentou tão alcoolizado que foi confundido com um impostor e preso pelo delegado.

Foi quando veio o chamado do pequeno Estúdio Eldorado, que pertencia ao mesmo grupo do jornal O Estado de S.Paulo e estava sob a direção de João Lara Mesquita, fã de Raulzito. Produzido pelo saudoso maestro Miguel Cidras, o disco foi sucesso pela música Carimbador Maluco e rendeu mais um disco de ouro a Raul.
“Coleção de canções”

Raul Seixas afirmava que seu novo disco era apenas uma coleção de canções, que não havia nada para “guruzar” e que tudo era resultado de um período de “reciclagem” pelo qual passou. Já desligado do Estúdio Eldorado, um tempo depois, Raul se explicou melhor:


“Aquele foi um disco que eu fiz numa fase difícil, não sabia nem o que dizer pra Imprensa.
Eu não tinha nada, não tinha músicas, não tinha estrutura. Gosto de fazer trabalhos mais ricos e profundos, que atinjam vários setores culturais, que nem os Beatles faziam. Mas daquela vez só tinha mesmo uma coleção de canções, mais nada. E ainda por cima estava preocupado em fazer o comercial, o disco tinha que vender 80 mil, aquela coisa. Eu me sentia tão mal que foi só finalizar o LP e no dia seguinte já compus ‘Metrô Linha 743’. Vomitei tudo de uma vez, estava atravessado na minha garganta.”


Plunct-Plact-Zuum!

Feita para o especial infantil Plunct-Plact-Zuum!, da Rede Globo, a música Carimbador Maluco não fazia parte da edição original de Raul Seixas. Devido ao sucesso da canção, ela foi inclusa nas edições seguintes do álbum e foi a responsável pelo segundo disco de ouro da carreira de Raul.


A1 D.D.I. (Discagem Direta Interestelar)
(Kika Seixas, Raul Seixas)
A2 Coisas Do Coração
(Cláudio Roberto, Kika SeixasRaul Seixas)
A3 Coração Noturno
(Kika SeixasRaul Seixas, Raul Varella Seixas)
A4 Não Fosse O Cabral
(Lewis) versão (Raul Seixas)
A5 Quero Mais
(Cláudio Roberto, Kika SeixasRaul Seixas)
A6 Lua Cheia
(Raul Seixas)
B1 Segredo Da Luz
(Kika SeixasRaul Seixas)
B2 Aquela Coisa
(Cláudio Roberto, Kika SeixasRaul Seixas)
B3 Eu Sou Eu, Nicurí É O Diabo
(Raul Seixas)
B4 Capim Guiné
(Raul Seixas, Wilson Aragão)
B5 Babilina
(Vincent, Davis) versão (Raul Seixas)
B6 So Glad You're Mine
(Arthur Crudup)
C Carimbador Maluco
(Raul Seixas)

sexta-feira, 20 de março de 2020

Raul Seixas - Metrô Linha 743 [1984]

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Por Jeff Ferreira em Sub Mundo do Som

O disco Metrô Linha 743 foi o décimo segundo da carreira de Raul Seixas, lançado em 1984 pela gravadora Som Livre e produção de Alexandre Agra e do próprio músico, sendo muito bem recebido pela critica, porém com baixa vendagem, devido à falta de divulgação por parte da gravadora e ao lançamento no mês do álbum Ao Vivo - Único e Exclusivo, pela Gravadora Eldorado, sua antiga casa.

Raul Seixas assinou também a produção gráfica do álbum, onde remete aos anos 50 e a Alfred Hitchcock, no conceito da capa em preto e branco, remetendo ao ano que o músico teve que deixar o pais devido a repressão da ditadura militar.

Vou começar falando da música que não compõe o disco “Anarkilópolis (Cowboy Fora-da-Lei nº 2)”, na verdade não compõe o disco em seu lançamento original de 1984, mas em 2003 entrou como faixa bônus, depois de encontrado as gravações da época, e da ciência sobre o desejo de que a canção fizesse parte do álbum. Aqui Raul Seixas narra sobre os eventos na ficcional cidade de Anarkilólis onde “Cada um manda no seu nariz / por isso o povo lá é feliz”, e inclui versos de “Cawboy Fora da Lei”, já que a personagem central da música precisa resolver os problemas no gatilho.


"Montei no meu "silver-jegue" e parti com o firme propósito

de unir o útil ao agradável, pois Anarkilópolis era também
O berço da minha amada, a bela Josefina Lee
Filha única do meu amigo Xerife James Adean
Enquanto o jegue seguia rinchando eu seguia pela estrada cantando:
Eu não sou besta pra tirar onda de herói
Sou vacinado, eu sou cowboy Cowboy fora da lei"


O disco abre com a icônica faixa "Metrô Linha 743", em que Raul aborda através de seu lirismo, porém de forma direta os anos de chumbo da ditadura militar no Brasil, em que a liberdade de expressão não era bem quista, e faz alusão a obra de George Orwell, 1984.


"O homem apressado me deixou e saiu voando

Aí eu me encostei num poste e fiquei fumando
Três outros chegaram com pistolas na mão
Um gritou: Mão na cabeça malandro, se não quiser levar chumbo quente nos córneos
Eu disse: Claro, pois não, mas o que é que eu fiz?
Se é documento eu tenho aqui
Outro disse: Não interessa, pouco importa, fique aí
Eu quero é saber o que você estava pensando"

Na faixa dois, "Um Messias Indeciso", em que Seixas diz ter "a sua cara", que, inspirada no livro de Richard Bach, "Ilusões: As Aventuras de Um Messias Indeciso", em que faz uma critica ao teocentrismo contemporâneo, onde vontade própria e motivação divina se confundem:


"E acreditando em si mesmo

Tornou-se o mais sábio entre os seus

E o povo pedindo milagres
Chamava esse homem de Deus
Nas luzes do arredor
Quantos segredos terá"


Há quantas ilusões


A próxima música é "Meu Piano" é uma canção derivativa, uma brincadeira com um piano fora de lugar, que ficou conhecida na época por conter "o solo mais caro do Brasil", no qual o músico Clive Stevens recebeu 3 mil dólares para fazer um solo de sax. Com tom mais debochado e com backing vocals femininos, Raul mostra um mosaico de questões domésticas, com um resultado quase psicodélico, de um casal que se entrega a rotina e se afasta do romance.

Já experimente a casa inteira

E não achei um lugar pro meu piano

Entra ano e sai ano

Não cogito em fazer planos

E eu só gostei do quadro que não pintei!

Lá pras três da madrugada
A síndica embriagada
Resolveu escancarar

Numa briga com o marido

Num acorde sustenido
E o meu piano fora do lugar

Seguindo temos "Quero Ser o Homem que Sou (Dizendo a Verdade)", com humor inteligente e destaque para Rick com nervosa guitarra slide, aqui Raul fala de si mesmo, um homem que, apesar de inteligente, amoroso, e de outras tantas qualidades, erra bastante e não esconde isso de ninguém:

"Dizendo a verdade
Somente a verdade
Dizendo a verdade
Somente a verdade
Essa vã criatura indecisa no mal
Indecisa no bem
Sempre buscando venturas 
E sempre à procura das dores também
Com todos os desejos, pecados, receios 
Rancor e arquejos
Do animal que gargalha
E traz na boca rugidos e beijos!!"

EM "Canção do Vento" Raul Seixas, de forma lirica, fala sobre mudanças, sobre os anseios da juventude e quebra de tradições que travam o progresso. Destaque para a atmosfera que a música apresenta, trazendo em vários momentos o sopro do vento, a variação de instrumental também é muito interessante, alternando entre abalada e momentos de declamação de ode ao personagem vento.

"Vai, arrasta a chuva

Assanha estas nuvens de tempestade

Mas sopra doce o teu sopro
No rosto do moço que fala a verdade
Lá vai o vento, Brasil adentro"

Lá vai o vento, Brasil adentro

A canção seis é "Mamãe Eu não Queria" um clássico da insubordinação inspirada em “I Don’t Wanna Be a Soldier Mama”, do álbum Imagine, de 1971, de John Lennon, a música critica, em plena ditadura militar, o alistamento obrigatório. Essa música foi vetada pela censura, sendo proibida sua execução em público.

"Mamãe, eu não queria
Mamãe, eu não queria

Mamãe, eu não queria
Servir o exército
Nem pra sargento, cabo ou capitão
Nem quero ser sentinela, mamãe
Que nem cachorro vigiando o portão
Não!

Não quero bater continência"

A próxima faixa é "Mas I Love You", o ponto romântico do álbum, aqui Raul Seixas fez em homenagem a sua esposa Kika Seixas, música feita em momento delicado da carreira de Raul, com excesso no álcool e constantes conflitos familiar:


"Eu lavo e passo

Sirvo à mesa e faxino
Aprendo e te ensino
Posso até dirigir
Comprar um táxi
Só pra lhe servir

Deixo de ser coruja
Pra ser sua cotovia
E só viver de dia
Pra você ser feliz
Mas I love you..."

Na música oito tem uma parada bem interessante, Raul regrava a música "Eu Sou Egoísta", que havia sido lançada no disco Novo Aeon, do ano de 1975, e a mixagem feita com instrumentos em um canal e o vocal em outro, como era feito antigamente. Além disso, no final a trechos de canções de Dylan, Caetano Veloso, Lennon e do próprio Raul. Aqui a palavra "egoísta" tem um sentido diferente do seu uso comum, no sentido de fortalecer a palavra "eu", como alguém que gosta de si mesmo, não necessariamente sendo individualista:

"Eu sou estrela no abismo do espaço
O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço
Onde eu tô não há bicho-papão
Eu vou sempre avante no nada infinito
Flamejando meu rock, o meu grito
Minha espada é a guitarra na mão"


O álbum Metrô Linha 743 ainda conta com a regravação da canção "O Trem das Sete", que originalmente esteve no disco Gita, de 1974, e contou com um coro masculino, em que o músico usa o trem como metáfora para a passagem da vida para a morte:

"Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem

Quem vai chorar, quem vai sorrir ?

Quem vai ficar, quem vai partir ?
Pois o trem está chegando, tá chegando na estação
É o trem das sete horas, é o último do sertão, do sertão"

Encerrando o disco (antes da faixa bônus), tem a faixa "A Geração da Luz", música com uma diversidade de instrumentos de sopro, e letra profética que aborda o legado do próprio Raul. A música foi parte da trilha sonora do especial musical para TV Plunct, Plact, Zuuum... 2.

"Eu já ultrapassei a barreira do som
Fiz o que pude às vezes fora do tom
Mas a semente que eu ajudei a plantar já nasceu!!
Eu vou, eu vou m'embora apostando em vocês
Meu testamento deixou minha lucidez"



1 Metrô Linha 743
(Raul Seixas)
2 Um Messias Indeciso
(Kika Seixas, Raul Seixas)
3 Meu Piano
(Cláudio Roberto, Kika Seixas, Raul Seixas)
4 Quero Ser O Homem Que Sou (Dizendo A Verdade)
(A. Simeone, Kika Seixas, Raul Seixas)
5 Canção Do Vento
(Kika SeixasRaul Seixas)
6 Mamãe, Eu Não Queria
(Raul Seixas)
7 Mas I Love You (Pra Ser Feliz)
(Raul Seixas, Rick Ferreira)
8 Eu Sou Egoísta
(Marcelo Motta, Raul Seixas)
9 O Trem Das Sete
(Raul Seixas)
10 A Geração Da Luz
(Kika SeixasRaul Seixas)
11 Anarkilópolis (Cowboy Fora-Da-Lei Nº 2)
(Cláudio Roberto, Raul Seixas, Sylvio Passos)

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Zé Geraldo - Caminhos de Minas [1983]

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A1 Pelas Chaves De São Pedro
A2 Sabiá
A3 Uai Bichinho
A4 O Pastor E O Rebanho
A5 Acordando A Poeira Da Estrada
B1 Voar Voar
B2 Digital
B3 Poeta E Bandido
B4 Quatro Cantos De Saudade
B5 Cabocla Da Lua Nova
B6 Caminhos De Minas

sábado, 12 de outubro de 2019

Leo Gandelman [1987]

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A1 A Ilha
(William Magalhães, Leo Gandelman)
A2 Sax Driver
(Nico Rezende, Leo Gandelman)
A3 Gente Da Rua
(Toni Costa)
B1Sequestro Da Banda
(Leo Gandelman)
B2 Viagem (Se Eu Soubesse)
(Duda Cavalcanti, William Magalhães)
B3 Castelo De Areia
(Leo Gandelman)
B4 Folha Morta
(Ary Barroso) 

sábado, 28 de setembro de 2019

Barão Vermelho - 2 [1983]

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Por Redação SRzd

Segundo disco da Banda, lançado em 1983, apesar de conter alguns clássicos, ainda não tinha feito a banda estourar, mas semeou bem o terreno. O lado A abre com uma Intro que está ligada a Menina Mimada, um blues com uma intepretação bem danada de Cazuza. Um dos grandes clássicos da primeira fase da banda; O Que a Gente Quiser, apesar do tema da letra, não foi composta pelo Cazuza, música simples que aproximava mais a banda ao estilo New Wave do início da década; o mesmo se pode dizer de Vem Comigo, com sua melodia de teclado e levada no melhor estilo Blitz; apesar desse estilo anos 80 que marcava o início da maioria das bandas, o Barão se destacava pelo trabalho de guitarras de Frejat, marcado por influências do blues e do rock dos anos 50, Bicho Humano mostra bem essa ideia, além da interpretação de seu “brow”; por fim, Largado no Mundo, um blues de pegada acústica, bem marcado pela gaita característica do estilo.

O lado B inicia com um clássico visceral, Carne de Pescoço, com um riff matador de Frejat, bateria pesada de Guto Goffi; em seguida uma das músicas mais famosas da banda, Pro Dia Nascer Feliz, canção que marcou a apresentação da banda no Rock in Rio de 85, um hino de esperança em relação a campanha das “Diretas Já”, expectativa essa destruída com a eleição do Sarney e a saída de Cazuza meses depois; Manhã Sem Sonho, de Dé e Cazuza, trás algo bem eletrônico e dançante, liderado pelos teclados de Maurício Barros, e com um belo slap de Dé e da participação de Peninha na percussão, que viria a ser membro da banda nos anos 90 até hoje; já Carente Profissional traz um Riff de guitarra e um refrão bastante forte; o disco finaliza com Blues do Iniciante, uma belíssima balada ao piano.



A1 Intro
(Maurício Barros)
A2 Menina Mimada
(Cazuza, Maurício Barros)
A3 O Que A Gente Quizer
(Frejat, Naila Skorpio)
A4 Vem Comigo
(Cazuza,Guto Goffi)
5 Bicho Humano
(Cazuza, Frejat)
A6 Largado No Mundo
(CazuzaFrejat)
B1 Carne De Pescoço
(CazuzaFrejat)
B2 Pro Dia Nascer Feliz
(CazuzaFrejat)
B3 Manhã Sem Sonho
(Cazuza, Dé)
B4 Carente Profissional
(CazuzaFrejat)
B5 Blues Do Iniciante
(Cazuza, Dé, Frejat, Guto Goffi, Maurício Barros)

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Sérgio Sampaio - "Sinceramente" [1982]

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Por Thalita Pires em Rede Brasil Atual

Talvez você nunca tenha ouvido falar no cantor e compositor Sérgio Sampaio. Ou então só ouviu falar do maior sucesso dele, “Eu quero botar meu bloco na rua”, que é também o nome do primeiro disco, lançado em 1973. Em 1976, ele gravou “Tem Que Acontecer” e, em 1982, seguiu o modelo da produção independente, e colocou no mercado “Sinceramente”. Porém, desde então, ele descobriu como a música brasileira pode ser cruel. Caiu em profundo ostracismo e morreu em 1994, sem lançar o tão sonhado quarto álbum, “Cruel”, que só veio à tona em 2006 por insistência de Zeca Baleiro, que o produziu e lançou pelo selo Saravá Discos, o mesmo que relança agora o terceiro trabalho.

A premonição do que aconteceria já se manifestava na ótima faixa de abertura, “Homem de Trinta”: “Quase que eu fui pro buraco, / Por pouco não fui morar no porão, / Dancei, mas não sei não, / Tive cuidado de ter os pés / Quase sempre no chão / E a cabeça voando / Como se voa na imaginação”. Porém, a obra-prima é mesmo “Nem Assim”, que faz uma fantástica caricatura da mulher abandonada: “Pode inventar mentiras e até publicar, Que eu não sirvo mesmo pro amor, / Que eu sou um narcisista e mau compositor /… / Pode fazer comício nas praças do Rio / Em nome da dignidade da mulher, / Mostrar pra todo mundo as marcas / Que eu não fiz, /… / Você pode dizer o que quiser de mim… / Nem assim”. Espécie de complemento é “Faixa Seis”: “Você hoje pra mim / É a faixa seis / Do lado ‘B’ / Do meu último elepê / Aquela que o programador de rádio nunca toca / Aquela que o divulgador do disco evita / Aquela que fica espremida entre a quinta… /A quinta faixa e o final da fita”.

Ao escutar o álbum, é possível reconhecer a injustiça cometida pela indústria fonográfica voraz que não reconhece a força de boleros como “Tolo Fui Eu”, por exemplo, é arrasador: “Tolo fui eu / Quando em vão quis lhe dar meu amor / Que você nem sentiu, nem ligou / Mas aí pude ver meu valor, / Compreender que a razão de viver / É maior do que ter ou querer / Se você não quis ser minha razão, / Tola você”. O tormento segue na desbragada “Só Para o Seu Coração”, que parece um misto de Caetano Veloso com Eduardo Dussek.

A produção independente fica clara ao se saber que ele contou com a ajuda da família da esposa, Angela Breitschaft. O pai dela bancou o disco e o irmão Paulo fez as fotos da capa em Teresópolis. Certamente, eles não se arrependeram ao escutarem uma canção de extrema força dramática, como “Essa Tal de Mentira”: “De novo recomeçar, / Outra vez acreditar, / Compor, escrever, cantar, / Por música no ar…”. Tem um quê de Gonzaguinha e poderia – se é que não o fez – muito bem ter influenciado Chico César no modo de cantar. Mas nem tudo é tão desesperado. A prova é a animadinha “Meu Filho, Minha Filha”.

O único parceiro de Sérgio Sampaio nesse álbum é Sérgio Natureza, na balada “Cabra Cega”, que é sublime, graças ao saxofone tocado por Oberdam Magalhães e à letra que remete ao delírio coletivo e aos discos voadores. Nada mais setentista. A influência de Caetano Veloso também é nítida. Já Luiz Melodia participa do samba em homenagem a ele, “Doce Melodia”. Mas a proposta do álbum fica explícita mesmo é na faixa-título: “Não há nada mais bonito / Do que independente / E poder se conquistar, / Sair, chegar, / Assim tão simplesmente /… / Não há nada mais sozinho / Do que ser inteligente / E poder cantarolar, / Errar, desafinar / Assim sinceramente”.


A1 Homem de Trinta
(Sérgio Sampaio)
A2 Na Captura
(Sérgio Sampaio)
A3 Tolo Fui Eu
(Sérgio Sampaio)
A4 Só Para O Seu Coração
(Sérgio Sampaio)
A5 Essa Tal de Mentira
(Sérgio Sampaio)
B1 Meu Filho, Minha Filha
(Sérgio Sampaio)
B2 Cabra Cega
(Sergio Natureza, Sérgio Sampaio)
B3 Sinceramente
(Sérgio Sampaio)
B4 Nem Assim
(Sérgio Sampaio)
B5 Doce Melodia
(Sérgio Sampaio)
B6 Faixa Seis
(Sérgio Sampaio)

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Hélio Delmiro - Chama [1984]

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A1 Folha Morta
A2 Cerrado
A3 Ad Infinito
A4 Emotiva N°3
B1 Mulher Rendeira
B2 Quarto Minguante
B3 Tua
B4 Chama


Ficha técnica AQUI.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Os Replicantes - Histórias de Sexo & Violência [1987]

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Dois fatos curiosos sobre esse álbum. Esse é o primeiro registro da banda em que há composições de Wander Wildner. E segundo o wikipédia a canção Adultera sofreu censurada antes de ser lançada, fazendo que fosse gravada somente o refrão da música. O Relicário do Rock Gaúcho disponibilizou a letra:

Você Mulher solteira
Só pensa em se casar
Ter um pênis só para si
Constituir um lar

Adúltera, adúltera, adúltera, adúltera

De dia lava louça
De noite quer trepar
Seu homem está cansado
De tanto trabalhar

Adúltera, adúltera, adúltera, adúltera




A1 Chernobil
(Heron Heinz, Wander Wildner)
A2 Sandina
(Jimi Joe)
A3 África Do Sul
(Carlos Gerbase, Heron Heinz)
A4 Mistérios Da Sexualidade Humana
(Carlos Gerbase, Heron Heinz)
A5 Adúltera
(Zico)
A6 Sexo E Violência
(Carlos Gerbase, Claudio Heinz, Heron Heinz)
A7 Passageiros I
(Carlos Gerbase, Claudio Heinz, Heron Heinz, Wander Wildner)
B1 Astronauta
(Carlos Gerbase, Wander Wildner)
B2 Festa Punk
(Carlos Gerbase, Claudio Heinz, Heron Heinz)
B3 Nicotina
(Claudio Heinz)
B4 Amor Eu Preciso
(Carlos Gerbase, Heron Heinz)
B5 Tom & Jerry
(Carlos Gerbase, Claudio Heinz, Heron Heinz)
B6 Mentira
(Claudio Heinz, Heron Heinz, Wander Wildner)
B7 Passageiros II
(Carlos Gerbase, Claudio Heinz, Heron Heinz, Wander Wildner)

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Os Replicantes - O Futuro É Vortex [1986]

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Por Ugo Medeiros em Coluna Blues Rock via #collecctors_

O punk, acima de tudo, é uma forma de protesto. Diferentemente do estilo dylaniano, letras recheadas de críticas ao sistema aliadas à simplicidade musical característica ao folk, o punk usa o sarcasmo como principal ferramenta. Fugindo do arquétipo panfletário, que o rebaixou a mero contestador político-partidário, esse estilo teve suma importância social desde a sua primordial criação por bandas como MC5 e Stooges. A forma era simples: perturbar e cutucar o inimigo com vara curta à base de muito escárnio e fanfarronice. 

Passaram-se os anos e o estilo ganhou uma estética própria. O mundo se distraia com a Guerra Fria, mas a juventude estava mais interessada nos Ramones, Hüsker Dü, The Undertones ou Black Fag.

Apesar da década de oitenta ter sido, até então, a mais tranquila dos últimos trinta anos, a crise política (final da ditadura militar brasileira) e econômica (a famosa “década perdida”) tornavam a produção cultural brasileira um tanto esquizofrênica. Uma militância política parasitando as artes assolava e tirava toda a pureza das obras. Fosse um texto, uma encenação teatral ou musical, era necessário ter um elo político. O mercado da “produção cultural” viu que discursos e ideologias políticas vendiam bem, logo, bastava apenas "colocar trancinhas" para esconder o aspecto natural de Nosferatu.

Evidentemente, isso também influenciou o punk. Apesar do atraso de quase dez anos, o estilo chegou ao Brasil e de imediato consolidou uma das escolas mais significativas desse estilo. O movimento que começou em São Paulo logo ganharia reconhecimento por todo o território nacional. Se por um lado havia bandas com fortes vínculos com órgãos políticos (PT, CUT, MST, entre outros), havia aqueles que, ainda, tentavam mostrar o quão frustrante era esperar algo via encenação política. Nesse contexto, Porto Alegre dava a luz aos Replicantes, em 1983.

A formação inicial, e considerada clássica, contava com Carlos Gerbase (bateria), Wander Wildner (vocal), Cláudio Heinz (guitarra) e Heron Heinz (baixo). Após gravar um EP pelo selo Vortex com apenas quatro canções, "Rock Star", "O Futuro é Vortex", "Surfista Calhorda" e "Nicotina" – essas duas últimas tornando-se hits na rádio Ipanema - o grupo fez estrondoso sucesso na capital gaúcha.

O próximo passo seria um LP. O trabalho trazia muita expectativa, pois seria a oportunidade da banda mostrar que tinha calos o suficiente para se consolidar na cena roqueira nacional. O Futuro é Vortex (RCA) chegou às prateleiras e, consigo, trouxe novos ares que oxigenaram o processo criativo e a própria concepção do indivíduo e do movimento “punk”. O disco começa bem. "A Verdadeira Corrida Espacial" fala sobre os rumos que a humanidade escolhe. Ao escutar essa faixa, temos uma certeza: os sortudos pegarão o primeiro vôo para fora deste planeta, enquanto que os fodidos permanecerão nesse caos rotineiro a espera do juízo final (e claro, nesse meio tempo, tomando ferro!).

"Boy do Subterrâneo" traz um dos maiores medos da Guerra Fria, a possível guerra nuclear. Meu amigo, também geógrafo, Francisco Antunes, já chamara a minha atenção sobre a quantidade de bandas daquela época que exploravam esse tema. Alguém já parou para pensar aonde e o que fazem atualmente os cretinos da censura? Por onde anda a pessoa do Governo Militar que selecionava e carimbava as obras permitidas? Censor é uma reflexão sobre a apatia cultural causada pela repressão. Como a dita liberdade garantiu menos uma produção cultural rica em qualidade do que apenas em quantidade, acredito que esse “trabalhador” continuou mandato após mandato e, hoje, deve ocupar algum cargo no governo Lula. Ele mostra que se tem fidelidade apenas à quem assina o contracheque e que a palavra, e não o estado de coisa, “liberdade” foi apenas mais uma concessão do Estado. Teoria da conspiração? Foda-se, isso aqui é uma resenha de punk!

A agulha continua gritando em "Ele Quer Ser Punk" e "Hardcore", duas faixas curtas, entretanto bem diretas. O bom e velho rock’n’roll ressurgindo em uma terra onde ser roqueiro é ser “menos brasileiro”. "Hippie-Punk-Rajneesh" é uma das letras mais inteligentes do rock nacional e fala das diversas fases que um cara apaixonado passou ao longo da vida.

"Motel de Esquina" e "Mulher Enrustida" falam sobre mulheres. Na verdade, trazem letras bem lúcidas que representam tudo o que os homens sempre quiserem falar: apesar do nhe-nhe-nhé feminino, no fundo elas querem apenas sexo. Atualmente, tais composições seriam alvos do movimento feminista, resultando em ação judicial e ato público contra a banda.

A música homônima ao disco, "O Futuro é Vortex", mantém a pegada das anteriores. Porque não é praticamente um “selo de qualidade punk”. Em pouco mais de um minuto, o quarteto, finalmente, fala a verdade a respeito da música brasileira: “Agora eu sei qual é a deles. Já peguei no pé do Gil. Eu quero que o Caetano vá pra PUTA QUE O PARIU. (...) O Gismonti é um chato tô cansado de saber, o Chico era um velho mesmo antes de nascer. (...) O samba me da asma bossa nova é de fuder, prefiro tocar bronha e punkar até morrer”. Finalmente criou-se coragem para criticar os queridinhos da "intelectualidade" tupi repleta de brasilidades ...

O melhor fica reservado para o final. "Surfista Calhorda" é uma marca registrada dos Replicantes, um dos seus maiores sucessos. A moral dessa história de apenas três minutos e meio (a mais longa) é que sempre há um otário se achando o "rei da cocada preta". 

E por último, mas nem por isso a menos importante, "Festa Punk", um dos maiores hinos do punk tupiniquim. Impossível escutar e não se lembrar dos áureos tempos de “rodinhas”.

O Futuro é Vortex é um trabalho de importância ímpar para o rock nacional. Letras diretas, músicas curtas, o melhor da pegada punk e o mais ácido humor dão forma a essa obra seminal.

Escutar e divulgar o começo de carreira dos Replicantes é um exercício necessário para manter vivo a maior criação do homem: o rock!



A1 Boy Do Subterrâneo
(Gerbase, Heron)
A2 Surfista Calhorda
(GerbaseHeron)
A3 Hippie-Punk-Rajneesh
(GerbaseHeron)
A4 One Player
(Gerbase, Claudio)
A5 A Verdadeira Corrida Espacial
(Gerbase, Claudio)
A6 O Futuro é Vórtex
(GerbaseHeron)
B1 Choque
(GerbaseHeron)
B2 Ele Quer Ser Punk
(Claudio, Heron)
B3 Motel Da Esquina
(Claudio)
B4 Mulher Enrustida
(ClaudioHeron)
B5 Hard Core
(GerbaseHeron)
B6 O Banco
(Heron, Luli)
B7 Censor
(GerbaseHeron)
B8 Porque Não
(Gerbase, Claudio, Heron)

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Os Replicantes [1985]

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Heron Heinz - baixo
Carlos Gerbase - bateria
Claudio Heinz - guitarra
Wander Wildner - vocal


A1 Nicotina
(Claudio Heinz)
A2 Rockstar
(Claudio Heinz)
B1 O Futuro É Vortex
(Carlos Gerbase, Heron Heinz)
B2 Surfista Calhorda
(Carlos Gerbase, Heron Heinz)

terça-feira, 7 de maio de 2019

Itamar Assumpção - Intercontinental! Quem Diria! Era Só O Que Faltava!!! [1988]

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A1 Sutil
(Itamar Assumpção)
A2 Adeus Pantanal
(Itamar Assumpção)
A3 Pesquisa de Mercado I
(Itamar Assumpção)
A4 Oferenda
(Itamar Assumpção)
A5 Sexto Sentido
(Itamar Assumpção/Ricardo Guará)
A6 Pesquisa de Mercado II
(Itamar Assumpção)
A7 Ouça-me 
(Itamar Assumpção/Alice Ruiz)
A8 Maremoto
(Itamar Assumpção)
A9 Não Há Saídas
(Itamar Assumpção/Regis Bonvicino)
B1 Mal Menor
(Itamar Assumpção)
B2 Zé Pelintra 
(Itamar Assumpção/Waly Salomão) 
B3 Perdidos nas Estrelas 
(Itamar Assumpção/Arrigo Barnabé)
B4 Parece Que Foi Ontem
(Itamar Assumpção)
B5 Homem-mulher
(Itamar Assumpção)
B6 Ausência 
(Itamar Assumpção/Ademir Assunção)
B7 Filho de Santa Maria
(Itamar Assumpção/Paulo Leminski)
B8 Pesquisa de Mercado III
(Itamar Assumpção)
B9 Espírito Que Canta 
(Itamar Assumpção/Paulo Tovar)

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Cólera - Dê O Fora [1986]

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Depois de algumas coletâneas punk's e split's eis que o Cólera lança seu primeiro EP. Segundo o bandcamp da banda a comercialização desse EP tinha como intuito a arrecadação de fundos para a banda fazer um tour na Europa. Segue a nota:


"LIFE IS EXPENSIVE. ESPECIALLY WHEN YOU ARE A BRASILIAN BAND WHO WANT TO DO SOME GIGS IN EUROPE. SO WE MADE A DEAL WITH COLERA TO GET THEM HERE ON TOUR IN EUROPE. 

TO ORGANISE SUCH A TOUR WE NEED A LOT OF MONEY. THERE ARE A LOT OT THINGS TO DO, THE AIRPLANE IS EXPENSIVE... 

WITH THIS 4 SONGS EP WE HOPE TO MAKE A LOT OF MONEY TO COVER A PART OF THE HIGH COSTS OF THIS TOUR. 

SUPPORT THEM! 

ALL PROFITS WILL BE USED TO GET THEM IN EUROPE IN 1986. 

IN SOLIDARITY."


Val - baixo
Redson - guitarra e vocais
Pierre - bateria

domingo, 31 de março de 2019

Cólera - Tente Mudar O Amanhã [1985]

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Por Disco Furado

Depois de seis anos de atividade, participação nas três primeiras coletâneas de punk rock nacional – “Grito Suburbano”, “Começo do Fim do Mundo” e “Sub” – o Cólera estreou em disco com “Tente mudar o amanhã”.

Mesmo sendo uma das formações pioneiras do punk rock paulistano, e brasileiro, o Cólera foi uma das últimas a registrar um disco completo. E olha que não foi por falta de envolvimento com o “movimento” ou de conhecimento das possibilidades do D.I.Y. (Faça você mesmo) que o trio não só viveu como também gritou em sua poesia punk libertária e pacifista.

O álbum abre com a catastroficamente profética “1.9.9.2.”, ainda sob o medo nuclear, assim como em “Duas ogivas”, sobre a usina de Angra dis Reis. Se volta contra as guerras na antimilitar “Marcha” e à exploração social em “Em você”.

Dedica ódio à cidade de São Paulo nas clássicas “São Paulo” e “C.D.M.P.”, sigla que quer dizer “Cidade dos meus pesadelos”, cujos versos esbanjam niilismo punk, “puta merda de lugar” e “sem futuro”, versos presentes nas duas canções respectivamente.

Grande parte das músicas clama por ação, “Agir” e “Rasgando o ar”. Convida às ruas contra o fascismo em “Passeatas”, contra a miséria, “Sarjeta”, e contra a verticalização da justiça nacional em “Violar suas leis”.

Musicalmente não há grandes diferenças entre as canções. O baixo às palhetadas em volume alto segue a melodia dos vocais, com refrões cantados em três vozes, que é a melodia que se esconde no efeito serra-elétrica da guitarra. A bateria de Pierre é quase que um esquema que se repete em todas as músicas, sibila pratos de versos cantados em coro, economiza nas viradas, mas parece sempre bastante segura.

“Tente mudar o amanhã” teve sua primeira edição em vinil lançada pelo selo Ataque Frontal, que até então mantinha parceria do Redson, que nos anos seguintes assumiria a produção de muitos discos lançados pelo selo. As edições seguintes do álbum ficaram por conta do selo Devil Discos, casa de outros tantos discos do trio paulistano após a cisão com a Ataque Frontal.

O disco teve uma boa repercussão, mas o bicho pegou mesmo foi no segundo LP, “Pela paz em todo mundo”, de 1987, quando as vendas esgotaram tiragens e pavimentou a estrada para a lendária turnê europeia, realizada no mesmo ano.


A1 1.9.9.2.
A2 Marcha
A3 Nabro 3
A4 São Paulo
A5 C.D.M.P.
A6 Agir
A7 Palpebrite
A8 Duas Ogivas
A9 Amnésia
A10 Passeata
B1 Amanhã
B2 Eu Não Sou Você
B3 Rasgando No Ar
B4 Burgo-Alienacão
B5 Sargeta
B6 Disturbios
B7 Violar Suas Leis
B8 Condenados
B9 Não Existe Mais
B10 Em Você

terça-feira, 26 de março de 2019

Camisa de Vênus - Duplo Sentido [1987]

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Em 1987, (há exatos 30 anos), muitas coisas importantes aconteceram, tanto no âmbito musical como político-social. O mundo, a beira do abismo - como sempre parece estar -, apresentava vários problemas. A segunda-feira negra nos EUA. Acidente radioativo em Goiânia com césio-137. A Ditadura havia acabado recentemente, todos ainda se reerguiam, comemoravam e aprendiam o que era a liberdade novamente. Sarney estava no poder. Confusão política e financeira - com o planos Cruzado, Cruzado II, Bresser -, entre outros motivos.

Na música, o prospecto era mais positivo, já que estava recebendo material rico de todos os lados. Madonna com Who's That Girl, Michael Jackson na turnê Bad World Tour, Paralamas do Sucesso tocando na Suíça, lançando D, o primeiro ao vivo da carreira. Joshua Tree do U2, Guns N' Roses estreando no mundo e Pink Floyd lançava o 13º álbum, A Momentary Lapse of Reason. Ultraje a Rigor lançava o segundo álbum Sexo!!, Legião Urbana lançava o icônico Que País É Este? e finalmente chegamos ao sarcásticos e roqueiros do Camisa de Vênus.

A banda foi criada em 1980, por Marcelo Nova e Robério Santana, que logo convidou Karl Hummel, Gustavo Mullem e Aldo Machado para compor o quinteto. O nome Camisa de Vênus veio pelas reclamações que a banda recebia, quando falavam que o som era incômodo, então, Marcelo sugeriu o nome de Camisa de Vênus, por achar preservativo uma coisa muito incômoda.

A banda teve uma carreira turbulenta e rápida. Em 1982, lançaram o primeiro compacto e em 83, lançaram o primeiro álbum homônimo, que sofreu as represálias da censura, com o sucesso da música Bete Morreu. Em 84, o sucesso Eu Não Matei Joana D'Arc chega às rádios no segundo disco, Batalhões de Estranhos.

Em 1986, encerram o contrato com a gravadora RGE e lançam o álbum ao vivo, Viva, que comemora o contrato com a nova, WEA (atual Warner Music). Viva, contém palavrões e imperfeições, e Marcelo Nova, que não estava se importando com o fato da censura da Ditadura ainda estar presente, não manda o álbum para à apreciação da censura, que apreende 40 mil de cópias do disco. Lançam o terceiro álbum de estúdio, Correndo o Risco, responsável pelo sucesso da banda, com cover do Raul Seixas - Ouro do Tolo - e músicas como Simca Chambord, Só O Fim e Deus Me Dê Grana, com videoclipes.

Em 1987, a banda inovou ao lançar o primeiro álbum duplo brasileiro, o Duplo Sentido, com 17 músicas, que no LP foi divido em 4 lados. A banda, que havia estourado com o álbum anterior, Correndo o Risco, em 1986, realmente se arriscou nessa empreitada. E deu certo, apesar do estouro ter sido menor ao álbum anterior. As vendas chegaram a 40 mil cópias, sem turnê de divulgação. 

O álbum começa com a música Lobo Expiatório, que conta com o discurso de Tony Montana como introdução. Em 1983, Brian de Palma, lançou um clássico cinematográfico, Scarface. Entre vários trechos marcantes do filme, há um momento, em que o protagonista começa a entrar em decadência - gettin' high in his own supply -, dá um discurso no meio de um restaurante e inicia o fim de seu império.

Em 87, o país estava uma bagunça - com seu império caído - e Marcelo Nova se aproveitou disso como diversas bandas. A música se encerra de forma fatídica, que diz que, quem não sabe a história, está fadado a repeti-la: "É só conferir através dos tempos / Essa estupidez chega a ser histórica / É tão redundante, é tão previsível / Como não bocejar diante desta retórica", e em, País do Futuro, a crítica volta a se repetir: "Aqui não tem problema, só se você quiser / Este é o país do futuro, tenha esperança e fé (...) Nós vamos outra vez, pro fundo do buraco / Você não tem vergonha, e eu já não tenho saco". 

É clichê mencionar que as músicas são atuais, diante da situação política que nos é apresentada diariamente. As críticas são pesadas ao decorrer do disco, mas apesar de seriedade, há muita brincadeira, sarcasmo e ironia.

Ana Beatriz Jackson é um exemplo claro disso, remetendo a Billie Jean, "O filho não é meu, ela quem diz". Um rock bobo, necessário para época. 

Me dê Uma Chance e Deusa da Minha Cama, são as românticas do disco, com muito blues e sentimento, o primeiro de abandono e a última, de extremo amor, elevando o ser amado a uma divindade, onde quem ama não sabe como reverenciar ou agradecer o ser amado.

Chamam Isso Rock and Roll, é a clássica história de qualquer músico, que acabou caindo na rotina, com hotéis, mulheres, entrevistas, vôos e shows iguais.

O ápice do disco, com certeza, é a composição e gravação feita em parceria com Raul Seixas,Muita Estrela, Pouca Constelação. A crítica é feita à cena mainstream, onde todo mundo é artista e o ego tá lá em cima: "A burrice é tanta, tá tudo tão à vista / E todo mundo posando de artista / Eu sei até que parece sério, mas é tudo armação / O problema é muita estrela pra pouca constelação".

Último Tango, vem novamente para descontrair o ouvinte, que entre em contraste profundo com O Suicídio Parte 2, que traz a questão da depressão e o suicídio.

O último lado do disco, o D, é composto de covers: Enigma, de Adelino Moreira, Farinha do Desprezo, Capinam e Jards Macalé, A Canção do Martelo que é uma versão de Hammer Song da The Sensational Alex Harvey Band, Aluga-se, de Raul Seixas e Canalha, de Walter Franco.

A banda teve várias separações e após este disco, se reuniram novamente em 1995, para se separar mais algumas vezes antes de finalmente voltarem em 2015, para comemorar os 35 anos de existência da banda. Desde então, continuam em atividade, (ano passado) lançaram Dançando na Lua, o primeiro álbum de inéditas em 20 anos.


A1 Lobo Expiatório 
(Marcelo Nova/Karl Hummel/Gustavo Mullen) 
A2 O País do Futuro
(Marcelo Nova/Robério Santana) 
A3 Ana Beatriz Jackson
(Marcelo Nova/Karl Hummel/Gustavo Mullen
A4 Vôo 985 
(Marcelo Nova/Karl Hummel/Aldo Machado/Gustavo Mullen)
A5 Após Calipso
(Marcelo Nova/Karl Hummel/Gustavo Mullen
A6 Me Dê Uma Chance
(Marcelo Nova/Karl Hummel/Gustavo Mullen
A7 Deusa da Minha Cama
(Marcelo Nova/Karl Hummel/Gustavo Mullen
A8 Chamam Isso Rock And Roll
(Marcelo Nova/Karl Hummel/Gustavo Mullen

B1 Muita Estrela Pouca Constelação - Participação: Raul Seixas 
(Marcelo Nova/Raul Seixas)
B2 O Último Tango
(Marcelo Nova/Karl Hummel/Gustavo Mullen
B3 O Suicídio - Parte II
(Marcelo Nova/Gustavo Mullen)
B4 Chuva Inflamável
(Marcelo Nova/Karl Hummel/Gustavo Mullen
B5 Enigma
(Adelino Moreira)
B6 Farinha do Desprezo
(Jards Macalé/Capinan)
B7 A Canção do Martelo
(A. Harvey/Vrs. Marcelo Nova)
B8 Aluga-se
(Raul Seixas/Cláudio Roberto) 
B9 Canalha

terça-feira, 19 de março de 2019

Egberto Gismonti - Dança dos Escravos [1989]

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Por Márcio de Aquino em Palavras Domesticadas

Na véspera da data de lançamento de mais um disco - "A Dança dos Escravos", Egberto Gismonti ganharia destaque na edição de 17/12/89 do jornal O Globo, numa entrevista em que fala de seu novo trabalho. Seria o segundo disco lançado pelo músico naquele ano. A matéria, intitulada "Samplers fora da tomada", é assinada por Helio Muniz:

"Egberto Gismonti tirou os samplers da tomada e está lançando um LP sem acompanhamentos eletrônicos. Em 'A Dança dos Escravos' as engenhocas high-tech foram banidas. O disco é de Egberto Gismonti e seu violão, está pronto há sete meses, foi gravado na Suécia e lançado em toda a Europa. Aqui no Brasil, 'A Dança' chega às lojas amanhã, com 200 mil cópias vendidas, segundo a EMI-Odeon.

Apesar da expectativa de sucesso, Gismonti não vai fazer nenhuma turnê nacional para divulgar este que é o seu segundo lançamento em menos de um mês. O primeiro foi 'Kuarup', com a trilha sonora do filme de Ruy Guerra, que ele considerou 'uma ação entre amigos'.

Completando 21 anos de carreira, Gismonti diz que a trilha é um dos trabalhos mais bonitos de sua vida, mas admite ser parcial quando faz coisas com os amigos. E em 'Kuarup', Gismonti é amigo de todo mundo. Antonio Callado foi o primeiro a entrar no circuito, em 1968, quando lançou o romance 'Quarup' e pediu ao compositor para musicar o livro. Depois chegou Ruy Guerra, que encomendou a trilha sonora. Por último, veio Mário de Aratanha, dono da Kuarup Discos, gravadora que lançou o LP.

São grandes as diferenças entre os dois trabalhos. Enquanto em 'Kuarup' há duas orquestras - uma é a Transarmônica D'Amla D'Omrac, modo como Egberto chama seus samplers e computadores - na 'Dança dos Escravos' o músico optou pela simplicidade. Para Gismonti, cada trabalho nasce de uma forma diferente, não há fórmulas ou caminhos a serem seguidos:

- 'A Dança' é meu primeiro disco com violão puro, e estou muito ligado nele. Mas não significa que vou trabalhar sempre assim. Meu próximo disco pode ser completamente diferente. Gosto de experimentar e adoro os instrumentos eletrônicos.

Os compromissos internacionais não deixam muito espaço em sua agenda. Ele viaja para os Estados Unidos e Canadá no final de março, numa grande turnê. Volta em julho, toca por aqui e em outubro vai ao Japão e à Austrália.

- O desgaste existe, mas me divirto muito também. Numa hora, desço no aeroporto de Tóquio, com violão do lado, depois estou no piano na Austrália. Isso é gozado. E não me impede de compor, porque faço música em qualquer canto, não tenho frescura para criar.

Egberto Gismonti é o artista brasileiro que mais faz shows no exterior e um dos mais respeitados pela crítica internacional. Apesar disso, ele diz que quanto mais viaja pelo mundo, mais se considera um cidadão de Carmo, um lugarejo perdido na fronteira do Rio de Janeiro com Minas Gerais:

- Lá eu me sinto reconhecido sem precisar fazer nada. Sou só um sujeito que conhece todo mundo e é lembrado como o 'filho de mestre Antonio'. Essa é a minha forma meio irracional de encarar certas coisas. Aliás, tem horas em que o racionalismo só atrapalha.

A conversa volta sempre para o tema preferido de Egberto: os amigos.

- Considero o filme o melhor do mundo e a trilha sonora uma das melhores coisas que fiz porque estava entre amigos. Para mim, amigo não erra nunca, tudo o que eles fazem é o melhor que existe.

Num ano normal, Egberto Gismonti faz quase 200 shows pelo mundo inteiro. Ele não considera muito, mesmo para quem garante detestar o esquema do show business. A explicação é muito simples. Depois de conseguir da EMI os direitos de comercialização de seus discos no exterior, ele tem que tocar mais. Quando termina um trabalho, o esquema de lançamento envolve mais de 20 países:

- Eu não faço música para a maioria. Meus discos atingem um consumidor específico, uma minoria. Tenho que chegar junto desse público em todos os cantos do mundo. E sendo dono dos direitos de comercialização eu mesmo tenho que vender o trabalho.

Ele acredita que esse será o método do futuro. As grandes gravadoras vão transformar em distribuidoras levando o mercado fonográfico a se especializar mais, com os autores fornecendo o trabalho pronto. "


A1 2 Violões (Vermelho)
A2 Lundu (Azul)
A3 Trenzinho Do Caipira (Verde)
A4 Alegrinho (Amarelo)
B1 Dança Dos Escravos (Preto)
B2 Salvador (Branco)
B3 Memoria E Fado (Marrom)


Mais detalhes sobre o álbum AQUI.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Egberto Gismonti - Works [1984]

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No seu 15º aniversário, o selo ECM lança 10 coletâneas e Egberto foi um dos artistas escolhidos. Suba o volume.


A1 Lôro
A2 Raga
A3 Ciranda Nordestina
B1 Magico
B2 Maracuta
B3 Salvador


Mais detalhes do álbum AQUI.


domingo, 10 de março de 2019

Egberto Gismonti - Em Família [1981]

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Por Márcio de Aquino em Palavras Domesticadas

Egberto Gismonti é um dos mais respeitados e produtivos músicos brasileiros. Dono de uma discografia das mais celebradas, valorizadas e reconhecidas até internacionalmente, Egberto entre os anos 70 e 80 especialmente, lançou várias pérolas musicais que tornam seu trabalho um dos mais ricos em qualidade e experimentações. Em 1981, celebrando o nascimento de Alexandre, seu primeiro filho, Egberto lançou o disco Em Família, que trazia a particularidade do vinil ser branco. Em sua edição de 09/08/81, o jornal O Globo trazia uma matéria sobre o disco, assinada por Léa Penteado:

"Egberto Gismonti - 34 anos de idade, 14 de vida profissional - já gravou mais de 30 discos, em quatro países, mas diz encarar de modo especial o elepê que está lançando, 'Em Família'. É que depois de conquistar os mais cobiçados prêmios, como o Grammy e a Coruja de Ouro, ele explica que o novo disco reflete a melhor experiência de sua vida: a de ser pai. Daí a escolha do título e da capa do álbum, em que Egberto aparece ao lado do filho, Alexandre, e da mulher, a atriz Rejane Medeiros. Esta semana, de sexta a domingo, ele apresenta um espetáculo na Sala Cecília Meireles. O título do show: 'Em Família', naturalmente.

O apartamento de solteiro que até há poucos meses Egberto Gismonti ocupava na Gávea ganhou vida nova com a presença de Rejane Medeiros e a chegada de Branquinho - é assim que ele chama o filho Alexandre. Nada foi programado, tudo aconteceu de repente.

-Não pensei que fosse acontecer uma mudança tão grande em minha vida. Sempre tive uma vida muito louca, de viagens, gravando em diversos países e, desde que aconteceu a gravidez de Rejane, tudo foi mudando. Não foi nada programado, nós não pensávamos em ficar juntos, ou em ter filho; quando vimos, as coisas estavam acontecendo e, a partir de novembro do ano passado, comecei a desmarcar todos os compromissos, até os meses de junho e julho deste ano, para poder acompanhar o nascimento do meu filho.

Egberto conta que o relacionamento com Rejane, baseado em muita tranquilidade, surgiu sem que nenhum dos dois esperasse. Depois de um mês, ele teve de viajar para a Alemanha e foi em Hamburgo que recebeu um telefonema dela, comunicando a gravidez. À princípio, diz que não sabia o que fazer e, quando voltou, resolveu dividir seus espaços com ela e com o filho que chegaria.

- Desmarquei compromissos, para não perder essa relação que estou tendo com Rejane e Alexandre, querendo ficar esse tempo de papai e babá. Gostaria de ficar com ele um tempo até muito maior, mas sinto que não tenho preparo físico. Esse negócio de natureza é meio louco - o fato de uma mulher gerar uma criança faz com que ela desenvolva uma força muito maior do que a do homem, aguentando as barras, sabendo até fazer parar o choro...

Em termos musicais, Egberto Gismonti ainda não sabe até que ponto sua obra vai mudar, com a presença de Alexandre. Apesar de o filho participar de uma das faixas do novo disco, chorando, o trabalho de composição já estava concluído antes do nascimento.

- Não fiz ainda nenhum disco depois que ele nasceu, mas acredito que o fato de ter parado de viajar, estar vivendo dentro de casa com ele e com a Rejane, tendo um tipo de vida que antes não tinha, possivelmente vai me estimular a fazer outra coisa. Eu tenho certeza de que, antes, meus filhos e filhas eram os discos e shows, mas quando pintou o meu filho de verdade, fiz uma troca com a maior facilidade e não sei o que será dos outros. Mas também não estou nada preocupado, me dei o direito de não pensar. Sei que mudou a emoção e a vida, mas a música é difícil. Alguns amigos, que já ouviram esse novo disco, fizeram comentários, não a respeito da música propriamente dita, mas sobre a maneira de transar o disco.

Esse 'transar o disco' começa com a própria capa. Poucas vezes Egberto Gismonti se expôs em capas e nesse fez questão não só de aparecer como também de mostrar a mulher e o filho. Os detalhes ainda vão mais longe. A letra A da palavra família é representada por alfinetes de fralda e o encarte da capa do disco o 'Jornal Caipira', é dedicado às crianças, com desenhos variados e uma enorme fotografia do filho.

Egberto também fez questão de que todo o disco fosse em branco, até mesmo o acetato, que é branco translúcido. No selo, em lugar da marca da gravadora, há o sorriso de Alexandre impresso em preto e branco.

- Nunca pensei fazer um disco com uma capa mostrando a família, mas está me dando imenso prazer mostrar este meu outro lado.

O não pensar, não programar, sempre foi uma constante na vida de Egberto. Ele lembra que há 13 anos, quando começou a trabalhar com música, profissionalmente, tinha a família que o apoiava. Depois de dois ou três anos, mais pessoas já se interessavam por seu trabalho. Tudo foi indo nessa proporção, até chegar a um ponto que ele acha contraditório.

- Ao mesmo tempo que tenho consciência de não fazer uma música para a grande massa, me pergunto como em 13 anos, essa música foi gravada em mais de 30 discos. Às vezes até estranho porque, se não é comercial não deveria ter tantos discos gravados. É, se existe uma crise na indústria fonográfica, no mundo todo, por que os brasileiros, americanos, alemães e japoneses estão investindo tanto em mim?

Egberto Gismonti é contratado de quatro gravadoras: no Brasil, na Alemanha, no Japão e ainda nos Estados Unidos. Seus discos, somente no Brasil, vendem em média 30 mil cópias, um número considerável, já que seu trabalho não é considerado popular.

- Eu tenho consciência de ter um público pequeno em cada país e, por essa razão, saí do Brasil há alguns anos e comecei a buscar esse meu público. Isso me diferencia um pouco da maioria dos músicos instrumentais. Se eu ficasse no Brasil meus discos continuariam na faixa de vendas em que estão - o que para a companhia parece ser muito bom e pra mim é fantástico, permanecer em catálogo dez anos. Também tenho consciência de que minha música não chegaria num tempo curto a um número grande de discos, mas o que consigo já me permite viajar pelo Brasil fazendo shows, como se fosse um cantor popular.

- Tenho como função também juntar um pouco de música erudita com a popular. Não é nem para instruir. Na realidade, não estou querendo brigar com ninguém, nem sou contra música nenhuma, só quero deixar claro que existem outras músicas.

Segundo Egberto, a sua música permite imaginar o que se quiser, não direciona o pensamento de acordo com a letra, abre a possibilidade de sonhar. E é assim que ele vive, também.

- Vivo sonhando, sem nenhuma alienação, apenas com a possibilidade de liberdade, que acho ser muito mais importante do que a minha música. Não acho que tenha atingido algum ponto com a música; não fico chorando quando não dá certo, nem fico soltando foguetes quando tudo vai bem. Tive um disco muito premiado em 1978, 'Dança das Cabeças', festejado em diversos países, e não fui a nenhuma entrega de prêmios no exterior, como também não fui receber o troféu Villa-Lobos, nem a Coruja de Ouro, nem o prêmio de Gramado. Não é o fato de não curtir prêmio, mas prefiro não ficar envolvido com festejos, acho que tenho mais é que ficar fazendo música.

A música e os prêmios ganhos por Egberto Gismonti ficam em segundo plano, com a entrada de Alexandre na sala. Branquinho, como o apelido dado pelos pais, ele tem fisionomia tranquila, no colo da mãe, e sorri quando vê o pai. Tanto Egberto quanto Rejane acreditam que o ar de tranquilidade que o filho irradia é o reflexo da vida que eles têm.


A1 Lôro
(Egberto Gismonti)
A2 Don Quixote
(Egberto Gismonti, Geraldo E. Carneiro)
A3 Em Família
(Egberto Gismonti)
B1 Sanfona
(Egberto Gismonti)
B2 Folia
(Egberto Gismonti)
B3 Chôro
(Egberto Gismonti)
B4 Auto-retrato
(Egberto Gismonti, Geraldo E. Carneiro)
B5 Branquinho / Passarinho / 11/6/81 (Feito Em Casa)
(Egberto Gismonti, Marilda Pedroso)



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