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quarta-feira, 23 de maio de 2018

Titãs - Doze Flores Amarelas A Opéra Rock Ato III [2018]

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Por Marco Aurélio de Souza em Collectors Room

É Rita Lee quem nos conta, em terceiro e último interlúdio, sobre o plano de vingança das Marias: “Juntas de novo, queríamos enfrentar aqueles cinco filhos da puta”. Auxiliadas novamente pelo aplicativo Facilitador – o que não fica claro nas canções, mas sim no espetáculo –, as meninas acabam concebendo a morte de um dos seus agressores. Sobre este evento misterioso, a consumação da vingança, é que a maior parte das canções do terceiro ato irá repercutir.

Com vigoroso riff de guitarra, "Me Chamem de Veneno" nos devolve à história com uma dose extra de peso e energia renovada. Sugerindo a via encontrada pelo aplicativo para dar fim à vida de um dos estupradores, ela abre caminho para o clímax sombrio da história. Mais grave e soturno do que os anteriores, o terceiro ato de Dozes Flores Amarelasencontra nos arranjos de piano e orquestra um diferencial que, na reta final da narrativa, engrandece o desfecho da ópera e contribui para a sua plena realização – a canção título é, por metonímia, o exemplo mais preciso desta contribuição. Apresentada em show do Rock in Rio, "Doze Flores Amarelas" já era conhecida pelos fãs mais atentos, porém, sua execução ao vivo, com certa crueza garageira que é marca da formação atual dos Titãs, não nos permitia vislumbrar todo o seu potencial. Aqui, em sua versão de estúdio, melhor experimentamos o seu clima denso. Em termos de estrutura lírica e melódica, a canção difere de tudo o que o grupo paulista já fez. Ritmo cadenciado e atmosfera fúnebre, com direito a Sérgio Britto e Branco Mello em dueto de vozes e solo de guitarra de Belloto. É um dos grandes momentos do disco. 

Em sequência de contraste irônico, "Ele Morreu" nos toma de assalto com sua levada pop, dançante e descontraída, enquanto aborda a repercussão da morte inesperada (não para nós, é claro) do agressor. A morte do rapaz reverbera ainda em três canções subsequentes. "Pacto de Sangue" é, em todo o disco, o primeiro e único momento em que temos uma canção cantada exclusivamente pelas atrizes convidadas. Sua letra aborda o compromisso de silêncio que as Marias assumem frente aos desdobramentos da vingança, sugerindo, enfim, a gravidade e a culpa que a situação de fato as impõe. Aqui, Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yas Werneck comandam o curso da narrativa, preparando o terreno para a participação decisiva que terão, também, nas canções finais do álbum. Por seu sabor performático e sua presença vocal, a canção é um dos raros momentos em que, deixando de lado a própria banda, encontramos o formato musical em sua potência máxima, tendo a sensação de acompanharmos uma trilha sonora de espetáculo hollywoodiano.

"O Jardineiro", por sua vez, embora estruturalmente dispensável à narrativa, traz à ópera um delicioso slide de guitarra que, com sua levada de surf music, cativa o ouvinte logo à primeira audição. Nela, Branco Mello encarna o coveiro gago que enterrou o defunto da história, esbanjando carisma por sua dicção peculiar: “Eu sósósó sou o coveiro / deste lugar”. A morte será tema, por fim, de outro rock com roupagem mais pesada. Iniciada por um zunido de guitarra, que mais parece ter fugido de algum metal alternativo, "Réquiem" resgata a voz do falecido que, como um Brás Cubas juvenil, sugere que os mortos devem ser esquecidos, em favor dos vivos. Sua letra nos confronta com um dado etário perturbador: pedindo para que o lembrem “saindo da aula”, “andando de skate”, “falando no Face como todo o mundo fala”, a letra nos lembra da juventude das personagens que, vítimas ou culpadas, partilham todas de uma mesma inconsequência adolescente.

Os momentos finais da ópera titânica reforçam as características anteriormente evocadas, com duas grandes melodias que, no plano instrumental, são acompanhadas por belíssimos arranjos de piano e orquestra, além de excelentes atuações das vocalistas convidadas, tanto no que se refere aos backing vocals quanto nas vozes principais. Em sua formação clássica, contando com a presença incomum – em se tratando de uma banda de rock – de cinco vocalistas, o bom uso do backing vocal foi sempre uma das marcas mais evidentes da música dos Titãs. Com tantas baixas, reduzida a sua oferta de vozes, as participações especiais proporcionaram à banda um excelente recurso que, muito bem explorado, é um dos pontos altos do trabalho inteiro.

"É Você" anuncia a transformação interior das Marias, que começam seu percurso de reconstrução identitária resgatando uma autoconfiança perdida diante dos acontecimentos traumáticos por que passaram ao longo da história. Identidade, aliás, é o grande tema que, motivo na canção inicial, retorna através da derradeira "Sei que Seremos". Nesta, as três Marias reassumem o controle sobre suas vidas, delineando um grande final para o projeto que, certamente, ficará marcado na discografia dos Titãs, ocupando nela um lugar especial. Contando com o melhor riff de guitarra de todo o disco, "Sei que Seremos" peca apenas pela sua brevidade: seus pouco mais de dois minutos nos deixam, ao final, com um gostinho de “queria ter um pouco mais disso”, afinal, a canção põe fim a um conjunto expressivo de 25 novas composições, número inédito em toda a história da banda, e por isso bem merecia um seu prolongamento natural.

Fechado o terceiro ato, temos, por fim, melhor visão de conjunto e condições efetivas para exprimir uma visão de panorama. De forma geral, a ampla maioria das canções sobrevive de forma autônoma, embora bem integradas à narrativa. Isto importa na medida em que garante a sobrevivência dos temas para além da experiência do espetáculo, ou da audição integral do álbum. A necessidade de contar uma história, por sua vez, inseriu muitos elementos estranhos à sonoridade titânica, o que, longe de ser algo ruim, expande os limites (já tão elásticos) que a estética da banda possui. Doze Flores Amarelas corresponde, portanto, à expectativa que o grupo promoveu e está promovendo em torno de seu lançamento, assumindo a forma de um grandioso disco de rock, com os elementos todos que são esperados a este formato – versatilidade, relevância, força de composição. Projeto inédito no Brasil, somente este feito já garantiria a presença do álbum nos anais da história do rock brasileiro. Mais do que isso, porém, o disco também nos entrega um conjunto de canções que, mesmo diante de uma concorrência de alto nível, podem conquistar seu lugar em qualquer coletânea do grupo, a exemplo de "Nada nos Basta", "Disney Drugs", "Eu Sou Maria", "O Bom Pastor" ou "Doze Flores Amarelas". Por outro lado, a descontextualização de certas letras – a exemplo de "Fim de Festa" e "Não Sei", que dão voz aos agressores – e, especialmente, a qualidade do registro em estúdio, podem se tornar um problema para as apresentações ao vivo: neste último quesito, para além dos espetáculos de teatro, muitas destas composições encontrarão dificuldade de espaço no repertório de eventuais futuras turnês, por limitações materiais de execução – caso, por exemplo, das canções que contam com grande presença dos vocais femininos e de arranjos de orquestra, as quais podem perder força em um formato mais cru.

Evidentemente, ainda é cedo para compreendermos ou afirmarmos qual será o status de Doze Flores Amarelas dentro da obra completa dos Titãs. As comparações, embora inevitáveis, carregam sempre um quê de injustiça, por não levarem em consideração os fatores inúmeros que se conjugam no momento da construção de um disco – bem como o fato de que o tempo, inexorável, a tudo e a todos transforma. Independente do juízo crítico, porém, faz-se imperioso reconhecermos que Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Belloto, acompanhados de um grande time, por aceitarem (e se auto imporem) tamanho desafio criativo a esta altura do campeonato, demonstram grande compromisso com sua própria trajetória, entregando a seus fãs um trabalho com a dimensão e a estatura que se espera sempre de uma grande banda de rock. Ambiciosos como nunca, os integrantes remanescentes mostraram seu poder de fogo com este lançamento memorável, provando que a força da banda, mais do que em um ou outro nome, sobrevive mesmo através do peso que sua história investe naqueles que a continuam. Para além de um grande disco, Doze Flores Amarelas é, portanto, uma demonstração inequívoca que os remanescentes da formação clássica deixam ao seu público de que, sim, continuaremos carregando enquanto possível este nome, de Titãs, não como um meio mais cômodo para pagarmos as contas, mas sim pela consciência aguda daquilo que somos e já fizemos, mirando sempre no muito que, é claro, ainda se está por fazer.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Titãs - Doze Flores Amarelas A Opéra Rock Ato II [2018]

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Por Marco Aurélio de Souza em Collectors Room

O segundo ato se inicia com um primeiro interlúdio. Rita Lee, no papel de narradora, nos conta que, depois daquele dia, as três Marias ficaram isoladas, não falavam do que aconteceu com ninguém, nem mesmo entre elas mesmas. Maria A, porém, descobriu que estava grávida. Precisando de ajuda, tentou falar com seu pai, um “bom pastor”. O interlúdio faz a transição para as músicas do segundo ato antecipando a melodia e o clima religioso da canção seguinte, "O Bom Pastor", que embora seja um dos grandes rocks do disco, parece ter entrado na história de forma um pouco frouxa.

Rock de sabor setentista, com excelente arranjo de guitarras e grande atuação vocal de Branco Mello, "O Bom Pastor" faz uma crítica ao oportunismo de certos segmentos do mundo evangélico, com preocupações materiais muito mais evidentes do que aquelas teológicas. Não encontrando ajuda na família, Maria A opta pelo aborto. O clima setentista da canção anterior persiste em "Eu Sou Maria", que explora o julgamento social em torno do aborto. Alternando arranjos de um rock mais clássico, lembrando inclusive o The Who – uma das inspirações para o projeto -, com passagens mais agressivas e pesadas, que expressam o desamparo das mulheres que passam pela experiência retratada. Destaque para a boa letra e para o belo dueto entre Sérgio Britto e os vocais femininos. 

A partir daí, temos alguns dos momentos mais agressivos e depressivos do disco. "Canção da Vingança" chama atenção pelos vocais de Tony Belloto, que também rouba a cena em um instrumental exclusivo das guitarras. Mas, se Belloto não faz feio e se garante no papel de vocalista, pode-se dizer, contudo, que faltou uma dose a mais de agressividade em sua voz, tendo em vista o teor forte da letra que entoa. Depois de enumerar seus desejos vingativos, a voz (que é de Tony, mas de Maria) completa: “E quem sabe no final de tudo / com você todo fodido / eu possa enfim te perdoar”. "Hoje", mais um grande momento de Doze Flores Amarelas, é outra das canções mais intensas e perturbadas da ópera rock, versando sobre desejos suicidas em alternância com ímpetos de vida energicamente expressos por seu refrão forte. "Nossa Bela Vida" desdobra o clima de angústia e depressão, desta vez, porém, em roupagem acústica, de flerte explícito com a verve MPB que, sabemos, Sérgio Britto vem revelando em sua carreira solo. A tristeza profunda presente na composição entra em atrito com a beleza pop de sua melodia e, por isso, acaba negativando todos os desejos expressos pela voz ficcional da canção – “Eu só quero fumar meu cigarro”, “Eu só quero fazer o jantar”, “Eu só quero cuidar da família”, desejos que culminam num quase refrão em tudo melancólico: “Eu só quero poder chorar”.

Em "Personal Hater", o ódio que as Marias sentem pelos seus estupradores encontra finalmente o peso de um rock que nos remete aos momentos mais agressivos da história da banda, inclusive do disco anterior. Aqui, mais uma vez, os estrangeirismos de língua inglesa, tornados moeda corrente pelas redes sociais, dão o tom da composição – o refrão repete o título em ritmo frenético. No segundo interlúdio, conhecemos o sentimento de Maria C, que “parecia não querer encarar o que aconteceu”, pois fora abusada por um cara “de quem tanto gostava”. "De Janeiro até Dezembro", canção que dá sequência ao ato, é um punk rock que lembra momentos do disco Domingo, mas também denuncia a influência (declarada pela própria banda) que o grupo sofre dos norte-americanos do Green Day. Com apenas um minuto e meio, a canção termina deixando um gostinho de quero mais. Esta, aliás, é uma característica de todo o disco, que conta com muitas faixas extremamente curtas, de pouco mais de um minuto, compensando a extensão do projeto como um todo, com suas 25 novas composições.

"Mesmo Assim" é qualquer coisa como um oásis em meio ao deserto de sofrimento e ódio do segundo ato. Balada de amor com influência indie, que lembra um som à la The Killers, poderia soar deslocada no conjunto, não fosse a excelência da produção do disco. Extremamente eficiente, ela consegue tirar o melhor de cada canção, dando um conceito próprio para cada faixa e auxiliando no processo de narrar a história. Neste caso, a letra romântica, em que Maria C revela ainda amar o seu agressor (“mesmo assim”), consegue fugir ao risco de banalização da violência com uma produção de sabor oitentista, com efeitos que geram um ar onírico ao seu significado, ou seja, mostrando a própria impossibilidade deste amor, que foi esmagado pela violência criminosa e pela brutalidade dos rapazes. Confirmando o caráter de sonho desta relação amorosa, temos na sequência outro rock de levada punk, desta vez com a voz dos rapazes, que falam pela primeira vez sobre os eventos daquela noite. "Em Não Sei”, há que se destacar mais uma vez a eficiência dos jogos de linguagem em inglês. Em letra centrada na tentativa dos rapazes de se desvincularem dos rumores e acusações - “Elas enlouquecem, agora a culpa é nossa” -, a canção abre com refrão estranhíssimo, que num primeiro momento soa como “não me esquece”, que faz todo sentido no contexto geral da letra, mas que na realidade perverte um bordão feminista sob a ótica dos agressores: “No means yes / yes means anal”. Não é não? Bem, não para eles. 

Assim, o segundo ato se encerra com a reação das Marias ao comportamento repulsivo e criminoso de seus agressores, em outra grande canção que mescla momentos de leveza, onde o peso da letra contrasta ironicamente com a suavidade do instrumental e dos vocais femininos, com o peso das guitarras e vocais distorcidos que, em momentos distintos, entoam o mesmo mantra, título da canção: "Essa Gente Tem Que Morrer". Assim, com uma explosão final que repete furiosamente a expressão máxima do desejo de vingança das três Marias, a segunda parte se encerra deixando no ar as providências que as meninas devem tomar no terceiro e último ato, visando purgar da consciência (sem sucesso, é claro) o ódio e a raiva que sentem por seus estupradores, que saíram impunes desta situação – ao que nos perguntamos: será mesmo? E é isto o que, enfim e em breve, o terceiro ato nos dirá. 

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Titãs - Doze Flores Amarelos A Ópera Rock Ato I [2018]

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Por Marco Aurélio de Souza em Collectors Room

Se algo define a bem sucedida trajetória que os Titãs desenharam nestes últimos 36 anos, certamente é a capacidade que o grupo tem de quebrar expectativas e gerar novas demandas criativas. Explico: em idos dos anos 1980, depois do lançamento de Cabeça Dinossauro, os que esperavam ansiosos por um novo assalto punk assistiram à progressiva aventura da banda pelas plagas da new wave. Daí que, depois de Õ Blésq Blom, em fins da mesma década, a expectativa já fosse outra. Especialista em andar na contramão, porém, a banda voltou ao estúdio e produziu Tudo ao Mesmo Tempo Agora, seu disco mais cru, com um rock agressivo, com sonoridade de garagem. Titanomaquia, o primeiro sem Arnaldo Antunes, expandiu a sujeira, o peso e a agressividade do antecessor e conquistou um público cativo que, de forma marginal à crítica hegemônica, acabou transformando o álbum em uma espécie de clássico bastardo da música brasileira. 

As reviravoltas titânicas, contudo, não pararam por aí. Na primeira metade da década de 1990, a expectativa em torno da banda girou, evidentemente, na órbita dos elementos que deram sustentação à fase mais barulhenta de sua carreira. À espera de algo na linha de Titanomaquia, os fãs desta fase mais pesada – não sem uma ponta de decepção, é claro – viram a banda puxar o freio e lançar Domingo, disco mais palatável às rádios e, na sequência, tirando de cena as guitarras, emplacarem seu maior sucesso comercial da história, o Acústico MTV. Dali por diante, o apelo estrondoso da roupagem acústica fez o grupo repetir a dose em novo registro de estúdio e, como sequela, moldar a sonoridade dos discos lançados na década de 2000 – embora contassem com uma cara mais rock, e até um e outro som mais agressivo, o clima geral de A Melhor Banda, Nós Estamos Bem e Sacos Plásticos seguiu o padrão radiofônico que se impôs ao som dos Titãs após seu período de onipresença nas FMs, com as bênçãos de muitos hits e trilhas de novela. 

O tempo foi passando e, iniciada a década de 2010, poucos ainda esperavam por um álbum dos Titãs que resgatasse o espírito de seu maior clássico, disco que projetou a banda para um novo patamar. Então os paulistas, agora como quarteto, resolveram quebrar as expectativas novamente e, em 2014, lançaram Nheengatu, disco pesado, extremamente crítico ao momento (momento?) do país e que remete, em som e conceito, ao punk rock de Cabeça Dinossauro. E assim chegamos em 2017, ainda sob a ressaca do disco anterior, mas já com os rumores em torno do um novo trabalho. 

Doze Flores Amarelas teria um formato ousado, inédito tanto para os Titãs quanto para o rock brasileiro: inspirado em clássicos como Tommy e The Wall, Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Belloto – os três remanescentes da formação original – trabalhavam, junto de nomes como Hugo Possolo e Marcelo Rubens Paiva, no argumento de uma ópera rock. Com um universo temático centrado no machismo, discutindo assédio, estupro, vingança, drogas e redes sociais, é certo que a expectativa dos fãs (depois do tão propalado “retorno às origens” com Nheengatu – expressão que, como vimos, faz pouco ou nenhum sentido frente ao comichão criativo característico do grupo) era de um novo petardo punk rock, destes de bater cabeça, urrar feito bicho e lavar a alma da nação. A equação é simples: quem ouviu "Pedofilia" e "Flores Para Ela", canções do disco de 2014, certamente imaginava a mesma agressividade no tratamento dispensado aos temas deste novo trabalho. 

A apresentação da banda no Rock in Rio 2017, porém, revelando três inéditas ao público, mostrou algo diferente do esperado. A atmosfera soturna e cadenciada de "Doze Flores Amarelas", canção que batiza o projeto, em tudo estranha ao conjunto da obra titânica e surpreendeu os fãs mais uma vez. "Me Estuprem", com título autoexplicativo, contrastando o peso temático da letra com a suavidade pop rock de seu instrumental, tornou evidente aos desavisados: “Hey, não esqueça, nós somos os Titãs e queremos fazer algo novo em nossa carreira”. Não espere, portanto, a continuação de Nheengatu, mas isso, como veremos, vai bem longe de ser algo ruim. 

O projeto da ópera rock dos Titãs carrega certa ousadia até mesmo para os padrões do gênero: antes mesmo da divulgação das canções, a banda estreou seu espetáculo mesclando música e teatro, com projeções eletrônicas, a participação das cantoras/atrizes Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yas Werneck (que também cantam em boa parte das canções de estúdio), além da narração em off gravada pela Rita Lee. Opção arriscada, se bem que instigante: assistir a uma banda de rock tocando 25 composições inéditas dentro de um teatro é experiência incomum, e que pode gerar uma recepção mais exigente do que o padrão. Dito e feito: em pré-estreia realizada no Festival de Teatro de Curitiba, a crítica do jornal local lamentou a ausência de uma “canção para levar pra casa”, de algum refrão chiclete que grudasse à primeira audição, ao que, naquele momento, tive o ímpeto de concordar. Agora, porém, quando os atos já estão disponíveis em plataformas de streaming, ouço melhor o material apresentado, relembrando a execução ao vivo e reavaliando por isso a crítica de primeira hora. Reorientado pelo álbum de estúdio, deixo o espetáculo um pouco de lado e volto às canções de Doze Flores Amarelas, um disco muito acima da média, que respeita e valoriza a trajetória extraordinária da banda sem, felizmente, repetir qualquer outro Titãs. 

A narrativa contada pelo disco tem como centro um estupro coletivo. Três jovens – as Marias A, B e C –, orientadas por um aplicativo chamado Facilitador, espécie de oráculo moderno, vão a uma festa que acaba muito mal: as três são violentadas pelos rapazes que planejavam conhecer. Traumatizadas pelo evento, as garotas se afastam umas das outras, sem encontrar qualquer conforto na família ou nos amigos. Uma delas, grávida de seu agressor, encontra no aborto uma alternativa, o que não a livra, contudo, da depressão. Mais uma vez orientadas pelo aplicativo, as Marias decidem se vingar dos garotos mediante um feitiço – o feitiço das doze flores amarelas. Sua magia funciona e um dos rapazes acaba morto. A morte não as consola, mas causa mudanças na vida das personagens. Marcadas por essa experiência traumática, as Marias passam a ver suas vidas sob uma nova ótica, buscando nelas mesmas sua felicidade e alguma paz.

Em linhas gerais, este é o enredo da ópera titânica. Relativamente simples, ele adquire profundidade e complexidade emocional mediante as composições do grupo, que transitam por diversas sonoridades e estilos, do pop rock ao ska, do punk rock à roupagem acústica, do rock setentista à balada indie, passando em revista diversos formatos assumidos pela banda ao longo dos anos, sempre buscando a melhor expressão formal para esta ou aquela nuance narrativa. Desta forma, Doze Flores Amarelas não poderia ser um disco de sonoridade tão coesa quanto seu antecessor, sob o risco de se perderem os detalhes que dão vida à história. 

Dividida em três atos, a obra tem na narração de Rita Lee um subterfúgio que, à emergência dos furos narrativos, garante o encadeamento das composições. Abrindo o disco, temos a apresentação das três Marias, que é seguida por "Nada Nos Basta", canção forte que explora os anseios femininos de nosso tempo (tantas vezes frustrados pelas amarras da cultura machista), desejos da juventude atual, mas também pode ser lida como expressão de liberdade criativa e inquietação artística do próprio grupo, que justifica com os versos de Sérgio Brito o próprio projeto da ópera rock: “Hoje eu sou / quem eu sou / hoje eu sou / o que eu sou / amanhã eu sou / quem eu quiser”. Na sequência, em estilo rockabilly e ieieiê, Branco Mello dá o tom em "O Facilitador", canção que nos apresenta o aplicativo, que por sinal é símbolo do projeto. Sem muito brilho, a canção passa a bola para ""Weird Sisters", que entra na roda e nos entrega um pop punk pra americano nenhum botar defeito. Os estrangeirismos, aliás, muito utilizados ao longo de todo o disco, aqui assumem sua expressão mais ousada, em uma canção versada inteiramente em língua inglesa. O recurso funciona bem como elemento de composição da atmosfera dos jovens retratados pela história, imersos na cultura de massa norte-americana, além de remeterem à língua comum da realidade virtual em que as personagens estão inseridas, marcada pela experiência dos aplicativos. "Weird Sisters" chama atenção, ainda, por introduzir a participação das cantoras e atrizes convidadas para o projeto, que cumprem perfeitamente o papel das Marias, tanto no palco como na competente atuação vocal. Fora de campo, porém, a banda peca por não divulgar adequadamente quem canta o quê, em se tratando das cantoras convidadas, nas canções já disponibilizadas – dado que justifica, inclusive, minha displicência ao tratar destas participações. 

Na sequência, "Disney Drugs", um dos picos criativos do disco, dá continuidade, desde o seu título, ao uso do inglês nas composições. Servindo como apresentação dos rapazes, a canção realiza, sobretudo, uma crítica às relações familiares esvaziadas que fazem, por vezes, a coexistência de pais e filhos em uma mesma casa assumir a forma de universos paralelos em constante conflito, donde a alternância entre drogas ilícitas e personagens de desenhos animados, todos eles nomeados em língua inglesa, representa bem esta realidade fraturada que muitas famílias se recusam a admitir como sua. Em "A Festa", os arroubos inconsequentes da juventude são explorados de modo irônico, dialogando com a canção anterior: “Mommy, give me some money”, canta Branco Mello no refrão. 

Com dois momentos musicais bem distintos, "Fim de Festa" revela o vazio das relações sociais/sexuais de nossa sociedade para, na sequência, focar na abordagem agressiva dos abusadores que, diante das recusas, revelam sua selvageria criminosa. Embora musicalmente a canção empolgue, é dos poucos momentos da ópera em que, descontextualizado, o som perde um pouco do seu sentido. Seus recursos estilísticos, aliás, são dos mais interessantes. Começando como uma balada de “fim de festa”, dessas para os casais dançarem juntos, a canção contrasta sua sonoridade adocicada com uma letra extremamente ácida e até mesmo sombria, que anuncia um engano: “Vocês pensam que é uma festa, mas não é / mas não pensem que é uma missa, pois não é” (...) esta é a lei da selva / ajam como age um animal / ajam como age um animal / ajam como age um animal”. Na sequência, a balada cede lugar a um ska tenso e cheio de energia, quando a voz dos rapazes domina a canção: “Queremos as três santinhas / queremos vocês bem loucas / queremos as três putinhas / queremos vocês”, e segue com refrão explosivo, “Não queremos nem saber / nem pensar, nem dizer / não sei quê, não sei quê”. Sem dramatizar o estupro, a canção termina com uma catarse instrumental em que a sugestão de um solo de bateria (no espetáculo, o solo ocorre de fato) representa – de forma sagaz e adequada, posto que abstrata – a violência sexual. 

Consumado o estupro, o primeiro ato termina com a canção "Me Estuprem", balada pop rock que, por sua letra irônica (“Me estuprem / se dei algum motivo”), produz ruídos de significado e um mal estar que destoa de seu instrumental, chamando atenção para o tema proposto e, consequentemente, para a relevância de toda a ópera rock. Com isso, passamos ao segundo ato com a expectativa de conhecermos as consequências da atitude criminosa dos rapazes, o que faz a segunda parte da ópera, é claro, ser musicalmente densa e emocionalmente muito mais carregada. 

sábado, 11 de julho de 2015

Vitrola Verde entrevista Charles Gavin

Episódios 61, 62, e 63 do programa Vitrola Verde em que consta a entrevista com Charles Gavin.

Direção de Cesar Gavin.





segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Titãs - A Vida Até Parece Uma Festa [2009]

Torrent


Por Rock in Press

A história do Rock brasileiro tem como um dos personagens principais os gigantes Titãs. E depois de 6 anos de edição de 200 horas de vídeos caseiros gravados pelas mãos de Branco Melo, finalmente sai o documentário Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa, de Branco Melo e Oscar Rodrigues Alves. Eu tive o prazer de ler o livro do mesmo nome antes, então o filme teve um gostinho a mais pra mim. Ver além do que eu li traz um significado diferenciado a qualquer história. Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa é o resumo de 2 horas de duas décadas e meia de Sexo, Drogas, Rock n’ Roll e muita diversão.

A filmagem é toda amadora, com excessão de programas de tv. Começa em 1982 e pára em 2008. O som é simplesmente impactante, mesmo com a qualidade do material mostrado. Em alguns áudios do início do filme, fica muito difícil entender o que é dito, mas isso é apenas um prévio início, pois na questão shows e ao vivo está maravilhoso, tendo feito um verdadeiro milagre na ilha de edição. O filme não conta a história da banda, é um apanhando de imagens onde mostra descontração dos integrantes, momentos de gravação, brigas ou mesmo momentos onde as drogas entraram na frente. O bom do filme é toda a alegria e diversão que ele passa, as história não são contadas, são vistas pelo espectador mas tem mais sentido para quem leu o livro, que entende a cronologia do filme.

O filme acaba de vez com quem sempre achou que a banda teve um líder, lá sim, a democracia sempre reinou. Mostra a saída de Arnaldo Antunes da banda, por simplesmente não se encaixar mais na sonoridade produzida e ter assuntos pessoais grandes e projetos maiores, a saída de Ciro, o primeiro membro que saiu ainda no início do sucesso da banda, a “troca” de baterista com o Ira!, a morte de Marcelo Frommer e o quanto isso pesou na banda, e a conturbada saída de Nando Reis, que simplesmente colocou seu projetos na frente da banda e aos poucos foi abandonando o barco. As prisões de Tony Belloto e Arnando Antunes com heroína também foram lembrados. Diversos pedaços da história ficaram para trás e não foram lembrados, como a destruição após o show de abertura da reconstrução do Teatro Carlos Gomes no Rio, entre outros momentos muito importantes.

O filme tenta balançar a história entre o novo e o material mais antigo, mas pende a mostrar bem mais a textura da banda no seu formato antigo, assim tendo mais material da década de 80, é aí que se perde um pouco do gosto, o atual momento da banda foi pouco lembrado, depois do Acústico MTV até o Ao Vivo MTV são momentos que passam muito rápido. Concluo dizendo que o filme é obrigatório para quem quer conhecer o que passa por uma banda antes e depois do sucesso, o que sofre e como se diverte. Afinal, A vida parece até uma festa!

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Titãs - Nheengatu [2014]

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Por Victor de Andrade Lopes em Sinfonia de Ideias

Muito coisa aconteceu com os Titãs desde seu último trabalho de inéditas, o friamente recebido Sacos Plásticos. Cansado da dura rotina de turnês, Charles Gavin, baterista que tocou com a banda desde seu segundo álbum (Televisão), decidiu deixar o grupo, sendo substituído pelo músico convidado Mario Fabre. Alguns membros se aventuraram em trabalhos solos - exemplo do vocalista/tecladista/baixista Sérgio Britto e seu disco SP-55. Por fim, turnês como Futuras Instalações e Titãs Inédito serviram de laboratório para testar músicas novas com o público (parte delas presentes neste trabalho). Uma terceira turnê, a de celebração do aniversário de 25 anos do clássico Cabeça Dinossauro, serviu para que o quarteto sentisse o gosto dos velhos tempos, o que foi determinante para o produto final.

O resultado de toda esta cozinha é "Nheengatu", um disco que apresenta um paradoxo em sua capa: a imagem traz um pedaço da pintura "A Torre de Babel", do artista belga Pieter Bruegel; a construção mítica tinha como objetivo levar o homem aos céus, mas foi destruída por Deus, decepcionado com a pretensão de seus filhos. O resultado foi a diáspora dos povos, que desenvolveram idiomas próprios e não mais se entenderam. Por outro lado, "nheengatu" é uma língua artificial criada por jesuítas no Brasil Colonial para "unificar" os idiomas indígenas com o português, facilitando a compreensão entre todos no Brasil. Em suma, um nome que sugere a compreensão gravado em uma imagem que lembra a incompreensão. Ou, nas palavras da própria banda: "Na tentativa de fazer uma foto instantânea do Brasil atual, as duas ideias se contrapõem bem: uma palavra (e uma linguagem) de entendimento para tentar explicar um mundo de desentendimento."

Antes de mais nada, é preciso deixar claro que este não é exatamente um disco de inéditas. Das 14 faixas, 10 já são conhecidas pelos fãs, uma vez que foram tocadas ao vivo ao cabo de dois anos de shows. E foram para o disco praticamente inalteradas. Em outras palavras, a banda seguiu na contramão do caminho "tradicional" e gravou em estúdio faixas que já havia apresentado ao vivo. O que não torna o disco menos interessante.

Se alguém desconfiava que este seria mais um trabalho mediano, a abertura "Fardado" (inédita) elimina qualquer dúvida. 28 anos depois de "Polícia", os Titãs voltam a atacar a corporação que tantos exemplos de má conduta nos ofereceu nos últimos tempos. Aproveitando-se de um grito de ordem que marcou presença nas manifestações de junho de 2013, a banda já abre o disco com o verso "Você também é explorado (fardado!)". Praticamente um "Polícia II".

"Mensageiro da Desgraça" cita vários cartões-postais de São Paulo e conta a história de um guerreiro da floresta de pedra. A estética da faixa lembra "Homem Primata", também do Cabeça. A influência da turnê de aniversário do álbum se faz perceber mais uma vez aqui. "República dos Bananas" traz a assinatura do vocalista e baixista Branco Mello em parceria com ninguém menos que o cartunista Angeli, o comediante Hugo Possolo e o ex-guitarrista de apoio do grupo Emerson Villani. O instrumental cativante serve de base para a letra, típica de Branco, que aborda questões cotidianas.

"Fala, Renata" é possivelmente a mais antiga das faixas. Vídeos de até dois anos atrás com a música sendo tocada ao vivo podem ser facilmente encontrados no YouTube. Apesar de ser uma das mais pesadas do disco, a letra faz com que ela pareça até meio infantil, embora haja lampejos de agressividade. Aliás, falando em agressividade, as quatro primeiras faixas trazem algo que a banda não apresentava em discos de estúdio desde A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana, de 2001: palavrões. Mas é preciso ir lá para o pesadíssimo Titanomaquia, de 1993, para ver a banda usando tal vocabulário várias vezes ao longo das faixas.

Eis que vem então uma sequência com as três outras inéditas: "Cadáver Sobre Cadáver", "Canalha" e "Pedofilia". Ou melhor dizendo, nem todas são tão inéditas assim: "Canalha" é um cover de Walter Franco, e recebe aqui uma pesada versão com aroma grunge. Bom saber que a "cozinha" ao vivo influenciou as composições exclusivas de estúdio também, mantendo o alto nível do disco.

"Chegada ao Brasil (Terra à Vista)" traz novamente a assinatura de Branco Mello e Emerson Villani, desta vez em parceria com o diretor de teatro Aderbal Freire. É uma espécie de crônica da viagem de Cabral e do Descobrimento do Brasil - mais uma vez, a personalidade de Branco grita aqui. "Eu Me Sinto Bem" também poderia ter sido escrita por Branco, mas é assinada por Sérgio Britto em parceria com o vocalista/guitarrista Paulo Miklos e o guitarrista Tony Bellotto.

Sentiu falta de alguma música romântica? Como aquelas que marcaram presença nos últimos discos do grupo? Bem, temos "Flores Para Ela". Sem melosidades, a banda entrega uma crônica da vida de um casal cujo marido é dominante e autoritário com sua esposa mas ainda assim manda "flores para ela".

Das quatro últimas faixas, três são bem diretas: "Não Pode", nítida crítica ao excesso de regras e leis; "Senhor", que juntamente a "República dos Bananas" traz sinais de "Dívidas", faixa não tão famosa do Cabeça; e "Quem São os Animais?" bela e atual mensagem contra o preconceito, que só podia ter sido assinada por quem já lançou músicas como "Igual a Todo Mundo" em sua carreira solo: Sérgio Britto. A penúltima faixa, "Baião de Dois", é pesada e traz uma letra complexa, típica de Paulo Miklos.

Algumas coisas ficam claras e cristalinas no disco: em primeiro lugar, os Titãs estão de volta às suas raízes, e ponto. Em segundo lugar, a ausência de metade dos membros da formação clássica é sentida sim, mas os paulistas conseguiram mostrar (finalmente) que quatro podem valer por oito - não em termos de criatividade e diversidade, o que seria humanamente impossível, mas em termos de qualidade e habilidade. Em terceiro lugar, a influência do disco Cabeça Dinossauro é tão óbvia que fica até repetitivo falar disso. E, acima de tudo, os Titãs conseguiram superar seu maior desafio: provar que ainda é uma banda relevante para o rock nacional.

O som do disco (dedicado à falecida esposa de Paulo, Rachel Salém) segue razoavelmente consistente do começo ao fim. O baterista convidado Mario Fabre tem muita habilidade e faz jus à vaga deixada por Charles Gavin. Tony Bellotto, agora acompanhado por Paulo Miklos nas guitarras, entrega riffs pesados e técnicos - juntos, são o maior destaque instrumental aqui. Nem o sereno violão, tão comum nos álbuns do grupo, está presente aqui. Sérgio Britto dosou bem seus teclados, com seu característico órgão dando as caras quando conveniente. Branco Mello, baixista em todas as faixas exceto as quatro em que canta (nessas, é Sérgio quem assume as quatro cordas), tem alguns momentos de inspiração, mas, na maior parte do álbum, limita-se a acompanhar a guitarra (e Sérgio fez o mesmo) - convenhamos, as linhas de Nando Reis eram mais inteligentes. Mas este pequeno detalhe não chega a comprometer a qualidade geral do trabalho.

Depois de chegar ao ponto de ter o encerramento de suas atividades sugerido por críticos em 2009, decepcionados com o fraco Sacos Plásticos, os Titãs definitivamente dão a volta por cima com seu melhor disco desde a virada do milênio. Letras inteligentes e diretas aliadas a um som curto e grosso: tão curto que os meros 37 minutos de música foram distribuídos em 14 faixas. Só quatro delas passam dos três minutos.

Track-list:
1. "Fardado"
2. "Mensageiro da Desgraça"
3. "República dos Bananas"
4. "Fala, Renata"
5. "Cadáver Sobre Cadáver"
6. "Canalha"
7. "Pedofilia"
8. "Chegada ao Brasil (Terra à Vista)"
9. "Eu Me Sinto Bem"
10. "Flores pra Ela"
11. "Não Pode"
12. "Senhor"
13. "Baião de Dois"
14. "Quem São os Animais?"

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Titãs - Titanomaquia [1993]


Por Lucas Troglio
publicado em 30 de julho de 2012 no Whiplash

Os TITÃS são um dos maiores nomes do rock nacional. Sendo responsáveis por clássicos como "Cabeça Dinossauro", "Õ Blésq Blom", "Acústico MTV Titãs" e "Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas", estes paulistanos lançaram em 1993 um disco que viria a sacudir a indústria musical nacional, o "Titanomaquia".

Para entendermos o "Titanomaquia" devemos saber o que aconteceu anteriormente. Em 1991 os TITÃS lançaram um disco que foi muito incompreendido: "Tudo Ao Mesmo Tempo Agora". O álbum de produção da própria banda, recebeu duras críticas, sendo classificado como um álbum imaturo e de baixa qualidade. O grupo que era responsável pelos melhores lançamentos da época produziu "Titanomaquia" juntamente com Jack Endino (que já trabalhou com artistas como NIRVANA e BRUCE DICKINSON), para responder à crítica do trabalho anterior. Além disso, ARNALDO ANTUNES deixava a banda para dedicar-se à seus trabalhos individuais, como sua carreira solo e a literatura.

Titanomaquia não foi um sucesso comercial, mas não chegou a ser um fracasso, já que fãs de música pesada começaram a se interessar pela banda, e os antigos gostaram dessa grande atitude dos paulistanos. Naquele período as vendas chegaram a 150 mil cópias.

É interessante percebermos a perda de popularidade que a música nacional sofreu nos anos 90 com o crescimento do grunge. Os olhos da indústria fonográfica se voltaram para o estrangeiro, e bandas nacionais buscaram retomar a atenção do público de diversas formas. Os TITÃS deram peso ao seu material.

Nas duas primeiras faixas, "Será Que É Isso O Que Eu Necessito?" e "Nem Sempre Se Pode Ser Deus", já se compreende que a banda não estava se importando com o que a crítica dizia, e estava preocupada apenas em fazer a música que acreditava. Ambas são respostas aos críticos.

"Hereditário" é a única cantada por NANDO REIS, que não encontrou na musicalidade do disco algo que ele se encaixasse. "Estados Alterados Da Mente" e "Agonizando" são de peso, e com letras fortíssimas. "A Verdadeira Mary Poppins" é uma das grandes do disco, instrumental preciso e muito trabalhada na bateria, vale perceber a grande influência grunge da faixa. "Dissertação Do Papa Sobre O Crime Seguida De Orgia" é simplesmente genial, uma letra que cospe na cara do próprio ser humano, atitude muito rock and roll. Finalizando com "Taxidermia" o disco fica como um registro do peso que os TITÃS podem ter, e um prato cheio para os metaleiros de plantão. As faixas não citadas não deixam a desejar, todas se mantêm no nível do disco, tanto na musicalidade como na qualidade.

Embora seja o período que ARNALDO ANTUNES deixava a banda, e NANDO REIS colaborou menos, Charles Gavin se superou na bateria, e neste disco podemos perceber arranjos fantásticos e bem trabalhados. Iniciava-se aqui o trabalho do selo "Banguela Records", um projeto dos titãs juntamente com o jornalista CARLOS EDUARDO MIRANDA que revelou grandes nomes da música brasileira. Como por exemplo: GRAFORRÉIA XILARMÔNICA, RAIMUNDOS e MASKAVO ROOTS.

Hoje os TITÃS estão consagrados na música popular brasileira. E embora haja ressalvas, seus trabalhos continuam com a mesma qualidade na composição. Com o passar dos anos a sonoridadevariou muito, de fato. Mas ainda temos muito a aproveitar dos novos trabalhos, caso você não perceba isso, eu só tenho a lamentar.


Faixas:

1- Será Que É Isso O Que Eu Necessito?
2- Nem Sempre Se Pode Ser Deus
3- Disneylândia
4- Hereditário
5- Estados Alterados Da Mente
6- Agonizando
7- De Olhos Fechados
8- Fazer O Quê?
9- A Verdadeira Mary Poppins
10- Felizes São Os Peixes
11- Tempo Pra Gastar
12- Dissertação Do Papa Sobre O Crime Seguida De Orgia
13- Taxidermia

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Titãs - Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas [1987]



Por Lucas Troglio
publicado em 24 de fevereiro de 2012 no Whiplash

Os Titãs se popularizaram a nível nacional em 1986 com o disco Cabeça Dinossauro, álbum que definiu o som da banda. O sucesso foi grande e trouxe um amadurecimento da banda, as músicas com letras marcantes e de grande efeito sobre o público deixam claro que a prisão de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto causou um impacto grande na musicalidade deles.

"Jesus não tem dentes no país dos banguelas" que analiso como o melhor trabalho da banda é simplesmente fenomenal. Pense o seguinte: uma banda com 8 integrantes, cada um com seus gostos e concepções. Isso foi determinante pra uma banda como Titãs ser uma banda de rock tão eclética (e boa aliás).

O álbum inicia com uma sequência de músicas peculiares porém de grande qualidade, "Todo Mundo Quer Amor", "Comida" e "O Inimigo" são músicas difíceis de se ouvir, mas quando se presta atenção nota-se uma grande harmonia e um instrumental simples porém preciso.

Muita gente diz não achar Titãs especial devido a falta de complexidade em riffs e ritmos, porém poucas bandas tem essa capacidade de composição. "Corações e Mentes" mostra isso, excelente música. "Diversão" é uma das mais significativas no disco, com um início lembrando algo do rock progressivo e logo após passando para um punk estilo Clash a letra é simplesmente sensacional, ao vivo essa música consegue ser mais empolgante ainda.

"Infelizmente" tem um baixo marcante e vocal é praticamente falado, vale a pena conferir a letra dessa música que é bem bacana. Daqui pra frente a experiência torna-se incrível, a faixa-título possui apenas uma frase, mas uma frase que diz tudo por si só, muitas interpretações foram feitas a partir disso, faça a sua; o instrumental dela é muito bom, Nando Reis mostra que não é apenas um grande compositor e sim um baixista de mão cheia (coisa já mostrada no disco anterior "Cabeça Dinossauro"). "Mentiras" é uma das minhas favoritas, Charles Gavin simplesmente impecável na bateria e mostra um feeling incrível acompanhando a banda numa levada muito boa.

A faixa "Desordem" tem um refrão que cola e tem um grande impacto sobre o ouvinte, Sérgio Britto faz um vocal roqueiro porém sem extremos. Ouvir "Lugar Nenhum" é muito divertido, a letra encaixou no instrumental como uma luva, é muito legal essa música, assim como a composição de Branco Mello "Armas Pra Lutar" tem uma energia diferente do restante do disco, são mais punks. São as músicas que mais chamam atenção da galera do rock e do metal.

O disco termina com "Nome Aos Bois" que é uma prévia do hit "O Pulso" do disco "O Blesq Blom". A música possui nomes próprios apenas e é inexplicável como eles fazem harmonias legais com apenas citar palavras (vai entender). Destaca-se também os nomes citados, todos de personagens importantes da história mundial.



Quem adquiriu o disco na versão CD tem a faixa bônus, que é excelente, assim como "Desordem", "Violência" tem um refrão muito bom e uma crítica à sociedade. É uma das melhores do disco e deveria ter sido acrescentada desde o LP.

Vale a pena conferir esse grande trabalho de uma das maiores bandas do rock nacional, que estava a toda, Nando Reis mostrava ser um grande baixista e alinhando seu som a pegada de Charles Gavin na bateria que é um show a parte desempenhavam um trabalho de muita qualidade. As composições como sempre foram são muito inteligentes e trabalhadas.

Esse é uma grande prova de que o rock nacional tem qualidade suficiente para competir com o internacional, deixem o preconceito com música nacional de lado e curtam o bom e velho rock and roll.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Titãs - Cabeça Dinossauro - Edição Comemorativa 30 anos [2012]



Por Jorge Almeida

Aproveitando que o post anterior foi sobre um clássico dos Titãs, resolvi analisar o relançamento de um de seus mais bem sucedidos álbuns: o clássico Cabeça Dinossauro.

O álbum foi (re)lançado no último dia 21 de maio, no retorno da banda com a Warner Music, durante a turnê comemorativa de 25 anos do disco. O disco foi lançado com as 13 canções originais, mais um CD demo com essas canções, incluindo a inédita “Vai Pra Rua”, de Arnaldo Antunes e Paulo Miklos, mas que ficou de fora do lançamento original, sendo substituída por “Porrada”.

A demo foi gravada e produzida pelos próprios Titãs no Estúdio Mosh, em fevereiro de 1986.

Bom, o álbum original, por si só, já é algo único. Mas a “demo”, uma espécie de esboço do que viria a ser um dos maiores trabalhos da história do rock brasileiro, é deleite puro. Para os fãs, esse relançamento é interessante porque é possível comparar as versões que foram lançadas no disco original e com as “demos”. Algumas tiveram algumas pequenas modificações, como em “Igreja”, que havia um “Pai Nosso” ao fundo no meio da música e vocal mais “agressivo” de Nando Reis; a introdução de “Bichos Escrotos” (só com a bateria no início) e o solo de guitarra diferentemente da versão mais conhecida do público; enquanto “Família” trazia um reggae mais cadenciado; “Homem Primata”, por sua vez, há apenas algumas mudanças, como a ausência da castanhola no meio da canção; e a edição mais “crua” (e irreconhecível) de “O Quê?”, que teve a intercessão do produtor Liminha, que adicionou scratches, programação de bateria e as guitarras ‘limpas’, e expandindo o tempo de duração da música, chegando perto dos seis minutos.

E sobre a única música inédita lançada – “Vai Pra Rua” -, só tenho dizer que é uma boa canção. Mas os Titãs foram felizes ao limá-la para dar lugar a “Porrada”, que é um dos pilares de Cabeça Dinossauro.

Para quem curte Titãs, é obrigatório; assim como é para quem gosta de apenas algumas músicas do grupo paulista.

Só faço duas ressalvas: a embalagem do CD duplo é digipack, aquela feita com papelão ou papel-cartão. Pode até ser mais bonita e “ecológica”, mas, particularmente, não curto esse tipo de material, pois é menos resistente e, com o tempo, dependendo de onde a embalagem fica armazenada, começa a surgir a umidade, podendo enrugar o papel.

Outra ressalva está na capa, que traz uma tarja vermelha na vertical com os dizeres “EDIÇÃO COMEMORATIVA – 30 ANOS”. A impressão que o consumidor tem é a de que o álbum é que faz 30 anos e não os Titãs.


A seguir, a ficha técnica e o tracklist da edição comemorativa de 25 anos de “Cabeça Dinossauro”.

Álbum: Cabeça Dinossauro
Intérprete: Titãs
Lançamento original: junho de 1986
Relançamento: 21 de maio de 2012
Gravadora: WEA
Produtores: Liminha, Pena Schmidt e Vítor Farias; Titãs (demo)

Arnaldo Antunes - voz e backing vocal
Branco Mello - voz e backing vocal
Charles Gavin - bateria e percussão
Marcelo Fromer - guitarra
Nando Reis - baixo e voz
Paulo Miklos - voz, backing vocal e baixo em “Igreja”
Sérgio Britto - voz, backing vocal e teclados
Tony Bellotto - guitarra

Liminha - guitarra em “Família” e “O Quê?”; percussão em “Cabeça Dinossauro”; DMX, drumulator e efeitos em “O Quê?
Repolho - castanhola em “Homem Primata

CD1:
1. Cabeça Dinossauro (Branco Mello / Arnaldo Antunes / Paulo Miklos)
2. AA UU (Sérgio Britto / Marcelo Fromer)
3. Igreja (Nando Reis)
4. Polícia (Tony Bellotto)
5. Estado Violência (Charles Gavin)
6. A Face do Destruidor (Arnaldo Antunes / Paulo Miklos)
7. Porrada (Sérgio Britto / Arnaldo Antunes)
8. Tô Cansado (Arnaldo Antunes / Branco Mello)
9. Bichos Escrotos (Arnaldo Antunes / Sérgio Britto / Nando Reis)
10. Família (Tony Bellotto / Arnaldo Antunes)
11. Homem Primata (Marcelo Fromer / Ciro Pessoa / Sérgio Britto / Nando Reis)
12. Dívidas (Branco Mello / Arnaldo Antunes)
13. O Quê? (Arnaldo Antunes)

CD2:
1. Cabeça Dinossauro (Branco Mello / Arnaldo Antunes / Paulo Miklos)
2. AA UU (Sérgio Britto / Marcelo Fromer)
3. Igreja (Nando Reis)
4. Polícia (Tony Bellotto)
5. Estado Violência (Charles Gavin)
6. A Face do Destruidor (Arnaldo Antunes / Paulo Miklos)
7. Vai Pra Rua (Paulo Miklos / Arnaldo Antunes)
8. Tô Cansado (Arnaldo Antunes / Branco Mello)
9. Bichos Escrotos (Arnaldo Antunes / Sérgio Britto / Nando Reis)
10. Família (Tony Bellotto / Arnaldo Antunes)
11. Homem Primata (Marcelo Fromer / Ciro Pessoa / Sérgio Britto / Nando Reis)
12. Dívidas (Branco Mello / Arnaldo Antunes)
13. O Quê? (Arnaldo Antunes)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Kleiderman - Con El Mundo a Mis Pies [1994]

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Lendo o artigo do Marcelo Moreira, que coloquei no post anterior, há um parte em que ele escreve que o hard rock brasileiro sempre caía nos manjados temas "mulheres, bebidas, zoeira, bebidas, carros, bebidas, mulheres…". Imediatamente me veio a mente a primeira, ou umas nas primeiras, bandas de rock nacional no estilo que ouvi lá no longínquo 1994: Kleiderman.

Eu tinha cerca de 15 anos, vivia em uma época que internet não existia ou praticamente isso. Minhas amizades eram de colégio e não havia roqueiros nesse meio. Raimundos ainda não haviam lançado seu primeiro álbum, ou pelo menos eu ainda não havia ouvido já que os ambas as bandas lançaram seus álbuns no mesmo ano. Ouvir rock nacional um pouco mais pesado era algo praticamente impossível devido ao círculo de amizades e somando-se ao fato de morar fora dos grandes centros. Se morar em Maringá City é complicado hoje, imagine naquela época !!!

Grana para comprar discos era outra coisa que eu não tinha. Então o que eu conseguia ouvir de rock era o que passava na findada rádio Alternativa FM e na (pasmem) Transamérica, que tinha um programa durante as tardes do meio de semana em que ocorria uma apresentação ao vivo na rádio.


Numa dessa tardes pego o programa já perto do fim com a banda Kleiderman detonando tudo. Naqueles tempos ouvir palavrões na música era o máximo do "foda". Veja bem, é diferente ouvir a sátira "Filha da Puta" do Ultraje a Rigor e ouvir palavrões em uma batida pesada que quer realmente agredir.


Mais do que rápido coloquei minha fita k7 no player e gravei o resto do programa. Sim, naquela época para  conseguir músicas das bandas, sem ter grana para comprar os discos, nós gravávamos o que passava nas rádios. Boa época e também "camela". Ouvi aquela fita inúmeras vezes me sentindo o "foda".


Depois disso surgiu Raimundos que monopolizou por um tempo o hard rock nacional e logo em seguida a internet ficou acessível, ao menos no trabalho, e as, até então, "obscuras" bandas foram se apresentando a esse que escreve e a vida ficou um pouco mais fácil.


O mais intrigante do Kleiderman é a formação. Sergio Britto e Branco Mello (são os caras dos Titãs mesmo) que fundaram essa banda, o que parece incrível visto que o Titãs sempre foi um metamorfose de estilos, apesar de terem lançado o então recente e aclamado Titanomaquia.  A eles se juntou a baterista (uia !!) Roberta Parisi, ex-Volkana. Para quem não sabe Volkana foi uma banda de metal só com garotas.


Resultado foi um hard rock muito bom. Se as letras não são aquelas coisas a pauleira dá conta do recado. A banda só gravou esse álbum e o projeto do Sergio e do Branco de tentar levar a banda em paralelo ao Titãs não vingou.


Quase esqueci de citar outro estranho detalhe. O nome da banda era para ser Richard Kleiderman (!?) em homenagem ao próprio mas no fim colocaram só Kleiderman por não terem problemas. Mas mesmo assim na capa do álbum há um band-aid sobre o nome Richard, logo antes de Kleiderman. Só para provocar.


Vale o registro histórico.