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domingo, 2 de setembro de 2018

Belchior [1974]

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Por Mauro Ferreira em G1

Equivocadamente citado com o nome de Mote e glosa em vários textos publicados em mídia impressa e digital, o primeiro álbum do cantor e compositor cearense Antonio Carlos Belchior (1946 – 2017) volta ao catálogo simultaneamente nos formatos de LP e CD, ambos com lançamento previsto para este mês de março de 2018. Intitulado tão somente Belchior, o álbum foi lançado originalmente em 1974 pela extinta gravadora Chantecler.

Fabricado em vinil de 180 gramas, o LP chega às lojas dentro da série Clássicos em vinil. Já o CD virá embalado na caixa Tudo outra vez, produzida por Renato Vieira com remasterizadas edições em CD dos seis álbuns do artista – Belchior (1974), Coração selvagem (1977), Todos os sentidos (1978), Belchior (1979), Objeto direto (1980) e Paraíso (1982) – que pertencem ao acervo da gravadora Warner Music.

Lançado sem repercussão na época, o primeiro álbum de Belchior apresentou a gravação original de Todo sujo de batom, música erroneamente grafada na capa original do álbum como Todo sujo de baton. Já a composição A palo seco tinha sido lançada por Belchior em obscuro compacto de 1973 enquanto Na hora do almoço tinha sido defendida em festival exibido em 1971 pela extinta TV Tupi.

O repertório do álbum Belchior inclui pérolas raras como Passeio, pescada pela cantora conterrânea Amelinha para o repertório do álbum De primeira grandeza – As canções de Belchior (2017), lançado em outubro do ano passado.


A1 -  Mote E Glosa
A2 - A Palo Seco
A3 - Senhor Dono Da Casa
A4 - Bebelo
A5 - Máquina I
B1 - Todo Sujo De Batom
B2 - Passeio
B3 - Rodagem
B4 - Na Hora Do Almoço
B5 - Cemitério
B6 - Máquina II

terça-feira, 2 de maio de 2017

Belchior - Coração Selvagem [1977]

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Por Carlos Eduardo Lima em Monkeybuzz

No fim dos anos 60, havia um movimento involuntário na cultura musical brasileira, de direcionava as atenções para artistas nascidos aqui, que fizessem música identificada com o país. Engraçado que essa tendência não era oriunda da Tropicália, ainda que esta tenha sido um movimento que buscava reinterpretar o Brasil e tudo que dissesse respeito a ele, só que levando em conta a modernidade como mote principal. Os tropicalistas não eram nacionalistas, pelo menos não no sentido estrito do termo, talvez fossem brasileiros cidadãos do mundo, ou algo assim. O fato é que a visão plural da Tropicália e o encorajamento proposto por ela em termos de valorizar o que é brasileiro como parte do que é mundial, tornou viáveis as aspirações de muita gente ao longo do território nacional, que tivesse ocupado seus sonhos com um futuro fazendo música.

Em Fortaleza, capital do Ceará, não foi diferente. Na virada das décadas 60/70, era possível detectar o aumento de cantores, compositores e intelectuais jovens, todos interessados em manifestar suas opiniões sobre praticamente todos os assuntos. Em torno do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Ceará, uma turma de jovens aspirantes ao sucesso e relevância nacionais como compositores e cantores logo surgiu. Raimundo Fagner, Ednardo, Amelinha, Têti e, entre eles, Antônio Carlos Belchior, um sujeito que vinha do interior do estado, mais precisamente (de Coreaú, próximo a Sobral) de Sobral. Ele chegara em Fortaleza em 1962, filho de pais músicos e sobrinho de tios boêmios.

Chegou a cursar até o quarto ano de Medicina na UFCE até abandonar os estudos por conta da carreira artística. Em 1971, depois de vincular-se ao "Pessoal do Ceará" (como era conhecido o coletivo de amigos), Belchior mudou-se para o Rio de Janeiro e venceu o IV Festival Universitário de MPB, no qual Jorge Melo e Jorge Teles defenderam sua composição Na Hora do Almoço. No ano seguinte, já morando em São Paulo, viu sua parceria com Raimundo Fagner, "Mucuripe", ser gravada por Elis Regina. Em 1974, Belchior lançaria seu primeiro disco, homônimo, chamando a atenção da gravadora Polygram. Dois anos depois, viria seu maior sucesso, Alucinação, com os hits Como Nossos Pais, A Palo Seco, Apenas Um Rapaz Latino Americano, entre outras. Elis gravaria também as duas primeiras canções, mas Belchior iria para outra gravadora, a Warner.

Seu terceiro disco, Coração Selvagem, é uma pequena obra-prima. É o ápice do Belchior compositor, filósofo e discreto cronista de um cotidiano cruel, que já se insinuava sobre as pessoas naquele 1977. Sua interpretação da faixa-título é um dos maiores momentos do blues made in Brazil, devidamente temperado por versos matadores como "mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar, que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar" ou "não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que alma deseja, arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo, pois tenho pressa de viver". Jamil Joanes toca baixo e Hélio Delmiro conduz guitarras e violões. O arranjo de cordas de Paralelas, outro sucesso, que já registrado em 1975 por Vanusa, trazia toda a beleza distópica da canção. A letra, igualmente rica, vinha com versos que ganharam fama como "No Corcovado, quem abre os braços sou eu, Copacabana, esta semana, o mar, sou eu, como é perversa a juventude do meu coração, que só entende o que é cruel, o que é paixão". O disco ainda traz outros belos exemplos da poética belchioriana, como "Galos, Noites e Quintais" e a subestimada Populus, assombroso conto sobre a relação entre pobres, ricos, trabalhadores e patrões.

Belchior não conseguiria reeditar o sucesso destes dois trabalhos, Alucinação e Coração Selvagem, com sua homenagem a John Lennon, Comentário A Respeito de John (1979) sendo, provavelmente, seu último grande hit. Ele se manteve produtivo, gravando discos para a Warner até 1982, depois passando para a Odeon e um sem número de gravadoras ao longo dos anos seguintes. Hoje Belchior é um misterioso e recluso personagem de histórias trocadas e suspeitas sobre abandono de sua vida em favor de uma existência sem bens, na qual o cantor/compositor seria devedor de milhares de reais em hospedagens em hotéis, faturas de cartões de crédito não pagas, apontando para um fim triste para este que é um dos grandes letristas da música brasileira.


A1 - Coração Selvagem
A2 - Paralelas
A3 - Todo Sujo De Baton
A4 - Caso Comum De Trânsito
B1 - Pequeno Mapa Do Tempo
B2 - Galos, Noites E Quintais
B3 - Clamor No Deserto
B4 - Populus
B5 - Carisma

sábado, 12 de dezembro de 2015

Belchior - Alucinação [1976]

Mega FLAC


Por Allan Kardec Pereira em Tequila Radio

Filho de bodegueiro, sobrinho de boêmios. Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, cearense de Sobral. Cantador de feira, poeta. Seminarista por um tempo, quando de lá saiu em 1965, veio conhecer a música dos Beatles, que desde 1962 já existiam. Teve influências visíveis em sua música da poética direta de um Dylan. Afastava-se dos concretos, “A minha alucinação é suportar o dia a dia/e o meu delírio é experiência com coisas reais”, diria o poeta/cantor em Alucinação. Alguns até aproximariam esse estilo direto de canções/poesia sujas de vida do estilo de Ferreira Gullar – uma vida quase palpável, diante da voz rouca e do tom de lamúria que anos depois os Mamonas Assassinas parodiariam em “Uma Arlinda Mulher”. Flertou com os Tropicalistas, quiçá mais no sentido de recepção da música estrangeira, sobretudo os já citados Beatles e Dylan. Há claras referências musicais aos dois, embora Belchior acompanhe suas canções essencialmente dos ritmos nordestinos e cearenses – sobretudo o brega, com letras extremamente particulares.

Alucinação, de 1976, é o segundo LP de Belchior, o primeiro a garantir sucesso de público e crítica ao jovem nordestino então chegado ao sul. É visível o tom de engajamento em prol da juventude, através da evidente dicotomia entre rebeldia e repressão. Lotado de referências as mais dispares possíveis- muitas delas através de um posicionamento irônico do cantor (à algumas letras de Caetano) -, tais como Drummond Allan Poe, Manuel Bandeira; os baianos Gil e Caetano; suas influências estrangeiras, Dylan, Lennon e McCartney, além de Kubrick em referência a Laranja Mecânica.

Letras um tanto longas, declamadas com a alma em Apenas um rapaz latino-americano, canção que versa sobre a vida do próprio cantor em sua chegada a cidade grande. Talvez nos versos: “Mas não se preocupe meu amigo/Com os horrores que eu lhe digo/Isso é somente uma canção/A vida realmente é diferente/Quer dizer!/A vida é muito pior”. resida um pessimismo realista diferente do que, por exemplo gritava Caetano em “Alegria, Alegria”. Explicitado ainda mais na faixa “Fotografia 3×4″, onde os versos: “Veloso o sol não é tao bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua…”.

“Como o diabo gosta”, “Velha Roupa Colorida” e “Como nossos pais” trabalham com essa idéia de rebeldia e leva a esperança – sempre presente, é verdade, ainda que por trás de todas as dificuldades – para um nova possibilidade de juventude. Há também falas sobre amor, amizade (“Para abraçar meu irmão e beijar minha menina na rua /é que se fez o meu lábio, o meu braço e a minha voz, em“Como nossos pais”), bem como encanto e desencanto advindo dos estranhamentos da migração nordestina para o eixo Rio-São Paulo (“Em cada esquina que eu passava / um guarda me parava / pedia os meus documentos e depois sorria /examinando o 3×4 da fotografia / e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha”, em “Fotografia 3×4”);(“Vou ficar nesta cidade / não vou voltar pro sertão / pois vejo vir vindo no vento / o cheiro da nova estação, em “Como nossos pais”).

Para além do rock esperançoso de “Sujeito de Sorte”, prevalece em Alucinação um desencanto poético calcado em uma profunda análise de si por parte daquele que canta. Exemplificada na grande canção (na minha opinião, a mais brilhante de Belchior) “A Palo Seco”.

“E eu quero é que esse canto torto,
feito faca, corte a carne de vocês.” 



A1 - Apenas Um Rapaz Latino Americano
A2 - Velha Roupa Colorida
A3 - Como Nossos Pais
A4 - Sujeito de Sorte
A5 - Como o Diabo Gosta

B1 - Alucinação
B2 - Não Leve Flores
B3 - A Palo Seco
B4 - Fotografia 3×4
B5 - Antes do Fim

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Entre O Sonho & O Som [2014]

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Ainda em homenagem a Belchior, após a releitura de Alucinação no álbum Ainda Somos Os Mesmos, é lançado esse EP contendo outros clássicos do artista gravados em outros discos. Entre as seis canções destacam-se Medo de Avião, Todo Sujo de Batom e Paralelas.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Ainda Somos Os Mesmos [2014]

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Por Wilame Prado
publicado em 26 de março de 2014 no odiario.com

Bandas fazem releitura contemporânea de “Alucinação” (1976), álbum clássico de Belchior
 

“Quem são os loucos? Nós, que chegamos às nove da manhã e ficamos até as sete da noite em redações, agências etc pra ganhar salários destinados, na maior parte, a pagar dívidas e nos permitir continuar acordando cedo, indo pro trabalho, comendo, pagando dívidas… nesse ciclo eterno, ou alguém que decide romper com isso?”

A indagação é do jornalista carioca Jorge Wagner, quando perguntado o que achava do sumiço de Belchior. Ele, que organizou em outubro de 2012 “Jeito Felindie”, um tributo ao Raça Negra, é idealizador e curador do projeto “Ainda Somos os Mesmos”, releitura do disco “Alucinação” (1976), um dos grandes trabalhos do músico cearense e que reúne, entre suas dez ótimas canções, sucessos retumbantes como “Apenas Um Rapaz Latino Americano”, “Como Nossos Pais” e “A Palo Seco”.

“Ainda Somos os Mesmos”, que, além das faixas de “Alucinação”, conta com bônus de outras cinco músicas de Belchior, tem lançamento previsto para esta quarta-feira (26), no site Scream & Yell. O trabalho, segundo Jorge Wagner, não tem fins lucrativos. As faixas e o streaming estarão disponíveis gratuitamente pelo site.

Para o disco, o jornalista convidou bandas e artistas da cena independente e que, por uma via ou outra, assumem ter influências “belchioranas” na hora de compor. Participam do trabalho, em ordem de faixas: Dario Julio & Os Franciscanos, Manoel Magalhães, Phillip Long, Nevilton, Lucas Vasconcellos, Bruno Souto, Lemoskine, Fábrica, Transmissor, Marcelo Perdido, Nana, Jomar Schrank, Ricardo Gameiro, João Erbetta e The Baggios.

“Fui, a princípio, em busca de artistas que eu mesmo gostasse e que, de alguma forma, fosse pela poética ou pela sonoridade, se identificassem com o trabalho do cearense. Não queria que o trabalho do Belchior fosse um mundo estranho pra nenhum deles”, diz.

Para a reportagem, o organizador do disco disponibilizou a faixa “Fotografia 3×4”, tocada pela banda Transmissor, e um teaser com pequenos trechos de outras três canções do disco. Pela sonoridade, o que se percebe é um respeito absoluto com as canções de Belchior por parte dos músicos, que, no entanto, dão roupagem nova às clássicas canções, apostando nas características sonoras da própria banda.

Em “Fotografia 3x4”, por exemplo, se Belchior faz introdução com coro, violão e teclado, os músicos da Transmissor já iniciam, em ritmo mais acelerado, a canção de ótima letra com um destaque para riffs da guitarra e bateria suave; no entanto, reconhece-se facilmente ali a linguagem poética de Belchior.

Gênio
Para o músico curitibano Dary Jr. (ex-Terminal Guadalupe), Belchior é um gênio. Ele participa de “Ainda Somos os Mesmos” tocando com a banda Dario Julio & Os Franciscanos nada mais nada menos que “Apenas Um Rapaz Latino Americano”.

“‘Alucinação’ é um álbum clássico. Regravá-lo é mexer em vespeiro, mas as novas gerações precisam conhecê-lo. Ouvir Belchior é quase um dever cívico. Suas canções, assim como o rock de Brasília dos anos 1980, abriram muitas portas para mim. Para além do prazer estético, Belchior te faz pensar sobre as relações afetivas, sociais e políticas em tempos bicudos. Ele é um gênio”, decreta o músico.

Rodrigo Lemos participa do tributo ao lado de sua banda, a Lemoskine. Ele, que também é guitarrista d´A Banda Mais Bonita da Cidade, fala sobre poder interpretar no disco “Não Leve Flores”, outra grande canção de Belchior: “Há uma perspectiva muito interessante e irônica em torno do ‘envelhecer e permanecer jovem’ e do ‘novo, que sempre vem’. Identifico-me totalmente.”

Mais do que homenagear o músico Belchior, os envolvidos com o projeto torcem também para que o disco chegue, de uma maneira ou de outra, nas mãos do cearense, onde quer que ele esteja neste momento. Quem sabe, rememorando “Alucinação” em vozes novas – assim como um dia já se arriscaram em seu cancioneiro Elis Regina, Los Hermanos, Engenheiros do Hawaii e tantos outros – o bigodudo resolva voltar a cantar.

“Se o próprio Belchior não chegar a ver, alguém entre as pessoas que sabem onde ele está vai acabar contando. Sobre o que ele vai pensar: espero que entenda o sentido de homenagem e acredito que algumas versões, como a do Phillip Long, por exemplo, possam agradá-lo bastante”, diz, esperançoso, Jorge Wagner.

Vida paralela

O músico Belchior deixou de se apresentar publicamente em 2009, quando foi considerado desaparecido após ter se separado da mulher, com quem estava casado há 35 anos, não dar notícias para os amigos e abandonado os palcos e as gravações musicais.

Segundo reportagem publicada na revista Época em dezembro do ano passado, assinada pelo jornalista Marcelo Bortoloti, Belchior abandonou a tudo e a praticamente todos para viver uma vida paralela ao lado da namorada, a produtora cultural Edna Assunção de Araújo, 46.

De acordo com a reportagem, passados cinco anos do sumiço, o músico nordestino de 67 anos atualmente vive escondido com Edna em Porto Alegre-RS e não pode sair em público porque é procurado pela polícia. Pesam contra Belchior, informa Bortoloti, dois mandados de prisão pelo não pagamento de pensões alimentícias.

Belchior também é cobrado na Justiça por um processo trabalhista contra ele no valor de R$ 1 milhão, sem possibilidade de recorrer. Segundo a Época, as contas de Belchior estão bloqueadas, e os imóveis que tinha, comprometidos.

Por causa da falta de dinheiro, Belchior e Edna já se abrigaram numa instituição de caridade e moraram de favor na casa de fãs desconhecidos.