Mostrando postagens com marcador Gal Costa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gal Costa. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de abril de 2015

Gal Costa - Gal [1969]

Mega 320kbps



Gal, de 1969 é o mais ousado disco da carreira de Gal Costa. Em nenhum outro momento a cantora repetiu o que ouvimos neste álbum. Gal, mais conhecido como o álbum psicodélico, a começar pela capa, com um desenho típico dos vôos sem céu do fim dos anos 1960. Na contra capa aparece uma imagem desfocada da cantora, com o seu cabelo “juba de leão”, já anunciando a sua fúria. O momento é de raiva. Seus amigos e companheiros da Tropicália, Gilberto Gil e Caetano Veloso, após a prisão em dezembro de 1968, seriam libertados na quarta-feira de cinzas de 1969, sendo escoltados até Salvador, de onde partiriam em Julho para o exílio em Londres. Gal Costa ficava sozinha com a sua raiva. Da menina bossa nova de “Domingo” (álbum de lançamento da sua carreira, em 1967) não resta nada. Suas interpretações e posturas, até então intimistas e contidas, tornam-se mais agressivas. A cantora junta-se a Jards Macalé e à guitarra de Lanny Gordin, o resultado é este álbum único, com apenas nove faixas, mas que não houve outro registro igual na música brasileira.

Do Rock Psicodélico ao Grito de Protesto

O álbum começa com “Cinema Olympia“ (Caetano Veloso), onde, sem maiores rodeios, ela já nos avisa:

“Não quero mais
Essas tardes mornais, normais”

Na década de 60 todas as grandes cidades tinham o seu cinema Olympia (Belém, São Paulo, Rio, Salvador – talvez o cinema que Caetano se refere, seja o Olympia da Baixa dos Sapateiros, famoso por suas matinés para a burguesia local, que nos anos 1960 passava filmes de westerns dos anos 40 de Tom Mix e Buck Jones). Caetano Veloso deixou esta música em demo, com o seu exílio nunca a gravou, sendo lançado recentemente um álbum com a versão demo e com inéditas do autor numa caixa comemorativa. Ao cantar “Cinema Olympia”, a voz jovial da cantora não nos indica a leoa enfurecida que está por vir.
”Tuareg” (Jorge Ben) parece nos levar para oásis e desertos orientais, mas o ano é de 1969, a guerrilha urbana está no auge, assaltos a bancos, o seqüestro do embaixador norte-americano pela resistência guerrilheira, assassínio nas ruas de São Paulo de Carlos Marighela. Os versos de Jorge Ben não soam tão ingênuos, mas provocativos:


“Pois ele é guerreiro
Ele é bandoleiro
Ele é justiceiro
Ele é mandingueiro
Ele é um tuareg”


Seria um tuareg dos desertos? Ou um guerrilheiro das ruas das cidades brasileiras? A música fez parte da trilha do filme "O Diamante Cor-de-Rosa", de Roberto Farias, 1969, com Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

É a partir de “Cultura e Civilização” (Gilberto Gil) que começam os gritos, as mixagens sujas, o canto rascante da leoa enfurecida.


“Contanto que me deixem meu cabelo belo
Meu cabelo belo
Como a juba de um leão”


“Com Medo, Com Pedro” e “Objeto Sim, Objeto Não” (aqui se registra o ápice da viagem psicodélica) são as outras duas canções de Gilberto Gil que entram no álbum. Gilberto Gil deixara as canções em demo no dia que embarcou para o exílio, para que Gal Costa pudesse saber como cantá-las.
O ano de 1969 também é o ano do festival de Woodstock, que reuniria em um sítio mais de 300 mil hippies e entraria para a história. A influência de Janis Joplin no início da carreira de Gal Costa é literalmente gritante nas faixas “The Empty Boat” (Caetano Veloso) e “Pulsars e Quasars” (Capinam – Jards Macalé), esta última encerra o álbum e mostra a insatisfação da cantora com os acontecimentos políticos, que a transformam na última representante da Tropicália, a sua fúria é refletida nas distorções da guitarra ácida de Lanny Gordin, nos versos que chamam e clamam pelos amigos exilados:


“O inverso, um ser mutante universal
Meu ingresso para as touradas do mal
Dos sóis, Cá e Gil me mandem notícias logo
A sós, pulsos abertos, eu volto
Sem voz, ye ye, sem voz”


Há tempo para aquela que seria por muitos anos, a música mais lembrada de Jorge Ben, “País Tropical“, numa participação especial de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Resta a pergunta, esta participação foi feita em estúdio? Provavelmente não, pois desde que saíram da prisão Gilberto Gil e Caetano Veloso foram escoltados até Salvador, até o embarque para o exílio não pisaram mais no Rio de Janeiro e nem em São Paulo. Apesar de ser uma das mais belas e contundentes interpretações de “País Tropical”, a canção explodiu não com Gal Costa e seus convidados, mas através de Wilson Simonal, sendo esta versão durante anos conhecida apenas pelo público da cantora, recuperada bem mais tarde pela MPB.

O destaque do álbum vai para “Meu Nome é Gal” (Roberto Carlos – Erasmo Carlos), a dupla maior da Jovem Guarda fazia para Wanderléa músicas românticas, ingênuas. Para Gal era diferente, refletia uma mulher contestando a sua época, mostrando o amor livre de então, não importando cor, crença ou tradição. A canção mostra uma Gal Costa libertária, com seus ruídos vocais, os agudos aqui indomáveis diante da guitarra, mudando as oitavas. A cantora encerrava o lado A do disco com esta canção, rasgando a música na metade e se apresentando:


"Meu nome é Gal, tenho 24 anos
Nasci na Barra Avenida, Bahia
Todo dia eu sonho alguém pra mim
Acredito em Deus, gosto de baile, cinema
Admiro Caetano, Gil, Roberto, Erasmo,
Macalé, Paulinho da Viola, Lanny,
Rogério Sganzerla, Jorge Ben, Rogério Duprat,
Waly, Dircinho, Nando,
E o pessoal da pesada
E se um dia eu tiver alguém com bastante amor pra me dar
Não precisa sobrenome
Pois é o amor que faz o homem"


Ao fechar o lado A do LP, ninguém mais se esqueceria daquela que gritava “Meu Nome é Gal”.

Na época Gal Costa refletia os dois lados da sociedade brasileira: a mulher que era reverenciada por uma juventude massacrada pela ditadura, remanescentes dos ventos vindos do Maio de 1968, de Paris, que trazia cabelos e roupas exóticas, que ousava confrontar os costumes e abraçar as novas tendências do mundo, que era convidada para fazer o show de moda Stravaganza, ao lado de Raul Cortez, na Fenite, e a mulher odiada pelos conservadores, que falavam para as suas filhinhas bem-comportadas: “Se não pentear os cabelos vai virar uma juba que nem os da Gal Costa”.

“Gal”, o psicodélico, é tropicalista? É. É rock? É. É o Woodstock tupiniquim? É. É hippie,jopliniano? É tudo isto e mais um pouco. É Gal. O que faz o álbum “Gal”, o psicodélico, diferente do primeiro álbum solo da cantora? O romantismo. Nele não há tempo para as músicas românticas. É tempo de sobreviver, de gritar, contestar, portanto não há espaço para as músicas românticas. É a grande diferença dos dois álbuns de 1969 de Gal Costa.

”Gal” 1969 é a intervenção mais radical da carreira de Gal Costa. Mostra uma cantora ímpar e sem limitações de carreira. No distanciamento do tempo, é um álbum amado ou odiado, sem meios termos. De uma atualidade incondicional. Virou o álbum mais cult da carreira da cantora. Depois deste álbum nada mais fez sentido na Tropicália. Encerrou-se aqui!


Release do Disco – Por Caetano Veloso

Você precisa saber que Gal Costa é um dos acontecimentos mais importantes da música brasileira de hoje. Na Bahia havia a Graça e uma sala profunda, enraizada, recôncava de cachoeiras mortas, uma voz guardada apenas ali, absoluta. Gal nunca teve medo. Eu não tenho medo de saber que é difícil para o artista assumir sua própria grandeza. Ela ouviu João Gilberto mais e melhor do que ninguém. Não acredito que alguém ainda tenha medo de guitarras elétricas. WOW! Acho que o nosso trabalho não estabelece um universo para Gal que o nosso experimentalismo necessariamente desorganizado... SNIF, SNIF, tudo é perigoso, "Why Each time Superman appears at that window, Clark Kent is not at his desk?", Janis Joplin, Jackson do Pandeiro, Cool, Paulinho da Viola, a legião dos Sub- heróis. Mas Gal EXPLODIU sozinha, muito acima de tudo. João Gilberto havia se comovido com a Graça, descobrindo sua voz guardada. Ninguém pode deplorar nosso Vale-Tudo: quando Gal canta, ele vale-nada. Gal EXPLODIU sozinha. Só vale Gal.
Eu sei que é assim
Caetano Veloso


Ficha Técnica:

Gal
Philips
1969

Direção da produção: Manuel Barenbein
Arranjos e direção musical: Rogério Duprat
Técnicos: João Kibelkstis e Stélio Carlini
Estúdio: Scatena - SP
Fotos da contracapa: Freitas
Capa: Dicinho

Músicos Participantes:
Baixo, guitarra solo e guitarra base: Lanny Gordin
Bateria: Eduardo Portes de Souza e Diógenes Burani Filho
Violão: Jards Macalé
Baixo: Rodolpho Grani Júnior

Faixas:

1. Cinema Olympia(Caetano Veloso)
2. Tuareg (Jorge Ben)
3. Cultura e civilização (Gilberto Gil) 
4. País tropical (Jorge Ben) Participação: Caetano Veloso / Gilberto Gil
5. Meu nome é Gal (Erasmo Carlos - Roberto Carlos)
6. Com medo, com Pedro (Gilberto Gil)
7. The empty boat (Caetano Veloso)
8. Objeto sim, objeto não (Gilberto Gil)
9. Pulsars e quasars (Capinan - Jards Macalé)

sábado, 28 de setembro de 2013

Gal Gosta - Fa - Tal - [1971]


Download 320kbps


Por Jeocaz Lee-Meddi


FA-TAL - GAL A TODO VAPOR: O ÁLBUM DA GERAÇÃO DO DESBUNDE


Há momentos sublimes da criação do artista, cujo carisma é assimilado por uma legião de pessoas em busca de uma definição de ideais, sonhos ou apenas identificação na essência mais primária da composição do retrato humano. Quando esse momento acontece em uma determinada obra do artista, esta lhe é arrebatada (quase usurpada) e feita voz, ícone e representação. Assim aconteceu com “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Joahnn Wolfgang van Goethe em 1774, livro símbolo de uma geração de jovens na Europa do romantismo, que fizeram dos sofrimentos e da forma de estar na vida do jovem Werther, o modelo a ser seguido.

No Brasil da fase pós-AI-5, promulgado em 13 de dezembro de 1968, o endurecimento da ditadura deixou uma geração calada e sem rumo. Uma geração que passou pelos suspiros das contestações de 1968, pelo psicodelismo embriagante do roque do fim dessa década, pelas drogas, a Tropicália, o movimento Flower Power e pelo histórico espetáculo de Woodstock; essa mesma geração chega ao início da década de setenta mergulhada em um vazio e em uma lacuna deixada pelo silêncio de quem pensava e via as palavras caladas pela força bruta.

Essa geração sem heróis ou ídolos para exaltar e refletir o espelho de Narciso, encontra-se em 1971 com Gal Costa, que com a sua voz de sereia, estreava o show que seria o símbolo dessa geração: “Gal a Todo Vapor”. Nessa simbiose entre artista e público, a geração que ficaria para sempre conhecida como a do desbunde, faz do show um momento de fuga e sonho, de poder dizer não às convenções de uma sociedade de um país calado pela repressão, mas mutante em seus costumes. O show estréia em novembro de 1971 no Teatro Tereza Raquel, no Rio de Janeiro, dirigido por Waly Salomão. Com ele a geração do desbunde elege a sua musa, Gal Costa. O espetáculo torna-se obrigatório durante todo o verão de 1972.

Do show surge o álbum duplo “Fa-tal: Gal a Todo Vapor”. O disco, assim como "Werther" de Goethe, é arrebatado da cantora para se tornar o hino cultural da geração do desbunde.

Geração Desbunde

A moda à época do show “Gal a Todo Vapor” é a dos cabelos compridos. Aquela geração de cabeludos órfãos da Tropicália e de Woodstock torna-se a Geração do Desbunde. O termo desbunde foi denominado pela esquerda radical. Era tido como um movimento individualista e sem propósito ideológico. Seus participantes eram vistos como politicamente alienados e alienantes. Seguiam a cultura underground sugerida pelo tropicalismo e pelo movimento hippie. A cultura vista como marginal e de ruptura estética. É a contracultura.

A contracultura surgiu com a publicação do poema “Howl”, de Allen Ginsberg (1956). Ginsberg foi o representante máximo do que ficou conhecido como a beat generation. Os beats foram os precursores ideológicos dos hippies, que surgiram nos anos sessenta. Os dois movimentos incitavam à filosofia do Drop Out: não lutar por mudanças no sistema, mas sim debandar (desbundar) e “curtir a vida” como lhes apetecesse, longe de princípios a ser seguidos, indiferentes às críticas e aos preconceitos dos “caretas”. A palavra de ordem era "não ser careta".

A geração de poesia marginal ou geração desbunde da década de 70, surge no eixo Rio-São Paulo. É um movimento de artistas (escritores, cineastas, cantores, pintores) independentes, que não possuem plataforma estética explícita, o que lhes tira o caráter histórico de movimento. No movimento modernista era comum a exaltação dos símbolos nacionais. No desbunde a exaltação é o homem e o seu existencialismo angustiado, a sexualidade rompe com os tabus. É a importação dos moldes americanos com o existencialismo europeu de Jean-Paul Sartre.

Glauber Rocha, dizia sobre as juventudes do desbunde e a juventude armada do final da década de sessenta: "a luta da granada contra o rock".

O desbunde trava o discurso do corpo, a festa, a droga. Procura novas formas de percepção, vocifera uma liberdade existencial convulsiva e prazerosa. Traz no underground a contestação.

No Rio de Janeiro, essa geração freqüentava no início da década de setenta o Píer, local que se tornou moda, criado por causa de um Emissário Submarino e ficava entre as Ruas Farme de Amoedo e Teixeira de Melo. Proporcionou boas ondas no mar e sensação nas areias de Ipanema. Ali nasceram as dunas do barato, ou dunas da Gal, local predileto da cantora. O ambiente descontraído reunia surfistas, artistas, hippies e intelectuais.

Fa-tal – Gal a Todo Vapor: o Disco

“Fa-tal – Gal a Todo Vapor” foi lançado pela Philips antes do natal de 1971. Primeiro álbum duplo da carreira de Gal Costa, traz dezenove faixas e dezessete canções, que foram imortalizadas no show. Na
capa é destacada a boca vermelha da cantora ao microfone, que a partir de então, seria símbolo e ícone da sua carreira, juntamente com os cabelos. Quando lançado em CD teve as disposições das músicas alteradas em relação ao LP e até a capa veio adulterada. Na versão do CD, é respeitada o início do show, com Gal Costa, intimista, ao violão. No LP, o disco inicia na segunda parte, com a cantora e a banda no palco.

Como completa tradução de uma geração calada e perdida em suas próprias dúvidas, é um disco de canções existencialistas e de sentimentos rasgados à flor da pele. Grandes nomes da MPB identificados à época como representantes do underground, assinam as faixas.

“Dê Um Rolê” (Galvão – Moraes Moreira) inicia o canto que arrebatará a geração dos cabeludos. Vinda de músicos da banda Novos Baianos, é um rompimento de quem traduz no amor os anseios de uma vida, maior do que a força do dinheiro. Ser “amor da cabeça aos pés” é ser maior do que o modelo da sociedade capitalista tão bem representada pelo “milagre brasileiro”, então no seu auge.

Mas se “Dê Um Rolê” é superior ao momento vivido, “Mal Secreto” (Jards Macalé – Waly Salomão) é a própria sombra dilacerante da força bruta que cala um país, uma juventude. Visceral, inquietante, protesto sufocado e silêncio diluído nos medos, mascarar e massacrar a dor, uma realidade social ou do amor.

“Pérola Negra” (Luiz Melodia) é a ousadia da nova forma de amar que a década trazia, “tente saber tudo mais sobre o sexo”, porque já se pode falar sobre sexo, estamos diante da geração que no final da década de sessenta descobrira o amor livre, que descobriu ser possível levá-lo para dentro dos brandos costumes da sociedade. Gal Costa quase que grita com o seu canto, esse momento tão arrancado de dentro de quem vivia a fase de transição da mudança de tais costumes. A música cresce, a voz da cantora é aqui guerreira, mostrando porque aquela geração a havia escolhido para musa. Quem ousava na época cantar a relação rasgando a camisa e as roupas? Com esta canção um novo compositor fica conhecido no cenário musical brasileiro, Luiz Melodia. Gal Costa revisitaria “Pérola Negra” na comemoração dos seus trinta anos de carreira, no álbum “Acústico MTV”, em 1997, em dueto com o compositor da música.

Duas faixas do “Legal” (1970), álbum anterior, são registradas aqui: “Hotel das Estrelas” (Duda – Jards Macalé) e “Falsa Baiana” (Geraldo Pereira). A primeira é uma canção que descreve a juventude que vê amigos mortos pela ditadura e pela droga. A juventude que se sente tolhida e ameaçada. Nem a ditadura nem a droga oferecem saídas, mas a segunda alivia um pouco mais os tormentos. É a solidão dos anos vista pela janela e pela distância:

“Dessa janela sozinha
Olhar a cidade me acalma
Estrela vulgar a vagar
Rio e também posso chorar
Oh, e também posso chorar...”

A segunda, música de 1944, leva uma roupagem estilo bossa nova que se perpetuou ao repertório de Gal Costa, uma verdadeira baiana. Teria uma terceira versão no "Acústico MTV".

Um momento intimista do disco, quebrando um pouco o seu canto instigante, acontece com “Assum Preto” (Humberto Teixeira – Luiz Gonzaga). Aqui Gal Costa usa a sua voz de sereia como arma da mais profunda beleza e tristeza, como os olhos da ave cegada para cantar melhor. Como a cantora se sentia com o exílio dos amigos da Tropicália. A interpretação comove. O disco segue na linha da saudade e da homenagem aos amigos: “Bota a Mão nas Cadeiras” (Folclore Baiano), homenagem à Maria Bethânia, que cantava a canção em seu show ”Rosa dos Ventos”. “Maria Bethânia” (Caetano Veloso) reflete a homenagem à cantora homônima. “Não se Esqueça de Mim (Chuva, Suor e Cerveja)” (Caetano Veloso) é uma lembrança aos amigos Caetano e Gil, que estão do outro lado do Atlântico, em Londres.

“Como Dois e Dois” (Caetano Veloso) aparece em duas faixas. A canção foi gravada naquele ano por Roberto Carlos, tornando-se sucesso de público na interpretação do cantor. O registro de Gal Costa é mais intimista, apesar de aparecer duas vezes no álbum, não marca o seu repertório e nem se torna uma interpretação essencial. E como o tempo é de sofrimento existencialista, “tudo vai mal” ou tudo está perfeito “como dois e dois são cinco”, Caetano Veloso fizera a música no auge do seu exílio na Europa.

Ainda percorrendo o universo intimista do álbum, esbarramos com a canção “Fruta Gogóia” (Folclore Baiano), que “Como Dois e Dois”, também aparece em duas faixas. Recuperada do vasto folclore da eterna magia baiana, “Fruta Gogóia” é daquelas canções que por algum motivo se prendeu para sempre ao mundo musical de Gal Costa, não se separando mais. A canção volta a ser incluída no álbum “Gal Costa ao Vivo”, de 2006. E cumprido a promessa, samba que Gal Costa ensaiar o mestre não olha.

Na calma momentânea do álbum passamos rapidamente por “Charles Anjo 45” (Jorge Ben), outra alusão ao amigo Caetano Veloso.

Na sua visita de homenagens à saudade, traz de volta “Coração Vagabundo” (Caetano Veloso), primeiro quase sucesso de sua carreira em 1967, do álbum de estréia “Domingo”. E alguns anos depois, o coração não se cansava em tempos difíceis, de ter esperança de um dia ser tudo.

Desfilando pela MPB, Gal Costa recupera uma antiga canção, “Antonico” (Ismael Silva), que até então já ninguém mais se lembrava, depois desse registro, ninguém mais se esqueceu. “Antonico” tornou-se uma canção cultuada pelos críticos e fãs da cantora. Em algumas fases da recente história brasileira, a canção foi assimilada no cotidiano brasileiro com o nepotismo e com a política de favores. Assim como “Fruta Gogóia”, também voltaria a ser regravada no álbum “Gal Costa ao Vivo”.

O auge do intimismo do álbum é alcançado com “Sua Estupidez” (Erasmo Carlos – Roberto Carlos), uma das interpretações mais definitivas da carreira da cantora. A canção tinha sido lançada por ela em um compacto simples no início de 1971. A melodia, a poesia da letra, a melancolia saudosista e a sua beleza ímpar, tudo cai com perfeição à voz da cantora. “Sua Estupidez” consegue algo raro, ser diferente e lírica em todas os registros que há na interpretação de Gal Costa. Além das duas versões de 1971, ao vivo e em estúdio, ela reaparece em 1997 no “Acústico MTV” e no dueto com Roberto Carlos em seu tradicional programa de fim de ano na Rede Globo; em 2006 numa participação especial no álbum de Wagner Tiso, “Wagner Tiso 60 Anos – Um Som Imaginário”. Nos cinco registros Gal Costa emociona nas interpretações desta canção.

Após as canções intimistas, voltamos à essência do álbum com “Luz do Sol” (Waly Salomão – Carlos Pinto). Novamente o protesto implícito da geração sufocada pelo medo e pelos perigos do regime. Aqui já não se grita que tudo é perigoso, ou divino maravilhoso, os tempos são outros. Tempo de silêncio e tortura, de sobrevivência. E quem sobrevive só pensa em ver a luz do sol brilhar novamente nas trevas dos tempos e da história do Brasil.

Mas é “Vapor Barato” (Jards Macalé – Waly Salomão) a canção que se irá tornar o hino oficial da Geração do Desbunde. A canção tinha sido lançada em compacto no início de 1971, em uma versão rock, totalmente diferente da versão ao vivo. A canção reflete essa juventude intelectualmente consciente do momento vivido, mas presa às limitações do regime e da droga. É na contestação da sexualidade imposta e do amor livre proposto que extravasam essas limitações. Os amores são fugazes, por isso vividos intensamente. Seguir à deriva dos sentimentos, partir sem olhar para trás em um navio ou outro veículo qualquer, sem as imposições do dinheiro, aqui novamente desprezado em relação aos sentimentos, visceralmente vividos.

"Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu não acredito mais em você
Com minhas calças vermelhas
Meu casaco de general
Cheio de anéis
Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio"

E “Fa-tal – Gal a Todo Vapor”, termina como começou, após um grande role, imerso no vapor barato em fuga, encerrando um dos mais emblemáticos e belos álbuns da MPB. O álbum é poesia underground, é marginal, de um existencialismo convulsivo. Fez parte de um movimento cultural que tomou o canto de Gal Costa como hino. Ver o show Gal a Todo Vapor e ouvir o disco era sinônimo de não ser careta, de pertencer a esse movimento.


Ficha Técnica:

Fa-tal - Gal a Todo Vapor
Philips
1971

Direção geral: Waly Salomão
Direção de produção e estúdio: Roberto Menescal
Técnico de gravação: Jorge Karan (gravação ao vivo)
Assistente de produção: Paulo Lima
Arranjos: Lanny
Capa: Luciano Figueiredo e Oscar Ramos
Fotos: Edison Santos e Ivan Cardoso

Músicos Participantes:

Direção musical e guitarra: Lanny
Baixo: Novelli
Bateria: Jorginho
Tumba: Baixinho

"Fa-tal": título extraído do poema homônimo, incluído no livro "Me Segura Que Eu Vou Dar Um Troço" de Waly Salomão

Faixas:

Versão do LP:

Disco 1

Lado 1
1 Dê um role (Moraes Moreira - Galvão), 2 Pérola negra (Luiz Melodia), 3 Mal secreto (Jards Macalé - Waly Salomão), 4 Como dois e dois (Caetano Veloso)

Lado 2
1 Hotel das estrelas (Jards Macalé - Duda), 2 Assum preto (Humberto Teixeira - Luiz Gonzaga), 3 Bota a mão nas cadeiras (Folclore Baiano), 4 Maria Bethânia (Caetano Veloso), 5 Não se esqueça de mim (Chuva suor e cerveja) (Caetano Veloso), 6 Luz do sol (Waly Salomão - Carlos Pinto)

Disco 2

Lado 1
1 Fruta gogóia (Folclore Baiano), 2 Charles anjo 45 (Jorge Ben), 3 Como dois e dois (Caetano Veloso), 4 Coração vabundo (Caetano Veloso), 5 Falsa baiana (Geraldo Pereira), 6 Antonico (Ismael Silva)

Lado 2
1 Sua estupidez (Erasmo Carlos - Roberto Carlos), 2 Fruta gogóia (Folclore Baiano), 3 Vapor barato (Jards Macalé - Waly Salomão)