Eram de várias cores e tamanhos, espalhados aleatoriamente sob o tampo de madeira branca. Assim, dispersos ao acaso, fizeram-me lembrar o micado que me roubava paciência e destreza em algumas tardes quentes de Verão. Mas, naquela noite de aragem fresca que se insinuava pela janela entreaberta, só conseguia antever um outro exercício. Ele, já com um lápis de papel em riste, folheava, com...
Não consegues escapar desse labirinto de fonemas ruidosos, palavras dúbias e gestos incertos em que te iludem. É nesse cárcere anímico que te desfalecem as vontades, as ambições, as expectativas. Deixa a firmeza desse chão que pisas, descalço, e salta. Foca-te no impulso, sente a adrenalina e vê superiormente o que te sufoca. Christophe Blanchard Aproveita essa brisa que sopra acima de ti e...
As minhas mãos, magras e engelhadas, repousam separadas no meu regaço. Os meus olhos, claros e cansados, fitam, com desdém, o velho que não pára de sobrepor o seu lamento ao murmúrio da sala quase cheia. Os meus ouvidos captam, em esforço e sem controlo, esse gemido arrastado de um "aiiiii" cavernoso e completamente assíncrono de qualquer dor real. Procuro manter a respiração...
Acordei repentinamente Com a urgência de te escrever. Senti os minutos a pesarem como horas E o peso da chuva a ameaçar a manhã. Vesti-me apressadamente Enquanto pensava nas palavras Não as certas, mas as certeiras [As mesmas que tanto desejei emudecer]. Quando sai de casa, Elas estavam quase prontas. Roídas de inveja pela subtileza Com que as pontuei. O dia consumiu-me as...
Para lá da porta, havia uma cortina cerrada de chuva. Na porta, recortava-se a silhueta sombria da pessoa que, após uma série de perguntas, percebeu quem eu procurava e que, por fim, me disse que tu já não vivias. E o tom foi de uma constatação tão banal como se comentasse que lá fora chovia impiedosamente. Gregory Thielker Bastou uma manhã para conhecer...
Yisa Akinbolaji Um desvio repentino precede um olhar fixo. Uma incerteza consumada sucede à emoção abafada. As mãos tristes preenchem o intervalo. E na epopeia de chegar daqui até aí, há risos abstractos que se emancipam. Nesse alvéolo de luz, em que cabemos os dois, os braços são agora o corpo imerso, vacilante. Queria, num afago de mãos cheias, maltratar a distância, desuni-la....
Clina Polloni O céu escarlate domina o horizonte, nesta terra de homens tisnados. A esta hora, não importa a idade, as crenças, as ocupações, talvez até as geografias sentimentais. A esta hora, por aqui, todos acorrem à praia de areia fina para espreitar este fenómeno da Natureza. Em terra estrangeira, com outra perspectiva, é curioso observar que este povo de expressões robustas e...
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Reencontro-te nessas palavras coladas num postal remetido de um país distante. Reencontro-te nesses sorrisos que não toleramos que nenhuma máquina fotográfica registe na sua essência. Reencontro-te nessas lembranças quentes, quase cópias exactas do ontem que ficou entalado entre muitos hoje. Reencontro-te nessas pequenas partilhas que cabem numa caixa de papel. Reencontro-te na memória auditiva dessa gargalhada profunda e continuada. Reencontro-te nesses reversos do...
Caminho por entre estas paredes que cheiram a sofrimento desinfectado. Cada passo acentua o medo, exalta a dúvida do que vou encontrar. Viro à direita, vejo o 24 na porta entreaberta e a cortina corrida, lá ao fundo. Um vulto debruçado sobre a cama onde o meu avô permanece quieto e vacilante. Aproximo-me, sempre na esperança de o ver com aquele sorriso matreiro....
Mesmo em frente, uma pequena e tosca chaminé está plantada sobre um telhado de lousa. Usa um chapéu de ferro que obriga o fumo a revolutear, desenhando curvas e contracurvas no ar. Essas trajectórias são ainda perturbadas pela chuva que cai sem pedir licença. Ao largo, uma cegonha cruza o céu. O barulho de um motor chega cortado pelo burburinho das crianças que...
Deito-me sobre o chão do meu quarto. O tapete às riscas é a minha única perspectiva.Sucumbo ao cansaço dos dias vazios. Hoje, não luto contra o desânimo. Estou esgotada e, simplesmente, não me obrigo a ter esperança. Dói-me o pulso direito, não pelo cansaço de escrever, mas pela inércia desencadeada pela desinspiração. Os vizinhos do andar de baixo são tão barulhentos. Gritam, impacientes, com...
Os seus fundos olhos mansos encaram-me, desconfiados. São desse castanho-escuro que veste estas cepas que tantas energias nos sugam. Lança-me um ar de enfado, mas compadece-se com as gotas de suor que me lavram a testa. Ele conhece o ângulo mais remoto do gesto que vou fazer. Eu finjo, descaradamente, que não vejo a fraqueza das suas pernas arqueadas, fruto do cansaço de...
Ele ficará pendurado no tempo, enquanto a corda onde se segura aguentar. Ele mantém-se firme e paciente. Ele é a metáfora do seu criador. Recebeu-me, com o seu ar bonacheirão por detrás dos óculos redondos e um sorriso ligeiro, no local encantado onde cristalizava o pretexto que fazia os petizes de outros tempos felizes. Havia cores garridas, madeiras lisas e vários objectos nascidos...
Não piscam, não usam pilhas, não trazem manual de instruções, não vêm em catálogos nem se encontram em hipermercados. São, assim, os brinquedos do tempo dos nossos avós: peças solitárias à espera de ganhar vida em mãos traquinas. António Fachina, artesão lamecense, troca as voltas à contemporaneidade e cria, em madeira, brinquedos de antigamente. Rui Manuel Ferreira Começou a dedicar-se ao artesanato em 2002, depois...
Desvio a cortina porque esta maldita insónia regressou. A escuridão começa a ser expulsa… A princípio, empurrada por uma neblina cor-de-rosa. Depois, sacrificada nesse duelo de espadas luminosas. E o rio que se espreguiça, no fundo do vale, é indiferente ao cheiro a rosmaninho que me chega ao parapeito. É como se ao correr lentamente, acariciasse as margens e o soltasse. Ao longe,...