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19.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXXIII




 Eram dez horas e vinte minutos da noite de sábado, véspera da Páscoa . Estendido no sofá da sua sala, com os braços debaixo da cabeça, Gonçalo recordava as emoções porque passara naqueles dois dias.

Tinha chegado à "Flor do campo" a quinta dos pais de Helena, na véspera faltavam quinze minutos para as onze. À entrada do largo portão, encontrara Matilde que se pusera a meio da estrada que o levaria até à casa uns duzentos metros mais à frente. 

Sem saber bem o que pensar, ele parara o carro e saíra. Por largos segundos que lhe pareceram uma eternidade, ficaram olhando um para o outro em silêncio, deixando que os olhos gritassem tudo o que lhes ia na alma. Depois ele pusera um joelho no chão, tornando o seu corpo de um metro e noventa e dois, mais acessível à altura da filha e abrira os braços.  Matilde correra a refugiar-se neles. 

A emoção que sentira fora tão grande, que só a muito custo conseguiu conter as lágrimas que acabaram correndo livres quando Matilde lhe segurara o rosto com as mãos trémulas e dissera:

- Pai, finalmente vieste. Meu Deus toda a minha vida desejei saber quem eras, onde estavas, porque não vinhas ver-me. Estar agora aqui nos teus braços, é a realização do meu maior sonho.

 A mãe contou do teu desastre, da perda de memória, e de que não sabias sequer que eu existia. Mas agora que já sabes, promete que nunca mais te esqueces de mim. Prometo que serei uma boa filha e que um dia ainda vais sentir orgulho de mim.

- Já sinto orgulho de ti minha filha, e juro que aconteça o que acontecer estarei sempre presente na tua vida, amando-te e protegendo-te. Agora limpa essas lágrimas, entra no carro e vamos até casa, está bem?

Estacionara no largo junto à casa um edifício de dois andares, no qual entrara pela mão de filha e  fora por ela apresentado aos tios, avós e primos. 

Ele gostara da família. Todos o receberam com aquela amabilidade típica das gentes do interior. Apenas Sérgio se mostrara menos simpático, mas ainda assim não inconveniente.

 Durante o almoço, o dono da casa, afirmou que estavam felizes com a sua presença, que gostariam de que passasse com eles aquelas festas da Páscoa.

 Ele agradecera, mas dissera que infelizmente teria de regressar no dia seguinte à tarde, pois estaria no serviço de urgência no hospital Domingo de Páscoa.

Depois do almoço, as mulheres foram para cozinha, Matilde recebera ordem de ir descansar, afinal havia apenas uma semana que sofrera a cirurgia e os primos Maurício e Mário foram para o quarto enfrentar-se num jogo virtual. 

Na sala ficaram apenas os três homens e Gonçalo pensara que era a hora de ter uma conversa séria com os outros dois, sobre quem ele era, as suas intenções de reconhecer e dar o seu nome à filha e o seu desejo de casar com a mãe. 

O destino o privara, por desconhecimento, de lhes dar aquilo a que tinham direito, mas agora que as descobrira, queria o mais rápido possível, recuperar o tempo perdido.  

Os dois mostraram-se satisfeitos com o que ouviram e os três apertaram as mãos num gesto de aceitação e apoio.

    


14.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXXI

 



A meio da tarde, Helena levou a filha ao centro médico do Fundão a fim de lhe mudarem o penso e verificarem se estava tudo bem, como o cirurgião recomendara Nuno recomendara no dia da alta.

Matilde insistira com a mãe para obter o número do pai, pois estava ansiosa para falar com ele, mas esta não lho dera, não só porque sabia que o pai estava no hospital até às dezasseis horas, mas também porque achava que seria preferível ela falar com o pai pessoalmente uma vez que ele não trabalharia no dia seguinte e iria ter com eles à quinta, a fim de conhecer a família dela e ter uma conversa séria com eles. E então sim os dois teriam tempo para estar juntos e ela dizer ao pai o que desejasse.

 Quando saíram do Centro médico, a garota disse estar com fome e a mãe decidiu que lanchariam ali mesmo na cidade e só depois iriam para a aldeia, onde teriam que jantar cedo pois às dez horas teriam que estar na igreja para o inicio das celebrações da Semana Santa nessa noite com a representação da Última Ceia que incluía a lavagem de pés dos membros da irmandade. 

Antes disso, Sérgio e Sofia, que não trabalhavam no dia seguinte por ser feriado, chegariam à quinta, onde já se encontravam os seus filhos, para passarem a Páscoa na casa paterna. Os pais de Sofia também viriam mas chegariam apenas no sábado pela hora do almoço. 

Entretanto também no dia seguinte chegariam à aldeia, Rita e o marido, bem como os pais de ambos que ali iam passar a Páscoa, pois o velho Alberto Santos, mais conhecido pelo Ti Alberto Ferreiro, avó da Rita, estava muito doente e a família queria estar com ele, pois receavam ser a última Páscoa, do idoso.

 Lena ainda não contara a Rita, tudo o que soubera de Gonçalo na véspera, apesar da grande amizade que as unia, pois era uma longa e complicada história que pensava não devia ser contada pelo telefone.

Enquanto Lena e a filha, regressavam à quinta, a primeira pensando no que o irmão e cunhada diriam, quando soubessem dos últimos acontecimentos, e a segunda sonhando com a visita do recém descoberto pai.

Mais tarde, todos reunidos à mesa para jantar, foi Sérgio quem após mais um comentário da sobrinha sobre o pai, perguntou:

- Que história é essa, Lena? Como é que Matilde diz que o pai vai chegar amanhã? 

-É uma história longa e complicada para contar agora, mas é verdade que encontrámos o Gonçalo. Foi ele quem atendeu a Matilde no hospital antes da cirurgia. 

- E assim sem mais nem menos disse-lhe que era o pai dela? - perguntou o irmão com ironia. Onde é que ele esteve estes anos todos? 

-Já te disse que é uma história longa e complicada que não vou poder contar agora. A vida, nos separou e ela nos juntou de novo. Ele pediu-me em casamento e quer dar o seu nome à filha. 

Estará aqui amanhã para  passar o dia com ela, conhecer-vos a todos e poderás fazer-lhe as perguntas que desejares. Tudo o que sei já contei à mãe.  E agradecia-te que não fizesses comentários sarcásticos sobre este assunto na frente da Matilde.

- A Lena tem razão, amor - disse Sofia. A tua irmã é uma mulher adulta e responsável, absolutamente capaz de saber discernir o que que sabe o que é melhor para as duas. E depois já viste como a Matilde está feliz? 





12.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXX





Nunca a semana da Páscoa foi vivida de forma tão intensa por Helena e pela sua família. 

Matilde estava nas nuvens por finalmente conhecer o pai e por ele ser um homem tão bonito e simpático. "avó, sabes que conheci o meu pai? E que ele quer casar e viver connosco? Nunca mais me vou sentir inveja das minhas amigas porque elas têm pai e mãe e eu não. É verdade,"- disse ao ver a cara de surpresa da avó, a quem Helena ainda nada tinha contado, pois fora imediatamente ao quarto da filha quando chegara.

-Ainda não contaste aos avós? - perguntou Matilde olhando a progenitora.

- Não, filha. Acabei de chegar. Agora porque não te levantas e vais dar um passeio com os teus primos? Depois temos que ir ao posto médico para ver esse penso. Lembras--te do que o doutor Nuno disse? 

Deu um beijo na filha e saiu do quarto acompanhada pela mãe que parecia ter perdido a fala de tão surpreendida que estava. 

Pouco depois, já na cozinha, Helena punha a mãe a par de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias, desde que Matilde tinha ido para o hospital e Gonçalo a vira até ao que ele lhe tinha contado no dia anterior.

- E agora, Helena? Decerto aceitaste o pedido de casamento do rapaz.

- Não. A mãe não compreende, ele não se lembra de mim, nem do que vivemos. Quer casar por uma noção de honra arreigada no seu espírito, relativamente à filha. Mas ele pode reconhecê-la, dar-lhe o seu nome e ser o pai dela sem que seja obrigado a um casamento sem amor. 

- Não entendo Lena. A Matilde viveu quase treze anos sem pai. E agora queres que ela viva essa alegria apenas pela metade, como se fosse filha dum casal divorciado?

-E que outra coisa posso fazer, mãe. Casar com um homem que me conheceu há dois dias, que nada sabe de quem sou, dos meus sonhos e desejos?

- Um homem que amaste ao ponto de te entregares a ele, e que terás continuado a amar estes anos todos apesar de pensares que ele era um cafageste. E não me venhas dizer que o esqueceste, porque se assim fosse terias casado há dez anos quando o Roberto Martins te pediu em casamento. 

O rapaz é jeitoso, tinha um bom emprego no banco, é filho de amigos nossos e até queria perfilhar a Matilde. Foram dois anos de muita insistência. E o que é que nos  dizias quando eu, a Rita e a Sofia te aconselhávamos a aceitares o  rapaz? Não serias capaz de aceitar um casamento sem amor. 

- E é por continuar a pensar assim que não posso aceitar este casamento, a mãe não entende? O que importa que eu continue a amá-lo se ele não me ama? Se para ele sou alguém que conheceu há oito dias?  A história de que alguém ama por dois é muito bonita para ser cantada, mas completamente irreal na vida.

- O que eu sei, é que vocês viveram uma intensa paixão e a tua filha é a maior prova disso.  Se a vida vos afastou na altura, talvez seja porque eram muito novos e talvez esse amor não tivesse futuro com ambos sem saberem bem o que queriam. 

E se o destino vos juntou de novo agora, por alguma razão foi. De resto, tu estás solteira, ele também, ambos já passaram a casa dos trinta, e o tempo não para. Se ele quer casar, casa-te e dá à tua filha a família com que sempre sonhou. É o que qualquer mãe faria.

-Talvez seja. Mas para além de ser mãe, eu sou mulher. E depois do que vivi naquele mês, não posso contentar-me com um casamento por dever.

- Às vezes penso que a minha neta encara a vida com muito mais realismo do que tu. Não sei a quem é que tu sais, nem eu nem o teu pai tivemos algum dia a cabeça cheia de sonhos como tu. E sabes que sempre fomos felizes juntos. Quantas vezes pensas que teu pai me disse que me ama? Cem, duzentas?

 Pois fica sabendo que mo disse uma única vez, antes de casarmos. E eu preciso que ele mo diga? Para quê se eu vejo o amor que me tem cada vez que me olha? E se em tudo o que faz, está patente esse amor? Eu sei que ele me ama de corpo e alma, e ele sabe que é retribuído da mesma forma.

Sabes que mais? Vai ver onde andam as crianças, o almoço está quase pronto, o teu pai não tarda está aí.  E pensa bem no que fazes, para não te arrependeres depois.     



28.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE XII

 


Cinco dias depois, na agência sem clientes à vista, Rita e Lena conversavam.

- O Inácio está doido de alegria, e os meus pais nem se fala. – dizia Rita passando a mão pela negra cabeleira.

--E tu não? – perguntou a amiga

-- Também estou feliz, claro que sim – disse sem muita convicção

- Mas não pareces muito entusiasmada. Que se passa? - perguntou Lena

- Depois de seis anos de tentativas infrutíferas, penso que já me tinha mentalizado que nunca engravidaria. E agora que o consegui, o medo não me deixa saborear a felicidade.

- Medo? De quê? – perguntou espantada, pois a amiga sempre fora a imagem personificada de uma mulher forte, com nervos de aço.

- Faltam-me poucos meses para fazer quarenta anos. E sabes o que se diz sobre ter o primeiro filho depois dos trinta e cinco.

- Por amor de Deus, Rita! Isso era antigamente. Hoje em dia, as mulheres trabalham fora de casa, têm as suas carreiras e são mães cada vez mais tarde. Por um lado, a ciência evoluiu muito, por outro o próprio corpo humano vai-se adaptando às novas condições.

Nesse momento o seu telemóvel deu sinal de mensagem, E Helena apressou-se a lê-la.

É da Matilde? - perguntou Rita.

-- É. Diz que chegaram bem, que já montaram as tendas, e que vai ter de desligar, pois só podem ter os telemóveis ligados de manhã e à noite.

-Pronto, já podes ficar calma. Há mais de seis anos que a Matilde está nos escuteiros e vai acampar três ou quatro vezes por ano, e tu ficas sempre nessa ansiedade. Nem sei porque a deixas ir.

- Penso que a vida nos escuteiros, é um aprendizado importante para ela. Mas isso não impede que nos dois, três dias em que está ausente, a preocupação e a saudade não tomem conta de mim. Quando fores mãe, saberás o que sinto.

- Talvez tenhas razão. Bom mudando de assunto, como vamos fechar a agência para a semana, vais passar a Páscoa à aldeia?

-Vou. Desde o Natal que não vejo os meus pais. Tenho muitas saudades deles. O meu irmão também vai. Conheces-nos, sabes como somos uma família unida. É verdade, sabes que a Sofia está outra vez grávida?

- O quê? – Mas o teu irmão não tinha dito que ficavam por ali quando o Mário nasceu?

-Segundo o meu irmão me disse, a Sofia queria tentar de novo a menina. E ele resolveu fazer—lhe a vontade. Espero que não venha outro rapaz.

- Mas porque esperaram tantos anos? O Maurício daqui a pouco já namora…

-Ainda só fez quinze anos! E o Mário fez há dias 12 doze. Estou desejando de os rever.

-A tua cunhada é uma mulher corajosa. Eu acho que no lugar dela não me atrevia a uma nova gravidez. Compreendo o desejo de uma menina, mas que hipóteses tem de que isso aconteça? E se vem outro menino?

- Seja menina ou menino toda a família, vai acolher o bebé com muito amor.

-Isso é certo. Mas ela vai passar um mau bocado. Não me consigo imaginar a conviver diariamente com um bebé, noites sem dormir ou mal dormidas e dias com um adolescente e um pré-adolescente. Dava em doida.

-A Sofia é uma mulher calma e paciente. Mas voltando à Páscoa. E vocês? Passam—na com os teus pais ou com os pais do Inácio?

-Estamos a pensar ir também para a aldeia.  Parece que o meu avô tem estado doente, e o pai quer passar com ele algum tempo. E nós também não o vemos desde que ele veio ao casamento há seis anos. Está velhinho e pode partir a qualquer altura. Por isso vamos todos, incluindo os meus sogros.

- E não se esqueçam de ir visitar os meus pais. Para além da amizade que liga os nossos pais, sabes que os meus te adoram, como se fosses parte da nossa família.

- Claro que iremos. Eu também os adoro.

 

23.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXVI




Nos dias que se seguiram, a vida entrou num ritmo novo. Aproximava-se as férias escolares por causa da Páscoa, e os aniversários das crianças. Bernardo faria cinco anos a doze de Março e Soraia, a vinte.Ou pelo menos era a data que constava nos documentos dela. Como a Páscoa era a vinte e cinco, as crianças não podiam festejar na escola, com os amiguinhos de turma, pois estariam de férias. Então resolveram fazer a festa na quinta e para isso, Clara, mandou fazer os convites que os meninos levariam para a escola e entregariam aos amigos. Nele se ofereceram para irem buscar e levar as crianças se os pais não pudessem levá-los à quinta. Era uma oportunidade das crianças passarem um dia diferente, até porque talvez a maioria nunca tivesse estado numa quinta.
As crianças deveriam devolver os convites assinados pelos pais, que diriam se os filhos iam ou não à festa, e se os levavam ou esperavam que os fossem buscar. Depois de obtida a resposta, era altura de começar a pensar em como  seria a festa. Nos enfeites da sala, nos doces, e na animação.
Também os filhos de Adelaide foram convidados, a passar as suas férias na quinta, e claro está, nas festas de anos dos dois irmãos.
Ricardo teve a ideia de contratar uma empresa de eventos infantis, que faria as duas festas, com temas escolhidos pelos meninos.
E assim no dia dos seus anos, Bernardo não cabia em si de contente. Ele nunca tinha tido uma festa assim. No ano anterior, Ricardo levara-os a passear, almoçaram num restaurante e depois foram ao cinema. Nada que se comparasse com a festa que ia ter naquele dia, com todos os seus amiguinhos.
A festa começou de manhã. Ricardo e Clara que agora já tinha o seu carro, dividiram-se para transportar as crianças para a quinta. Depois de um passeio por ela, onde puderam ver alguns dos animais e conhecer as diversas árvores de frutas no pomar, brincaram no pequeno parque, até à hora do almoço. 
De tarde a empresa montou uma tenda onde apresentou alguns números de ginástica e palhaços, com os quais as crianças deliraram. E depois do circo veio então o lanche, com o bolo e todas as guloseimas que eles tanto apreciam.
Uma semana mais tarde foi a festa de Soraia, mas em vez de circo as crianças assistiram a um espetáculo de marionetas.
Ainda antes da festa de Soraia, Ricardo terminou as suas férias e teve que se apresentar no quartel. Já tinha metido o requerimento para a sua passagem à disponibilidade na reserva, mas não sabia o tempo que levaria até saber se tinha sido deferido ou não.
Também por aqueles dias saíram as notas de Tiago, que tinha em todas as disciplinas a nota máxima.
Com toda esta azáfama, os dois quase não tinham tempo para pensar em si e no impasse em que estavam as suas vidas. Ricardo não voltara a falar de consumarem o casamento embora não raras vezes ela surpreendesse o seu olhar carregado de desejo preso nela.
E veio a Páscoa e a seguir o recomeço das aulas, e a vida dos habitantes da quinta voltou à normalidade.
A meio de Abril, Ricardo recebeu enfim a esperada notícia. O seu requerimento tinha sido deferido, provocando-lhe sentimentos contraditórios. Por um lado ficava agora livre para se dedicar à sua paixão pela escrita e publicar o seu livro. Por outro era o fim de toda a sua vida anterior, o adeus a companheiros que ao longo de muitos anos partilharam consigo tristezas alegrias e medos.
Era também o fim das suas saídas de casa que durante o dia, o mantinham afastado de Clara, do seu desejo por ela e da rejeição dela. Três dias depois do vinte e cinco de Abril, saiu à ordem a sua baixa e a notícia espalhou-se pelo quartel como relâmpago. E vários oficiais, amigos e companheiros, invadiram-lhe o gabinete para se despedirem. Emocionou-se.

2.4.18

PENSAMENTO DO DIA

Se tudo tiver corrido bem, hoje volto para casa. E esta noite já terei o meu pc. Espero que tenham tido uma Páscoa Feliz, e que tenham um excelente mês de Abril.

20.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXIV


Nos primeiros dias de Janeiro, a tia Délia sofreu um  ataque cardíaco, que foi a machadada final na sua frágil saúde. Faleceu no mesmo dia.
Sofia, desdobrou-se no apoio ao marido e ao tio, que estava inconsolável. O restaurante foi fechado durante uns dias, e quando reabriu, Sofia que continuava desempregada começou por dar uma ajuda, já que o tio não saía de casa e definhava dia a dia, mas acabou por assumir toda a parte de gerência do mesmo. Um mês depois, o tio não suportando mais a ausência da mulher que amara, partiu também. Foi mais um rude golpe para Quim. E mais uma vez a mulher esteve a seu lado como um pilar de apoio.
Foi nessa altura, depois do funeral do tio, depois da demonstração de um momento de fraqueza e vulnerabilidade de Quim, que eles se tornaram verdadeiramente um casal. Foi amor? Ela não sabia. Da parte dela, sim, conhecia os seus sentimentos, há muito tempo estava apaixonada pelo marido. Da parte dele, não sabia. Talvez não passasse da necessidade de mitigar a dor da perda daqueles que amara como pais. Talvez fosse um desejo instintivo, próprio de homem, por uma mulher jovem e bonita, que afinal até era sua esposa.
Ela não sabia. E para ser verdadeira consigo mesmo, nem lhe importava. Tinha vinte anos, viviam na mesma casa há mais de quatro meses. Certo que ele lhe tinha confessado amar outra mulher. Que lhe tinha pedido paciência. Mas ela reconhecia que não era muito paciente. Talvez mais tarde se arrependesse, mas naquele momento entregava-se de corpo e alma compensando com amor, a inexperiência que recorria do facto de ser virgem.

11.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXVII

                                  foto do Google

De Angola continuam a chegar cartas da filha. Trazem quase sempre fotos dela com a afilhada, mas não falam em filhos. Nem ele nem a mulher compreendem que gostando tanto de crianças, eles não tenham tido filhos nos cinco anos que estão a fazer de casados. Mas isso não é o pior. O pior conta-lhe a filha, na carta que recebe no início de Abril. Diz que o marido está farto de guerras e que meteu os papeis para abandonar a marinha no fim da comissão. Diz que já tem promessa de emprego em Luanda, que ela também está muito feliz com o emprego no Colégio Marista, e que pensam fixar residência em Luanda. Se a ele lhe custa, ter a filha tão longe, a mulher não para de chorar. 
Por esses dias, morre Georges Pompidou e  Marcelo vai ao funeral.
No dia 4 desse mês de Abril, as Brigadas Revolucionárias fazem explodir  uma bomba a bordo do navio Cunene, que se preparava para partir para África.
Três dias depois, Otelo Saraiva de Carvalho, envia pelo   major Carlos de Morais, o programa do MFA para Spínola, e este reúne com Costa Gomes.
Na altura, Manuel, como a maior parte do povo, trabalhador e pouco instruído, não sonha sequer que se aproxima a revolução. Mas ela está a ser "cozinhada" há muito tempo,  e está quase pronta para ser servida a um país ávido de mudança.
Na Semana Santa, a população branca, manifesta-se em Nampula, contra os padres italianos que acusam de ser aliados da Frelimo, e contra o bispo D. Manuel Vieira Pinto que vai regressar à metrópole.
No dia 13 de Abril, sábado de Aleluia, Spínola recebe o novo programa do MFA, já com as alterações por ele sugeridos ao primeiro.
No dia seguinte, Domingo de Páscoa, Spínola reúne com Costa Gomes, mas este não se mostra favorável a um levantamento militar no continente.
Dias depois, um comunicado da DGS anuncia a prisão de 15  pessoas relacionadas com a preparação do 1º de Maio. Informam que foram encontrados na sede do jornal "Notícias da Amadora" panfletos revolucionários. 
Manuel faz 56 anos no dia 20 de Abril, e no dia do seu aniversário, chega carta da filha. E dá conta de que o marido acabara de meter o requerimento para sair da marinha. Diz que virão à metrópole no fim da comissão, para apadrinhar o casamento da irmã, e voltarão para Luanda.